terça-feira, 5 de maio de 2026

Conclusão

 

João Jesus > Rosa Silvestre: Baixar a idade da reforma é ter menos gente a contribuir num País envelhecido. Isso levaria a um aumento de impostos brutal de quem trabalha hoje e de quem começará a trabalhar. Isso significa que os jovens no futuro, para hoje os reformados continuarem com reformas perto dos seus salários, a terem reformas de 30 a 40% do seu ordenado. Não é uma questão de explicar, é uma medida populista e impossível. Baixar a idade da reforma = a um brutal e não sustentável ou exequível aumento de impostos, só isto.

Luso > E market: Votei no Chega nas últimas legislativas como voto de protesto — um pontapé no formigueiro político‑mediático instalado neste país. Fi-lo consciente de que o Ventura não demonstra capacidade nem uma visão de futuro para Portugal. Agora que tem a oportunidade de dar uma pequena machadada no mesmo socialismo que sempre criticou — e que tantos obstáculos coloca à vida dos portugueses — revela-se afinal alinhado com essa mesma lógica. Na prática, confirma aquilo que muitos já apontavam: um populismo no pior sentido da palavra, mais preocupado com o jogo político do que com qualquer transformação séria do país.

paulo mariano: Artigo certeiro. Quem fala do CHEGA fala de duas coisas : uma camada dirigente de segunda , terceira ou quarta linha que não encontrou palco e oportunidade nos partidos da 1ª liga e um líder egocêntrico, "predador narcísico " tal como foi identificado pelo afastado Gabriel Mithá Ribeiro.

Eduardo Russo: Excelente! A berrar, a incendiar e dividir, ninguém bate Ventura! Soluções práticas, visíveis exequíveis, nada! Espero que o eleitorado perceba rapidamente que este demagogo, populista e pantomineiro, repito, nada tem para melhorar o país...

Ricardo Ribeiro > Glorioso SLB: Bom dia caro Glorioso,

Peço desculpa mas o CDS destruiu-se a si próprio, basta ver a quantidade de ex líderes que viraram socialistas, ex- Freitas do Amaral, Basílio Horta e agora Chicão. Isto para não falar do irrevogável e globalista Portas.

Francisco Ramos: Estamos perante um politico que confunde coragem politica com imbecilidade. Ainda é bastante jovem para anunciar a sua morte politica mas é o que o espera. Cheguei a pensar um dia votar AV, mas perante o descalabro do seu pensamento, antes abster-me do que algum dia votar AV.

Carlos Quartel: Tempo de alguém com prestígio na área chame os bois pelo nome.  Ventura foi sempre uma fraude, um oportunista, com boa capacidade de identificar incómodos, frustrações e receios dos portugueses. Aproveita-os, diz-lhe os que eles querem ouvir, distorce a realidade para ir ao encontro dessas percepções e captou, surpreendentemente. um quarto do eleitorado. Mas nada tem com direita ou esquerda, ali só há oportunismo.  Nunca houve maioria de direita, a sociedade portuguesa é assistencialista. não funciona sem o papá Estado, nada tem a ver com gente com iniciativa e ambição, com projectos de desenvolvimento e enriquecimento pessoal. Importante que seja JMF a dizê-lo, não vão ter lata de lhe chamar socialista, espero.

Novos tempos


Não, não são de valentia, mas de alegre despudor bem-falante, as conquistas dos heróis de hoje. Não há Rubicão que lhes resista. Negócio é o que parece ser.

 

 O Chega, e André Ventura, atravessaram o seu Rubicão

A forma como André Ventura está a sabotar qualquer hipótese de rever a lei laboral mostra que apenas se rege pelos barómetros de popularidade e que se iludem todos os que falam de maiorias de direita.

JOSÉ MANUEL FERNANDES

OBSERVADOR, 04 mai. 2026, 00:25

12017, restaurante “O Madeirense”. André Ventura entra e é ovacionado. Umas semanas antes ele ainda era um ilustre desconhecido que almoçara no mesmo local sem provocar qualquer reacção. Agora não – agora estávamos na comoção que se seguira às suas declarações sobre a comunidade cigana enquanto candidato do PSD à câmara de Loures. E ali, naquele restaurante lisboeta, o jovem político (tinha então 34 anos), interpretou o apoio de forma linear: “se calhar devíamos formar um novo partido”, desabafou com quem o acompanhava.

Este episódio vale o que vale, mas para mim é um indicador claro: Ventura percebeu que dizer aquilo que não podia ser dito mas muita gente pensava era um passaporte para o sucesso na política – e em eleições. Mais: que acertar naquilo que as pessoas desejam, mesmo que desejem sem noção da viabilidade dos seus desejos, é a melhor das receitas para ter sucesso no mercado dos votos. Mais ainda: este episódio, e a forma como depois Ventura nunca mais deixou o filão da denúncia dos alegados abusos associados à etnia cigana, sinalizam a meu ver a natureza profunda do líder do Chega.

Essa natureza não é a de um ideólogo – é a de um populista, e populista no sentido de dizer aquilo que muitos querem ouvir, mesmo que irrealista.

Essa natureza que não é também a de alguém estruturalmente de direita – como muitas vezes se diz, tem dias: os dias em que chega a ser reaccionário e os dias em que alinha com os partidos mais à esquerda a pedir mais Estado.

2Há duas coisas que tenho dito muitas vezes sempre que falo de Ventura e do Chega. A primeira é que se o compararmos com os líderes europeus da chamada direita radical, ele mais facilmente se identifica com demagogos que cavalgam a primeira causa popular (o melhor exemplo será o de Salvini, o líder da Lega italiana) do que com aqueles que possuem um pensamento estruturado e coerente (e aí lembro-me sempre de Giorgia Meloni). Infelizmente a amalgamação que é tão comum nos órgãos de informação não nos ajuda a perceber melhor o personagem e muito menos a entender a sua agenda e o seu modo de actuação.

A segunda é que, ao contrário de uma daquelas verdades que podem ser apenas ilusões, não estou nada certo que Ventura esteja destinado a um dia ser primeiro-ministro ou mesmo que consiga continuar a somar sucessos eleitorais.

A meu ver os últimos dias têm confirmado estas minhas intuições e tornado bem evidente outra das ilusões dos dias que vivemos: a de que, de repente, existe em Portugal uma maioria de direita que só não transforma o país porque Montenegro é um cobarde e um calculista.

Que Montenegro é um calculista não duvido, até dou de barato a tema da sua coragem política, aquilo de que discordo mesmo é da ideia de que temos em Portugal, com tradução parlamentar, o que se convencionou chamar “uma maioria de direita”, maioria tão sólida e tão grande que até poderia, se quisesse, mudar a Constituição.

Não sendo eu daqueles que dividem o mundo, de forma muitas vezes maniqueísta e redutora, entre “esquerdas” e “direitas”, a verdade é que essa chave de leitura ajuda-nos a perceber inclinações políticas talvez não nos ajude é a perceber o Chega e André Ventura se abandonarmos o reducionismo das classificações que ao primeiro TikTok o engavetam logo na extrema-direita.

3Senão vejamos o que se passou nas últimas semanas.

De um lado temos um Governo que, com mais ou menos habilidade política e sensibilidade negocial, tenta concretizar uma das poucas reformas na sua agenda, a reforma laboralJá escrevi sobre o tema, não me vou repetir, mas não acreditando em “balas de prata” que só por si tornem a nossa economia mais competitiva, não duvido que muitas das medidas propostas pela equipa de Maria do Rosário Palma Ramalho vão no bem sentido, são importantes, diria mesmo urgentes.

Do outro lado temos as oposições inevitáveis das extremas-esquerdas, CGTP incluída, a oposição ressabiada do PS (que nesta matéria permanece preso a uma reforma iníqua que fez com os partidos à sua esquerda) e a oposição incompetente, cobarde, mas teimosa, da UGT.

No Parlamento haveria, teoricamente, uma maioria capaz de derrotar estes bloqueios, uma maioria capaz mesmo de chegar aos dois terços do deputados. Mas só teoricamente porque o Chega, e André Ventura, só para alguns temas são “de direita”, para menos temas ainda serão “liberais”.

Aquilo que Ventura nos disse por estas semanas é que só estaria disponível para aprovar a legislação laboral se, em simultâneo, fosse reduzida a idade da reforma. Trata-se de uma posição que nada tem a ver com ideologia – tem apenas a ver com populismo, tem apenas a ver com a natureza profunda de Ventura, alguém cuja bússola é mais depressa o aplauso à entrada em “O Madeirense” do que qualquer projecto para tornar Portugal um país melhor.

4Olhando para os documentos programáticos do Chega a actual posição de Ventura não faz sentido e muito menos é coerente.

Primeiro, porque o Chega se diz liberal, e cito do seu programa: “O ideal da mão invisível, de Adam Smith (1759/1776), representa a defesa do mercado livre de ideias tão fundamental à autorregulação da sociedade, quanto o mercado livre de bens e serviços é fundamental à autorregulação da economia”. Eu sei que o programa é de 2021, mas ainda é o oficial, que eu saiba.

Depois porque, consultando o seu programa eleitoral de 2025 (ou seja, o mais recente), não encontramos qualquer referência à necessidade de baixar a idade da reforma. Fala-se disso a propósito de algumas categorias profissionais (bombeiros, por exemplo), refere-se isso como bónus para as mulheres que tiverem mais filhos, mas nunca o tema é abordado como uma medida transversal.

O que André Ventura está a fazer é simples: está a definir uma fasquia intransponível por qualquer governo responsável. Não vou discutir aqui o tema em detalhe, mas a sustentabilidade do nosso sistema de Segurança Social nunca suportaria uma medida como a agora defendida pela Chega. Do ponto de vista orçamental e social, tal medida seria tão irresponsável como os desvarios socráticos que nos levaram à bancarrota, com a agravante de ser ainda mais difícil de corrigir no futuro.

O que André Ventura parece pretender é também transparente: nunca deixar de ser oposição, mesmo quando pode ser solução.

5Na última semana a prestação do líder do Chega no debate parlamentar com o primeiro-ministro só confirma esta análise, pois apenas fez coro com todos os que, à esquerda, pediram mais Estado, mais gasto público, mais subsídios, mais irresponsabilidade orçamental, sempre naquela óptica de que se podem oferecer milhões (baixando o IVA da alimentação, por exemplo) cortando tostões (acabando com alguns abusos nos subsídios pagos pelo Estado).

O caminho escolhido por Ventura – mais Estado, mais leis iliberais – não converge em momento nenhum com o caminho necessário a uma agenda reformista. Pelo contrário: converge sim com a desgraçada tradição do autoritarismo corporativista, alinha também com a agenda bloqueadora das esquerdas contemporâneas, essas esquerdas que se entrincheiram em cada tema clamando sempre contra os “retrocessos civilizacionais” quando são elas que estão presas no passado.

O caminho escolhido por Ventura, e que não sei se algum dia deixará de ser o dele, é um caminho que apenas parece seguir aquilo que mais facilmente pode receber um sonoro aplauso à mesa do café ou muitos likes nas redes sociais.

Por outras palavras – Ventura não é de direita nem representa a direita com que sonham alguns articulistas. Ventura é apenas um político extremamente habilidoso, alguém com uma enorme sensibilidade para sentir o ar do tempo, um tribuno talentoso mas que em nenhum momento deu sinais de estar preparado para apoiar medidas que não passem por dar mais dinheiro, já, a toda a gente (menos aos ciganos e aos indostânicos).

6Quando, em 49 a.C., um general chamado Júlio César decidiu cruzar, com as suas tropas, o Rubicão, no norte de Itália, violando as convenções que regiam a República, sabia que estava a desafiar o Senado e a que a guerra civil seria inevitável. “Alea iacta est” (a sorte foi lançada) terá então dito, e no início parecia que nada o deteria, pois venceu os exércitos que se lhe saíram ao caminho e tornou-se ditador. Parecia imparável – até que foi assassinado, cinco anos depois.

Agora, ao torpedear qualquer acordo “à direita” para reformar a legislação laboral, e ao fazê-lo desenterrando reivindicações da ultra-esquerda (a idade da reforma), André Ventura cruzou o seu próprio Rubicão. No curto prazo pode estar a enfraquecer a governação de Luís Montenegro, no médio prazo está a condenar qualquer hipótese de “a direita” funcionar em Portugal como agente de reformas e de progresso. É por isso que o seu populismo é também um populismo de curto prazo e vistas curtas.

ANDRÉ VENTURA        PARTIDO CHEGA        POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 105)

Álvaro Venâncio: Excelente crónica de JMF, com a qual concordo plenamente. Infelizmente para o país que necessita de enormes reformas, sobretudo muito menos Estado, André Ventura não chega onde era preciso chegar.

Miguel Seabra: Depois de prometer pensão mínima igual ao ordenado mínimo, André Ventura exige redução da idade da reforma. Votei no Chega e no AV por gratidão e admiração pela sua coragem de enfrentar e desmascarar o socialismo. O povo nas eleições votou na mudança e renegou o socialismo. Critiquei Montenegro pelo “não é não” que na prática significava não à mudança e mais do mesmo. Agora vejo AV na cegueira de caçar mais votos a promover tudo a todos, nem o Costa se atreveu a tanto. O AV socialista/populista poderá ter mais votos, o meu não terá mais. Que desilusão….

Glorioso SLB: Existe um partido q é conservador nos costumes e liberal na economia. Chama-se CDS. Mas a comunicação social smp o perseguiu. Têm agora este belo Chega como resultado.

(CONTINUA)

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Quem pode

 

Manda. Lá, também, afinal, num mundo imutável, de toleima superando o bom senso, aqui como ali, o “Mudam-se os tempos não já como soía” nem sempre batendo certo, a sabedoria camoniana definitivamente ultrapassada pela russa, Salazar bem o sabendo, Putin o demonstrando, perseguindo, prosseguindo …

Getty Images

O "gulag digital", a economia a decair e a guerra sem fim: a vaga inédita de críticas a Putin na Rússia

 

Economistas, influencers e até aliados comunistas: Putin está a ser criticado por bloqueios à internet, má gestão da economia e guerra sem fim. Presidente admite algumas falhas, mas aperta a malha.

JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

OBSERVADOR,03 mai. 2026, 18:20

ÍNDICE

O vídeo da influencer com que muito russos se identificaram

A “batalha burocrática” entre as secretas e o Governo sobre o bloqueio na Internet

Popularidade de Putin está a cair nas sondagens: “Notável”

A economia em queda e a população a pagar a guerra

As baixas russas e a alienação de Putin sobre a guerra

Revolução de Outubro de 1917. Foi a este evento histórico que instaurou a ditadura do proletariado liderada por Vladimir Lenine que o Partido Comunista da Federação Russa recorreu, no dia 21 de abril, para manifestar o seu descontentamento numa sessão no Parlamento.Se não forem tomadas urgentemente medidas financeiras e económicas, até ao outono espera-nos uma repetição do que aconteceu em 1917”, afirmou o secretário-geral comunista, Gennady Zyuganov. As declarações foram surpreendentes; afinal, o fogo era amigo, já que o Partido Comunista russo evita muitas vezes criticar Vladimir Putin. O responsável enfatizou que o partido está a “fazer tudo ao seu alcance para apoiar Putin”, mas ninguém o “está a ouvir”.

Para se manter no poder, o Presidente russo forjou alianças com vários sectores da sociedade russa, incluindo os nostálgicos da União Soviética e os que idealizam o passado comunista. Daí que estas críticas, vindas de um partido que se subjugou ao Kremlin e fechou os olhos à deriva autocrática da Rússia, sejam particularmente significativas. Até os apoiantes do regime começam a ficar descontentes — e a ter coragem de denunciar publicamente a actual situação que fez com que a popularidade de Vladimir Putin caísse nas últimas semanas.

O que está a motivar o descontentamento de muitos é o gulag digital que o Kremlin está a colocar em marcha, à semelhança do que a China fez com a Great Firewall. A presidência russa está a bloquear VPNs e vários sites — incluindo redes sociais populares — e impôs cortes prolongados da internet móvel em várias zonas do país, incluindo Moscovo, onde o blackout durou quase três semanas e deixou milhões de pessoas sem acesso a serviços digitais. O regime parece ignorar a importância que a internet tem hoje para o quotidiano dos russos, pretendendo em simultâneo que a população use aplicações específicas criadas e controladas pelo Estado.

 O secretário-geral do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, avisou que "até ao outono" pode haver uma nova "Revolução de Outubro" GETTY IMAGES

ÍNDICE

Ao mesmo tempo, a conjuntura económica não melhora e as projecções continuam longe de ser favoráveis. Embora as receitas das exportações de petróleo tenham aumentado por causa da guerra do Irão e do bloqueio do Estreito de Ormuz, isso não chega nem para compensar o agravamento dos indicadores financeiros russos, nem para diminuir o custo de vida da população. O principal motivo? A guerra na Ucrânia. O conflito continua a absorver uma fatia crescente do Orçamento do Estado russo, canalizando recursos para sustentar o esforço militar.

No campo de batalha, a longo prazo, as perspectivas não são nada favoráveis a Vladimir Putin. Usando métodos inovadores e disruptivos, a Ucrânia tem conseguido avançar em várias partes da linha da frente nas últimas semanas. Entretanto, a União Europeia (UE) aprovou um pacote de 90 mil milhões de euros, verba que será crucial para sustentar o esforço de guerra ucraniano nos próximos dois anos. Em paralelo, a UE impôs o 20.º pacote de sanções contra Moscovo, pelo que a economia russa continuará sob forte pressão nos próximos tempos.

Tudo isto está a aumentar a insatisfação dos russos, quase privados de internet e a viver num país com uma economia cada vez mais frágil para sustentar o esforço de guerra na Ucrânia. Como tem acontecido no seu longo mandato de 26 anos, solução de Vladimir Putin passa por esmagar a dissidência e silenciar as críticas. Contudo, até parte da elite e os seus apoiantes estão a contestar a forma como o Presidente russo tem actuado nas últimas semanas. E há vozes da sociedade civil — como a da influencer e antiga apresentadora de televisão Victoria Bonya — que tiveram a coragem de denunciar o que se está a passar na Rússia: “Vladimir Vladimirovitch, as pessoas têm medo de si”.

O vídeo da influencer com que muito russos se identificaram

Victoria Bonya tem mais de 600 mil seguidores no Instagram. Foi modelo, participou em reality shows na Rússia e tornou-se apresentadora de televisão. Há alguns anos deixou o país, mudou-se para o Mónaco e passou a viver como influencer. Faz vídeos nas redes sociais a mostrar as roupas que usa, as marcas que consome, a sua paixão pelo montanhismo e as suas escaladas no Monte Evereste. Como muitos russos, Victoria Bonya nunca tinha demonstrado publicamente as suas opiniões políticas. Nem tinha razões para o fazer: vivia no estrangeiro e usufruía de um estilo de vida luxuoso.

influencer é particularmente activa no Instagram — rede social que se tornou extremamente popular na Rússia e onde mostra os outfits e os produtos luxuosos que consome. Mas o modo como ganha dinheiro está a mudar radicalmente. O Kremlin proibiu o acesso a todos os sites geridos pela Meta, o conglomerado norte-americano que detém o Instagram, o Facebook e o Whatsapp. Victoria Bonya sente na pele as ordens da presidência russa, ainda que os seus efeitos estejam a ser parcialmente mitigados pelo uso de VPNs, que ainda permitem que muitos russos contornem os bloqueios e simulem a localização noutro país.

Muitos estão na situação de Victoria. Durante anos, apesar de todas as limitações na liberdade de expressão, os russos puderam partilhar fotos e escrever publicações nas redes sociais geridas no Ocidente, desde que não criticassem abertamente o Governo. Puderam montar negócios no Instagram. Fazer publicidade no Google. Trocar mensagens no Telegram. O Kremlin deseja terminar com isto. Na prática, as principais redes sociais ocidentais estão a ser bloqueadas ou a sua utilização está a ser bastante restringida. A única alternativa é migrar para plataformas como o Max, que é controlado pelo Estado. Mas muitos temem estar a ser monitorizados e leva tempo para construir uma nova base de seguidores e clientes de raiz.

 Victoria Bonya, a influencer que desafiou Vladimir Putin, mas que garantiu não ser uma "traidora"

GETTY IMAGES

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Contrariamente a outras restrições à liberdade de expressão, esta atinge praticamente todos os russos: desde a influencer que trabalha no Mónaco até ao funcionário público de meia‑idade na Sibéria. Até mesmo os oligarcas e as elites com quem Vladimir Putin procura manter boas relações deixaram de poder aceder ao Instagram diretamente. Pior: o Kremlin tem chegado ao ponto de cortar a internet móvel durante semanas em várias partes do país com a justificação de que essas medidas servem para prevenir ataques ucranianos em solo russo.

Por tudo isto, a mensagem de Victoria Bonya tornou-se viral. Através de VPNs, milhões de russos viram o vídeo — e identificaram-se com ele. “Há uma sensação de que já não vivemos num país livre”, disse a influencer, que abordou no vídeo os bloqueios à internet e os problemas quotidianos em várias partes da Rússia. “Sabe qual é o risco? Que as pessoas deixem de ter medo, que estejam a ser comprimidas como uma mola e que, um dia, essa mola rebente”, avisou.

A presidência russa reagiu a este vídeo e assegurou tê-lo visto. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, admitiu que o vídeo “é bastante popular”, se bem que desvalorize muitas das críticas da influencerEstá a ser feito muito trabalho” quanto aos “muitos temas” abordados pelo vídeo. Nos bastidores, o regime russo terá instruído os meios de comunicação para não o explorarem e para apenas mencionarem a resposta do porta-voz. Na mesma linha, Victoria Bonya veio dizer que não era “traidora” e agradeceu à resposta de Dmitry Peskov. “Amo o meu país, não o vou trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a dizer. Não sou nenhuma figura da oposição.”

“Amo o meu país, não o vou trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a dizer. Não sou nenhuma figura da oposição."

Influencer Victoria Bonya

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influencer russa no Mónaco não vai seguir o caminho político. O seu vídeo não deixa, ainda assim, de ser um sintoma dos problemas que os russos enfrentam diariamenteNum artigo escrito no site do think tank Carnegie Endowment for International Peace, a analista Tatiana Stanovaya recorda que o russos “se habituaram a uma sociedade altamente digitalizada nas últimas duas décadas”. As proibições do início da guerra nunca “tiveram grande impacto”, mas, em poucas semanas, o “mundo online que conheciam começou a desintegrar-se”.

A “batalha burocrática” entre as secretas e o Governo sobre o bloqueio na Internet

A ideia de bloquear redes sociais e sites ocidentais encaixa na lógica de um Estado cada vez mais autoritário, liderado por um antigo agente do KGB. Para o Kremlin, as plataformas que não controla totalmente representam um sério risco: o que os cidadãos escrevem escapa ao filtro estatal e a gestão de conteúdos está nas mãos de grandes tecnológicas estrangeiras, cujos donos podem não acatar as ordens de Moscovo.

A incógnita aqui não está tanto nos motivos, mas no timing e na maneira como Moscovo está a lidar com tudo isto. É certo que a Rússia tem eleições parlamentares marcadas para setembro de 2026 e é costume que, nos meses que antecedem momentos eleitorais, o Governo aperte a malha. O que é inédito desta vez é o grau de indiferença do regime perante o tom das críticas: o Kremlin avançou com cortes e bloqueios massivos sem se preocupar em explicar de forma convincente por que razão tomou esta iniciativa.

 Russos no metro de Moscovo a usar o telemóvel

GETTY IMAGES

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 “As consequências políticas do esforço para estabelecer um controlo total da internet permanecem incertas, mesmo para quem trabalha para o regime”, diz Tatiana Stanovaya, explicando que as repercussões passam por “sabotagem cautelosa por parte de funcionários de base, críticas directas de apoiantes e murmúrios de dissidência — e algum pânico — entre empresários”. “Esta insatisfação ganha tracção com as frequentes interrupções na internet, que tornam impossíveis tarefas antes simples.”

Isso tem muito a ver com quem está por trás deste bloqueio, como revelou o portal de investigação The Bell: o Serviço Federal de Segurança (FSB). É o Segundo Serviço do FSB — o ramo das secretas russas responsável pela “protecção da ordem constitucional” e pelo combate ao “extremismo” interno — que teorizou e está a pôr em marcha o plano de controlo da internet. Como lembra a jornalista russa que colaborou com a investigação, Maria Kolomychenko, num artigo publicado pelo think tank Carnegie Endowment for International Peace, trata‑se do mesmo grupo de operacionais que esteve envolvido no envenenamento do líder da oposição Alexei Navalny, em 2020.

A transferência da supervisão da internet russa “de técnicos dos departamentos do FSB para o Segundo Serviço” fez com que a missão passasse a estar focada em encontrar inimigos internos. “Para eles, a internet não representa uma infraestrutura que permite a troca de informações ou que contribui para o crescimento económico, mas antes um ambiente suspeito e caótico que requer aplicar um filtro constante”, aclara Maria Kolomychenko. Esta abordagem mais radical terá sido ordenada directamente por Vladimir Putin. O Presidente russo sempre confiou no FSB, o principal herdeiro do KGB nos serviços secretos russos.

 Vladimir Putin numa reunião no FSB

POOL/AFP via Getty Images

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Ainda assim, surgem várias interrogações e até disputas internas. Um relatório de 2022, baseado em informações de vários serviços de informações ocidentais e citado pelo Wall Street Journal, apurou que o chefe de Estado não usa internet e prefere escrever tudo à mão, receando ser espiado. Em teoria, um líder quase infoexcluído pode não ter plena noção do impacto quotidiano destas medidas sobre a vida dos cidadãos.

Neste contexto, o poder russo está dividido entre o Segundo Serviço e outras facções que pretendem a aplicação de restrições menos severas na internet. Numa batalha burocrática em curso, de um lado está o FSB e do outro está o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, juntamente com o seu protegido político, Maksut Shadayev, que é o atual ministro do Desenvolvimento Digital. “Está a propor uma abordagem menos destrutiva em alcançar o controlo total da internet”, nota Maria Kolomychenko sobre os esforços do actual governante.

A frustração não é sentida apenas por membros do Governo russo. Outros grandes empresários e políticos têm expressado a sua insatisfação. Além disso, até os responsáveis por gerir a imagem pública de Vladimir Putin no Kremlin estão “claramente irritados” com o “bloqueio dos serviços de segurança”. De acordo com TATIANA STANOVAYA, muitos responsáveis no Kremlin estão insatisfeitos com “a imprevisibilidade, os limites à sua capacidade para exercer influência e o facto de serem excluídos das decisões sobre a forma como as pessoas entendem e avaliam as autoridades”.

"Para o FSB, a internet não representa uma infraestrutura que permite a troca de informações ou que contribui para o crescimento económico, mas antes um ambiente suspeito e caótico que requer aplicar um filtro constante." Jornalista Maria Kolomychenko

 

(CONTINUA)