sábado, 4 de julho de 2026

Useiros e vezeiros

 

Havia outrora, numa outra escolaridade, um poema que começava assim;

«Preguiça foi à lição

Ler escrever e contar

Deixava a memória em casa

Com preguiça de a levar.»

E assim terminava:

«Preguiça voltou da escola

Fez a cama e se deitou.

Para não mais a fazer

Nunca mais se levantou.»

O texto infra fez-mo recordar, num reforço inglório. Embora reconheça que é pura liberdade poética tal conceito, entre os humanos, seres, afinal, bem dignos de admiração, no BEM como no MAL.

A revolução escondida

A reescrita de meia dúzia de artigos do Código de Trabalho requer aviso prévio e mandato explícito do eleitorado, mas a transformação demográfica do país pode ser decidida nas costas dos eleitores?

RUI RAMOS, Colunista do Observador

OBSERVADOR, 03 jul. 2026, 00:25

(OUTROS TÍTULOS: ONU prevê intensificação rápida do El Niño. Sismos na Venezuela: Vila Velha de Ródão recolhe bens. 16 menores viviam fechados num quarto com fezes humanas. Fim da auto-baixa e impostos. Alemanha aprova pacote laboral. Rússia bombardeia Kiev no "maior ataque" nesta guerra. Japão instala câmaras nas montanhas perante ataques de russos. Foi confirmado a semana passada: em poucos anos, os residentes estrangeiros em Portugal duplicaram. Representam hoje 14% da população. Por isso, o país tem agora quase mais um milhão de habitantes do que em 2021. O que se passa com as nossas estatísticas, nas quais assentam a reflexão e a decisão públicas, que deixaram até há dias escapar uma mudança de tais proporções? Eis a primeira questão.

A segunda é esta: que se passa com a nossa democracia? Porque tudo isto começou em 2017 com a decisão de um governo socialista, amparado na extrema-esquerda, de inventar a “manifestação de interesse”. Nos últimos meses, toda a gente se exaltou muito por a reforma laboral não constar do programa eleitoral do PSD. Pergunto: a multiplicação brusca do número de residentes, através do fim do controle das fronteiras, alguma vez constou dos programas eleitorais do PS, PCP ou BE? A reescrita de alguns parágrafos do Código de Trabalho requer aviso prévio e mandato explícito do eleitorado, mas a transformação demográfica do país e a maior revolução social desde a década de 1960 pode ser decidida nas costas dos eleitores? O povo não deveria ter sido consultado? O que é a democracia, senão o direito de os cidadãos deliberarem sobre grandes opções, como é, por exemplo, adicionar à população mais 1 milhão de estrangeiros, com a pressão correspondente sobre a habitação e os serviços públicos?

Mas decidir o quê?, dizem-nos alguns. Não havia outra opção: a imigração era uma necessidade. Precisava dela a Segurança Social. Precisava dela a economia. Admitamos que sim. O problema então é este: que nos diz essa necessidade sobre a nossa Segurança Social e sobre a nossa economia? Que Segurança Social é essa que, para pagar as pensões, precisa de importar centenas de milhares de estrangeiros todos os anos? Que economia é essa que, para parecer que cresce, tem de receber todos os anos uma massa de trabalhadores pouco qualificados do Terceiro Mundo? O que talvez devêssemos concluir não é que a imigração é indispensável, mas que não temos a Segurança Social e a economia que nos convêm: uma Segurança Social viável, e uma economia capaz de crescer através da inovação e da produtividade. Percebemos assim o que está por detrás da importação caótica de trabalhadores pobres: a recusa das mudanças que poderiam ter tornado sustentável a Segurança Social e estimulado outra economia. O caos migratório é mais um aspecto da falta de reformas.

A irresponsabilidade socialista pode ficar cara. Leia-se o capítulo 2 de Spheres of Justice, de Michael Walzer. Um Estado que não controla as entradas e saídas deixa de ser soberano, mas deixa também de consistir numa comunidade histórica, onde o sentido de um destino nacional comum une gente através das gerações, regiões, classes sociais, ideologias e etnias. Transforma-se num território descaracterizado e de passagem, onde, faltando uma identidade comum, os residentes ocasionais tenderão a arrumar-se em guetos segundo as suas origens, como nas cidades comerciais da antiguidade: quando não existem fronteiras externas, passam a existir fronteiras internas. Ora, territórios sem limites e populações tribalizadas são ambientes mais propícios para impérios autoritários do que para democracias.

Este não é um argumento contra a imigração, o pluralismo, ou a hospitalidade, mas contra a conjugação entre o caos migratório e o projecto woke de criminalizar e eliminar as identidades nacionais no Ocidente. Foi nesse caminho que nos meteu o poder socialista. E até à semana passada, esperou que a falta de informação nos impedisse de ter a certeza sobre o que se passava.

Receba um alerta sempre que Rui Ramos publique um novo artigo.

IMIGRAÇÃO     MUNDO

Fernando ce: 100% de acordo. Não reconheço o meu país . E, mais do que isso , deram cabo do SNS, ao impor pelo menos mais de 800.000 utentes , colocando desafios quer em termos de consultas, cirurgias e medicamentos ( muitos vieram de países onde os caríssimos medicamentos inovadores não existem). Isto paga a folga na segurança social? Alguém me consultou deste descalabro? E que agora venham exigir uma “vida justa” - a que muitos nacionais não têm acesso - por parte de pessoas que vieram de países onde lutavam pela sobrevivência?

Francisco Almeida: Rui Ramos é mais um que toca ao de leve numa questão sobre a qual me interrogo desde que foram publicados os números do INE. Será que na direcção do INE há elementos vinculados ao PS que tenham impedido por 4 ou 5 anos a divulgação dos números da imigração? Se não é isso, porquê só agora?

GateKeeper: Top 10. Só porque os nrs e as %s peçam por defeito, está crónica não fica nos top 05. A verdadeira dimensão deste crime sócio - económico é muito maior, mais vasta e grave do que isso. Os meus netos é que vão amargar com as consequências desta hecatombe "tugalêsa".

Hugo Silva: Quando o outro trouxe este assunto à liça, há sensivelmente 3/4 anos, quem não tem memória curta, lembra-se bem como foi tratado e adjectivado. Na altura, não existiu uma alminha que não tivesse apelidado o outro, de racista, xenófobo etc.... O PSD, está incluído nesse lote de traidoras, convém não esquecer.  Mais uma vez, ficou demonstrado que o outro tinha razão, o que acontece muitas vezes, para azia daqueles que o detestam só porque sim.

David Pinheiro: Bravo! Perguntas certeiras, sem resposta, claro. E coragem de as fazer em público. Vale a assinatura.  PS: Apenas discordo de que este experimento social tenha sido feito nas "Costas" do povo. Foi à descarada (bastava andar pelas ruas) e teve direito a maioria absoluta. Temos o que merecemos.

Henrique Necho: Muito bom

Pedro Belo > Américo Silva: Quem é que fazia isso antes dos imigrantes? Afinal Portugal não existia antes de 2017, éramos um sonho

Paul C. Rosado: Esqueceu-se de referir outro aspecto:  O PS matou a democracia em Portugal. Que legitimidade há nos próximos resultados eleitorais, se o PS comprou centenas de milhares de votos para a esquerda, dando em troca a nossa nacionalidade? É que, na prática, foi mesmo isto que aconteceu! De quantos votos já beneficia, se grande parte dos imigrantes dos PALOPs, por exemplo, já podem votar ao fim de dois anos? Obviamente que irão votar em quem lhes dá a "mama".  Julgados por traição ainda seria pouco!

Rui Lima: Os países hoje na Europa e as suas administrações  são incapazes de responder quantos  chegam, todos os anos,  quem são o  que fazem O maior desastre para o futuro da nossa civilização acontece nas costas do povo, vamos ter o regresso da pobreza em grande escala hoje as barracas e tendas são aos milhares junto de bairros onde se vivia tranquilamente em França e em outros países . Paris em zonas como La Chapelle, Stalingrad, Saint-Denis …e junto ao anel viário de Paris. As autoridades francesas desmantelam regularmente estes acampamentos, mas novos acabam por surgir noutros locais.

observador censurado: "(...) Representam hoje 14% da população. (...)" Salvo melhor opinião, é falso:

1. Número de residentes em 2011: 10.542.398;

2. Saldo natural (número de nascimentos - número de mortos) nos últimos 15 anos: cerca de menos meio milhão de pessoas;

 3. Emigração nos últimos 15 anos: pelo menos 1 milhão.

 Conclusão 1: Sem as pessoas "descamisadas" do Brasil, Paquistão, India, Bengladesh, norte de África, a população portuguesa seria, no máximo, 9 milhões de pessoas

Facto: INE diz que há 6 meses havia cerca de 11.5 milhões de pessoas a viver em Portugal.

Conclusão 2: O número de imigrantes é 11.5 milhões - 9 milhões, isto é, pelo menos, 2.5 milhões. Como o número do INE pecará por defeito, o número de imigrantes "descamisados" será, pelo menos, 3 milhões.

José B Dias: Excelente reflexão ... e muitas outras ao género poderiam ser feitas!

…………………….

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Rectidão

 


De pensamento.

 

Como desfazer uma vitória

Não, o activismo LGBT não defende os homossexuais. Prejudica-os. Desde logo porque os impede de dar à sexualidade a dimensão que eles escolherem. E que pode ser nenhuma.

MARGARIDA BENTES PENEDO,  Arquitecta e deputada municipal

OBSERVADOR, 02 jul. 2026, 00:21

(DGS divulga recomendações de protecção das temperaturas altas     Aviso vermelho alargado até domingo em 10 distritos     Calor em carruagens volta a atormentar passageiros do Porto     Portugal lidera importações de Cabo Verde     i3S avança na vacina personalizada contra cancro colorretal     Castelo Branco pretende receber Grande Área Empresarial)

Ainda o mês de Junho e toda a agitação LGBT que os grupos de activistas impuseram à parte civilizada do mundo. Cinquenta e sete anos depois de Stonewall, o desapontamento. Seria útil voltar a ouvir os líderes da época, cuja maior aspiração ultrapassava as leis e os desfiles, e rejeitava o confronto em torno da homossexualidade. Eles não queriam ser definidos por ela. Pediam à sociedade uma coisa mais simples e ambiciosa para os padrões dos anos seguintes:                                            No fundo, a liberdade de viver uma certa vida interior sem ter de abdicar das outras liberdades. Em larga medida, conseguiram. Essa chegou a ser a maior vitória dos homossexuais: deixarem de ser vistos, acima de tudo, como homossexuais.  A sociedade prestava àquele ponto específico cada vez menos atenção. As velhinhas viúvas adoravam Goucha e o marido de Goucha. A pouco e pouco, a convivência quotidiana estava a banalizar a orientação sexual. Até que apareceram os activistas para negar e desfazer esta vitória.

O activismo LGBT fez pelos homossexuais aquilo que a sociedade nunca se atreveu a fazer abertamente, ou seja, negar-lhes uma personalidade própria. Para que o activismo se mantenha incómodo, é absolutamente indispensável colocar a orientação sexual no centro da identidade. Quem, além dos próprios activistas, gosta de ser reduzido à imagem de um palhaço que usa maquilhagem de circo e desfila em biquíni de látex avenida abaixo na caixa de uma camionete? Nunca a sociedade atribuiu aos homossexuais um estereótipo tão confrontacional. A representação pública da homossexualidade desceu ao grau mais pornográfico pelas mãos daqueles que se dizem seus defensores.

Não admira que a mistura entre homossexualidade e transexualidade seja cada dia mais agressiva e absurda. O activismo LGBT obriga pessoas muito diferentes a subscrever a mesma caracterização, e a reconhecerem-se numa única identidade política. Promovidos pelos partidos da esquerda – e respeitados pela direita do regime –, os activistas instalaram-se nas escolas, redes sociais, e meios ligados à medicina, com o propósito de pressionar adolescentes a mudar de sexo assim que a adolescência expressa os primeiros sinais de homossexualidade ou confusão. Todo o movimento LGBT se transformou numa espécie de tribunal dos sentimentos políticos certos, um sistema de invalidação que hostiliza os próprios homossexuais assim que eles se recusam a desempenhar o papel. Execraram Peter Thiel e Caitlyn Jenner. Para que alguém seja digno de apreço LGBT já não basta submeter-se ao absurdo da sigla. Tem de marchar pelo “progresso”.

O preconceito alimenta-se de estereótipos, e quanto mais esses estereótipos se afastam do senso comum mais eles servem a perpetuação do activismo no poder. No dia em que acabasse o preconceito, a sociedade chegaria à conclusão de que aquelas boas almas activistas eram dispensáveis. Por isso elas mesmas se encarregam de multiplicar preconceitos e aprofundar os que restam de outros tempos. Não, o activismo LGBT não defende os homossexuais. Prejudica-os. Desde logo porque os impede de dar à sexualidade a dimensão que eles escolherem. E que pode ser nenhuma.

Receba um alerta sempre que Margarida Bentes Penedo publique um novo artigo.

LGBTQ Direitos Humanos Sociedade

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A força da Rússia

 

Inegável. Impecável.

Em directo/ Rússia lança grande ataque aéreo a Kiev e faz pelo menos 10 mortos e dezenas de feridos

Várias vagas de mísseis e drones bombardearam Kiev e outras cidades ucranianas, durante esta madrugada, horas depois de Zelensky avisar que a Rússia estava a preparar um grande ataque na Ucrânia.

EDGAR CAETANO: Texto

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Zelensky tinha avisado que a Rússia estava a preparar um grande ataque contra a Ucrânia

Getty Images

Momentos-chave:

Há 1h: Rússia faz pelo menos 10 mortos e dezenas de feridos em grande ataque aéreo em Kiev e outras cidades ucranianas

Actualizações em directo

Há 11m Rádio Observador  Fronteiras fechadas: Putin prepara nova mobilização forçada?

Bruno Cardoso Reis vê o bloqueio ferroviário russo como sinal de nova mobilização forçada. O país enfrenta 35 mil baixas mensais e crise de combustível após ataques a refinarias. Ouça aqui o novo episódio de Gabinete de Guerra da Rádio Observador.)

Há 1h 07:19 EDGAR CAETANO

Rússia faz pelo menos 10 mortos e dezenas de feridos em grande ataque aéreo em Kiev e outras cidades ucranianas

Volodymyr Zelensky tinha avisado e, esta madrugada, confirmou-se: a Rússia lançou um grande ataque aéreo com mísseis e drones que atingiu Kiev e outras cidades ucranianas. Há pelo menos 10 mortos civis e mais de 50 feridos, segundo a imprensa ucraniana.

Entre os feridos estão duas crianças, segundo a informação transmitida pela administração militar de Kiev e, também, pelo presidente da câmara de Kiev, Vitali Klitschko.

O ataque russo destruiu vários edifícios residenciais, danificou um hotel no centro de Kiev e deixou edifícios de vários andares em chamas, segundo o relato feito pelo The Kyiv Independent. Às 7h da manhã, hora local, tinham sido registados danos e destruição em mais de 30 locais em todos os distritos de Kiev.

“O inimigo está mais uma vez a atacar zonas residenciais e a matar civis. Temos uma destruição muito grave e um número significativo de vítimas, incluindo crianças”, disse Tymur Tkachenko, responsável da administração militar de Kiev.

Tkachenko diz que Kiev e várias outras cidades sofreram ataques de drones vindos “de todas as direcções” e os mísseis balísticos utilizados neste ataque causaram “explosões incrivelmente ruidosas”.

O ataque confirmou o vaticínio feito pelo Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, durante uma conferência de imprensa de manhã, ao lado do primeiro-ministro irlandês. Zelensky disse ter informação de que a Rússia estava na iminência de lançar mais um grande ataque sincronizado contra a Ucrânia.

JNP

 

E a consciência intemerata dos valores nacionais em crise.

O MAL português

O MAL preparava meticulosamente os atentados, operações cuidadosamente planeadas desde 2018. Entretanto, nem um único cocktail Molotov numa qualquer manifestação lançou. Nada.

JAIME NOGUEIRA PINTO, colunista do observador

OBSERVADOR, 02 jul. 2026, 00:25

Em Portugal, a violência política à esquerda não se discute. Até porque não existe nem nunca existiu. Embora a extrema paranoia e a extrema agressividade possam estar bem distribuídas, a única violência que ressalta, que arrepia, que preocupa, que urge denunciar, noticiar e estancar é “a violência de extrema-direita”. Na prática ou nas intenções. A violência de extrema-direita não conhece casos isolados, é sempre fruto de uma grande conspiração e tem sempre a cumplicidade de toda a Direita – que, ao contrário da Esquerda, é intrinsecamente má, canalha e violenta; e, ainda que grunha, estranhamente sofisticada quando toca à prática do mal.

Não quero com isto dizer que o Movimento Armilar Lusitano (MAL) não exista, que não tenha extensas e criativas listas de vítimas a eliminar, que não pratique paint-ball ao fim-de-semana, que não tenha sinistros propósitos, nem que não deva ser investigado, travado e combatido. A paranoia anda por aí à solta e todos sabemos que o mal existe.

As origens do Mal

De qualquer forma, vou seguir o conselho de Marc Bloch em Apologie de l’Histoire, e recuar um pouco no tempo.

Lenine começou logo por dar o devido crédito ao terror jacobino de 1793-1794, pioneiro do “genocídio de classe” em nome do povo, dos grandes princípios e das melhores intenções: a aristocracia teria de perder a cabeça bem como os aldeões da Vendeia, adeptos do “obscurantismo católico” e inimigos da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.  Era a tábua rasa e a razia.  Grande fonte de inspiração para os bolcheviques, dizia Vladimir Ilyich.

De resto, os pais do marxismo, Marx e Engels, tinham sido claros na legitimação da violência e na justificação da revolução como “parteira da História.Isto quando ainda não havia fascismo nem nazismo, só capitalismo selvagem, burguesia e “reacção”.

Embora se possa identificar um proto-fascismo na França do final do século XIX, com Barrès, Maurras, Drummont e o general Boulanger, ou melhor, um nacionalismo popular, desencadeado por escândalos da oligarquia financeira, como o “affaire de Panama”, o verdadeiro fascismo, o italiano, só nasceu nos anos 20 do século XX. E é indissociável do socialismo e do comunismo. Os desmandos dos comunistas, instalados na Rússia a partir de Outubro de 1917, durante e depois da guerra civil, foram também decisivos para criar o anti-comunismo militante, reactivo e defensivo que esteve na base do sucesso do fascismo, do nazismo e de regimes iliberais autoritários nacional-conservadores, como o Estado Novo.

Não quero com isto dizer que os comunistas comessem criancinhas – mas as fomes que causaram, na Ucrânia dos anos trinta e na China maoista do Grande Salto em Frente, levaram a que alguns dos esfaimados, em desespero, comessem as crianças já mortas pela fome, muitas vezes os próprios filhos. Também, no tempo das grandes purgas, o Estado Socialista não hesitou em pegar nos “filhos dos inimigos do povo” para os corrigir, lhes mudar o nome e os alojar em lugares remotos da Rússia, longe do rasto dos familiares “desaparecidos” ou internados nos campos do Gulag. Depois dos 15 anos, eram condenados a trabalhos forçados. Há muita literatura sobre isto, mas vale a pena ler um ensaio de Elaine Mac Kinnon, The Forgotten Victims, Childhood and the Soviet Gulag – 1929-1953 (disponível online)

Isto para dizer que muitos dos excessos violentos à direita, que os houve – incluindo os do nazismo, cujo eugenismo identitário levaria a um sistema concentracionário muito semelhante ao soviético –, não podendo ser desculpados, não podem também ser desligados da radicalidade e da violência da ameaça à esquerda a que reagiam.

O mal português

Em Portugal a esquerda radical ou extrema também soube matar quando foi preciso, e com pontaria política ao inimigo principal: João Franco Castelo Branco, que tentou criar uma direita nacional moderna com as classes médias das cidades, foi neutralizado pelos carbonários Buíça e Costa, que mataram o rei Dom Carlos e o príncipe herdeiro Dom Luís Filipe, causando a queda de Franco e preparando o advento da Primeira República.

Essa primeira República, dominada pelo Dr. Afonso Costa, reprimiu à direita e à esquerda os seus inimigos, monárquicos, católicos e sindicalistas.

Como bom jacobino, Costa tratou bastante mal os católicos (embora  não se saiba ao certo se pronunciou a famosa frase sobre “acabar com o catolicismo em duas gerações”): logo no 5 de Outubro, o “povo republicano” assassinou dois padres; veio depois a Lei da Separação do Estado das Igrejas (20 de Abril, 1911), foram expulsas as ordens religiosas, muitas das quais desempenhavam funções assistenciais importantes, e os padres e religiosos foram proibidos de usar as vestes da sua condição em público.

Perante esta acção persecutória, o papa Pio X emitiu uma encíclica, Jamdudum in Lusitania, a denunciar “o ódio implacável para com a religião católica” da nova República portuguesa.

Padres assassinados, ordens religiosas expulsas, bispos exilados, jornais católicos assaltados, foi assim que a esquerda  e “democrática” tratou, em democracia, os católicos. E fez o mesmo aos monárquicos e, à sua esquerda, aos sindicalistas.

Em Dezembro de 1917, no ano em que as aparições de Fátima vieram renovar a fé do povo, Sidónio Pais tomou o poder, reatou as relações com a Santa Sé e parou as perseguições religiosas. Em Dezembro do ano seguinte, a Esquerda assassinou Sidónio, através de um doente mental a quem convenceram que estava a salvar o país de um tirano.

E no 19 de Outubro de 1921 foi outra vez a Esquerda – aí “a rua”, os guardas republicanos e os marinheiros descomandados – que assassinou os políticos republicanos que tinham colaborado com Sidónio, entre eles o próprio fundador da República, Machado Santos. Alfredo da Silva, símbolo do capitalismo industrial português, chegou a ser dado como morto, mas acabou por escapar à purga.

O 28 de Maio teve o apoio da grande maioria do povo, farto de um regime em que os governos – que duravam, em média quatro meses – faziam ou permitiam que se fizessem semelhantes brutalidades. Depois, contra a repressão autoritária do Estado Novo, houve também várias tentativas de assassinar Salazar.

Com a revolução de Abril e as “redes bombistas” atribuídas ao ELP e ao MDLP, morreram meia dúzia de pessoas, entre bombistas e vítimas das bombas. Mas terrorismo a sério, que materializasse a frio os fuzilamentos simulados de “fascistas” nas prisões do PREC, só, anos depois e já longe do calor revolucionário, o das Forças Populares 25 de Abril, que mataram mais de dezena e meia de pessoas, entre inimigos políticos, agentes de autoridade e até crianças. Porém, acabaram amnistiados – afinal, eram antifascistas e a intenção era boa –, e agora até tiveram direito a fita celebrativa.

Hoje, por essa Europa fora e na América, o que se vê são assassinatos praticados ou tentados pela Esquerda e distúrbios violentos dos Antifa. Sempre acontecimentos isolados e “inconsequentes”.

A banalidade do mal

Acontecimentos esses que empalidecem, deixando mesmo de existir, perante a lista de vítimas e as intenções de um grupo conspiratório de extrema-direita – os neo-nazis do Movimento Armilar Lusitano (MAL).

Desmantelado em 2025 (segundo as autoridades), o Movimento dedicava-se a recolher informações sobre políticos de todas as facções, dos professores Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, às irmãs Mortágua, bem como personalidades das artes e do espectáculo, algumas já falecidas, como o cantor Marco Paulo, tendo já listado mais de centena e meia de alvos. Reunindo dados, traçando itinerários, vigiando, o MAL preparava morosa e meticulosamente os atentados.  Operações cuidadosamente planeadas desde 2018.  Entretanto, nem um único cocktail Molotov numa qualquer manifestação.  Nada. Um dos seus alvos colectivos seria o Parlamento, que o Movimento ocuparia, talvez para matar todos os deputados; um dos seus alvos individuais, o primeiro-ministro, para quem o MAL tinha já uma granada reservada.

Na posse de armas fabricadas por tecnologia 3D, os nazis armilares projectavam “golpes de Estado e tomadas de poder”.  Claramente não ambicionavam apenas perturbar a democracia em Portugal, mas também noutros países. De onde lhes viria o financiamento?

Os neo-nazis do Movimento Armilar Lusitano podem emitir e disseminar ódio e ser agentes do MAL, podem até planear matar e atentar, mas têm pelo menos uma vantagem: reunindo até à caricatura os requisitos necessários para constituírem a prova cabal de que toda a maldade, toda a violência, toda a canalhice e toda a ameaça nos chegam pela direita e só pela direita, prestam um inestimável serviço à pátria e à “democracia”.

EXTREMISMO       SOCIEDADE

COMENTÁRIOS

ANTÓNIO COSTA E SILVA: Por toda a Europa, o sistema parece estar a entrar em desespero. Perdido o monopólio da propaganda com a descentralização da informação na net, mobilizam-se as polícias e os tribunais como expediente de recurso para impedir a derrota, que sentem próxima e os assusta; não vá o povo lembrar-se de fazer justiça. Pelos casos do motorista de autocarro queimado vivo e do militante socialista que lançou um cocktail molotov sobre mulheres e crianças, que são os únicos atentados terroristas recentes em Portugal, sabemos que os racializados, os excluídos, os socialistas e outros activistas podem incendiar pessoas livremente, já que todos foram mandados em liberdade pelo tribunal e o socialista, também imediatamente libertado, apenas foi preso passado um mês porque a versão da comunicação social, de que "provocou um incidente", (sustentada por polícias, Ministério Público e pelo Tribunal), foi desmentida pela circulação da informação nas redes e canais alternativos e independentes. Estes perigosos terroristas fascistas, de muita conversa e nenhuma acção, vão acabar condenados exemplarmente para sustentar uma narrativa, como os outros fascistas do 1143, que continuam presos pela posse de duas pressões de ar, três canivetes e um saca-rolhas, ou o Mário Machado, que também está preso, condenado por muitas violações literárias.

SDC Cruz: Mais uma interessante aula de história explanada num excelente artigo.  Obrigado, JNP e até para a semana.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

ESTAR NA BERLINDA

 

Um propósito sempre apetecido.

TUDO SOBRE TRUMP, NADA SOBRE O IRÃO

Como é possível dizer que um país enfraquecido militarmente, a enfrentar uma crise económica grave, com um regime detestado pela maioria da população, ganhou uma guerra? Por causa de Trump

JOÃO MARQUES DE ALMEIDA Colunista do Observador

OBSERVADOR, 01 jul. 2026, 00:25

As discussões e os debates sobre a guerra do Irão foram de uma pobreza assustadora. Não foi só em Portugal, também foi no Reino Unido e em França (dois países europeus cujos debates sigo com atenção). A grande maioria dos analistas e comentadores nunca esteve interessada em discutir a guerra no Irão, e sobretudo as consequências para o país. O principal objectivo era, simplesmente, atacar Trump. A grande competição foi quase sempre para ver quem atacava Trump com mais dureza ou usando mais piadas (que quase nunca tinham graça).

Trump cometeu enormes erros. A guerra foi mal planeada e mal executada. As forças armadas norte-americanas sabiam que o Irão iria tentar ocupar o Estreito de Ormuz (fazia parte dos planos de guerra americanos na região há décadas), mas nada foi feito para o controlar antes do Irão. Ninguém sabe se as forças armadas americanas teriam conseguido ou falhado porque não foi tentado. As negociações com os iranianos também foram de uma pobreza enorme. Há um mito que nos diz que Trump é um negociador hábil. Talvez seja de negócios de construção civil e hotelaria. De negociações diplomáticas, não é seguramente. Trump não tem paciência para ganhar guerras e vencer na diplomacia. É impulsivo, farta-se, distrai-se, e está sempre a mudar.

Esta colecção de erros ajudou a tendência de discutir a guerra no Irão olhando apenas para Trump e ignorando quase tudo o resto. Aqueles que tentaram ir além de Trump foram raras e honrosas excepções. Os erros de Trump, e a antipatia e mesmo o ódio que causa em muitos comentadores, contribuíram para a pobreza das análises. Há uma dialética evidente sobre a mediocridade da política de Trump e a mediocridade das análises sobre a guerra do Irão.

A afirmação de que o Irão ganhou a guerra constitui o erro mais colossal de todos. Só mesmo o desejo de assistir a uma derrota de Trump pode levar à conclusão de que um país que perdeu o seu líder máximo, e grande parte das lideranças políticas e militares, e igualmente uma parte substancial da sua capacidade militar, venceu a guerra. Ninguém sabe quais são as consequências da guerra para o futuro do Irão e do seu regime. Sabe-se que há divisões no regime e no país, que a autoridade do Estado funciona mal e que a economia está destruída, com inflação descontrolada, o aumento do desemprego e da pobreza. O futuro do Irão pode ir desde o fortalecimento do regime, a mudanças no interior do regime, ao fim do regime ou a uma guerra civil. Ninguém sabe. Nem os iranianos. Qualquer destes cenários terá consequências enormes para a região. Daqui a dois anos, deixaremos de falar sobre a política do Presidente Trump, mas as mudanças internas no Irão, as suas relações com os seus vizinhos e o conflito com Israel continuarão a dominar os debates sobre o Médio Oriente.

Uma análise mais alargada do que aconteceu na região desde os ataques do Hamas a Israel, em Outubro de 2023, mostra mesmo que o Irão está muito mais fraco. A estratégia revolucionária do Irão tem sido durante décadas construir um cerco a Israel através de movimentos radicais apoiados e financiados por Teerão. O que se passa cerca de três anos depois? O Hamas está muito enfraquecido. O Hezbollah perdeu força, grande parte da sua liderança, e está isolado no Líbano. Na Síria, houve uma mudança de regime e de principal aliado passou a adversário do Irão. Depois de um acordo com a Arábia Saudita, assinado em 2021 (com mediação da China), e de uma aproximação com os vizinhos árabes do Golfo, estes olham agora para o Irão como a maior ameaça à sua segurança. Mais, os países do Golfo estão a pedir, uns em público (como os Emirados e o Bahrein), outros em privado, como a Arábia Saudita, a Israel para os ajudar a defenderem-se contra o Irão.

Mesmo no caso do Estreito de Ormuz, o futuro é complicado para o Irão. Se os iranianos insistirem em controlar o Estreito, serão os países da região, os europeus e as potências asiáticas a oporem-se. Os Estados Unidos não compram petróleo, nem gás, nem fertilizantes no Golfo. São sobretudo os países asiáticos que necessitam dos recursos naturais dos países do Golfo. No futuro, a culpa dos problemas na circulação no Estreito de Ormuz será dos iranianos e não de Trump.

Como é possível dizer que um país enfraquecido militarmente, a enfrentar uma crise económica grave, com um regime detestado pela maioria da população, isolado na região e depois de perder os seus principais aliados ganhou uma guerra? A resposta é muito simples. Por causa de Trump.

IRÃO      MÉDIO ORIENTE      MUNDO      DONALDO TRUMP      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA

COMENTÁRIOS (de 20)

Isabel Gomes: É possível porque é obviamente mentira. Os canais de informação são na realidade canais de propaganda anti Trump.

Fernando ce: Pela primeira vez alguém diz que o o”rei vai nu”. A alegria com que jornalistas e comentadores diziam e dizem todos os dia que Trump e os EUA perderam a guerra é inacreditável. Como é possível defenderem o regime do Irão - uma ditadura teocrática, medieval, que ameaça a existência de Israel e é um perigo regional. Os EUA ainda representam a democracia de tipo ocidental que felizmente o governo português apoiou. Veja-se como o Supremo Tribunal de Justiça ainda ontem deu a conhecer decisões contra o Presidente, apesar de ter uma maioria republicana. Haja decência senhores comentadores e jornalistas.

José Paulo Castro » José Paulo Castro: Claro que a maior ironia é que esses estão objectivamente a ajudar o outro pólo da globalização, o autocrático, como a China e a sua aliança com o Irão.

Ana Rita Tudo isto porque a Europa virou à esquerda, o seu antiamericanismo primário está ao rubro. Sinto vergonha de viver nesta Europa parolinha e invejosa.

Alcides Longras > Manuel Gonçalves Qual é a parte do artigo em que se sublinha os factos como tudo o que o Irão perdeu e como tem o seu futuro comprometido que você chama de trumpismo? É que Trump é passageiro mas a crise no Irão já existia antes dele e vai continuar a existir bem depois.  Ou isso também é trumpismo?

ANA CRISTINA: A hipocrisia é tão grande que nem conseguem imaginar qual a hipótese se Trump não tivesse sido o eleito. Kamala, tão ao jeito destes comentadores europeus wok, teria dado a machadada final na Civilização Ocidental. A Europa estaria num buraco de onde dificilmente já sairia. Trump tem a vantagem de ser inconveniente de não ter filtros. Talvez ainda tenhamos acordado a tempo!

JOSÉ PAULO CASTRO: Se Trump, de alguma forma, ganhar as lutas em que se empenha, isso representa um rude golpe na globalização. Todos os que apostaram nesse modelo de sociedade global estão obrigados a fazer de Trump o seu foco.

MANUEL GONÇALVES: Os trumpistas do Observador insistem na sua defesa, contra todas as evidências do seu carácter errático, incompetente e de verdadeiro estrabismo corrupto. Como já perceberam que é insustentável defendê-lo directamente, agora fazem essa defesa de forma criativa e enviesada. Enfim, há muitas vias para enterrar a cabeça na areia, inclusive mandar para moderação um comentário que não gostam…

Tim do A: Acho que foi mais por causa sa Europa que se colocou do lado do Irão ou, pelo menos, não apoiou os EUA e Israel. Puseram-se do lado contrário ou do lado errado, isolando os EUA e Israel, em vez de aproveitarem a oportunidade única para resolver o problema. Assim é difícil!

A busca da verdade

 

E, tantas vezes, a verdade da busca…

Isto vem tudo no Huxley

Onde é que nós queremos chegar, afinal, com este entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos, sem esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda?

NUNO GONÇALO POÇAS Advogado e Colunista do Observador

OBSERVADOR, 30 jun. 2026, 00:24

No tempo em que as crianças jogavam à bola na rua, por entre lancis, passeios, pedras da calçada levantadas, alcatrão, automóveis, camiões, portões de garagem amolgados pela força dos petardos lançados com bolas esfarrapadas pelo asfalto ou balizas feitas com calhaus, medidas com passos, havia uma série de regras altamente falíveis que eram seguidas à risca. Uma delas era a da validade dos golos quando as bolas iam altas. Levantava-se uma grande discussão sobre se o guarda-redes lá chegaria em teoria, simulando-se uma trave horizontal erguida à medida não de uma medida regulamentar, mas da altura de quem jogava à baliza – daí que, quanto mais pequeno o guarda-redes, melhor, porque se reduzia automaticamente a altura da baliza (sendo que pequeno e gordo seria a medida perfeita do guarda-redes, que acaba por transformar a baliza de pedras numa barreira intransponível). As discussões levantavam-se, não raras vezes acabavam à pancada, num processo de libertação hormonal e manifestação de força saudável, que fazia, a curto prazo, mais forte quem batia e, a longo prazo, quem levava.

Lembrei-me disto numa destas madrugadas, enquanto a seleção portuguesa de futebol era massacrada pelos colombianos neste evento de publicidade a que chamam Mundial de Futebol, quando um golo aos olhos de todos válido foi anulado à Colômbia. Aquela aberração a que chamam VAR, vídeo-árbitro, uma máquina que oferece imagens virtuais que apuram ao milímetro a verdade desportiva, descobriu a ponta de um dedo colombiano para lá da linha Maginot virtual que separava o último defesa português do seu guarda-redes. Como sou uma daquelas almas que já gostou mais de futebol do que de uma equipa, e não sou totalmente imune à nostalgia, achei que o golo ia ser validado. Não havia nada, entre o directo e a repetição, que indiciasse um fora-de-jogo. Mas lá surgiu a linha virtual e a Colômbia acabou por empatar um jogo que merecia ganhar.

Há, de facto, qualquer coisa de profundamente revelador num golo anulado porque a biqueira de uma bota ficou dois centímetros para lá da linha. Os jogadores fizeram tudo bem, o estágio explodiu, as gentes entram em êxtase, outras em profunda tristeza, tudo parece encaminhado para a revelação da Humanidade, e eis que uma máquina nos diz que não, que não foi bem assim. Não discuto sequer a regra, a tecnologia, a justiça real que tudo isto traz a um jogo que é, ainda por cima, cada vez menos um jogo e mais um mercado de capitais e transacções. Mas há aqui, em tudo isto, alguma coisa que nos fala sobre o tempo que vivemos e naquilo em que nos estamos a tornar ou em que nos tornámos já.

O que é que se espera do Homem que não aceita a imperfeição, o erro, a margem de erro, a ideia de que a vida é um conjunto infinito de zonas cinzentas oscilantes pela decisão humana que prevalece sobre a ideia de uma medição absoluta? O que é que se pode esperar de uma sociedade que exige a limpeza total, a exactidão total, o controlo total, a perfeição absoluta? Esta é a época das canetas de emagrecimento, afinal, uma revolução real que, procurando ser justo, melhorou, por enquanto, a vida de milhares de pessoas e representa um avanço extraordinário da ciência. Mas onde é que nós queremos chegar, afinal, com este entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos, sem esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda? Por mais sedutora que seja a ideia da perda de peso sem fome, será inevitável que cheguemos a outros sítios: à ambição de aprender sem estudar, de enriquecer sem poupar, de criar relações duradouras sem compromisso, de ter sucesso sem fracassar, de obter reconhecimento sem mérito, de ser feliz sem sofrer. Talvez nenhuma outra civilização tenha investido tanto na eliminação de qualquer forma de atrito pessoal, ao mesmo tempo em que se desmorona em atritos permanentes, sociais e pessoais.

Não digo que isto seja incompreensível. Não é. Durante séculos procurámos combater a doença, a fome, a pobreza, a dor, e felizmente vencemos muitas desses obstáculos, que nos permitiam salvaguardar o valor da vida. Não há romantismo nenhum no sofrimento, como é evidente. Mas há muito romantismo e demasiada utopia num mundo que luta pela abolição total da dor, até ao ponto em que o Homem passa a ser avaliado exclusivamente sob o ponto de vista da sua perfeição ou da sua utilidade. Talvez seja esse o grande esquecimento do nosso tempo: a confusão entre sofrimento e mal absoluto, o varrimento para debaixo de um tapete da ideia de que há um sofrimento que destrói e há outro que forma vontades e carácter. É por isso que o verdadeiro perigo em que vivemos não seja o vídeo-árbitro ou as canetas de emagrecimento, por exemplo, mas a filosofia que os permitiu: a ideia de que qualquer obstáculo é um defeito da realidade e de que a boa sociedade será aquela onde nada custa, nada dói e nada exige. E onde se é, afinal, menos livre porquanto deixamos de estar aptos a fazer escolhas. O Admirável Mundo Novo é este: a troca da liberdade pelo conforto, não pela força, mas pelo prazer. Permitam-me que não aprecie.

COMENTÁRIOS (de 21):

António Lamas: Se fosse vivo, Huxley teria que que escrever um novo livro.

"Terrível Mundo Novo".

terça-feira, 30 de junho de 2026

CONCLUSÃO

 

Do texto precedente (“UCRANIANOS”)

Mas a Rússia é vasta e tem Putn, mesmo sentado… Sem medos…Sorrindo…

(Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

O ministro da Defesa aclarou também que, com estes drones, a Crimeia está a ser “isolada” de qualquer cadeia de abastecimento da Rússia. “Parece que a Crimeia vai tornar-se uma ilha”, atirou Mykhailo Fedorov, antevendo que o “inferno está a começar para os russos”. “Temos esta janela de oportunidade. As rotas logísticas estão a ser cortadas e a Crimeia está a ser isolada. E isso está a ter um impacto no leste. Existe uma correlação directa entre a intensidade dos nossos ataques logísticos e o número de operações que ocorrem na linha da frente.”

A lógica do ministro é clara. Ao atacar a Crimeia, a Ucrânia está a criar uma enorme pressão na linha da frente, obrigando, em última instância, o Kremlin a desviar atenções e recursos para esta região — em vez de dar tanta atenção aos combates ainda em curso na região do Donbass. Em simultâneo, as tropas russas que permanecem no sul da Ucrânia (em redor da província de Kherson) arriscam-se a ficar sem o apoio logístico vital assegurado pela península.

Aliás, a Crimeia desempenhou um papel central no início da invasão total russa, tendo servido como uma das principais plataformas para a ofensiva das forças de Moscovo a sul do território ucraniano. Actualmente, a península funciona quase como um forte militar, albergando numerosas bases russas e constituindo um importante centro estratégico no Mar Negro.

Tropas russas na Crimeia

SERGEI ILNITSKY/EPA

Índice: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

De uma perspectiva mais militar, Alina Frolova, membro do think tank Center for Defense Strategies, descreve o que está a ocorrer no terreno ao Wall Street Journal como “uma operação clássica de isolamento”. “Costuma ser o tipo de operação que precede algum tipo de acção ofensiva. E, considerando que as defesas aéreas da Crimeia foram dizimadas e que as capacidades navais russas que ali existiam desapareceram, as coisas estão a avançar rapidamente”, diz a especialista, declarando: “Já estamos num ponto de isolamento sério, quase completo”.

Pela importância simbólica que a península tem para os ucranianos, o assunto galvaniza o moral das tropas. No Governo da Ucrânia, existe essa percepção, que coexiste com outra: a de que este cenário será um duro golpe para o Kremlin. “Será muito difícil de lidar” e pode “levar a certas consequências inesperadas” para os russos, avisa Mykhailo Fedorov. Com a Crimeia totalmente isolada e no cenário em que caia nas mãos dos ucranianos, a superioridade russa no campo de batalha — que já é posta em causa — pode mesmo cair por terra, levando muitos russos a reflectirem se a guerra na Ucrânia vale verdadeiramente a pena.

Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência

Tal como para os ucranianos, a Rússia vê a Crimeia como parte fundamental da sua estratégia. Foi o início do expansionismo russo na Ucrânia — e uma iniciativa que correu relativamente bem para Moscovo. Houve críticas do Ocidente, mas o Kremlin continuou a fazer negócios com as capitais europeias. O argumento de que a população desejava juntar-se à Federação Russa, mesmo que violando o Direito Internacional, colou entre muitos ocidentais.

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Mapa da Crimeia pintada com uma bandeira russa

Bloomberg via Getty Images

(ÍNDICE: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Historicamente, muitos governantes na Rússia também sempre viram a permanência da Crimeia na Ucrânia, após a queda da União Soviética, como um erro histórico que convinha reparar. O antigo líder soviético, Nikita Khrushchev, transferiu a península para o controlo da República Socialista Soviética Ucraniana em 1954, algo cuja lógica muitos nunca entenderam. Para provar a grandeza da Rússia, Vladimir Putin voltou a controlar o território, daí ser a sua “joia da coroa”.

Ao longo dos últimos anos, o território transformou-se numa estância balnear a que muitos russos vão passar férias no verão, como acontecia nos tempos da União Soviética. Para a população da Rússia, a Crimeia integra a Federação Russa: é parte indissociável do seu território desde 2014, mesmo que, à luz do Direito Internacional, a situação esteja longe de estar reconhecida. Até a oposição russa no exílio — incluindo o principal dissidente do regime russo, Alexei Navalny — foi criticada por ver a península como sendo russa.

Por tudo isto, um eventual isolamento da Crimeia não é algo que os russos vão aceitar de bom grado. Desde 2014, o Kremlin tem alimentado uma gigante máquina de propaganda em redor da anexação da região, convertendo-a num símbolo de orgulho e do nacionalismo da Rússia. A Ucrânia sabe perfeitamente a forma como a região é vista pelo Kremlin — e quer agora explorar um eventual cerco para gerar ondas de choque na sociedade russa.

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Bandeira da Ucrânia com a inscrição Crimeia

(Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergênciaA estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Além disso, a situação interna russa já não é fácil. A Ucrânia está a levar a guerra para dentro do território vizinho, atacando principalmente refinarias de petróleo em cidades como Moscovo ou São Petersburgo. Isto causa não apenas a escassez do combustível disponível, como também representa um rombo nas finanças do Kremlin. Muitos cidadãos começam a queixar-se dos impactos da guerra e estas reclamações geraram uma onda de críticas inéditas a Vladimir Putin, mesmo com a censura e o cerco à dissidência impostos no país.

Apesar de manter a convicção de que a Rússia vai controlar o Donbass pela força e não ceder na posição maximalista em eventuais negociações, Vladimir Putin já começou a reconhecer que a situação na Crimeia é preocupante. Questionado sobre os ataques com drones contra a península na semana passada, o Presidente russo afirmou que “a tarefa de eliminar essas ameaças recai sobre o Ministério da Defesa e outras agências de segurança”. “O Governo da Federação Russa também deve tomar medidas adicionais para minimizar, ou reduzir para zero, as consequências de tais acções.”

A situação no terreno é complicada. Partes da península ficaram sem água, luz e gás. Na imprensa internacional, fala-se numa situação anormal. Ao Wall Street Journal, Maksim Tikhomirov contou que não há electricidade há dias. “Em Sebastopol, especificamente, a situação é muito difícil. Muitas lojas não estão abertas. É impossível levantar dinheiro. Os transportes públicos estão a funcionar mal e em número limitado.”

"O Governo da Federação Russa também deve tomar medidas adicionais para minimizar, ou reduzir para zero, as consequências de tais acções."

Vladimir Putin, Presidente russo

Índice: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

O principal foco é também o turismo a grande fonte de receitas na Crimeia, principalmente nesta altura, que marca o início da época balnear. À CNN Internacional, o dono de uma pousada na cidade costeira de Noviy Svet descreveu o ambiente como “cauteloso, mas longe de haver pânico”. “Falando sobre nós pessoalmente, não vejo qualquer impacto crítico no trabalho da pousada neste momento. Os hóspedes continuam a vir; as praias, os cafés e as infraestruturas turísticas estão a funcionar. Mas existe incerteza e as pessoas estão mais atentas às notícias”, conta.

Em todo o caso, as autoridades pró-russas da Crimeia declararam o estado de emergência na região. Numa mensagem no Telegram publicada na passada sexta-feira, o governador Sergei Aksyonov justificou a decisão com a escassez energética. “O quadro legal do estado de emergência permite a rápida resolução de questões relacionadas com a manutenção do funcionamento de todos os sectores essenciais”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Sergei Aksyonov admitia que não sabia “quanto tempo ia vigorar” este estado de emergência. “Não posso divulgar um plano específico de acção, mas estamos a agir”, garantiu, concedendo que “infelizmente” os sistemas de defesa aéreos da Crimeia “não estão a ser perfeitos em termos de segurança e eficácia”. Para já, o governador assegurou que não havia “quaisquer restrições na liberdade de circulação” e não existe qualquer recolher obrigatório.

Por causa da situação, milhares de pessoas abandonaram a Crimeia nos últimos dias. Perante condições cada vez mais precárias, muitos turistas e habitantes da península decidiram regressar à Rússia. Têm sido registadas longas filas na ponte de Kerch, uma infraestrutura que se encontra, contudo, frequentemente encerrada devido aos ataques ucranianos.

A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?

O Presidente ucraniano revelou a estratégia publicamente. “A nossa operação, incluindo a que diz respeito à Crimeia, está a ser calculada cuidadosamente. A forma como a operação se está a desenrolar prova-o totalmente: se a Ucrânia receber exactamente o que precisa dos parceiros do G7, vamos criar as condições que vão forçar a Rússia a escolher a paz“, anunciou Volodymyr Zelensky, no discurso nocturno da passada quarta-feira. Esta iniciativa faz parte de um plano de 40 dias para obrigar a Rússia a sentar-se à mesa das negociações.

O isolamento da Crimeia visa precisamente isso: obrigar a Rússia a negociar e a recuar nas suas exigências maximalistas. Como analisa o especialista em política russa Mark Galeotti num artigo no The Times, o objectivo não é tomar a península pela força, pelo menos para já. “Algumas vozes mais ambiciosas em Kiev pedem uma tentativa de tomar a península pela força, mas o consenso geral é que seria muito difícil. Está muito bem defendida.”

Na realidade, escreve Mark Galeotti, a Ucrânia quer pressionar Vladimir Putin com a hipótese real de perder a Crimeia, a “joia da coroa” e aquela que vê como a sua “conquista mais valiosa”. Kiev pretende que o Presidente russo aceite “sentar-se à mesa das negociações e que aceite a exigência da Ucrânia para um cessar-fogo imediato”. Paralelamente, ao trazer a guerra para território que a população russa vê como sua, os ucranianos esperam que a sociedade civil reaja.

"Algumas vozes mais ambiciosas em Kiev pedem uma tentativa de tomar a península pela força, mas o consenso geral é que seria muito difícil. Está muito bem defendida." Mark Galeotti, especialista em política russa

ÍNDICE: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?

No entanto, Vladimir Putin não parece disposto a ceder. Mesmo tendo admitido que os ataques às infraestruturas “vão criar problemas” no país, o Presidente russo não dá sinais de recuo. Alegando que a Ucrânia lhe tentou propor uma trégua nos ataques de longo alcance, o chefe de Estado rejeitou-a categoricamente: “É claro o motivo pelo qual esta proposta foi feita: porque os nossos contra-ataques atingem o território ucraniano em profundidade. São muito fortes, têm um maior impacto e são, francamente, mais destrutivos”, atirou.

Para o Presidente russo, o seu país continua numa posição de vantagem no conflito, devido à “escassez catastrófica” de homens na Ucrânia para combater. Qualquer cessar-fogo, defendeu Vladimir Putin numa entrevista este fim de semana, daria apenas tempo aos ucranianos para ganharem forças. “Salvar o regime de Kiev não faz parte dos nossos planos”, garantiu.

Retórica para consumo interno ou plena confiança de que a Rússia continua num bom momento? Ninguém sabe o que vai verdadeiramente na cabeça de Vladimir Putin. No entanto, a população russa sente na pele os impactos reais do conflito. O cerco à Crimeia, assim como os ataques de longo alcance a várias regiões da Rússia, afectam a vida quotidiana da população. E a Ucrânia aguarda que a sociedade civil russa se revolte e quebre a malha de censura que o Kremlin lhe impõe.

É uma estratégia da Ucrânia que Mark Galeotti adjectiva como sendo de “alto risco”. Se Vladimir Putin temer perder a Crimeia, sentindo que “a incapacidade de a proteger mancha o seu legado ou pode mesmo derrubá-lo”, poderá “optar por negociar”, como quer Volodymyr Zelensky. “Mas também poderá ser tentado a aumentar a pressão” e provocar uma escalada ainda maior do conflito, alerta o especialista.

O isolamento com drones da Crimeia está em curso. No terreno, a estratégia ucraniana está a resultar, criando muitos constrangimentos à população russa e sérias preocupações no Kremlin. O símbolo de uma anexação bem-sucedida da Rússia está sob imensa pressão. Mas, para lá dos efeitos a curto prazo e simbólicos, será a península capaz de obrigar Vladimir Putin a sentar-se à mesa das negociações e aceitar um cessar-fogo? Para já, o líder russo não tem mostrado qualquer abertura para isso.

GUERRA NA UCRÂNIA      UCRÂNIA      EUROPA      MUNDO      RÚSSIA

UCRANIANOS

 


Um povo e um chefe causadores de admiração mundial.

 

Crimeia, a "joia da coroa" de Putin que a Ucrânia está a cercar com drones: "O inferno está a começar para os russos"

+JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

Crimeia está em "estado de emergência" e milhares de pessoas estão a sair da península controlada pela Rússia. Ucrânia está a quebrar rotas de abastecimento na região e quer obrigar Putin a negociar.

29 jun. 2026, 22:36

ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Foi onde tudo começou e o primeiro passo que levou à invasão total em 2022. Em fevereiro de 2014, as tropas russas entraram na Crimeia e ocuparam-na. Nunca mais de lá saíram. A Rússia anexou de facto a região e controla-a desde essa altura. É tida como a “joia da coroa” dos objectivos expansionistas de Vladimir Putin, que nunca escondeu que sempre viu a região como russa. A Ucrânia nunca desistiu de recuperar o território que vê como seu e que ganhou um especial simbolismo — e os esforços parecem agora estar a dar resultado.

Os últimos dias têm sido caóticos na Crimeia. Através de ataques sucessivos com drones, a Ucrânia tem criado vários constrangimentos no quotidiano de vários habitantes da península. Há relatos de falta de combustível, água e electricidade. Como resultado, as autoridades pró-russas accionaram o estado de emergência e milhares de pessoas estão a abandonar o território. O objectivo é claro: como é uma península, as tropas ucranianas querem isolá-la da Rússia. Aproveitando o bom momento na linha da frente e no moral, Kiev tem conseguido fazer isso. E os alarmes começaram a soar no Kremlin.

Este domingo, numa entrevista, o Presidente russo admitiu que a Crimeia atravessa uma situação de escassez de combustível, existindo “reservas limitadas” para “poucos dias”. Vladimir Putin garantiu que as “necessidades” da península serão tidas em consideração: “Aumentaremos o abastecimento tanto por terra como por mar”. No entanto, o chefe de Estado nunca disse como o ia fazer. É que não é só a Crimeia que está nesta situação: grandes partes da Rússia enfrentam o mesmo problema, fruto dos ataques ucranianos às refinarias petrolíferas russas.

(▲ Vladimir Putin prometeu que vai reforçar o abastecimento de combustível na Crimeia)

ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

A Ucrânia não vai desistir e está mesmo a intensificar os ataques à Crimeia. Ainda esta segunda-feira, segundo a agência de notícias RIA, os alertas de drones estiveram activos durante mais de onze horas. No domingo, as tropas ucranianas atacaram uma ponte na região. O ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, tem um objectivo em mente: “Isolar com drones” a Crimeia e até transformá-la “numa ilha”. Um objectivo ambicioso, mas que seria um golpe para Vladimir Putin.

Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia?

Os ataques na Crimeia intensificaram-se há algumas semanas. Aliás, desde a invasão em larga escala, as tropas ucranianas têm tentado atacar a região — às vezes com sucesso, outras vezes falhando. Em outubro de 2022, num momento em que atravessava uma boa fase no campo de batalha, a Ucrânia foi bem-sucedida em atacar a ponte de Kerch — a mais longa da Europa. Noutras fases da guerra, a península foi deixada em segundo plano, mas nunca deixou de ser um objectivo central.

Numa iniciativa da presidência de Volodymyr Zelensky, a Ucrânia organiza anualmente uma cimeira, a 23 de agosto, para recordar a importância da península para o país, convidando frequentemente líderes estrangeiros. Para os ucranianos, mesmo que já tenham passado mais de dez anos desde a anexação, a Crimeia ainda é tida como parte inalienável do seu território, recusando totalmente a soberania russa.

Ukraine Crisis Continues As The Crimea Prepares To Vote In The Referendum

Ucranianos sentiram que anexação da Crimeia foi um duro golpe para o país

ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Na memória colectiva dos ucranianos, existe também algum ressentimento pela forma como a comunidade internacional lidou com o assunto em 2014. Apesar de terem condenado a Rússia, a maioria dos dirigentes europeus e norte-americanos continuou a interagir e a fazer negócios com o Kremlin. O facto de o Ocidente ter fechado os olhos deu força à convicção de Vladimir Putin de que poderia continuar a guerra no Donbass e desencadear a invasão em larga escala em 2022. A anexação da Crimeia foi tida como uma humilhação para os ucranianos, que continuam a ter esperança de que vão recuperar a península.

Este apaziguamento falhado do Ocidente deixou uma ferida aberta no orgulho nacional dos ucranianos e explica a convicção de que não se pode confiar na Rússia e que há que a combater. Durante as negociações mediadas pela segunda administração Trump, surgiu a possibilidade de os Estados Unidos reconhecerem de jure a anexação da Crimeia — algo que chocou a opinião pública na Ucrânia e que seria visto como uma recompensa ao expansionismo de Vladimir Putin.

Em 2026, a Ucrânia está a virar a corrente da guerra a seu favor. Após anos complicados na linha da frente, em que a Rússia fazia avanços sem grande resposta do outro lado, os ucranianos têm conseguido atacar alvos estratégicos dentro de território russo. Vladimir Putin está a ser criticado publicamente e há já falta de combustível em várias regiões da Rússia. Neste contexto, o Ministério da Defesa da Ucrânia viu na Crimeia o ponto estratégico ideal para continuar a enfraquecer a posição do Kremlin.

Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?

Afinal de contas, Kiev pode facilmente gerar o caos na Crimeia. Como é uma península, a região está fortemente dependente da Rússia. Ao cortar as cadeias de abastecimento entre os dois lados, as forças ucranianas sabem que podem criar sérios problemas logísticos, militares e de abastecimento à população. Ao mesmo tempo, a região está geograficamente mais próxima do restante território ucraniano, o que torna os ataques mais precisos e fáceis de executar.

Numa entrevista em meados de junho, o ministro da Defesa ucraniano desvendou um pouco da estratégia — e deu a entender que já está a ser planeada há alguns meses. Mykhailo Fedorov lembrou que, durante os primeiros meses de 2026, a Ucrânia comprou uma grande quantidade de drones (mais do que em todo o ano de 2025) que atacam alvos a média distância — os utilizados para atacar agora a Crimeia.

“O que fizemos está agora a produzir resultados. Anunciámos que ia ser posto em marcha um bloqueio logístico. Isto significa que estão a ser canalizados fundos directos adicionais para unidades que usam drones de médio alcance. Ao mesmo tempo que compramos centenas de milhares destes drones, estamos a providenciar fundos a unidades que sabem usá-los e também sabem como adquiri-los rapidamente”, explicou Mykhailo Fedorov.

"Temos esta janela de oportunidade. As rotas logísticas estão a ser cortadas e a Crimeia está a ser isolada. E isso está a ter um impacto no leste. Existe uma correlação directa entre a intensidade dos nossos ataques logísticos e o número de operações que ocorrem na linha da frente." Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa da Ucrânia

(CONTINUA)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

CONCLUSÃO DO TEXTO PRECEDENTE

 

 A FLORESTA PORTUGUESA

Sempre na linha limite, e não se perceber que o que estava à frente era um enorme prejuízo: economias, agricultura, zonas urbanas destruídas, estradas – sobretudo aquelas com desenho desgraçadamente mau – incapazes de ser mantidas, derrocadas perto de linhas de comboio, porque os taludes não estão bem preservados. Sempre o mesmo padrão, que podemos chamar, de forma que até pode não ser muito justa, “padrão Ponte Hintze Ribeiro” [Entre-os-Rios]: deixamos as infraestruturas chegar a um ponto de falta total de manutenção, na perspetiva do “talvez hoje não caia”. O que me espanta não é chamarem o LNEC no fim para ver o que correu mal, mas o facto de o LNEC não fazer observações regulares todos os anos e todos os meses. E o contrato co estas organizações não ser a longo prazo.

A primeira medida seria essa. Seria rever tudo antes que volte a chover como no ano passado?

A medida que temos de tomar é manter mais e fazer menos. É vício de pobre estar sempre a comprar novo. Os ricos, que sabem que são ricos, compram bom e mantêm-no muito tempo. Somos um país com vícios de pobre: queremos a ponte mais alta, o viaduto mais longo, recordes bacocos para nos encher o ego, quando devíamos querer que a pequena estrada que liga a aldeia “A” à vila “B” tenha o mesmo standard de uma estrada perto de uma grande cidade ou de uma aldeia da Noruega. Devíamos usar bem as infraestruturas durante o tempo para que foram feitas, e não pensar só em Santa Bárbara quando troveja.

Estes fenómenos de vento extremo são os mais perigosos que nos podem chegar agora? Quase ao nível de furacões e tornados?

São, porque temos pouca protecção contra ventos. Não somos a Florida. A construção não está preparada. E as pessoas também não. Lembro-me da situação da Figueira da Foz, quando aquele furacão entrou pelo continente, as pessoas não sabiam o que fazer: se deviam fechar persianas, abrir janelas… Não sabiam.

E também não foram avisadas…

O aviso não chega. É preciso experiência, exercícios e conhecimento. Tínhamos já experiência de pequenos tornados com velocidades de vento muito elevadas, como em Silves por exemplo, mas atingiam uma pequena zona. Agora tivemos um fenómeno de escala maior, este “stingjet” que passou por Leiria, com dimensão de cerca de uma centena de quilómetros. Somos capazes de prever as condições para ele se formar: e foram previstas. Observá-las, porque temos radares de última geração: e foram observados. Mas não temos infraestruturas preparadas para episódios desta energia. São investimentos grandes de preparação e exigem grande disciplina na utilização do território, que exige uma compreensão que ainda não existe.

Quando fala em investimentos grandes, é ao nível de material e prevenção. Ou também preparação das pessoas?

Das duas coisas, mas essencialmente investimentos gigantes no escoamento de águas, protecção da rede primária e secundária de energia. Somos dos países com menos cabos enterrados. Isso tem a ver não só com desleixo, mas também com o grande espalhamento da área construída, o que torna o custo de enterrar uma parte significativa da rede faraónico e impossível. Voltamos à questão da disciplina, rotina, regras – e as regras têm de ser cumpridas para bem de todos.

Esta chuva intensa, concentrada em poucos dias, é mais perigosa do que a distribuída por semanas?

Muito mais, em comparação. A chuva distribuída é muito boa para a agricultura, tem impacto muito inferior nas infraestruturas de escoamento. A chuva concentrada escoa à superfície, cria grandes dificuldades de mobilidade no meio urbano. Temos uma falta de exigência enorme com os nossos políticos. Isto não tem a ver com partidos nem ideologias. Tem a ver com standard, com a qualidade de vida que achamos que devemos ter. E volto a dizer: só os pobres gostam de comprar novo e comprar o maior. Precisamos de comprar o que podemos, manter o que já temos e viver de forma sustentável.

Portugal pode estar a entrar num padrão de extremos: seca prolongada seguida de cheias violentas? Isto é compatível com o que os modelos climáticos preveem?

É compatível com os modelos, mas mais do que isso, corresponde a uma conclusão óbvia de física elementar. Temos uma temperatura mais alta. Hoje, ninguém duvida disso. A origem da temperatura mais alta pode ser discutida, mas que está mais alta, está. Temperatura mais alta leva a mais água na atmosfera. Mais água na atmosfera significa processos mais energéticos, chuva mais intensa. A distribuição espacial de cada fenómeno é que os modelos têm (ou tinham) obrigação de responder. Cada nova geração de modelos é melhor do que a anterior, mas atenção: modelos não são realidade, são projecções da realidade.

Se já tivemos um mês de chuva em 12 horas, isto pode tornar-se ainda pior?

Gostava de responder, mas não tenho a certeza. Existiram recentemente, noutras partes do mundo, situações piores do que a que tivemos aqui. Do ponto de vista físico, não parece haver um limite assim tão grande. Se podemos ter o triplo, quádruplo ou quíntuplo? Não faço ideia. Espero que não.

Estamos a assistir a uma tropicalização do clima português ou isso é exagero mediático?

Nas últimas décadas, parece haver tendência para diminuição de noites frias, o que é muito seguido por causa da fruticultura, que precisa de frio noturno – e, já agora, as pessoas também, para dormirem bem. O corpo precisa de descansar. Temos uma sequência de anos em que, do ponto de vista do que se mede, parecia caminhar-se nesse sentido. Os modelos também apontam para isso. Agora, o que pedimos é curto e os modelos têm limitações. Se isto será uma tendência, diria que tem toda a capacidade de ser. A temperatura média aumenta e a temperatura nocturna também. E aumenta com as “ilhas” de calor, ou seja, com a expansão urbana. Todos os sinais apontam para termos aquilo a que se chama “noites tropicais”. E noites tropicais não são um movimento fantástico alimentado por caipirinhas e com danças repetidas ao som de música cubana. São noites em que pessoas idosas têm dificuldade em dormir, em que há muita desidratação e em que é preciso que os sistemas de apoio social garantam fresco. Por isso é preciso que os centros de dia, por exemplo, tenham ar condicionado.

Culpar o anticiclone é como culpar a febre pela doença que temos, o que ele mostra é que estamos com febre num pé, temos um pé inchado ou um cotovelo dorido, ele é o nosso cotovelo dorido. O que se vê é mais um agravamento da situação climática no sentido da mudança e da necessidade de estratégias de longo prazo para inverter.

Há uma enorme influência do anticiclone dos Açores, não há? Como e porquê é que a posição do anticiclone está a mudar? E está mesmo a enfraquecer? O que se pode dizer deste regulador do clima português – e não só?

O anticiclone dos Açores é uma espécie de “culpado do costume”. Na verdade, o anticiclone não é causador de nada, é reflexo do que está a acontecer. A circulação atmosférica no Atlântico Norte gera uma zona de altas pressões no verão, a que chamamos “anticiclone dos Açores” porque os Açores correspondem ao centro dessa estrutura. Não é porque os açorianos tenham responsabilidade. O que se passa é que uma pequena mudança deste padrão de circulação é reflectida no mapa meteorológico, com o anticiclone mais a sul ou mais a norte. Quando vem mais a sul, como este ano, a zona de passagem das tempestades está mais a sul. Em vez de chover “lá para cima”, onde dizemos que não faz mal porque estão habituados, chove sobre nós, que não estamos tão habituados. Os sinais são de estas mudanças serem climáticas, portanto que se vão manter, e que estes padrões também se vão manter.

Podemos falar também do aquecimento da água do mar, do Atlântico e do Mediterrâneo. Fala-se muito da corrente do Atlântico e de um jet stream mais instável.

O jet stream [corrente contínua de ventos polares à volta da Terra] é o mesmo problema do anticiclone dos Açores. O aquecimento do oceano é um problema diferente, de desequilíbrio radiométrico. Primeiro factor: aumentando a precipitação global, aumenta a água doce no oceano. A água doce faz variar a salinidade. A corrente oceânica depende da salinidade e da temperatura. Se fazemos variar a salinidade na zona intertropical de forma significativa, podemos estar a mexer na corrente oceânica profunda. Sabemos que, pré-historicamente, isso já aconteceu. Fazem-se estudos regulares para saber qual é a intensidade do AMOC [Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico]. O último estudo publicado, que ainda não li, aponta no sentido de um decréscimo.

Isto começa a ser preocupante, até porque o jet stream cada vez mais ondulado parece ser uma tendência.

Mais um lado da mesma tendência. A variação da corrente do AMOC tem impactos significativos em Portugal, porque somos muito influenciados pela corrente do Golfo. Se o Golfo tiver geometria diferente, vai criar problemas, mas nesse caso no sentido contrário: de arrefecimento.

Fala-se ainda num “super El Niño” este ano. Não somos influenciados directamente, mas indirectamente acabamos por sentir, não é?

 O El Niño é como o anticiclone dos Açores. Culpar o anticiclone é como culpar a febre pela doença que temos, o que ele mostra é que estamos com febre num pé, temos um pé inchado ou um cotovelo dorido, ele é o nosso cotovelo dorido. O que se vê é mais um agravamento da situação climática no sentido da mudança e da necessidade de estratégias de longo prazo para inverter. O El Niño é um fenómeno atmosférico, de influência na Índia, por exemplo, infelizmente, há muita precipitação na zona do Chile e do Peru e depois pode haver uma monção muito fraquinha na zona da Índia, onde a monção é muito importante para a agricultura. O efeito no Atlântico está menos documentado. Não parece ser tão importante, se for alguma coisa importante aqui ibérica, só se for um pequeno aumento de precipitação. Mas seguramente haverá outras dinâmicas que se sobrepõem. Mas o El Niño, coitado, não é culpado de nada. Ele é apenas um padrão que de vez em quando se verifica num sistema de feedback que se estabelece e a partir do qual é muito difícil sair.

A tempestade Kristin

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quase em forma de resumo: com o que sabemos agora, já podemos dizer que devemos preparar-nos para um verão com elevado risco de incêndios?

É sempre melhor estarmos preparados para um risco elevado que depois se revele mais baixo do que o contrário. Infelizmente diria que os elementos parecem estar dispostos no sentido de o risco ser muito elevado. Estamos a ver medidas na área da proteção civil que não vou sequer descrever nem discutir; cada um pensará o que entender. Mais uma vez estão a oscilar o sistema. Mas são sempre reativas. As medidas do lado não-reativo ainda são muito curtinhas. Todas as medidas de alteração da paisagem que não assentem num modelo económico credível são, para mim, apenas “espatifar” dinheiro. Para termos um modelo económico credível, temos de ceder em algum lado: ou na perspetiva da propriedade, que é o problema em discussão, ou na perspetiva do aumento da industrialização da floresta, que muita gente não gosta. Há algo que garanto: temos de gerir a floresta. As coisas não podem não ter gestão. Estes acontecimentos recentes mostraram que mesmo árvores em zonas urbanas têm de ser geridas. Não podemos viver num mundo em que uma árvore pode cair-nos em cima amanhã. Situações de instabilidade têm de ser atacadas. Quando passamos numa zona, por exemplo o norte de Lisboa, com encostas desprotegidas, ali está o diabo sentado à nossa espera.

E neste inverno: é de esperar mais episódios de tempestades intensas e concentradas?

Não há conhecimento suficiente para saber isso. Gostava de saber isso. Era bom que soubéssemos. Mas e se soubéssemos, fazíamos o quê? As medidas necessárias são de longo prazo. Não interessa o que vai acontecer este ano: se não for este ano, será no próximo. Temos de olhar para o território de forma diferente, perceber que não podemos ter casas espalhadas aleatoriamente. Ninguém vai conseguir pagar isso: nem infraestruturas para enterrar eletricidade, nem água para fornecer. Temos de voltar a ter povoações coesas, onde as pessoas vivam corretamente e onde se garanta um mínimo de segurança. Se queremos mais segurança, temos de começar a tomar medidas.

Estamos perante um cenário de eventos extremos cada vez mais imprevisíveis?

Sim. Tudo aquilo que o Homem não fizer, a natureza encarregar-se-á de corrigir.

Portugal está a tornar-se um país de extremos climáticos?

É um país com uma relação com o oceano sempre muito energética, não é de agora. Não somos um país do interior, para quem estes excessos são desconhecidos. Somos um país que sempre enfrentou o mar e a meteorologia de forma proativa. A meteorologia foi fundada no mundo por seis países e um deles era Portugal.

Este ano até ficámos sem praias no meio das tempestades…

A areia vai voltar.

Em resumo, o que mudou no clima em Portugal nos últimos 20 anos?

Essencialmente, aqueceu. E o aquecimento teve efeitos secundários importantes: aumento da aridez; aumento aparente de episódios extremos; e, nas situações em que conseguimos organizar a agricultura baseada em tecnologia e não em São Pedro, melhorámos. Naquelas que contam apenas com São Pedro, ele infelizmente não parece estar à altura. [Sorrisos.]

 

Portugal é particularmente vulnerável e pouco preparado. Onde é que estamos mais frágeis neste momento?

Na cultura das pessoas. A nossa fragilidade não é numa área específica, é cultural: não queremos pagar o preço da segurança. O preço da segurança é, por exemplo, não poder construir uma casa no meio da floresta. Se estivermos dispostos a pagar o preço da segurança, teremos segurança. Mas isso também significa que não podemos construir todas as pontes e túneis que imaginamos; temos é de manter em funcionamento correto o grande património construído que já temos.

Subestimamos o risco. Genericamente. Temos casas e construção sem o mínimo de segurança, por falta de recursos financeiros, falta de cumprimento de instrumentos de planeamento e excesso de instrumentos de planeamento. Costumo dizer que a vida precisa de duas coisas: leis e vergonha. Temos leis a mais e vergonha a menos.

Já disse que não estamos a adaptar-nos à velocidade necessária e que estamos sempre a reagir depois dos acontecimentos. Como consequência do que disse: não tendo tempo de preparação, exagerando no que queremos manter, só temos uma forma, que é reagir. Só que os custos de reacção são elevados. Os custos de manutenção também, mas manutenção significa não mudar de roupa todos os meses, mudar menos e ir cosendo de vez em quando.

Uns remendos?

Uns remendos, mas cosê-los, mantermo-nos decentes, limpinhos e organizados.

O que é que estamos a subestimar mais?

O futuro. Subestimamos o risco. Genericamente. Temos casas e construção sem o mínimo de segurança, por falta de recursos financeiros, falta de cumprimento de instrumentos de planeamento e excesso de instrumentos de planeamento. Costumo dizer que a vida precisa de duas coisas: leis e vergonha. Temos leis a mais e vergonha a menos.

Se tivesse de deixar um aviso claro: o que é que ainda não estamos a levar suficientemente a sério?

Cada um de nós tem de ser autossuficiente nas decisões que toma.

(Entrevista publicada originalmente na revista de aniversário dos 12 anos do Observador e actualizada depois das últimas ondas de calor e da formação do El Niño