Sobre os sucessos aventureiros de um país
sui generis. Jaime Nogueira Pinto, como
sempre, certeiro e probo. Corajoso, também, na sua frontalidade plácida de
patriota, qual Fénix sobrevivendo entre as nossas cinzas.
O país onde os progressistas ganham
Num país em declínio mas avesso a
ondas de desgraça ou de grandeza a agradável promessa dos partidos do Centrão de
uma lenta e ordeira progressão para o abismo continua, por enquanto, a cativar
o povo
JAIME GAMA, Colunista do OBSERVADOR
OBSERVADOR, 04
fev 2022, 00:161
Em 7
de Outubro de 2019, Vincent
Bevins publicou
em The Atlantic um artigo intitulado “Where Progressives Are Winning”.” O texto começava por dizer que os progressistas
estavam a assistir, preocupados, à subida da Direita por toda a Europa, com o
rol de desgraças que uma “subida da Direita por toda a Europa podia arrastar.
Por
toda a Europa? Não. No extremo ocidental do Continente, Bevins descortinava,
com algum alívio e satisfação, um pequeno país onde os
progressistas resistiam ainda e sempre à nefasta onda invasora. Em Portugal, uma aparentemente desconjuntada engenhoca
que dava pelo nome “hard-to-translate” de Geringonça,
“which in Portuguese means an odd contraption that is very likely to fall
apart”, estancava a
tenebrosa marcha da Direita com um progressista “não passarão!”
Passados
dois anos e dois meses, em Dezembro último, eis que a admirável engenhoca
acabou mesmo por desfazer-se –e
sem que a Direita passasse. Numa hubris ideológica
de que talvez se tenham já arrependido, radicais de Esquerda, outrora novos mas
agora já de meia-idade, e velhos comunistas chumbaram o orçamento que o governo
de António Costa apresentou; e, em nome
da “estabilidade” ou de uma “frente de esquerda” contra a “ameaça direitista”,
o eleitorado sacrificou ao voto útil as (até então essenciais) partes
acessórias do mecanismo.
Como qualquer leitor de Carl Schmitt e o
comum dos mortais terá entendido, a Geringonça foi produto da rejeição do
Inimigo Principal – no caso, o governo de Passos Coelho. Rejeição que juntou em aliança contra-natura os filhos de Estaline, os
netos de Trotsky e o Partido Socialista mais americanófilo da Europa Ocidental.
Era uma Frente Popular de rosto humano para resistir ao “regresso da Direita e
da austeridade”.
Desfeita, em Dezembro, a Geringonça, e
como “em democracia há sempre soluções”, a solução foi ir a votos. Em tempo
de pandemia, houve, então, uma campanha eleitoral televisiva, com bastante
criatividade e emotividade e debates copiosamente explicados às massas
televidentes por isentos pivots, analistas e comentadores – não fosse
dar-se caso de o povo não estar a perceber bem a mensagem. Seguiu-se uma
modesta campanha aberta e, no Domingo, 30 de Janeiro, votou-se.
A divina vontade geral popular
Na Filosofia do Direito e do
Estado, Cabral de Moncada atribui ao espírito religioso de
Rousseau os contornos divinos ou mágicos do seu conceito de “vontade geral”,
uma espécie de vontade de Deus, do Deus infalível, infinitamente sábio e
poderoso, travestida em “vontade popular”. A
vontade da maioria era ou passava a ser sagrada.
O
corpo eleitoral, que entre nós são cerca de 9.300.000 cidadãos inscritos nos
cadernos eleitorais (dos quais não votaram ou votaram nulo ou branco mais de
4.000.000) terá, assim, agido como uma grande criatura que, por razões mais
profundas ou mais fúteis, mas sempre sábias, hierarquizou pelo voto os partidos
que constituem o leque da oferta eleitoral da Terceira República.
E
deu a vitória ao PS de António Costa, em
que votaram, até agora (ainda sem os círculos da emigração), mais de 2.200.000 cidadãos, cerca de 42% do corpo eleitoral. Pelas regras
constitucionais e leis eleitorais, o PS obteve a maioria absoluta, com 117
deputados; a seguir, com cerca de 28% dos votos (perto de 1.500.000 de
eleitores), ficou o PSD, com 71 deputados. Quem tivesse visto as cada vez
mais intrigantes e maleáveis sondagens nas duas semanas anteriores às eleições
e feito apostas com base nelas, enganava-se e desgraçava-se. Num despique
tipo sprint para a meta final, os dois competidores eram dados
como praticamente empatados.
Dos
votos úteis dos muitos cidadãos induzidos a votar útil pelo frenesi da corrida,
foram mais úteis os que se concentraram no PS, para que “a direita não
passasse” ou para que
reinasse “a estabilidade”. Mas é de
admitir que os partidos à direita do PSD também tenham sofrido com isso alguma
erosão – apesar da oscilação do candidato social-democrata entre os
apelos unilaterais a um hipotético Centrão e as ténues convocações de uma
direita a que dizia nem sequer pertencer. Tanto
que recusara à
partida a receita ADque,
apesar de tudo, resultara em Lisboa e que poderia ter impedido a vitória
socialista e mudado a triste sorte dos democrata-cristãos.
A felicidade estável do Centrão
Repetindo o que já é um lugar-comum
analítico, mais do que uma vitória do PS e da sua mais ou menos vaga ideologia
sobre o PSD e a sua ainda mais vaga ideologia,a vitória de Domingo foi uma vitória de António
Costa sobre Rui Rio. Num país em
inexorável declínio político, económico e social mas avesso a ondas de desgraça
ou de grandeza, os partidos do Centrão proporcionam a agradável promessa de
que, com eles, as más notícias e a tragédia estarão adiadas, podendo a morna
normalidade seguir em frente, mas em progressão lenta, para um mais ou menos
longínquo abismo.
Portugal viveu toda a História do
século XX em ciclo e contraciclo com a Europa: a violência
esquerdista do primeiro quartel do século, com os assassinatos de D. Carlos e
Sidónio Pais e a “balbúrdia sanguinolenta” dos Democráticos gerou e justificou
a reacção da Ditadura Militar e do Estado Novo. Depois, a
política de neutralidade na Segunda Guerra e a introdução autoritária dos
brandos costumes, numa sociedade que, no século XIX e até aos anos trinta, fora
de costumes mais bravos, moldou as classes altas, médias e baixas à veneração
pacata da “autoridade”.
A
Guerra de África dividiu a geração que foi chamada a fazê-la:a maioria fê-la por obrigação, uma minoria por
convicção e outra minoria recusou-a. Destas
duas minorias, nasceram as últimas gerações políticas ao modo amigo-inimigo. A
Esquerda venceu em 1974-75 e a guerra e o Império acabaram atabalhoadamente. A
reacção popular e o “Ocidente” contiveram os excessos da Esquerda no 25 de
Novembro de 75 e, em 1976, deixámos para trás as grandezas e as tragédias da
História e entrámos na normalidade das periferias obscuras.
O Partido Socialista e o Partido
Social Democrata são as duas faces desta acalmia nacional. Depois dos anos de “exótico” autoritarismo, e da
guerra por um Império em contraciclo com “o resto do mundo”, depois dos grandes
medos da burguesia perante o excêntrico PREC e os seus românticos devaneios e
excessos terceiro-mundistas, também em contraciclo com “o Ocidente”, o país
acolheu-se à mediocridade pacífica do Centrão, equidistante de tentações
autoritárias à direita e à esquerda.De Mário Soares e António Guterres a Francisco Sá
Carneiro e Aníbal Cavaco Silva, as regras do jogo do rotativismo funcionaram e
foram servindo para gerir e adormecer uma nação antiga, na periferia da
História, satisfeita com os fundos europeus e contente por a deixarem sossegada.
O Centrão revisitado
É
outra vez em contraciclo que aqui se reafirma um Centrão enviesado à esquerda.António Costa, mais do que o PS, foi o artista e o
artífice da presente vitória. Conseguiu fazer esquecer os efeitos mais pesados
do novo “mal português”, que se agravaram com a Geringonça, e fazer com que a
“vontade geral” rousseauniana, ajudada pela fragmentação partidária e o método de
Hondt, lhe desse uma maioria absoluta, reforçando a sua fatia do Centrão com os
votos das esquerdas radicais assustadas com o “regresso do fascismo”, desta vez
encabeçado pelo tenebroso Dr. Rui Rio.
A
outra fracção do Centrão, o PSD, não
parece que vá conseguir, à sua direita, a mesma marginalização da concorrência
que, para já, o PS conseguiu à esquerda. Essa concorrência à direita
está agora no Chega e na IL, que são novos e diferentes (não sabemos o que
acontecerá ao CDS).O Chega tem princípios e características de
nacionalismo popular e identitário; a IL tem por bandeira o liberalismo, com os
vários produtos económicos, sociais, morais e de costumes viabilizados por leis
permissivas de modo a que possam estar disponíveis no mercado, sem outras limitações
que não o “caos criativo” da livre oferta e do livre consumo. O Chega aproxima-se das correntes europeias à
direita e da Direita; a IL dos centristas liberais alemães.
Aqui, onde os progressistas
ainda ganham
Aqui, onde os
progressistas ainda ganham,com quatro anos de governo socialista pela frente – e o
previsível reforço compensatório do “magistério de influência” das esquerdas
radicais preteridas pelo voto na academia, na comunicação social, nos
observatórios e nos sindicatos – a direita não-resignada não vai ter sossego. Mas, independentemente dos partidos e da sua sorte,
vai ter tempo para pensar, fundamentar e estruturar alternativas próprias,
inspiradas e revigoradas pelos “ventos da História” que agora sopram na Europa
e no Ocidente.
josé maria: Num país em declínio Olhe para o declínio, JNP: O relatório da Organização
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conhecidas no início do mês e as previsões do Governo: Portugal vai ser o país da OCDE com
a maior taxa de crescimento económico no próximo ano.Jornal Económico, 10/12/2021A política "criativa"
de direita anda pela rua da amargura...