sábado, 31 de janeiro de 2026

Incógnita

 

Sempre, afinal, os pratos da balança instáveis, por natureza. Também nós…

«"Pot-pourri" contra Ventura»: a fita do ano 

O dr. Seguro é, ou aparenta ser, uma tela em branco onde cada um projecta as expectativas que lhe apetecer. É inevitável que as expectativas saiam frustradas.

ALBERTO GONÇALVES, Colunista do Observador

OBSERVADOR, 31 jan. 2026, 00:2010

Já temos os “católicos por Seguro”, os “maçons por Seguro”, os “médicos por Seguro”, os “não-socialistas por Seguro”, os “sociais-democratas por Seguro”, os “socialistas por Seguro”, os “artistas por Seguro”, os “leninistas por Seguro”, os “liberais por Seguro”, os “ex-presidentes da República por Seguro” e os “ex-candidatos à presidência da República por Seguro”. Aguarda-se a todo o momento o apoio ao candidato por parte dos astrólogos e da Federação Ribatejana de Pelota Basca.

Tamanho consenso devia ser irritante. No caso, o consenso é sobretudo esquisito, visto que se ergueu num ápice e em volta de alguém tão improvável. Há uns meses, ninguém se lembrava do dr. Seguro. Há uns anos, o dr. Seguro não lembrava a ninguém. Durante três décadas de carreira política, o dr. Seguro, outrora o vagamente popular “Tozé”, foi o típico apparatchik que subiu sem estrondo na hierarquia partidária. Após atingir o topo, viu-se enxotado sem maneiras e decidiu hibernar. Não deixou uma marca, uma ideia, sequer um espaço vazio. A sua ausência notou-se tanto quanto a presença: não se notou.

Se calhar é exactamente essa insipidez que explica parte do apelo (?). O dr. Seguro é, ou aparenta ser, uma tela em branco onde cada um projecta as expectativas que lhe apetecer. É inevitável que as expectativas saiam frustradas (não se imagina que a presidência do dr. Seguro satisfaça em simultâneo o prof. Cavaco e o dr. Tavares), mas a fase do desapontamento virá a seguir. Por enquanto, o objectivo é unir, juntar, agregar, enlatar. Se me permitem ultrapassar a quota de analogias por crónica, a extraordinária pluralidade dos apoiantes do dr. Seguro evoca menos o proverbial albergue espanhol do que o metropolitano de Tóquio, em que cabem todos, e os que arriscavam ficar de fora são empurrados à força para o interior da carruagem.

A segunda explicação para o consenso prende-se com a circunstância de o dr. Seguro ser um socialista, embora hoje a maioria dos seus repentinos apoiantes finja que não reparou e ele próprio disfarce. Seria inconcebível que a esquerda pura e dura como uma broca manifestasse por um candidato da “direita” um milésimo do frenesim que a “direita” dedica ao dr. Seguro. Não existe um cenário plausível em que o dr. Tavares caminhasse, ainda que metaforicamente, ao lado do prof. Cavaco para catequizar o povo acerca das vantagens do voto no dr. Cotrim.

A esquerda não cede à “direita” nem deseja cair nas graças da “direita”, que no fundo contempla com nojo. Em compensação, a “direita” encontra-se sempre mortinha por mostrar à esquerda que o nojo é imerecido, que também dispõe de “humanistas” iguais aos “humanistas” que berram pelo Hamas, por Maduro e pelos aiatolas, que todos partilham um chão comum. E a “direita” não perde uma oportunidade de se sentar no chão comum e tocar na guitarra cantigas fraternas que só terminam quando a esquerda desfaz a guitarra em cacos. Porém, a “direita” não desiste.

A terceira e talvez mais decisiva explicação para a União Nacional em curso resume-se a um nome (ou a dois): André Ventura. A quase totalidade dos argumentos usados para defender a eleição do dr. Seguro converge para a necessidade imperiosa de não se eleger o dr. Ventura. A coisa formula-se invariavelmente com requintes dramáticos e invariavelmente avisa para o que aconteceria se, por absurdo e loucura colectiva, o dr. Ventura chegasse a Belém. São imagens fortes: a Constituição em chamas, a “governabilidade” [sic] moribunda, o país exilado nas franjas do submundo. E isto sem contar com a deportação em massa de imigrantes, os campos de reeducação para ciganos e, pior, a submissão dos cidadãos em peso a 37 audições diárias de “A Portuguesa”.

Mesmo admitindo com periclitante certeza de que semelhante distopia é o que o dr. Ventura (e um terço dos eleitores) quer, a União Nacional não informa de que modo o dr. Ventura procederia para chegar lá. Por um lado, vai por aí uma enorme desconfiança na solidez das “instituições” e um entendimento desmesurado do alcance dos poderes presidenciais. Por outro lado, os abundantes inimigos do dr. Ventura estão por decidir se o homem é o taberneiro sem etiqueta de que se riem às terças, quintas e sábados, ou o demiurgo malvado que os aterroriza no resto da semana, capaz de proezas medonhas e desmesuradas.

Eu, que não rio do dr. Ventura e não o receio (nem venero), julgo que se atribui à personagem propriedades excessivas: são tais os esforços para não o “normalizar” que o pintam com aptidões paranormais. Não alinho em crendices. O dr. Ventura é apenas um político que, às vezes com razão e às vezes sem ela, ameaça a famosa “estabilidade” a ponto de federar os beneficiários desta num curioso pot-pourri. Quem não aprecia excessivamente a “estabilidade” e os seus beneficiários, votará no dr. Ventura. Quem acha que a “estabilidade” nos tem dado sucessivas alegrias, votará no pot-pourri, perdão, no dr. Seguro. E nenhuma das escolhas garante o resultado pretendido.

PRESIDENCIAIS 2026        ELEIÇÕES       POLÍTICA       ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

COMENTÁRIOS (de 11)

Alexandra Ferraz: É a histeria colectiva! É um retorno desfocado aos tempos do PREC. Só que esquerda e direita eram então como vinagre e azeite. Agora são um molho deslassado...É o fim de uma época, dum sistema já fora do prazo de validade. É tempo de separar águas e assim será já no próximo dia 9, qualquer que seja o resultado. Que venha a mudança porque a nossa juventude merece! Vamos ter fé 🙏. Como sempre, obrigada, Alberto pelo belíssimo texto. 🙌🙌

 

Via larga


O tal asilo - que vai alterando o mundo, como, de resto, outros factores da História das Nações o foram fazendo, ao longo dos tempos, a mudança sendo parte integrante da evolução terrena. Esta do asilo político é, naturalmente, a destes novos tempos de cordialidade imposta em progressão de afectividade, de repente exigida com real unção, onde subjaz uma acusação de culpa antiga, e a tal pretensa demonstração recente, de bondade. Novos tempos trarão mais propostas…

 

O asilo não é um atalho

O direito de asilo não foi concebido para substituir uma política de imigração, nem para funcionar como um mecanismo automático de acesso ao território da União Europeia.

ANA MIGUEL PEDRO, Convidado

OBSERVADOR, 30 jan. 2026, 00:154

Os recentes acordos políticos provisórios alcançados entre o Parlamento Europeu e o Conselho sobre o sistema europeu de asiloe aprovados esta semana pela Comissão de Justiça e Assuntos Internos do Parlamento Europeu – , partem de um princípio simples, mas frequentemente esquecido no debate político: sem critérios jurídicos claros e procedimentos eficazes, não há protecção internacional credível. Há apenas confusão normativa, desigualdade na aplicação da lei e desgaste profundo da confiança pública.

O direito de asilo existe para proteger quem foge de perseguição individualizada, de conflitos armados ou de violência grave, nos termos da Convenção de Genebra e do direito da União Europeia. Não foi concebido para substituir uma política de imigração, nem para funcionar como um mecanismo automático de acesso ao território da União Europeia. Quando essas fronteiras conceptuais e jurídicas se diluem, o sistema deixa de cumprir a sua finalidade essencial e falha precisamente com quem mais precisa de protecção.

É precisamente isto que as novas regras procuram corrigir. Ao reforçar o conceito de país terceiro seguro, a União Europeia reafirma um princípio estrutural do direito de asilo europeu: a admissibilidade do pedido depende da inexistência de protecção efectiva noutro país seguro. A protecção deve ser solicitada no primeiro local onde seja acessível e juridicamente garantida. Ignorar esse princípio é nada mais do que um incentivo à migração secundária irregular, à exploração de rotas perigosas e à instrumentalização do asilo por redes criminosas que lucram com a ausência de critérios claros.

Do mesmo modo, a criação de uma lista europeia comum de países de origem seguros introduz harmonização jurídica e previsibilidade decisória num sistema que durante anos operou com base em assimetrias nacionais e interpretações divergentes. Os pedidos provenientes desses países continuam a ser apreciados individualmente, como exige o direito internacional e europeu, mas passam a seguir procedimentos acelerados quando manifestamente infundados, evitando que bloqueiem um sistema já sobrecarregado. A inexistência de listas comuns permitiu a proliferação de pedidos com taxas residuais de reconhecimento, atrasando decisões relativas a requerentes com necessidades de protecção genuínas.

Estas medidas não restringem o direito de asilo. Pelo contrário, reforçam a sua eficácia prática. Libertam capacidade administrativa, aceleram decisões e permitem concentrar tempo e recursos institucionais em quem enfrenta risco real de perseguição. Um sistema lento, permissivo e imprevisível não é mais humano, é juridicamente frágil e politicamente insustentável.

Nos últimos anos, o debate público — e em particular sob a tutela moral de uma parte significativa da esquerda europeiatratou a migração como um exercício de intenções, desqualificando qualquer tentativa de estabelecer critérios de admissibilidade, diferenciação procedimental ou controlo efectivo como uma alegada traição aos valores humanitários. O asilo foi transformado num símbolo ideológico intocável, imune à avaliação e eficácia das políticas públicas e às consequências sociais e políticas das suas falhas. Ao recusar limites jurídicos claros, contribuiu-se para a criação de um sistema que perdeu legitimidade junto dos cidadãos, enfraqueceu a confiança nas instituições e abriu espaço ao crescimento de forças políticas que contestam o próprio direito de asilo. A ironia é evidente: ao recusar distinguir, acabou por fragilizar aquilo que dizia querer proteger.

O que está agora em causa não é menos humanidade, mas maior responsabilidade jurídica e política. Não é exclusão, mas distinção baseada no direito. Um sistema de asilo justo é aquele que decide de forma célere, coerente e previsível, protege eficazmente e é compreendido e sustentado pela sociedade democrática que o financia.

Se o asilo quiser sobreviver como um pilar dos valores europeus, tem de deixar de ser um dogma político e voltar a ser aquilo que sempre deveria ter sido: um instrumento jurídico de protecção eficaz, reservado a quem realmente dele necessita.

Finalizo com algo que me parece muito evidente. A Europa sempre precisou e continuará a precisar de migração legal, regulada e orientada para as necessidades económicas e demográficas. Isso exige políticas próprias, vias legais específicas e decisões políticas responsáveis. Usar o sistema de asilo como substituto de uma política migratória séria foi uma fuga política e enfraqueceu tanto a imigração legal como a protecção internacional.

A única forma de proteger quem precisa de asilo é ter um sistema que funcione juridicamente e politicamente, com coragem para distinguir realidades diferentes em vez de as fundir por conveniência ideológica. Tudo o resto é retórica confortável e foi precisamente essa retórica que falhou. Regras claras no asilo não negam humanidade, salvam-na da demagogia.

UNIÃO EUROPEIA        EUROPA       MUNDO       IMIGRAÇÃO (4)

COMENTÁRIOS (de 4):

Rui Lima: Qualquer  pessoa no mundo pode pedir asilo na União Europeia, o direito está consagrado na Convenção de Genebra de 1951 e na Carta dos Direitos Fundamentais da UE, sem qualquer lista de países excluídos.

Na prática, isto significa que 60 a 80% da população mundial , 4 a 5 mil milhões de pessoas, poderia apresentar um pedido de asilo com alguma probabilidade de sucesso.

A Europa não tem capacidade para isso está a levar a destruição da sua civilização.

O sistema de asilo, pensado para proteger minorias perseguidas, tornou-se maioritariamente um canal de imigração, com mais de 90% dos pedidos a não corresponderem a perseguição directa, mas como não os conseguem expulsar têm filhos que ficam. Entre o princípio jurídico e a realidade demográfica existe um abismo. A política europeia de asilo, tal como está, não é realista nem sustentável ê um disparate, pior, não protege quem verdadeiramente precisa, e favorece o tráfico humano .

João Das Regras: Mais uma decisão fundada nas políticas inconsequentes e pseudo-humanistas da UE. A Europa não tem capacidade para receber perdidos de asilo que nos chegam. Os barcos atravessam o Mediterrâneo e todos são instruídos pelas "agências humanitárias” que mais não são que instrumentos de auxílio a imigração ilegal, a pedirem asilo na UE dizendo que são perseguidos politicamente e os processos ficam parados para decisão e, quando decididos podem ser objeto de recurso e ficam todos por cá, ninguém vai embora. Em Portugal é uma festa, se tiverem um filho a quem é atribuído logo a nacionalidade portuguesa nunca mais poderão ser expulsos. Deviam era ter coragem para restringir os pedidos e em determinados períodos nem sequer os aceitar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Voltas e mais voltas

 

Quando iremos a direito?

A segunda volta das legislativas de Maio?

A direita já cometeu muitas vezes o erro de subestimar presidentes de esquerda. Pagou-o sempre da maneira mais cara.

RUI RAMOS Colunista do Observador

OBSERVADOR,30 jan. 2026, 00:2216

No debate de terça-feira, André Ventura tirou a conclusão errada de uma observação certa. A observação certa é que António José Seguro nunca provou, na sua carreira política, ter força perante os seus correligionários, nem é capaz de criticar as políticas falhadas que eles seguiram. A conclusão errada é que, por isso, será um presidente passivo, que “não fará nem bem nem mal”. A direita já cometeu muitas vezes o erro de subestimar presidentes de esquerda. Pagou-o sempre da maneira mais cara.

Todos os presidentes socialistas foram um problema para governos e maiorias de direita, mesmo quando iniciaram mandatos com o apoio da direita, como Mário Soares em 1991, ou sem a sua mais forte oposição, como Jorge Sampaio em 2001. Soares fez a vida negra a Cavaco Silva, e Sampaio sabotou o governo de Durão Barroso e destruiu o de Santana Lopes. Porque é que Seguro, se obtiver a enorme maioria que lhe prometem, seria diferente? A esse respeito, a suposta personalidade de Seguro pode funcionar ao contrário do que se pensa. Admitamos que é fraco. Uma coisa a que um fraco, por definição, nunca resiste são as circunstâncias. E não é difícil de prever circunstâncias que levem Seguro a ser o Sampaio da maioria de direita saída das eleições de Maio.

Reparem bem: não estou a atribuir essa intenção a Seguro. O que estou a dizer é que se ele é tão fraco como dizem, acabará por ir por aí, queira ou não, se as circunstâncias forem propícias. Ora, parte das circunstâncias já são propícias. O estado do país convida o presidente a ser “exigente”, isto é, a constituir-se em provedor-mor do descontentamento. A esquerda não está conformada nem corrigida com a derrota de Maio (por exemplo, ainda não desistiu de ilegalizar o Chega, como se viu esta semana). Se os problemas no SNS e arredores se empilharem, como se estão a empilhar, acusará a actual maioria, paralisada pelas “linhas vermelhas”, de apenas representar um impasse. A partir daí, intimará um presidente Seguro a “resolver” esse impasse, como Jorge Sampaio fez em 2004. Seguro precisaria de muita força e firmeza para se opor a esta deriva. Precisamente o que nos dizem que ele não tem.

O que pode ajudar António José Seguro, no caso de ser eleito, a resistir? Para começar, uma forte votação em André Ventura, que permita a Seguro convencer-se e argumentar que o país não está pronto para a “viradeira”. Só a força da direita, demonstrada pela votação de Ventura, poderá contrabalançar a pressão que a esquerda fará sobre um Seguro vitorioso. Se Seguro tiver a votação que o carnaval antifascista gostaria de lhe dar, não conseguirá persuadir ninguém, a começar por si próprio, de que os seus votos não são um sinal de que a maioria parlamentar faliu e está madura para ser varrida à primeira oportunidade. Digamos que será preciso votar Ventura para ajudar Seguro, se eleito, a ser o presidente imparcial que diz querer ser. Porque se ele é fraco, como tanta gente alega, guiar-se-á apenas, como todos os fracos, pela correlação de forças.

Há quem meta medo ao governo com a votação de André Ventura: se for muito grande, ei-lo “líder da direita”. Ninguém reparou que uma votação muito grande de António José Seguro será pior. Os votos darão a Ventura, quando muito, uns galões simbólicos: a “liderança da direita” não é um órgão de soberania. A Seguro, uma grande votação dará uma autoridade acrescentada como presidente, e deixá-lo-á refém das expectativas e pressões da esquerda. Estas eleições presidenciais vão ser a segunda volta das legislativas de Maio. Ou os eleitores confirmam a decisão de romper com trinta anos de poder socialista, ou começarão a preparar o seu regresso.

PRESIDENCIAIS       ELEIÇÕES        POLÍTICA        ANTÓNIO JOSÉ SEGURO       PS        ANDRÉ VENTURA        PARTIDO CHEGA

COMENTÁRIOS:
João Santos - A lucidez cristalina de Rui Ramos é um alerta a todo os eleitores não socialistas. Depois do erro estratégico clamoroso das linhas vermelhas de Montenegro, contribuir agora  para a entronização de Seguro com uma votação de 60% será estender o tapete vermelho ao regresso do PS e de toda a tralha geringoncista à área da governação.Com o cortejo de vassalagem a Seguro por parte  de figuras da área não socialista assiste-se ao maior erro estratégico das Direitas desde a primavera marcelista.

J. D.L.: Conclusão: Seguro, Seguro, ... é Ventura!

observador censurado: António José Seguro: mediocridade e Maçonaria É verdade a publicação de Carlos Coelho na sua página de Facebook, transcrita com cortes a seguir?

1. Entrou na Juventude Socialista e por ela trepou por falta de concorrência.

2. Em 1990, acabou por liderar a juventude partidária nacional numa lista que não teve concorrente sequer. Cumpriu dois mandatos, sem profissão conhecida.

3. Em 1991, começa a sua carreira de deputado do Partido Socialista. Depois disso, os tachos por conta do cartão partidário sucederam-se: deputado, eurodeputado, secretário de Estado, Ministro-adjunto.

4. Em 2011, com a vitória de Passos Coelho, as raposas no PS deixaram essa travessia no deserto para os inofensivos hamsters políticos se divertirem a andar na roda do dia-a-dia, enquanto eles tratavam do seu futuro.

5. E foi assim, mais uma vez por falta de comparência dos adversários (o melhor que se arranjou foi Francisco Assis), que venceu a liderança do PS.

6. Durante a sua liderança, era confrangedor até para o PS ver como Seguro se dividia entre não renegar a herança de Sócrates e tentar fazer oposição a Passos Coelho  -  mas não muita,  pois ele próprio sabia que nunca seria eleito, não tinha competência nem duraria uma semana como Primeiro Ministro.

7. No fim da primeira legislatura de Passos Coelho, as raposas socialistas rapidamente apearam Seguro do lugar onde nunca o quiseram. E é aí que se vê obrigado a pensar na vida.

8. Casado com Margarida Maldonado Freitas, da milionária e maçónica família das Farmácias Maldonado Freitas, nunca iria passar fome e a teia de conhecimentos, interesses e favores das elites política e maçónica nunca deixaria um súbdito obediente para trás.

9. Primeira tarefa de político apeado: comprar um curso numa Universidade privada. Foi fazer uma Licenciatura em Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) para criar uma aura de intelectual.

10. Concluída a Licenciatura, onde a maioria dos professores era colega de copos, seguiu-se um mestrado no ISCTE, o feudo académico socialista.

11. Com Mestrado e sem qualquer tipo de investigação científica produzida, foi convidado para dar aulas na (UAL). Sem doutoramento, sem prestar provas, sem concurso e sem concorrência, ao contrário da carreira docente universitária pública.

12. A segunda tarefa de político apeado que pensa regressar é simular actividade empresarial privada. Os seus Alojamentos Locais que serviram para sacar fundos europeus estão sempre às moscas. Portanto, ninguém paga contas com este "investimento".

13. A produção de azeite também é incipiente e não paga as contas a ninguém.

14. Mora nas Caldas da Rainha, terra da esposa, onde esta é directora da famosa Farmácia e sede das farmácias da família Maçónica que rendem fortunas e sustentam Seguro como Karl Marx era sustentado pela esposa Jenny von Westphalen.

15. Dispensou uma subvenção política porque não precisava dela, mas politicamente iria precisar de poder dizer que a dispensou, para que a narrativa de homem sério fosse tão vendável quanto artificial.

Paul C. Rosado: Exactamente. Se o tal centro-direita votar em peso em Seguro, estará a assinar a sua sentença de morte. Parecia ser o PS o condenado ao desaparecimento, mas com mais de um milhão de novos "portugueses", obviamente clientes da esquerda, a ter acesso ao voto em breve, quem se vai tramar é o PSD. É triste ver parte da direita, estupidamente, a cair na armadilha das linhas vermelhas, enquanto a esquerda faz abertamente geringonças com partidos anarquistas, trotskistas, maoistas, estalinistas, alguns deles  defendendo a "ditadura do proletariado". Gente de direita: abram os olhos enquanto é tempo!

graça Dias: Caríssimo Rui Ramos  Que análise fascinante numa narrativa arrebatadora e mordaz.  Simplesmente hilariante. Deliciosa referência neste texto: " Se Seguro tiver a votação  que o  carnaval antifascista  gostaria de lhe dar  [ ... ] " Independentemente do resultado desta eleição, não  deixámos de assistir à " falência da ética politica e moral em desfile " das elites políticas do status quo. Um espectáculo ao nível do Circo Soledad Cardinali. Caríssimo Rui Ramos, obrigada. Esta leitura foi um momento de lazer e animação. 

Carlos Chaves: Seguro está a ser levado ao colo, pela CS e pelos idiotas uteis da “direita”, espero que venham a pagar muito caro por esta traição!  Tanta miséria que o PS tem trazido à nossa Nação, e mesmo assim não aprendem!   Depois de décadas a votar no PSD/CDS/AD e ter sido traído vergonhosamente por esta área política, o meu voto dia 08 é no Ventura!       Vitor Batista > Rosa Lourenço : Sampaio também era, e quando foi eleito tornou-se no capo da esquerda e pariu Sócrates.  Nojo dessa gente.

Vitor Batista:  Grande análise! os eunucos de centro direita já se esqueceram dos presidentes xuxalistas.  Seguro é como os terrenos por estes dias,muito permeáveis.

Glorioso SLB: Esta crónica vai levar o Pedro Marques Lopes a dizer q o Observador é financiado pelo Chega.

Paulo Nunes: Incrível como Rui Ramos é, no meio de tantos delirantes comentadores, o único sóbrio é realista. Digo isto desde o início: Seguro será o fim de Montenegro.

Humilde Servo: É o que vai acontecer. À primeira oportunidade Seguro dissolverá a Assembleia da República e convocará eleições para favorecer a esquerda.

MariaPaula Silva: Completamente de acordo. A melhor explicação sobre a situação "presidencial" actual. No entanto, se falta força a Seguro, não deixa de ser verdade que falta um pouco de comedimento e classe a Ventura.

Maria Francisca Mamede:  Muito bom!!! É sempre um enorme prazer ler Rui Ramos!!

Jacinto Leite: Um socialista como o Poucochinho apenas usa a democracia para chegar à ditadura do proletariado. O socialismo é uma fraude.

Rosa Silvestre: Estando já António José Seguro eleito por larga maioria, segundo todas as sondagens, qual é o problema de votar André Ventura para aqueles que não se revêem nem num nem noutro? Não é preferível não dar força excessiva a qualquer um deles?

Joaquim Albano Duarte: Excelente, concordo inteiramente!

8Responder

Paul C. Rosado > Filipe Paes de Vasconcellos: Mas qual "Trumpismo"? Isso não existe, nem nunca existiu! E quanto à "ordem mundial" que trouxe "paz e progresso", ela já não existe. Morreu quando as nações unidas passaram a ser governadas, não pelos blocos Ocidental e de Leste, mas sim por uma maioria de estados ditatoriais e seus acólitos anti-ocidentais, encabeçados pela China, Rússia e Irão. Puseram-lhe na cabeça que a culpa é do "Trumpismo", quando a Rússia, o Irão e a China já se andam a expandir brutalmente há décadas, promovendo ditaduras e ateando fogos por Africa, Asia e agora até na Europa.

Carlos F. Marques: Muito bem.

Gabriel Madeira  > Jorge Espinha: É sério. Como homem, em termos individuais, e como membro do PS. E é esta última qualidade que o país dispensa, rejeita.

Filipe Paes de Vasconcellos: VENTURA/TRUMP

Não nos podemos sujeitar aos desvarios da extrema direita submissa à ideologia trumpista.

É urgentíssimo travar este movimento ideológico absolutamente fratricida para o Mundo Livre e Democrático.

Ventura, com os seus seguidores e ideólogos, faz parte e segue a cartilha ideológica de Trump que quer impor ao Mundo Livre e Democrático.

Isto tem de ser dito em voz alta e a toda a hora.

Ventura e o Chega (o partido “patriota “ de Trump) não representam nem tão pouco lideram a Direita em Portugal. 

Era o que mais faltava a Direita  Livre e Democrática ser representada por um Trumpista/ Putinista, que Ventura ainda não acha oportuno revelar. Mas, por enquanto, não se assume. É o cinismo, a sonsice e a cobardia dos seus “valentes”. A “direita” que Ventura diz querer liderar é a direita extremista que pretende fazer o contraponto com a extrema-esquerda que, entretanto, já lá foi. Só que esta extrema-esquerda já não existe e, portanto,  Ventura vai perder o chão à medida que o governo AD continue a resolver os problemas gravíssimos que o Costismo (extrema esquerda PS+BE+PCP) deixou a Portugal. Assim, Ventura deixará gradualmente de “ter as cartas” que alimentam o populismo. Deixará de “ter as cartas” mas, atenção,  porque financiamento não lhes faltará.  Portanto, o que parece ser importante clarificar (desmascarar) é que o projecto da direita que Ventura, na sua narrativa mentirosa diz representar, é o mesmo que Trump quer impor para  rebentar com a Ordem Internacional que ao longo dos últimos 80 anos trouxe Paz e Progresso ao mundo livre e democrático. Não basta rezar e bater no peito para as televisões. A política nacional e internacional não pode ser dirigida por gente revoltada, armados em “patriotas“ submissos ao trumpismo.

 


Estranho convívio

 

Com alguém que foi ilustre, e cuja memória se tece no post mortem, na lógica de um povo pouco amante em enfrentar reais valores humanos, especialmente virado para as tempestades exteriores, como as que estamos a atravessar, essas sim, com o seu brilho de desgraça visível ao segundo, repetidamente…

João Canijo: "Não há verdades absolutas, só há realidades"

21 fev. 2023, 19:08

ANDRÉ ALMEIDA SANTOS: Texto

Uma entrevista feita aquando da estreia de “Mal Viver” e “Viver Mal” em Berlim (2023), sobre o processo criativo, as actrizes com quem trabalhou e o país que filmava. O realizador morreu aos 68 anos.

[esta entrevista foi originalmente publicada a 21 de fevereiro de 2023 e actualizada a 3o de janeiro de 2026, após a morte de João Canijo]

São dois filmes ou um só? Nesta entrevista, João Canijo acrescentava mais uma peça ao mistério: havia uma série. A dúvida tinha razão de existir, o realizador falou muitas vezes no singular ao longo da entrevista, mas no centro da conversa estavam dois filmes: “Mal Viver” e “Viver Mal”. Ambos se estrearam no festival de Berlim. Era a primeira vez que o mesmo realizador apresentava dois filmes nas duas principais competições do festival, o primeiro na Competição Oficial e o segundo na Encounters. Acabou por vencer o Urso de Prata com o primeiro.

 

Quando Canijo falava no singular, referia-se à obra. Os filmes são independentes, embora aconteçam no mesmo lugar, no mesmo tempo, com os mesmos actores. Complementam-se, claro, mas mais importante do que isso, dialogam. A ideia de fazer algo assim vinha desde “Sangue do Meu Sangue” (2011). Na altura, por razões de orçamento, foi impossível de o fazer. “Mal Viver” / “Viver Mal” refugiam-se no interior de um hotel para contar várias histórias sobre mães (e não só).

Em “Mal Viver” o tema é a ansiedade. O espectador acompanha três gerações de mulheres da família que gere o hotel. As cinco mulheres, interpretadas por Anabela Moreira, Rita Blanco, Cleia Almeida, Madalena Almeida e Vera Barreto, abrem cicatrizes e ruminam sobre rancores de décadas como se não existisse mais ninguém à volta. Nuno Lopes, Filipa Areosa, Leonor Silveira, Rafael Morais, Lia Carvalho, Beatriz Batarda, Carolina Amaral e Leonor Vasconcelos interpretam os outros corpos que por lá andam, que ouvem e que se fazem ouvir. São também eles que ocupam as três histórias de “Viver Mal” onde os papéis não se revertem.

Nesta entrevista, João Canijo falou sobre o processo de criação deste díptico, foi esse o tema central da conversa. Mas porque a obra do cineasta cruzava intenções, observações, contextos e interpretações (sobretudo as femininas) entre os vários filmes, o diálogo acabou por passar por vários filmes do realizador portugueses e pelas motivações que os geraram.

[o trailer de “Mal Viver”:]

É o primeiro realizador a ter dois filmes em diferentes competições do Festival de Berlim. Como se sente?

Muito bem, confortado. Muito mais sossegado. Foi muito bom para as minhas angústias, a  terapia não foi, mas isto foi.

Podem ser filmes para correr bem internacionalmente?

O “Sangue do Meu Sangue” correu o mundo inteiro. Espero o mesmo destes. Não há razão para não acontecer. O feedback mais importante é um estar na Competição Oficial e o outro no Encounters, é exactamente onde deveria estar cada um deles.

Depois de ver os filmes, fui à procura do hotel [Hotel Parque do Rio, no pinhal de Ofir] que serve de cenário. Fiquei fascinado por ainda estar a funcionar. Tem um ar algo abandonado, parece que não está a ser usado tão diariamente.

Ele não está assim tão gasto quanto isso, o hotel está funcional, precisa de algumas recuperações. Mas está funcional. E existe assim porque o dono é arquitecto e é filho do arquitecto que fez o hotel originalmente, mantém o hotel como uma joia.

"Tudo o que aconteceu nas sessões de ensaios é transcrito. Dessa transcrição é que faço a manipulação e a montagem. O que foi dito, foi dito por elas em contexto. Não é naturalista, mas realista. Na rodagem não há improvisação, elas reinterpretam o que tinham dito."

Já conhecia o hotel?

Andámos à procura de vários e deixei este para último. Tinha uma piscina onde os meus pais me levavam quando era pequeno. Era uma piscina que não ficava muito longe do Porto, era um passeio, passávamos lá o dia, as crianças na piscina e os pais a apanhar sol. Tinha muito medo de que o hotel estivesse estragado. Deixei para o fim. E quando lá chegámos, não estava estragado.

Parece que parou no tempo. Digo isto no melhor dos sentidos.

O arquitecto que fez o hotel é um dos arquitectos importantes do grupo de arquitectura do Porto, chamava-se Júlio Oliveira, o filho também se chama Júlio Oliveira, era do grupo do Távora. São ligeiramente mais velhos do que o Siza.

Em alguns dos seus filmes há muita discussão. Lembro-me do “Sangue do Meu Sangue”, fala-se muito alto, há sobreposição, mas entende-se tudo. Nestes filmes isso também acontece, ainda que de forma diferente. Como é que chega a esse nível de detalhe?
Com uma coisa que se chama 5.1, agora chama-se 7.1, no fundo é o Surround, que é o que é usado nos filmes americanos para fazer efeitos de som. Mas é uma coisa que espacializa o som. Numa sala, não na televisão, tu podes seguir as conversas em colunas diferentes, em sítios diferentes. É possível ter essa nitidez nas conversas.

Mas a forma como o texto é trabalhado não tem influência? Há muito tempo que não escrevo diálogos, os diálogos saem das sessões de ensaio com as actrizes. São longas, durante muito tempo e são todas filmadas. Tudo o que aconteceu nas sessões de ensaios é transcrito. Dessa transcrição é que faço a manipulação e a montagem. O que foi dito, foi dito por elas em contexto. Não é naturalista, mas realista. Na rodagem não há improvisação, elas reinterpretam o que tinham dito.

Neste caso, quanto tempo demoraram as sessões? Demora sempre… há intervalos, não é tudo seguido, a transcrição demora muito tempo e eu preciso de digerir a primeira fase para ir para a segunda. Mas ao todo, uns quatro, cinco meses, espaçados em um ano e tal, quase dois anos.

 "O 'Mal Viver' podia passar-se num hotel vazio. Ter clientes valoriza, dá-lhe outro dramatismo, elas não estão sozinhas e portam-se como se estivessem sozinhas. É mais constrangedor. Isso ajuda"

O texto nasce dessas sessões?

O texto nasce orgânica ou racionalmente. Temos uma base de argumento e começamos por discutir os personagens. Ao discutir os personagens e as relações entre eles, vão saindo diálogos. Na segunda fase já tenho uma estrutura de argumento com parte de diálogos. Nas discussões das cenas, de porquê dizerem aquelas coisas, de se portarem daquela maneira e do porquê de gostarem ou não umas das outras, vão saindo… quase como estou a fazer agora. Para explicar uma coisa, exemplifico com uma frase. As coisas vão saindo assim. Quando tenho um argumento dialogado, as cenas são todas improvisadas outra vez. Dessas improvisações é que vêm os diálogos finais. Muitas vezes não é tudo da improvisação, há coisas que havia antes e que eram boas e mantenho. Mas faço uma montagem, e como é lógico, uma improvisação não é económica, nem concentrada, uma cena de improvisação de dois minutos pode ter dez ou doze. Depois é uma questão de edição.

Os dois filmes comunicam em permanência. Como vi o “Mal Viver” primeiro, as conversas delas, em fundo, são dominantes ao ver o “Viver Mal”. Porque quis que os dois filmes dialogassem?

É como na vida. Por muito que as pessoas vivam numa bolha, nunca vivem de facto numa bolha, vivem num mundo onde se passam outras coisas e onde os seus dramas são relativos. Dou sempre o exemplo do café: a gente está no café, está com alguém no café a conversar, mas pode estar atento à conversa da mesa ao lado. E a pessoa com quem estamos a conversar pode estar atenta a outra conversa de outra mesa, que se está a passar ao mesmo tempo. Por um lado, relativiza o drama dito central, por outro lado também o haver interferência o torna mais premente. No fundo, não existe verdade, existe realidade e a interpretação da realidade é sempre uma escolha. As escolhas não têm de ser impostas. Não faz sentido impor a escolha de um ponto de vista, porque essa interpretação será sempre diferente do que a gente tentou impor.

No “Mal Viver” ouvem-se os hóspedes. Depois, no “Viver Mal”, o que se ouve dos hóspedes corresponde ao que é entregue. Em alguns dos filmes anteriores, como “Sangue do Meu Sangue” ou “Fátima”, fez mais do que uma versão. Já não consegue fazer só um filme?
Este caso é diferente. Mas a ideia de eles dialogarem é a de um perturbar o outro. Houve uma actriz que foi ver o “Viver Mal” pela primeira vez e disse que tinha ficado imensamente perturbada porque queria era seguir a história das outras. É essa a ideia, há um outro mundo além do nosso, mais pequeno, a percepção da realidade é múltipla, não tem de ser condicionada nem centrada. Nestes filmes foi diferente dos outros, porque o “Mal Viver” podia passar-se num hotel vazio. Ter clientes valoriza, dá-lhe outro dramatismo, elas não estão sozinhas e portam-se como se estivessem sozinhas. É mais constrangedor. Isso ajuda, dá-lhe outro peso, profundidade. Mas a hipótese de fazer a série, que é muito mais dinheiro para o filme, não apareceu de imediato, só quando o processo estava muito adiantado. Só depois de estar a fazer as coisas que seriam para uma série de televisão — as personagens do “Viver Mal” seriam para uma série de televisão — é que percebi que era para outro filme. Independentemente da série. Uma série é outra coisa, e tivemos o cuidado de tentar evitar que planos se repetissem de um filme para o outro, e que eu me lembre só há dois casos onde se repetem, e repetem-se em momentos diferentes do plano. Não é exatamente a mesma coisa.

"Com a idade, cada vez me interessam mais as coisas que são mesmo importantes para mim. Perdi o pudor de falar da minha classe social. No caso do “Mal Viver” é a ansiedade, a ansiedade que nos impede de viver, muitas vezes."

Vai existir uma série?

Já existe. É como se fosse uma salada russa, é tudo misturado.

Não tenho os filmes dos anos 1990 muito presente, vi-os muito jovem…
Também não vale a pena, quando muito, o único com alguma graça é mesmo o primeiro [“Três Menos Eu”, 1988], por ser um filme tão infantil e tão ingénuo. Os outros dois não vale a pena, então o “Sapatos Pretos” [1998] não vale mesmo a pena.

Esse foi o primeiro que vi.

O “Sapatos Pretos” é o filme que recuso que vá às retrospectivas [risos]. Mas tem uma explicação: por causa das circunstâncias da época, era muito difícil fazer filmes em Portugal. Trabalhei em televisão vários anos. Quando fui fazer o “Sapatos Pretos”, estava formatado em televisão, meios diferentes formatam, é impossível não formatar.

Já o “Noite Escura” [2004]…

Nesse os diálogos ainda são mais importantes do que neste. Todas as conversas das meninas podem ser seguidas independentemente da ação principal. Elas saem de campo, saem de quadro e as conversas continuam, mas deslocam-se. Se o espectador quiser, pode continuar a segui-las. São várias ao mesmo tempo, ainda por cima. Mas só se percebe isso num cinema com bom som.

Tem sido um objectivo seu aperfeiçoar essa dinâmica, como fez no “Sangue do Meu Sangue”?
O “Sangue do Meu Sangue” [2011] tem uma história por detrás, tem a ver com o “Mal Viver” / “Viver Mal”, eram para ser dois filmes à partida. Sendo que as cenas na casa da família eram as mesmas, mas filmadas de pontos de vistas diferentes. Mas não houve dinheiro para ter mais duas ou três semanas de rodagem que eram necessárias. As cenas da casa são para aí 30% do filme e não houve dinheiro para filmar outra vez 30% do filme. Conceptualmente, eram dois filmes.

[o trailer de “Viver Mal”:]

No “Viver Mal”, estou certo se encontrar uma certa decadência da burguesia, especialmente em Lisboa?

No “Viver Mal” isso é assim, mas é assim porque é produto da adaptação e dos ensaios com os actores: são peças do Strindberg. Uma delas conhecida, as outras nem tanto. “O Pelicano” é muito conhecida. Na discussão com os actores e na construção das personagens foi surgindo isso, essa decadência. E no “Mal Viver também, mas é mais uma coisa… agora com a idade, cada vez me interessam mais as coisas que são mesmo importantes para mim. Perdi o pudor de falar da minha classe social.

E que coisas importantes são essas?

No caso do “Mal Viver” é a ansiedade, a ansiedade que nos impede de viver, muitas vezes.

Mas sente isso, pessoalmente?

Tem dias.

Como passa isso para um filme no contexto de família. Ajuda trabalhar com as mesmas actrizes?
Ajuda. Como aquela frase: a psicanálise não fez grande coisa pela minha neurose, mas fez muito pela minha escrita. Ora, bizarramente, eu já estava a fazer terapia para me lembrar do que não me lembrava. Houve essa investigação. Mas a senhora [psiquiatra] sabia que aquilo não era uma terapia normal. Não a estava a enganar.

Isso foi quando?

2017, 2018, por aí.

Porque é que trabalha sempre com as mesmas actrizes? São mais ou menos as mesmas, vão sendo acrescentadas.

"Conheço-as, tenho confiança nelas, elas têm confiança em mim e cria-se uma espécie de família. Quando começo a pensar nos projectos, já estou a pensar nelas. Não escrevo os projectos e depois vou à procura das atrizes para aquele projecto. É sempre ao contrário, começar pelas atrizes e depois descobrir o projecto."

Sim, e depois fica com elas.

Agora no próximo filme já vai ser acrescentada a Madalena Almeida.

É quase natural colocar a Anabela Moreira e a Rita Blanco como mãe e filha?
Sim [risos]. A Cleia [Almeida] já fez muitas vezes de filha da Rita, pelo menos três.

A Leonor Silveira e a Beatriz Batarda parecem transformadas. Confesso que só no final de “O Pelicano” é que percebi que era a Leonor Silveira…

Foi? [risos]

Não sei porquê, talvez por não associar a personagem à actriz. Conheço a Leonor Silveira desde que ela tem 17 anos e associo-lhe aquela personagem. As personagens saem sempre de dentro delas, não são exteriores.

Mas a Beatriz não costuma ser assim Faz papéis mais torturados, vá-se lá saber porquê. Eu próprio lhe dei um papel típico há muitos anos, um boneco há muitos anos. Mas aqui não é um boneco, é uma personagem.

Porquê o foco tão grande nas mães em “Viver Mal”?

Nasce de uma reaproximação que fiz ao Bergman. E fazendo uma reaproximação ao Bergman, logicamente se faz uma reaproximação ao Strindberg, porque foi o mentor espiritual do Bergman. Quando estava a montar o “Fátima”, andei a ler o Strindberg todo, e a primeira peça que li era uma peça pouco conhecida, mas das importantes, chamada “Os Credores”. Depois disso fui lendo e vi que tinha muitas coisas em comum com ele, antes dele ficar esquizofrénico. Depois, já não tenho grande coisa em comum — ainda não estou esquizofrénico. E as mães têm muita importância, também têm para mim

Gosta de pensar as famílias em Portugal?

Este filme já não é tanto sobre Portugal. Uma descoberta que fiz em “Sapatos Pretos” é que havia um país real escondido do qual não se falava, que se calhar era mais interessante e mais violento do que aquele país que se falava. E depois fui descobrindo coisas sobre isso e interessou-me. Tinha uma ideia, que agora já não tenho, mas há muita gente que assim diz, que as classes baixas, como não têm tempo, estão permanentemente a lutar pela sobrevivência e não têm muito tempo para elaborar sobre os traumas, sentimentos. Portanto, as coisas são imediatas e primárias, primárias no sentido de serem mais imediatas. Isso sempre me interessou, pela clareza das relações humanas. Na burguesia as relações humanas são muito menos claras, acho.

E têm mais códigos?

Exacto. Mas essa parte de Portugal matei-a no “Fátima”. Está tudo resolvido, não tenho nada a ver com isso.

Não se fala muito de ansiedade em Portugal. No “Mal Viver” não se fala disso realmente, vão-se passando as culpas. A Anabela culpa a mãe, a mãe culpa a Anabela por ser como é…
Mas é assim que acontece nas famílias. As avós vão estragar as vidas das filhas e as filhas vão estragar a vida das netas. E infinitamente, por aí fora.

Até surgir alguém sóbrio o suficiente para resolver o problema.

Duvido.

Quando acabou o “Fátima”, ficou exausto?

Fiquei. Era uma equipa muito grande, eram muitas actrizes e foi uma rodagem infernal, com uma equipa grande de mais naquelas estradas horríveis, terríveis dos caminhos de Fátima. Nada foi improvisado, estava tudo determinado e definido, mas cada vez que se mudava de plano, cada vez que se fazia uma remontagem das coisas num sítio, demorava horas que nunca mais acabavam. Foi um inferno. Agora é tudo filmes fechados no mesmo sítio. Isso foi uma razão prática para o “Mal Viver” ser num hotel.

"No 'Fátima' não consigo explicar o tema numa palavra, neste consigo, é ansiedade, no 'Fátima' tenho de fazer uma construção, tenho de falar no conflito entre a procura do transcendente e a natureza humana, sendo que a natureza humana ganha."

Não sabia onde se estava a meter?

Sabia, mas não sabia até que ponto. Sempre insisti numa equipa com metade do tamanho, mas tive uma equipa imensa.

Isso deveu-se a quê? Foram acrescentados, foi chegando gente, mais gente e ficou uma equipa monstruosa.

É o que dá filmar sobre Fátima. É.

Nunca mais se mete numa dessas? Não, não

Há pouco falava da ansiedade, foi isso que o puxou para estes dois filmes?
Não, aí foi uma questão prática, de fazer um filme em condições que controlasse completamente. E isso consegui. No “Fátima” tinha condições que não controlava minimamente. Tenho uma história muito engraçada. Pediu-se autorização para filmar no santuário com aqueles 300 mil figurantes de graça. O Santuário nunca mais respondia, depois respondeu a dizer que não… e eu fiquei atrapalhado e andámos a filmar às escondidas. E, depois numa noite, fui ler a carta outra vez, e percebi que era uma carta da igreja, neste caso dos jesuítas, e no fundo a carta dizia: a gente não deixa, mas vocês façam o que quiserem. O que é certo é que nunca ninguém nos chateou por filmar lá.

Aí correu bem.

Sim, era bem mais controlado.

Quantas vezes fez o percurso?

Fiz uma vez, mas fiz um curto, de Coimbra, para perceber o que era. Eram 80 kms. Mas elas fizeram as peregrinações reais. A Anabela e a Vera Barreto fizeram a peregrinação que está no filme, com as condições, aquilo tudo. O senhor que organizava essa peregrinação era o decorador, era ele que montava o acampamento, ele é que sabia. As coisas eram todas dele, era tudo real.

 "Uma actriz que foi ver o “Viver Mal” pela primeira vez disse que tinha ficado imensamente perturbada porque queria era seguir a história das outras. É essa a ideia, há um outro mundo além do nosso"

Nestas sessões tão intensas, sendo “Fátima” o extremo, o elenco chateia-se consigo?

Então não… então não…

Mas voltam? São discussões bem intensas, para os dois lados, para o bem e para o mal. E entre elas…

Mas isso ajuda-o?

Teoricamente sim, mas na prática é esgotante. Quando era mais novo aguentava bem, agora não aguento tão bem.

Vai mudar a forma de fazer os seus filmes?

Não, mas vou tentar criar condições… condições para não fazer outro “Fátima”, aquilo foi difícil e esgotante para elas.

E nestes dois filmes?

Houve questões, mas não me fizeram emagrecer.

Há pouco falou de “Mal Viver” também ser uma série. Quando partiu para este projecto existia só um filme?

Existia um filme, mas já com a possibilidade de o hotel ter clientes. E se tivesse clientes, quais seriam. Mas sempre com a possibilidade de estar vazio, uma espécie de “Shining” sem terror, não é.

Saiu da estrada para fazer um filme num hotel.

O “Fátima” era um filme de conjunto, coral, o espectador é que tinha de escolher quais eram os protagonistas que queria seguir. Como a peregrinação da Anabela foi a estrutura do filme, ela ganhou uma certa preponderância. Aqui não, já sabia quem eram as personagens principais e o tema é muito mais concreto do que no “Fátima”. No “Fátima” não consigo explicar o tema numa palavra, neste consigo, é ansiedade, no “Fátima” tenho de fazer uma construção, tenho de falar no conflito entre a procura do transcendente e a natureza humana, sendo que a natureza humana ganha.

Interessa esta ideia de escolha?

Absolutamente.

Falou agora nas personagens, há pouco falou no som.

Interessa-me absolutamente, e o exemplo que dou sempre é o “Hamlet” e o monólogo do “To be or not to be”, é o que cada actor quiser e o que cada espectador quiser. Não há possibilidade de haver uma explicação, só há interpretações. Interessa-me possibilitar as interpretações.

"A ideia é deixar ao espectador o máximo de liberdade e imaginação possível. E condicioná-lo o menos possível. O condicionamento é uma coisa sem sentido, um contrassenso, por muito que se condicione, a interpretação vai ser sempre diferente."

De onde vem isso?

É uma coisa filosófica, vem muito das minhas leituras de Schopenhauer e agora estou a aprofundar com outras leituras. Passo a vida a dizer que a verdade é a minha verdade, não há verdades absolutas, só há realidades, não há verdades. É daí que vem. Há uma realidade e a verdade dessa realidade é individual.

E aprofundou essa possibilidade de interpretação ao tornar os dois filmes dialogantes?
Sim.

No processo descobriu como tornar isso melhor?

O processo é antigo, já tinha essa intenção no “Sangue do Meu Sangue”, neste foi fácil de concretizar. Quando o Rafael [Morais] abre a porta para sair do quarto da Leonor Silveira, no segmento deles, há uma série de pessoas a passar no corredor. O que elas estão a fazer? Fica à interpretação e imaginação de cada um, é essa a ideia. E no “Mal Viver” também, quando a Anabela entra no quarto da Cleia e o Rafael sai do outro quarto, ficamos a pensar no que ele está a fazer. A ideia é deixar ao espectador o máximo de liberdade e imaginação possível. E condicioná-lo o menos possível. O condicionamento é uma coisa sem sentido, um contrassenso, por muito que se condicione, a interpretação vai ser sempre diferente.

Como seria o filme sem os hóspedes? A intrusão é importante, os hóspedes ouvem-nas e vice-versa.
Isso enriquece o filme, haver intrusos. Mas se não houvesse clientes seria uma espécie de “Lágrimas e Suspiros” [filme de Ingmar Bergman].

Viu “A ilha de Bergman”? Não.

A realizadora [Mia Hansen Love] a dado momento descreve-o como um filme de terror sem catarse.
Ah, certo [risos]. Mas eu não sou mauzinho para elas, elas dizem que sim, mas eu acho que não.

Cinema       Cultura