quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Acontece

 

Os requintes universitários produzem, por vezes, requintes de autopromoção enviesada. Mas não são só os universitários, julgo.

Jason Arday e a crise da Universidade

A Universidade transformou-se num sistema no qual muitos processos de avaliação, e financiamento são capturados por grupos associados a agendas ideológicas radicais.

ANDRÉ AZEVEDO ALVES,  Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

OBSERVADOR, 19 ago. 2026, 00:25

O trágico final de Jason Arday – com o jovem professor catedrático a ser encontrado morto em sua casa em Londres poucos dias depois de se ter demitido da sua posição em Cambridge – não deve impedir a reflexão séria sobre o caso. Aliás, parte do respeito que é devido a Jason Arday como pessoa inclui não lhe negar retrospectivamente a possibilidade de agência pela sua conduta passada, reduzindo-a a uma vítima totalmente manipulada por um ou outro lado do sistema. Com base no que foi revelado desde que o caso começou, parece impossível negar que Arday foi, até ser denunciado e alvo de escrutínio, um charlatão extraordinariamente persuasivo e bem sucedido. Além dos múltiplos fortes indícios de fraude no plano académico, Arday acumulou várias histórias que deveriam ter suscitado suspeitas muito antes: desde correr 30 maratonas em 35 dias até sucessivas alegações de perseguição pessoal não confirmadas (o insuspeito Guardian disponibiliza aqui um bom resumo dessas histórias).

Não é, claro, incompatível que Arday pudesse ter muitas qualidades pessoais – em especial no plano comunicacional e de relacionamento interpessoal – e, simultaneamente, ser um mentiroso patológico e um fantasista. São aliás características que muitas vezes convivem no mesmo perfil psicológico e a natureza humana, como convém nunca esquecer, é complexa e muitas vezes retorcida (ou não fosse o pecado original uma condição universal comum a todos nós). O que é mais notável no caso não é Jason Arday em si mesmo, mas como foi possível chegar onde chegou sem que a charlatanice fosse detectada antes. É essa a questão mais importante e sobre a qual importa reflectir.

Esta é uma questão que pode, naturalmente, ter vários ângulos possíveis de análise. Um primeiro, entre nós bem apontado e resumido por Mário Amorim Lopes, foca-se em especificidades nacionais que associa ao declínio moral do Reino Unido:

“Na verdade, o caso Arday é apenas o sintoma do longo e lento declínio moral do Reino Unido. A polícia foi uma dessas instituições severamente afectadas por esta crise moral. Quando um jornalista do Times Higher Education começou a investigar a fraude e enviou perguntas a Arday, a Metropolitan Police passou quatro meses a investigar o caso – não o de fraude académica, mas a investigação jornalística de Jack Grove. Encerrado o caso, a polícia ainda ligou ao jornalista a recomendar-lhe que não voltasse a incomodar o professor. A polícia britânica transformada em secretariado emocional.”

Tanto a perseguição institucional e até policial a quem tentou escrutinar Jason Arday como a inaceitável forma como a Universidade de Cambridge inicialmente defendeu cegamente Arday e só depois, sob crescente pressão externa, anunciou abrir uma investigação que acabou por desencadear a demissão de Arday podem certamente ser vistos como sintoma dos problemas do Reino Unido. Mas prefiro aqui focar-me numa outra dimensão de análise, centrada em problemas que estão longe de ser exclusivos do Reino Unido mas afectam (pelo menos) todo o contexto universitário ocidental.

Por muito que os processos de recrutamento, promoção, avaliação científica e escrutínio académico em geral tenham falhas e limitações (e têm certamente), é difícil acreditar que Jason Arday pudesse ter sido o mais jovem negro a atingir a posição de professor catedrático em Cambridge se o seu posicionamento e a sua própria narrativa pessoal não encaixassem perfeitamente nos enviesamentos dominantes nas ciências sociais e nas humanidades – nomeadamente o progressismo e o wokismo.

As ideias têm consequências e os enviesamentos sistemáticos – nomeadamente nos meios académicos e (supostamente) científicos – têm causas que remontam precisamente à predominância esmagadora de ideologias de esquerda (e frequentemente de extrema-esquerda) e da agenda woke no sistema universitário, com particular intensidade e gravidade nas ciências sociais e nas humanidades. A este respeito, e recorrendo uma vez mais a uma fonte insuspeita, vale a pena ler o (longo) ensaio “Why I Quit the Tenure Track: The insufferable hypocrisy of elite academia”, de Tyler Austin Harper. No texto, o autor – um jovem académico negro com impecáveis credenciais progressistas – descreve a sua gradual desilusão com a degradação de padrões académicos e científicos que as motivações de engenharia social provocaram na instituição de elite para a qual foi contratado, assim como a hipocrisia reinante (neste caso no Bates College, no Maine). O ensaio merece ser lido na íntegra mas a passagem na qual Harper descreve a sua experiência num júri de recrutamento é particularmente elucidativa:

“Even more upsetting, my experience on that committee changed how I viewed other newly hired minorities on campus. I sometimes found myself reflexively wondering whether Bates’s professors of color were up to the job, or whether they were underqualified fodder for the school’s social-engineering regime. I could not unlearn what I had discovered: that more than a few people at this elite little college seemed happy not just to move the goalposts for people like me, but to take them down entirely. (…) How many other Charlottes had already been hired at Bates? And how common was this kind of thing at other colleges around the country? It seemed highly unlikely that I had landed at the only school in America so hell-bent on getting minorities through the door that it would make a mockery of academic standards if need be.”

Não creio que os problemas em causa estejam fundamentalmente (ou sequer principalmente) relacionados com práticas de discriminação racial (dita) “positiva”. Antes, eles inserem-se numa estrutura de enviesamento ideológico sistemático, através do qual a Universidade e o sistema científico se tornam ilhas de radicalismo financiadas por uma sociedade que não reflectem mas que ambicionam desesperadamente revolucionar. É esse enviesamento sistemático que possibilita casos como o de Jason Arday, que pode ser extremo pelo exagero mas infelizmente não constitui um desvio face às práticas vigentes e dominantes, em especial nas ciências sociais e humanidades.

Longe de serem um exclusivo do Reino Unido ou dos EUA, estes enviesamentos prevalecem em boa parte das Universidades e dos sistemas científicos ocidentais, inquinando e distorcendo de forma sistemática grande parte dos processos de avaliação, selecção e promoção. O resultado final, como acontece de forma flagrante também em Portugal e na UE, é um sistema no qual muitos processos de avaliação, acreditação e financiamento são capturados por grupos associados a agendas ideológicas radicais, por vezes associados sectorialmente a interesses rentistas instalados.

Concursos de recrutamento e promoção, avaliações institucionais, concursos para projecto e bolsas, entre outros, todos são inquinados por esses enviesamentos sistemáticos gerando um sistema estruturalmente disfuncional e capturado e uma situação de difícil resolução, em especial nas ciências sociais e nas humanidades.

Como lidar com esta gravíssima crise da Universidade é uma questão complexa e difícil. Se nada se fizer, a é a própria Universidade que arrisca a descredibilização total e, a prazo, a irrelevância. Por outro lado, programas de activismo de sinal contrário para tentar contrariar a hegemonia progressista dominante – como na Hungria de Orbán – levantam eles próprios preocupações e reservas. Numa perspectiva de reforma séria e consciente mas tentando evitar a ruptura, há iniciativas interessantes na Florida, como a Hamilton School for Classical and Civic Education da University of Florida (que contratou recentemente o português Nuno Palma) ou o Adam Smith Center for Economic Freedom da Florida International University (disclaimer: com o qual colaboro como investigador num projecto internacional em curso), mas é discutível que constituam uma abordagem suficientemente robusta face à gravidade e enraizamento dos enviesamentos que contaminam o sistema. O futuro da Universidade no contexto ocidental depende da capacidade que tenhamos para lidar com esta crise, em especial nas ciências sociais e nas humanidades. Possíveis caminhos a seguir serão tema para futuras reflexões.

UNIVERSIDADES       EDUCAÇÃO

COMENTÁRIOS (de 9)

Isabel Gomes: Nāo consigo perceber como é que as instituições britânicas que primavam pelo rigor, venderam a alma ao diabo, perdão wokismo.

Santos: Universidades, centros de investigação, associações de tudo (sem-abrigos, LGBTI+, da pobreza, disto e daquilo), que só promovem a sua agenda e querem financiamento público! Nas artes é tudo cultura de esquerda, etc. Mas nem mesmo o PS2 tem coragem de acabar com isto!

Eduardo Lourenço: Nós também cá temos os nossos Jason Arday. Na  classe política parecem cogumelos depois de um dia chuvoso.

 

CONCLUSÃO DO TEXTO ANTERIOR

 

«Estamos a censurar o sucesso de Montenegro?»

COMENTÁRIOS

Liberal do Costume É impressão minha, ou esta dama garrida nunca virava realmente o dente ao Poucochinho como o faz aqui a Montenegro?

A FJ: Primeiro, os jornalistas merecem ser questionados. Alguma vez havia este escrutínio se o governo fosse de esquerda? Sabemos todos que não. Segundo, queriam que o homem resolvesse em 2 anos problemas acumulados da governação socialista? Sabemos todos as consequências do acordo com o BE, estamos ainda a pagá-las. E até podemos ir mais para trás. Terceiro, acho muito bem que o governo, este ou qq outro, não determine a sua agenda pela pressão da comunicação social, mas sim pela sua leitura das prioridades. Por fim, alguém questiona que estejam efectivamente a ser feitas mudanças? Querem a prova? É só ver a indignação e a pressão que vai na comunicação social, precisamente. "Quando começas a ser atacado é porque estás no caminho certo". Eu nem sou fã do homem, mas aqui ele tem razão. Julgaremos no final, e não na espuma dos dias. Aliás, assim o mostram as tão faladas sondagens, todas dizem que os portugueses não querem eleições, seja quem for que ponham à frente. Até porque, o que seria a nossa alternativa? A não ser que alguém ainda acredite no pai natal, diria que estaríamos no regresso ao passado ou no domínio da banha da cobra. Não obrigado. Adiante.

Jorge Barbosa: Excelente artigo

Fernando ce: Concordo, e votei AD. E tem de fazer leis mais duras anti-imigração, pois não tarda temos 3 milhões de imigrantes indostânicos e sub-saharianos. E não vêm trabalhar na construção civil, dedicam-se a actividades de comércio , sendo certo que as mulheres não trabalham. Por este andar vai ser bonito, vai. A pressão sobre os serviços públicos é notória, com grávidas dos Palops a virem ter os filhos a Portugal. E ainda por cima dão “palpites” sobre trabalho do Governo no SNS. Nos transportes públicos metade são imigrantes. Idem em muitas escolas do ensino básico. E há dias no Continente do Colombo, uma mulher com a cara tapada com uma máscara, proibida em Portugal.

Miguel Siqueira: Tem toda a razão, Luís Montenegro. A comunicação social, Observador incluído, só sabe ir buscar o negativo, o que corre menos bem ou mal. São raras as notícias positivas. Acresce que o país está como está não por culpa de Montenegro, mas por culpa de 30 anos de socialismo, começado com Guterres (para não falar dos anos de Mário Soares). Montenegro está no poder há pouco tempo. Deixem-no trabalhar, está a fazer muito com a maioria relativa que tem.

Jorge Tavares: Eu também tenho uns casos de ovelhas de que falar. Estou longe de ser o único a apontar as ovelhas fiscais que se seguem ao presente parágrafo. Basta percorrer os artigos de opinião no Observador das últimas semanas e encontram vários. Os impostos continuam em máximos históricos. Os governos do atual PM não estão a fazer nada para os reduzir, ou à despesa estatal que pressiona para que sejam cada vez mais altos (uma possível excepção são algumas medidas do ministro Fernando Alexandre). O IRS continua a ter um número inconcebível de escalões - nove! Um IRS assim não é só contra o desenvolvimento económico. É contra o mérito. Constitui uma autêntica política de baixos salários. Empurra a juventude mais habilitada para a emigração. O IRC continua a ser progressivo, contra toda a racionalidade económica (começou com António Costa). A generalidade dos economistas concorda que a progressividade aplicada a empresas não faz sentido. Quanto mais bem-sucedida é uma empresa, mais castigada ela é pelo seu sucesso. A criação de mais e melhores empregos - um dos principais factores no aumento da prosperidade - é assim penalizada. Mais uma medida contra o desenvolvimento económico e contra o mérito. O "adicional ao IMI" da Mariana Mortágua continua em vigor, com tudo o que de simbólico tem da hostilidade à propriedade privada. Tinha sido instaurado para as "grandes fortunas". Hoje já abrange mais de 100 mil famílias. Mais uma medida de progressividade em mais um imposto que devia ser proporcional, mas flat. Esta fiscalidade e hostilidade são um dos factores que explicam a actual crise da habitação. Há vários outros factores, mas este governo só está a lidar com uma minoria  - que tanto quanto eu saiba,  não inclui os licenciamentos urbanos e a falta de trabalhadores.

O imposto sobre capitais (e.g., sobre os juros de contas a prazo) continua a ser de 28% - outra brutalidade fiscal que não muda desde 1 de janeiro de 2013. É sabido que as poupanças contribuem de maneira decisiva sobre a capitalização de uma economia. Este nível de tributação penaliza-a.

Em Portugal, muito impostos são progressivos, quando apenas o IRS o devia ser e com moderação (3 ou 4 escalões).  Quase só faltava tornarem o imposto sobre capitais progressivo também.

Fernando ce > A FJ: E mais de metade dos comentadores,  na TV, são de esquerda. E até os jornalistas que moderam os debates que  deviam ser isentos, tomam o partido da esquerda.  Um debate a dois temos dois contra um, sendo este último da área da AD.

Maria Emília Ranhada Santos: Tudo verdade! Excelente artigo!  É isso mesmo, Montenegro é um servo de quem quer destruir Portugal, a NOM. Montenegro cumpre à risca os objectivos demoníacos da agenda 2030 e depois faz estas declarações bizarras, também elas inscritas na mesma agenda! Aconselho vivamente a leitura deste perverso documento que nos estão a impingir como uma coisa muito boa, quando na realidade ela só serve a satanás

AdOB > Liberal do Costume: Para quem acusa/critica PPC da queda do BES está muito exigente com as críticas dos outros! Porque não critica LM como critica PPC?

José B Dias: Basta ver as reacções dos incondicionais da cor política para ter a confirmação de que a cronista conseguiu pôr o dedo na ferida ...

Oscar gomes: A Dra Helena Garrido tem que mudar os óculos. Além de ter uma grande miopia da visão politica e social,  vê tudo em tons cor-de-ROSA além de "misturar alhos com bugalhos". Os casos que enumera e que são reais  e  acontecem porque o dinheiro que deveria ser investido na viatura em falta vai ser para cobrir os 160 milhões que a aliança CH-PS fez desaparecer dos cofres do Estado ao abolir as portagens e abolir o princípio do utilizador-pagador,  i. é, pagamos todos os que só alguns usam além. Esta aliança é patente em muitas outras coligações CG-PS que apostam nos gastos orçamentais que fazem com que as contas do Governo sejam alteradas e desviadas para gastos populistas para capitalizarem votos. Relativamente aos roubos e outras situações sem justiça ou justiça tardia e sem consequências e situações análogas a culpa é de TODA   a AR. Não vê ou não quer ver que o que se passou na Educação foi um incidente funcional do ME boicotado por toda a esquerda na Educação incluindo muitos professores. Bastava ver na TV o deleite do Sr Filinto Lima, director de agrupamentos escolares ao falar dos problemas da correcção dos exames. Não vê ou não quer ver que o Estado chinês já ganhou e continua a ganhar milhões que vão enriquecer os chineses e os cidadãos chineses, mas rejeita que o Estado português faça o mesmo (??!!) e que o investimento na REN EDP e outras são um óptimo investimento e uma segurança para o país tal como por ex a CGD ?  Relativamente à produtividade gostaria que a cronista nos explicasse como é que o Estado pode interferir na produtividade de empresas privadas...

David Pinheiro: Bons números na economia? O nosso maior parceiro económico cresce muito mais que nós. E nem conseguimos acompanhá-lo, apesar de sermos mais pobres. Nem sequer conseguimos aproximar-nos da média da UE, apesar de sermos pobres e como tal nos ser mais fácil crescer. Já nem falo nos fundos europeus, que sistematicamente falham em cumprir o seu objectivo da convergência.  E a pouca convergência que conseguimos é mais por culpa da Alemanha que está em pré-falência do que pelo nosso próprio mérito.  Nem conseguimos a convergência com um bloco que está em pré- morte.

Observador . “Um país em colapso” Esta gente saberá o que é um país em colapso? Isto parece terminologia chegana. Perdeu-se a noção do ridículo e do verdadeiro significado das palavras. É tudo hipérboles.  Os dois exemplos que deu então são do mais ridículo e populista que tenho ouvido recentemente. Será que a Helena está a sucumbir ao cheganismo? Julgo que não, mas que parece, parece.

AdOB > Rosa Ribeiro:  Espera-se de um PM que não tenha estados de alma, não ande a fazer choradinhos na TV e a pedir aos jornalistas para fazer propaganda grátis. Tem mulher, filhos e amigos. O colinho é aí.

DP: Eu não sei se LM tem ou não razão nas críticas que faz à CS, possivelmente até nem terá; mas há uma coisa que sei, que todos sabem e temos a certeza: sempre que algum político faz uma crítica à CS é mais que garantida uma reacção corporativa ao estilo "ai, ai, estão a atacar aqueles que têm por missão escrutinar o poder político, não pode ser!", esquecendo que em democracia NINGUÉM, absolutamente ninguém, está acima da crítica; e que ninguém, absolutamente ninguém é intocável! Mas a malta da CS parece, "por algum dom divino", sentir-se intocável e acima de qualquer juízo feito por terceiros!! Julgam-se assim uma espécie de "vacas sagradas" das democracias!! Ora em democracia não é assim: em democracia TODOS  sem excepção estão sujeitos a crítica, incluindo a CS. E se existe sector que merece duras críticas é precisamente a CS que há vários anos a esta parte parece dedicar-se mais ao espectáculo e ao drama para estimular audiências e o clikbait* (que é o que os patrões lhes mandam fazer) do que à missão de informar e esclarecer de forma ISENTA, que é para isso que estão licenciados e lhes foram atribuídas as respectivas carteiras profissionais! *tudo isto e fazer o chamado jornalismo de trincheira como forma de propaganda das convicções políticas e ideológicas pessoais de jornalistas e cronistas, muitas vezes recorrendo aos métodos mais baixos de desinformação, como se vai vendo por ai com alguma gente em variadíssimos meios de CS da nossa praça!

Paulo Botica: de facto, os dois primeiros casos, só agora surgem, antes não era assim. É esta imparcialidade que se critica.

 

Coragem

 

Coragem

É do que se precisa, quando se adopta um cargo público, como esse de governar, tantos somos os que saberíamos fazê-lo melhor!

Estamos a censurar o sucesso de Montenegro?

O primeiro-ministro mostrou-se desapontado com o retrato que se dá do país e escolheu os grandes números da economia para mostrar que tudo vai bem. Esqueceu-se do resto.

HELENA GARRIDO Colunista

OBSERVADOR, 18 ago. 2026, 00:25

António, nome fictício, tinha umas 20 ovelhas que cuidava nos intervalos do seu emprego.  Um dia, chega lá, e restavam três. Tinham sido roubadas. Viu as marcas dos pneus pelo terreno. Ali perto, um armazém tinha videovigilância e as imagens foram-lhe entregues. Foi à polícia fazer queixa, entregou as imagens em que se via claramente um grupo de homens, numa carrinha, a roubarem as ovelhas. A polícia disse que conhecia os ladrões, sabia onde moravam e até identificou o condutor dizendo que nem carta tinha. Imaginaríamos nós, pouco versados nos meandros da justiça, que a polícia iria ao local e rapidamente se deslocaria ao sítio onde sabia que moravam os ladrões. Pois não é assim. Foi dito a quem foi roubado que nada podia fazer, tinha de esperar pelo juiz. E que nem valia a pena ir ao local. Naturalmente revoltado, António correu o risco de ser ele o preso, por dizer que a polícia só se preocupava com multas.

Maria e Luísa, nomes fictícios, são enfermeiras de um centro de saúde. Acompanham uma população envelhecida em domicílios, que conseguem fazer duas vezes por semana à tarde. Porque não fazem mais? Porque há apenas um carro para vários centros de saúde e a equipa tem de estar sistematicamente a batalhar para ter acesso à viatura. Como todos nós, também sabem que proliferam “carros de trabalho” por essa administração pública fora, para directores, administradores ou apenas vogais.

Não são histórias inventadas. São experiências vividas por essas pessoas que, sim, têm emprego, poderão até ter tido um bom aumento do seu poder de compra, nestes anos em que Luís Montenegro é primeiro-ministro. Mas aquilo que vêem do seu ponto de observação é um país em colapso, onde parece que se pode roubar sem castigo e onde a hierarquia de valores e prioridades dá sinais de estar virada do avesso.

Corremos com isto o risco de validar a mensagem do primeiro-ministro nos 50 anos da festa do Pontal. Estamos focados em coisas que “correm menos bem” em vez de nos concentrarmos no que, nas suas palavras, “corre muito bem”. O primeiro-ministro esquece-se de alguns ensinamentos das experiências ligadas à economia da felicidade: o ser humano é avesso à perda, valoriza mais o que perde do que o que ganha.

O que corre muito bem, segundo o primeiro-ministro e que genericamente os números que apresentou confirmam? O emprego está em máximos históricos, a inflação está controlada, as contas públicas estão basicamente equilibradas e a dívida pública a descer, o IRS desceu por quatro vezes e foi criado o IRS Jovem, o salário mínimo e médio estão a subir assim como tem aumentado o poder de compra, o Complemento Solidário para Idosos aumentou, há medicamentos gratuitos para os beneficiários do CSI e a economia pertence ao grupo das que mais cresce no conjunto do Euro.

Tudo o que o primeiro-ministro disse no Algarve é factualmente verdade. Mas foram números escolhidos a dedo. Luís Montenegro até podia ter ido mais longe, dizendo que a economia portuguesa resistiu bem às tempestades e à guerra com o Irão. Mas o Governo sabe que esses números, que têm pessoas atrás, não contam toda a realidade económica e financeira do país

Sim, a economia está a crescer, mas estará a produtividade? Nem isso sabemos com rigor, uma vez que estamos à espera de números do PIB e do emprego consistentes com o aumento da população. Aparentemente estamos a crescer por aumento da quantidade de trabalho injectada na economia – tal como acontece em Espanha – e não por aquilo que é mais saudável, por via da subida da produtividade.

Temos depois as contas públicas. Sim, mantêm-se controladas. Mas já olhamos para o detalhe para perceber que esse equilíbrio se deve ao excedente da Segurança Social que, por sua vez, se deve ao nível histórico do emprego?  Temos de estar preocupados com o perfil do crescimento e do equilíbrio orçamental. O mais pequeno abalo no emprego pode transformar este sucesso em pó.

Depois há as escolhas políticas, que podem ser muito importantes do ponto de vista eleitoral, mas são discutíveis quanto à sua eficácia, numa lógica de custo benefício. Há dois casos especialmente importantes. Um é o IRS Jovem que custa mais de mil milhões de euros, foi criticado por instituições como o FMI e que tem uma eficácia altamente duvidosa – que, diga-se, não parece suscitar qualquer curiosidade quanto ao seu efeito. Quantos jovens optaram por ficar em Portugal por causa do IRS Jovem?  Depois temos o caso das medidas na habitação para jovens. Sabendo bem que correlação não é causalidade, parece evidente que uma das consequências dessa medida foi aquecer ainda mais o mercado imobiliário, ou seja, fazer subir mais os preços.

A compra de 13,7% da REN ao dono da Zara é outra opção discutível e muito difícil de perceber. A REN é altamente regulada, a sua estratégia de investimento assim como os seus preços dependem já de decisões do Estado, entre eles o regulador. Ou seja, em termos gerais, a REN ganha aquilo que o Estado a deixa ganhar. Quanto mais é que o Estado vai mandar com uma posição minoritária na REN? E vai mandar para fazer o quê que não pudesse já neste momento concretizar? E assim se terão gastado, de acordo com as cotações de sexta-feira passada, dia 14 de agosto, 325 milhões de euros. Um dos argumentos do primeiro-ministro, no Pontal, é que o Estado pede emprestado a uma taxa mais baixa do que aquela que vai garantir com o rendimento da participação na REN. Ou seja, o Governo apresenta como uma vantagem o facto de fazer arbitragem financeira com crédito – financiando com dívida, que tem encargos fixos, um activo com resultados variáveis. Foi assim que faliram alguns accionista do BCP e outros, pequenos, enfrentaram dificuldades, e foi com tácticas destas que a PT acabou como acabou.

Finalmente temos tudo aquilo que o primeiro-ministro não disse e que aí pode estar a causa das sondagens lhe estarem a ser menos favoráveis. E o que não disse? Não nos falou da Saúde. Não nos falou do que foi o problema dos exames este ano. E não nos falou do estado em que está a administração da justiça, embora o pudesse fazer mostrando que está a tomar medidas, nomeadamente no domínio da justiça administrativa. Não nos falou de segurança, depois de um grave e inédito caso como o que aconteceu na baixa de Lisboa, com uma turista atingida por uma bala perdida.

Um dos erros dos governos é atirarem-se aos mensageiros, neste caso aos jornalistas. Jornalismo pode não ser o que muitas vezes vemos acontecer hoje, mas não é relatar o que corre bem, porque isso é o que é suposto acontecer. Quem tem a ilusão que é através dos jornais, das rádios e das televisões que conhece a realidade está enganado. Jornalismo é expor o que em estatística se chamam os “outliers” ou, como é comum dizer, a notícia é o homem morder o cão e não o contrário.

Percebe-se que o primeiro-ministro esteja irritado com os casos que o perseguiram nesta entrada para o Verão, um deles relacionado com as reformas que está a fazer – na Educação – mas o outro, o do ministro da Administração Interna, reúne condições para lhe continuar a dar dores de cabeça. Luís Neves mostrou que considera que os fins justificam os meios, o que, com as investigações em curso, pode revelar muito mais da actuação da PJ do que o Governo gostaria.

Em dois anos o Governo ainda não devia estar na fase de se queixar de ser incompreendido e de os seus sucessos estarem a ser supostamente censurados. Luís Montenegro quis convencer-nos que vamos ter, com ele, uma década de sucesso como foi a de Cavaco Silva (interessante que José Luís Carneiro também foi ao passado para ir buscar, não Costa, mas Guterres). Mas todo o discurso no Pontal foi marcado por queixumes de incompreensão que, já vimos muitas vezes, acontecem em final de ciclo.

Em vez de se queixar e opinar sobre aquilo que acha que deviam ser as notícias e os comentários, Luís Montenegro e a sua equipa faziam melhor em tentar compreender porque é que todo este descontentamento acontece e se reflecte na comunicação social, apesar dos bons números da economia. E aquilo que aconteceu às ovelhas de António, aquilo com que batalham as enfermeiras do centro de saúde, assim como tudo o que temos visto nos últimos tempos de colapso no funcionamento do Estado podem ser boas pistas para reflectir. Em vez de se queixar.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cada um

 

Que se governe.

Trump recusa-se a confirmar apoio a Netanyahu: “Acho mais apropriado que me mantenha afastado das eleições israelitas”

O líder da Casa Branca diz ser "mais apropriado" manter-se afastado das legislativas israelitas. As sondagens favorecem o centrista Eisenkot do partido Yashar.

AGÊNCIA LUSA: Texto

OBSERVADOR, 17 ago. 2026, 22:52

"Acho mais apropriado que me mantenha afastado das eleições israelitas", afirmou o líder da Casa Branca

Samuel Corum / POOL/EPA

O Presidente norte-americano, Donald Trump, continuou esta segunda-feira a recusar o seu apoio ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, nas legislativas previstas para 27 de outubro, nas quais as sondagens colocam em risco a sua reeleição.

Acho mais apropriado que me mantenha afastado das eleições israelitas”, afirmou o líder da Casa Branca em declarações à estação Fox News reproduzidas pela imprensa de Israel, embora deixe em aberto a possibilidade de “apoiar alguém”.

As palavras de Trump surgem no dia em que o Likud, partido de Netanyahu e maioritário no Governo de coligação com a extrema-direita, realizou primárias para a escolha das listas para o Knesset (Parlamento), vistas como um teste ao líder israelita quando enfrenta contestação dentro da sua própria força política, nomeadamente dos partidários de uma linha mais centrista.

De acordo com o portal norte-americano Axios, as perspetivas de reeleição de Netanyahu foram discutidas com Trump, no encontro que ambos mantiveram no mês passado na Casa Branca em Washington, numa altura em que o primeiro-ministro israelita lida com sondagens desfavoráveis.

Anteriormente muito próximos, a reunião dos dois líderes ocorreu num momento de tensão pública entre ambos sobre a condução das várias frentes de conflito no Médio Oriente.

Trump procura uma saída para a guerra que lançou com Netanyahu em 28 de fevereiro contra o Irão, que merece reservas do primeiro-ministro israelita, que por sua vez mantém tropas no sul do Líbano, na guerra contra o grupo xiita Hezbollah, aliado de Teerão, ameaçando os esforços de paz de Washington.

O chefe do Governo de Israel recusou entretanto o plano do Conselho da Paz para a Faixa de Gaza, apoiado pelos Estados Unidos e que tinha sido aceite pelo grupo islamita Hamas, que previa o desarmamento das milícias palestinianas e a retirada do exército israelita do território.

Já esta segunda-feira, Netanyahu disse ter acordado com o Conselho da Paz a criação de um grupo de trabalho para supervisionar a desmilitarização da Faixa de Gaza, mas reiterou que só abandonará o enclave palestiniano quando esse processo estiver concluído.

O envolvimento de Israel nos esforços de diálogo dos Estados Unidos tem merecido a oposição dos grupos de extrema-direita aliados do Likud no Governo.

A maioria das sondagens em Israel coloca a força política do primeiro-ministro empatada ou logo atrás do seu principal adversário, o partido centrista Yashar, fundado em 2025 e presidido pelo antigo chefe das forças armadas Gadi Eisenkot.

Os estudos de opinião indicam porém que nenhum dos dois líderes, nem dos blocos pró-governo ou de oposição, consegue uma maioria dos 120 lugares em disputa no Knesset, embora o Yashar surja em melhores condições para formar governo.

A coligação B’Yachad (Juntos), criada este ano pelos antigos primeiros-ministros Naftali Bennett e Yair Lapid, atual líder da oposição, aparece em terceiro lugar e no quarto figura o Yisrael Beytenu (Israel é a Nossa Casa), partido nacionalista, de direita e secular, liderado pelo deputado Avigdor Liberman, mas ambos seguem longe do Likud e do Yashar.

Os Democratas, partido social-democrata sionista dirigido pelo antigo general Yair Golan, estão colocados no quinto lugar nas sondagens e só depois surgem os partidos que têm estado próximos de Netanyahu.

Esta lista inclui os ultraortodoxos Shas e o Judaísmo Unido da Tora, bem como o Otzma Yehudit (Poder Judaico), do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o Sionismo Religioso, do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, dois controversos ultranacionalistas em representação da extrema-direita no Governo.

Os partidos árabes obtêm cerca de uma dúzia de lugares nas intenções de voto, divididos entre o Ra’am (Lista Árabe Unida) e o Hadash-Ta’al.

Apesar das sondagens desfavoráveis para os partidos próximos do executivo, as principais forças de oposição têm demonstrado divergências sobre um eventual acordo que permita a formação de um governo maioritário.

O Likud é um dos poucos partidos israelitas que realizam primárias para escolher a lista de candidatos ao parlamento, juntamente com nove candidatos previamente selecionados por Netanyahu.

“Amanhã votarei nas primárias do Likud para uma lista vencedora que garanta que Eisenkot e Yair Golan não formarão um pequeno governo com os partidos árabes, como prometeram. Confio em vós, membros do Likud, para escolherem os vossos representantes corretamente, de acordo com o vosso julgamento”, comentou Netanyahu no domingo à noite na rede social X.

Segundo o jornal Haaretz, esperava-se que votassem cerca de 140 mil membros do Likud, embora a participação nas anteriores primárias do partido, realizadas em 2022, tenha sido inferior a 60%.

Segundo os primeiros relatos não oficiais na imprensa israelita após o fecho das urnas, a participação neste ano foi ainda mais baixa.

Os membros do Likud escolhem 12 candidatos para a lista nacional e um para a lista distrital.

Os lugares distritais começam no número 27, tornando improvável a entrada destes candidatos no Knesset, dado que as sondagens preveem que o Likud fique abaixo desta fasquia.

À luz das projeções, cerca de uma dezena de candidatos podem não ser eleitos, em comparação com as legislativas de 2022, quando o partido colocou 32 deputados.

A posição de Netanyahu não está contudo em risco durante estas primárias, dado que o líder do partido é escolhido num processo separado.

O atual primeiro-ministro israelita reserva-se ainda o direito de escolher quem ocupará outros oito cargos nas listas do partido Likud (3.º, 5.º, 9.º, 11.º, 15.º, 18.º, 26.º e 29.º), graças a uma decisão do Comité Central do partido que lhe concedeu maior influência.

Destes oito cargos, Netanyahu já designou quatro figuras que lhe são próximas: o atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, o ministro da Defesa, Israel Katz, o presidente do Comité Central do Likud, Haim Katz, e o empresário (e estreante na política) Oren Dobronsky.

Ao longo dos anos, Netanyahu aumentou o número de posições nas listas reservadas a seu critério: de duas em 2015 para cinco em 2022 e agora oito em 2026, segundo o Instituto da Democracia de Israel.

ISRAEL      MÉDIO ORIENTE      MUNDO      BENJAMIN NETANYAHU      DONALD TRUMP      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA

 

Águas passadas

 

Na História de um país, afinal tão prostituído assim, talvez por ter sido grande, com Descobrimentos que bem alargaram a visão da   Terra      e do Mundo, claro. Não, “não havia necessidade” … de tanto rebaixamento, numa História de alargamento territorial que começava assim, nos manuais da História Pátria: “Em 1418 João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobriram a Ilha de Porto Santo. No ano seguinte, os mesmos e Bartolomeu Perestrelo descobriram a Madeira”. O Brasil foi em 1500. Mas chegámos mesmo a Timor…, percorrendo em naus o mar salgado das lágrimas dos familiares que ficaram, segundo tradução em verso ilustre …  Dá para espantar. Sempre. Embora também a Grécia, mais outrora ainda …  É certo que teve os seus grandes clássicos.  Mas não podemos contestar o valor dos nossos … Pessoa e C . ia. …  Clássicos para sempre.

Agosto de 1808: Portugal não assinou

Costuma dizer-se que o Portugal do império acabou em 1974 e que o princípio do fim foi o ouro do Brasil. A minha opinião, que vale o que vale,  é outra.

JOÃO A. B. DA SILVA Economista e investidor

OBSERVADOR, 17 ago. 2026, 00:20

O Jardim de Kalahari: o conjunto de joias da noiva Georgina

Um amigo inglês, jornalista de profissão, embora não de diploma, tornou-se conhecido pelas longas entrevistas que faz a figuras de grande notoriedade. Foi aceite em História na LSE, mas decidiu não seguir os estudos universitários, por considerar a academia demasiado woke para valer o seu tempo. E alimenta há anos a mania de me recomendar livros sobre a história de Portugal. A mania nasceu no Museu Marítimo de Greenwich, numa tarde em que, a braços com uma cerveja quente e sem gás, como só os ingleses sabem fazer, discordámos com alguma energia sobre a forma como certas notas históricas ali estão escritas. Não sobre datas, porque as datas ninguém contesta. Sobre a arrumação. Quem começou, quem ensinou quem, quem estava a proteger quem e a troco de quê. Ditas do lado de lá da mesa, aquelas frases têm o inconveniente de contradizer, com cinismo britânico, precisamente aquilo que em Portugal se ensina como facto assente e se repete em discursos do Dez de Junho. Não que eu aprecie particularmente debates. Tenho a tendência de ouvir o outro lado para confirmar que tenho razão.

O livro que ele acabou por me impingir chama-se Britannia Sickens: Sir Arthur Wellesley and the Convention of Cintra, é de Michael Glover, saiu em Londres em 1970, tem poucas páginas e o título é um verso de Byron. Tarda uma tarde de praia a ser lido, o que já é meio caminho andado para uma recomendação decente. E trata do que aconteceu a partir de 17 de Agosto de 1808, data que hoje faz duzentos e dezoito anos.

Quanto mais avançava na leitura, mais clara me parecia a provocação por detrás do livro. A tese de fundo é mais ou menos esta: por essa altura, Portugal já não era verdadeiramente independente. Havíamos entregue a nossa independência aos bárbaros das tribos do arquipélago no norte da Europa. A partir de 1808, a primeira pessoa do plural, quando aplicada às decisões sobre Portugal, deixou de incluir os portugueses. A invasão francesa não transferiu apenas território, que aliás acabaria por voltar. Transferiu a competência para decidir. Essa, porém, ficou por lá. O território regressou. A autonomia, não. Ficou em Londres, onde haveria de criar raízes mais profundas do que qualquer exército francês. A rainha havia muito que não estava em condições de reinar, o príncipe regente saíra para o Brasil em Novembro de 1807, as Cortes não se reuniam havia mais de um século e o que restava do Estado era uma junta, pequena assembleia de homens a pedir instruções por carta a duas capitais estrangeiras ao mesmo tempo. A soberania tinha-se tornado uma espécie de administração por correspondência. Hoje está em Bruxelas.

Glover conta a história do lado britânico e conta-a com detalhe e parcimónia. A 17 de Agosto, na Roliça, Wellesley bate Delaborde. A 21, no Vimeiro, bate Junot. Nesse intervalo é ultrapassado na cadeia de comando por Burrard e depois por Dalrymple, dois homens prudentes que preferiram negociar a perseguir. Em Portugal, defendemos uma versão cómoda: a do velho general britânico que chegou tarde, não percebeu o que tinha na mão e deitou fora uma vitória. Se a culpa foi de um homem distraído, Portugal foi vítima de um azar e não de uma condição. Os documentos históricos, esses, mostram outra coisa. O armistício de 22 de Agosto foi assinado pelo próprio Wellesley, e o texto afirma que ele tinha poderes para o fazer. Os seus defensores garantiram depois que não o escreveu, não o negociou e não o aprovou, e que Kellermann exigiu a assinatura dele para dar autenticidade ao papel. Pode ser tudo verdade. O ponto é que assinou na mesma. Quanto à Convenção definitiva, não foi obra de Dalrymple sozinho. Foi negociada e assinada por George Murray, por parte britânica, e por Kellermann, por parte francesa, e só depois ratificada pelas chefias correspondentes. A caricatura do burocrata teimoso ou do general idoso que atirou fora uma vitória alheia é retoricamente poderosa, mas analiticamente medíocre.

O que a Convenção permitiu, isso sim, resiste a qualquer revisão. Foram transportados para França 25 747 franceses, dos quais 20 900 sob armas, ou seja praticamente o exército de Junot inteiro, em navios britânicos, com armamento, artilharia, cavalos, bagagens, caixa militar e propriedade privada. O texto especifica que a propriedade particular seguiria sem excepção. Em lado nenhum se obriga os franceses a devolver aquilo que tinham saqueado em Portugal, e foi isso, mais do que a retirada, que fixou entre nós a percepção de afronta. Entre a bagagem seguiu, por exemplo, a Bíblia dos Jerónimos, que não era propriedade particular de ninguém. Um exército derrotado saiu do país mais rico do que tinha entrado, escoltado e alojado por quem o derrotara.

Dizer que Portugal foi vendido é falso. A Convenção não entregou um metro quadrado de território a França. Fez exactamente o contrário. Expulsou de Portugal a totalidade da presença militar francesa, entregou Lisboa e o Tejo aos britânicos e poupou-lhes uma campanha contra um exército ainda numeroso, com o Inverno à porta e uma esquadra por resolver. Militarmente, os britânicos conseguiram tudo aquilo a que tinham vindo, e conseguiram-no em duas semanas. O preço foi deixar Junot ir embora praticamente intacto. Foi um preço que os britânicos consideraram “justo”.

O pormenor que me interessa é que Portugal não foi parte contratante. Não negociou, não assinou e não ratificou coisa nenhuma. A pergunta que se costuma fazer é porque é que os ingleses não nos chamaram. A pergunta certa é quem é que teria ido. O príncipe regente estava no Rio, para onde a corte partira no ano anterior, as Cortes não se reuniam desde o século XVII, havia uma junta em Lisboa debaixo de ocupação francesa e outra no Porto sem autoridade sobre a primeira, e nenhuma delas dispunha de exército, de comando ou de mandato para falar em nome do reino. Não fomos excluídos de uma negociação. Não tínhamos com que comparecer. E quem tirou daí a conclusão fomos nós. Seis meses e uns trocos depois, a 7 de Março de 1809, o comando do exército português foi entregue ao marechal Beresford com plenos poderes para nomear e demitir os oficiais que entendesse. A escolha do nome foi de Londres. O pedido foi de Lisboa. Beresford fez daquele exército uma força de primeira linha, e essa é a parte da história que nos convém contar. Um país que precisa de mandar vir de fora quem lhe faça o exército e quem assine por ele já não é bem um país. É um teatro de operações com bandeira.

Coube no documento uma esquadra russa. Os artigos adicionais trataram da neutralidade dos navios de Senyavin fundeados no Tejo, estando a Grã-Bretanha em guerra com a Rússia, e o destino da esquadra acabaria fixado dias depois, num acordo à parte com o almirante Cotton. Havia espaço para uma potência terceira. Não havia para o dono da casa.

Até o nome que damos ao escândalo é emprestado. O documento foi assinado a 30 de Agosto e nem sobre o local há acordo, porque Lisboa, Queluz e Torres Vedras disputam a honra. A designação de Sintra fixou-se depois, em boa parte por causa do despacho que Dalrymple escreveu do quartel-general instalado ali. Chamamos-lhe Convenção de Sintra porque um general britânico datou uma carta.

Glover é abertamente favorável a Wellesley, e a sua narrativa encaixa como uma luva na construção posterior do grande Wellington, o general brilhante que vence, os superiores que chegam tarde e estragam tudo, o inquérito que corrige a injustiça. É uma boa historieta. Não é, porém, a única possível. Convém desconfiar sempre das versões em que os factos se organizam demasiado bem em torno de um herói. A formulação mais honesta é outra. A Convenção foi, ao mesmo tempo, um extraordinário êxito estratégico britânico, um desastre político britânico e uma humilhação legítima para Portugal. As três coisas são verdadeiras pela mesma razão: Portugal não participou na escolha do seu próprio futuro. Quando um país abdica de negociar os seus próprios interesses, quem parte e reparte fica naturalmente com a melhor parte.

Costuma dizer-se que o Portugal do império acabou em 1974 e que o princípio do fim foi o ouro do Brasil. A minha opinião, que vale o que vale, é outra. O ponto de inflexão que marca o fim da autonomia portuguesa está algures entre a chegada de Junot e a sua partida. O que veio depois foi administração, por vezes competente, quase sempre alheia. Beresford comandou o Exército, os ingleses comandaram Beresford, a corte ficou no Rio e o país habituou-se a uma condição que nunca mais perdeu: a de assunto tratado por terceiros. Hoje decide-se em Bruxelas o que é regra, em Washington o que é aliança e em Pequim quem fica com a rede eléctrica, e em Lisboa a Lusa prepara o comunicado. É uma condição confortável. Poupa deliberações e poupa culpas. Talvez seja por isso que ainda discutimos se fomos traídos, quando a pergunta certa é outra. Não fomos traídos. Fomos promovidos a colónia.

 

 

 

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

HISTÓRIA PÁTRIA


Impecavelmente traduzida por BERNARDO RIBEIRO DA CUNHA, a quem agradecemos   a seriedade racional. Nacional também.

ALJUBARROTA: QUANDO PORTUGAL DECIDIU EXISTIR

É por isso que Aljubarrota não pertence apenas à história militar. Pertence à história da soberania. Foi o momento em que Portugal disse que a geografia não bastava para o definir.

BERNARDO RIBEIRO DA CUNHA

OBSERVADOR, 15 ago. 2026, 00:21

Há batalhas que ganham territórios. Outras ganham tempo. Aljubarrota ganhou uma coisa mais rara: a possibilidade de Portugal continuar a ser Portugal.

Em 14 de Agosto de 1385, há 641 anos, no campo de São Jorge, perto de Aljubarrota, não se enfrentaram apenas dois exércitos. Enfrentaram-se duas ideias de legitimidade. De um lado, Castela, com a força do número, da sucessão dinástica e da ambição peninsular. Do outro, um reino pequeno, politicamente ferido, socialmente dividido, mas ainda capaz de reconhecer que a legalidade sem liberdade pode tornar-se apenas a gramática elegante da submissão.

A crise começara com a morte de D. Fernando, em 1383. A sua filha, D. Beatriz, casada com o rei de Castela, abria a porta a uma solução dinástica aparentemente impecável e politicamente fatal: Portugal podia deixar de ser reino independente sem que ninguém precisasse de o conquistar formalmente. Bastava respeitar as regras até elas deixarem de proteger a casa comum. É uma lição antiga, mas sempre nova: há momentos em que a forma da lei pode ser usada contra o espírito da liberdade.

Foi então que emergiu D. João, Mestre de Avis. Não como figura romântica inventada depois pelos cronistas, mas como resposta política a uma necessidade histórica. As Cortes de Coimbra deram-lhe a coroa; João das Regras deu-lhe o argumento; Nuno Álvares Pereira deu-lhe a espada e, mais do que a espada, a disciplina.

Aljubarrota foi uma vitória da inteligência sobre a massa. O exército castelhano era superior em número. Portugal não tinha o luxo da imprudência. Escolheu o terreno, preparou obstáculos, estreitou o espaço, obrigou a cavalaria inimiga a lutar onde a sua força se convertia em embaraço. A grandeza castelhana entrou no campo como quem entra numa avenida; descobriu tarde de mais que estava num corredor.

Nuno Álvares não venceu por entusiasmo. Venceu por ordem. A coragem portuguesa, nesse dia, não foi grito: foi formação. Não foi impulso: foi obediência. Cada homem no seu lugar; cada lança apontada; cada passo calculado. A desproporção, que em teoria anunciava a derrota, tornou-se argumento a favor da prudência. A pequena nação só podia sobreviver se pensasse melhor do que o império que vinha esmagá-la.

Convém, porém, evitar a simplificação patriótica. Aljubarrota não prova que os portugueses sejam invencíveis. Prova coisa mais séria: que uma comunidade política só resiste quando sabe o que quer preservar. A independência não é um ornamento sentimental. É uma responsabilidade. Exige elites que não vendam o país por conveniência, povo que não confunda paz com rendição, e chefes que saibam que a autoridade existe para servir uma continuidade superior ao próprio interesse.

A presença de D. Nuno Álvares Pereira dá ainda à batalha uma dimensão que Portugal moderno raramente sabe ler sem embaraço: a dimensão espiritual. O Condestável não foi canonizado por ter sido bom general, mas é impossível separar nele a disciplina militar da ascese cristã. A sua grandeza não está apenas na vitória; está na forma como a vitória não o devorou. Num tempo em que tantos confundem poder com destino pessoal, Nuno Álvares lembra que a verdadeira autoridade começa no domínio de si.

Depois de Aljubarrota veio a dinastia de Avis, o Mosteiro da Batalha, a aliança inglesa consolidada pelo Tratado de Windsor, e a abertura de um ciclo que levaria Portugal ao mar. Mas nada disso estava garantido naquela tarde de Agosto. A história gosta de parecer inevitável depois de acontecer. Antes, é sempre risco, fadiga, pó, medo e decisão.

Portugal não nasceu em Aljubarrota. Já existia. Mas confirmou ali que queria continuar a existir. E talvez seja essa a lição mais actual da batalha: as nações não morrem apenas quando são vencidas por fora. Morrem antes quando deixam de acreditar, por dentro, que vale a pena defendê-las.

ALJUBARROTA FOI, POR ISSO, MAIS DO QUE UMA VITÓRIA MILITAR. FOI UMA DECLARAÇÃO DE PERMANÊNCIA. Uma pequena clareira aberta na História por homens que não tinham garantias, mas tinham dever. E quando um povo ainda sabe distinguir o dever da conveniência, até a inferioridade numérica pode tornar-se uma forma de soberania.

É por isso que Aljubarrota não pertence apenas à história militar. Pertence à história da soberania. Foi o momento em que Portugal disse que a geografia não bastava para o definir, mas que sem independência política a geografia se tornaria propriedade alheia.

Os grandes reinos gostam de chamar inevitável ao que lhes convém. Os pequenos, quando ainda têm alma, respondem que a inevitabilidade também pode cair numa vala.

Em Aljubarrota, caiu.

COMENTÁRIOS:

JORGE CARVALHO: Muito obrigado pelo seu excecional artigo que me trouxe a alegria e a responsabilidade de ser português até à morte

ALEXANDRE BARREIRA: Pois. Caro Bernardo: Também conheço outra história: 25 de Abril de 1974: quando Portugal decidiu....desistir.....!

FILIPE BATISTA: Excelente texto. E muito actual. Hoje, as nossas "elites" servem-se a si próprias e destroem Portugal. Políticos, juízes, intelectuais, artistas...

TIM DO A: E o 25 de Abril foi o momento em que Portugal perdeu o império, a soberania, está (ou já foi) a ser invadido e desistiu de existir como nação. A não ser para o futebol (em que a selecção também tem cada vez menos portugueses)...

MANUEL MAGALHAES: É bom relembrar o que temos vindo a perder, a falta de dignidade daquilo a que chamamos as nossas “elites” que nos têm levado a esquecer a razão de ser de Aljubarrota, temos agora na Europa um bom exemplo de dignidade, a Ucrânia que nos deveria fazer repensar e que muitos tratam de disfarçar… sinal dos tempos!!!

TOMAZZ MAN: Impecavelmente sintetizado.

ROSA RIBEIRO: É um orgulho, uma honra e uma responsabilidade imensa ser português! Temos séculos de História magnífica e épica! Tenhamos nas gerações futuras a continuidade e o deslumbramento de nos ultrapassarmos em Cultura, Justiça e Ciência para o bem da Humanidade!

TIM DO A > ALEXANDRE BARREIRA: Exactamente

sábado, 15 de agosto de 2026

RECORDAR É PRECISO

 

Reescrita de tempos idos, que se deseja para nunca mais.


"O 13 DE AGOSTO ABRIU-ME OS OLHOS. JÁ NÃO QUERIA PACTUAR COM AQUILO." O DIA EM QUE BERLIM ACORDOU COM UM MURO

HÁ 65 ANOS, A RDA CONSTRUÍA UMA BARREIRA PARA SEPARAR BERLIM NUMA SÓ NOITE. O OBSERVADOR FALOU COM QUEM CRESCEU AO LADO DO MURO, QUEM FUGIU E QUEM AJUDOU OUTROS A ESCAPAR.

CÁTIA BRUNO: Texto

OBSERVADOR15 ago. 2026, 19:04

ÍNDICE

“Sabem qual é a missão. Marchem”     A “ratoeira” das primeiras horas     A inacção do Ocidente: “Um muro é infinitamente melhor do que uma guerra”     As fugas pelas janelas e a ordem para matar     Um passaporte diplomático português, um esconderijo num tablier e túneis. Os alemães que ajudaram outros a fugir     A vigilância da Stasi, que prendia e torturava os que tentavam fugir     A queda da “parede mágica”     A infância de Detlef Jablonski podia ser um romance de Charles Dickens.

Nasceu em 1955 na prisão de Jerichow, na República Democrática Alemã (RDA), onde a sua mãe estava a cumprir pena. Aos dois meses, foi entregue aos cuidados da família da tia, onde os maus-tratos eram diários. “Eu era tratado como um criado. Fazia as compras, ia buscar carvão, cortava madeira, polia sapatos, fazia as limpezas”, conta ao Observador o alemão, agora com 71 anos. “Se não fizesse o que ela dizia, era açoitado.”

Durante esses tempos, a família recebia habitualmente a visita de uma mulher. O que Detlef não sabia ao início é que se tratava da sua mãe, que entretanto se tinha mudado para Berlim Ocidental, o lado da capital alemã que pertencia à República Federal Alemã (RFA).

Detlef Jablonski

A MÃE DE DETLEF NÃO ERA CASO ÚNICO. AO LONGO DAS PRIMEIRAS DÉCADAS DESDE QUE BERLIM FORA PARTIDA EM DUAS, FICANDO DIVIDIDA NUMA RDA COMUNISTA (SOB A ESFERA DE INFLUÊNCIA DA UNIÃO SOVIÉTICA) E NUMA RFA OCIDENTAL (SOB A ESFERA DE INFLUÊNCIA DE NORTE-AMERICANOS, BRITÂNICOS E FRANCESES), ERA COMUM MUITOS BERLINENSES TROCAREM BERLIM ORIENTAL PELA OCIDENTAL.

O fenómeno intensificava-se e a Alemanha de Leste ia sofrendo uma hemorragia de trabalhadores: entre 1949 e 1961, dois milhões e meio de pessoas atravessaram a linha de demarcação, 80% delas através da fronteira que dividia Berlim. Eram sobretudo trabalhadores qualificados: 7.500 médicos, 1.200 dentistas, centenas de milhares de trabalhadores técnicos, de acordo com os números da historiadora Katja Hoyer.

PROCURAVAM SOBRETUDO UMA VIDA MELHOR NO OCIDENTE CAPITALISTA. À altura, circulava uma anedota que ilustrava as dificuldades na RDA: “Sabiam que Adão e Eva eram na verdade alemães de Leste? Não tinham roupa, tiveram de partilhar uma maçã e faziam-nos acreditar que viviam no Paraíso.”

O contraste entre as duas Berlim não podia ser maior, como testemunhou Burkhart Veigel, que chegou a Berlim Ocidental vindo da Turíngia em abril de 1961 para estudar Medicina. “IA AO TEATRO EM BERLIM ORIENTAL DUAS OU TRÊS VEZES POR SEMANA. DURANTE AS MINHAS VISITAS, NUNCA CONHECI NINGUÉM NO LESTE — PARECIA-ME QUE ALI TODA A GENTE TINHA ‘FECHADO AS PERSIANAS’”, RECORDA AGORA AO OBSERVADOR O MÉDICO DE 88 ANOS. “O FACTO DE TUDO SER MAIS ESCURO DO QUE EM BERLIM OCIDENTAL E DE AS PESSOAS DESVIAREM TIMIDAMENTE O OLHAR QUANDO ME CRUZAVA COM ELAS ERA ESTRANHO. SENTIA-ME SEMPRE ALIVIADO QUANDO ENTRAVA NO S-BAHN DE VOLTA A BERLIM OCIDENTAL.”

DR Burkhart Veigel

QUATRO MESES DEPOIS, TUDO MUDARIA. O LÍDER DA RDA, WALTER ULBRICHT, CONCLUIU QUE A HEMORRAGIA DE HABITANTES NÃO PODIA CONTINUAR. A “OPERAÇÃO ROSA” FOI COLOCADA EM MARCHA, COM O BENEPLÁCITO DO LÍDER SOVIÉTICO, NIKITA KRUSCHEV. TUDO ACONTECERIA NA NOITE DE 13 PARA 14 DE AGOSTO DE 1961, O DIA QUE FICARIA MARCADO NA HISTÓRIA COM UM NOME: STACHELDRAHTSONNTAG, O “DOMINGO DO ARAME FARPADO”.

“Sabem qual é a missão. Marchem”

Apenas dois meses antes, Ulbricht tinha negado qualquer intenção de separar as duas Berlim. “Primeiro-secretário, a criação de uma Berlim neutral, na sua opinião, significa que vai haver uma fronteira no Portão de Brandemburgo?”, questionou uma correspondente de Berlim Ocidental na conferência de imprensa convocada pelo líder, para a qual foram convidados jornalistas da RFA — eram mais de 300 os presentes. “Ninguém tenciona construir um muro”, respondeu Ulbricht.

NÃO ERA VERDADE. À ALTURA, JÁ O PRIMEIRO-SECRETÁRIO ESTAVA ENVOLVIDO EM LONGAS CONVERSAS COM KRUSCHEV SOBRE COMO ESTANCAR A FUGA DE BERLINENSES DA RDA. E já tinha nomeado um homem para tratar dos preparativos: ERICH HONECKER, secretário de segurança do Partido que viria a substituir Ulbricht dali a menos de dez anos.

GettyImages-170985578 Nikita Kruschev e Walter Ulbricht Universal Images Group via Getty

Foi escolhida a noite de 13 para 14 de agosto porque domingo era dia do Kreuzberg Kinderfest, a feira anual para crianças da cidade. “Bandeiras e fitas decoravam a rua estreita, onde crianças de todos os sectores de Berlim riam, brincavam e pediam gelados e bolo aos pais. Das janelas dos apartamentos, adultos babados atiravam rebuçados às crianças no meio da rua”, recorda o jornalista Frederick Kempe no seu livro Berlin 1961: Kennedy, Khrushchev, and the Most Dangerous Place on Earth (sem edição em português).

“DE FORMA A PREVENIR AS ACTIVIDADES INIMIGAS DOS PODERES VINGATIVOS E MILITARISTAS DA ALEMANHA OCIDENTAL E DE BERLIM OCIDENTAL, SERÃO INTRODUZIDOS CONTROLOS NAS FRONTEIRAS DA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA ALEMÃ, INCLUINDO NA FRONTEIRA DO SECTOR OCIDENTAL DA GRANDE BERLIM.”

Documento de Erich Honecker com as ordens para os soldados

ÍNDICE      “SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM”      A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS      A INAÇÃO DO OCIDENTE: “UM MURO É INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA”      AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA MATAR      UM PASSAPORTE DIPLOMÁTICO PORTUGUÊS, UM ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS.       OS ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS A FUGIR      A VIGILÂNCIA DA STASI, QUE PRENDIA E TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR      A QUEDA DA “PAREDE MÁGICA”

O primeiro-secretário também fez uma noite de festa. No jardim da sede do Partido, reuniu os mais altos responsáveis políticos e militares da RDA para um buffet que incluía salmão fumado e caviar. Por volta das 22h, pediu aos convidados que se juntassem a ele para “uma pequena reunião”. Entregou-lhes envelopes com instruções escritas sobre a operação que iria transformar o rosto de Berlim, rematadas com “cumprimentos socialistas” por parte de Honecker. “Todos concordam?”, perguntou Ulbricht. NINGUÉM CONTESTOU A DECISÃO.

A ESSA HORA, OS MILITARES REUNIDOS NOS QUARTÉIS JÁ TINHAM TAMBÉM RECEBIDO ENVELOPES COM O MESMO CONTEÚDO E SIDO INFORMADOS DOS DETALHES DA SUA MISSÃO. “DE FORMA A PREVENIR AS ACTIVIDADES INIMIGAS DOS PODERES VINGATIVOS E MILITARISTAS DA ALEMANHA OCIDENTAL E DE BERLIM OCIDENTAL, SERÃO INTRODUZIDOS CONTROLOS NAS FRONTEIRAS DA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA ALEMÃ, INCLUINDO NA FRONTEIRA DO SECTOR OCIDENTAL DA GRANDE BERLIM”, PODIA LER-SE NO DOCUMENTO. À MEIA-NOITE, HONECKER DEU A ORDEM POR TELEFONE: “SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM.”

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ERICH HONECKER, QUE VIRIA A SER LÍDER DA RDA, FOI O RESPONSÁVEL PELA "OPERAÇÃO ROSA"

UNITED ARCHIVES VIA GETTY IMAGES

ÍNDICE

“SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM”      A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS      A INACÇÃO DO OCIDENTE: “UM MURO É INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA”      AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA MATAR      UM PASSAPORTE DIPLOMÁTICO PORTUGUÊS, UM ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS. OS ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS A FUGIR      A VIGILÂNCIA DA STASI, QUE PRENDIA E TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR      A QUEDA DA “PAREDE MÁGICA”

Uma hora depois, os candeeiros das ruas de Berlim eram desligados. Milhares de soldados e membros da guarda fronteiriça, da polícia antimotim, da STASI (polícia política) e das milícias populares do Estado atiraram-se ao trabalho de construir as barreiras de arame farpado — o regime tinha comprado 150 toneladas a fabricantes na Alemanha Ocidental e no Reino Unido ao longo das semanas anteriores, sem levantar suspeitas. AO MESMO TEMPO, O PROGRAMA “MELODIAS DA NOITE” DA RÁDIO ERA INTERROMPIDO PARA SE OUVIR UM AVISO, RECORDADO PELO DIE WELT: SERIA “INTRODUZIDO UM SISTEMA NA FRONTEIRA COM BERLIM

OCIDENTAL PARA BLOQUEAR DE FORMA SEGURA ATIVIDADES SUBVERSIVAS CONTRA OS PAÍSES DO BLOCO SOCIALISTA”.

CINCO HORAS DEPOIS, 193 RUAS, 68 PONTOS DE PASSAGEM E 12 ESTAÇÕES DE COMBOIO TINHAM SIDO FECHADOS. HONECKER RECEBEU A INFORMAÇÃO DE QUE A MISSÃO ESTAVA CONCLUÍDA E DECLAROU À SUA EQUIPA: “AGORA PODEMOS IR PARA CASA”.

A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS

OS PRIMEIROS A PERCEBER O QUE ESTAVA A ACONTECER FORAM OS JORNALISTAS.

Robert MacNeil, correspondente da norte-americana NBC, recebeu um telefonema de um colega em Nova Iorque a perguntar-lhe se sabia o que se passava na fronteira. Vestiu-se a correr e saiu porta fora. “OS ALEMÃES DE LESTE TINHAM PEQUENAS GRUAS COM AS QUAIS ESTAVAM A MOVER ENORMES VASOS DE CIMENTO E A COLOCÁ-LOS NAS ESTRADAS POR BAIXO DO PORTÃO DE BRANDEMBURGO. AO INÍCIO PARECIA UMA PIADA: ESTÃO A FECHÁ-LO COM FLORES”, contou anos depois à PBS. “MAS QUANDO SE OLHAVA PARA O LADO DIREITO, NA DIRECÇÃO DA POTSDAMER PLATZ, PODIA VER-SE QUE ESTAVAM A ERGUER UMA BARREIRA DE ARAME FARPADO DO LADO ESQUERDO DO PORTÃO.”

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Soldados erguem as primeiras barreiras

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ÍNDICE        SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM         A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS      A INACÇÃO DO OCIDENTE: “UM MURO É INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA”      AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA MATAR        UM PASSAPORTE DIPLOMÁTICO PORTUGUÊS, UM ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS.          OS ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS A FUGIR                A VIGILÂNCIA DA STASI, QUE PRENDIA E TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR                      A QUEDA DA “PAREDE MÁGICA”

Outro norte-americano, Robert H. Lochner (da rádio norte-americana da Alemanha Ocidental RIAS), conduziu por toda a cidade. Numa estação de comboios, viu uma mulher de idade perguntar a um guarda qual o próximo comboio para Berlim Ocidental. “ISSO ACABOU. VOCÊS ESTÃO NUMA RATOEIRA”, RESPONDEU O SOLDADO.

Enquanto amanhecia, os berlinenses começavam a assimilar o que se tinha passado na sua cidade durante a noite. A comunicação com os familiares do outro lado do Muro era impossível, porque as linhas telefónicas tinham sido cortadas. Nas ruas, as multidões acumulavam-se para espreitar para o outro lado da barreira; e, do lado de Berlim Ocidental, muitos outros se juntavam a acenar a amigos e familiares.

O estudante de Medicina Burkhart Veigel estava na Grécia quando tudo aconteceu. Quando as notícias lhe chegaram, teve medo de não conseguir regressar a Berlim Ocidental, mas tudo decorreu sem incidentes à chegada. A revolta, porém, começou a borbulhar dentro de si. “Aqueles idiotas estavam a vedar a fronteira. Não conseguia suportar aquilo”, desabafa, 65 anos depois. “Queria que toda a gente crescesse como eu cresci: podendo discutir tudo, sem tabus, com separação de poderes, imprensa livre, etc.”

“FUGI PARA BERLIM OCIDENTAL NA TERÇA-FEIRA, 15 DE AGOSTO, ATRAVESSANDO A INTERSECÇÃO DA FRIEDRICHSTRAßE COM A KOCHSTRAßE. ESTAVA VESTIDO COM ROUPAS DE VERÃO E NÃO TINHA NADA COMIGO APARTE A MINHA IDENTIFICAÇÃO, ESCONDIDA NAS CUECAS.”

Reinhard Spiller

ÍNDICE      “SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM      A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS      A INAÇÃO DO OCIDENTE: “UM MURO É INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA”      AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA MATAR      UM PASSAPORTE DIPLOMÁTICO PORTUGUÊS, UM ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS. OS ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS A FUGIR      A VIGILÂNCIA DA STASI, QUE PRENDIA E TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR      A QUEDA DA “PAREDE MÁGICA”

O mecânico de telecomunicações e morador em Berlim Oriental REINHARD SPILLER também não estava em Berlim quando tudo aconteceu, mas, quando chegou à fronteira vindo de uma viagem para acampar na costa do Mar Báltico, não encontrou uma recepção tão calorosa. “A POLÍCIA DITOU O QUE SERIA O MEU FUTURO: PRIMEIRO, UNS TEMPOS A AJUDAR COM AS COLHEITAS; DEPOIS, SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO; SÓ DEPOIS DISSO PODIA VOLTAR A TRABALHAR NA MINHA PROFISSÃO.” A atitude que encontrou, garante ao Observador, era clara: “AGORA ELES JÁ NÃO PODEM FUGIR.”

MAS O JOVEM REINHARD, DE 20 ANOS, ESTAVA DECIDIDO A FUGIR, ATÉ PORQUE HÁ MUITO QUE ERA ACOSSADO PELAS AUTORIDADES PELO SEU ENVOLVIMENTO NUM GRUPO DE JOVENS DE UMA IGREJA. PARA ALÉM DISSO, DESEJAVA ENTRAR NA UNIVERSIDADE PARA ESTUDAR ENGENHARIA E, DE IMEDIATO, PERCEBEU QUE NUNCA TERIA ESSA OPORTUNIDADE SE FICASSE NA RDA. “FUGI PARA BERLIM OCIDENTAL NA TERÇA-FEIRA, 15 DE AGOSTO, ATRAVESSANDO A INTERSECÇÃO DA FRIEDRICHSTRAßE COM A KOCHSTRAßE. ESTAVA VESTIDO COM ROUPAS DE VERÃO E NÃO TINHA NADA COMIGO APARTE A MINHA IDENTIFICAÇÃO, ESCONDIDA NAS CUECAS.” ATRAVESSOU SIMPLESMENTE A PÉ UMA DAS ÁREAS POR ONDE SE PODIA ATRAVESSAR. AO SEGUNDO DIA DE MURO, A MÁQUINA DE CONTROLO AINDA NÃO ESTAVA BEM OLEADA, COMO SE VÊ PELAS MAIS DE QUATRO MIL PESSOAS QUE FUGIRAM PARA OESTE NO PRIMEIRO DIA.

OUTROS NÃO TIVERAM A VIDA TÃO FACILITADA. HARTMUT RICHTER VIVIA COM OS PAIS EM BERLIM ORIENTAL, MAS ESTAVA NA RFA NA NOITE EM QUE O MURO FOI CONSTRUÍDO. OS PAIS TRABALHAVAM NA APANHA DE FRUTA TODOS OS VERÕES E ERA HABITUAL O ADOLESCENTE IR PASSAR ESSES DIAS COM A FAMÍLIA DO PAI, QUE VIVIA EM BERLIM OCIDENTAL. “ESTAVA LÁ QUANDO FECHARAM A FRONTEIRA. O 13 DE AGOSTO ABRIU-ME OS OLHOS. JÁ NÃO QUERIA PACTUAR COM AQUILO”, SENTENCIA.

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Hartmut Richter junto ao que resta do Muro de Berli

AFP via Getty Images

ÍNDICE      “SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM”      A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS      A INAÇÃO DO OCIDENTE: “UM MURO É INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA”      AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA MATAR      UM PASSAPORTE DIPLOMÁTICO PORTUGUÊS, UM ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS. OS ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS A FUGIR      A VIGILÂNCIA DA STASI, QUE PRENDIA E TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR      A QUEDA DA “PAREDE MÁGICA”

Ao Observador, não relata os pormenores da sua fuga difícil, que aconteceria cinco anos mais tarde. MAS A HISTÓRIA JÁ FOI CONTADA PELO LE MONDE. NA NOITE DE 26 DE AGOSTO DE 1966, HARTMUT ATRAVESSOU A NADO O CANAL DE TELTOW, COM UM SACO DE PLÁSTICO AO PESCOÇO COM OS SEUS DOCUMENTOS. ESTEVE QUATRO HORAS DENTRO DE ÁGUA. AGORA, AOS 78 ANOS, FALA DE FORMA LACÓNICA SOBRE ESSES DIAS: “FIQUEI MUITO TRISTE POR DEIXAR PARA TRÁS AQUELES QUE ME ERAM MAIS QUERIDOS. DURANTE ANOS, A ÚNICA COISA QUE PODIA FAZER ERA ESCREVER CARTAS — QUE, É CLARO, TAMBÉM ERAM LIDAS PELA STASI.”

(CONTINUA)