Reescrita de tempos idos, que se deseja para nunca mais.
"O 13 DE AGOSTO ABRIU-ME OS OLHOS. JÁ NÃO QUERIA PACTUAR
COM AQUILO." O DIA EM QUE BERLIM ACORDOU COM UM MURO
HÁ 65 ANOS, A RDA CONSTRUÍA
UMA BARREIRA PARA SEPARAR BERLIM NUMA SÓ NOITE. O OBSERVADOR FALOU COM QUEM
CRESCEU AO LADO DO MURO, QUEM FUGIU E QUEM AJUDOU OUTROS A ESCAPAR.
CÁTIA
BRUNO: Texto
OBSERVADOR15
ago. 2026, 19:04
ÍNDICE
“Sabem qual é a missão. Marchem” A “ratoeira” das primeiras horas A inacção do Ocidente: “Um muro é
infinitamente melhor do que uma guerra”
As fugas pelas janelas e a ordem para matar Um passaporte diplomático português, um
esconderijo num tablier e túneis. Os alemães que ajudaram outros a fugir A vigilância da Stasi, que prendia e
torturava os que tentavam fugir A
queda da “parede mágica” A infância
de Detlef Jablonski podia ser um romance de Charles Dickens.
Nasceu em 1955 na prisão de
Jerichow, na República Democrática Alemã (RDA), onde a sua mãe estava a cumprir
pena. Aos dois meses, foi entregue aos cuidados da família da tia, onde os
maus-tratos eram diários. “Eu era tratado como um criado. Fazia as compras, ia
buscar carvão, cortava madeira, polia sapatos, fazia as limpezas”, conta ao
Observador o alemão, agora com 71 anos. “Se não fizesse o que ela dizia, era
açoitado.”
Durante esses tempos, a
família recebia habitualmente a visita de uma mulher. O que Detlef não sabia ao
início é que se tratava da sua mãe, que entretanto se tinha mudado para Berlim
Ocidental, o lado da capital alemã que pertencia à República Federal Alemã (RFA).
Detlef
Jablonski
A MÃE DE DETLEF NÃO ERA
CASO ÚNICO. AO LONGO DAS PRIMEIRAS DÉCADAS DESDE QUE BERLIM FORA PARTIDA EM
DUAS, FICANDO DIVIDIDA NUMA RDA COMUNISTA (SOB A ESFERA DE INFLUÊNCIA DA UNIÃO
SOVIÉTICA) E NUMA RFA OCIDENTAL (SOB A ESFERA DE INFLUÊNCIA DE NORTE-AMERICANOS,
BRITÂNICOS E FRANCESES), ERA COMUM MUITOS BERLINENSES TROCAREM BERLIM ORIENTAL
PELA OCIDENTAL.
O fenómeno intensificava-se
e a Alemanha de Leste ia sofrendo uma hemorragia de trabalhadores: entre
1949 e 1961, dois milhões e meio de pessoas atravessaram a linha de demarcação,
80% delas através da fronteira que dividia Berlim. Eram sobretudo trabalhadores
qualificados: 7.500 médicos, 1.200 dentistas, centenas de milhares de
trabalhadores técnicos, de acordo com os números da historiadora Katja Hoyer.
PROCURAVAM SOBRETUDO UMA VIDA
MELHOR NO OCIDENTE CAPITALISTA. À altura, circulava uma anedota que ilustrava
as dificuldades na RDA: “Sabiam que Adão e Eva eram na verdade alemães de Leste? Não tinham roupa,
tiveram de partilhar uma maçã e faziam-nos acreditar que viviam no Paraíso.”
O contraste entre as duas
Berlim não podia ser maior, como testemunhou Burkhart Veigel, que chegou a Berlim
Ocidental vindo da Turíngia em abril de 1961 para estudar Medicina. “IA AO
TEATRO EM BERLIM ORIENTAL DUAS OU TRÊS VEZES POR SEMANA. DURANTE AS MINHAS
VISITAS, NUNCA CONHECI NINGUÉM NO LESTE — PARECIA-ME QUE ALI TODA A GENTE TINHA ‘FECHADO AS
PERSIANAS’”, RECORDA AGORA AO OBSERVADOR O MÉDICO DE 88 ANOS.
“O FACTO DE TUDO SER MAIS ESCURO DO QUE EM BERLIM OCIDENTAL E DE AS
PESSOAS DESVIAREM TIMIDAMENTE O OLHAR QUANDO ME CRUZAVA COM ELAS ERA ESTRANHO.
SENTIA-ME SEMPRE ALIVIADO QUANDO ENTRAVA NO S-BAHN DE VOLTA A BERLIM
OCIDENTAL.”
DR Burkhart Veigel
QUATRO MESES DEPOIS, TUDO
MUDARIA. O LÍDER DA RDA, WALTER ULBRICHT, CONCLUIU QUE A HEMORRAGIA DE
HABITANTES NÃO PODIA CONTINUAR. A “OPERAÇÃO ROSA” FOI COLOCADA EM MARCHA, COM O
BENEPLÁCITO DO LÍDER SOVIÉTICO, NIKITA KRUSCHEV. TUDO ACONTECERIA NA NOITE DE 13 PARA 14 DE
AGOSTO DE 1961, O DIA QUE FICARIA MARCADO NA HISTÓRIA COM UM NOME:
STACHELDRAHTSONNTAG, O “DOMINGO DO ARAME FARPADO”.
“Sabem
qual é a missão. Marchem”
Apenas dois meses antes,
Ulbricht tinha negado qualquer intenção de separar as duas Berlim.
“Primeiro-secretário, a criação de uma Berlim neutral, na sua opinião,
significa que vai haver uma fronteira no Portão de Brandemburgo?”, questionou
uma correspondente de Berlim Ocidental na conferência de imprensa convocada
pelo líder, para a qual foram convidados jornalistas da RFA — eram mais de 300
os presentes. “Ninguém tenciona construir um muro”, respondeu Ulbricht.
NÃO ERA VERDADE. À ALTURA,
JÁ O PRIMEIRO-SECRETÁRIO ESTAVA ENVOLVIDO EM LONGAS CONVERSAS COM KRUSCHEV
SOBRE COMO ESTANCAR A FUGA DE BERLINENSES DA RDA. E já tinha nomeado um homem
para tratar dos preparativos: ERICH HONECKER, secretário de segurança do Partido que viria a
substituir Ulbricht dali a menos de dez anos.
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▲ Nikita Kruschev e Walter Ulbricht Universal
Images Group via Getty
Foi escolhida a noite de 13
para 14 de agosto porque domingo era dia do Kreuzberg Kinderfest, a feira anual
para crianças da cidade. “Bandeiras e fitas decoravam a rua estreita, onde
crianças de todos os sectores de Berlim riam, brincavam e pediam gelados e bolo
aos pais. Das janelas dos apartamentos, adultos babados atiravam rebuçados às
crianças no meio da rua”, recorda o jornalista Frederick Kempe no seu livro
Berlin 1961: Kennedy, Khrushchev, and the Most Dangerous Place on Earth (sem
edição em português).
“DE FORMA A PREVENIR AS ACTIVIDADES
INIMIGAS DOS PODERES VINGATIVOS E MILITARISTAS DA ALEMANHA OCIDENTAL E DE
BERLIM OCIDENTAL, SERÃO INTRODUZIDOS CONTROLOS NAS FRONTEIRAS DA REPÚBLICA
DEMOCRÁTICA ALEMÃ, INCLUINDO NA FRONTEIRA DO SECTOR OCIDENTAL DA GRANDE
BERLIM.”
Documento de Erich Honecker
com as ordens para os soldados
ÍNDICE “SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM” A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS A INAÇÃO DO OCIDENTE: “UM MURO É
INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA”
AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA MATAR UM PASSAPORTE DIPLOMÁTICO PORTUGUÊS, UM
ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS. OS
ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS A FUGIR A
VIGILÂNCIA DA STASI, QUE PRENDIA E TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR A QUEDA DA “PAREDE MÁGICA”
O primeiro-secretário também
fez uma noite de festa. No jardim da sede do Partido, reuniu os mais altos
responsáveis políticos e militares da RDA para um buffet que incluía salmão
fumado e caviar. Por volta das 22h, pediu aos convidados que se juntassem a ele
para “uma pequena reunião”. Entregou-lhes envelopes com instruções escritas
sobre a operação que iria transformar o rosto de Berlim, rematadas com
“cumprimentos socialistas” por parte de Honecker. “Todos concordam?”, perguntou
Ulbricht. NINGUÉM CONTESTOU A DECISÃO.
A ESSA HORA, OS MILITARES
REUNIDOS NOS QUARTÉIS JÁ TINHAM TAMBÉM RECEBIDO ENVELOPES COM O MESMO CONTEÚDO
E SIDO INFORMADOS DOS DETALHES DA SUA MISSÃO. “DE FORMA A PREVENIR AS ACTIVIDADES
INIMIGAS DOS PODERES VINGATIVOS E MILITARISTAS DA ALEMANHA OCIDENTAL E DE
BERLIM OCIDENTAL, SERÃO INTRODUZIDOS CONTROLOS NAS FRONTEIRAS DA REPÚBLICA
DEMOCRÁTICA ALEMÃ, INCLUINDO NA FRONTEIRA DO SECTOR OCIDENTAL DA GRANDE
BERLIM”, PODIA LER-SE NO DOCUMENTO. À MEIA-NOITE, HONECKER DEU A ORDEM POR
TELEFONE: “SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM.”
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▲
ERICH HONECKER, QUE VIRIA A SER LÍDER DA
RDA, FOI O RESPONSÁVEL PELA "OPERAÇÃO ROSA"
UNITED ARCHIVES VIA GETTY
IMAGES
ÍNDICE
“SABEM QUAL É A MISSÃO.
MARCHEM” A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS
HORAS A INACÇÃO DO OCIDENTE: “UM
MURO É INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA” AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA
MATAR UM PASSAPORTE DIPLOMÁTICO
PORTUGUÊS, UM ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS. OS ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS
A FUGIR A VIGILÂNCIA DA STASI, QUE
PRENDIA E TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR
A QUEDA DA “PAREDE MÁGICA”
Uma hora depois, os candeeiros
das ruas de Berlim eram desligados. Milhares de soldados e membros da guarda
fronteiriça, da polícia antimotim, da STASI (polícia política) e das milícias
populares do Estado atiraram-se ao trabalho de construir as barreiras de arame
farpado — o regime tinha comprado 150 toneladas a fabricantes na Alemanha
Ocidental e no Reino Unido ao longo das semanas anteriores, sem levantar
suspeitas. AO MESMO TEMPO, O PROGRAMA “MELODIAS DA NOITE” DA RÁDIO ERA
INTERROMPIDO PARA SE OUVIR UM AVISO, RECORDADO PELO DIE WELT: SERIA
“INTRODUZIDO UM SISTEMA NA FRONTEIRA COM BERLIM
OCIDENTAL PARA BLOQUEAR DE
FORMA SEGURA ATIVIDADES SUBVERSIVAS CONTRA OS PAÍSES DO BLOCO SOCIALISTA”.
CINCO HORAS DEPOIS, 193 RUAS,
68 PONTOS DE PASSAGEM E 12 ESTAÇÕES DE COMBOIO TINHAM SIDO FECHADOS. HONECKER
RECEBEU A INFORMAÇÃO DE QUE A MISSÃO ESTAVA CONCLUÍDA E DECLAROU À SUA EQUIPA:
“AGORA PODEMOS IR PARA CASA”.
A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS
HORAS
OS PRIMEIROS A PERCEBER O QUE
ESTAVA A ACONTECER FORAM OS JORNALISTAS.
Robert MacNeil, correspondente
da norte-americana NBC, recebeu um telefonema de um colega em Nova Iorque a
perguntar-lhe se sabia o que se passava na fronteira. Vestiu-se a correr e saiu
porta fora. “OS ALEMÃES DE LESTE TINHAM PEQUENAS GRUAS COM AS QUAIS ESTAVAM A
MOVER ENORMES VASOS DE CIMENTO E A COLOCÁ-LOS NAS ESTRADAS POR BAIXO DO PORTÃO
DE BRANDEMBURGO. AO INÍCIO PARECIA UMA PIADA: ESTÃO A FECHÁ-LO COM FLORES”,
contou anos depois à PBS. “MAS QUANDO SE OLHAVA PARA O LADO DIREITO, NA DIRECÇÃO
DA POTSDAMER PLATZ, PODIA VER-SE QUE ESTAVAM A ERGUER UMA BARREIRA DE ARAME
FARPADO DO LADO ESQUERDO DO PORTÃO.”
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▲
Soldados erguem as primeiras barreiras
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ÍNDICE SABEM
QUAL É A MISSÃO. MARCHEM A
“RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS A INACÇÃO
DO OCIDENTE: “UM MURO É INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA” AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA
MATAR UM
PASSAPORTE DIPLOMÁTICO PORTUGUÊS, UM ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS. OS ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS A FUGIR A VIGILÂNCIA DA STASI, QUE PRENDIA E
TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR
A QUEDA DA “PAREDE
MÁGICA”
Outro norte-americano, Robert
H. Lochner (da rádio norte-americana da Alemanha Ocidental RIAS), conduziu por
toda a cidade. Numa estação de comboios, viu uma mulher de idade perguntar a um
guarda qual o próximo comboio para Berlim Ocidental. “ISSO ACABOU. VOCÊS ESTÃO
NUMA RATOEIRA”, RESPONDEU O SOLDADO.
Enquanto amanhecia, os
berlinenses começavam a assimilar o que se tinha passado na sua cidade durante
a noite. A comunicação com os familiares do outro lado do Muro era impossível,
porque as linhas telefónicas tinham sido cortadas. Nas ruas, as multidões
acumulavam-se para espreitar para o outro lado da barreira; e, do lado de
Berlim Ocidental, muitos outros se juntavam a acenar a amigos e familiares.
O estudante de Medicina
Burkhart Veigel estava na Grécia quando tudo aconteceu. Quando as notícias lhe
chegaram, teve medo de não conseguir regressar a Berlim Ocidental, mas tudo
decorreu sem incidentes à chegada. A revolta, porém, começou a borbulhar dentro
de si. “Aqueles idiotas estavam a vedar a fronteira. Não conseguia suportar
aquilo”, desabafa, 65 anos depois. “Queria que toda a gente crescesse como eu
cresci: podendo discutir tudo, sem tabus, com separação de poderes, imprensa
livre, etc.”
“FUGI PARA BERLIM OCIDENTAL NA
TERÇA-FEIRA, 15 DE AGOSTO, ATRAVESSANDO A INTERSECÇÃO DA FRIEDRICHSTRAßE COM A
KOCHSTRAßE. ESTAVA VESTIDO COM ROUPAS DE VERÃO E NÃO TINHA NADA COMIGO APARTE A
MINHA IDENTIFICAÇÃO, ESCONDIDA NAS CUECAS.”
Reinhard Spiller
ÍNDICE “SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM” A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS A INAÇÃO DO OCIDENTE: “UM MURO É
INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA”
AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA MATAR UM PASSAPORTE DIPLOMÁTICO PORTUGUÊS, UM
ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS. OS ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS A FUGIR A VIGILÂNCIA DA STASI, QUE PRENDIA E
TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR A
QUEDA DA “PAREDE MÁGICA”
O mecânico de telecomunicações
e morador em Berlim Oriental REINHARD SPILLER também não estava em Berlim
quando tudo aconteceu, mas, quando chegou à fronteira vindo de uma viagem para
acampar na costa do Mar Báltico, não encontrou uma recepção tão calorosa. “A
POLÍCIA DITOU O QUE SERIA O MEU FUTURO: PRIMEIRO, UNS TEMPOS A AJUDAR COM AS
COLHEITAS; DEPOIS, SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO; SÓ DEPOIS DISSO PODIA VOLTAR A
TRABALHAR NA MINHA PROFISSÃO.” A atitude que encontrou, garante ao Observador,
era clara: “AGORA ELES JÁ NÃO PODEM FUGIR.”
MAS O JOVEM REINHARD, DE 20
ANOS, ESTAVA DECIDIDO A FUGIR, ATÉ PORQUE HÁ MUITO QUE ERA ACOSSADO PELAS
AUTORIDADES PELO SEU ENVOLVIMENTO NUM GRUPO DE JOVENS DE UMA IGREJA. PARA ALÉM
DISSO, DESEJAVA ENTRAR NA UNIVERSIDADE PARA ESTUDAR ENGENHARIA E, DE IMEDIATO,
PERCEBEU QUE NUNCA TERIA ESSA OPORTUNIDADE SE FICASSE NA RDA. “FUGI PARA BERLIM
OCIDENTAL NA TERÇA-FEIRA, 15 DE AGOSTO, ATRAVESSANDO A INTERSECÇÃO DA
FRIEDRICHSTRAßE COM A KOCHSTRAßE. ESTAVA VESTIDO COM ROUPAS DE VERÃO E NÃO
TINHA NADA COMIGO APARTE A MINHA IDENTIFICAÇÃO, ESCONDIDA NAS CUECAS.”
ATRAVESSOU SIMPLESMENTE A PÉ UMA DAS ÁREAS POR ONDE SE PODIA ATRAVESSAR. AO
SEGUNDO DIA DE MURO, A MÁQUINA DE CONTROLO AINDA NÃO ESTAVA BEM OLEADA, COMO SE
VÊ PELAS MAIS DE QUATRO MIL PESSOAS QUE FUGIRAM PARA OESTE NO PRIMEIRO DIA.
OUTROS NÃO TIVERAM A VIDA TÃO
FACILITADA. HARTMUT RICHTER VIVIA COM OS PAIS EM BERLIM ORIENTAL, MAS ESTAVA NA
RFA NA NOITE EM QUE O MURO FOI CONSTRUÍDO. OS PAIS TRABALHAVAM NA APANHA DE
FRUTA TODOS OS VERÕES E ERA HABITUAL O ADOLESCENTE IR PASSAR ESSES DIAS COM A
FAMÍLIA DO PAI, QUE VIVIA EM BERLIM OCIDENTAL. “ESTAVA LÁ QUANDO FECHARAM A
FRONTEIRA. O 13 DE AGOSTO ABRIU-ME OS OLHOS. JÁ NÃO QUERIA PACTUAR COM AQUILO”,
SENTENCIA.
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▲
Hartmut Richter junto ao que resta do Muro de Berli
AFP via Getty Images
ÍNDICE “SABEM QUAL É A MISSÃO. MARCHEM” A “RATOEIRA” DAS PRIMEIRAS HORAS A INAÇÃO DO OCIDENTE: “UM MURO É
INFINITAMENTE MELHOR DO QUE UMA GUERRA”
AS FUGAS PELAS JANELAS E A ORDEM PARA MATAR UM PASSAPORTE DIPLOMÁTICO PORTUGUÊS, UM
ESCONDERIJO NUM TABLIER E TÚNEIS. OS ALEMÃES QUE AJUDARAM OUTROS A FUGIR A VIGILÂNCIA DA STASI, QUE PRENDIA E
TORTURAVA OS QUE TENTAVAM FUGIR A
QUEDA DA “PAREDE MÁGICA”
Ao Observador, não relata os
pormenores da sua fuga difícil, que aconteceria cinco anos mais tarde. MAS A
HISTÓRIA JÁ FOI CONTADA PELO LE MONDE. NA NOITE DE 26 DE AGOSTO DE 1966,
HARTMUT ATRAVESSOU A NADO O CANAL DE TELTOW, COM UM SACO DE PLÁSTICO AO PESCOÇO
COM OS SEUS DOCUMENTOS. ESTEVE QUATRO HORAS DENTRO DE ÁGUA. AGORA, AOS 78 ANOS,
FALA DE FORMA LACÓNICA SOBRE ESSES DIAS: “FIQUEI MUITO TRISTE POR DEIXAR PARA
TRÁS AQUELES QUE ME ERAM MAIS QUERIDOS. DURANTE ANOS, A ÚNICA COISA QUE PODIA
FAZER ERA ESCREVER CARTAS — QUE, É CLARO, TAMBÉM ERAM LIDAS PELA STASI.”
(CONTINUA)