Que nos parece bem ponderado e justo, este de Helena Garrido, sobre a manipulação actual das
políticas de Trump, numa América que sempre significou
poderio apetecível e amigável, antes de Trump, pensamento que Trump
vaidosamente amesquinhou…
A América, afinal, era um mito?
Durante décadas parte de
nós olhou para os Estados Unidos como uma referência na regulação da vida
política e económica. Terá sido uma ilusão?
HELENA GARRIDO Colunista
OBSERVADOR, 19 mai. 2026,
00:25
A 2 de Abril de 2025 o
presidente dos Estados Unidos anunciou aquilo que designou como “Liberation Day”, com uma lista
de tarifas sobre praticamente todos os países do mundo.
Os mercados
bolsistas afundaram, como seria de prever. A 9 de Abril,
logo pela manhã, Trump escreve na sua rede Truth Social, em maiúsculas, que
esta é uma altura óptima para comprar. E cerca de quatro horas depois anuncia a
pausa nas tarifas, com excepção para a China, provocando valorizações bolsistas
históricas. Com apostas prévias à comunicação de que o mercado iria subir,
apesar de ter estado em queda nos últimos dias.
Este é um de muitos casos em
que se suspeita do uso de informação privilegiada nas decisões de investimento
bolsista e um dos que está mais documentado. Há cartas de senadores democratas
a pedirem informações e uma investigação à entidade de supervisão dos mercados
a Securities and Exchange Commission (SEC), sem sucesso.
A BBC fez recentemente um
levantamento de vários casos, com os mais recentes a incidirem no mercado do petróleo, na
sequência da guerra com o Irão. Um deles é de 9 de Março de 2026. Cerca
de 47 minutos antes de se saber que Trump tinha dito, à CBS News, que a guerra
com o Irão estava praticamente concluída, assiste-se a uma subida acentuada de
apostas de que o preço do petróleo iria cair, como caiu.
Esta semana ficámos
igualmente a saber que Donald Trump fez transações bolsistas de centenas de
milhões de euros com algumas das maiores empresas norte-americanas, entre elas
a Tesla, Nvidia,
Apple, Meta ou Boeing. A notícia é dada pelo Financial Times na
sequência da divulgação obrigatória desses dados. Boa parte dos presidentes
dessas empresas acompanharam o presidente dos Estados Unidos na visita à China.
O argumento oficial é que os investimentos do Presidente são realizados por uma
empresa independente.
Juntemos a isso o avião
que Donald Trump aceitou do Qatar ou ainda o que tentou fazer ao presidente da
Reserva Federal Cerome Powell, com a ameaça de o processar, e temos um quadro que não
reconhecemos como sendo a América à qual estávamos habituados.
Para não falar,
obviamente, de tudo aquilo a que temos assistido nas relações da administração
Trump com a Europa. E que passou inclusivamente pela ameaça de anexação da
Groenlândia.
O que causa a maior das perplexidades neste resumo de
acontecimentos é que a América como a conhecíamos deixou de ser capaz de
garantir que as regras se cumprem. Quem estudou por
livros de economia de professores norte-americanos, e seguiu as últimas décadas
da vida económica e financeira do outro lado do Atlântico, via um país em que
as instituições políticas e económicas conseguiam garantir o respeito pelas regras
concorrenciais de mercado, gerir com a regulação as falhas de mercado e eram
implacáveis com quem violava as normas. A terra das oportunidades tinha
regras.
É verdade que começaram
a existir sinais de alguma diluição dessa ideia da América com a crise
financeira de 2008. Mas, talvez ingenuamente, parecia que
a própria América estava a encontrar um antídoto para salvar o capitalismo de
si próprio através dos princípios ESG – Ambientais, Sociais e de Governação –
aplicados à gestão. Por esta via tenta-se, ou tem-se
tentado, que as empresas sejam menos extractivas e mais equitativas.
Mas muitas empresas aproveitaram a desvalorização, que a administração Trump
fez destes objectivos, para se afastarem deles, sem perceberem que precisam de
ser salvas da sua ganância.
Todos estes casos só são possíveis pelo aparente
colapso dos pesos e contra-pesos que tanto apreciávamos na Democracia na
América. Nos
exemplos concretos sobre os mercados bolsistas e do petróleo, a
ausência de acção dos reguladores reflecte a fragilização da SEC e de várias
outras instituições que são supostas avançar para investigações em casos de
suspeitas de corrupção. O famoso DOGE (Department of
Government Efficiency) dirigido por Elon Musk teve um importante papel nesta
fragilização das instituições.
O que se está a passar desafia-nos a pensar no que se está a
passar com a América. Porque nada pode acontecer numa democracia
sem que o povo deixe que isso aconteça. E o povo, dos mais modestos às elites,
está a permitir, nem que seja por omissão, que tudo isto aconteça. Vimos
como foi fácil controlar, por exemplo, a academia, universidades de referência
em todo o mundo. Diríamos certamente que estaria louco aquele que, num
exercício de previsão, nos dissesse que alguns destes acontecimentos iriam
ocorrer nos Estados Unidos sem nenhuma reacção. Mas é isso que está a acontecer.
A América como a conhecemos
não foi uma ilusão. Mas o que se está a passar mostra bem como as
instituições democráticas podem ser frágeis e como, quando elas deixam de
funcionar, todos acabam amedrontados e a pensar mais no seu ganha-pão dos que
nos seus valores. Há uma degradação moral generalizada, seja por acção ou
omissão, e
o desesperante é que não podemos ter a arrogância de culpar quem se protege.
No fim de tudo estão os
sinais, que a História já nos mostrou noutros casos, que apontam para um tempo
de decadência.
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA
MUNDO
COMENTÁRIOS (de 66)
Luis Oliveira: Nenhum destes cronistas-jornalistas
portugueses viveu na América, mas todos eles asseguram que sabem mais da
América que os próprios americanos ! E mais: juram saber o que é melhor para os
americanos.
José Tomás > JAP: Portugal já vai em
mais de 880 anos e os nossos "valores morais, éticos e humanos" deram
maiorias absolutas ao José Sócrates e ao António Costa.
GateKeeper: A ignorância voluntária é um mal menor. As dicas purulentas e o maldizer substantivo
são piores do que a ignorância. A inveja da velha é decrépita Europa perante
uns USofA juvenis, com pouco mais do que 225 anos de História, é uma triste
lenga-lenga feita de amarga e virulenta inveja.
victor guerra: O avião do Catar foi
oferta, para substituição Air Force One, não é do Trump. Mais rigor e menos
excitação esquerdista. Se não gosta, come menos.
João Floriano > JAP: Veja o estado em que está a
Europa com nacionalidades tão antigas como
a nossa.
António Soares: Já a velha Europa é uma
realidade a galope com pressa de se submeter ao islamismo!
Hugo Silva > JAP: Mais um comuna....
O Expresso e Público esperam por ti
José Paulo Castro: Ou seja, mais um
manual de tácticas para derrotar Trump na secretaria, continuando sem entender
a razão de as alternativas terem sido rejeitadas nas urnas, quer em primárias,
quer em eleições nacionais. Pois eu acho que essa América que quer mandar
nos bastidores, nos pequenos golpes institucionais e no condicionamento dos
partidos, essa América é que é um mito. Você diz que era a das regras? Ok...
veja de novo a realidade.
José Paulo Castro > Ruço Cascais: Se você acha que um
republicano não-MAGA tem hipóteses de substituir Trump, então não está a ver
bem a coisa. E
se acha que um democrata consegue chegar a presidente depois de alienar a
matilha woke, também não está a ver bem a coisa. Ou seja, as suas
esperanças estão colocadas em duas não-exequibilidades.
João Floriano: A quem não reparou ou passou despercebida,
sugiro a leitura da crónica de Pedro Caetano de 17 de maio: «Lucrar em vez de
delirar contra os EUA». É inegável que Trump vê tudo através da lente do
«business» e isso não é bom. Uma potência que aspira a ser a maior do mundo,
tem de ter uma perspectiva muito mais abrangente de valores e ética, sobretudo
quando do outro lado estão os chineses.
Ruço Cascais: Até TU Helena Garrido
confundes Trump com os Estados Unidos. Trump é o resultado de uma circunstância
política, assim como o nosso José Seguro. Trump não representa o sentimento
maioritário dos americanos muito menos as suas instituições. Trump é um velho
jarreta com os pés para a cova que nesta recente visita à China evidenciou a
imagem de um homem cansado, derrotado e envelhecido. A imagem de Trump mexe com os americanos assim
como mexeu com os portugueses a hiperatividade de Marcelo que já ninguém podia
ver à frente. Ver um homem derrotado ao lado de Xi deixa os americanos
desiludidos. Quem vier depois de Trump, quem substituir Trump - e isso é
garantido - será uma pessoa diferente com ideias diferentes e que vai
transmitir uma imagem diferente dos Estados Unidos na política interna e
externa. Se for um democrata tem que deixar o wokismo na arrecadação para
evitar que apareçam mais Trumps. Se for um republicano fora do movimento MAGA
tem que reconstruir as relações com os democratas, reforçar a importância das
instituições políticas e reconstruir as relações diplomáticas com os aliados
históricos dos Estados Unidos. Os
Estados Unidos que já foram à Lua, que inventaram este novo mundo digital, que
querem construir uma base lunar e que querem chegar a Marte, não acha que vão
conseguir livrar-se de Trump e dos trumpistas? Claro que vão. Se não for este ano, vai ser
dentro de dois anos nas eleições para a presidência. Há tempo suficiente para
aparecerem bons candidatos, quiçá um novo JFK.
m s: A América não era e não é um mito,
independentemente de quem a governe, é mesmo real. E tanto assim é, que o mundo
e todo um viveiro de cronistas e comentadores giram à sua volta como as abelhas
em busca de mel.
Por8175: A ignorância e a incompetência
desta sujeita são sintomas claros de TDS aguda! Devia tratar-se com umas
visitas ao Serviços Nacional de Saúde. Tinham a vantagem de não lhe deixar
tempo para escrever...
Francisco Almeida: Experimentei fazer um
exercício simples: aplicar a Portugal os defeitos que Helena Garrido aponta aos
EUA de Trump. Foi esclarecedor. Só senti alguma dificuldade em encontrar
paralelos com informação privilegiada porque Portugal tem um mercado bolsista anémico.
Mas logo me lembrei do "flop" do NAL na Ota, com elementos da família
Soares a aí comprarem terrenos. Parece que se pode concluir que Trump, é mais
hábil mas a equivalência ética é sólida.
victor guerra > Manuel Gonçalves: Nada
como um "carneiro de ouro"
João Diogo: Uma crónica ao nível da
cronista, um autêntico zero, a Europa sim é uma potência de bluffs sucessivos.
klaus muller > m s: ... e adorariam lá
viver.
Paulo Salvador: um caso grave de TDS.
Ricardo: Corrupção aberta. O grande trunfo de Trump ao
longo da vida foi este: não tem vergonha nenhuma. Desde a cripto moeda $TRUMP
até à manipulação bolsista, não há limites, especialmente neste segundo
mandato. Ele acha que os seus apoiantes não se incomodam e que ao Chefe
permitem tudo. Até agora, parece ser o caso, mas a corda, tanto estica, que um
dia…
Helena L: Retive esta frase: "Vimos como foi
fácil controlar, por exemplo, a academia, universidades de referência em todo o
mundo." Deve
referir-se aos Democratas woke. Esta cronista tanto dá no cravo como na
ferradura, mas mais no cravo.
Isabel Gomes: American dream é real.