terça-feira, 19 de maio de 2026

Generosidades

 

Da ordem do dia, com implícitas rejeições da mesma ordem.

A esquerda, o eco populismo e a habitual sopa de letras

Do “capitalismo fóssil” ao heteropatriarcado, das opressões LGBTIQA+ ao inevitável ódio a Israel, a amalgamação de temas e de bandeiras alimenta a Greta e a Climáximo e já contamina todas as esquerdas

JOSÉ MANUEL FERNANDES Publisher e colunista do Observador

OBSERVADOR, 18 mai. 2026, 00:25

O tempo passa, as gerações também, mas há doenças políticas que nunca conseguimos extirpar. Pelo contrário: num tempo de comunicação instantânea e fácil comunicação horizontal, a amalgamação é uma das receitas de sucesso dos mais diferentes populismos. Damos muita atenção ao que  é feito para as bandas do Chega (um dos mais recentes posts de Ventura no Facebook é um bom exemplo deste jogo de amalgamações e indignações: “Porque é que o Centeno e Manuel Pinho têm direito a reformas antecipadas e milionárias e a maioria dos portugueses tem de se matar a trabalhar quase até aos 70 anos?”), muito menos atenção ao que ouvimos vindos de outras bandas. Felizmente esta semana a Climáximo, com a sua habitual histrionia, veio não só recordar-nos os limites do absurdo, como confrontar-nos com aquele que é cada vez mais o discurso monotemático de boa parte das esquerdas.

Na religião apocalíptica praticada por estes devotos da Igreja Universal da Climatologia, como muito certeiramente em tempos lhe chamou Paulo Tunhas, é muito fácil explicar o mundo: “O capitalismo fóssil oferece-nos um futuro de escassez, desigualdade, militarização e colapso climático acelerado” escrevia-se esta semana a propósito da tempestade Kristin, que como se sabe só aconteceu porque vivemos “subordinados à sede de lucro vampírica das grandes empresas.”

Na linha destes raciocínios, estes radicais passaram a semana a cortar ruas (no Areeiro, em Lisboa), a vandalizar a fachada de uma empresa, a roubarem supermercados ou a organizarem manifestações pindéricas (mas abusivas). Os objectivos vão variando conforme o cenário, mas o inimigo nunca muda, pois “vivemos na derradeira guerra da Humanidade” já que “assistimos à escalada das agressões imperialistas para poder extrair, controlar e produzir mais combustíveis fósseis, acelerando a humanidade em direcção ao colapso climático e social”, isto sem esquecera militarização das fronteiras europeias que fazem das pessoas migrantes alvos de ataque” e, claro, o país que encarna todos os males, Israel, a “bota na Ásia ocidental” do “chamado ‘mundo livre’”. Isto enquanto ora se falado imperialismo e de políticas bélicas, genocidas e fascistas”, ora se defende que “ninguém devia ter que pagar para comer enquanto os ricos lucram como nunca”…

COMENTÁRIOS:

Miguel Seabra; As pessoas que se levantam de manhã para trabalhar ou estudar, para sustentar a familia e tentar melhorar a sua vida e dos seus com esforço, não gostam desta canalh@. E gostam ainda menos quando percebem que parte do dinheiro que lhes é sacado nos impostos, serve para alimentar estes inúteis. E gostam ainda menos quando têm que levar com eles a toda a hora nas TVs, nos jornais ou no meio da rua a bloquear o trânsito. Mas há quem goste, nomeadamente a grande maioria dos media falidos, frustrados e/ou corruptos.

Manuel Lourenço: Portugal tem produzido uns sacerdotes para a Igreja Universal da Climatologia, o inevitável Sumo Sacerdote Guterres, cuja Bula é (usar o sotaque dele) “the world is boiling”, a Mortágua (uma delas) que foi missionária na flotilha, e a Mónica Moreira cuja área de missão é os pobres gays, mas sobretudo nesta fase as vítimas que nasceram com o corpo errado e que têm direito a ficar com o corpo certo. O próprio Observador, sobretudo entre os jovens jornalistas também pratica de forma diligente os ensinamentos dessa igreja, sendo que a Lusa que nos indica que cada mês que passou foi o mais quente de que há registo, lembra-nos que nos devemos arrepender e sermos como os estudantes da Antonio Arroio para irmos para o paraíso do clima perfeito.

Miguel Macedo: A direita tradicional e moderada como diz o cronista é socialista e muitas vezes woke! e até agora foram responsáveis pela decadência e miséria a que chegamos no mundo ocidental! Uma pena!

Ricardo Ribeiro: Excelente texto apesar de enésimo sobre o tema do actual fanatismo e extremismo esquerdoido. Mas, notei, que ficou uma questão por responder...o "porquê de Centeno e Manuel Pinho terem direito a reformas antecipadas e milionárias enquanto a maioria dos portugueses tem de se matar a trabalhar até quase aos 70?"...

Maria Tubucci: Muito bem observado, Sr. JMF. A esquerda sempre a trabalhar na propagação: do mal, da inveja e da ignorância. E cujas causas conduzem sempre às mesmas consequências: destruição da sociedade, destruição da economia e destruição dos seres humanos. Esta malignidade se for deixada crescer à rédea solta contaminará tudo à sua volta. É muito importante abrir os olhos a quem os tem fechados ou anda a dormir demais ou quiçá não quer enxergar o mundo que o rodeia…

Fernando ce: Faz-me lembrar o MRPP , e outras agremiações de  extrema esquerda após o 25 de abril , e o esquerdismo do MFA, nada representativos em termos eleitorais - e logo nas primeiras eleições democráticas, e com o PCP e MDP-CDE , e se viu serem minoritários na sociedade portuguesa. Contribuíram fortemente para o pedido de demissão de Adelino da Palma Carlos, quando constatou que era impossível na altura gerir este manicómio em autogestão chamado Portugal. Depois, foi o que se viu e se sabe. Era o tempo da música “uma gaivota voava, voava...” que desembocou mais tarde na do “Força, força camarada Vasco, nós seremos a muralha de aço…”.

Maria Nunes: É irónico que  a Climáximo tenha decidido roubar o Continente, cujos donos são tão amigos das esquerdas (Veja-se como subsidiam o jornal Público).

Ruço Cascais: Ao preço a que estão os alimentos, assaltar um supermercado é o mesmo que assaltar um banco. Os tipos da Climáximo assaltaram o supermercado sem reacção das autoridades. O grupo Sonae vai por sua conta procurar criminalizar a acção dos radicais do clima. Ou seja, os supermercados estão por sua conta no que respeita a serem assaltados. E se a climáximo nos entrar pela casa adentro?

A polícia deve garantir a segurança da sociedade. Certamente que a Sonae fez queixa na esquadra da polícia, mas a polícia nada fez no sentido de prender os meliantes e levá-los a tribunal no dia seguinte. Se por acaso os assaltantes tivessem fugido de carro e passado um risco contínuo ou um sinal vermelho, aí sim, estavam lixados.

A situação é perigosa porque revela impunidade para quem assaltar um supermercado, isto, se o supermercado não colocar a pessoa em tribunal. Todavia, o tempo que os tribunais levam a ajuizar, é muito provável que todos desistam a meio do processo.

Depois de roubarem o supermercado, as acções da Climáximo devem ter agora como objectivo assaltar lojas de roupa nos centros comerciais. Uma dúzia de climáximos podem facilmente despejar toda a roupa de uma loja da Massimo Dutti e sair sem que ninguém os trave. Os seguranças não podem fazer nada e polícia não tem nada a ver com o assunto.

Se os Climáximos se juntarem aos Okupas teremos uma revolução pior da que aquela que houve com as nacionalizações na altura do PREC.

Dentro de uns anos, os Climáximos e os Okupas serão a base do Conselho da Revolução na AR e estarão presentes nas comemorações do 25 de Abril de cravo ao peito.

José Manuel Pereira: Que saudade deixou o Professor Paulo Tunhas... a invocação do nome trouxe-me temas brilhantemente tratados por ele

Pedro Vouga: Tanto conteúdo de excelência num texto tão curto. O meu muito obrigado.

Jorge Tavares: A ideia de que o capitalismo é mau para o ambiente é falsa. A União Soviética rejeitou o capitalismo e era muito mais poluída que qualquer das democracias ocidentais. A capitalista Alemanha Federal era muito menos poluída que a comunista Alemanha Democrática. Se o capitalismo é mau para o ambiente, como é que os países mais capitalistas ocupam os primeiros lugares do Environmental Performance Index?

Alberico Lopes > Ruço Cascais: Espero que o fala barato do Luís Neves faça alguma coisita que se veja.  Vamos ter fé.

Eduardo Santos: Só uma pequena correcção.....não existe esquerda moderada.....pois, por definição, a esquerda sempre quer destruir tudo para construir o novo homem....vide os exemplos dados... o primeiro-ministro espanhole e o PS nada tem de moderados.....sempre "seguem" as ideias dos partidos "radicais" de esquerda com satisfação.....mas depois se dizem moderados....rsrsrsrs

André Correia: A propósito deste tema vale muito a pena ouvir a história pessoal da Lucy Biggers no Podcast Triggernometry. Uma ex activista climática radical que abriu os olhos a tempo...

Alberico Lopes > Miguel Macedo: Numa palavra: uns eunucos e capados

Américo Silva: As mulheres vivem oprimidas, como os negros, os obesos, os anões, os LGBT, os handicapados e os ciclistas: se acaso encontrares uma ciclista obesa, lésbica, anã, negra e handicapada, perante ela te deves sentir o mais culpado possível, e a ela dirigirás as tuas reparações e compensações,

Pedro D.: A Climáximo, um grupo de fedelhos controlado por graúdos (uma espécie de MRPP dos tempos modernos), actua na fronteira do crime organizado, razão pela qual deviam ser ilegalizados e os respectivos dirigentes colocados atrás das grades. Mas o outro grande problema destes grupos é contribuírem para exacerbar a radicalização do outro lado do espectro político, com isso acentuando a bipolarização que hoje fratura as sociedades modernas. E que é bem visível nos média, onde jornalismo se vê cada vez mais substituído por activismo! E onde verdadeiros panfletos de propaganda política e ideológica são vendidos aos leitores como artigos de opinião! É a terceira lei de Newton a funcionar, aplicada ao campo da política! E a pergunta que se impõe é: onde é que isto vai parar?

Tristão: As democracias ocidentais parecem caminhar  para uma lógica de maior polarização, mais emocional, mais identitária e menos moderada. Não sei se chegaremos ao ponto de ver, daqui a dez ou quinze anos, um sistema dominado por um Chega de um lado e uma esquerda mais radicalizada do outro, com partidos de centro reduzidos a forças médias - Poiares Maduro disse a semana passada que o PS ou o PSD podem desaparecer, ou ambos. Pela primeira isto vez já não parece uma hipótese absurda. Que mundo teremos com antagonistas completamente extremados? Não vai dar bom resultado…

Alberico Lopes Tristão: Aliás a tal esquerda unida já tem um capo: é o maçon agora P R e o prnteadonho de Baião mais o brilhante dias a tal sumidade que nos fará a todos felizes

Manuel Magalhaes: A esquerda radical ou extrema-esquerda já não sabe o que há de inventar, tudo lhe serve desde que haja protesto e o actual PS perdeu completamente o norte que em tempos remotos já teve e agora pela mão do inseguro Carneiro decidiu tentar ser um Pedro Nuno Santos que foi o “habilidoso” que quase destruiu o Partido, o que daí não vem mal ao mundo, antes pelo contrário…

Ruço Cascais > Alberico Lopes: Humm... não sei não. : Nesta sopa de letras onde cabe tudo e é indiferente a ordem das palavras, aquilo que está sempre presente são os ódios eternos das esquerdas radicais, seja qual for a vestimenta mais ou menos modernaça que apresentem. Por isso mesmo Paulo Tunhas, no indispensável texto que já referi – “Introdução ao ecopopulismo” – chamava a atenção para o discurso da icónica suma sacerdotisa da agremiação, a inevitável Greta Thunberg, que já na altura (2019) escrevia que a “crise climática” fora “criada e alimentada” pelos “sistemas de opressão coloniais, racistas e patriarcais”, pelo que “temos de os demolir todos”. Naturalmente que, nesta linha, o passo seguinte foram as flotilhas de Gaza, o que de resto faz jus à tradição do anticapitalismo radical.

(Foi recentemente publicado um livro importante sobre estas ligações, The Revolutionists, de Jason Burke, que reconstitui as ligações entre os radicais europeus que derivaram para o terrorismo na década de 1970 e os terroristas palestinianos de então, sendo que tanto nessa altura como agora havia muito pouca noção de como essa aliança era contraditória: hoje são os militantes LGBTIQA+ que desfilam ao lado de mulheres de burka, na época eram radicais alemãs que achavam apropriado ir para acampamentos palestinianos fazer topless…)

E se amalgamação é uma regra de todos os populismos, no ecopopulismo ela supera todos os limites, como é bem visível no caso de Zack Polanski e do seu Green Party no Reino Unido, como escreveu recentemente aqui no Observador Patrícia Fernandes, recordando a forma como ele apresenta o mundo, e cito-o: “seja na luta contra os magnatas dos combustíveis fósseis ou contra o ódio anti-LGBTIQA+, são os mesmos sistemas de violência e exploração que temos de combater.”

O raciocínio é pois sempre o mesmo: o mundo pode ser descrito como fruto de sistemas de opressão, e como já não faz sentido gritar, como Marx e Engels em 1848, “Proletários de todos os países, uni-vos!”, então gritemos “Oprimidos de todos os países, uni-vos!” Isto partindo do princípio de que tudo são sistemas de opressão, já não apenas o capitalismo (ou o seu estádio supremo, o imperialismo, para seguir a máxima de Lenine), mas também o heteropatriarcado, ou os sistemas coloniais, ou o homem branco, ou os combustíveis fósseis, isto naturalmente sem esquecer a encarnação suprema de todos os males, os Estados Unidos e, ainda mais do que o Estados Unidos, “o Estado genocida sionista chamado Israel”.

E não se pense que se trata de uma moda passageira ou de um mal marginal. Em Portugal os radicais da Climáximo podem ser apenas uma mão cheia de estudantes do Camões ou da António Arroio, mas no Reino Unido o Green Party emergiu como o mais recente fenómeno político, ganhando rapidamente peso eleitoral (sobretudo entre o eleitorado feminino mais jovem) e ameaçando engolir boa parte da base eleitoral dos trabalhistas. Mais: as roupagens “verdes”, ou “climáticas”, são apenas a novas roupagens de um radicalismo que, sobretudo depois da queda do Muro de Berlim, têm procurado desesperadamente novas causas e saltitado de tema em tema conforme as modas do momento. Já tivemos os antiglobalistas da década de 1990 e do Fórum de Porto Alegre, já tivemos o Occupy Wall Street”, já tivemos o #MeToo e o feminismo anticapitalista, já tivemos os excessos do wokismo, temos agora essa espécie de denominador comum que serve para tudo ao misturar “apocalipse climático” e causa palestiniana. Falta apenas saber o que virá a seguir.

 

Num tempo em que a direita tradicional e moderada está ameaçada pela subida eleitoral dos populismos identitários, esta amalgamação ecopopulista constitui porventura um desafio ainda maior para as esquerdas moderadas que, até por falta de outras causas, começam a deixar que o seu discurso também seja contaminado pelo mesmo tipo de radicalismos antiocidentais. Às vezes por puro oportunismo (onde o primeiro-ministro espanhol é campeão), outras por real convicção ou falta de outros horizontes, como é já notório em sectores do nosso Partido Socialista. Depois não se queixem.

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