Pelos vistos, custa mesmo. Não para todos, todavia, julgo.
Devemos ser gratos perante o dom da vida, sentindo o prazer da leitura, por
exemplo, embora nem sempre o prazer da vida, mas sejamos parcos nas ambições. Ou,
talvez, gratos nas conquistas. Ou apenas no dom da vida.
Os 100 anos que ninguém notou
O ponto mais
interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar
hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido.
ALEXANDRE BORGES
Escritor e argumentista
28 mai. 2026, 00:21
Fosse biologicamente possível
e festejaria com mais propriedade o meu funeral do que o aniversário – podemos
não gostar de pensar nisso, mas temos consideravelmente mais participação na
forma como morremos do que naquela como chegámos a este mundo. Reconheço,
porém, que não seja a corrente de pensamento mais popular. E, todavia, tenho
quase a certeza de que toca o mesmo ponto fraco que nos faz comemorar umas
efemérides e desviar os olhos de outras.
Em 2010, celebrámos durante
um ano a implantação da República. Houve comissão para as comemorações, filmes,
programas de televisão, debates, fóruns, livros, exposições. Mas hoje,
que faz precisamente cem anos que essa primeira tentativa de regime
republicano, liberal, democrático, caiu, não encontrarão mais do que meia dúzia
de conversas em programas de tv, rádio, ou textos como este. Sim, bem sei
que continuámos a viver em república depois do golpe de 28 de Maio – bem sei
que vivemos em república até hoje – mas viver em república não é um bem por si
mesmo, tal como viver em monarquia não é certamente um mal. O que aconteceu há
100 anos foi o epitáfio de um projecto muito concreto e faríamos melhor em
dar-lhe alguma atenção.
Quando as tropas de Gomes da Costa vieram de
Braga, em desfile país abaixo até à capital, não havia duas frentes em
confronto, duas visões de mundo ou, ao menos, uma oposição. Havia cansaço,
desilusão. Meros 16 incompletos anos depois, tinha fracassado a
tentativa de implantar em Portugal um regime determinado pelos portugueses, os
portugueses “reais”, que não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes
trabalhadoras, sem privilégios de classe. Mas o país que também
antes se tinha cansado da monarquia e, sobretudo, da corte, dos condes e dos
barões, e que correra até com os padres e os frades na repetida ânsia de culpar
alguém ou alguma coisa pelos males que o afligem, desembocara num estado de
miséria ainda pior do que aquele em que se encontrava antes de 1910, esmagado
pelas consequências da Guerra, em que se metera por vaidade dos protagonistas
políticos preocupados com a afirmação do regime além-fronteiras (o clássico
“para inglês ver”), pela gripe espanhola e, acima de tudo, pelo caos político e
social.
Há cem anos, quando o resto
do mundo ocidental celebrava os “loucos” anos 20, Portugal vivia a década em
que mais divergiu economicamente dos seus parceiros de continente. Os
governos sucediam-se à média de três a quatro por ano, de desilusão em
desilusão, dilacerados, primeiro, pelo projecto hegemónico de poder de Afonso
Costa e do Partido Republicano e, depois, pelas múltiplas correntes e
dissidências. Ficou a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar, enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no
ensino superior, mas sobraram os recuos: no sufrágio
universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições
de vida dos portugueses, na democracia real.
O ponto mais interessante de
observar no 28 de Maio
de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem
resistência, praticamente a pedido. Pior ainda do que em 1910,
quando não se ofereceram mais do que Paiva Couceiro e umas centenas de
militares para defender uma monarquia de quase 800 anos e que tanto nos
orgulhávamos de, de tempos a tempos, ter salvo e recuperado quase por milagre, não
apareceu sequer, dessa vez, um herói mais ou menos romântico que se
atravessasse no caminho da “Revolução Nacional”. Bernardino Machado,
Presidente da República, e António Maria da Silva, primeiro-ministro,
entregaram pacificamente o poder a Gomes da Costa quando este chegou a Lisboa,
e até intelectuais como Fernando Pessoa defenderam, por um momento, a
necessidade temporária de uma ditadura militar para “limpar” o país dos males
causados pela I República.
Só que, atrás de Gomes
da Costa, não estava qualquer projecto; estava um conjunto de gente que não
podia pensar de formas mais distintas: monárquicos, republicanos, militares,
maçons, católicos, quase todos desiludidos de alguma coisa. Unia-os
a desilusão, o estarem fartos. Mas estar farto não é um projecto político, como
se perceberia pela incapacidade de produzir um nos meses ou sequer anos
seguintes. O que se sucederia não seria, portanto, propriamente, temporário,
mas a mais longa ditadura da Europa Ocidental.
Em 1926, o regime caiu de podre; como em 1910; como, em boa
parte, em 1974; como talvez seja a única maneira de mudar alguma coisa num país
tão velho. Não por combate vigoroso ou sanguíneo, mas por
desistência, por cansaço. 100 anos depois, os portugueses vivem
extraordinariamente melhor do que nesse Portugal de então, mas os perigos do
cansaço e da desilusão voltam a pairar por aí e a confundir-se, exactamente
como há um século, com um “projecto”, uma “ideia” que, na verdade, ninguém sabe
qual é, nem os próprios. Não temos ataques bombistas nem milícias
a distribuir pancada pelas ruas, mas não falta, como em 1926, quem implore por
“ordem”, “limpeza”, alguém que “pegue nisto”. Um descrédito das instituições,
uma falta de pessoal “qualificado”, de vez em quando um ténue fantasma a
espreitar: a “ingovernabilidade”. E agora, até uma geração que parece achar que um
governo autocrático talvez nem seja coisa má de todo.
Poderíamos meditar um pouco
nas razões destas nossas mortes recorrentes, destas quedas. Assinalar com pelo
menos metade da pompa os funerais das efemérides que, tão galhardamente, nos
ocupamos em celebrar. Para perceber as razões e melhor descortinar os inimigos.
Afinal, em 1926,
quando caiu a república livre e democrática, entregue a si mesma e à
autodeterminação do seu destino, quem falhou não foram os reis, nem os padres,
nem os militares, nem a extrema-esquerda, nem a extrema-direita. Fomos nós.
POLÍTICA HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS:
Luis Fernandes Machado: Como sempre o
Alexandre Borges é brilhante, mas há duas notas onde insiste, de certa forma,
num erro de percepção institucionalizado: nem a Implantação da Republica em
1910 foi uma aspiração popular, surgida de um movimento popular consistente,
nem a I República foi "livre e democrática". O derrube da monarquia foi um
projecto de alguns poucos que, simplesmente, ambicionavam ocupar a posição na
política e na sociedade ocupada antes por outros. Entre alguns poucos
idealistas mais ou menos genuínos, como Machado dos Santos, ou proto-ditadores
como Afonso Costa e seus muitos cúmplices, ninguém "pediu" licença ao
povo, ninguém "ouviu" o povo e muito menos ninguém
"consultou", antes ou depois, o povo sobre isso. Tal como uma certa
ideologia política hoje em dia, "actuou em nome do povo, porque não
podemos deixar ao povo a decisão do que quer". O que aconteceu durante
aqueles 16 anos, não foi mais liberdade, nem mais democracia que antes na
Monarquia, nem sequer depois no Estado Novo. Foi antes um delírio à la
revolução francesa de gente não recomendável que se serviu do país num banquete
sanguinário, desde a insistência na participação idiota na Grande Guerra,
contra a vontade dos próprios aliados, até à Camioneta Fantasma de 1921. Tal
como o Napoleão foi a "salvação" das
loucuras da Revolução Francesa, também o Estado Novo acabou por o ser da
I República. Mas há uma ideia onde o Alexandre Borges está total e
irremediavelmente correcto: o paralelismo com o que vivemos hoje é absoluto. Df: Como podia a 1ª
República ser "livre e democrática" se havia "milícias a
distribuir pancada nas ruas" e o direito de voto era mais restrito do que
na Monarquia? Algo não bate certo. Francisco
Almeida: Chamar república livre de “democrata” à ditadura
"de facto" de Afonso Costa e do Partido Democrático, apenas define o
autor. E mencionar o que o povo escolheu, quando se restringiu o direito de
voto e quando as "revoluçõezinhas" a começar pela de 1910 eram
decididas em Lisboa e comunicadas ao país por telégrafo, mete dó. Incidentalmente,
é facto que a resistência se limitou a Paiva Couceiro mas houve motivos para
isso. O general comandante militar de Lisboa deu ordem para dois regimentos
saírem mas o cabo telegrafista era da Carbonária e, pura e simplesmente não
enviou as mensagens. Para quem gosta de comparar revoluções, algo de semelhante
aconteceu com a malograda saída do Regimento das Caldas em 16.3.1974. Presos
todos os oficiais spinolistas o MFA ficou aberto a comunistas infiltrados e até
foi escolhido para liderar um palhaço vaidoso e manipulável. Ricardo Horta: Como
se pode qualificar a I.ª República como uma "república livre e
democrática" quando "... sobraram os recuos: no sufrágio universal,
nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida
dos portugueses, na democracia real."!!??? José Tomás: Um artigo
com contradições - porque o autor sabe a história, (brilhantemente resumida
no artigo de Nogueira Pinto), mas não abdica do mito - mas que é muito útil
para chamar a atenção para isto: num tempo em que (graças à Internet) "os
de sempre" perderam o exclusivo da narrativa e o poder de martelar os
factos sem ninguém os contrariar, só lhe resta tentar que ninguém se lembre de
que hoje faz 100 anos o 28 de Maio de 1926 (uma das 3 datas-chave do
séc. XX português). MariaPaula
Silva: Excelente! Excelente
análise histórica, de forma sintética e divertida. Fartei-me de rir porque, afinal, tanto faz o tipo de governo,
somos mesmo uma nhoca ingovernável sem governantes qualificados. Cem anos depois, uma análise perfeita da
realidade actual. Luis MonteRosa, abre os olhos, se fores capaz! Não és, está
mais que provado. Este artigo é extremamente oportuno mas, infelizmente, não
vai servir de nada. Daqui a 100 anos alguém escreverá algo idêntico. Sempre
achei interessante esta parecença de nomes (Gomes da Costa/Costa Gomes; Afonso Costa/António Costa nos ciclos que se
repetem).