O tal referido no poema de Pessoa
- o da Liberdade de “ter um livro para ler e não o fazer”, mas puramente de
textos explorando as temáticas do dia, (ou mesmo do mês e até do ano) à ordem
dos fregueses - os da escrita e os da leitura – temáticas que fazem parte do
historial por nós vivido e que um dia ficará registado conforme a sua
repercussão nas nossas almas. De toda a maneira, agradecemos ao OBSERVADOR a
síntese, de reflexão bem ponderada.
Pontos de Vista
Carlos
Maria Bobone
Editor de Opinião
Bom dia aos leitores do
Observador,
Esta newsletter vem com uma
novidade. Não vamos falar apenas dos textos mais interessantes, como o do Paulo
Nogueira, que trata, com a graça e ironia de sempre, o problema da
masculinidade tóxica (Os Homens não se medem aos parvos), nem dos que tratam os
assuntos políticos mais prementes, como o do Miguel Morgado sobre a reforma da
Lei Laboral; vamos pegar em alguma da opinião publicada ao longo da semana e
pedir esclarecimentos aos autores. Perguntas provocatórias, análise das
consequências que viriam do que propõem, críticas, todo o tipo de perguntas: a
newsletter servirá não só para conhecer o que foi publicado, mas também para
aprofundar o que foi discutido, com a ajuda dos próprios autores.
E o primeiro texto escolhido para
ir a interrogatório foi um texto que se queixa, ele próprio, da falta de
escrutínio aos políticos. Em A Casa dos Segredos da democracia, Luís Rosa
invoca uma série de casos pouco edificantes da relação entre política e
negócios para explicar porque é que o famoso discurso de Aguiar Branco foi
absurdo; no entanto, pareceu-nos que era possível inverter o argumento. Todos
os grandes casos de corrupção, referidos no texto, mostram precisamente que o
escrutínio não está a resultar. Não significa isto que pode ser
contraproducente intensificar uma estratégia que não resulta, e que talvez
afaste quem não é corrupto da política, mas não parece afastar dela a
corrupção, em vez de procurar outros métodos de combate à corrupção?
Luís Rosa respondeu com a ideia de
que não se está a intensificar o escrutínio, bem pelo contrário – a opacidade é
cada vez maior. “Pior”, diz ele, “é um terrível paradoxo que hoje tenhamos
menos acesso à informação, do que nos anos 90. No tempo da digitalização e da
inteligência artificial, os obstáculos à circulação de informação são maiores
do que no tempo pré-internet. Parafraseando Popper, a sociedade está mais
fechada, do que aberta. A transparência é algo vital para a democracia – é algo
que caracteriza uma democracia (a tal sociedade aberta). A opacidade, que
parece ser a nova estratégia a executar, mais do que fazer regredir a qualidade
da nossa democracia, vai prejudicar uma tomada de decisão devidamente informada
dos cidadãos – ao fim, e ao cabo, aqueles nos quais reside a soberania que está
na origem do contrato social entre representados e representantes.”
André Azevedo Alves (num texto
sobre um tema que também ganha com a leitura da opinião de Mafalda Pratas,
sobre o significado e a força de uma Internacional Nacionalista) trouxe ao
Observador uma reflexão sobre o papel de Meloni na Europa pós-Órban, e explica
que não devemos esperar da italiana que ocupe o espaço vazio – o tipo de
liderança de Meloni é muito diferente. Decidimos perguntar, no entanto, se não
poderia dar-se o caso de a própria União Europeia empurrar Meloni para o lugar
de Órban. Perguntámos-lhe se o estilo de
Meloni não era possível apenas porque havia Órban, com uma atitude mais
confrontacional, que obrigava a UE a ceder diante de um perfil como Meloni. Sem
Orban, isto não obrigará Meloni a tornar-se mais confrontacional, ou não
resultará numa UE a apertar o seu modo de lidar com Meloni?
E André Azevedo Alves respondeu:
“A postura mais confrontacional de Orbán certamente aumentava o espaço de
manobra para perfis como o de Meloni. Se por um lado a saída de cena (pelo
menos como governante) de Orbán aumenta o potencial agregador de Meloni na
direita europeia, também é verdade que aumenta a pressão para uma atitude menos
conciliatória com a UE – e em especial com o PPE. Sob pena de Meloni deixar de
ser vista como uma alternativa credível ao status quo e reabrir espaço para
opções mais radicais no contexto da direita europeia. Uma questão que no fundo
se relaciona também no contexto europeu com a capacidade do European
Conservatives and Reformists Group (de Meloni e Kaczyński) para se afirmar à
direita do PPE face à concorrência do grupo Patriots for Europe (de Orbán, Le
Pen e Ventura). As eleições presidenciais francesas de 2027 serão a este
respeito um momento decisivo.”
Houve ainda dois textos voltados
para o papel da esquerda em Portugal e na Europa que quisemos confrontar.
O primeiro foi o de Nuno Gonçalo
Poças, A esquerda e a santinha da ladeira, que expõe a contradição entre as
práticas de uma esquerda tantas vezes corrupta, como se vê agora no caso que
envolve a entourage de Pedro Sánchez, e a imagem de pureza e superioridade
moral que continua a espalhar. Usámos a “contradição” de uma esquerda que
invoca “a sua superioridade moral, o seu feminismo militante” mas “fomenta e/ou
tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e nas
instituições”, palavras do próprio, para perguntar: isto acontece porque a
esquerda não acredita nestas tais causas, e as usa apenas como capote para as
práticas corruptas (hipótese que parece demasiado severa) ou acredita mas tem,
como todos os governos, problemas que não advêm das suas ideias, e sim da
natureza humana. Nesse caso, para quê fazer a associação?
Ao que Nuno Gonçalo Poças
respondeu: “A natureza humana ditará que sempre existirão casos de corrupção,
de contradições entre a palavra e a acção e por aí fora. O que se passa com a
esquerda ocidental não é exactamente um problema que se aponte a falhas
pontuais decorrentes da natureza humana. É um programa político concreto:
acenando com temas que demonstram a sua bondade perante os homens, vão
desconstruindo os alicerces morais da sua própria civilização. Sánchez é o
oportunista no meio disto, que se usa de tudo para se perpetuar no poder. Em
Portugal tivemos pelo menos dois assim, com graus de ilicitude diversos, mas
muito parecidos com o espanhol.”
Noutro texto, que fala sobre as
aliança que existe, na política municipal de Lisboa, entre o PS e os partidos à
sua esquerda, quisemos aproveitar o tema das alianças para perguntar a
Margarida Bentes Penedo se o que se aplica em Lisboa ao PS e à esquerda não se
aplicaria na aliança hipotética mais badalada dos últimos anos – uma aliança
entre PSD e Chega. Perguntámos: “O bloco PS+esquerda lembra inevitavelmente a
tão badalada conversa das linhas vermelhas, que normalmente assume que ligar-se
ao Chega contaminaria o PSD; mas vendo o caso de Lisboa, em que a esquerda se
tornou um pequeno satélite do PS, sem voz própria, não poderia ser este o
resultado de uma aliança da AD com o Chega, neutralizá-lo?”
Mas Margarida Bentes Penedo não
foi na conversa e respondeu-nos que:
“A pergunta não deve ser posta
nesses termos, porque assenta em premissas erradas. A extrema-esquerda
contaminou fortemente o PS: entrou no partido e deslocou-lhe o eixo político.
Mesmo aceitando a analogia, ela não é transportável. Na Assembleia Municipal de
Lisboa, o Chega ainda tem uma bancada de escala comparável à do Bloco e do PCP.
No plano nacional não. O Chega tem hoje uma dimensão muito aproximada à do PSD,
o que torna qualquer absorção inverosímil. Quanto à “contaminação”, ela já
aconteceu: basta ver a mudança de retórica e de prioridades políticas. O Chega
obrigou a direita a falar de assuntos que a própria direita não queria ver. E
não precisou de alianças.”
A(s) Figura(s) da semana
Esta semana, o gesto teatral de
Pedro Delgado Alves fez das suas as costas mais largas do país. Aqui no
Observador também Rui Ramos, Rui Pedro Antunes ou Helena Garrido escreveram
umas linhas apoiadas nas costas do socialista; no entanto, houve mais um
socialista a entrar com estrondo pela Assembleia, pelo que não podíamos deixar
de acrescentar o texto de Miguel Pinheiro sobre Pedro Nuno Santos a esta
pequena secção.
Luís
Rosa
A Casa dos Segredos da democracia
Se decidir aumentar a opacidade,
Luís Montenegro cometerá um erro estratégico terrível. Porque entregará a
bandeira da transparência ao PS - o partido que teve Sócrates e os 75.800 euros
em São Bento.
André
Azevedo Alves
Lições de Budapeste
Meloni não ocupará o lugar de
Orbán no movimento conservador internacional porque os dois modelos são
fundamentalmente distintos, distinções que devem ser motivo de profunda
reflexão à direita.
Nuno
Gonçalo Poças
A esquerda e a Santinha da
Ladeira
O problema do intelectual de
esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento
histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha.
Margarida
Bentes Penedo
Sem o PS
Moralizar alianças é o último
recurso de quem já não consegue disputar o governo. Quando governar sem o PS
passa de improvável para indevido, o problema já não é partidário. É do regime.
Os Pedros do PS
"Responder a um desconforto
com um virar de costas está ao nível de maturidade de quem se zangou com um
coleguinha da creche porque não cantou com ele uma música do Panda e os
Caricas. Há a agravante de Pedro Delgado Alves ter defendido, após o protesto
dos deputados do Chega na presença de Lula, que o código de conduta fosse
“musculado” "
Rui Pedro Antunes
sobre Pedro Delgado Alves, antes
de lembrar algumas leis em que o próprio deputado contribuiu para a opacidade
"É uma infantilidade, a
raiar a incapacidade de viver com a diferença de opinião, aquilo que fez o
deputado do PS Pedro Delgado Alves, virando-se de costas para o presidente da
Assembleia da República. Até porque José Pedro Aguiar Branco pode ter escolhido
incorrectamente a terapia, oportunidade e a forma de abordar o problema, mas
ele existe. "
Helena Garrido
no meio de uma série de reservas
ao discurso de Aguiar Branco
"Não, ao levantar-se para
virar as costas ao presidente da Assembleia da República, Pedro Delgado Alves
não chamou a atenção para nenhum tema. Chamou apenas a atenção para si próprio.
Porque a única coisa que fez, com a sua traquinice de escola suburbana, foi
desrespeitar a Assembleia da República e aqueles que o elegeram."
Rui Ramos
que também discorda do
fundamental no discurso de Aguiar-Branco
"Pedro Nuno Santos é como
aquelas jovens promessas que venceram o Festival de Pequenos Cantores de
Rimini, mas depois viram a carreira desabar logo que passaram pela mudança de
voz. Todos eles, chegando à idade adulta, perceberam, com nostalgia e
frustração, que tinham um grande futuro atrás deles. "
Miguel Pinheiro
antes de traçar um paralelo entre
Pedro Nuno Santos e uma figura quase caricata do antigo Labour de Inglaterra,
Tony Benn
Não pode perder
1 Sim,
sou pró-Israel
Não
haja dúvidas, Israel é, de certo modo, um pretexto. Para a Europa, a grande
ameaça às nossas democracias é a coligação entre os islamistas radicais e as
extremas esquerdas
2 Alterações
climáticas: um debate estéril
Fora
do “wishful thinking” de determinadas comunidades “científicas” e da redacção
do “Expresso”, não deve haver praticamente uma alminha que evite ter filhos por
se afligir com a temperatura
3 Os
capitães, as nossas tropas e as malhas da ideologia
Pode
repetir-se, noutro cenário de guerra, o que aconteceu em África, em 74/75, às
Forças Armadas? 52 anos depois, com a Defesa e os militares a ganharem peso, há
perguntas que temos de fazer.
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