quinta-feira, 30 de abril de 2026

Os princípios e os fins


Farinha do mesmo saco. Humano. Exaustivo.

Lições de Budapeste

Meloni não ocupará o lugar de Orbán no movimento conservador internacional porque os dois modelos são fundamentalmente distintos, distinções que devem ser motivo de profunda reflexão à direita.

ANDRÉ AZEVEDO ALVES Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

OBSERVADOR, 29 abr. 2026, 00:21

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Afinal, a Hungria não era uma ditadura. Depois de 16 anos de Orbán no poder, o Fidesz teve uma derrota eleitoral clara numa votação livre e justa. A transição democrática e pacífica do poder na Hungria deve ser acolhida como uma mudança saudável depois de um longo período de governação por parte de um partido e do seu líder – que naturalmente gera desgaste, cansaço e, claro, vícios. Há aliás paralelismos vários com o que aconteceu em Portugal com o PS e António Costa entre 2015 e 2024 (Costa que, curiosamente, mereceu o apoio de Orbán para Presidente do Conselho Europeu, apoio esse que foi negado por Georgia Meloni).

Os resultados das eleições na Hungria devem motivar muita reflexão, tanto para os críticos mais ferozes do regime húngaro como para a direita “iliberal” orbanita. Relativamente ao primeiro grupo, vale a pena salientar o que resumiu Eric Zemmour: “A derrota de Orbán não é nem uma derrota ideológica, nem uma derrota política. O seu rival vitorioso vem do mesmo partido. Ele não é nem de esquerda, nem centrista. (…) O futuro nos dirá se ele cumpre as suas promessas de campanha e se continuará a ser o defensor da soberania do seu país. Peter Magyar venceu opondo-se ao poder sobre o favoritismo e a corrupção. Mas ele confirma todas as posições de Orbán sobre a defesa da civilização europeia. Orbán certamente salvou o seu país da invasão migratória e dos delírios woke da Comissão Europeia. Após ser tratado como um ditador por todos os meios de comunicação ocidentais, ele deixa o poder após uma derrota nas urnas. Como um democrata.”

De facto, não só Magyar fez toda a sua formação e trajectória política no Fidesz (entre 2002 e 2024), partido de que foi um dos mais destacados quadros até sair em ruptura com Orbán, em 2024, como é razoável afirmar que corporiza a intenção de um retorno aos princípios ideológicos centrais do próprio Fidesz. A revolta dos eleitores húngaros foi motivada principalmente pela percepção de que Orbán traiu os princípios com base nos quais conquistou e manteve o poder – e não contra esses princípios em si mesmos.

A direita iliberal fã (demasiadas vezes acriticamente…) de Orbán tem por isso também fortes razões para reflectirComo bem sintetizou Gonçalo Nabeiro: “Orbán montou um regime – em democracia, é certo – iliberal (ou pós-liberal). Poderá parecer um oxímoro, mas a Hungria mostrou que é uma fórmula de poder que pode ser viável. Afinal, o Fidesz manteve-se no poder 16 anos através de eleições e, nas últimas legislativas que serviram como teste do algodão, abandonou-o tranquilamente. Com base nisto, é difícil de disputar que a Hungria é uma democracia. Mas é ao mesmo tempo iliberal porque dinamitou pilares sem os quais as democracias liberais colapsam: para além da colonização dos tribunais, colocando em risco o Estado de direito e a separação de poderes, o Fidesz colonizou também, seguindo a lógica gramsciana de hegemonia cultural, os media e a sociedade.

Orbán não perdeu, no essencial, a batalha das ideias na Hungria – ele perdeu a confiança dos eleitores húngaros pela forma como abusou do poder. Além da questão central da corrupção, as principais diferenças entre Magyar e Orbán situam-se no domínio da política externa. Embora céptico relativamente ao poder centralizado em Bruxelas, Magyar deseja normalizar as relações com a UE e, acima de tudo, quebrar com a percepção de uma subordinação humilhante de Budapeste a Putin.

É certo que, no que diz respeito à interferência externa na Hungria, a própria UE também não fica nada bem na fotografia. Perante a (uma vez mais…) lamentável postura de Ursula von der Leyen, é impossível não indagar em que posição ficará a Presidente da Comissão Europeia caso o Rassemblement National conquiste o poder em França. Mas a verdade é que JD Vance, enquanto Vice-Presidente dos EUA, não era certamente o melhor agente para denunciar essa interferência externa – como fez em actos de campanha do Fidesz em Budapeste.

A derrota de Orbán marca também a derrota de um dos principais modelos de conservadorismo na política europeia actual, como bem analisa Juan Ángel Soto. Esses dois modelos partilham vários elementos ideológicos comuns – a crítica ao progressismo e ao wokismo, a defesa de uma abordagem mais restritiva à imigração, a preocupação com temas demográficos, culturais e educacionais – mas divergem na abordagem estratégica e, frequentemente, na política externa.

O primeiro modelo teve inegavelmente em Viktor Orbán o seu principal mentor e protagonista. Curiosamente, partindo de uma posição firmemente liberal clássica, Orbán evoluiu (?) para principal arquitecto de uma direita assumidamente “iliberal” que optou por desafiar radicalmente o consenso ocidental até então dominante. Simultaneamente, Orbán dedicou recursos muito consideráveis à construção de uma vasta e bem financiada rede internacional de promoção da sua agenda identitária e iliberalcom considerável (mas talvez precário) sucesso. No plano externo, este modelo de conservadorismo é acima de tudo pragmático e aposta num novo mundo multipolar – o que justifica a interacção (e por vezes articulação) próxima com actores geopolíticos como a Rússia e a China (em linha com a estratégia desenvolvida pelo influente Balázs Orbán).

O segundo modelo encontra em Giorgia Meloni o seu principal expoente. Igualmente conservador e igualmente crítico de muitos aspectos do consenso dominante, este segundo modelo tem diferenças estratégicas profundas e fundamentais com o primeiro. Mais reformista do que revolucionário e sem rejeitar as instituições liberais no seu todoMeloni procura redefinir e reformar o sistema a partir de dentro, através de uma combinação de pressão e negociação. Um bom exemplo disso mesmo é a forma como Meloni está a conseguir liderar a reorientação da política europeia relativamente à imigração. Também na política externa o contraste é evidente: Meloni mantém-se firmemente alinhada com os interesses de longo prazo da aliança transatlântica, sem prejuízo da afirmação de uma autonomia estratégica relativamente a quem ocupa a Casa Branca – como ainda recentemente fez relativamente à guerra contra o Irão ou à polémica entre Trump e o Papa Leão XIV.

Meloni não será candidata a ocupar o lugar de Orbán no movimento conservador internacional precisamente porque os dois modelos são fundamentalmente distintos. Mas essas distinções devem ser elas próprias motivo de profunda reflexão à direita. Em especial para quem se sente tentado a achar que os (bons) fins justificam o recurso aos (maus) meios. Citando novamente a excelente análise de Gonçalo Nabeiro“E esta é a lição que os conservadores, europeus e americanos, devem retirar do legado de Orbán. O combate contra o Leviatã de Bruxelas e contra o wokismo deve ser visto como um meio para chegar ao objetivo final – um regime de liberdade ordenada – e não um fim em si mesmo. E para que a crítica conservadora à colonização progressista do Estado faça sentido e conduza a um mundo melhor e mais livre, os conservadores não devem transformar-se, quando têm acesso ao poder, num espelho da esquerda. (…) Porque, se assim for, andaremos todos à mercê de quem, em determinado momento, detém o poder; uns gostando mais, outros menos. E, com isso, acabamos por perder todos.”

Que não haja ilusões: são escolhas difíceis, especialmente em contextos nos quais a esquerda continua praticamente hegemónica culturalmente e na ocupação das instituições, mas a defesa sustentada e sustentável da liberdade ordenada não se compadece com atalhos “iliberais”, por mais tentadores que possam ser.

HUNGRIA        MUNDO 

 

COMENTÁRIOS (de 14)

José Tomás: Parece que o cronista alinha no consenso de que a esquerda (o "progresso) tem o direito à "hegemonia cultural, [d]os media e [d]a sociedade" (da academia aos tribunais), mesmo que seja copiosamente derrotada nas urnas pela direita (o "retrocesso"). Aceita que disputar-lhe esse direito é "iliberal". Tusk mandou a polícia evacuar a televisão pública, Magyar encerrou-a - e bem, pois eram meio de propaganda ideológica pagos por todos os contribuintes em benefício de alguns - mas o que se diria se um governo de direita fechasse a RTP ou a TVE? Não tenho dúvidas: seria a prova do regresso da censura e do fascismo. E o cronista concordaria, suponho.

Antonio Sennfelt: Um artigo perfeitamente dispensável por não dizer uma palavra sobre a cumplicidade (para ser simpático!) do Sr Orbán para com a Rússia do Sr. Putin! E muito menos da falta de decoro  (para ser simpático e para não falar em traição!) do seu então ministro dos negócios estrangeiros que sistematicamente passava dados confidenciais e secretos da UE para o Kremlin!  

Manuel Lisboa: A primeira ministra italiana tem demonstrado, desde 2022, ser, politicamente, bastante diferente que o (quase ex) homólogo húngaro. Talvez a sua atitude e propaganda antes de assumir a chefia do governo tivesse alguns dos ingredientes comuns a outros partidos nacionalistas e radicais de direita, europeus. Depois, a Itália, obviamente, não é a Hungria. E até ao momento o governo italiano tem evitado escândalos, designadamente casos ligados a corrupção ou a nepotismo evidente. Quanto à imigração, sem excessivo ruído, acalmou as chamadas percepções e, sobretudo, parece ter encontrado alternativas viáveis nas redondezas do território italiano.

Por outro lado, a líder italiana tem sabido de forma hábil manter relações com vários dirigentes de outros sectores políticos conhecidos pelas suas posições centristas ou tradicionalmente conservadoras. Internacionalmente, o actual governo de Roma, além de revelar distância saudável e higiénica  em relação a Moscovo, apoia Kiev; no âmbito da UE tem procurado agir de maneira discreta; não mostra pruridos no contexto da NATO; e, até recentemente, ia conseguindo fluidez no relacionamento com os EUA, apesar da irascibilidade do chefe da administração central de Washington. 

Desta forma, possivelmente, será o próximo primeiro ministro húngaro a imitar a astuta homóloga italiana.          

Paulo Machado: A esquerda não elegeu um único deputado, e a direita é que deve reflectir? Boa malha.

Manuel Magalhaes: A esquerda deve grande parte da sua erradamente considerada hegemonia cultural e ocupação das instituições,  sobretudo à nefasta influência de uma comunicação social mal preparada e desleal para com a sua própria profissão, que tudo fazem para para perverterem a opinião pública!!!

Kindu: Não é bem assim. Foi preciso uma enorme vaga de fundo popular para ultrapassar todos os obstáculos e haver alternância. Numa democracia a alternância deve ser normal, sem obstáculos, sem problemas.

José B Dias: Muito elucidativo o facto de nunca ninguém referir que também Angela Merkel esteve 16 anos no Poder ... e não recordo alguém a referir-se a tal como sinónimo de ditadura!

Francisco Almeida: Considerados isoladamente, nada a opor aos argumentos e conclusões do autor, Mas falhou o essencial. A Hungria estava dilacerada entre duas dependências antagónicas: energia russa e fundos de Bruxelas. E, antes da corrupção e da centralização de poder, foi certamente esse o principal motivo da clara escolha do eleitorado. Mais do que Magyar manter as promessas - vai ser curioso ter de se aproximar politicamente da ex-mulher e ex-ministra da justiça - estou curioso em ver como vai Bruxelas, assegurar ou tolerar o abastecimento energético da Hungria que, nem tem portos nem oleodutos alternativos.

Amiguinhos


É o que eles são, Trump e Putin, felizmente para o mundo, que eles bem amam também, como o provaram e aqui se confirma, no estreitamento telefónico entre eles, e mesmo presencial, as guerras agora já são outras e até se difundiram, além de que há sempre datas comemorativas, que abrandam as pessoas, mesmo as russas.

Ucrânia. Putin propõe cessar-fogo a 9 de maio, dia em que Rússia celebra vitória em 1945.

"Trump apoiou activamente esta iniciativa, referindo que esse feriado assinala “a nossa vitória partilhada", disse o conselheiro diplomático. Desde 2023 que a Ucrânia também celebra essa data.

AGÊNCIA LUSA, Texto

OBSERVADOR, 29 abr. 2026, 23:46

Trump disse ter tido uma conversa "muito boa" com o homólogo russo, indicando que nela defendeu um cessar-fogo na Ucrânia.

O Presidente russo propôs esta quarta-feira um cessar fogo na Ucrânia a 9 de Maio, dia em que a Rússia celebra a vitória sobre a Alemanha nazi em 1945, anunciou o Kremlin.

A presidência russa indicou que o Presidente norte-americano, Donald Trump, com quem Vladimir Putin manteve esta quarta-feira uma conversa telefónica, apoiou a iniciativa.

Na conversa com Trump, Putin afirmou estar pronto para decretar um cessar-fogo durante o período das celebrações do Dia da Vitória, declarou à comunicação social o conselheiro diplomático, Iuri Ushakov.

“Trump apoiou activamente esta iniciativa, referindo que esse feriado assinala a nossa vitória partilhada”, acrescentou Ushakov.

Desde 2023, a Ucrânia celebra a 08 de maio a vitória na Segunda Guerra Mundial, como os países ocidentais.

Trump disse ter tido uma conversa “muito boa” com o homólogo russo, indicando que nela defendeu um cessar-fogo na Ucrânia.

De acordo com o chefe de Estado norte-americano, a conversa centrou-se sobretudo na guerra entre a Rússia e a Ucrânia, ao passo que o Kremlin declarou que os dois líderes “deram especial atenção à situação no Irão e no Golfo Pérsico”.

Segundo o conselheiro diplomático de Putin, o Presidente russo alertou o homólogo norte-americano para as consequências nefastas” de uma retomada das acções militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão.

Na conversa telefónica entre os dois líderes, Putin “sublinhou as consequências inevitáveis e extremamente nefastas, não só para o Irão e os seus vizinhos, mas também para toda a comunidade internacional, se os Estados Unidos e Israel recorrerem novamente a acções militares” contra o Irão, indicou Ushakov à comunicação social.

Guerra na Ucrânia 

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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Tudo tão…


Vergonhoso assim? Desconfianças, a descambar sempre para deficiências morais, alheias ou nossas…  Já não há lugar para valores de nobreza, nestas questões monetárias… ou é pessimismo excessivo?

 

Transparência. Estamos a fazer o mesmo que a UE ou criámos um reality show?

Discurso do Presidente da Assembleia da República no 25 de Abril traçou um retrato de escrutínio excessivo. Mas a legislação diz outra coisa — e alguns especialistas falam em agenda de "retrocesso".

28 abr. 2026, 21:33

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Índice

Legislação nacional além das práticas europeias?

Como é feito o escrutínio na Comissão Europeia.

As dificuldades de operacionalização das instituições.

Uma agenda para o recuo dos mecanismo de controlo da transparência?

 

Afinal, há um escrutínio regular da democracia e dos políticos em Portugal, em nome da transparência, ou, também em nome da transparência, já se foi demasiado longe e esse escrutínio derivou numa espécie de “reality show”, como defendeu José Pedro Aguiar-Branco? O discurso do Presidente da Assembleia da República (PAR) na cerimónia solene do 25 de Abril, no último sábado, criou ondas de choque na política portuguesa, cujas águas já andavam algo agitadas desde a recente proibição da consulta pública dos nomes dos doadores dos partidos.

Aguiar-Branco salientou que, actualmente, os políticos são “culpados até prova em contrário” e que se aceitou “a ideia de que os políticos estão sempre a esconder qualquer coisa”. Num discurso que visaria desmistificar a ideia de uma “casta” política distante do “país real”, o Presidente do Parlamento acabou por considerar que se cedeu a “chavões”, comocombater os conflitos de interesse” ou “acabar com as portas giratórias”. O resultado do trabalho dos últimos anos nesta área da transparência, de acordo com a segunda figura política do país, levou ao encerramento da política em si mesma.

Em Portugal, o exercício individual da actividade política é fundamentalmente regulada pelo Regime do Exercício de Funções por Titulares de Cargos Políticos e Altos Cargos Públicos, aprovado em 2019, secundado ainda pelo Estatuto dos Deputados, no estrito âmbito do Parlamento. A fiscalização a nível institucional recai na Entidade para a Transparência — que resultou das alterações legislativas de 2019, mas só viria a entrar efectivamente em funcionamento em março de 2024 — e, de forma mais secundária, na Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados.

Muito daquilo que se encontra na legislação nacional sobre a transparência, a fiscalização de conflitos de interesses ou impedimentos e o combate às portas giratórias surge em linha com o que se encontra definido a nível comunitário, tanto para o Parlamento Europeu, como para a Comissão Europeia. Por isso, os especialistas ouvidos pelo Observador sobre esta matéria colocam em causa a ideia de excessos em nome da transparência alegada por Aguiar-Branco. E mesmo que se assuma que possam existir aspectos a corrigir em termos de fiscalização ou até aproveitamentos populistas, os especialistas alertam para uma agenda de retrocesso da transparência.

Legislação nacional além das práticas europeias?

“Não bastava declararmos rendimentos. Era preciso declarar publicamente se a mulher ou marido é rico, se o primo é pobre, se o enteado é empresário. Se a casa tem elevador, quantas casas de banho, se tem empréstimo, se o empréstimo é com taxa fixa, se é bonificado. Se o filho anda no colégio, se é o sogro que paga o colégio, se vai ao hospital privado ou ao público e, indo ao hospital, que tipo de pulseira lhe dão. Tornámos, tantas vezes, a vida política num reality show.”

As palavras de Aguiar-Branco no discurso de sábado expressaram supostas obrigações que não são exigidas aos titulares de cargos políticos. Para verificar isso, basta voltar à legislação de 2019, que impôs o novo modelo de apresentação da declaração única de rendimentos, património, interesses, incompatibilidades e impedimentos.

 Aguiar-Branco foi o penúltimo a discursar na cerimónia do 25 de Abril

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Refere o artigo 13.º que os titulares de cargos políticos e altos cargos públicos devem indicar na respetiva declaração (a submeter no prazo de 60 dias a partir do início de funções) o total de rendimentos brutos com indicação da sua fonte, a “descrição dos elementos do seu activo patrimonial, de que sejam titulares ou cotitulares”, a descrição do seu passivo, eventuais promessas de vantagem patrimonial, cargos sociais nos três anos anteriores e filiação em entidades associativas. Em relação a impedimentos e interesses, o documento deve igualmente conter menção a cargos, funções ou actividades em entidades públicas e privadas e sobre eventuais interesses financeiros relevantes que possam gerar pagamentos directos ou indiretos.

Por último, só estão contemplados dois aspectos em que os visados têm de identificar aspectos que possam envolver pais ou filhos:

Nos impedimentos que possam envolver empresas em que os titulares de cargos estejam presentes mediante esses vínculos familiares (e apenas com participação superior a 10% ou cujo valor seja superior a 50.000 euros);

E na identificação em contratos públicos de empresas nas quais os titulares de cargos detenham uma relação familiar por via do ascendente, descendente ou cônjuge.

Ou seja, não há qualquer obrigatoriedade de indicar a escola dos filhos, as condições de um empréstimo bancário ou o hospital usado.

O Presidente da Assembleia da República fala das cedências ao populismo. Imagine-se a janela de oportunidade para levantar suspeições ou teorias de conspiração ou notícias falsas se não tivéssemos acesso de facto às informações deles… ficaria tudo sujeito à suspeição”, afirma a politóloga e investigadora Susana Coroado.

Para a ex-presidente da organização Transparência e Integridade não existe um excesso de transparência e o acesso às declarações dos titulares de cargos políticos é até mais difícil actualmente.Até há pouco tempo Portugal era o país que menos cumpria as recomendações do GRECO [Grupo de Estados contra a Corrupção]. Já aí podemos estabelecer o excesso de transparência ou alinhamento com as boas práticas internacionais”:

"Até há pouco tempo Portugal era o país que menos cumpria as recomendações do GRECO [Grupo de Estados contra a Corrupção]. Já aí podemos estabelecer o excesso de transparência ou alinhamento com as boas práticas internacionais”

Susana Coroado, politóloga e investigadora

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Como é feito o escrutínio na Comissão Europeia

E estarão as disposições nacionais além daquilo que é praticado a nível europeu? Veja-se, por exemplo, o Código de Conduta da Comissão Europeia. “Os membros da Comissão devem declarar quaisquer interesses ou activos, de natureza financeira ou outra, susceptíveis de originar um conflito de interesses no exercício das suas funções ou afetar de qualquer outro modo o exercício dessas funções. Para efeitos do presente artigo, os interesses de um membro da Comissão podem incluir os interesses dos seus cônjuges, parceiros e filhos menores”, lê-se no artigo 3.º.

O mesmo artigo dispõe ainda que a declaração deve indicar os “interesses financeiros, incluindo os activos e passivos que possam dar origem a um conflito de interesses ou, em qualquer caso, que representem investimentos de valor superior a 10.000 euros”, e que essa obrigação se aplica também aos interesses “de cônjuges, parceiros e filhos menores, sempre que possam ser considerados susceptíveis de dar origem a um conflito de interesses”.

João Paulo Batalha, vice-presidente da associação Frente Cívica e especialista em políticas de transparência, vai mais longe nas críticas ao líder do Parlamento. “É um discurso falacioso, para não dizer mentiroso, porque deturpa os mecanismos de controlo. O que é perigoso. Quem ouvia Aguiar-Branco pensaria que Portugal tem regimes de controlo de interesses estratosféricos ou além das boas práticas internacionais, que somos o pináculo da transparência. E não somos. Portugal não tem um problema de excesso de transparência”, enfatiza.

Outro ponto de comparação, desta feita com o Parlamento Europeu. O Código de Conduta dos eurodeputados estabelece que estes têm de submeter “uma declaração de interesses privados ao Presidente até ao fim do primeiro período de sessões subsequente às eleições para o Parlamento Europeu (ou, no decurso da legislatura, no prazo de 30 dias de calendário após a sua entrada em funções)”. Estes interesses devem ser discriminados de “forma pormenorizada e precisa”, agregando todas as informações sobre atividades profissionais exercidas nos três anos anteriores, bem como a participação em empresas, organizações não-governamentais ou associações e hipotéticos apoios financeiros.

 Sessão do Parlamento Europeu

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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 “Existe conflito de interesses quando o exercício do mandato de um deputado ao Parlamento Europeu no interesse público pode ser indevidamente influenciado por motivos relacionados com a sua família, vida afetiva ou interesse económico, ou qualquer outro interesse privado, direto ou indireto”, explicita ainda o documento anexo ao Regimento dos Deputados do Parlamento Europeu.

Perante a comparação de normas nacionais e europeias, o advogado Diogo Santana Lopes considera ser “equilibrado aquilo que se exige” aos titulares de cargos políticos. “Outra questão é a operacionalização, a excessiva burocratização. Isso poderia ser automatizado. A questão do voyeurismo tem a ver com a forma como é tratada essa informação”, sublinha o advogado, que é também membro da divisão anticorrupção da OCDE e especialista em ‘compliance’. “Esta obrigação da declaração de interesses serve muito mais para o cruzamento de informação e não para o voyeurismo”, complementa.

As dificuldades de operacionalização das instituições

Conforme mencionado anteriormente, a Entidade para a Transparência demorou quase quatro anos para sair do papel e entrar em pleno funcionamento com a respetiva plataforma informática, autonomizando-se do que antes era realizado junto do Tribunal Constitucional. Esse atraso terá sido o prenúncio das dificuldades e das dores de crescimento que enfrenta, sem meios suficientes para a fiscalização de tantas declarações. Mas também a transparência das informações e, sobretudo, o seu acesso trouxeram novos desafios.

O regime em geral é alinhado com o que é feito na União Europeia e muita da pressão tem vindo da legislação europeia. Se algum problema tem é que circunscreve as leis à prática regulatória e não age na dimensão institucional”, sustenta João Paulo Batalha. Sem deixar de fora as questões éticas e aludindo até ao caso Spinumviva como “motivação” para o discurso de Aguiar-Branco, o especialista em integridade e políticas anticorrupção realça a necessidade de algumas correções na fiscalização, mas não no sentido preconizado pelo PAR.

“Os próprios políticos estão entregues a si próprios. As instituições de controlo só verificam legalidades, não propõem remédios. E temos um universo grande de elementos e não há recursos suficientes para verificar todas. Devia começar-se por fiscalizar por padrões de risco, porque nunca será possível verificar tudo. Há um problema no desenho das instituições. Os problemas que se levantam nunca se resolvem, porque se discute a ética numa questão de legalidade ou ilegalidade”, acrescenta.

"O regime em geral é alinhado com o que é feito na União Europeia e muita da pressão tem vindo da legislação europeia. Se algum problema tem é que circunscreve as leis à prática regulatória e não age na dimensão institucional"

João Paulo Batalha, vice-presidente da Frente Cívica

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Já Susana Coroado destaca as limitações impostas ao escrutínio com a reserva sobre determinado tipo de informações que antes se encontravam nas declarações dos titulares de cargos políticos. “É muito mais difícil aceder às declarações. Há várias coisas que não se sabem. Por exemplo, não se pode saber em que sociedade de advogados é que o PAR trabalhava, embora essa mesma sociedade não tenha problema em fazer publicidade de que o seu fundador é Presidente do Parlamento. Temos mais transparência na sociedade de advogados de Aguiar-Branco do que na Entidade para a Transparência”, ironiza.

Por outro lado, critica a arquitectura de sanções desenhadas para as falhas, omissões ou incumprimento de obrigação de declaraçãoque são genericamente mais duras do que a nível comunitário —, considerando-as “gravíssimas” por poderem levar à perda de mandato ou até à prisão.Não temos sanções menores para violações menos graves. E como são tão graves, não há coragem para implementar. Se tivéssemos cumprido a lei, se calhar o António Damásio, que se recusou a entregar a declaração no TC, teria ido preso. Queremos isso?”, questiona.

Diogo Santana Lopes subscreve algumas das críticas que têm sido feitas ao actual modelo de fiscalização, ao notar que o Estado já detém muita da informação solicitada aos titulares de cargos políticos na respectiva declaração única. Por isso, defende que “o exagero não decorre da lei”, mas, por vezes, da forma como é aplicada na prática, apelando a uma reflexão.

“É um procedimento pesado em que se tem de compatibilizar a transparência e o escrutínio saudável de potenciais diferenças de património e aquilo que é uma burocratização excessiva. Existe uma necessidade de reflexão sobre o cruzamento dos dados e se deve ser automático ou depender de um pedido da Entidade para a Transparência”, observa. O advogado manifesta ainda a expectativa de que a Entidade para a Transparência “tenha efectivamente meios para fiscalizar em vez de procurar só erros formais”, apontando a um cruzamento da informação sem que desapareça a obrigatoriedade da sua apresentação.

"Existe uma necessidade de reflexão sobre o cruzamento dos dados e se deve ser automático ou depender de um pedido da Entidade para a Transparência"

Diogo Santana Lopes, advogado e especialista em 'compliance'

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Uma agenda para o recuo dos mecanismo de controlo da transparência?

Uma das críticas mais vincadas do discurso de sábado do Presidente da Assembleia da República visou um suposto voyeurismo e a ideia de uma transparência assente em medidas de cariz populista. E essa é, precisamente, uma das maiores críticas que os especialistas ouvidos pelo Observador dirigem a Aguiar-Branco. Embora se reconheça que possam registar-se usos mais sensacionalistas ou voyeuristas das informações declaradas pelos titulares de cargos políticos nos meios de comunicação social, o populismo, sustentam, não está nas declarações impostas aos políticos.

“A instrumentalização populista do tema existe, mas não a partir das obrigações de transparência. Existe porque os problemas são levantados e não são resolvidos. Há duas maneiras de resolver: ou levantamos e resolvemos os problemas, ou deixamos de levantar problemas, como aponta Aguiar-Branco. É aí que o populismo se aproveita de forma oportunista”, refere João Paulo Batalha.

Sobre o populismo nesta matéria, Susana Coroado tem uma visão diversa daquela que Aguiar-Branco apresentou, lançando um apelo a um maior respeito pela consciência crítica dos cidadãos. “Por vezes, há muito este queixume de que os cidadãos estão sempre com suspeição dos políticos, mas dá também a ideia de que o poder político vive com suspeição sobre os cidadãos… O Presidente da Assembleia da República não quer que haja diferenças entre governantes e governados, mas depois trata as pessoas como tontinhas, que caem todas no populismo”, frisa.

Quanto à invocação de dados pessoais como argumento para limitar a divulgação de determinadas informações, Diogo Santana Lopes salienta a importância de compatibilizar as regras do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) e as necessidades de transparência. “Tudo aquilo que seja restringido pelo RGPD terá de ser salvaguardado, mas é verdade que às vezes (o RGPD) serve como fundamento confortável para não disponibilizar determinada informação. Mesmo agora com o financiamento dos partidos, esta interpretação da proteção dos dados vai além da legislação, porque a ideia não era impedir o escrutínio democrático”, resume.

 Hugo Soares e José Pedro Aguiar-Branco

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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As palavras de Aguiar-Branco não são uma completa novidade. Já no passado o Presidente do Parlamento demonstrou uma visão crítica do controlo dos políticos. Porém, parecem também enquadrar-se numa visão mais abrangente sobre esta matéria da transparência, com as recentes críticas do líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, a defender em entrevista ao Expresso a necessidade de reformular a legislação ou o recente parecer na Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) que veio limitar a identificação dos doadores dos partidos.

“Temo que estejamos num caminho de retrocesso da transparência. Acho que já estamos, na prática”, analisa Susana Coroado. A ex-presidente da organização Transparência e Integridade realça que “o PSD está claramente com vontade” de mudar as normas nesta área e deixa um aviso: “Já sabemos menos hoje do que sabíamos em 2019 acerca do património financeiro dos titulares de cargos políticos”.

Para João Paulo Batalha, “há uma agenda por parte do Governo” e que, no seu entender, começa já a ganhar respaldo em certas entidades públicas para “gerar um consenso no recuo da transparência” sobre as obrigações declarativas. “E isso é muito alarmante. Achar que o país aceita este retrocesso só vai servir para aprofundar a desconfiança dos portugueses em relação aos políticos”.

Em sentido distinto, Diogo Santana Lopes reconhece “preocupações genuínas” sobre esta matéria e que apontam uma conjugação de “devassa e burocracia”, considerando serem um prenúncio de alterações legislativos num futuro próximo. “Sou menos céptico ou menos cínico. Não existe necessariamente uma agenda contra a transparência, porque, por exemplo, finalmente se conseguiu avançar na legislação do lóbi, mas existe a ideia de um reequilíbrio do sistema, em que se entende que se foi longe de mais. Não acho que seja uma cruzada mascarada contra a transparência“.

POLÍTICA        JUSTIÇA        TRANSPARÊNCIA        ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA        ESTADO

COMENTÁRIOS:

Nuno Filipe: actualmente, os políticos são “culpados até prova em contrário” ”claro que sim, puseram-se a jeito, Excesso de políticos desde autarcas a deputados e comissoes de coordenação e afins. É e tem sido notório o enriquecimento dos que entram na política enquanto que o “povo” leva migalhas (quando as há). Não sou comuna mas o que é verdade é que eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada. se não fossem para a política para se encherem tinham de trabalhar e muitos dos políticos trabalhar só sabem trabalhar com a boca (e não estou a referir à profissão mais velha do mundo). Viva Portugal 🇵�� (às vezes é NOT)

Paulo Valente: Não existem políticos, inteligentes e honestos. Se for político e honesto, não é inteligente (leia-se astuto) Se for político e inteligente, não é honesto certamente. Se for honesto e inteligente, não se mete na política. E depois de ler o artigo pergunto: e onde metemos o presidente vida república? Seguro é, no mínimo, abastado, e temos seus negócios. Alguém o escrutinou?

Pedro Pinto: Analisar o discurso do PAR à luz da lei é um exercício estéril, porque tenho para mim que não foi esse de todo o propósito do discurso do PAR. O que ouvi no discurso do PAR foi o fito de expor o discurso populista, político e mediático, à volta da transparência. E os efeitos perniciosos que isso cria. De suspeição permanente, de culpado até prova em contrário, de que são todos farinha do mesmo saco. E nesse discurso, não foi o quadro legal que esteve em causa, foi o ruido à volta dele e uma chamada à reflexão de quem contribui para esse ruido.

Concedam lá que Aguiar Branco (que por acaso até é jurista) sabe que não é preciso declarar o hospital onde se vai, mas todos temos memória do recente episódio de saúde do ministro das finanças, em que o importante era saber que tipo de pulseira teve quando entrou nas urgências, para perceber se teve ou não tratamento de favor … haja paciência.

João A: Coitadinho do Aguiar Branco que quer ser político, figura pública, gerir os negócios do país e fazer-se pagar pelos seus serviços. Mas não quer ser escrutinado, não quer dizer quanto ganha, quais os bens que tem, com quem faz negócios, o tipo de vida leva, quem lhe dá regalias, e por aí vai... Não quer ser incomodado, quer privacidade. È preciso ter lata.

jose ferreira: Na vida publica do designado mundo ocidental, o grande problema está no poder judicial e nos midia. Não são regulados, controlados nem fisclizados, não sao minimamente escurtinados, e se avalizarmos com frieza e racionalidade estes dois, judicial e midia bem, são piores que os políticos.

Alcochete4@ > Portugal ParaSempre: Sinceramente, considero que nos últimos 3 anos o nível de assertividade e credibilidade da Política subiu consideravelmente em Portugal. O Governo actual com o PSD/CDS demonstra mais determinação, efectividade, resiliência e bom senso do que o anterior governo do PS e GERINGONÇA.  Nem vale a pena comparar os desafios do actual Governo e Primeiro Ministro Montenegro com os problemas que António Costa enfrentou. 

 

Espanto

 

Tal liberdade crítica, relativamente a uma esquerda prestigiada desde os píncaros “abrilinos” do anti-fascismo por cá …

A esquerda e a Santinha da Ladeira

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha.

NUNO GONÇALO POÇAS,  Advogado e Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 abr. 2026, 00:23

Há um padrão na história da esquerda ocidental, e na portuguesa, em particular, que temo não possuir já qualquer remédio. É verdade que errar é humano, mas não se trata aqui de um acaso, nem sequer de uma sucessão de equívocos: é um padrão estrutural que reflecte uma certa incapacidade para distinguir o sonho da realidade, e, simultaneamente, para ver em tudo o que lhes parece pouco colaborante a maior ameaça que paira sobre o mundo, talvez mesmo antes da bomba nuclear. A esquerda nunca teve grande pejo em rotular, o que, de resto, constitui prova bastante de como a esquerda é a mais humana das correntes políticas. Se lhe agrada o personagem, o rótulo nunca é comedido; se não lhe agrada, fascista” será quanto baste. É como um carro cujo pisca-pisca só opta pela esquerda ou pela extrema-direita.

Vejamos: Reagan? Fascista. Thatcher? Fascista. Bush pai? Fascista. Bush filho? Fascista. Aznar? Fascista. Chirac? Fascista. Sarkozy? Fascista. Freitas do Amaral? Fascista. Passos Coelho? O maior fascista de todos, segundo o tempo presente. Cavaco Silva? Fascista. Portas? Fascista. De Gaulle? Fascista. Churchill? Fascista. Sá Carneiro? Fascista. Merkel? Fascista – ou nazi, que os alemães nestas coisas acumulam. Vargas Llosa? Fascista. Qualquer Primeiro-ministro israelita? Fascista. Mário Soares? Fascista amiúde. Os Papas? Tudo fascista até Francisco. Corina Machado? Fascista. Henrique Capriles? Fascista. Balsemão? Fascista. Mota Pinto? Fascista. O Observador? Alfobre de fascistas.

Ao mesmo tempo, a esquerda nunca deixou de se encantar. Com Che Guevara, com Pol Pot, com Mao, com Enver Hoxha, com Estaline, com Lenine, com Trotsky, com Fidel Castro, com Hugo Chávez, com Nicolás Maduro, com Ho Chi Minh, com Mugabe, com Ceausescu, com Ortega, com Lula. Não deixa, mesmo hoje, de se embebedar de amores pelo islamismo radical ao mesmo tempo que bate com a mão no peito pelo feminismo ou pelos direitos LGBT, sem que passe pela testa do esquerdista menos empedernido uma pinga de vergonha. Caramba, a esquerda portuguesa até por José Sócrates quase inexplicavelmente se apaixonou.

Não serão casos idênticos, nem foram todos estes, e outros, amados pelas mesmas razões, nem pelas mesmas pessoas em concreto. Não se trata de uma questão de figuras, mas de uma complacência colectiva persistente com o desastre, mesmo quando ele é pré-anunciado. Não houve, por exemplo, movimento terrorista que, sendo de esquerda ou representasse, de alguma forma, um género de luta anti-ocidental ou anti-burguês, não tivesse beneficiado do amor das encantadoras elites de esquerda. A lógica é, na verdade, sempre a mesma: uma certa justificação superior que os vulgares, eventualmente fascistas, não compreendem; existe sempre por ali uma causa maior que redime o meio, uma narrativa que suspende o julgamento.

Ora, o novo amor-perfeito da esquerda intelectual portuguesa, depois de fracassada a rota da em-pa-tia de Pedro Nuno Santos, chama-se Pedro Sánchez, a versão contemporânea do poder como fim em si mesmo, legitimado por um discurso moralmente superior. É ele quem «aponta o caminho da Europa», é ele o «herói», enfim, chega mesmo a ser uma espécie de Churchill recauchutado.

Sucede que, como já várias vozes mais avisadas e conhecedoras do que a minha (vide, Diogo Noivo, nas páginas do Diário de Notícias, ou Gonçalo Dorotea Cevada, aqui no Observador) explicaram vezes sem conta, o que se passa em Espanha não é apenas um debate ideológico, mas um problema de degradação política concreta.

O chamado “caso Koldo”, envolvendo o ex-ministro José Luis Ábalos, braço-direito de Sánchez, expôs uma alegada rede de comissões ilegais em contratos públicos, pagamentos em dinheiro, adjudicações viciadas, estruturas paralelas dentro do próprio partido, e mesmo recurso a prostitutas no contexto de redes de corrupção caucionadas pelo sanchismo. São conhecidas todas as histórias do “grupo do Peugeot” (que, afinal, era um Mercedes) ou da família directa de Sánchez, como são conhecidos os recursos a meios do Estado e do poder judicial para fazer vingar uma política simples: destruir as oposições e perpetuar no poder um homem e o seu bando de apaniguados. Sánchez não hesitou mesmo em afrontar o legado histórico do PSOE, e não apenas por uma vez, colocando em risco a unidade do Estado espanhol, a sua soberania, a independência do seu poder judicial. Ao mesmo tempo, o discurso oficial continua a invocar a sua superioridade moral, o seu feminismo militante, a sua regeneração democrática, enquanto entrega Espanha aos tentáculos chineses e coloca o país que nos é mais próximo em rota de colisão com o mundo ocidental. A contradição é perfeita: uma esquerda que se julga moralmente superior, mas que fomenta e/ou tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e nas instituições; uma esquerda que se apresenta como defensora das mulheres, enquanto casos internos expõem comportamentos incompatíveis com os direitos das mulheres; uma esquerda que denuncia supostos vícios dos outros, mas que convive perfeitamente com o seu lodo; e que sobrevive, no fim de contas, acenando com o perigo do fascismo que faz frente à sua pureza.

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha, se quisermos ser mais prosaicos. Ou o seu amor maior por heróis, que prefere às ideias, como as crianças. Sánchez será um dia, como a Santa da Ladeira, repudiado. Até lá, não nos resta outro remédio que não este de aturar o seu nome elevado aos céus do esquerdismo europeu, fenómeno naturalmente suportado por gente que, não se julgando de esquerda, sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e onde se erra sem consequências.

EXTREMA ESQUERDA       POLÍTICA       FRAUDE        CRIME        SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 31)

Ricardo Ribeiro : Bom dia,  No seu excelente texto, falta só escrever sobre o papel da grande maioria da CS que, salvo honrosas excepções, está completamente alinhada com esse modus operandi esquerdoido. Portanto quando o conhecido 4°poder se alinha com a propaganda esquerdista, implica o desdobramento de " forças" do " outro lado" e não uma candura e reverência que se vê em certa direitaInfelizmente, os tempos não estão alinhados para os "moderados"...

Paulo Silva: Caro colunista Nuno Gonçalo Poças, a esquerda(lha) é a filha primogénita da Revolução. Nasceu no fervor da luta revolucionária e como tal não foi feita para o jogo democrático: não debate ideias, proclama-as (dogmas). E quem não alinhar é visto como um inimigo a eliminar, levando com anátemas em cima para começar. O ‘capitalismo’ é basicamente uma teoria da exploração para anatemizar a classe burguesa ou as classes possidentes, e o ‘antifascismo’ uma criação dos bolcheviques quando viram a revolução socialista mundial abortar, e a concorrência tomar o poder em diversos países europeus. Os primeiros foram a Itália do ex-socialista Mussolini pouco tempo após o ‘Biennio Rosso’, e a Hungria do Almirante Horthy depois do falhanço da República Soviética Húngara de Béla Kun… Vários outros estados se seguiriam. Mas a partir daí quem não alinhasse com a política dos camaradas era capciosamente rotulado de fascista pelo Komintern, tal como o autor do artigo profusamente demonstrou com exemplos mais recentes. Ao mesmo tempo a esquerda empodera todos aqueles que possam constituir a sua soldadesca de assalto ao poder… Sánchez é uma desses personagens promovidas a herói do momento para segurar o estandarte do progressismo ingénuo à frente de um exército de ‘idiotas úteis’… Mas a admiração da esquerda por ele não vem de agora com a recente actuação no palco da política internacional. O PSOE, tal como o PS, radicalizou-se e aliou-se à extrema-esquerda do ‘Podemos’ e similares com Pedro Sánchez ao leme, (todavia mais próximo dos ‘jovens turcos’ da JS que de Costa). Os casos que minam o PSOE são apenas um sintoma da mistura de corrupção com radicalismo, tal qual no PS de Sócrates e Costa. Uma esquerda que lavou o sangue dos crimes vermelhos que tinha nas mãos, surge agora de cara lavada como 'direito-humanista'… com a maior cara de pau. Mas a velha ‘superioridade moral’ com que em tempos justificou os gulags e os assassinatos políticos não desapareceu. Usa-a agora para cancelar todos aqueles que não aceitam o seu novo decálogo de pecados capitais. Quando os cancelamentos não funcionam, regressam os cocktails molotov e as balas… Só faltam os campos de re-educação e as Lubiankas. nota: acerca de intelectualidade e esquerda vide “Porque se Enganam os Intelectuais : É sempre mais fácil detectar os erros do passado do que a cegueira colectiva do presente”, Samuel Fitoussi.

Filipe Afonso: Faz lembrar aquelas seitas onde o líder é o único que sabe bem o que está a fazer e faça o que fizer, lá terá os seus seguidores e adoradores. É um case study.

Mafra FM: Curioso como o autor descreve habilmente as muitas maleitas mentais da esquerda, depois de nas presidenciais ter votado num perfeito representante desta esquerda, 'progressista', como Seguro se descreve a si próprio. Assim, tenho de concordar que o mal do intelectual português 'nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais, foi a falta de vergonha.' Até porque, como agora aprendi, 'há gente que, não se julgando de esquerda, sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e se erra sem consequências.' Obrigado pelo esclarecimento.

João Bilé Serra: Top de análise psicológica da esquerdopatia. Parabéns

Victor Goncalves: E o que faz o actual governo PS2 para sanear a cultura, a CS e a Academia deste cancro que corrompe a nossa juventude, com os programas de escolares totalmente virados à esquerda? Nada, porque são farinha do mesmo saco ! Passar nas escolas os documentários sobre o Gulag, sobre o genocídio do PolPot, no Camboja, os efeitos da " marcha em frente" e da Revolução Cultural , na China iria colocar os nossos jovens a pensar. .....em vez disso temos doutrinação constante.

Paradigmas Há Muitos! Pois. Há os ditos "idiotas úteis" que às vezes não são tão idiotas como podem parecer porque se aproveitam do seu esquerdismo de fachada nem que seja para "c o m e r   umas  g a j a s" (ver as alegadas acusações recentes ao Thiago Ávila da flopilha, mas que sendo ele um perfeito Don Juan são obviamente manobras sionistas ...).

E há os que "utilizam a idiotice" dos outros para cumprir o lema do "the issue is never the issue, the issue is always revolution". Como disse Saul Alinsky no "Rules for radicals" o que interessa em qualquer "luta" é o objectivo do "poder", tudo o resto é folclore.

Sobre os "artistas ou intelectuais progressistas" numa procura rápida no X enconrei isto de Waswo X. Waswo que é elucidativo"Se já leu "Regras para Radicais", de Saul Alinsky, entenderá muito melhor o clima político ocidental actual. Num mês é "Me Too", no seguinte "Black Lives Matter", depois "Nenhum ser humano é ilegal", depois "Palestina Livre" e agora, "ICE Out". Nenhuma dessas questões realmente importa para os organizadores, apenas o Poder. Muitos artistas seguem essas tendências com uma obediência moralista. Isso garante-lhes participação em exposições organizadas por curadores ideológicos. Mas qual é a posição do artista após a revolução? Censurado, controlado, descartado".

Já agora, sobre o Sanchez temos o pequeno grande caso da última Vuelta em 2025, uma das três grandes competições ciclistas mundiais que será seguida diariamente por milhões de espectadores. Era tempo de guerra em Gaza e participava uma equipa Israel Tech que procurava publicitar a criação de empresas de alta tecnologia em Israel. Mas o proprietário era um empresário judeu canadiano e dos ciclistas penso que só um era israelita.

Ora a "esquerda" (com as brigadas de choque dos autonomistas bascos e depois galegos) aliada a islamistas mais ou menos organizados, a pretexto da participação dessa equipa foram usando as transmissões de TV para as encherem de imagens de bandeiras da Palestina pondo até pessoas a correr com eles  ao lado de ciclistas que iam destacados para garantir efeito em primeiro plano, quer dizer tentaram transformar à força uma prova ciclista num "hapenning" político. 

E o "boicote" foi crescendo de tom, numas etapas houve cortes de estrada obrigando a interrupção momentânea da prova, noutra uns "activistas" emboscados saltaram com bandeiras para a estrada fazendo cair 2 ciclistas (que nem eram dessa equipa), numa prova de contra relógio os "activistas" tentavam impedir a passagem dos ciclistas dessa equipa. Isso tudo põe óbviamente em risco a integridade física e até a vida de atletas profissionais, para além de interferir num espectáculo perfeitamente autorizado. Mas esses casos a polícia foi resolvendo até que para a tradicional etapa final que seria a  "apoteose" em Madrid  cerca de 40 000 "activistas" invadiram as ruas das cidade, destruiram as barreiras de protecção, importunaram a Polícia e assim impediram a corrida de se realizar tendo esta sido terminada ao chegar aos subúrbios.

E isto contra a vontade de milhares de adeptos de ciclismo que quereriam ver tranquilamente a prova ao vivo e perante milhões em casa furiosos porque não podiam ver o espectáculo que queriam ver numa tarde de domingo, a ficarem ainda mais fartos de propaganda islamo-esquerdista forçada e a constatarem que em Espanha reina a anarquia quando interessa ao poder. E obviamente causando grandes prejuízos económicos pois uma prova destas envolve grandes orçamentos publicitários que não gostam de ser associados a "bagunças" e grandes investimentos, particularmente neste caso da autarquia (a região e município são do PP e por isso eram absolutamente a favor da normalidade da prova mas não podiam fazer nada).

O que fez Sanchez e ministros perante isso? Foram também subindo de tom no apoio ao boicote, já não sei os termos exactos mas se no início mostravam compreensão mas aconselhavam respeito pelas regras para o fim, num comicio do PSOE, Sanchez disse o seguinte " E queremos expressar o nosso absoluto reconhecimento e respeito pelos atletas, mas também a nossa admiração pelo povo espanhol que se mobiliza por causas justas, como a causa palestina.... “Sinto orgulho de um país que, apesar da sua diversidade, se une por uma causa justa como os direitos humanos. Viva o povo espanhol!”. Quer dizer, Sanchez não pisou o risco mas sob a capa "humanitária" deu vivas ao efectivo triunfo da anarquia e violência no seu país.

Neste artigo "Did Pedro Sánchez incite pro-Palestine protesters to stop La Vuelta cycling race?" do euronews pode ver-se os argumentos de Sanchez e da esquerda e os da oposição e o jornalista aparece "obviamente" a tomar o lado de Sanchez, ele aí também foi um "santo"!

E a tal equipa a meio da prova até mudou de equipamento para deixar de fazer alusão à bandeira de Israel mas como é evidente isso não serviu de nada, "the issue is never the issue".

O que ganharam Sanchez e os "activistas" com este boicote? Israel mudou uma virgula nos planos que tinha para Gaza ou uma bala nas que ia lá disparar? Os Gazanos beneficiaram o quê com isso? Acho que só os prejudicou, o que se viu em Espanha não foi nada de construtivo.