quarta-feira, 22 de abril de 2026

“O mundo pula e avança”

 

Mas nãocomo bola colorida entre as mãos duma criançacomo disse o nosso GEDEÃO. Com efeito, as crianças que hoje vemos, através da televisão, não têm bolas nas suas mãos e sequer coloridas. Vemo-las desgarradas, solitárias, nas ruas desse Oriente em guerra, e o pânico acode-nos. E a raiva inútil. O mundo vai mudar, está visto, como sempre, uns ganham e outros perdem, nesta coisa das guerras. E mesmo na paz, há sempre esses confrontos que se leram, aliás, já nos livros, desde a infância, com a própria Condessa de Ségur, que apontava os contrastes dos viveres e dos teres, e tantos mais escritores já da nossa idade adulta, alguns bem chocantes na reprodução das aparências e dos comportamentos das suas personagens, em tradução das reais. Mas a televisão trouxe proximidade na visualização e daí que tanto nos choquem as imagens das crianças – sendo que igualmente as dos adultos – desses espaços ainda distantes, não sabemos até quando. Mas que trarão, provavelmente, nova ordem na Terra, que o HOMEM vai transformando, “impávido e sereno”, como temos o costume de referir, no escrúpulo corriqueiro das definições.

O que já nos deu a guerra com o Irão?

O conflito com o Irão reúne condições para ser um separador histórico com alterações profundas na geografia política do mundo.

HELENA GARRIDO Colunista

OBSERVADOR, 21 abr. 2026, 00:25

O conflito com o Irão já nos deu menos crescimento e mais inflação, desestabilizou os países do Golfo, agravou as tensões entre os Estados Unidos e os seus aliados europeus e reforçou o poder político e económico da China. O mundo depois do Irão, dependendo criticamente da forma como os EUA saírem do conflito, envolve já o sério risco de decadência do designado “império americano”, com a hipótese de entrarmos num mundo multipolar ou com a polaridade centrada na China. Médio Oriente, com o pior cenário no caso de nem se conseguir dar ao Irão um novo regime.

As previsões do FMI, no seu exercício da Primavera já nos vieram dizer que as projecções antes do conflito apontavam para um crescimento da economia global de 3,4%. Agora, no seu cenário central, que pressupõe que a guerra com o Irão será de curta duração, temos uma perspetiva de crescer 3,1%, um abrandamento modesto. Qual a probabilidade deste cenário se verificar? Não sabemos. Economistas como Paul Krugman são mais pessimistas e o FMI tem um “cenário severo” em que aponta para uma recessão global, caso o petróleo se fique em média nos 110 dólares por barril e o gás aumente 200%.

Na realidade, neste momento ninguém consegue antecipar quais os danos que este choque já está a provocar na economia e muito menos os que se podem desenhar se o conflito se prolongar e o estreito de Ormuz se mantiver encerrado. O que podemos já dar como certo é que o mundo vai crescer menos e todos vamos sentir os efeitos dos preços mais elevados, mesmo os que são produtores de petróleo como é o caso dos Estados Unidos.

Mas a curto prazo, além da subida dos preços dos combustíveis, podemos enfrentar problemas de racionamento nomeadamente de jet fuel, o combustível dos aviões. O director executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Berolafirmou a semana passada que na Europa temos apenas seis semanas de jet fuel. Fazendo as contas isto significa que em finais de Maio deixará de haver jet fuel. A perspetiva de escassez levou já ao cancelamento de voos por parte, nomeadamente, da Lufthansa e da Air France/KLM, duas companhias que estão a concorrer à compra da TAP.

São simples as contas que estão a ser feitas e que incluem basicamente todos os produtos que vêm daquela região, entre eles o petróleo e combustíveis mas também gás e fertilizantes. Os últimos petroleiros que passaram pelo estreito de Ormuz chegaram aos seus destinos asiáticos em meados de Abril e, dependendo da rota, em Maio atingem a Europa. A partir daí é como se existisse um oleoduto ou gasoduto interrompido.

Os países asiáticos começaram cedo a prevenir-se, com medidas de contenção da procura. Na União Europeia cada um foi adoptando isoladamente as suas medidas, de tal maneira que um país como Portugal enfrenta a pressão da irresponsável generosidade em apoios da vizinha Espanha. A cimeira informal europeia que vai decorrer a 23 e 24 de abril no Chipre pretende, teoricamente, construir uma abordagem comum para enfrentar a crise energética que, obviamente, já devia ter sido adoptada para evitar medidas de concorrência desleal.

Os países do Golfo serão dos mais atingidos pelo conflito, com danos não apenas directos mas também indirectos e a prazo, por via da confiança num dos seus activos mais importantes enquanto centros financeiros: a estabilidade e segurança. Não sabemos até que ponto vão conseguir recuperar a confiança, que lhes tem garantido a recente prosperidade como plataforma financeira, mas também na afirmação que foram fazendo como placa aeroportuária. Se não se concretizar a queda do regime iraniano, factor de instabilidade na região, terão pago um preço elevado sem que tenha sido atingido um dos objectivos que tiveram em mente quando decidiram apoiar Donald Trump.

Uma das heranças  deste conflito é sem dúvida mais alimento para a raiva milenar que persegue aquela região. O que é em si uma semente para a continuidade dos conflitos, mesmo que venham a ser interrompidos brevemente. Ninguém teve vontade de deixar de alimentar a raiva que foi em crescendo desde o horrendo ataque do Hamas a Israel a 7 de Outubro de 2023.

Finalmente a China, o ausente mais presente neste conflito, que pode ser o grande vencedor do conflito com o Irão. Desde que Donald Trump é presidente, a China tem tido um papel de estabilizador global, defensor do livre comércio, e tem revelado o poder que já tem em diversas frentes, das designadas terras raras até às renováveis, passando pelo peso da sua moeda.  E neste conflito têm sido vários os analistas que referem Pequim como a capital que está a pressionar com sucesso Teerão para aceitar a paz, para não se falar das notícias que dão conta de que está simultaneamente a dar apoio bélico ao Irão.

Na guerra das tarifas, a China mostrou o poder que tinha, ao obrigar, na prática, ao recuo de Trump, quando se percebeu os danos que podia provocar face ao controlo global que tem das designadas “terras raras”. O choque energético que agora vivemos por causa do conflito no Irão, tendo impactos negativos na China, permite-lhe igualmente retirar vantagens da posição dominante que tem nos equipamentos para as energias renováveis cuja procura será naturalmente induzida por esta crise. E, como disse Ricardo Reis na intervenção que fez na conferência dos 150 anos da CGD, “o papel do dólar dependerá do que a China decidir” nomeadamente em matéria de abertura ao investimento financeiro estrangeiro.

A tendência de des-dolarizaçãoinstalada pode reforçar-se. Neste momento já assistimos a uma redução do peso do dólar nas reservas dos bancos centrais e ao aumento do uso do yuan na aquisição de produtos como petróleo, tendência iniciada na sequência das sanções à Rússia por causa da invasão da Ucrânia. O dólar continua atractivo fundamentalmente por causa das empresas norte-americanas e, dentro delas, das que estão ligadas às novas tecnologias como a Inteligência Artificial, conjugando-se isto com a ausência de alternativa e um mercado chinês relativamente fechado.

Em suma, o conflito no Irão pode desencadear um reajustamento muito mais significativo da geografia política do mundo e que será tanto mais acelerado quanto mais fragilizado saírem os norte-americanos deste conflito. Para já podemos dar como adquirido que vamos ter menos crescimento e mais inflação, com um risco sério de uma recessão global, sem que esteja garantida maior estabilidade no Médio Oriente.

GUERRA      CONFLITOS      MUNDO      IRÃO      MÉDIO ORIENTE     ECONOMIA

COMENTÁRIOS (de 21)

Carlos Chaves: Cara cronista, qual era a outra opção? Deixar os terroristas terem uma bomba nuclear, aparecerem um dia destes a dizer que o primeiro país (povo), a ser eliminado da face da Terra seria Israel, seguido de todos os outros, repletos de infiéis e seres malignos como nos designam a nós? Sabe com certeza que apesar de professar a ideologia de esquerda e passar o tempo a defender criminosos socialistas/comunistas, também não escaparia! Certo?

P.S.1 Por favor não amplifique mentiras, 6 semanas de reserva de Jet fuel é no Reino Unido, altamente dependente de refinação externa, o que não é o caso da UE incluindo nós que temos refinação para Jet Fuel em solo nacional (GALP).

P.S.2 Ao menos teve a coragem de criticar as medidas completamente em contraciclo, do candidato a criminoso aqui ao lado! “What else”, socialista!

António Duarte: A China defensora do livre comércio? A comprar petróleo a pataco na Rússia, na Venezuela e no Irão? Eu seria mais cauteloso pois isso não durará para sempre! Na Venezuela já acabou

Miguel Macedo: Análise típica da comunicação social enviesada! A cassete do costume! 

Luís Filipe Costa Piteira: Ken Fisher, num artigo publicado ontem no Jornal de Negócios, é bastante mais optimista em relação à Europa e, nomeadamente a Portugal, relativamente a esta questão do petróleo e gás. 

Paradigmas Há Muitos!: "A perspetiva de escassez levou já ao cancelamento de voos por parte, nomeadamente, da Lufthansa e da Air France/KLM, duas companhias que estão a concorrer à compra da TAP". O que interessa isso da TAP para este caso? A HG parece que não confiava nos seus próprios argumentos para vangloriar a China e resolveu meter mais esse à pressão, mas ... 😇😇😇

Lúcio Monteiro: "O que já nos deu a guerra com o Irão?" Além de muitas dores de cabeça à economia e instabilidade política global, esta guerra com o Irão também já nos "deu" uma certeza insofismável: a de que um único líder internacional - neste caso, o descolhoado Trump - pode empurrar o mundo para o abismo e para o caos. Com Trump, o actual estado caótico planetário tende a insuflar-se exponencialmente. Enquanto grande parte dos habitantes deste planeta sente na pele - mas sobretudo na barriga - as consequências desastrosas das suas insanas decisões, ele, que as causou, passa grande parte do seu tempo a contemplar o seu novo Salão de Baile da Casa Branca. Se ele pudesse ser minimamente coerente - conceito que ele ignora, de todo - mandaria construir, ao lado do dito salão, um manicómio de uma cela só, com o seguinte dístico: "Cela Trump". 

 

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