De intenção
crítica pré-eleitoral, talvez, por via dos candidatos em competição – Seguro
e Ventura. Deduzo que se reporte mais a Ventura, como ovelha ronhosa, desenvolta embora, nesse tal
pânico do surgimento de um possível novo fascismo, qualquer um dos candidatos a
PR, podendo, afinal, figurar na lista, Ventura, por irrequietude balofa, Seguro, por fragilidade ideológica e mesmo, aparentemente,
temperamental. O Pastor Tiago, contudo, não parece assustado com a hipótese, na
sua alegre ironia, que aproveita antes, o pretexto, para atacar o ateísmo,
reservando-se o ponto de vista de seriedade orientadora da opinião pública.
O pânico satânico da chegada do fascismo
As pessoas não-religiosas
vivem no mundo Ocidental a ansiedade apocalíptica de um modo mais público do
que as religiosas. Como? No exercício constante de se detectarem Anticristos,
de forma política.
TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO Pastor Baptista, colunista do
Observador
OBSERVADOR, 01 fev. 2026, 00:1620
Hoje as pessoas sem fé estão a viver a possível chegada do fascismo com
mais pânico do que eu, evangélico intenso, vigio a chegada do Anticristo. Sem
dúvida que os tempos são interessantes. Como Alec Ryrie escreveu: vivemos
mesmo na Era de Hitler (mencionei o livro dele aqui há uns meses). O Ocidente como um todo pode ter-se secularizado a
ponto de deixar de acreditar no Diabo, mas o fantasma do Führer está mais
encarnado do que nunca.
Vamos por partes para comparar as tradicionais expectativas apocalípticas
do cristianismo com a alternativa secularizada que surge quando ele foi
abandonado. Para os cristãos, a Segunda Vinda de Jesus
funciona também como um exame porque é suposto ele separar quem lhe pertence de
quem não lhe pertence. A esse momento chamamos o Dia do Juízo Final. De um lado ficarão as ovelhas, do outro os
bodes: os primeiros nos novos céus e
na nova terra, os últimos no Inferno. Assim, muito simplificadamente, é
como funciona.
Mais ainda: de acordo com grande
parte da interpretação clássica, o cristão ainda antes da Segunda Vinda deve dispor-se
a um tipo de pré-exame que é resistir ao Anticristo. O Anticristo vem antes de Cristo aldrabar
as pessoas para julgarem que o Messias é ele. A marca da besta funciona como a prova de quem foi enganado e aceitou
a versão de contrabando no lugar da original.
Novamente simplificando muito,
isto significa que temos dois exames: o primeiro é denunciarmos o Anticristo para não o
tomarmos como o Messias, e o segundo é, por conta da nossa resistência fiel ao
impostor, sermos reconhecidos por Cristo. O primeiro exame é a
preparação do segundo que é o Dia do Juízo Final. No fundo, a pessoa que acredita no Dia do
Juízo tem de andar preparada diariamente para saber reconhecer já hoje
possíveis Anticristos.
E é aqui que podemos notar que esta ansiedade não é exclusiva dos cristãos
ou de outros religiosos. Hoje até as pessoas não-religiosas vivem em ansiedade
apocalíptica. Talvez dê até para dizer que as pessoas não-religiosas vivem no mundo
Ocidental esta ansiedade apocalíptica de um modo mais público do que as
religiosas. Como? No exercício constante de se detectarem
Anticristos, ainda que não de forma religiosa mas sobretudo política.
E é aqui que
se estabelece um paralelo entre o universo religioso e o político. Eric Voegelin escreveu na década de 30 do
século passado que fascismo, nazismo e comunismo eram sistemas que substituíam
a religião na sua necessidade de um projecto para o fim dos tempos: ideologias
puramente escatológicas (do grego eschaton). De outro modo, Hannah
Arendt mencionava como uma sociedade secularizada lidava com o fascismo com um
medo até então reservado ao mal cósmico e espiritual. Ou seja, os grandes vigores ideológicos do Século XX, da esquerda à
direita, usavam os moldes apocalípticos da religião cristã.
Já Theodor Adorno apresenta na “Dialéctica do Iluminismo” o fascismo como uma ameaça permanente ao ponto de que
o cidadão dever permanecer vigilante. O perigo maior não é ele surgir de cornos na cabeça, cauda comprida
e tridente na mão; é surgir apetecível, razoável e com soluções para os nossos
problemas. Adorno
enfatizava: “a prioridade na educação é que Auschwitz nunca mais aconteça”. A insistência em vigiarmos
constantemente o regresso do fascismo não é assim tão simbolicamente diferente
do papel que o Anticristo ocupa na escatologia cristã.
Dá-se, portanto, o inesperado:
sobretudo entre os mais burgueses e estudados surge um sobressalto que não me
parece apelar menos ao pânico do que a literatura evangélica mais
sensacionalista fazia com adolescentes crentes impressionáveis como eu nos anos
oitenta. Hoje os meus companheiros descrentes estão mais certos
da chegada iminente do fascismo do que eu do Anticristo. De repente, viro eu, o
fanático religioso, o céptico.
Há mais neste satanic panic: se há trinta anos os evangélicos descobriam o número da besta em
códigos de barras, a elite secularizada exige agora sacramentos visíveis a quem
não se dobrará à adoração do Anticristo fascista. Quem não reconhecer que está diante do Armagedão é impuro. Vivemos
já em pleno pré-exame do Juízo Final em que se separam ovelhas de bodes.
O problema é que o Diabo está
sempre nos detalhes. Sim,
os cristãos vigiam para que o Anticristo não lhes dê a volta. Mas em último
grau quem separará os bons dos maus terá de ser o examinador final: não serão
os cristãos que o farão mas o próprio Messias regressado. Os novos anti-fascistas querem tomar nas mãos a tarefa
divina. Quem diria que em 2026 eu, o velho fanático
evangélico, poderia tornar-me na pior espécie de bode, pasto alegadamente tenro
para o reino do Anticristo fascista? Espero que não mas nunca se sabe.
Consola-me saber que no Juízo Final terei outro examinador.
POLÍTICA CRÓNICA OBSERVADOR CULTURA
COMENTÁRIOS (de 20)
Maria Correia: ahahahah! Esta de hoje está maravilhosa! : «Hoje
as pessoas sem fé estão a viver a possível chegada do fascismo com mais pânico
do que eu, evangélico intenso, vigio a chegada do Anticristo.» Para emoldurar. Parabéns.
Manuel Filipe Correia de Araújo: "A Maçonaria em Acção há Muito Tempo!" Membros de Várias Obediências Maçónicas em
Portugal promoveram um Almoço, em Cascais, no dia 14 de Dezembro de 2024, com o
Antigo Secretário-Geral Socialista António José Seguro, apontado então
como Candidato a Presidente da República! António José Seguro assumiu então em entrevista à TVI/CNN estar a ponderar
uma Candidatura a Presidente da República, referindo que “está tudo em aberto”
em relação a esse cenário. António
José Seguro afirmou que, depois de o Secretário-Geral do Partido Socialista,
Pedro Nuno Santos, o ter colocado entre os possíveis Presidenciáveis a apoiar
pelos Socialistas, várias Pessoas contactaram-no para o Incentivar a entrar na
Corrida a Belém. António
José Seguro, que liderou o PS entre 2011 e 2014, sucedendo no Cargo de
Secretário-Geral a José Sócrates, passou a ter, a partir de 2 de Janeiro de
2025, um Espaço de Análise e Comentário, sobre a actualidade na CNN Portugal,
com o nome “Liberdade”......!!!!!! Agora, na Segunda Volta das Eleições para Presidente da República
constata-se uma Estranha Coalizão de Comunistas, Bloquistas, Animalistas,
Marxistas, Leninistas, Estalinistas, Trotskistas, Libertários, Socialistas
Radicais e Outros que Tais, com "Idiotas Úteis" da AD e "Idiotas
Inúteis" da Iniciativa Liberal.......Todos Juntinhos a Votarem no TóZé
Seguro, vulgo "Poucachinho" como foi Crismado pelo seu Camarada António Costa, actual Presidente
do Conselho Europeu.....!!!!!!
ana rita: Esta crónica vai direitinha para a podre
procissão que apoia Seguro. Do PSD
ao PCP todos dizem: “quem não reconhecer que André Ventura é o Apocalipse é
impuro.”
Rosa Silvestre: Ainda não percebi se o eleitor comum, sente
mesmo receio nas campanhas do medo protagonizadas pelo PS e compagnons de route ou se
alinham conscientemente na estratégia.
Uiros Ueramos: Mais um colunista a começar com o insulto, isto
não pára… Mas como é padre, vou rebater, o seu erro é de confusão de planos. A escatologia cristã pertence
ao domínio da fé e da transcendência; o fascismo pertence ao domínio da
história, da política e das instituições do início do seculo XX. O Anticristo é
uma figura teológica; o fascismo é um fenómeno histórico concreto, com práticas
identificáveis e consequências verificáveis, mas que desapareceram há dezenas
de anos. Aconselho
o padre a preocupar-se mais com os seus adversários teológicos, eles serão a
maioria dentro de 10 a 20 anos na Europa, e você irá passar para a
clandestinidade se tiver sorte.
Francisco Almeida > ana rita: Não achei. Pareceu-me mais a ridicularizar os que demonizam Ventura. Mas
foi a minha leitura, não imponho como certa. Agora o que é certo é que não foi do PSD ao PCP mas do CDS ao PCP. Chicão,
Assunção Cristas, Portas, Ribeiro e Castro e até Cecília Meireles.
Pertinaz: Vc é pastor satânico…???
Maria Correia: Quem diria que em 2026 eu, o velho fanático
evangélico, poderia tornar-me na pior espécie de bode, pasto alegadamente tenro
para o reino do Anticristo fascista? Espero que não, mas nunca se sabe.
Consola-me saber que no Juízo Final terei outro examinador. Final magnífico. Acho que é a primeira crónica
do Tiago de que gosto. Porque está clarividente, muito subtil e bem escrita. Pois
o antídoto será mais ou menos um mandamento de Moisés contra a idolatria.
Porque quando a idolatria laica aparece, vem com trombetas mediáticas de tal
ordem que aglomera e cria o bando dos puros.
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