domingo, 20 de setembro de 2026

Companheirismo

 

É o que se pretende, quando se quer bem servir a Nação.

Passos exige a Montenegro que esteja "à altura da tradição do PSD" e rejeita "aventuras" de criar novo partido

Antigo primeiro-ministro reitera que gostava que o Governo "ousasse mais" no sentido de avançar com reformas. Responde a Leonor Beleza e afasta possibilidade de promover outro partido: "Sou do PSD".

Rui Pedro Antunes: TEXTO

(Hugo Fortunato de Oliveira: SOM)

OBSERVADOR: 19 set. 2026, 12:58

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Pedro Passos Coelho tinha saído de um diálogo sobre a fé, no sentido religioso, no Lumiar, quando foi desafiado por jornalistas a falar sobre a fé, no sentido mais térreo, que tem no actual Governo. O antigo primeiro-ministro voltou a enviar recados a Luís Montenegro ao criticar de forma velada que o Governo se concentre mais nas medidas do “dia a dia” — como a descida do IRS ou o bónus aos pensionistas — e “pense pouco” no futuro. Passos Coelho gostava que o Governo “ousasse mais” em reformas e que Montenegro “estivesse à altura da tradição do PSD” nessa matéria. O antigo primeiro-ministro afasta ainda promover ou vir a fazer política noutro partido:Eu sou do PSD”.

Passos Coelhonessas declarações à saída do evento a três órgãos de comunicação, um deles o Observador — não quis avaliar especificamente as medidas anunciadas por Luís Montenegro numa comunicação ao País na quinta-feira, mas lembrou que “o primeiro-ministro anunciou um conjunto de medidas que já tinha anunciado antes, que não teriam uma grande novidade”. Sobre o mérito das mesmas, o antigo governante começa por dizer: “Não sou comentador”. Puxa, no entanto, da legitimidade de ter liderado o partido e o País para dizer algo mais: “Sou do PSD e fico sempre muito contente quando o PSD faz bom serviço e as coisas correm bem e preocupado quando, às vezes, nem tanto.”

O antigo primeiro-ministro faz questão de manter a pressão alta a Montenegro, ao dizer que o PSD tem a “responsabilidade maior” de resolver os problemas do País por estar no Governo. Passos Coelho adverte que o Governo tem de ir “dando razões aos portugueses para que eles acreditem que o Governo gere não apenas bem o dia-a-dia, isso é sempre importante, mas, sobretudo, o futuro.”

a.

O antigo governante admite que é preciso fazer um” equilíbrio” entre o que é do dia-a-dia, mas avisa que “o futuro sempre chega e, quando pensamos pouco nele, depois, às vezes, não gostamos daquilo que temos e já é tarde para alterar.” É neste contexto que o antigo primeiro-ministro enquadra as suas “observações para estimular e incentivar a ambição do PSD em ter uma atitude reformadora, reformista, mais forte”. O antigo primeiro-ministro compreende que “as condições no Parlamento não são as melhores, porque o Governo não tem uma maioria, mas, pensando naquilo que pode ser a avaliação dos portugueses e nas condições que possa vir a adquirir no futuro, era importante que ousasse mais nessa matéria e, portanto, oferecesse às pessoas boas razões para acreditar que se hoje não têm as condições que são necessárias para fazer as reformas que são precisas, então, se calhar, vamos ter de lhes dar no futuro.”

Passos lamenta que “na comunicação ou na acção do Governo” este caminho não esteja “no centro das atenções”, daí que se sinta obrigado a fazer “essas chamadas de atenção”. O antigo primeiro-ministro é depois desafiado a comentar o trabalho do próprio chefe de Governo e confessa que sempre achou que o homem que escolheu para líder parlamentar durante o sua governação “iria ser” um dia líder do partido e primeiro-ministro. Coisa diferente é se tem gostado de ver o Luís trabalhar. Sobre essa avaliação, deixa um desejo em forma de pressão e crítica: “Espero que ele possa desempenhar a sua função à altura daquilo que é a tradição do PSD e, portanto, só posso desejar-lhe que encontre o caminho para que as pessoas o possam valorizar e possa estar nessa tradição, que é a tradição do PSD.” Embora tenha rejeitado comentar directamente as sondagens, Passos sugeria aqui que Montenegro precisa de seguir a tradição reformista do PSD para ser valorizado.

Passos “não se aborrece” com Beleza e rejeita criar novo partido

O antigo primeiro-ministro desvalorizou ainda os reparos que Leonor Beleza lhe deixou recentemente numa entrevista quando disse não compreender as suas mais recentes posições públicas. Passos diz que não sabe em que é que a vice-presidente do PSD “estava a pensar” quando lhe fez esses reparos, mas lembrou que ela própria tem “responsabilidades na condução política do PSD também”. Diz que respeita Beleza, mas que a ex-ministra de Cavaco Silva terá uma “perspetiva” em virtude de ser “vice” do PSD e acrescenta que o facto de existirem opiniões diferentes “é a coisa mais natural do mundo” e que “a gente nunca se aborrece por causa disso, era o que faltava”. Lembrou que promoveu sempre a “diversidade de pensamento” quando fazia as suas “equipas”, quer no PSD, quer no Governo.

Pedro Passos Coelho rejeitou ainda comentar a proposta do presidente da câmara de Oeiras de criar um partido entre o PS e o PSD para combater o Chega. “O doutor Isaltino que faça o que entender”, disse. E deixou claro que o seu caminho será sempre dentro do PSD: “Eu sou do PSD e, portanto, não ando em aventuras de fazer partidos nem coisas dessas, não sinto nenhuma necessidade disso, nem de estar a estimular, nem a apoiar qualquer coisa parecida com essa.” Têm surgido nos últimos meses rumores de que Passos podia estar interessado em criar um partido, o que o próprio deixa assim, claro, de forma cristalina que não quer. Se um dia quiser voltar a ser primeiro-ministro, o que continua a não enjeitar, será sempre pelas cores do seu PSD.

PSD      Política      Pedro Passos Coelho      Luís Montenegro      Governo

 

José Góis Chilão

Leonor Beleza parece ter esquecido que a verdadeira tradição do PSD sempre foi o debate, a divergência e até alguma turbulência saudável— não o unanimismo obediente em torno do chefe. Passos Coelho limita-se a ser social-democrata à antiga: discorda, critica e continua no partido. Uma excentricidade imperdoável nos tempos modernos.

Ana Maria Caldeira > Carlos Costa

Este tique de querer que as pessoas se calem... Muito na moda hoje de novo.

Jorge Garcia

Os melhores estadistas que tivemos foram todos oriundos de governos AD. Acho muito bem PPC exigir ao PM que se deixe de discursos de advogado, cheios de tretas e malaguetas. O PSD é um partido de raiz democrática e não de raiz maçónica. Montenegro e sus muchachos estão a destruir o que foi construído ao longo de 50 anos.

Ana Luis da Silva

Não é preciso Pedro Passos Coelho criar um novo partido.

É preciso arranjar uma equipa que despreze o socialismo com todas as suas implicações, que seja além disso, leal, competente, corajosa e resiliente, disposta ao sacrifício pelo país, com políticas de direita na economia e na administração do Estado e conservadora nos nossos valores civilizacionais… e que não tenha medo de se associar ao CHEGA.

Jorge Tavares

Pedro Passos Coelho devia filiar-se na Iniciativa Liberal. É o actualmente partido mais próximo das suas posições. O PSD limita-se a ser um PS um pouco menos hipócrita e um pouco menos parasita. Idem para o CDS. O actual governo tem um ou dois ministros reformistas mas é quase por acidente. Foi sem querer.

graça Dias

Pedro Passos Coelho a ser Pedro Passos Coelho, ou seja, um Estadista com um pensamento e um desígnio para o país: reformar e transformar o país a nível económico, cultural e social, com um olhar no futuro, e não na gestão do    <património > herdado do socialismo, que desde há décadas mergulhou o país no marasmo económico e social, que fez de Portugal um país subdesenvolvido.

Ana Rita

Esquece Passos. Algum dia um  primeiro ministro do verdadeiro PSD ia proteger um Neves? Um socialista vigarista! O Montenegro é como ele.

Alexandre Arriaga e Cunha

É importante ouvi-lo, pois ele sabe melhor que ninguém o que custa fazer reformas em Portugal e o preço a pagar de não as fazer.

António Cézanne

As coisas são tão simples de perceber em democracia.

Em democracia quem vota é a população e essa mesma população disse claramente que queria o País governado com uma maioria esmagadora da direita. Não disse que queria a esquerda a governar.

Montenegro só tinha que ter percebido isso e cumprido aquilo que lhe foi dito claramente nas eleições.

Toda a esquerda, inclusivamente o PS foi totalmente rejeitada, o que quer dizer que Montenegro nem os devia sequer ouvir, deveria fazer exactamente aquilo que devia ter percebido - rejeitá-los todos os dias e de forma bem clara. E não andar com jogos de cintura e tacticismo político que cheiram a bafio, ora encostando-se a um lado, ora a outro com a intenção de segurar o lugar, esquecendo-se das prioridades do País.

Paulo mariano

O verdadeiro inimigo de Passos é Ventura. Face à patologia narcísica predadora deste último é muito difícil, para não dizer impossível, a coabitação entre ambos. Para já não falar que Passos é o oposto do populismo.

Anastácio Rocha

O Passos que eu aprecio muito deveria candidatar-se a líder do psd .. um passos de recados só ajuda a Comunicação social e os partidos chega, PS é os comentadores e comentadoras que perfilam com vaidade, vedetismo, balofices e …

S NLuis  > Carlos Marques

Questionar e criticar, quando adequadamente fundamentado, como tem feito P Passos Coelho, não é só positivo e louvável como necessário e muito útil.

Se há quem não o compreenda, como se verifica, incluindo no governo e no partido que o suporta, não pode deixar de ser muito preocupante e negativo para o futuro do país

Luis Carlos Marques

Não é comentador, mas comenta. Não concorda, mas não apresenta alternativa. Basicamente, faz barulho, ruído! É pena....

paulo mariano

Não é mau "rapaz", Montenegro. O problema é que estamos perante uma nova realidade partidária. Já nos bastava o populismo de esquerda, para agora assistirmos à propagação do populismo de direita — uma espécie que em Portugal tem a versão patológica na liderança, e na proposta económica uma versão inconsistente e construída para responder mais às emoções básicas e analfabetas do que à realidade.

Das duas, uma: ou Passos Coelho consegue federar e agregar, depois de uma vitória eleitoral interna no PSD, e vencer as eleições no País, ou teremos um novo bloco central, com características diferentes do anterior, para continuar a adiar aquilo a que todos chamam, há demasiado tempo, “o problema”.

Sou adepto da confrontação total com a teia dos “bloqueios” e de colocar o País no caminho da verdade — isto é, da realidade.

E há ainda uma pequena curiosidade nas recentes declarações de Passos que não deixa de ser deliciosa. Por duas vezes, nas suas parcas intervenções, parece aludir ao Chega e a Ventura sem nunca os nomear. Primeiro, fala em “aventuras”; depois, diz que “o futuro (...) sempre chega”. Ora, isto é apenas uma coincidência vocabular... ou será o inconsciente a falar? Ou, mais interessante ainda, será Passos demasiado experiente para escolher as palavras por acaso?

Fernando ce > Manuel Gonçalves

Coragem? Mais do que demonstrou durante os anos de chumbo da Troika? E ainda me lembro quer da histeria da maioria dos comentadores na CS e da oposição que criaram um ambiente pré-insurrecional no país. Já sem falar que Passos Coelho enfrentava pessoalmente manifestantes presentes em locais onde se deslocava. Olhe que era preciso ter T…..S !

sábado, 19 de setembro de 2026

Pena

 

Será também um modo de ser inconformista, que nos faz criticar com gosto, indiferente ao que de bom também temos.


É disto que o meu povo gosta

Se toda a governação abusa da propaganda, aqui a propaganda substituiu completamente a governação, que sobrevive para asfixiar tudo em redor.

 ALBERTO GONÇALVES - Colunista do Observador

OBSERVADOR, 19 set. 2026, 00:25

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Lembram-se de quando o prof. Marcelo prometia, pela sua saudinha, não voltar a comentar a actualidade logo que deixasse Belém? Ele também não se lembra, por isso comenta o que calha a cada oportunidade. Há dias, esteve num colóquio em Aveiro e disse o seguinte: “Nós somos a Europa, mas somos vistos como sendo uma ilha no meio do Atlântico. Nós somos, sobretudo, seguros e confiáveis (…) Encontramos economistas, financeiros, banqueiros e tal a dizer que grande bigodaça que vocês estão a dar, porque de facto estão a conseguir, que se possa ter confiança e ter segurança na realidade portuguesa. Nós já intuímos isso, sabíamos isso. Mas agora é indiscutível”. E de seguida acrescentou: “Eu vou a qualquer reunião internacional e agora vou como ‘outsider’ (…) mas gosto de ouvir nos aviões em que venho dizer, ah, eu desloquei-me agora para Portugal, porque é para decidir e é para investir numa coisa e tal, e estou a pensar num projecto e tal.

É curioso e tal que eu faça uns voos internacionais e tal e nunca tenha ouvido tais proclamações e tal. É possível que se deva ao facto de viajar rodeado de pelintras em “turística” e não de economistas, financeiros, banqueiros e tal. Mas a hipótese mais provável para não ouvir semelhantes louvores à “bigodaça” portuguesa é os louvores jamais terem sido ditos, ou apenas terem sido ditos por interlocutores que desesperadamente procuravam livrar-se daquele sujeito que, inquieto no lugar 12C, dizia em voz demasiado alta ser ex-chefe de Estado e tentava arrancar-lhes elogios ao país. Como costuma acontecer nos interrogatórios a cargo de polícias inflexíveis, uma pessoa acaba a confessar o que eles quiserem: “Portugal?”, despacha atrapalhado o “banqueiro” que na verdade é cabeleireiro de profissão e retornava das férias em Albufeira, “um espectáculo. Um sonho. A humanidade tem muito a aprender convosco. E agora peço-lhe desculpa já que tenciono terminar o ‘Barbie’ antes de aterrar em Bruxelas.”

Embora o prof. Marcelo seja um ser peculiar, a essência da sua recorrente ladainha “patriótica” não difere da quase totalidade dos primeiros-ministros que temos tido, hoje o dr. Montenegro, ontem o dr. Costa, uns anos antes o “eng.” Sócrates. Saltei deliberadamente Pedro Passos Coelho na medida em que, desde épocas imemoriais, foi o único, e aparentemente o último, governante capaz de confrontar os portugueses com factos. Os restantes oferecem-nos alucinações, descabeladas mentiras acerca do “sucesso” pátrio, tão potente que deixa o mundo pasmado e, afinal, invejoso. Salvo a referida excepção, Portugal não dispõe de estadistas, e sim de vendedores de fancaria. E quanto mais óbvia é a fancaria mais saída tem. E mais pelintras ficamos. Se toda a governação abusa da propaganda, aqui a propaganda substituiu completamente a governação, que sobrevive para asfixiar tudo em redor. Mesmo numa Europa em desvario e queda, conseguimos a proeza de empobrecer por comparação, a proeza de olharmos para baixo e já só vermos a Grécia e a Bulgária. Isto enquanto ainda vemos alguém.

Cá dentro, o que vemos são embusteiros, socialistas tímidos ou descarados dispostos a atropelar os habituais limites da intrujice política para transformar o poder numa máquina de cobrança de impostos, distribuição de empregos, “gestão” dos lendários “fundos” e, nos intervalos da propaganda, lançamento de humilhantes e falsas esmolas de modo a mitigar a crise que, eles fiquem ceguinhos, não existe. E para reduzir os sucessivos governos a monólitos valentemente insusceptíveis de uma reforma, uma mudança, um rasgo e um risco que beliscassem a desgraceira em curso e incomodassem as sondagens. Se for necessário descer à ignomínia da analogia futebolística, à imagem dos nossos eruditos líderes, desço: em equipa que perde não se mexe. Ou mexe-se para que a equipa continue a perder.

 

É disto que o meu povo gosta? Corrijo a pergunta, a fim de evitar generalizações: é disto que uma quantidade significativa de eleitores gosta? Receio que sim. Como no Sísifo de Camus, é preciso imaginar os portugueses felizes, no mínimo resignados em passar os dias a contornar rotundas de cidades tristes no regresso do trabalho na câmara ou no escritório, a caminho de um serão com a Netflix e o sonho do fim-de-semana com bola e restaurante para fotografar a comida e despejar o pastiche de alegria nas “redes”. Se os miúdos estiverem distraídos com o telemóvel e os graúdos esquecidos dos encargos no fim do mês, que um milagre talvez impeça de chegar, está tudo bem.

Não está nada bem. Claro que não faria sentido sonhar com a nação pujante e digna de admiração que os embusteiros agitam para consumo das massas, infelizmente eficaz. Mas podíamos ser, e estar, um bocadinho melhor do que somos e estamos. Acontece que o processo implicaria tempo, moderado sofrimento e imensa coragem. Por azar, coragem é o que a classe política não possui e sofrimento é o que os cidadãos não toleram, nem sequer em nome do “futuro” com que apenas fingem preocupar-se sob a retórica indolor dos cataclismos vagos ou longínquos ou fictícios. Tempo é o que nos sobra, incluindo para recordar o cliché de que vivemos acima das nossas possibilidades. O problema é que jamais nos ocorre elevar as possibilidades, embora sejamos exímios a adaptarmo-nos a uma vida que desce – e a torcê-la para disfarçar a descida. Perante a hipótese de, com sacrifício, “isto” poder ser melhor, consolamo-nos com a suspeita de que, sem esforço nenhum, isto podia ser pior. É uma hipótese cujo acerto comprovamos ano após ano.

Governo       Política

COMENTÁRIOS (de 38)

Maria Paula Silva

Excelente e deprimente!

"o processo implicaria tempo, moderado sofrimento e imensa coragem", resumindo o processo, implica que trabalhem!   O que falta a Portugal é decisores e governantes honestos que TRABALHEM.

Do Luisinho Monte Rosa nem vale a pena falar, o arrogante parolo casmurro está em queda livre. Nem com os bombons e tostões que oferece antecipadamente pró Natal se vai safar.  Se tiver 2 dedos de honestidade (o que duvido) estará à beira de se arrepender, se não for totalmente apoucadito, já deve ter percebido que não tem unhas pra isto.

Quanto ao MRS, sempre igual a si próprio, fiquei muito admirada (sem encontrar uma explicação plausível) quando anunciou pouco depois de acabar o 2º mandato que abdicava da reforma vitalícia de PR.  Confesso que andei perplexa durante meses, pois aquilo não encaixava na personalidade que, infelizmente, conheço bem demais.   Mas a perplexidade desapareceu quando recentemente li uma notícia (aqui) em que começavam por anunciar as perdas financeiras de sua excelência (grande truque malabarístico de matemática mal explicada) do princípio para o fim do seu árduo mandato, mas mais pr`ó fim lá explicavam, Graças a Deus para a minha perplexidade que desapareceu nesse instante, o que fazia sua excelência desde que tinha terminado o mandato:

ocupava um gabinete a 1,2 km do Palácio de Belém, onde mantinha a expensas do Estado as suas duas secretárias (nomes vinham mencionados), o mercedes não sei das quantas + o motorista, tudo a expensas do Estado. E onde, se entretinha a enviar uns emails protocolares (seja lá o que isso for) e a dar uns beijinhos de vez em quando a outros chefes de Estado, etcetra.

Pronto, estava explicada a abdicação da reforma vitalícia.   No meio do riso que não conseguia conter, surgia na minha mente, quanto tempo antes ele teria estado a cozinhar aquela "reforma", a quantas pessoas teria ele dado a volta, que intrigas teria feito para que a coisa acabasse por lhe ser oferecida de bandeja. Maganão, quando se nasce aldrabão, morre-se aldrabão.

A aldrabice maior fez ele com as Gémeas e o teatrinho em se zangar com o filho, para que este fosse o "cordeiro sacrificado". Agora, tal como eu previra também, está, como bom católico (ooopsssss....) a tentar "aproximar-se" do filho.   Benzódeus, Nosso Senhor! 

É como dizia Paulo Portas numa entrevista ao Herman, nos anos 90 quando MRS manifestou publicamente o desejo de ser 1º ministro:  "Deus deu-lhe a inteligência e o diabo deu-lhe a maldade, por isso uma pessoa que mente e me enganou com a história da Vichyssoise onde tudo era mentira, não pode concorrer a 1º ministro, é um aldrabão!"

Portanto, "dizer coisas" é aquilo que sempre fez. O que admira é haver ainda gente que perca tempo a ouvi-lo.  É mais uma das provas da abençoada pobreza de espírito da maioria que habita este rectângulo.  Mas não deixaria de ser engraçado ver o MRS chegar ao fim da vida a falar para as paredes rodeado de caixas de gelado e de fortiméis.

Vasco R

Óptimo artigo. No fim, somos governados por idiotas oportunistas e infelizmente, a grande maioria dos portugueses gosta e vota nesta gentalha, quanto mais socialista e esquerdola melhor.  Concluindo,  a grande maioria dos portugueses são ignorantes, de uma infantilidade gigantesca, primários a buscar a satisfação imediata, fatalistas e pouco ambiciosos. Uma miséria franciscana, agravada pela emigração de quase um milhão de jovens portugueses qualificados e empreendedores, compensados (sarcasmo intenso) pela escória muçulmana nojenta, indostânicos sujos e palops, que apesar de melhor se integrarem, são ainda mais ridiculamente infantis e ignorantes que os portugueses. Espera-nos um futuro brilhante.

Eduardo Lourenço

Excelente crónica.  Parabéns. 

Pedro Correia

Como sempre, excelente.
Muito mal vai a nossa classe política, quando até a Leonor Beleza, diz não compreender Pedro Passos Coelho. O que pensaria Champalimaud disso?

Liberal do Costume

É certo que o tuga vota à sua imagem e semelhança, em trafulhas, em chicos-espertos, em gente superficial. De vez em quando está mais "à rasca" e lá vai buscar alguém mais sério, para limpar o desastre precedente, não realmente para mudar alguma coisa de um país que o tuga considera perfeito. E mesmo para isso é preciso estar muito "à rasca".

observador censurado

Relativamente a governo e produtividade, recentemente o Canal Now num fim de semana apresentou-nos uma investigação jornalística sobre um prédio em que os moradores tinham grandes dificuldades para sair/entrar em casa porque o elevador estava avariado há 10 anos.

Havia casos em que moradores em cadeiras de rodas para poderem sair de casa e irem ao médico tinham de pedir ajuda a amigos que tinham de faltar ao trabalho para transportar os moradores pelas escadas até ao rés-do-chão.

O senhorio de todos aqueles moradores (proprietário do prédio) é o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, titulado pelo Irmão Miguel Pinto Luz.

Como o senhorio era o Estado fiquei com curiosidade em saber como os moradores iriam descalçar a bota porque uma acção contra o Estado demora, em média, pelo menos, 10 anos até que um Tribunal Administrativo titulado pela sra. Júdice emita uma primeira resposta. 

Teria o advogado do programa uma solução para aquele problema envolvendo vários ministérios (incluía também o Ministério da Saúde pois a saúde dos moradores presos em sua casa piorava)?  Depois de espremidas as palavras do advogado, parece-me que a solução seria apelar a Deus.

MariaPaula Silva > Liberal do Costume

Muito obrigada e igualmente.

Mas não concordo nada em que a AD (por favor, não me insulte nem à memória de Sá Carneiro) está a limpar seja o que for, mas sim a dar continuidade à porcaria deixada pelo sô Costinha.

MariaPaula Silva > Liberal do Costume

tem razão, não é para mudar, os portugueses odeiam mudanças, é apenas para «limpar a porcaria" quando ela atinge níveis insuportáveis. Que é o que está a acontecer  agora :)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Prazer em reconhecer

 

Quadros de vidas femininas, em TEXTO de um pensamento justo e elegante expressão, que faz reconhecer, de facto, uma ESCRITORA, em Djaimilia Pereira de Almeida.

Fim de tarde

É esta a magia que ninguém consegue destruir: a de os estranhos se poderem ajudar uns aos outros sem saber que se ajudam.

Djaimilia Pereira de Almeida:    Escritora

OBSERVADOR, 18 set. 2026, 00:20

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Eram sete e meia da tarde, fim de Verão, o sol punha-se sobre os botes. Curvei a esquina do Clube Naval, pensando que tinha medo de estar ali àquela hora. Nunca se sabe o que esconde o fim da curva. Foi quando dei com a mulher sozinha, sentada à beira-rio, olhando as águas.

Não tinha medo de ali estar no lusco-fusco, pensei, o que me deu confiança. Estava tão completamente perdida nos seus pensamentos, tão distante das pessoas que passavam na marginal.

Pensei, porque o parecia, que tinha saído há pouco tempo do trabalho. Então, imaginei que tivesse aquele hábito: que antes de regressar a casa, se sentava sozinha nas margens, a pensar na vida.

À beira do rio, ao fim da tarde, observo outras mulheres como ela, que aparentam ser divorciadas: bebem um copo de vinho, sentadas na esplanada. Admiro-as na sua independência, as costas descobertas dos vestidos de linho preto, as sandálias douradas.

Sempre que chego a um lugar e vejo mulheres sozinhas por ali, entregues aos seus prazeres e ao seu próprio tempo, concluo que é um lugar relativamente seguro.

A mulher sozinha talvez não tivesse dinheiro para estar na esplanada. Mas não se privou da vista nem do murmúrio das águas. Absorta, sem telefone por perto ou outra distracção, olhava a corrente, olhando para dentro de si mesma.

Deu-me força que estivesse sozinha no meio dos outros, sem lhes prestar atenção. A mim, que não me abandono à solidão fora de casa, afligida por receios e demónios, a mulher sozinha diante do rio deu-me coragem.

Lá fui, dando passos tímidos, tentando não me desequilibrar na areia e nas pedras, a pensar que não havia razão para ter medo.

É esta a magia que ninguém consegue destruir: a de os estranhos se poderem ajudar uns aos outros sem saber que se ajudam. A possibilidade de nos encorajarmos mutuamente mesmo sem nos conhecermos, mesmo sem falarmos, apenas em virtude de nos observarmos e de nos reconhecermos.

Muitas pessoas enveredam, por vezes, em discursos grandiloquentes a favor da humanidade, perdendo de vista que a humanidade reside também no entendimento silencioso entre estranhos. Eu ia com medo e a mulher ao pé do rio tirou-me o medo.

Não me ocorreria interromper o seu silêncio, os seus minutos. Não fiquei a conjecturar como se chamaria, nem em que pensava.

Apenas a vi profundamente, como profundamente ela olhava as águas. E reconheci-a desse modo íntimo como alguém a par de mim, viva como eu, presa na sua circunstância, abalada pelas suas dores que não conheço, inteira e livre como gostaria que todas fôssemos.

Pessoas        Sociedade