Pretende-se, no final da vida. Parece justa, a pretensão. Mas não tenho a certeza disso, num mundo de fraco equilíbrio, onde os exibicionismos prevalecem.
O "Ageing in Place" como resposta global à melhoria
do bem-estar
O "Ageing in Place" um tema que deveria
passar a estar na ordem do dia, permitindo que o mesmo seja bem planeado e bem
trabalhado, e com tempo
OBSERVADOR, 16
nov. 2024, 00:00
O Ageing in place (“envelhecimento em casa”) deveria passar a estar na ordem do dia e
ser tema de debate obrigatório em Portugal, no sentido de que, quem pretender
permanecer em casa no período do seu envelhecimento, possa perceber que o seu
conforto e bem-estar saem melhorados.
Chegados a uma
determinada idade, as pessoas deparam-se com a necessidade de escolha daquela
que julgam ser a melhor solução para o seu bem-estar: Ou permanecem em casa e
têm soluções que permitem viver mais confortáveis; ou mudam-se para uma
residência sénior, onde os cuidados são permanentes; ou ainda, como acontece
amiúde, são acolhidos pelos filhos, amigos ou familiares, que os ajudam na fase
mais avançada da vida.
Dentro destas alternativas, muitas pessoas optam por escolher envelhecer em
sua casa, tentando manter a sua
independência o maior tempo possível. A sensação de segurança, de controlo
contínuo da sua vida, e a ligação que têm à memória afectiva de toda uma vida,
leva a que as pessoas optem, em grande parte das vezes, por ficar em sua casa
até ao fim dos seus dias. Mas isso deve ser feito de uma forma
ponderada, e desde que com garantia de conforto, qualidade e bem-estar,
situação essas apenas proporcionadas se dispuserem de acesso a adequados
serviços ao domicílio (sejam estatais ou privados).
Neste sentido, o Ageing in
Place, termo técnico que
engloba esta temática, é muito pouco discutido ou debatido em Portugal,
dando-se muito maior atenção e relevância a outras soluções institucionais
(como é o caso das residências seniores).
Se analisarmos este tema
noutras geografias, ele aparece muito mais debatido e valorizado, sobretudo em
países anglo-saxónicos, como o Canadá ou os EUA, o Reino Unido ou a Irlanda,
países esses onde existem apoios efetivos e iniciativas concretas que
transformam esta alternativa de viver os últimos anos de vida em casa numa
solução muito válida para grande parte das famílias.
Em boa verdade, este é um tema que
deveria sair rapidamente para a agenda pública e privada em Portugal, por
diversas razões, entre as quais destaco três.
A primeira, é sobretudo demográfica, pois não é difícil
encontrarmos previsões relativas ao envelhecimento em Portugal e a sua posição
nas próximas décadas. Assim, segundo
o INE, a população com mais de 65 anos terá um peso cada vez mais
significativo, devendo atingir 37% da população em 2080, quando hoje representa
cerca de 22% (2,2 milhões de pessoas), pelo que certamente aparecerão cada vez
mais pessoas a decidir envelhecer em casa.
A segunda, é a resposta
estatal a esta evolução, não se vislumbrando por agora medidas concretas e
vigorosas, projetadas a diversos anos, para o seu combate e resposta a esse
cenário. Sabemos apenas que a população mais idosa irá atingir em Portugal,
dentro de algum tempo, um número superior a 3 milhões de pessoas, e que as
respostas que devem ser dadas, quer a nível hospitalar, quer ao nível de apoio
domiciliário, quer ainda ao nível de residências seniores, não estão ainda hoje
claras e orientadas para essa população projetada. Assim,
numa perspectiva de longo prazo, podemos facilmente confirmar que o número de
camas disponíveis e projectadas em hospitais e em residências afiguram-se
claramente insuficientes para fazer face à tendência de crescimento desta
população mais idosa.
Por fim, mas
não menos importante, a razão financeira. Com a constante
redução do valor das reformas face ao último salário, perspetivada para os
próximos anos, a que se junta a baixa capacidade de poupança da população
portuguesa, as famílias poderão chegar ao seu período de reforma com
rendimentos bastante mais baixos, não lhes permitindo continuar a ter uma vida
capaz e condigna. Desta forma, se
nada fizermos com antecedência, iremos ter, em poucos anos, uma população idosa
muito mais empobrecida, com níveis de rendimento muito baixos, conduzindo tudo isso
a um problema social agravado. Assim
sendo, problemas como a falta de integração comunitária, o isolamento social, e
até a solidão, agravar-se-ão e tornarão a sociedade ainda mais frágil.
Em suma, devemos considerar
o Ageing in Place um tema que deveria passar a estar na ordem do dia,
permitindo que o mesmo seja bem planeado e bem trabalhado, e com tempo,
obrigando a repensar as condições de habitabilidade, os impactos sociais e as
condições financeiras da população mais idosa.
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