Mas não “como
bola colorida entre as mãos duma criança” como disse o nosso GEDEÃO. Com efeito, as crianças que hoje vemos, através da
televisão, não têm bolas nas suas
mãos e sequer coloridas. Vemo-las desgarradas, solitárias, nas ruas desse Oriente
em guerra, e o pânico acode-nos. E a raiva inútil. O mundo vai mudar, está
visto, como sempre, uns ganham e outros perdem, nesta coisa das guerras. E mesmo
na paz, há sempre esses confrontos que se leram, aliás, já nos livros, desde a
infância, com a própria Condessa de Ségur, que apontava os contrastes dos viveres
e dos teres, e tantos mais escritores já da nossa idade adulta, alguns bem
chocantes na reprodução das aparências e dos comportamentos das suas personagens,
em tradução das reais. Mas a televisão trouxe proximidade na visualização e daí
que tanto nos choquem as imagens das crianças – sendo que igualmente as dos
adultos – desses espaços ainda distantes, não sabemos até quando. Mas que
trarão, provavelmente, nova ordem na Terra, que o HOMEM vai transformando, “impávido
e sereno”, como temos o costume de referir, no escrúpulo corriqueiro das definições.
O que já nos deu a guerra com o Irão?
O conflito com o Irão reúne condições para ser um separador
histórico com alterações profundas na geografia política do mundo.
HELENA GARRIDO Colunista
OBSERVADOR, 21 abr. 2026, 00:25
O conflito com o Irão já nos deu menos crescimento e mais inflação,
desestabilizou os países do Golfo, agravou as tensões entre os Estados Unidos e
os seus aliados europeus e reforçou o
poder político e económico da China. O mundo depois do Irão, dependendo criticamente da forma como os EUA
saírem do conflito, envolve já o sério risco de decadência do designado
“império americano”, com a hipótese de entrarmos num mundo multipolar ou com a
polaridade centrada na China. Médio Oriente, com o pior cenário no
caso de nem se conseguir dar ao Irão um novo regime.
As previsões do FMI, no seu exercício
da Primavera já nos vieram dizer que as projecções
antes do conflito apontavam para um crescimento da economia global de 3,4%.
Agora, no seu cenário central, que
pressupõe que a guerra com o Irão será de curta duração, temos uma perspetiva
de crescer 3,1%, um abrandamento modesto. Qual a probabilidade deste cenário
se verificar? Não sabemos. Economistas como Paul Krugman são mais pessimistas e o FMI tem um “cenário severo” em que aponta para uma recessão global, caso o
petróleo se fique em média nos 110 dólares por barril e o gás aumente 200%.
Na realidade, neste momento ninguém
consegue antecipar quais os danos que este choque já está a provocar na economia
e muito menos os que se podem desenhar se o conflito se prolongar e o estreito
de Ormuz se mantiver encerrado. O que podemos já dar como certo é que o mundo vai crescer menos e
todos vamos sentir os efeitos dos preços mais elevados, mesmo os que são produtores
de petróleo como é o caso dos Estados Unidos.
Mas a curto prazo, além da subida dos
preços dos combustíveis, podemos enfrentar problemas de racionamento
nomeadamente de jet fuel, o combustível
dos aviões. O director executivo da Agência Internacional
de Energia, Fatih Berol, afirmou a semana passada que
na Europa temos apenas seis semanas de jet fuel. Fazendo as contas isto significa que em
finais de Maio deixará de haver jet fuel. A
perspetiva de escassez levou já ao cancelamento de voos por parte,
nomeadamente, da Lufthansa e da Air France/KLM, duas companhias que estão a
concorrer à compra da TAP.
São simples as contas que estão
a ser feitas e que incluem
basicamente todos os produtos que vêm daquela região, entre eles o petróleo e
combustíveis mas também gás e fertilizantes. Os últimos petroleiros que passaram pelo
estreito de Ormuz chegaram aos seus destinos asiáticos em meados de Abril e,
dependendo da rota, em Maio atingem a Europa. A partir daí é como se existisse
um oleoduto ou gasoduto interrompido.
Os países asiáticos começaram cedo a
prevenir-se, com medidas de contenção da procura. Na União Europeia cada um foi
adoptando isoladamente as suas medidas, de tal maneira que um país como
Portugal enfrenta a pressão da irresponsável generosidade em apoios da vizinha
Espanha. A cimeira
informal europeia que vai decorrer a 23 e 24 de abril no Chipre
pretende, teoricamente, construir uma abordagem comum para enfrentar a crise
energética que, obviamente, já devia ter sido adoptada para evitar medidas de
concorrência desleal.
Os países do Golfo serão dos mais
atingidos pelo conflito, com danos não apenas directos mas também indirectos e
a prazo, por via da confiança num dos
seus activos mais importantes enquanto centros financeiros: a estabilidade e segurança. Não
sabemos até que ponto vão conseguir recuperar a confiança, que lhes tem
garantido a recente prosperidade como plataforma financeira, mas também na
afirmação que foram fazendo como placa aeroportuária. Se não se concretizar a queda do regime iraniano, factor de
instabilidade na região, terão pago um preço elevado sem que tenha sido atingido
um dos objectivos que tiveram em mente quando decidiram apoiar Donald Trump.
Uma das heranças deste conflito
é sem dúvida mais alimento para a raiva milenar que persegue aquela região. O
que é em si uma semente para a continuidade dos conflitos, mesmo que venham a
ser interrompidos brevemente. Ninguém teve vontade de deixar de
alimentar a raiva que foi em crescendo desde o horrendo ataque do Hamas a
Israel a 7 de Outubro de 2023.
Finalmente a China, o ausente mais
presente neste conflito, que pode ser o grande vencedor do conflito com o Irão. Desde que Donald Trump é presidente, a
China tem tido um papel de estabilizador global, defensor do livre comércio, e
tem revelado o poder que já tem em diversas frentes, das designadas terras
raras até às renováveis, passando pelo peso da sua moeda. E neste
conflito têm sido vários os analistas que referem Pequim como a capital que
está a pressionar com sucesso Teerão para aceitar a paz, para não se falar das
notícias que dão conta de que está simultaneamente a dar apoio bélico ao Irão.
Na guerra
das tarifas, a China mostrou o poder que tinha, ao obrigar, na prática, ao recuo de Trump, quando se
percebeu os danos que podia provocar face ao controlo global que tem das
designadas “terras raras”. O choque energético que agora vivemos
por causa do conflito no Irão, tendo impactos negativos na China, permite-lhe
igualmente retirar vantagens da posição dominante que tem nos equipamentos para
as energias renováveis cuja procura será naturalmente induzida por esta crise. E,
como disse Ricardo Reis na intervenção que fez na conferência dos 150 anos da CGD, “o papel do dólar dependerá do que a China
decidir” nomeadamente
em matéria de abertura ao investimento financeiro estrangeiro.
A tendência de des-dolarização
já instalada pode reforçar-se. Neste momento já assistimos a uma redução do peso do dólar nas reservas dos bancos centrais
e ao aumento do uso do yuan na aquisição de produtos como petróleo, tendência
iniciada na sequência das sanções à Rússia por causa da invasão da Ucrânia. O
dólar continua atractivo fundamentalmente por causa das empresas
norte-americanas e, dentro delas, das que estão ligadas às novas tecnologias
como a Inteligência Artificial,
conjugando-se isto com a ausência de alternativa e um mercado chinês relativamente
fechado.
Em suma, o conflito no Irão pode desencadear um reajustamento muito mais
significativo da geografia política do mundo e que será tanto mais acelerado
quanto mais fragilizado saírem os norte-americanos deste conflito. Para já
podemos dar como adquirido que vamos ter menos
crescimento e mais inflação, com um risco sério de uma recessão global, sem que
esteja garantida maior estabilidade no Médio Oriente.
GUERRA CONFLITOS MUNDO IRÃO MÉDIO
ORIENTE ECONOMIA
COMENTÁRIOS (de 21)
Carlos Chaves: Cara cronista, qual era a outra opção? Deixar
os terroristas terem uma bomba nuclear, aparecerem um dia destes a dizer que o
primeiro país (povo), a ser eliminado da face da Terra seria Israel, seguido de
todos os outros, repletos de infiéis e seres malignos como nos designam a nós?
Sabe com certeza que apesar de professar a ideologia de esquerda e passar o
tempo a defender criminosos socialistas/comunistas, também não escaparia!
Certo?
P.S.1 Por favor não amplifique mentiras, 6 semanas de reserva de Jet
fuel é no Reino Unido, altamente dependente de refinação externa, o que não é o
caso da UE incluindo nós que temos refinação para Jet Fuel em solo nacional
(GALP).
P.S.2 Ao menos teve a coragem de criticar as medidas completamente em
contraciclo, do candidato a criminoso aqui ao lado! “What else”, socialista!
António Duarte: A China defensora do livre comércio? A comprar
petróleo a pataco na Rússia, na Venezuela e no Irão? Eu seria mais cauteloso
pois isso não durará para sempre! Na Venezuela já acabou…
Miguel Macedo: Análise típica da comunicação social
enviesada! A cassete do costume!
Luís Filipe Costa Piteira: Ken Fisher, num artigo publicado ontem no
Jornal de Negócios, é bastante mais optimista em relação à Europa e,
nomeadamente a Portugal, relativamente a esta questão do petróleo e gás.
Paradigmas Há Muitos!: "A perspetiva de escassez levou já ao
cancelamento de voos por parte, nomeadamente, da Lufthansa e da Air France/KLM, duas
companhias que estão a concorrer à compra da TAP". O que interessa isso da TAP para este caso? A
HG parece que não confiava nos seus próprios argumentos para vangloriar a China
e resolveu meter mais esse à pressão, mas ... 😇😇😇
Lúcio Monteiro: "O que já nos deu a guerra com
o Irão?" Além
de muitas dores de cabeça à economia e instabilidade política global, esta
guerra com o Irão também já nos "deu" uma certeza insofismável: a
de que um único líder internacional - neste caso, o descolhoado Trump - pode
empurrar o mundo para o abismo e para o caos. Com Trump, o actual estado
caótico planetário tende a insuflar-se exponencialmente. Enquanto grande
parte dos habitantes deste planeta sente na pele - mas sobretudo na barriga -
as consequências desastrosas das suas insanas decisões, ele, que as causou,
passa grande parte do seu tempo a contemplar o seu novo Salão de Baile da
Casa Branca. Se ele pudesse ser minimamente coerente - conceito que ele
ignora, de todo - mandaria construir, ao lado do dito salão, um manicómio de
uma cela só, com o seguinte dístico: "Cela Trump".
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