JAIME NOGUEIRA PINTO. Que se
respeita, como respeita os cidadãos “respeitáveis” da sua Pátria – os que a
amam, afinal – que tem coragem para repor verdades, há muito ocultas – ou esbatidas
- dos manuais pedagógicos. JNP prova que homens de coragem sempre os houve,
apesar de tudo, neste país pequeno, que uma curiosidade grande levou por
esse mundo de além-mar …
O 28 de
Maio de há um século
Indiferentes
à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas
trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da
Revolução de Maio.
JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador
OBSERVADOR, 28 mai. 2026, 00:25
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sem rumo
Há cem anos, deu-se em Portugal um movimento militar
por iniciativa de jovens oficiais – capitães e tenentes da guarnição militar de Braga –
a que a presença e a voz do general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade
institucional. Gomes da Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e
civis de que faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de
Carvalho e os civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o
Cadillac.
Braga era a sede da 8ª Divisão do
Exército,
cujos quadros médios estavam mobilizados para iniciar a revolução.
O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada “revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e
21 de Abril de 1925, uma conjura falhada em que tinham participado os
generais Gomes
da Costa, ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de
Cordes, ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar
de o verdadeiro mentor e alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.
A
República jacobina
Com um record de
governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República
caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos
militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não
escapou ao monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano Português, a
facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”.
Costa e os seus
copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que tinham encarnado
a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens da Igreja,
expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para apresentar a
Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do Progresso e
da Liberdade.
Afonso Costa e os principais dirigentes “democráticos”
perseguiram
a Igreja e os monárquicos, reprimindo, prendendo e exilando centenas de
“inimigos do povo” e fixando-lhes arbitrariamente residência nas colónias.
Os jesuítas,
como era da praxe, serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do
país. Bispos e até o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram
forçados ao exílio.
Mas a repressão não se ficou pelos conservadores, os
da direita. À esquerda, o movimento sindical e os “avançados”
também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro pela GNR, os dirigentes
enviados administrativamente para o degredo. De certa forma, Afonso Costa e os “democráticos”,
apesar do seu posicionamento bem à esquerda, procuraram aparecer como um
“centrão” entre extremos, não se inibindo, para tal fim, de usar meios
extremistas.
Por isso, além de combaterem as incursões monárquicas de
Julho de 1911 e de Julho de 1912, enfrentaram a efémera “ditadura” de
Pimenta
de Castro, de Janeiro a Maio de 1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o “presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi
assassinado, confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas superiores de luta
em caso de necessidade.
A seguir ao sidonismo veio a monarquia do Norte,
contra a qual se reuniram “democráticos” e “avançados” pela última vez. Em
Outubro de 1921,
depois da queda do governo de António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921); a noite
em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em revolta
assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos “democráticos”, entre
eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado Santos.
O
Zeitgeist europeu
Dera-se, entretanto, a revolução soviética
e, por toda a Europa, o medo do comunismo trouxe uma série de movimentos
iliberais de contenção
do radicalismo violento da esquerda. A maioria destes movimentos,
quer na Europa Oriental, quer em Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de
1922 como expressão de uma “direita revolucionária”, corporativa,
intervencionista e monopartidária. A maioria dos movimentos
autoritários, embora partilhando com os fascistas o nacionalismo, o
anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base militares, como Primo de Rivera em Espanha,
o almirante Horthy na
Hungria e o
general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio
de 1926, dias antes do 28 de Maio.
Em Portugal também foi assim: o 28 de
Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu
manifesto à Nação. Era a classe política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara
por Paris depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de
Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária,
organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo
anti-monárquico.
A
tripartição fatal
Os anos finais da República tinham sido de contínua
agitação (mais de 150 greves, mais de 300 bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta
– a oposição
conservadora católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos
“democráticos” e a nascente esquerda radical, os “avançados”,
“vermelhos” ou “comunistas”. O partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921,
dois anos depois da criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em
França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência
socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve PACHECO
PEREIRA, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários
públicos, alfaiates e ferroviários”.
Mas o PCP era então, e iria ser até ao fim da URSS, um
partido obediente a Moscovo e ao internacionalismo proletário.
Assim, as notícias do progressivo centralismo soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika”
Estaline,
Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”, os
“burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no movimento
operário português em relação aos comunistas.
De qualquer modo, as massas trabalhadoras vão ser
indiferentes à agonia da República Democrática, o fim de um regime que piorara a
situação económica do país, não alargara, antes restringira, o sufrágio e
mantivera o analfabetismo nos 70%. Por isso, vão tolerar
ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não houve qualquer sabotagem
dos ferroviários aos comboios que transportaram os cerca de 15.000 homens das
divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da vitória de Gomes da Costa, do
Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro de 1926.
O
partido (militar) do Estado Novo
É neste acampamento de
Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de tenentes e
capitães que, numa
antecipação do Movimento das Forças Armadas de 1974, dominaram a primeira fase da ditadura
militar. E que vão
purgando os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democrático”,
herói do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de
Julho, com a família. Vão ficar Carmona – oficial
diplomata, prudente, mais de salão do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence
grise que, apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema
central do governo: a crise financeira.
Como em todos os
governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições
parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política.
Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo
e o perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros
anos vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em
estado de excepção.
Aqui a diferença foi o tecnocrata das Finanças, que
além das “competências técnicas” requeridas, tinha pensamento e
valores políticos e estava disposto a aplicar-se, com inteligência,
vontade e realismo, na estabilização e reforma do país. E fê-lo num contrato implícito com o
Exército, que seria o poder constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado de
ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos,
institui a censura prévia e mantém uma polícia política.
A esquerda unida e o centrão querem hoje
convencer-nos, em estudos orientados e filmes encomendados e subsidiados, que o
Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda
industrialização e a modernização, ou não aconteceram ou foram
conquistas de Abril. Que Salazar manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu
drasticamente o analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em
Portugal, havia mais gente que sabia ler e escrever do que analfabetos),
apesar de serem
factos inegáveis, tendem a chumbar nos actuais polígrafos.
Nos anos 50 – não porque fosse, como
os primeiros republicanos, um “africanista” ou um “colonial” –, Salazar não seguiu a vaga
descolonizadora europeia. Entendia que o império ultramarino era essencial para
independência e para importância política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se
viesse a sublevar – primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que
Salazar foi capaz de desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa
revolta de capitães, em Abril de 1974.
Salazar criara um regime à sua medida, que funcionava,
essencialmente, com ele e só com ele, com a sua inteligência e, sobretudo, com
a sua vontade e decisão. Um regime que não sobreviveria nem a um tempo em que já se
esvaíra a memória da “balbúrdia sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à
ditadura militar e depois ao Estado Novo, nem ao seu sucessor, a quem não
faltava a inteligência, mas a quem faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a
vontade e a decisão.
ESTADO NOVO POLÍTICA
COMENTÁRIOS
(de 32)
Ricardo Ribeiro: Obrigado por mais uma
excelente lição de história que deveria ser obrigatória em qualquer manual de
História deste país. Mas infelizmente sabemos que esses manuais são material de
propaganda e influência esquerdista nas cabecinhas e mentalidades das nossas
gerações futuras. Aqui em Setúbal até existe um bairro Afonso Costa em
homenagem ao "maravilhoso " democrata que ele foi... Américo Silva; Se
houve portugueses grandes, um deles foi Salazar, possivelmente o maior, não que
seja desejável voltar ao salazarismo, mas o homem foi admirável.
António Costa e Silva:
Ao contrário do que acontece no nosso tempo, o 28 de Maio e o Estado
Novo revelam uma história em que a fidelidade à terra e ao povo foi mais forte
que os pequenos actores e as grandes vaidades.
Paulo Simões: Salazar
foi, como todos nós, produto do tempo em que viveu. Veja-se por exemplo o
afinco com que ele impediu que Portugal fosse envolvido na segunda guerra
mundial, ele tinha assistido ao desastre que aconteceu na primeira guerra
mundial. No contexto da época em que viveu e governou foi um grande
Estadista. E nesse tempo os únicos a serem perseguidos eram os comunistas,
anarquistas e afins. No fundo não era muito diferente do que existe hoje, os
únicos a serem perseguidos são os de extrema-direita do Mário Machado. Df: Muito
boa lição de história. Fernando
Calisto: Porque não se "rouba" um pouco de tempo antena
aos " Elucidativos "e infindáveis programas (desportivos?) para dar a
esta nossa pobre geração de jovens, que não tem culpa da sua ignorância, uma
visão correcta da nossa história recente ? talvez não interesse... Obrigado por este
excelente artigo, Dr JNP manuel rodrigues: "A
esquerda unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e
filmes encomendados e subsidiados (...)" Verdadeiro escândalo a
lavagem ao cérebro que, tendo como ponto de partida o programa comemorativo do
25/4 (conduzido pelo aparatchique Adão e Silva), tem sido levado a cabo pela
RTP, com migalhas para a SIC e as outras. Com dinheiros públicos, falsifica-se a
história e manipulam-se cidadãos. Não há responsáveis. Que faz perante isto o
centro-direita no governo? Joao
Almeida > manuel rodrigues: Qual governo de centro direita? O
PSD nada tem de centro e menos ainda de direita. O que tem é um descomunal
complexo de esquerda para além duma vontade nula em fazer qualquer reforma. José Tomás: 100
anos sobre uma das três datas mais importantes do Século XX português, e só o
defunto "DN" traz a efeméride para a capa, com o subtítulo "a
data que a direita radical pode tentar resgatar" - o que
talvez nem o "Época" ou o "Novidades" escrevessem a
respeito do 5 de Outubro. Eis o retrato de um regime apavorado, limitado nos
seus mecanismos de manipulação, e sem resposta, para lá da censura e da língua
de pau, para o "o estado a que chegámos" (sic, Cap. Salgueiro Maia,
Santarém, 25.04.1974). José
Roque: Muito acertado o comentário final: a Marcello Caetano
faltou em decisão o que sobrou em escrúpulo. Foi um tarefeiro, num
momento que exigia um estadista. Fernando Calisto > Oscar gomes: Até
Mário Soares o elogiou ao dizer que nunca tocou nos dinheiros públicos...! Só foi pena ter insistido em
lutar contra ventos e marés daquela época relativamente ao ultramar... Foi um autoritário patriota e
intelectualmente honesto, o que infelizmente não existe os nossos dias... Óscar gomes: JNP
dá-nos a conhecer de uma forma sumária mas inequívoca o que foi o desastre da
1º República, e o retrocesso do país nesse período. A esquerda evita tocar neste período, evita falar da
importância de Salazar na recuperação do país e nas suas qualidades como um
excelente 1ª ministro que teve o seu inequívoco tempo de glória
e apreço dos portugueses. Com a devida distância temos os governos dos
últimos 50 anos que, de certa forma se equivalem ao desastre da 1º República. Será nossa sina termos
políticos incompetentes ou corruptos ? Está-nos no sangue? Fantasma da Redação >
Paulo Simões: E o Salazar não perseguiu a dita
"extrema-direita"? Ele não engavetou o Rolão Preto?
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