Foi
JOÃO DE DEUS que o escreveu, mas de brincadeira, a respeito do dia de anos, O pedido de hoje, contido
no excelente texto de PATRÍCIA FERNANDES, é sério, porque sobre o flagelo do
nosso tempo: “drogas”, trazido
impunemente para a sociedade. Horror e tristeza, tal evolução social negativa a
que os governos parecem indiferentes, assim como a imprensa…! E dos tribunais
nem se fala!
Como
será no futuro, se não se puser cobro a tais desmandos?!
Já podemos falar sobre o
problema das drogas?
Não vale a pena despejar dinheiro para o
problema se a questão cultural não for combatida e se não recuperarmos a
capacidade de distinguir o certo do errado.
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da
Universidade do Minho
OBSERVADOR, 23 mar. 2026, 00:2225
1Pensar a metapolítica
Já que temos vindo a falar de
responsabilidade pelos mais novos, será que podemos, finalmente, falar sobre o
problema das drogas? Durante
muitos anos em Portugal isso não foi possível. Em virtude do sucesso da
política de drogas que o país adoptou no início do novo milénio, e que tem sido
referido como exemplo para o resto do mundo, tornou-se praticamente impossível
chamar a atenção para o perigo de relaxarmos a nossa atitude em relação às
substâncias psicoactivas e de importar a moda progressista de banalização do
seu consumo.
Afinal, Portugal tinha encontrado a
solução final – perfeita – e, por isso, era descabido ter interpretações
diferentes sobre a solução ou introduzir preocupações sobre o tema.
O problema das drogas permite-nos,
aliás, compreender como a análise política pode ser realizada a partir de
perspectivas distintas. Por um lado, podemos concentrar-nos na dimensão
económica de alocação de recursos e financiamento para os objectivos
pretendidos e avaliar se as nossas medidas estão a produzir os efeitos desejados.
Por
outro lado, podemos
alargar a nossa análise e fazer um exercício de “metapolítica”, colocando-nos
ao nível do enquadramento cultural em que essas medidas são aplicadas – o que,
em língua inglesa, se designa como “cultural
politics”.
A maioria das análises é feita a
partir daquela primeira perspectiva e é apropriada quando as condições sociais
e culturais não se alteram de forma significativa. Porém, quando essa mudança acontece, a
capacidade de análise fica afectada e, apesar de o problema dever ser agora
analisado a partir de uma perspectiva metapolítica, o analista continua a usar
as mesmas ferramentas e essas ferramentas levam-no sempre à mesma conclusão:
trata-se de uma questão de recursos pelo que o estado devia aumentar o
financiamento e “despejar dinheiro em cima do problema”.
Na verdade, e em momentos de
aceleração como os que vivemos hoje, o
facto de algumas políticas terem deixado de funcionar pode resultar de uma
alteração do quadro social ou cultural que deu forma às políticas iniciais. E muitos dos temas atuais devem ser
vistos a partir desta alteração estrutural: seria,
então, uma questão de repensar as políticas a partir do novo contexto social ou
cultural e não uma questão de deitar mais dinheiro para cima do problema.
É este esforço de
metapolítica que procuramos fazer todas as semanas e que consiste em tentar
responder às seguintes perguntas: por que razão pensamos como pensamos e em que medida
esse pensar determina as medidas políticas que adoptamos?
2Para lá do dinheiro do Estado
A maioria dos temas políticos
mais difíceis dos nossos dias são difíceis precisamente porque uma mera análise das condições materiais
não é suficiente: exigem uma análise metapolítica. É o que acontece com
imigração, sem-abrigos, habitação e a maioria dos temas de bioética,
como o aborto e a eutanásia. E é especialmente evidente no tema da saúde.
A crise na prestação estatal de cuidados de saúde é um tema,
naturalmente, complexo e que que tem recebido muitas propostas de solução no
patamar dos recursos. Mas a análise metapolítica pode
contribuir para esta discussão, e para os futuros pactos para a saúde,
recolocando o problema numa perspetiva mais ampla.
É que a alteração cultural que se verificou nas últimas décadas
impossibilita que o problema possa ser resolvido simplesmente pedindo mais
dinheiros públicos. A verdade é que vivemos hoje num
paradigma de ânsia generalizada por vivermos mais tempo e, preferencialmente,
sem dor nem doença – um
paradigma gerado pelos incríveis avanços científicos que foram conseguidos
nesta área.
Mas ter uma “saúde perfeita”
exige e exigirá sempre cada vez mais recursos (o podcast Consulta Aberta é
disso um excelente exemplo). Assim,
de que resolverá despejar mais dinheiro no Serviço Nacional de Saúde se
queremos cada vez mais serviços e mais complexos, desde procriação medicamente
assistida a bebés de três pessoas, medicamentos devidamente comparticipados
para resolver todos os problemas e disponibilização de todo o tipo de novas
tecnologias para toda a gente?
Não é só um problema de financiamento – é também porque vivemos numa cultura de
“biofelicidade”, como diz Cathy Bernheim, que
nos faz querer sempre mais. E
neste novo paradigma, as políticas públicas de saúde criadas na década de 1970
já não resultam.
Com as drogas passa-se algo de
semelhante. Num determinado contexto social e cultural, criou-se uma política
pública que deu bons resultados. Hoje essa política parece estar a
falhar, como assinala João Goulão, e repetidamente ouvimos o
mantra da falta de recursos e financiamento. Mas será que é apenas um problema
de recursos?
3Uma cultura de excessos
Tive a felicidade de nascer
na década de 1980, o que significa que conhecia, como toda a gente, casos de toxicodependência. Casos terríveis de jovens que se tinham
tornado dependentes de drogas pesadas e que, antes de se dedicarem a roubar, a
furtar ou a pedir, já tinham usado todos os recursos dos pais, esvaziado o
conteúdo das suas casas, destruído as suas famílias. Era um
problema social e não só pessoal: preocupava a comunidade e, por isso, se
sentia mais compaixão do que desprezo por aqueles que tinham caído no vício,
como se dizia então.
E quem cresceu nesses tempos,
beneficiou de uma vacina natural: sabíamos que as drogas eram perigosas,
continham a possibilidade de vidas destruídas e isso funcionou para uma geração
como uma espécie de antídoto natural. Não queríamos ser nós a passar por
aquilo, não queríamos ser nós a provocar aquela dor e destruir a nossa família
e, por isso, não era normal consumir drogas, nem sequer as mais leves…
Para além disso, e como Maria Flor Pedroso recordou, num episódio recente
do Radicais Livres,
éramos recordados frequentemente de
tudo isto por campanhas antidroga.
As medidas que foram aprovadas no final do século em Portugal reflectiam
essa reflexão social e a sua dimensão comunitária – e é por isso que
dificilmente conseguem ser replicadas noutros países (basta
ver como a recente despenalização em Oregon teve
de ser rapidamente revertida em resultado
do caos que gerou). A importância
da família e a existência de comunidades fortes permitiram que estas normas funcionassem
entre nós: Portugal, ao contrário de muitos outros países, dispunha então dessa
estrutura social.
Contudo, ao longo das últimas duas
décadas, tudo isso desapareceu. Não só o efeito de antídoto
natural se esvaziou com as novas gerações (como sempre acontece), como o discurso público se foi infiltrando pela ideia muito
liberal e progressista de que o consumo de drogas é natural e bom: permite-nos
relaxar, divertir e até ser mais
inventivos e originais (embora, como disse Álvaro de Campos, “Cem mil cérebros se concebem em sonho
génios como eu, / E a história não marcará, quem sabe?, nem um”). Para quê reprimir, para quê julgar, para quê
dizer não, se a vida deve ser divertida?
O
resultado está à vista, e agravado pela popularização das drogas sintéticas.
Entre nós, o consumo de drogas para fins
recreativos encontra-se normalizado na geração que nasceu no final do século e
em várias classes profissionais e sociais (embora nenhuma me escandalize tanto
como o consumo frequente por jovens médicos).
Mas, contra aquilo que um professor de criminologia nos ensinou no último ano
de um longínquo curso de Direito, as
drogas leves não são leves, são drogas e os impactos do consumo de canábis
estão hoje muito estudados, como notam os psiquiatras Henrique
Prata Ribeiro e Gustavo
Jesus. Defender que se trata de uma droga leve prejudica
aqueles que deviam receber dos mais velhos orientação.
Quem
analisa as razões que têm conduzido ao actual fracasso das políticas do início
do século não deve esquecer, portanto, a dimensão metapolítica: não vale a pena despejar dinheiro para o
problema se a questão cultural não for combatida
e se não recuperarmos a capacidade de distinguir o certo do errado. E isso
significa sermos responsáveis pelos mais novos e claros quanto ao que é
aceitável no espaço público.
COMENTÁRIOS
Novo
Assinante: Muito bom. Lembro-me muito bem da Cathy
Bernheim. Andei com ela na tropa era muito boa pessoa e muito bem comportada.
Pelo contrário, o João Goulão era um trafulha quando estávamos a jogar copas,
mas também me lembro que a companheira Fernanda fazia uns pastéis de bacalhau
com arroz do mesmo muito saborosos. O fenómeno do Oregon State Law Case aprendi
no terceiro ano de escolaridade quando tinha nove anos, não foi durante a
tropa. João Floriano: Se despejar dinheiro sobre a praga das drogas
fosse a solução, então as famílias com recursos estariam livres do flagelo e da
destruição que provoca porque bastaria resolver o problema com dinheiro. Mas o
problema coloca-se sobretudo ao nível dos valores, do facilitismo e da
destruição da família e do que está à sua volta. Os jovens e aqueles que não o
sendo se eternizam numa adolescência irritante, sem fim , onde o amadurecimento
não chega, adoram o facilitismo, o prazer imediato e resistir a drogas e outros
vícios requer sacrifícios, muita disciplina, força de vontade, tudo coisas que
eles não praticam ou não praticaram dado o facilitismo que sempre os
acompanhou, o desprezo pela disciplina, pelos pais caretas que lhes pregam
sermões sobre os charros que até são inocentes. Geralmente começa-se pelo cigarro,
pelo charro e daí se faz o percurso para as outras drogas até chegar ao inferno
das sintéticas. Pensemos em Amsterdão, uma cidade tradicionalmente amiga e
permissiva de drogas leves em particular a cannabis. Um amanhecer na Praça Dam
mostrava um cenário desolador de lixo, imundicie, dejectos, urina. Estive em
Amsterdão em 2024 e estava em curso uma campanha para recuperar a cidade da
cannabis. Anos atrás Zurique, vá-se lá saber os motivos, mas talvez devido a
algum político iluminado, resolveu ser condescendente com as drogas. A
experiência foi sol de pouca dura porque as principais ruas de Zurique ficaram
praticamente destruidas, lojas fechadas e com gente de toda a espécie,
jovens e não só, deitados nos passeios. De um modo geral a Europa, Portugal
incluido, é muito tolerante com o consumidor e com o pequeno traficante. E a
droga é muito lucrativa para quem vende e destrutiva para quem consome. E não é
apenas a estrutura familiar que fica abalada e muitas vezes desfeita pelo vício
de um dos seus membros. Todos conhecemos vários casos. Em última instância é a
própria Europa que fica abalada, fragilizada, desmoralizada. Paulo
Cardoso: Tenho para
comigo, admitindo poder encontrar-me errado, que o combate à situação instalada
e ao seu antecipavel agravamento, terá obrigatoriamente de retomar a penalização
e criminalização do consumo. A pena, numa primeira detenção, passaria por uma
desintoxicação ou, caso não fosse necessária, uma ação de formação preventiva,
com a mesma duração e no mesmo regime dos programas de desintoxicação. À
primeira reincidência, pena de prisão efetiva, sem mordomias, e prestação de
serviço obrigatório à comunidade, sem qualquer remuneração. Quanto mais não
fora, acabava com o artifício do traficante, na posse da quantidade que tão bem
sabe qual é, poder alegar que é para consumo próprio. O combate ao narco
tráfico, de tão enraizado que está, já só lá vai com o regresso à penalização
do consumo. Agir a montante apenas, já não dá conta do recado. Há que atuar
também a jusante. Francisco
Almeida:
O filme "Os Incorruptíveis Contra a Droga" ilustra bem o problema
da "guerra" contra a droga. Encarada apenas pelo lado da oferta os
meios necessários para a sua erradicação seriam incompatíveis com um Estado de
direito e democrático. Trump está a repetir esse erro a nível internacional, combater a oferta sem
limitar a procura. Há muito que estou convencido que, sendo a droga impossível
de eliminar totalmente, o combate para a conter em níveis reduzidos, tem de ser
dirigido também à procura, ilegalizando sempre e criminalizando por vezes. Como titula a profª Patrícia
Fernandes, já se poderá falar sobre o problema das drogas mas, em Portugal,
estamos ainda longe de o poder combater com eficácia, sequer, de mudar o
paradigma. Salas de chuto para que a sociedade não tenha de se sentir
incomodada com a visão da degradação e substituição de seringas, pelo mesmo
motivo.
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