quarta-feira, 22 de abril de 2026

“O mundo pula e avança”

 

Mas nãocomo bola colorida entre as mãos duma criançacomo disse o nosso GEDEÃO. Com efeito, as crianças que hoje vemos, através da televisão, não têm bolas nas suas mãos e sequer coloridas. Vemo-las desgarradas, solitárias, nas ruas desse Oriente em guerra, e o pânico acode-nos. E a raiva inútil. O mundo vai mudar, está visto, como sempre, uns ganham e outros perdem, nesta coisa das guerras. E mesmo na paz, há sempre esses confrontos que se leram, aliás, já nos livros, desde a infância, com a própria Condessa de Ségur, que apontava os contrastes dos viveres e dos teres, e tantos mais escritores já da nossa idade adulta, alguns bem chocantes na reprodução das aparências e dos comportamentos das suas personagens, em tradução das reais. Mas a televisão trouxe proximidade na visualização e daí que tanto nos choquem as imagens das crianças – sendo que igualmente as dos adultos – desses espaços ainda distantes, não sabemos até quando. Mas que trarão, provavelmente, nova ordem na Terra, que o HOMEM vai transformando, “impávido e sereno”, como temos o costume de referir, no escrúpulo corriqueiro das definições.

O que já nos deu a guerra com o Irão?

O conflito com o Irão reúne condições para ser um separador histórico com alterações profundas na geografia política do mundo.

HELENA GARRIDO Colunista

OBSERVADOR, 21 abr. 2026, 00:25

O conflito com o Irão já nos deu menos crescimento e mais inflação, desestabilizou os países do Golfo, agravou as tensões entre os Estados Unidos e os seus aliados europeus e reforçou o poder político e económico da China. O mundo depois do Irão, dependendo criticamente da forma como os EUA saírem do conflito, envolve já o sério risco de decadência do designado “império americano”, com a hipótese de entrarmos num mundo multipolar ou com a polaridade centrada na China. Médio Oriente, com o pior cenário no caso de nem se conseguir dar ao Irão um novo regime.

As previsões do FMI, no seu exercício da Primavera já nos vieram dizer que as projecções antes do conflito apontavam para um crescimento da economia global de 3,4%. Agora, no seu cenário central, que pressupõe que a guerra com o Irão será de curta duração, temos uma perspetiva de crescer 3,1%, um abrandamento modesto. Qual a probabilidade deste cenário se verificar? Não sabemos. Economistas como Paul Krugman são mais pessimistas e o FMI tem um “cenário severo” em que aponta para uma recessão global, caso o petróleo se fique em média nos 110 dólares por barril e o gás aumente 200%.

Na realidade, neste momento ninguém consegue antecipar quais os danos que este choque já está a provocar na economia e muito menos os que se podem desenhar se o conflito se prolongar e o estreito de Ormuz se mantiver encerrado. O que podemos já dar como certo é que o mundo vai crescer menos e todos vamos sentir os efeitos dos preços mais elevados, mesmo os que são produtores de petróleo como é o caso dos Estados Unidos.

Mas a curto prazo, além da subida dos preços dos combustíveis, podemos enfrentar problemas de racionamento nomeadamente de jet fuel, o combustível dos aviões. O director executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Berolafirmou a semana passada que na Europa temos apenas seis semanas de jet fuel. Fazendo as contas isto significa que em finais de Maio deixará de haver jet fuel. A perspetiva de escassez levou já ao cancelamento de voos por parte, nomeadamente, da Lufthansa e da Air France/KLM, duas companhias que estão a concorrer à compra da TAP.

São simples as contas que estão a ser feitas e que incluem basicamente todos os produtos que vêm daquela região, entre eles o petróleo e combustíveis mas também gás e fertilizantes. Os últimos petroleiros que passaram pelo estreito de Ormuz chegaram aos seus destinos asiáticos em meados de Abril e, dependendo da rota, em Maio atingem a Europa. A partir daí é como se existisse um oleoduto ou gasoduto interrompido.

Os países asiáticos começaram cedo a prevenir-se, com medidas de contenção da procura. Na União Europeia cada um foi adoptando isoladamente as suas medidas, de tal maneira que um país como Portugal enfrenta a pressão da irresponsável generosidade em apoios da vizinha Espanha. A cimeira informal europeia que vai decorrer a 23 e 24 de abril no Chipre pretende, teoricamente, construir uma abordagem comum para enfrentar a crise energética que, obviamente, já devia ter sido adoptada para evitar medidas de concorrência desleal.

Os países do Golfo serão dos mais atingidos pelo conflito, com danos não apenas directos mas também indirectos e a prazo, por via da confiança num dos seus activos mais importantes enquanto centros financeiros: a estabilidade e segurança. Não sabemos até que ponto vão conseguir recuperar a confiança, que lhes tem garantido a recente prosperidade como plataforma financeira, mas também na afirmação que foram fazendo como placa aeroportuária. Se não se concretizar a queda do regime iraniano, factor de instabilidade na região, terão pago um preço elevado sem que tenha sido atingido um dos objectivos que tiveram em mente quando decidiram apoiar Donald Trump.

Uma das heranças  deste conflito é sem dúvida mais alimento para a raiva milenar que persegue aquela região. O que é em si uma semente para a continuidade dos conflitos, mesmo que venham a ser interrompidos brevemente. Ninguém teve vontade de deixar de alimentar a raiva que foi em crescendo desde o horrendo ataque do Hamas a Israel a 7 de Outubro de 2023.

Finalmente a China, o ausente mais presente neste conflito, que pode ser o grande vencedor do conflito com o Irão. Desde que Donald Trump é presidente, a China tem tido um papel de estabilizador global, defensor do livre comércio, e tem revelado o poder que já tem em diversas frentes, das designadas terras raras até às renováveis, passando pelo peso da sua moeda.  E neste conflito têm sido vários os analistas que referem Pequim como a capital que está a pressionar com sucesso Teerão para aceitar a paz, para não se falar das notícias que dão conta de que está simultaneamente a dar apoio bélico ao Irão.

Na guerra das tarifas, a China mostrou o poder que tinha, ao obrigar, na prática, ao recuo de Trump, quando se percebeu os danos que podia provocar face ao controlo global que tem das designadas “terras raras”. O choque energético que agora vivemos por causa do conflito no Irão, tendo impactos negativos na China, permite-lhe igualmente retirar vantagens da posição dominante que tem nos equipamentos para as energias renováveis cuja procura será naturalmente induzida por esta crise. E, como disse Ricardo Reis na intervenção que fez na conferência dos 150 anos da CGD, “o papel do dólar dependerá do que a China decidir” nomeadamente em matéria de abertura ao investimento financeiro estrangeiro.

A tendência de des-dolarizaçãoinstalada pode reforçar-se. Neste momento já assistimos a uma redução do peso do dólar nas reservas dos bancos centrais e ao aumento do uso do yuan na aquisição de produtos como petróleo, tendência iniciada na sequência das sanções à Rússia por causa da invasão da Ucrânia. O dólar continua atractivo fundamentalmente por causa das empresas norte-americanas e, dentro delas, das que estão ligadas às novas tecnologias como a Inteligência Artificial, conjugando-se isto com a ausência de alternativa e um mercado chinês relativamente fechado.

Em suma, o conflito no Irão pode desencadear um reajustamento muito mais significativo da geografia política do mundo e que será tanto mais acelerado quanto mais fragilizado saírem os norte-americanos deste conflito. Para já podemos dar como adquirido que vamos ter menos crescimento e mais inflação, com um risco sério de uma recessão global, sem que esteja garantida maior estabilidade no Médio Oriente.

GUERRA      CONFLITOS      MUNDO      IRÃO      MÉDIO ORIENTE     ECONOMIA

COMENTÁRIOS (de 21)

Carlos Chaves: Cara cronista, qual era a outra opção? Deixar os terroristas terem uma bomba nuclear, aparecerem um dia destes a dizer que o primeiro país (povo), a ser eliminado da face da Terra seria Israel, seguido de todos os outros, repletos de infiéis e seres malignos como nos designam a nós? Sabe com certeza que apesar de professar a ideologia de esquerda e passar o tempo a defender criminosos socialistas/comunistas, também não escaparia! Certo?

P.S.1 Por favor não amplifique mentiras, 6 semanas de reserva de Jet fuel é no Reino Unido, altamente dependente de refinação externa, o que não é o caso da UE incluindo nós que temos refinação para Jet Fuel em solo nacional (GALP).

P.S.2 Ao menos teve a coragem de criticar as medidas completamente em contraciclo, do candidato a criminoso aqui ao lado! “What else”, socialista!

António Duarte: A China defensora do livre comércio? A comprar petróleo a pataco na Rússia, na Venezuela e no Irão? Eu seria mais cauteloso pois isso não durará para sempre! Na Venezuela já acabou

Miguel Macedo: Análise típica da comunicação social enviesada! A cassete do costume! 

Luís Filipe Costa Piteira: Ken Fisher, num artigo publicado ontem no Jornal de Negócios, é bastante mais optimista em relação à Europa e, nomeadamente a Portugal, relativamente a esta questão do petróleo e gás. 

Paradigmas Há Muitos!: "A perspetiva de escassez levou já ao cancelamento de voos por parte, nomeadamente, da Lufthansa e da Air France/KLM, duas companhias que estão a concorrer à compra da TAP". O que interessa isso da TAP para este caso? A HG parece que não confiava nos seus próprios argumentos para vangloriar a China e resolveu meter mais esse à pressão, mas ... 😇😇😇

Lúcio Monteiro: "O que já nos deu a guerra com o Irão?" Além de muitas dores de cabeça à economia e instabilidade política global, esta guerra com o Irão também já nos "deu" uma certeza insofismável: a de que um único líder internacional - neste caso, o descolhoado Trump - pode empurrar o mundo para o abismo e para o caos. Com Trump, o actual estado caótico planetário tende a insuflar-se exponencialmente. Enquanto grande parte dos habitantes deste planeta sente na pele - mas sobretudo na barriga - as consequências desastrosas das suas insanas decisões, ele, que as causou, passa grande parte do seu tempo a contemplar o seu novo Salão de Baile da Casa Branca. Se ele pudesse ser minimamente coerente - conceito que ele ignora, de todo - mandaria construir, ao lado do dito salão, um manicómio de uma cela só, com o seguinte dístico: "Cela Trump". 

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Países importantes


Do mundo, em negociatas governativas sobre a forma de se conduzirem para o conduzirem. E assim nos vamos conduzindo, talvez, que a obediência é virtude, diz-se, embora nem sempre se reconheça o motivo dela.

Em directoPaquistão recebe hoje mais uma ronda de negociações. JD Vance a caminho de Islamabad

As atenções centram-se em mais uma ronda de negociações em Islamabad. O vice-Presidente dos EUA estará a caminho do Paquistão, mas ainda não há confirmação da presença das autoridades iranianas.

CÁTIA ROCHA: Texto

O Paquistão volta a receber as negociações entre as delegações dos EUA e do Irão

SOHAIL SHAHZAD/EPA

Momentos-chave

Há 5mMNE da UE discutem hoje suspensão de acordo de associação com Israel

Há 9mCessar-fogo entre EUA e Irão prestes a expirar. Trump considera "altamente improvável" prolongamento se não houver acordo em Islamabad

Há 21mIslamabad prepara-se para receber mais uma ronda de negociações entre EUA e Irão

Actualizações em directo

Há 5m07:16 Agência Lusa 

MNE da UE discutem hoje suspensão de acordo de associação com Israel

Os ministros dos Negócios Estrangeiros (MNE) da União Europeia (UE) reúnem-se hoje no Luxemburgo para discutir a suspensão do acordo de associação com Israel e tentar desbloquear o 20.º pacote de sanções à Rússia.

A reunião começa às 10h15, no Luxemburgo, e terá quatro pontos de agenda: os actuais acontecimentos no Médio Oriente, com uma intervenção do primeiro-ministro do Líbano, Nawaf Salam, a guerra na Ucrânia, o Cáucaso do Sul e a situação no Sudão.

O Governo português estará representado na reunião pela secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Inês Domingos.

No que se refere ao Médio Oriente, um dos principais temas em discussão é a suspensão do acordo de associação entre a UE e Israel, que tem sido frequentemente contestado desde o início da guerra na Faixa de Gaza, mas que voltou à ordem do dia com a ofensiva israelita no Líbano, a extensão de colonatos na Cisjordânia e a aprovação, no parlamento israelita, da pena de morte para palestinianos condenados por ataques terroristas.

Há 9m07:12 Cátia Rocha

Cessar-fogo entre EUA e Irão prestes a expirar. Trump considera "altamente improvável" prolongamento se não houver acordo em Islamabad

A ronda negocial no Paquistão acontece numa altura em que há uma contagem decrescente para o fim do cessar-fogo entre os EUA e o Irão.

O cessar-fogo de duas semanas foi anunciado por Donald Trump, a 7 de abril, em Washington. Em teoria, deveria expirar à meia-noite na hora de Washington, já madrugada de quarta-feira em Lisboa.

Porém, Trump declarou à Bloomberg que considera que o cessar-fogo só expirará “na noite de quarta-feira, pela hora de Washington”. Mas afirmou que é “altamente improvável” que haja um prolongamento do cessar-fogo se não for atingido algum tipo de acordo em Islamabad.

Há 21m07:00 Cátia Rocha 

Islamabad prepara-se para receber mais uma ronda de negociações entre EUA e Irão

As autoridades paquistanesas estão em alerta para mais uma ronda de negociações entre os EUA e o Irão esta terça-feira.

Há um forte dispositivo de segurança na estrada que leva ao Hotel Serena, onde deverão decorrer as conversações, notam meios como a Al Jazeera e o Guardian. Foi neste local que decorreram as últimas negociações a 11 de abril, uma maratona negocial de 21 horas.

De acordo com o jornal Axios, JD Vance está a caminho do Paquistão hoje para esta ronda negocial. Porém, ainda não é certo de que as autoridades iranianas marquem presença em Islamabad. À Reuters, uma fonte iraniana avançou que Teerão está “a analisar positivamente” a participação na ronda negocial, depois de inicialmente se terem recusado a participar. Ainda assim, não terá sido tomada uma decisão final, diz a fonte.

 

Circunstâncias


Mundiais fazem que o nosso coração se amachuque facilmente e os homens não se mostrarão tão insensíveis, pelo menos à morte de familiares mais próximos. Mas o caso que narra PATRÍCIA FERNANDES é de facto exemplar de aparente “rigidez”, na realidade bem atenta e eficiente que se admira, na reacção do jovem “salvador” de vidas, ao invés de responder apenas aos seus próprios medos instintivos. Mas homens da estirpe de Putin e outros de idêntica “coragem” mandatária, repousada, esta, no lombo dos obedientes por dever, julgo que não têm lágrimas. na aridez dos seus corpos imperiais. A menos que sejam as do regozijo próprio, incontinente, esse, e demonstrativo dos afectos pessoais.

 

Os homens também choram

Na verdade, precisamos que os homens não chorem facilmente e se comportem, antes, como o jovem português que foi apanhado pelo acidente de comboio em Adamuz no início do ano.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 20 abr. 2026, 00:20

É claro que podemos viver sem ler o livro Má Terapia, de Abigail Shrier. Mas viveremos com menos ferramentas para reflectir sobre os nossos tempos e, sobretudo, para compreender o modo como as novas gerações parecem ter tantas dificuldades em lidar com o mundo e a realidade. É esse o contributo de Shrier, que já tinha escrito Irreversible Damage: The Transgender Craze Seducing Our Daughters (infelizmente ainda não traduzido entre nós) e se debruça agora sobre o processo de psicologização em curso nas sociedades ocidentais.

Encontramos por todo o lado evidências desse processo, mas ele é especialmente visível nas crianças, o grupo sempre mais vulnerável às ideias progressistas que são apresentadas como o segredo para salvar o mundo. Encontra-se tanto na substituição de uma linguagem moral por uma linguagem terapêutica (a criança não se portou mal, a criança está perturbada, com ansiedade ou em processo de sofrimento traumático) como na crescente obsessão com o que as crianças estão a sentir: estão felizes? tristes? desiludidas? irritadas? Tudo enquadrado na chamada “educação para as emoções” e o assustador “monstro das cores”.

O objectivo é sempre apresentado como bondoso: educadores, psicólogos e terapeutas querem garantir que a criança é feliz (mais sobre isto em breve) e uma educação centrada nas emoções e terapeutizada permitiria esse objetivo.

Infelizmente, e como tantas vezes acontece, a realidade é mais teimosa: os estudos são consistentes na indicação de que, apesar de todas as intervenções, os adolescentes apresentam hoje níveis de saúde mental menos satisfatórios do que as gerações anteriores, revelam níveis de egocentrismo e individualismo mais elevados e não se mostram capazes de usar as ferramentas mágicas que lhes são ensinadas para lidar com as dificuldades da vida.

As emoções são uma parte natural da biologia humana e quase sempre respostas adaptativas que fomos adquirindo no processo evolutivo. Mas isso não significa que nos devamos tornar reféns das emoções e ser constantemente estimulados a tentar perceber o que estamos a sentir e a adoptar uma atitude de aceitação submissa que se traduz, geralmente, em lágrimas incontroláveis.

As lágrimas são uma reacção natural do corpo e ajudam-nos a lidar com as emoções, mas não devem ser confundidas com uma forma de viver. Em particular, no que diz respeito aos rapazes.

Faz parte da litania actual afirmar vezes sem conta que “os homens também choram”, uma expressão tão mais incomodativa quando é apresentada como se fosse uma novidade. É claro que os homens também choram, e bastariam os textos homéricos para sabermos como os heróis são de lágrima fácil, como chama a atenção Frederico Lourenço.

Aquiles, o grande herói, violento, virulento, tantas vezes irado, chora copiosamente nas páginas da Ilíada. Na Odisseia, quando Ulisses nos é apresentado encontra-se lavado em lágrimas e, no Canto 10, “aquele em que temos mais choro”, os homens fartam-se de chorar e arrancar cabelos. Mas nenhum momento é tão emocionante como aquele em que Ulisses e Telémaco se descobrem, no Canto 16, pai e filho:

 

“Assim falando, sentou-se; e Telémaco abraçou o nobre pai, chorando e vertendo lágrimas.
E do coração de ambos surgiu o desejo de chorar. Gemeram alto, os seus gritos mais acutilantes que os de corvos-marinhos ou abutres de recurvas garras, a quem
os lavradores roubaram as crias antes de lhes crescerem as asas:
assim deploravelmente dos olhos se lhes derramavam as lágrimas.
(p. 466)

Que os homens também choram é, assim, uma evidência. Mas talvez se tenha perdido a razão pela qual os homens devem ser especialmente educados para controlar as suas emoções e evitar as lágrimas nos momentos difíceis. A cultura actual de obsessão com a igualdade faz-nos esquecer o que as sociedades anteriores sempre souberam: homens e mulheres não são iguais e, por essa razão, os homens têm responsabilidades especiais, como usar a sua maior força física para proteger, ajudar e defender os mais fracos.

Nos momentos difíceis, em que precisamos de coragem, frieza e objetividade, chorar não ajuda: as lágrimas toldam-nos a visão – não só literalmente, mas também metaforicamente na medida em que nos impedem de agir com frieza e tomar decisões difíceis. Nesses momentos, não queremos que os homens chorem, queremos que os homens ajam corretamente. Afinal, um herói é aquele que faz o que deve ser feito. E é por isso que devem ser educados para controlarem as suas emoções e não se deixarem levar por elas: para poderem pôr a sua maior força física à disposição dos outros.

A lengalenga de “os homens também choram” torna-se, neste sentido e ao contrário do que parece, mais prejudicial do que benéfica. Na verdade, precisamos que os homens não chorem facilmente e se comportem, antes, como o jovem português que foi apanhado pelo acidente de comboio em Adamuz no início do ano. Em entrevista à TVI, Santiago recorda o que pensou depois de recuperar a consciência:Tenho dez minutos de adrenalina e vou fazer o melhor que puder”. E querendo fazer o melhor, soltou a namorada que estava encurralada, partiu a janela do comboio e ajudou outro homem que estava sem forças a sair. Fez o que devia ser feito. Chorar naquele momento teria adiantado muito pouco.

PSICOLOGIA        CIÊNCIAS SOCIAIS       CIÊNCIA 21

COMENTÁRIOS (de 21):

Luís Filipe Costa Piteira: Existirá uma tendência de efeminizar os homens, de forma a torná-los menos agressivos?          Mario: Obrigado, Patrícia, pela sua lucidez (e coragem)! É mesmo isso q. muito bem escreveu. O homem não pode ficar refém das suas emoções. Até pode chorar, mas faz o q. tem de fazer. E no fim, essa é a sua recompensa.             José B Dias: Excelente, como é uso. Obrigado à cronista.             antónio alberto barbosa pinho: Muito bem, Sra. Professora. 

 

 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Boas maneiras

 

Geralmente faltam a quem se julga poderoso. Trump tem apresentado essa imagem exibicionista, mas o mundo conforma-se. Já Putin não precisa de se agitar tanto, sentado na sua cadeira – não necessariamente fofa – ele mostra-se avisadamente sorridente. Por astúcia, supõe-se. Nós, por cá, vamos lendo e comentando todas essas práticas. Para o BEM e para o MAL, tais práticas, ao que parece. Para que  “o mundo pule e avance”, sem desastres maiores, são necessários artifícios, mesmo de  comunicação.

O que aprender nos confrontos Papa-Trump e Ventura-Pacheco

Desejar o fim do regime de Teerão não implica desculpar os insultos de Trump. Tal como defender a democracia não leva a que se queira esconder os excessos da revolução. Os fins não justificam os meios.

JOSÉ MANUEL FERNANDES Publisher e colunista do Observador

OBSERVADOR, 20 abr. 2026, 00:25

1Quando Donald Trump acorda de madrugada para postar numa rede social que está preparado para destruir uma civilização milenar não posso apenas achar que é mais um dos habituais exageros retóricos do presidente dos Estados Unidos. E também não posso encolher os ombros ou satisfazer-me com um sorriso amarelo quando vejo a imagem em que ele se faz passar por Cristo descido à terra – nem preciso sequer de ser cristão para perceber que há limites que foram ultrapassados.

Isso não me impede de divergir radicalmente de todos os que, de forma aberta ou encoberta, fazem por estes dias figas para que o confronto com o Irão dos ayatollahs e dos radicais do Exército Revolucionário termine com uma derrota dos Estados Unidos e de Israel. Eu sei de que lado estou – e sei que o mundo ficará bem melhor no dia em que desaparecer a ameaça que representa o regime de Teerão com o seu fanatismo, com o seu programa nuclear, com a forma como promoveu, organizou, armou e financiou uma constelação de organização terroristas, com os seus métodos repressivos e sanguinários. E também sei que décadas de democracia mole e cobarde não levaram a lado nenhum, razão pela qual não tenho achaques quando se eliminam lideranças inteiras nem me ponho a carpir mágoas pelo “direito internacional” quando este só tem conseguido, infelizmente, atar de pés e mãos os que acham que não basta conviver com os tiranos e olhar para outro lado.

Vou até mais longe: ao contrário de todos os que passam dias e dias, semanas e semanas, a “explicar” como o método Trump só pode conduzir ao desastre, eu assumo que não sei o suficiente para prever o desenlace desta guerra. Tal como não me ponho a especular sobre quem está a vencer e quem está a perder: no fim veremos.

Mas tudo isto não me leva a “compreender”, muito menos a justificar, a forma como Trump vai sistematicamente despedaçando as regras mínimas de civilidade – e é exactamente isso que ele faz quando usa da forma que usa a palavra, sobretudo a palavra incontida dos posts madrugadores nas redes sociais. Eu desejar que os Estados Unidos vençam esta guerra não é suficiente para considerar aceitáveis erupções retóricas e alegóricas que podem até resultar em vantagens de curto prazo na campanha militar ou na mesa das negociações, mas que degradam o espaço público no longo prazo.

Como escreveu R. R. Reno, editor da influente First Things, “desde o início da guerra contra o Irão, a administração Trump tem-se entregue a uma retórica extrema e sanguinária. Os seus responsáveis imaginam que estão a intimidar os inimigos da América e a inspirar o povo americano. Estão enganados. A sua retórica de guerra, especialmente as declarações mais escandalosas sobre apagar civilizações inteiras da face da Terra, degrada o povo americano e embota as nossas consciências.” Não posso estar mais de acordo.

2O que está em causa é a velha questão de saber se os fins justificam os meios – sendo que aquilo que distingue uma sociedade civilizada de outra onde vale tudo é precisamente ter muito claro que os fins, por mais nobres que sejam, não autorizam o recurso a meios que não respeitem qualquer proporcionalidade ou civilidade. E é aqui que podemos estabelecer um paralelo entre o choque Trump-Papa e o nosso doméstico confronto Pacheco-Ventura.

Leão XIV, como outros papas antes dele, pronunciou-se pela Paz e contra a guerra, o que significa que condenou esta guerra em particular. No passado outros chefes da Igreja Católica, mesmo vistos como conservadores, caso de João Paulo II, fizeram o mesmo. Onde Leão XIV foi mais directo foi nas referências que fez a alguns dos posts incendiários de Trump, mas mesmo assim sem deixar de logo a seguir desmentir leituras mediáticas (e mais políticas) sobre o sentido de algumas das suas palavras.

Num plano diferente, a forma como durante os últimos 50 anos temos procurado em Portugal omitir, desculpar ou mesmo justificar os episódios violentos do pós-25 de Abril derivam da ideia de que a nobreza do objectivo final – instaurar uma democracia – teria justificado os excessos do processo revolucionário. Só assim se compreende que alguém como Pacheco Pereira, que não desconhecia o conteúdo do relatório das sevícias”, tenha achado que podia debater com André Ventura com “base em factos”, só que porventura omitindo os factos relatados nesse documento maldito.

Os dados estão lá, não há forma de os omitir, e quem duvide que leia o que escreveram nestas páginas Miguel Pinheiro e Rui Ramos. Foi por isso, e não por Ventura ser uma verdadeira picareta falante em debates, que ele acabou por sair por cima daquele confronto, pois trouxe ao conhecimento do grande público o que esse mesmo grande público desconhecia, isto é, alguns dos detalhes mais chocantes das violências cometidas em nome da revolução nos anos de 1974 e 1975.

Porque é que isso aconteceu, porque é que se acreditou que era possível continuar a ignorar o que está escrito nesse relatório maldito?

No caso de muitos dos que agora intervieram no debate público, e de todos aqueles que procuraram que ele nunca acontecesse, ou dos órgãos de informação que se apressaram a chamar mentiroso a Ventura, talvez porque acreditam que se justifica omitir a realidade para proteger o valor mais elevado da democracia. Esses serão os bem-intencionados, mas que cometem o erro de distorcer a verdade para proteger aqueles que acreditavam, e ainda acreditam hoje, que os fins justificam os meios. Basta ler o que Cunhal defendia nesse tempo – designadamente o que defendeu na famosa entrevista a Oriana Fallaci – e perceber que a violência sempre fez parte da natureza dos revolucionários, fossem eles jacobinos franceses, bolcheviques russos ou comunistas portugueses. Prisões mesmo que arbitrárias, mortes mesmo que injustas, violências mesmo que excessivas, tudo se justificava em nome do fim maior que era a revolução. É por isso que omitir os excessos de 1974/75, ou desculpá-los, ou minimizá-los por comparação com o que fazia o regime anterior, é desarmar as nossas defesas perante excessos semelhantes que um dia possam reaparecer.

Da mesma forma que não devo encolher os ombros perante as diatribes retóricas de Trump, ou justificá-los porque desejo a derrota dos ayatollahs, também não posso manter enterrado o “relatório das sevícias” ou justificar os excessos desse período invocando candidamente o calor do ambiente revolucionário.

Sejam quais forem as circunstâncias, não podemos achar que tudo tem uma justificação desde que seja feitos pelos “nossos”. E sejam quais forem as circunstâncias temos de ter claro que na política, na revolução ou mesmo na guerra, se os limites podem nem sempre ser os mesmos, há uma bússola moral que deve estar sempre presente – sendo que moral não é sinónimo de moralista.

POLÉMICA      POLÍTICA      DEMOCRACIA      SOCIEDADE      PRESIDENTE TRUMP      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA      MUNDO      DONALD TRUMP      MÉDIO ORIENTE      PAPA LEÃO XIV      IGREJA CATÓLICA      RELIGIÃO      DEBATE      IRÃO

 

COMENTÁRIOS (de 7)

Maria Tubucci: Só há um pormenor que o Sr. Jornalista JMF está a esquecer. Nas “erupções retóricas e metafóricas”, D. Trump não está a falar para mim ou para si, está a falar para alguém que só compreende  esta linguagem. Para falar com sanguinários tem de usar uma linguagem que eles entendam, está a falar para aniquiladores de civilizações milenares, quando o Islão entra, qualquer civilização milenar vai à vida, os persas que o digam Vai ter de ir ler Oriana Fallaci outra vez, mas com outros olhos, A raiva e o orgulho, pág. 84/85:

O desaparecimento da nossa liberdade e da nossa civilização. O aniquilamento do nosso modo de viver e de morrer. Do nosso modo de orar e de não orar, de estudar e de não estudar, de beber e de não beber, de vestir ou de não vestir. Não compreendeis ou não quereis compreender que, se ficarmos inertes, se não nos defendermos, se não combatermos, a Jihad vencerá. E destruirá o mundo que bem ou mal conseguimos construir, transformar, melhorar e tornar um pouco melhor e um pouco mais inteligente, isto é, menos beato ou até não beato. Destruirá a nossa cultura, a nossa arte, a nossa ciência, a nossa moral, os nossos valores, os nossos prazeres.” Sim, para derrotar aniquiladores de civilizações, os meios justificam os fins...                       António Araujo: Vivi o PREC nos meus 20 anos. Li e ouvi falar dos muitos casos que sucederam. Quando ao longo destes 50 anos falava deles, não tinha mais nada a fundamentar, senão o "disse que disse". Finalmente, e graças a PP ter desafiado AV, divulgou-se o documento que esteve tantos anos no segredo dos deuses. Fico grato a PP pelo desafio e a AV pela divulgação do documento. Todos os que como eu viveram esse período sentir-se-ão mais aliviados. Afinal, infelizmente foi verdade.

 

domingo, 19 de abril de 2026

Vivências

 

Não posso deixar de registar Opiniões que li por essas alturas e que registei, por exemplo no texto “E PORTANTO”, pois acho-me com direito a dá-las, tendo vivido esses momentos como tanta gente nessa altura, hoje descrita no texto abaixo, e tendo-a registado por exemplo no livro “CRAVOS ROXOS - Croniquetas verde-rubras”, em 1981.

É, pois, mais uma das reacções – de afecto magoado, naturalmente – que como ultramarina das que foram chutadas de África, reagiria em tempos de menos movimentação, por exemplo no livro “CRAVOS ROXOS”, no tal texto das mágoas de então:

“Eu só tenho pena que não me tenham perguntado a mim sobre o referendo e a independência e tirado o retrato. E havia de dizer que não ao referendo – estávamos tão bem assim! - e havia de dizer que sim ao Samora Machel, por causa do bem-estar dele, que quando viaja para a Zâmbia para travar as conversações vai no avião particular do Kaunda e é recebido no palácio deste com o estatuto, enquanto o desprezado Mário Soares fica no hotel sem avião, coitado, por falta do estatuto”.

É, pois, apenas mais um exemplo de reacção a uma vivência passada, que RUI RAMOS traz à baila no texto infra:

 

Os presos de Abril: a prisão política em Portugal entre 1974 e 1975

A partir de Setembro de 1974, a prisão às ordens dos militares tornou-se um instrumento essencial para o PCP, a extrema-esquerda e a ala esquerda do MFA anularem adversários.   Ensaio de Rui Ramos.

RUI RAMOS: Texto

OBSERVADOR, 18 abr. 2026, 21:05

No dia 28 de Setembro de 1974, MÁRIO SOARES, MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS, discursou na assembleia parlamentar do Conselho da Europa. A sua mensagem sobre a situação em Portugal, cinco meses depois do movimento militar de 25 de Abril de 1974, não podia ser mais tranquilizadora: a nova situação política em Portugal tivera origem numa “revolução sem derramamento de sangue”, e “mesmo numa transição revolucionária”, fazia questão de “aplicar” a Declaração Universal dos Direitos do Homem. A prova do carácter benigno e original da revolução portuguesa estava nisto: era “um regime sem presos políticos”.

Havia, no entanto, um problema. Quando Mário Soares saiu de Lisboa, era verdade que, descontando os agentes da PIDE-DGS, suspeitos de violações de direitos humanos, a nova situação política tinha feito poucas prisões. Por exemplo: dos 30 membros do governo de Marcello Caetano, só 4 estiveram presos durante mais do que algumas semanas, e foram todos soltos no Verão de 1974. Mas a 28 de Setembro, precisamente quando Soares gabava à Europa o respeito pelos direitos humanos em Portugal, as prisões da revolução estavam a encher-se com cerca de 200 pessoas detidas por motivos políticos – um número superior ao que, em 25 de Abril, existia nas prisões políticas do Estado Novo na metrópole.

A partir daí, e durante mais de um ano, a ascendência das facções do Movimento das Forças Armadas em sintonia com o Partido Comunista e a extrema-esquerda gerou em Portugal o que o Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, em 1976, designou como uma “situação de não-direito”, correspondendo a “prisões arbitrárias, falta de garantias judiciárias, tortura, tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes da pessoa humana, e outras violências e abusos”. A revolução portuguesa não foi tão benigna e original como se quis apresentar à Europa em Setembro de 1974.

As prisões terão aliás sido efectuadas com a colaboração de militantes do PCP, do MDP-CDE e de outros partidos de extrema-esquerda. O comunicado do Comité Central do PCP de 29 de Setembro tratava as prisões como a prova de que o MFA, depois de meses de complacência, passara à “ofensiva”.

A “ofensiva” do MFA

No fim do Verão de 1974, os confrontos entre o Presidente da República general António de Spínola e a ala esquerda do MFA puseram termo a qualquer idílio democrático. Na noite de 27 para 28 de Setembro de 1974, nas vésperas da manifestação da “maioria silenciosa” de apoio a Spínola, a ala esquerda do MFA decidiu e executou, através do COPCON, a prisão de cerca de 200 pessoas, a fim de impedir a manifestação. Esta iniciativa satisfez o clamor do PCP e extrema-esquerda para que as autoridades militares prevenissem um suposto avanço da direita. Desde Agosto que o PCP exigia a prisão de “conspiradores e provocadores” e apelava à denúncia de “tudo quanto pareça suspeito: reuniões de gente reaccionária, contactos em sítios recatados, afixação de cartazes anti-comunistas” (Avante, 23 de Agosto e 20 de Setembro de 1974).

As prisões terão aliás sido efectuadas com a colaboração de militantes do PCP, do MDP-CDE e de outros partidos de extrema-esquerda. O comunicado do Comité Central do PCP de 29 de Setembro tratava as prisões como a prova de que o MFA, depois de meses de complacência, passara à “ofensiva”. As detenções foram de facto fundamentais para destruir as forças políticas à direita, e para galvanizar os apoiantes da esquerda militar mais radical. Entre as 200 pessoas presas na noite de 28 de Setembro de 1974, estavam os organizadores da manifestação da “maioria silenciosa”, activistas dos partidos e da imprensa da direita, antigos dirigentes do Estado Novo, e indivíduos investigados pelos Serviços de Coordenação da Extinção da PIDE-DGS e LP, todos acusados de “associação de malfeitores”. Não formavam um grupo homogéneo, mas correspondiam aos grupos percebidos como potencialmente hostis pelo PCP e pela esquerda militar.

A lógica da detenção extra-judicial

A partir de Setembro de 1974, a prisão às ordens das autoridades militares tornou-se um instrumento essencial para o PCP, a extrema-esquerda e a ala esquerda do MFA anularem adversários. A 13 de Dezembro de 1974, ocorreu uma nova onda de prisões, incidindo sobre accionistas e gestores de várias empresas, suspeitos de “sabotagem económica”, o que o PCP e a extrema-esquerda entenderam como a afirmação da orientação socialista da revolução. Na sequência da revolta militar de 11 de Março de 1975, seriam detidos 144 militares e 39 civis. Provavelmente, as prisões nesta ocasião terão sido mais numerosas. Por exemplo, só no Estabelecimento Prisional do Porto (Custóias), em Março de 1975, chegaram a estar detidos cerca de 53 indivíduos, por ordem do Comando da Região Militar do Norte. Alguns dos militares presos haviam participado na revolta, e poderiam ser arguidos por crime de rebelião, mas muitas outras pessoas, como notou a Comissão de Averiguações de 1976, teriam sido detidas “essencialmente por ideias ou atitudes que lhes eram atribuídas”. Foi o caso dos 22 presos às ordens do Comando da Região Militar de Évora em Março de 1975. O seu comandante explicou à Comissão de Averiguações ter-se tratado de “prisões preventivas” de indivíduos conhecidos pelas suas “ideias reaccionárias”, e que teriam servido “para os proteger a si próprios e para acalmar a indignação popular”. O comandante admitiu ainda que as prisões foram decididas a partir de “uma lista numerosa de indivíduos a deter” apresentada por partidos políticos e por sindicatos.

A luta política explica também a prisão, a 28 de Maio de 1975, de cerca de 400 militantes do MRPP, partido maoísta que contestava o MFA e a influência do PCP. Segundo fontes do MRPP, já antes, em Março e Abril, teriam sido detidos cerca de uma centena de militantes seus. As manifestações independentistas nos Açores ou o levantamento popular anti-comunista no norte do país durante o Verão de 1975 geraram também muitas detenções. A quantificação dos presos é difícil, já que muitas prisões não terão sido registadas e poucas deram origem a processos, até pelo atraso da instituição das instâncias de instrução especial previstas em 1975, como o Tribunal Militar Revolucionário. Mas a 21 de Dezembro de 1975, na Emissora Nacional, o capitão Sousa e Castro, do Conselho da Revolução, reconheceu a existência de mais de 1000 presos políticos no fim do mês de Novembro.

Um oficial desse regimento confessou à Comissão de Averiguações de 1976 ter interrogado pelo menos 800 presos em dois meses e meio no Verão de 1975, alguns deles menores. Tudo isto sugere que a detenção extra-judicial foi então um instrumento corrente de controlo do espaço público pelo poder militar revolucionário.

As autoridades militares efectuaram também prisões no ultramar, provavelmente em número muito superior ao da metrópole. A 15 de Agosto de 1974, por exemplo, o Diário de Notícias reportava “mais 200 presos” em Luanda, às ordens da Junta Governativa. As prisões em África serviram essencialmente para desmobilizar a oposição à ditadura dos partidos únicos marxistas que herdaram o poder colonial. Em Cabo Verde, em meados de Dezembro de 1974, foram presos 58 indivíduos, a seguir deportados para Lisboa. A maior parte foi libertada à chegada, mas 19 foram mantidos no Forte Militar de Caxias até 18 de Setembro de 1975. Acusados de ligações à PIDE, nunca motivaram qualquer diligência da respectiva Comissão de Extinção. Segundo o general Manuel Monge, que com eles esteve preso em Caxias, eram simplesmente políticos cabo-verdianos em oposição ao PAIGC.

Os militares prenderam igualmente muita gente para além da esfera política, como no caso do Regimento de Polícia Militar, enquanto colaborou no policiamento de Lisboa. Um oficial desse regimento confessou à Comissão de Averiguações de 1976 ter interrogado pelo menos 800 presos em dois meses e meio no Verão de 1975, alguns deles menores. Tudo isto sugere que a detenção extra-judicial foi então um instrumento corrente de controle do espaço público pelo poder militar revolucionário.

Foram várias as entidades que solicitaram prisões, conforme é sugerido por uma lista de 58 “indivíduos a deter” elaborada pelo Comando Operacional do Continente (COPCON) a 31 de Março de 1975, onde é indicada, para cada caso, a origem da decisão: “ordem do comando do COPCON”; “pedido da Comissão de Inquérito ao 11 de Março de 1975”; “ordem do gabinete do primeiro-ministro”; “ordem da Assembleia Revolucionária do MFA”; “pedido da Força de Fuzileiros”; “pedido do gabinete do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas”; “pedido da Secção de Apoio (ao Conselho da Revolução)”; “ordem do Conselho da Revolução”; “ordem do Comando-Geral da GNR”.

A intervenção do COPCON terá sido decidida nas vésperas das prisões de 28 de Setembro, quando o comandante da PSP de Lisboa se recusou a executar os mandados de captura, por não os considerar legais. A partir daí, o COPCON passou a emitir todos os mandados de captura. No Conselho da Revolução, o dossier dos presos parece ter estado entregue ao almirante Rosa Coutinho, enquanto presidente dos Serviços de Apoio e do Serviço de Coordenação e Extinção da PIDE-DGS. Mas nunca houve uma efectiva centralização, já que muitas outras entidades levaram a cabo investigações e efectuaram prisões. Assim, em fins de Janeiro de 1975, o Comando da Região Militar do Norte teria criado uma “secção de apoio ao comandante da região no âmbito da contra-informação”, a qual passou a executar “detenções para averiguações”.

Também o Serviço Director e Coordenador da Informação (SDCI), na dependência do Conselho da Revolução, executou, segundo o Relatório do 25 de Novembro, “buscas, detenções e prisões irregulares”, além de submeter a vigilância “todo aquele que partilhava de uma opção política não identificada com a óptica dos agrupamentos políticos à esquerda do PS”. A Comissão de Averiguações de 1976 desvendou a intervenção de militantes do PCP, do MDP, da UDP e do MRPP na prisão, interrogatório e guarda de presos. As prisões tiveram sempre um sentido político preciso. Em 1974 e 1975, reflectiram a ascendência das facções da esquerda militar identificadas com o PCP e a extrema-esquerda.

Irregularidade e violência

O Programa do Movimento das Forças Armadas previa que “os crimes cometidos contra o Estado” seriam “instruídos por Juiz de Direito e julgados em tribunais ordinários, sendo dadas todas as garantias aos arguidos”. Pelo contrário, as autoridades militares em 1974-1975 usaram o Código de Justiça Militar e certos aspectos do Código Penal para eliminar a maior parte das garantias. Os presos não foram apenas detidos pelas autoridades militares, mas sujeitos, incluindo civis, ao foro militar, e mantidos em presídios sob controle militar, à margem das instâncias policiais e judiciais normais, e com limitação das garantias, como o habeas corpus e a assistência judiciária. Por outro lado, o uso sistemático, como causa de detenção, da fórmula genérica de “associação de malfeitores” permitiu a prisão sem culpa formada.

A Comissão de Averiguações de 1976 detectou prisões efectuadas sem mandados de captura regulares, e fora das horas legais. Muitos detidos não foram interrogados ou foram-no sem assistência de advogado, e as suas prisões prolongadas indefinidamente sem qualquer explicação, e com períodos de incomunicabilidade até 3 meses. Os presos viram ainda os seus nomes publicados na imprensa, tiveram as suas contas bancárias congeladas, e foram saneados ou despedidos de empregos.

No relatório da Comissão de Averiguações, os documentos mais detalhados de tortura são referentes a prisões efectuadas no Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS) em Maio de 1975, com espancamento, tortura da “estátua”, choques eléctricos, e abusos sexuais.

A lei 9/75 de 7 de Agosto criou o Tribunal Militar Revolucionário, mas apenas para julgar os implicados na revolta militar de 11 de Março de 1975. A Promotoria de Instrução do Tribunal Revolucionário seria activada em Setembro de 1975, mas só 44 presos viriam a ser processados. As 200 prisões de 28 de Setembro de 1974 nunca levaram à instrução de qualquer processo, apesar de alguns dos detidos terem estado encarcerados mais de um ano.

Os maus tratos e o uso de violência física e moral com o fim de obter informações ou confissões parece terem sido correntes. Por exemplo, 14 presos detidos na Região Militar Norte em Março de 1975, e mantidos no CICAP, queixaram-se à Comissão de Averiguações de longos períodos de isolamento contínuo em cela fechada, e interrogatórios realizados de noite, com ameaças e agressões físicas. Um dos presos foi sujeito a um “fuzilamento simulado”.

No relatório da Comissão de Averiguações, os documentos mais detalhados de tortura são referentes a prisões efectuadas no Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS) em Maio de 1975, com espancamento, tortura da “estátua”, choques eléctricos, e abusos sexuais. O registo médico de uma das vítimas no Hospital Militar confirmou traumatismo craniano, contusões e hematomas generalizados, e perda de visão, resultantes de agressão. Também há muitas queixas sobre a prática de tortura por elementos do SDCI na sede da antiga PIDE, em Lisboa, e no Forte Militar de Caxias. Em declarações à Comissão de Averiguações, a 27 de Abril de 1976, o ex-comandante do COPCON reconheceu que o SDCI sugerira a utilização nos interrogatórios de “processos menos recomendáveis no aspecto militar”.

Terá havido, com efeito, uma pressão de militares radicalizados à esquerda para que fosse aumentada a violência, como se constata no relatório de uma equipa em Caxias ao comandante do COPCON, de 30 de Maio de 1975, a lamentar a “brandura” dos interrogatórios. Também nas prisões de militantes do MRPP de 28 de Maio de 1975, ocorreram agressões sistemáticas, que as autoridades justificaram pela resistência dos detidos. Houve pelo menos um caso de morte por falta de assistência médica, o do engenheiro José Joaquim Pedroso Santos, preso a 27 de Setembro de 1974, e que faleceria a 3 de Dezembro, depois de sofrer uma hemorragia interna na prisão de Caxias.

“Como organizar a PIDE com outro nome”

As prisões efectuadas não impediram o Ministério da Justiça de continuar a insistir, em comunicado no Diário de Notícias a 23 de Outubro de 1974, que “não existem em Portugal depois de 26 de Abril, presos políticos”, apenas “encontram-se privados de liberdade alguns suspeitos de participação na tentativa de sublevação da legalidade democrática verificada em 28 de Setembro”.

Havia, porém, discussões nos bastidores. Um dos primeiros desses debates sobre as prisões políticas aconteceu no Conselho de Ministros, a 17 de Dezembro de 1974. Os ministros Salgado Zenha, Mário Soares e Magalhães Mota, do PS e do PPD, exigiram que as autoridades militares se sujeitassem “aos princípios jurídicos democráticos sobre a prisão preventiva e sem culpa formada”. Mesmo Álvaro Cunhal admitiu a necessidade de “controlo das prisões”, mas notou que se as prisões “alarmaram algumas pessoas, satisfizeram muitas outras”.

Numa entrevistada publicada em livro, Otelo Saraiva de Carvalho contou a piada de que COPCON queria dizer “Como Organizar a PIDE Com Outro Nome”.

No entanto, as detenções não foram, durante muito tempo, grande tema de polémica. Em Janeiro de 1975, por exemplo, o comandante do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho, em entrevista para o livro Cinco Meses que Mudaram Portugal, ainda podia admitir candidamente que “decidi efectuar prisões que interessam ao processo para-democrático em curso, pois no foro militar não há prazos fixos para a privação de liberdade aos malfeitores”. Também não teve problemas em reconhecer que “as pessoas ficam uma porção de tempo sem serem ouvidas” e que, na prática, o COPCON “tem actuado” como uma “polícia política”. Com bom humor, contou até a piada de que COPCON queria dizer “Como Organizar a PIDE Com Outro Nome”. De resto, não tinha dúvidas: “Estamos a viver num Estado revolucionário, em que a lei deve ser feita por nós, de acordo com o que consideramos que deve ser feito”.

Nada disto terá causado grande escândalo até Junho de 1975, quando o PS passou a contestar abertamente o “gonçalvismo”, isto é, o predomínio do PCP através do primeiro-ministro Vasco Gonçalves, e quando, no caso do MRPP, as prisões atingiram um movimento de esquerda. Perante rumores sobre a situação dos presos, vários jornalistas foram convidados pelo COPCON para visitar a prisão de Caxias. O tema já figurou na célebre entrevista de Oriana Fallaci a Álvaro Cunhal, publicada no Europeo de 7 de Junho de 1975 e traduzida pelo Jornal do Caso República: “Quantos detidos políticos há hoje em Portugal?“ Resposta de Cunhal: “Não sei. De qualquer forma, não muitos. Não os que deveria haver. Põem-nos logo em liberdade com demasiada facilidade”.

Na semana seguinte, a 14 de Junho de 1975, foi a vez do episcopado católico, na Nota Pastoral sobre o Momento Presente, lamentar “o carácter arbitrário de numerosas prisões que têm sido feitas”. Mas, no mesmo dia, o comandante do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho, confrontado com perguntas de jornalistas sobre presos políticos, queixou-se de que “toda a gente considera que é um escândalo tremendo”, e desabafou, numa frase famosa, que “teria sido melhor se em Abril de 74 encostássemos à parede ou mandássemos para o Campo Pequeno umas centenas ou uns milhares de contra-revolucionários” (Primeiro de Janeiro, 15 de Junho de 1975).

 Cunhal sobre os presos políticos durante a revolução: Põem-nos logo em liberdade com demasiada facilidade”

Um sintoma do incómodo com os rumores de maus tratos nas prisões são as directivas emitidas pelo Conselho da Revolução a 12 de Junho de 1975. A primeira determinava que os detidos só poderiam ser transferidos, “seja qual for a entidade responsável pela sua captura”, por ordem do comandante do COPCON ou pelo director dos Serviços Prisionais militares. A segunda regulava o regime de isolamento, de modo a “evitar o exercício desnecessário de violências sobre os detidos”. Finalmente, a terceira reservava os interrogatórios aos juízes dos tribunais militares, Polícia Judiciária Militar, Comissões “sancionadas pelo Conselho da Revolução”, e SDCI, e estabelecia que “os comandantes dos presídios deverão tomar as medidas julgadas necessárias para impedir que os interrogatórios se processem com utilização de métodos de tortura física ou psicológica”. Era, também, o reconhecimento das violências e desmandos em curso.

A 10 de Julho de 1975, a questão dos presos políticos foi levantada na Assembleia Constituinte pelo deputado do PS António Arnaut, no momento em que o PS rompeu com o governo de Vasco Gonçalves. Arnaut exprobrou a “ostensiva e, por vezes, impudica falta de respeito pelos direitos, liberdades e garantias individuais” no Portugal revolucionário depois do 25 de Abril, dizendo que lhe lembrava “uma página negra do passado”. A intervenção irritou os deputados do MDP, PCP e UDP, que vaiaram Arnaut e abandonaram a sala em protesto.

“O relatório das sevícias”

Depois da derrota das facções do MFA conotadas com o PCP e a extrema-esquerda, a 25 de Novembro de 1975, multiplicaram-se as denúncias sobre as prisões políticas ocorridas durante a ascendência dessas facções. A 18 de Dezembro, o Diário Popular noticiava que “a Comissão Internacional de Juristas compara a justiça militar em Portugal com a que vigora no Chile de Pinochet”, devido à “ausência de adequadas garantias jurídicas e direitos de defesa”. Os mandados de captura em branco, assinados pelo comandante do COPCON, converteram-se então num caso célebre.

Entretanto, todos os presos seriam libertados pelas autoridades militares entre Dezembro de 1975 e Abril de 1976. Alguns publicaram então testemunhos da sua experiência prisional, com enorme impacto: o livro Até na prisão fui roubado, do apresentador de televisão Artur Agostinho, esgotou 20 mil exemplares. Outro ex-preso, o advogado António Maria Pereira, no livro A Burla do 28 de Setembro, refutou dois argumentos usados para minimizar as prisões: a ideia de que, apesar de tudo, com a PIDE teria sido pior, porque “no Portugal democrático que desejamos não é admissível que, para justificar abusos cometidos, se invoque como termo de comparação os crimes da PIDE-DGS”; e o mito da “legalidade revolucionária”, porque “a legalidade revolucionária é a legalidade baseada nas leis revolucionárias, as quais – nomeadamente o programa do Governo Provisório — tinham tornado a Declaração Universal dos Direitos do Homem como parte da ordem jurídica portuguesa”.

Foi neste ambiente que o Conselho da Revolução nomeou, a 19 de Janeiro de 1976, uma Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, para atender às “queixas que têm chegado ao Conselho da Revolução, e de que a imprensa se tem feito eco, de prisões arbitrárias, de falta de garantias judiciárias, de tortura, tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes da pessoa humana, e de outras violências e abusos cometidos no acto da prisão, e durante esta, por autoridades militares ou a coberto delas, desde 25 de Abril de 1974 até ao presente”. Presidida por um militar, era composta por mais três oficiais das Forças Armadas, um juiz de direito nomeado pelo Ministério da Justiça, e três advogados nomeados pela Ordem dos Advogados.

A Comissão ouviu cerca de 200 pessoas, e pediu documentos a várias entidades militares. O relatório seria publicado em Novembro de 1976. No seu prólogo, da autoria da “Presidência da República”, era reconhecido que Portugal vivera em 1974-1975 um “quadro histórico de Terror”, uma “situação de Não-Direito”. A 9 de Dezembro de 1976, a Assembleia da República aprovou um voto de congratulação pela sua publicação. O PCP e a extrema-esquerda, porém, clamaram que o inquérito – a que passaram a chamar o “relatório das sevícias” — era apenas um instrumento de perseguição política contra os militares ligados ao “gonçalvismo” e ao COPCON em 1975. Quanto ao relatório, não se lhe seguiu qualquer procedimento penal ou disciplinar (até devido à amnistia do decreto-lei no. 729/75 de 22 de Dezembro), com a excepção da passagem compulsiva à reserva do almirante Rosa Coutinho, por decisão do Chefe do Estado Maior da Armada.

O debate sobre os presos políticos assinalou, no princípio de 1976, a ruptura com a fase revolucionária e a refundação do regime como Estado de Direito democrático. A resolução do Conselho da Revolução que criou a Comissão de Averiguações, em Janeiro de 1976, era a esse respeito muito clara: “a instituição de um sistema político-jurídico em que se verificassem o respeito pela pessoa humana e as garantias constantes da Declaração Universal dos Direitos do Homem foi uma das mais nobres finalidades da Revolução de 25 de Abril”. Não tinha sido, porém, uma finalidade para todos os revolucionários.

Nota bibliográfica: Entre os testemunhos publicados em livros sobre perseguições e prisões em 1974-1975, além dos já citados no texto, mencionaremos os seguintes: Pedro Manuel de Oliveira Reis, Oito Meses nas Prisões do Portugal Democrático, Lisboa, Margem, 1976; Manuela Preto, Tortura depois de Abril. Relato duma jornalista detida em Caxias sem culpa formada, Queluz, Literal, 1977; Aurora Rodrigues, Gente Comum. Uma História na PIDE, Castro Verde, 100 Luz, 2011 (inclui o relato da sua prisão em Maio-Junho de 1975 pelo COPCON); Nuno Alves Caetano, Prisioneiros de Caxias. 28 de Setembro de 1974, Lisboa, Chiado Editora, 2015. Ver também os estudos de Pedro Jorge Castro, O Ataque aos Milionários. O cerco às famílias Espírito Santo, Mello e Champalimaud depois da revolução de 1974: as detenções, o dia-a-dia na prisão, as contas congeladas e a fuga para o exílio, Lisboa, Esfera dos Livros, 2014; e de Tomás Moreira, No Terramoto de 1975. As Prisões Políticas no PREC: o Caso Ruy Moreira, o fundador da Molaflex, que a revolução prendeu e os trabalhadores quiseram libertar, Lisboa, Guerra e Paz, 2026. Livros que serviram de fonte de informação: Mário Soares, Portugal auConseil de l´Europe, Lisboa, Ministério dos Negócios Estrangeiros, 1974; Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, Nomeada por Resolução do Conselho da Revolução de 19 de Janeiro de 1976, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1976; Afonso da Costa Ribeiro, Acuso e recuso a canga após o Abril dos Cravos. Apontamentos para a história de uma revolução, Viseu, Edições M.B., 1976; Manuel Amaro Bernardo (org.), Memórias da Revolução. Portugal, 1974-1975, Lisboa, Prefácio, 2004; Livro Branco da 5ª Divisão, 1974-1975, Lisboa, Livraria Ler Editora, 1984; Relatório do 25 de Novembro. Texto Integral, Lisboa, Edições Abril, 1976, 2 volumes; Otelo Saraiva de Carvalho, Cinco Meses Mudaram Portugal, Lisboa, Portugália Editora, 1975; Livro Branco da 5ª Divisão, 1974-1975, Lisboa, Livraria Ler Editora, 1984, pp. 312-314; AAVV, As Sevícias dum Relatório, s.l., Editorial 18 de Janeiro, 1977; AAVV, O “Relatório das Sevícias” e a Legalidade Democrática, Coimbra, Centelha, 1977; Luís de Azevedo (org.), A Hierarquia Militar e o Estado Democrático. Caso Rosa Coutinho, Coimbra, Centelha, 1978;

(A primeira versão deste estudo foi publicada no Dicionário de História de Portugal. O 25 de Abril, obra coordenada por António Reis, Maria Inácia Rezola e Paula Borges Santos, Porto, Livraria Figueirinhas, 2018, vol. 7, pp. 63-72. A presente versão, revista e abreviada, foi originalmente publicada na revista Crítica XXI, nº 11, Primavera de 2025, pp. 79-91)

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COMENTÁRIOS (de 14)

UIROS UERAMOS: Obrigado, Rui, por trazeres a público mais uma parte do lado negro do pós-25 de Abril, tantas vezes branqueado. A verdade é que Portugal esteve muito mais perto de resvalar para uma deriva revolucionária de matriz comunista do que hoje muitos querem admitir. Tenho sérias dúvidas de que, sem a chegada de cerca de 600 mil portugueses brancos expulsos de África, muitos deles profundamente marcados pela hostilidade ao comunismo, o país não tivesse perdido o equilíbrio e caminhado para uma espécie de Cuba da Europa. Também vale a pena lembrar que, quando se fala desse período, há muitos testemunhos e memórias sobre saneamentos, listas para prender, pasme-se até os vizinhos, num clima de intimidação brutal dos comunistas, e isto muito para lá de Lisboa. Finalmente acabou a versão edulcorada que durante anos se quis impor.                     PAULA BARBOSA: Esmagador !!!!!!!!!!!!!! Conheci tantos dos presos e maltratados. A verdadeira História do 25 de Abril está por fazer. A que ensinam nas escolas, é do género, dos Três Mosqueteiros.  Só de ver a foto deste canalha que tanta gente fez sofrer, dá-me vómitos,              FRANCISCO ALMEIDA: No dia 28 de Setembro dirigia-me do Ribatejo a Lisboa para participar na manifestação de apoio ao general Spínola. A Ponte almirante Américo Thomaz estava fechada por barricadas perto da saída para Vila Franca. Estava sozinho e conduzia um Mini, já velhote. Estacionado na fila apareceu um militante, com uma braçadeira qualquer que me fez sinal para baixar o vidro, o que fiz dizendo: pode ir-se embora que eu não compro nada. Voltei a subir o vidro enquanto o carro era cercado por indivíduos com ar agressivo. Finalmente apareceu um sargento de Marinha, armado, que me intimou a sair do carro e identificar-me. Obrigou-me a entregar a carteira e quando viu o bilhete da tourada de dois dias antes que exibiu aos civis, obrigou-me a encostar-me ao carro para me revistar. Entretanto tinham entrado no carro e revistado tudo, estragando um banco porque uma mola solta foi tomada por eventual arma escondida. No porta-bagagens arrancaram o forro e desmontaram o pneu sobressalente.  Passadas talvez duas horas o mesmo sargento veio autorizar-me a inverter a marcha e a regressar a casa. Quando lhe pedi que me devolvesse o bilhete para o Campo Pequeno, olhou-me como se eu estivesse louco mas, após um ou dois minutos, meteu a mão no bolso e colocou o bilhete na mão que eu mantinha estendida. Ainda hoje tenho o bilhete.             PAULO SIMÕES: Lembro-me bem desse 28 de Setembro (dia do meu aniversario), era um petiz, voltava da terra dos meus avós de carro com os meus pais. Estivemos horas à espera para passar nas portagens de Vila Franca de Xira, quando finalmente conseguimos chegar as ditas portagens os kamaradas de plantão andaram a apalpar os sacos com batatas e outros produtos alimentares. Pensavam que trazíamos armas com certeza.                PERTINAZ: Otelo nem devia ter direito a que as suas fotos fossem publicadas… criminoso do pior…!!!                  JOSÉ LÚCIO: Excelente Ensaio! Seria útil enviar uma cópia ao Dr António Costa para ver se ele aprende alguma coisa de história política portuguesa.                       JORGE PEREIRA: Indesculpável o CRIME de Soares: ter amnistiado os criminosos                       ROSA GRAÇA: Pois. Grande Rui Ramos.                     PAULO SILVAPAULO SIMÕES: Uma história muito parecida. Regressávamos a casa de uma visita a uns familiares que residiam no interior. Por uma estrada que podia conduzir à capital, às tantas, à saída de Alpiarça surge uma barragem composta por populares de caçadeiras na mão que nos mandam parar, fazendo sair o condutor, o meu pai, para lhes abrir a mala do carro. Quando lhes pergunta onde está a autoridade, um responde em voz alta: “A autoridade aqui somos nós!” Alguns minutos de tensão antes de seguirmos viagem; eu e a minha irmã mais nova na parte de trás olhávamos em volta; ao lado outros carros eram parados e revistados… As armas foram sempre a desculpa que os camaradas e compagnons de route deram para estas acções de sabotagem e intimidação.                       LUÍS ANTÓNIO: Recordo que neste período estiveram presos no RALLIS dois militares (Marcelino da Mata e Rebordão de Brito), os quais foram vítimas de espancamentos selvagens e humilhações. Estes militares foram presos por vingança devido à participação destemida e heróica na Operação Mar Verde.                        MARIA VILHENA: Por ter tido tristes recordações, no pós 25 de abril, apesar de ser uma jovem no início da adolescência, nunca consegui chegar ao fim dos espectáculos das comemorações. Saí sempre, principalmente quando começava a tocar a música Grândola...! Era difícil aceitar e apagar as más memórias que tinha vivido, com as ocupações e os maus tratos à famíliia. O medo pelas perseguições era enorme, as noites eram assustadoras, principalmente na zona do Alentejo. Jamais esquecerei quem vi partir e ser acusado sem qualquer julgamento e até aos dias de hoje, ninguém sabe. Por tudo isso, não consegui nunca acreditar, nem aceitar que a liberdade não era aquilo que apregoavam.                A SAMEIRO:  O crime é curial se for canhoto!!!  In-Natalia Correia Epístola aos lamitas