domingo, 3 de maio de 2026

Não se trata de “Livro”

 


O tal referido no poema de Pessoa - o da Liberdade de “ter um livro para ler e não o fazer”, mas puramente de textos explorando as temáticas do dia, (ou mesmo do mês e até do ano) à ordem dos fregueses - os da escrita e os da leitura – temáticas que fazem parte do historial por nós vivido e que um dia ficará registado conforme a sua repercussão nas nossas almas. De toda a maneira, agradecemos ao OBSERVADOR a síntese, de reflexão bem ponderada.

 

Pontos de Vista

              Carlos Maria Bobone

Editor de Opinião

 

 

 

Bom dia aos leitores do Observador,

Esta newsletter vem com uma novidade. Não vamos falar apenas dos textos mais interessantes, como o do Paulo Nogueira, que trata, com a graça e ironia de sempre, o problema da masculinidade tóxica (Os Homens não se medem aos parvos), nem dos que tratam os assuntos políticos mais prementes, como o do Miguel Morgado sobre a reforma da Lei Laboral; vamos pegar em alguma da opinião publicada ao longo da semana e pedir esclarecimentos aos autores. Perguntas provocatórias, análise das consequências que viriam do que propõem, críticas, todo o tipo de perguntas: a newsletter servirá não só para conhecer o que foi publicado, mas também para aprofundar o que foi discutido, com a ajuda dos próprios autores.

E o primeiro texto escolhido para ir a interrogatório foi um texto que se queixa, ele próprio, da falta de escrutínio aos políticos. Em A Casa dos Segredos da democracia, Luís Rosa invoca uma série de casos pouco edificantes da relação entre política e negócios para explicar porque é que o famoso discurso de Aguiar Branco foi absurdo; no entanto, pareceu-nos que era possível inverter o argumento. Todos os grandes casos de corrupção, referidos no texto, mostram precisamente que o escrutínio não está a resultar. Não significa isto que pode ser contraproducente intensificar uma estratégia que não resulta, e que talvez afaste quem não é corrupto da política, mas não parece afastar dela a corrupção, em vez de procurar outros métodos de combate à corrupção?

Luís Rosa respondeu com a ideia de que não se está a intensificar o escrutínio, bem pelo contrário – a opacidade é cada vez maior. “Pior”, diz ele, “é um terrível paradoxo que hoje tenhamos menos acesso à informação, do que nos anos 90. No tempo da digitalização e da inteligência artificial, os obstáculos à circulação de informação são maiores do que no tempo pré-internet. Parafraseando Popper, a sociedade está mais fechada, do que aberta. A transparência é algo vital para a democracia – é algo que caracteriza uma democracia (a tal sociedade aberta). A opacidade, que parece ser a nova estratégia a executar, mais do que fazer regredir a qualidade da nossa democracia, vai prejudicar uma tomada de decisão devidamente informada dos cidadãos – ao fim, e ao cabo, aqueles nos quais reside a soberania que está na origem do contrato social entre representados e representantes.”

André Azevedo Alves (num texto sobre um tema que também ganha com a leitura da opinião de Mafalda Pratas, sobre o significado e a força de uma Internacional Nacionalista) trouxe ao Observador uma reflexão sobre o papel de Meloni na Europa pós-Órban, e explica que não devemos esperar da italiana que ocupe o espaço vazio – o tipo de liderança de Meloni é muito diferente. Decidimos perguntar, no entanto, se não poderia dar-se o caso de a própria União Europeia empurrar Meloni para o lugar de Órban. Perguntámos-lhe se  o estilo de Meloni não era possível apenas porque havia Órban, com uma atitude mais confrontacional, que obrigava a UE a ceder diante de um perfil como Meloni. Sem Orban, isto não obrigará Meloni a tornar-se mais confrontacional, ou não resultará numa UE a apertar o seu modo de lidar com Meloni?

E André Azevedo Alves respondeu: “A postura mais confrontacional de Orbán certamente aumentava o espaço de manobra para perfis como o de Meloni. Se por um lado a saída de cena (pelo menos como governante) de Orbán aumenta o potencial agregador de Meloni na direita europeia, também é verdade que aumenta a pressão para uma atitude menos conciliatória com a UE – e em especial com o PPE. Sob pena de Meloni deixar de ser vista como uma alternativa credível ao status quo e reabrir espaço para opções mais radicais no contexto da direita europeia. Uma questão que no fundo se relaciona também no contexto europeu com a capacidade do European Conservatives and Reformists Group (de Meloni e Kaczyński) para se afirmar à direita do PPE face à concorrência do grupo Patriots for Europe (de Orbán, Le Pen e Ventura). As eleições presidenciais francesas de 2027 serão a este respeito um momento decisivo.”

Houve ainda dois textos voltados para o papel da esquerda em Portugal e na Europa que quisemos confrontar.

O primeiro foi o de Nuno Gonçalo Poças, A esquerda e a santinha da ladeira, que expõe a contradição entre as práticas de uma esquerda tantas vezes corrupta, como se vê agora no caso que envolve a entourage de Pedro Sánchez, e a imagem de pureza e superioridade moral que continua a espalhar. Usámos a “contradição” de uma esquerda que invoca “a sua superioridade moral, o seu feminismo militante” mas “fomenta e/ou tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e nas instituições”, palavras do próprio, para perguntar: isto acontece porque a esquerda não acredita nestas tais causas, e as usa apenas como capote para as práticas corruptas (hipótese que parece demasiado severa) ou acredita mas tem, como todos os governos, problemas que não advêm das suas ideias, e sim da natureza humana. Nesse caso, para quê fazer a associação?

Ao que Nuno Gonçalo Poças respondeu: “A natureza humana ditará que sempre existirão casos de corrupção, de contradições entre a palavra e a acção e por aí fora. O que se passa com a esquerda ocidental não é exactamente um problema que se aponte a falhas pontuais decorrentes da natureza humana. É um programa político concreto: acenando com temas que demonstram a sua bondade perante os homens, vão desconstruindo os alicerces morais da sua própria civilização. Sánchez é o oportunista no meio disto, que se usa de tudo para se perpetuar no poder. Em Portugal tivemos pelo menos dois assim, com graus de ilicitude diversos, mas muito parecidos com o espanhol.”

Noutro texto, que fala sobre as aliança que existe, na política municipal de Lisboa, entre o PS e os partidos à sua esquerda, quisemos aproveitar o tema das alianças para perguntar a Margarida Bentes Penedo se o que se aplica em Lisboa ao PS e à esquerda não se aplicaria na aliança hipotética mais badalada dos últimos anos – uma aliança entre PSD e Chega. Perguntámos: “O bloco PS+esquerda lembra inevitavelmente a tão badalada conversa das linhas vermelhas, que normalmente assume que ligar-se ao Chega contaminaria o PSD; mas vendo o caso de Lisboa, em que a esquerda se tornou um pequeno satélite do PS, sem voz própria, não poderia ser este o resultado de uma aliança da AD com o Chega, neutralizá-lo?”

Mas Margarida Bentes Penedo não foi na conversa e respondeu-nos que:

“A pergunta não deve ser posta nesses termos, porque assenta em premissas erradas. A extrema-esquerda contaminou fortemente o PS: entrou no partido e deslocou-lhe o eixo político. Mesmo aceitando a analogia, ela não é transportável. Na Assembleia Municipal de Lisboa, o Chega ainda tem uma bancada de escala comparável à do Bloco e do PCP. No plano nacional não. O Chega tem hoje uma dimensão muito aproximada à do PSD, o que torna qualquer absorção inverosímil. Quanto à “contaminação”, ela já aconteceu: basta ver a mudança de retórica e de prioridades políticas. O Chega obrigou a direita a falar de assuntos que a própria direita não queria ver. E não precisou de alianças.”

A(s) Figura(s) da semana

Esta semana, o gesto teatral de Pedro Delgado Alves fez das suas as costas mais largas do país. Aqui no Observador também Rui Ramos, Rui Pedro Antunes ou Helena Garrido escreveram umas linhas apoiadas nas costas do socialista; no entanto, houve mais um socialista a entrar com estrondo pela Assembleia, pelo que não podíamos deixar de acrescentar o texto de Miguel Pinheiro sobre Pedro Nuno Santos a esta pequena secção.

 

 

              Luís Rosa

A Casa dos Segredos da democracia

 

Se decidir aumentar a opacidade, Luís Montenegro cometerá um erro estratégico terrível. Porque entregará a bandeira da transparência ao PS - o partido que teve Sócrates e os 75.800 euros em São Bento.

 

              André Azevedo Alves

Lições de Budapeste

 

Meloni não ocupará o lugar de Orbán no movimento conservador internacional porque os dois modelos são fundamentalmente distintos, distinções que devem ser motivo de profunda reflexão à direita.

 

              Nuno Gonçalo Poças

A esquerda e a Santinha da Ladeira

 

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha.

 

              Margarida Bentes Penedo

Sem o PS

 

Moralizar alianças é o último recurso de quem já não consegue disputar o governo. Quando governar sem o PS passa de improvável para indevido, o problema já não é partidário. É do regime.

 

Os Pedros do PS

"Responder a um desconforto com um virar de costas está ao nível de maturidade de quem se zangou com um coleguinha da creche porque não cantou com ele uma música do Panda e os Caricas. Há a agravante de Pedro Delgado Alves ter defendido, após o protesto dos deputados do Chega na presença de Lula, que o código de conduta fosse “musculado” "

Rui Pedro Antunes

sobre Pedro Delgado Alves, antes de lembrar algumas leis em que o próprio deputado contribuiu para a opacidade

 

"É uma infantilidade, a raiar a incapacidade de viver com a diferença de opinião, aquilo que fez o deputado do PS Pedro Delgado Alves, virando-se de costas para o presidente da Assembleia da República. Até porque José Pedro Aguiar Branco pode ter escolhido incorrectamente a terapia, oportunidade e a forma de abordar o problema, mas ele existe. "

Helena Garrido

no meio de uma série de reservas ao discurso de Aguiar Branco

 

"Não, ao levantar-se para virar as costas ao presidente da Assembleia da República, Pedro Delgado Alves não chamou a atenção para nenhum tema. Chamou apenas a atenção para si próprio. Porque a única coisa que fez, com a sua traquinice de escola suburbana, foi desrespeitar a Assembleia da República e aqueles que o elegeram."

Rui Ramos

que também discorda do fundamental no discurso de Aguiar-Branco

 

"Pedro Nuno Santos é como aquelas jovens promessas que venceram o Festival de Pequenos Cantores de Rimini, mas depois viram a carreira desabar logo que passaram pela mudança de voz. Todos eles, chegando à idade adulta, perceberam, com nostalgia e frustração, que tinham um grande futuro atrás deles. "

Miguel Pinheiro

antes de traçar um paralelo entre Pedro Nuno Santos e uma figura quase caricata do antigo Labour de Inglaterra, Tony Benn

 

 

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2                          Alterações climáticas: um debate estéril

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3                          Os capitães, as nossas tropas e as malhas da ideologia

                            Pode repetir-se, noutro cenário de guerra, o que aconteceu em África, em 74/75, às Forças Armadas? 52 anos depois, com a Defesa e os militares a ganharem peso, há perguntas que temos de fazer.

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