quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Um país grande

 

Falo, naturalmente, dos States.


O feitiço Trump quebrou-se. A noite em que a impopularidade do Presidente levou a uma vitória histórica dos democratas

Cátia Bruno:  Texto

A "onda azul" foi ainda mais avassaladora do que as sondagens previam. Democratas conquistaram tudo o que podiam, à sombra do descontentamento com a guerra do Irão. Mas Trump já ajusta o discurso.

OBSERVADOR, 04 nov. 2026, 06:59

Índice

A primeira reviravolta vinda das Carolinas e as viradas na Câmara dos Representantes

Texas e Kansas. Talarico e Hamilton provam que é possível conquistar até os estados mais republicanos

Perante uma derrota esmagadora, Trump ajusta o discurso: “Vou trabalhar com os democratas”

Desta vez, as sondagens não falharam. Aliás, talvez tenham falhado, mas por defeito. A vitória dos democratas nestas eleições intercalares foi uma vitória em toda a linha: controlo da Câmara dos Representantes, controlo do Senado e eleição de governadores em estados inesperados como o Texas e o Iowa. Até à noite desta terça-feira, falava-se na possibilidade de uma onda azul; na madrugada desta quarta, era evidente que o que deu à costa foi um tsunami.

É uma vitória mais por demérito de Donald Trump do que por mérito dos democratas. Embora a oposição tenha costurado uma coligação de candidatos escolhidos à medida de cada estado — ora mais ao centro nos locais mais conservadores, ora mais à esquerda em terreno favorável à esquerda —, o denominador comum da eleição foi o voto de rejeição à presidência. A guerra do Irão e a subsequente escalada dos preços dos combustíveis, combinadas com o impacto das tarifas em grupos como os agricultores e o desagrado com os raides do ICE entre o eleitorado latino, levaram a popularidade de Trump a cair a pique. E, nestas eleições intercalares, os eleitores fizeram questão de demonstrar o seu desagrado, rejeitando muitos candidatos republicanos que tinham recebido o apoio directo do Presidente.

A primeira reviravolta vinda das Carolinas e as viradas na Câmara dos Representantes

O primeiro sinal chegou com a vitória na Carolina do Norte de Roy Cooper, governador do estado durante vários anos que conseguiu roubar o lugar no Senado aos republicanos. O adversário, Michael Whatley, tinha sido um dos poucos candidatos republicanos que se tinha mantido firmemente ao lado de Trump. Depois vieram as vitórias de Jon Ossoff (Geórgia) e Chris Pappas (New Hampshire), que permitiram aos democratas respirar de alívio por não terem perdido dois lugares fulcrais dos que controlavam no Senado.

Ao longo da noite, os resultados que iam chegando da câmara alta mantiveram vivas as esperanças dos democratas (e sublinharam o desagrado do eleitorado com Trump). A segunda virada ocorreu com a vitória de Annie Andrews sobre Darline Graham na Carolina do Sul — um estado que não vota num Presidente democrata desde Jimmy Carter (1976). Trump tinha escolhido pessoalmente Darline para ocupar o lugar no Senado do seu irmão Lindsay Graham, que morreu em julho, e incentivou-a a candidatar-se para o continuar a substituir, apesar da sua inexperiência. Foi a rejeição de um modus operandi de Trump que resultou ao longo de vários anos, mas que parece estar a chegar ao fim.

GettyImages-2299767726

▲ Roy Cooper, eleito senador pela Carolina do Norte

Índice

E os sinais não vinham apenas das duas Carolinas. Na Flórida, a candidata apoiada pelos socialistas democráticos (DSA) Angie Nixon não conseguiu conquistar o lugar no Senado, mas bateu-se melhor do que o esperado — o que ilustra a queda do movimento MAGA até no estado que ao longo dos últimos anos se tornou o expoente máximo do trumpismo. Apesar do gerrymandering na Flórida que alterou as fronteiras dos círculos eleitorais (deixando-os, em teoria, mais favoráveis aos republicanos), os democratas tiveram três vitórias de peso para a Câmara dos Representantes, nos distritos 14.º, 22.º e 25.º.

A onda azul foi varrendo múltiplos distritos por todo o país. Na Pensilvânia, Page Cognetti e Bob Brooks roubavam lugares na Câmara a candidatos republicanos; na Virgínia, Shannon Taylor derrotou um incumbente que estava no cargo há quase 20 anos, enquanto a veterana da Marinha Elaine Luria virou o 1.º distrito; o mesmo fizeram Jamie Ager na Carolina do Norte e Zach Dembo no tradicionalmente republicano Kentucky. E Manny Rutinel foi outro democrata a conseguir virar um distrito (o 8.º do Colorado).

Apesar de Rutinel e o bombeiro Brooks não serem formalmente parte da ala dos socialistas democráticos (DSA), são políticos cujas ideias se enquadram no discurso de crítica à desigualdade económica, personificado nos milionários e grandes empresas, que se tem tornado popular dentro do Partido Democrata — e que se tem revelado também popular entre muitos eleitores. Os resultados de alguns candidatos do DSA em territórios favoráveis aos democratas confirmam que não leram mal a sala: a Alexandra Ocasio-Cortez, Rashid Tlaib, Ilhan Omar e Ayanna Pressley (a famosa “The Squad”), juntam-se agora na Câmara dos Representantes figuras como Darializa Avila Chevalier (por Nova Iorque), Melat Kiros (Colorado) e Donovan McKinney (Pensilvânia).

Texas e Kansas. Talarico e Hamilton provam que é possível conquistar até os estados mais republicanos

Ainda não eram onze da noite na costa leste dos Estados Unidos quando, dentro do Partido Republicano, já se reconhecia que a noite estava a ser um desastre: “É muito pior do que se pensava”, desabafou um responsável do partido ao Washington Post. Menos de meia hora depois, a imprensa norte-americana confirmava que a Câmara dos Representantes tinha sido conquistada pelos democratas.

Sobrava a dúvida do Senado: iria o Partido Democrata conseguir conquistar os quatro lugares de que precisava para a maioria (sem perder nenhum noutros estados)? A noite encarregar-se-ia de responder rapidamente à pergunta. Uma hora depois do desabafo do republicano ao Post, chegava uma avalanche de resultados que punha fim à dúvida: Texas, Ohio, Kansas, Iowa. Todos os lugares do Senado nestes estados foram para os democratas.

A dimensão da vitória é histórica, mas o simbolismo de algumas corridas também. A última vez que um democrata foi eleito para o Senado no Texas foi em 1988 — ano em que o agora vencedor James Talarico ainda não tinha nascido. O jovem de 37 anos é um dos rostos da mudança no Partido Democrata, como ficou claro pelo tempo de antena que os canais de televisão concederam ao seu discurso de vitória. Nem os milhões injectados na campanha do adversário Ken Paxton por Elon Musk conseguiram travá-lo.

▲ James Talarico, eleito senador pelo Texas

Índice

No Ohio, Sherrod Brown reconquistou o lugar que em tempos foi seu e que perdera com o regresso de Trump em 2024. No Iowa, a estratégia centrista de Josh Turek revelou-se certeira, conseguindo derrotar a republicana Ashley Hinson, que nas últimas semanas se tinha tentado distanciar do Presidente. Talvez nada ilustre mais a viragem desta noite do que a vitória do pastor Adam Hamilton no Kansas: republicano tornado democrata, pintou de azul um estado que não elegia um senador democrata há quase cem anos (a última vez foi em 1932).

Perante uma derrota esmagadora, Trump ajusta o discurso: “Vou trabalhar com os democratas”

Perante a derrota, dentro da Casa Branca começava a afinar-se a resposta. “O Presidente Trump não estava no boletim de voto e está provado que os eleitores de Trump vão votar quando é ele que está no boletim. Para além disso, a qualidade dos candidatos importa e o Presidente fez um melhor trabalho a promover alguns dos candidatos do que eles próprios”, soprou uma fonte da administração a alguns jornalistas durante a noite. O mote estava dado: daqui para a frente, a estratégia seria a de culpar os próprios candidatos e não o Presidente pela derrota, apesar de todos os estudos de opinião indicarem que terá sido o contrário. Na TruthSocial, Trump repetiu mais tarde o argumento e prometeu vetar tudo o que os democratas aprovarem no Congresso.

Mas Trump não se tornou o maior disruptor da história da política norte-americana por acaso. Fazendo uso do seu faro, ajustou o discurso ao longo da noite: ao New York Times, disse estar “completamente disponível” para aceitar os resultados e prometeu “trabalhar com os democratas”; mais tarde, reconheceu à Fox News que as pessoas “não gostaram” da subida de preços provocada pela guerra no Irão.

Índice

É que a derrota não se traduziu apenas na reconfiguração do Capitólio. Por todo o país houve derrotas republicanas em executivos locais, como no Iowa, onde os democratas voltaram a eleger um governador pela primeira vez desde 2011, e no Texas, onde Greg Abbott perdeu para Gina Hinojosa, que será a primeira governadora latina do estado. No Ohio, um dos principais aliados do Presidente, Vivek Ramaswamy, também foi derrotado — Amy Acton torna-se assim a primeira governadora democrata deste estado em 20 anos.

Já de madrugada, o Presidente continuava a desdobrar-se em telefonemas e os democratas respiravam de alívio. Mas a eleição ainda não tinha acabado. Corridas que durante semanas captaram toda a atenção mediática, como a do Maine e a do Michigan para o Senado, pareciam agora esquecidas. Até que os resultados saíram: no primeiro estado, a veterana republicana Susan Collins perdeu; no segundo, Mike Rogers foi batido pelo insurgente democrata Abdul El-Sayed. O apoio de Trump, que em tempos foi um bálsamo para qualquer candidato republicano, não salvou nenhum deles. Pode até ter decretado a sua derrota.

Estados Unidos da América      América      Mundo

COMENTÁRIOS:

Ricardo Frade

Não há muito a dizer. Trump prometeu menos custo de vida, baixar a inflação de Biden, reverter a desindustrialização, aumentar salários, fazer o tal “drain the swamp” de casos como Epstein e afins, acabar com as guerras, reduzir imigração, eliminar o wokismo. Cumpriu nas últimas duas.

O problema é que, cá como lá, a malta vota com a carteira. A classe média está pior do que estava e ninguém ganha eleições sem classe média.

Agora é o costume: Trump vai dizer que não tem qualquer ligação ao desastre dos resultados e culpar os senadores não eleitos por serem demasiado fracos. Não é leal a ninguém e pede lealdade cega a todos. Um estrume de um homem que na véspera das Midterms achou que seria boa ideia gabar-se, pela centésima vez, das obras que está a fazer na sua Casa Branca.

Quem devia pedir um impeachment a este presidente eram os próprios republicanos, para seu bem.

TM C

Vim aqui só para ler os comentários chorosos dos apoiantes daquele estrupício.

Ricardo Frade > Garcia Moreno

Pois claro, já cá faltava a culpa da guerra do Irão, do crescimento da inflação, do enfraquecimento da classe média, do aumento do custo de muita matéria- prima por conta das tarifas, do sufoco dos agricultores americanos, da corrupção endémica da família Trump, fosse também ela toda dos russos.

L do Campo

É a "acampada" em vez de "acampamento". Agora a jornalista entra na onda e fala em "virada" em vez de "viragem"! Só falta falar em "resultada" em vez de "resultado".

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Repondo dados

 

Importantes para uma consciencialização política relevante.

CETERIS PARIBUS – 2»

novembro 02, 2026

Teve a globalização como objectivo principal dizer aos agentes económicos e financeiros que o mundo era de todos. Bom teria sido que, na teoria, tudo tivesse funcionado desse modo mas as coisas não correram de feição. A criação de uma nuvem quântica de actos económicos e financeiros em todo o planeta esbarrou logo de início com a existência de pólos magnéticos tais como os EUA, a Rússia, a China e a Europa.

Os grandes agentes económicos e financeiros tinham obtido a sua dimensão devido ao mercado doméstico de que cada um dispunha e com a globalização ganharam a legalidade para a destruição dos pequenos no resto do mundo.

Friedrich List (1789-1846) teve razão antes do tempo – anunciou que, em Acordos de Cooperação Económica entre Países com significativas diferenças de desenvolvimento, os «grandes» devorariam os «pequenos» - e, portanto, sentiu-se cilindrado pelos acontecimentos históricos que já faziam despertar a América como uma verdadeira potencialidade e uma Europa embrenhada em guerras intestinas.

Os pólos magnéticos que pretenderam introduzir a sua própria ordem no caos globalizante acabaram por germinar novas políticas proteccionistas. Veja-se o impasse do acordo entre a UE e o Mercosul para protecção dos agrários franceses.

Não é fácil nem sequer possível mexer apenas numa variável imaginando que a nuvem quântica se mantém imóvel. A História ainda tem muito para contar… venham bolas de cristal.

Novembro de 2026

Henrique Salles da Fonseca

 

Comentários

 

Adriano Miranda Lima, 2 de novembro de 2026 às 15:43:

Muito bem explicado, Dr. Salles da Fonseca, e felicito-o efusivamente por isso.

A globalização seria a expressão da boa-fé dos dominadores do planeta, auspiciando um mundo mais livre, mais próspero e mais igual, se a realidade nua e crua sobre sobre a natureza do homem não tardasse a revelar-se. Friedrich List (1789-1846) não terá necessitado de muito esforço para sustentar a sua premonição, e mais tarde outros, como Mário Soares, mesmo ainda na fase de arranque da globalização, não tardaram a duvidar dos seus créditos.

Imagine-se agora um mundo liderado por essas criaturas que actualmente carregam o horizonte das nossas vidas com nuvens negras. A globalização morreu de morte matada. Sr. Doutor, não é provável que alguma bola de cristal nos possa iluminar a esperança.

Responder

Anónimo, 2 de novembro de 2026 às 20:14

É precisamente o que descreve e o problema da malignidade do sistema é que os países sujeitos ainda têm de criar nas suas populações de que são ajudados pelas potências que fizeram dos governantes seus administradores. António da Cunha Duarte Justo

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

SOMOS POUCOS

março 09, 2026

    A área urbana de Londres tem cerca de 9,2 milhões de residentes; na região de Paris moram 11,2 milhões e Berlim alberga cerca de 6,4 milhões. Comparando com os nossos 10,75 milhões a nível nacional, resta a conclusão de que somos poucos. Mas, para além de sermos poucos em termos absolutos, somos ainda menos quando «contamos as espingardas» fiéis aos Valores da Europa Ocidental. Ou seja, no actual litígio contra o imperialismo russo, não podemos correr o risco de deixarmos que as nossas Forças Armadas e de Segurança sejam minadas por russófilos ou seus amigos. Eis a cautela que desaconselha a obrigatoriedade do Serviço Militar: nem todos merecem a honra de servir nas Forças Armadas. Não esbanjemos recursos com «tropa fandanga» cujo amadorismo só prejudica a eficácia dos profissionais. Centremo-nos em pequenas Unidades de grande operacionalidade e deixemos as maciças acções de «botas no terreno» para aliados mais populosos que nós. E assim me refiro às forças terrestres...

Ler mais

APELO URGENTE

julho 20, 2026

  CITANDO… ·        Das entrevistas de Salazar a António Ferro (1932/1933): ​ "O parlamentarismo é um sistema esgotado que divide os homens em vez de os unir. Sob a ilus ã o da liberdade parlamentar, cria-se a ditadura dos partidos e paralisa-se a ac çã o do Executivo, impedindo que se governe com efic á cia para o bem comum."       * * * O tom «lepeniano-melanchónico» que as televisões transmitem faz do nosso hemiciclo beneditino o patíbulo da serena razão em favor da ira permanente como se nas bancadas alheias pululassem os bandidos. * * * Senhores Deputados da Nação Portuguesa: Peço-vos que não dêem razão ao Doutor Salazar. Julho de 2026 Henrique Salles da Fonseca

Ler mais

ABRINDO A PORTA...

fevereiro 02, 2026

Ao estilo de Declaração de Princípios, esta é a casa do     … humanismo no sentido inequívoco do antropocentrismo em que o Estado serve o cidadão, por ultrapassagem do teocentrismo medieval e em oposição a todos os sistemas que obriguem a pessoa servir o Estado      … da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU 1948) e contra tudo que a contrarie;      … da sistemática busca da harmonização de interesses nem sempre concomitantes, por oposição a perturbadora luta de classes;      … da liberdade de pensamento e respectiva expressão;      …do pluripartidarismo que, abrindo alternativas de doutrina e estratégia, permite ao eleitorado (o verdadeiro «dono» do poder) a opção perene ou flutuante entre doutrinas e circunstâncias;      … da definição doutrinária do bem-comum, na esperança vinculada de que propostas disruptivas da harmonia e da liberdade como conceito unicitário chumbem nas urnas...

Ler mais

 Com tecnologia do Blogger

sábado, 31 de outubro de 2026

Cordialidade, sem dúvida


Do PS, que manda… pode e quer, no seu país sempre bem-amado.


PS vai tentar obrigar Governo a canalizar receitas extraordinárias da inflação para resposta à crise. Governo preocupado

Miguel Santos Carrapatoso: Texto

Rita Tavares: Texto

Socialistas estudam mecanismos para financiar medidas para custo de vida, incluindo canalizar a receita extra de IVA gerada pela inflação. Governo acompanha estratégia do PS com muita preocupação.

30 out. 2026, 19:36

(As mais lidas

BES. Juíza volta a negar extinção do processo contra Salgado

Ventura admite que não daria asilo a Flávio Bolsonaro

Chuva volta no próximo fim de semana. Depois, uma tempestade

Filha de Michael Jackson processa gestor da herança

Renata Cambra pede urgência ao tribunal

"Não gostei do que vi, mas não foi por culpa da polícia")

O PS tem prometido que as suas propostas de alteração ao Orçamento não vão agravar o saldo orçamental de 0,1% previsto pelo Governo. Para cumprir esse compromisso, está a estudar formas de compensar eventuais perdas de receita ou aumentos de despesa decorrentes das medidas que venham a ser aprovadas. Segundo apurou o Observador, a bancada parlamentar está a ponderar soluções que vão além das adoptadas no ano passado e uma das fórmulas para o conseguir passará pelo travão à receita fiscal extraordinária.

Em primeiro lugar, o PS vai propor no Orçamento do Estado um mecanismo de compensação imediata para as medidas de resposta ao aumento do custo de vida que pretende ver em vigor logo no início do ano. Carneiro já tinha defendido a sua aplicação em outubro, mas, nessa altura, não conseguiu sequer que o Parlamento aprovasse uma recomendação ao Governo nesse sentido. Agora, o partido levará essas medidas ao Orçamento, novamente com carácter temporário, acompanhadas de uma solução directa para compensar, pelo lado da receita, o respetivo impacto orçamental assim que entrem em vigor.

Já para financiar a eventual necessidade de prolongar essas medidas, caso a situação de crise persista, os socialistas vão também propor o mecanismo anunciado por José Luís Carneiro no debate do Orçamento. A solução que está a ser trabalhada pelo grupo parlamentar do PS e será também apresentada como proposta de alteração ao Orçamento prevê canalizar a receita fiscal adicional gerada por uma inflação superior aos 2,3% previstos para o ano — a tal que se faz “à custa dos sacrifícios dos portugueses” — para as medidas de resposta ao aumento do custo de vida que seja necessário manter.

O Governo acompanha tudo isto com preocupação e, sobretudo, enorme desconfiança. No caso do tal mecanismo de compensação imediata que o PS quer adoptar, os sociais-democratas reconhecem que existe um risco real de haver aquilo que se convencionou chamar ‘coligações negativas‘ entre o partido de José Luís Carneiro e André Ventura, com o Parlamento a impor medidas contra a vontade e orientação estratégica do Governo.

A outra frente de batalha do PS — a tal solução que está a ser trabalhada pelos socialistas de canalizar a receita fiscal adicional gerada por uma inflação superior a 2,3% — seria, aos olhos do PSD, uma violação flagrante de uma regra fundamental do direito orçamental, o princípio da não consignação, que estabelece que “não pode afetar-se o produto de quaisquer receitas à cobertura de determinadas despesas”. A Lei de Enquadramento Orçamental di-lo expressamente, ainda que admita também várias excepções e preveja claramente que é possível fazê-lo desde que “com carácter excepcional e temporário”.

Com os dados lançados, essa será, muito provavelmente, a batalha político-jurídica das próximas semanas. Esta quinta-feira, em entrevista ao Observador, Luís Testa, o secretário nacional adjunto do PS e vice da bancada do PS, apontava o caminho do partido: “A inflação está num percurso muito assinalável” e que isso significa “um aumento também ao nível da receita do IVA que está qualificado, do ponto de vista orçamental, como extraordinário e temporário. É exactamente essa a analogia que queremos para a diminuição do IVA dos produtos dos bens alimentares: não apresentamos uma proposta para reduzir o IVA do cabaz alimentar para todo o exercício do ano 2027″.

Tal só terá aplicabilidade prática se a inflação superar a previsão do Governo e daí resultar um acréscimo de receita para o Estado. E é isso mesmo que os socialistas acreditam que vai acontecer, sendo que não são os únicos: na análise à proposta de Orçamento do Estado, o Conselho das Finanças Públicas também identificou “riscos predominantemente ascendentes para a inflação”. A instituição notou que “uma evolução dos preços superior à incorporada no cenário macroeconómico poderá traduzir-se num aumento da receita fiscal nominal, em particular do IVA, atenuando eventuais desvios noutras componentes da receita”.

Joaquim Miranda Sarmentos tem-se desdobrado em avisos à navegação. "É importante os partidos mostrarem responsabilidade. O PS mostrou isso com esta decisão de responsabilidade, que eu espero que agora mantenha na fase de especialidade. É muito importante que o Orçamento que saia do Parlamento não seja desvirtuado. Não basta apenas viabilizar o Orçamento. É preciso não desvirtuar e garantir que o Orçamento que sai não venha com as contas desequilibradas"

(As mais lidas)

(BES. Juíza volta a negar extinção do processo contra Salgado

Ventura admite que não daria asilo a Flávio Bolsonaro

Chuva volta no próximo fim de semana. Depois, uma tempestade

Filha de Michael Jackson processa gestor da herança

Renata Cambra pede urgência ao tribunal

"Não gostei do que vi, mas não foi por culpa da polícia")

PSD antecipa Carneiro a cair na própria armadilha

Há um ano, o PS também entrou na negociação do Orçamento na especialidade com o objectivo de preservar o saldo inicialmente previsto. Apresentou, por isso, mecanismos de compensação que podem vir a ser repetidos este ano. Na proposta que fez para transformar um suplemento pontual aos pensionistas num aumento permanente das pensões, por exemplo, previa, se necessário, um ajustamento das taxas de IRC num ponto percentual para conseguir financiamento adicional.

Outro exemplo foi a proposta que destinava prioritariamente a receita adicional que resultasse da retirada do desconto no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP) à redução do IVA de um conjunto de alimentos essenciais. Nesse caso, o PS associava directamente a eventual descida do IVA à receita que permitiria financiá-la.

As duas propostas tinham dois números, mas, em ambos os casos, a medida e a referência ao seu financiamento estavam reunidas no primeiro. Essa organização procurava evitar que a votação separada dos números — que os partidos podem pedir durante a votação do OE na especialidade — permitisse aprovar a medida com custos para o Estado e rejeitar apenas a respetiva compensação.

As duas propostas acabaram chumbadas, mas, desta vez, o PS admite que o Chega possa viabilizar algumas das suas alterações. Por isso, a intenção é manter a cautela de reunir, no mesmo número de cada artigo, as medidas e as respectivas compensações, para evitar que uma votação separada comprometa o saldo orçamental que prometeu preservar.

Se isso acontecesse, a AD acabaria por atribuir aos socialistas a responsabilidade política por esse agravamento, acusando-os de irresponsabilidade orçamental. É uma imagem que o PS quer evitar a todo o custo: a disciplina orçamental tornou-se uma bandeira cara ao partido, sobretudo pelo peso de ter liderado o último Governo que pediu o resgate financeiro, em 2011.

Existe, porém, um capítulo que preocupa especialmente os socialistas nesta fase: o reforço do financiamento das freguesias, cujo cumprimento o líder do PS prometeu assegurar. Na “Carta de Compromisso Político: + Freguesias, Agir e Pensar Portugal”, assinada em janeiro, depois de um acordo político entre PSD, PS e PCP, previa-se um reforço de verbas destinadas às freguesias no Orçamento do Estado para 2027. Ora, os autarcas socialistas já se queixaram de não existir esse reforço na proposta do Governo. Garantir o cumprimento do acordo terá um impacto significativo nas contas públicas e o PS terá também de encontrar uma forma de o compensar.

Sarmento dramatiza perante eventual aliança PS – Chega

Os sociais-democratas estão efectivamente preocupados com esta eventual aliança entre PS e Chega — não por acaso, André Ventura aproveitou o debate orçamental para dizer que se as propostas de José Luís Carneiro forem “boas para Portugal”, serão “aprovadas e viabilizadas” pelo Chega. Isto levanta óbvios problemas ao Governo. Uma coisa é fazer campanha contra a “irresponsabilidade” de PS e Chega; outra coisa muito diferente é, uma vez garantido o saldo orçamental, explicar aos eleitores o porquê de estar a chumbar medidas que, independentemente do grau de acerto, seriam sempre populares.

Existe, porém, uma esperança mal disfarçada entre sociais-democratas: que José Luís Carneiro se deite na cama que fez. Ou seja, que o PS perca o controlo das votações e que o Chega só aprove as tais medidas populares e rejeite as medidas de compensação, que implicam sempre fazer escolhas e que se corte em algum lado. No limite, e tal como aconteceu quando Rui Rio liderava o PSD na oposição, seja no caso do descongelamento do tempo de carreira dos professores (2019), seja no caso da descida do IVA da Luz (2020), José Luís Carneiro pode colocar-se na circunstância de ser forçado a chumbar medidas que propôs.

Apesar de todos os cálculos, Joaquim Miranda Sarmento tem-se desdobrado em avisos à navegação. “É importante os partidos mostrarem responsabilidade. O PS mostrou isso com esta decisão de responsabilidade, que eu espero que agora mantenha na fase de especialidade. É muito importante que o Orçamento que saia do Parlamento não seja desvirtuado. Não basta apenas viabilizar o Orçamento. É preciso não desvirtuar e garantir que o Orçamento que sai não venha com as contas desequilibradas”, voltou a pedir o ministro das Finanças, em entrevista ao Expresso.

A solução que está a ser trabalhada pelo grupo parlamentar do PS e será também apresentada como proposta de alteração ao Orçamento prevê canalizar a receita fiscal adicional gerada por uma inflação superior aos 2,3% previstos para o ano — a tal "ganha à custa dos sacrifícios dos portugueses" — para as medidas de resposta ao aumento do custo de vida que seja necessário manter.

Há outra picardia recente entre AD e PS: a troca de acusações sobre quem mais aumentou impostos durante a governação. Os socialistas preparam-se para aparecer na especialidade com uma proposta com a qual pretendem expor o Governo nesta matéria. A alteração proposta passa por colocar um tecto máximo de actualização permitido no Código dos Impostos Especiais sobre o Consumo, como explicou o coordenador do PS para o Orçamento, António Mendonça Mendes, na quarta-feira à noite, no canal Now.

“A taxa dos Impostos Especiais de Consumo (IEC) permite que o Governo a possa aumentar entre x e y e, no que depender do PS, este y vai descer neste Orçamento para que o Governo das próximas vezes que quiser actualizar o imposto dos combustíveis” tenha de ir ao Parlamento para ter essa aprovação.

O Código dos IEC estabelece limites para as taxas do ISP e é dentro desses intervalos que o Governo fixa, por portaria, as taxas efectivamente cobradas, sem precisar de passar pelo Parlamento. O PS pretende reduzir o tecto legal para o valor actualmente aplicado, obrigando o Governo a passar pelo Parlamento se quiser aumentar o imposto para além disso.

A medida não reduziria, por si só, a receita actualmente cobrada, já que manteria as taxas que estão hoje em vigor. O seu efeito seria limitar mais aumentos futuros. Face ao saldo previsto para o próximo ano, a medida seria neutra, por não estarem contabilizadas receitas com uma subida dessas taxas.

No Orçamento para o próximo ano, o Governo até prevê arrecadar mais 186 milhões de euros com o ISP, uma subida de 5,2%, acima da inflação prevista. Mas explica que esse salto previsto “decorre do crescimento esperado no consumo privado” — e não de um aumento do imposto. O PS está, no entanto, apostado em expor a margem de que o Governo dispõe para aumentar o imposto sem passar pelo Parlamento e impedir que a use para arrecadar mais receita com os combustíveis. E poderá vir a ter a ajuda do Chega para o conseguir.

Orçamento do Estado     Economia     PS     Política     Governo     PSD

COMENTÁRIOS

JPGSG Não tem vergonha, este PS, sempre a condicionar o governo. Deixem o governo, governar. Pelintras, comunistas.

Joao Valente:  Ridículo o PS. O sentimento de controlo persiste no partido do rato.

Ricardo Pinto:  Então, mas afinal quem está a governar?