segunda-feira, 4 de maio de 2026

Quem pode

 

Manda. Lá, também, afinal, num mundo imutável, de toleima superando o bom senso, aqui como ali, o “Mudam-se os tempos não já como soía” nem sempre batendo certo, a sabedoria camoniana definitivamente ultrapassada pela russa, Salazar bem o sabendo, Putin o demonstrando, perseguindo, prosseguindo …

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O "gulag digital", a economia a decair e a guerra sem fim: a vaga inédita de críticas a Putin na Rússia

 

Economistas, influencers e até aliados comunistas: Putin está a ser criticado por bloqueios à internet, má gestão da economia e guerra sem fim. Presidente admite algumas falhas, mas aperta a malha.

JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

OBSERVADOR,03 mai. 2026, 18:20

ÍNDICE

O vídeo da influencer com que muito russos se identificaram

A “batalha burocrática” entre as secretas e o Governo sobre o bloqueio na Internet

Popularidade de Putin está a cair nas sondagens: “Notável”

A economia em queda e a população a pagar a guerra

As baixas russas e a alienação de Putin sobre a guerra

Revolução de Outubro de 1917. Foi a este evento histórico que instaurou a ditadura do proletariado liderada por Vladimir Lenine que o Partido Comunista da Federação Russa recorreu, no dia 21 de abril, para manifestar o seu descontentamento numa sessão no Parlamento.Se não forem tomadas urgentemente medidas financeiras e económicas, até ao outono espera-nos uma repetição do que aconteceu em 1917”, afirmou o secretário-geral comunista, Gennady Zyuganov. As declarações foram surpreendentes; afinal, o fogo era amigo, já que o Partido Comunista russo evita muitas vezes criticar Vladimir Putin. O responsável enfatizou que o partido está a “fazer tudo ao seu alcance para apoiar Putin”, mas ninguém o “está a ouvir”.

Para se manter no poder, o Presidente russo forjou alianças com vários sectores da sociedade russa, incluindo os nostálgicos da União Soviética e os que idealizam o passado comunista. Daí que estas críticas, vindas de um partido que se subjugou ao Kremlin e fechou os olhos à deriva autocrática da Rússia, sejam particularmente significativas. Até os apoiantes do regime começam a ficar descontentes — e a ter coragem de denunciar publicamente a actual situação que fez com que a popularidade de Vladimir Putin caísse nas últimas semanas.

O que está a motivar o descontentamento de muitos é o gulag digital que o Kremlin está a colocar em marcha, à semelhança do que a China fez com a Great Firewall. A presidência russa está a bloquear VPNs e vários sites — incluindo redes sociais populares — e impôs cortes prolongados da internet móvel em várias zonas do país, incluindo Moscovo, onde o blackout durou quase três semanas e deixou milhões de pessoas sem acesso a serviços digitais. O regime parece ignorar a importância que a internet tem hoje para o quotidiano dos russos, pretendendo em simultâneo que a população use aplicações específicas criadas e controladas pelo Estado.

 O secretário-geral do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, avisou que "até ao outono" pode haver uma nova "Revolução de Outubro" GETTY IMAGES

ÍNDICE

Ao mesmo tempo, a conjuntura económica não melhora e as projecções continuam longe de ser favoráveis. Embora as receitas das exportações de petróleo tenham aumentado por causa da guerra do Irão e do bloqueio do Estreito de Ormuz, isso não chega nem para compensar o agravamento dos indicadores financeiros russos, nem para diminuir o custo de vida da população. O principal motivo? A guerra na Ucrânia. O conflito continua a absorver uma fatia crescente do Orçamento do Estado russo, canalizando recursos para sustentar o esforço militar.

No campo de batalha, a longo prazo, as perspectivas não são nada favoráveis a Vladimir Putin. Usando métodos inovadores e disruptivos, a Ucrânia tem conseguido avançar em várias partes da linha da frente nas últimas semanas. Entretanto, a União Europeia (UE) aprovou um pacote de 90 mil milhões de euros, verba que será crucial para sustentar o esforço de guerra ucraniano nos próximos dois anos. Em paralelo, a UE impôs o 20.º pacote de sanções contra Moscovo, pelo que a economia russa continuará sob forte pressão nos próximos tempos.

Tudo isto está a aumentar a insatisfação dos russos, quase privados de internet e a viver num país com uma economia cada vez mais frágil para sustentar o esforço de guerra na Ucrânia. Como tem acontecido no seu longo mandato de 26 anos, solução de Vladimir Putin passa por esmagar a dissidência e silenciar as críticas. Contudo, até parte da elite e os seus apoiantes estão a contestar a forma como o Presidente russo tem actuado nas últimas semanas. E há vozes da sociedade civil — como a da influencer e antiga apresentadora de televisão Victoria Bonya — que tiveram a coragem de denunciar o que se está a passar na Rússia: “Vladimir Vladimirovitch, as pessoas têm medo de si”.

O vídeo da influencer com que muito russos se identificaram

Victoria Bonya tem mais de 600 mil seguidores no Instagram. Foi modelo, participou em reality shows na Rússia e tornou-se apresentadora de televisão. Há alguns anos deixou o país, mudou-se para o Mónaco e passou a viver como influencer. Faz vídeos nas redes sociais a mostrar as roupas que usa, as marcas que consome, a sua paixão pelo montanhismo e as suas escaladas no Monte Evereste. Como muitos russos, Victoria Bonya nunca tinha demonstrado publicamente as suas opiniões políticas. Nem tinha razões para o fazer: vivia no estrangeiro e usufruía de um estilo de vida luxuoso.

influencer é particularmente activa no Instagram — rede social que se tornou extremamente popular na Rússia e onde mostra os outfits e os produtos luxuosos que consome. Mas o modo como ganha dinheiro está a mudar radicalmente. O Kremlin proibiu o acesso a todos os sites geridos pela Meta, o conglomerado norte-americano que detém o Instagram, o Facebook e o Whatsapp. Victoria Bonya sente na pele as ordens da presidência russa, ainda que os seus efeitos estejam a ser parcialmente mitigados pelo uso de VPNs, que ainda permitem que muitos russos contornem os bloqueios e simulem a localização noutro país.

Muitos estão na situação de Victoria. Durante anos, apesar de todas as limitações na liberdade de expressão, os russos puderam partilhar fotos e escrever publicações nas redes sociais geridas no Ocidente, desde que não criticassem abertamente o Governo. Puderam montar negócios no Instagram. Fazer publicidade no Google. Trocar mensagens no Telegram. O Kremlin deseja terminar com isto. Na prática, as principais redes sociais ocidentais estão a ser bloqueadas ou a sua utilização está a ser bastante restringida. A única alternativa é migrar para plataformas como o Max, que é controlado pelo Estado. Mas muitos temem estar a ser monitorizados e leva tempo para construir uma nova base de seguidores e clientes de raiz.

 Victoria Bonya, a influencer que desafiou Vladimir Putin, mas que garantiu não ser uma "traidora"

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Contrariamente a outras restrições à liberdade de expressão, esta atinge praticamente todos os russos: desde a influencer que trabalha no Mónaco até ao funcionário público de meia‑idade na Sibéria. Até mesmo os oligarcas e as elites com quem Vladimir Putin procura manter boas relações deixaram de poder aceder ao Instagram diretamente. Pior: o Kremlin tem chegado ao ponto de cortar a internet móvel durante semanas em várias partes do país com a justificação de que essas medidas servem para prevenir ataques ucranianos em solo russo.

Por tudo isto, a mensagem de Victoria Bonya tornou-se viral. Através de VPNs, milhões de russos viram o vídeo — e identificaram-se com ele. “Há uma sensação de que já não vivemos num país livre”, disse a influencer, que abordou no vídeo os bloqueios à internet e os problemas quotidianos em várias partes da Rússia. “Sabe qual é o risco? Que as pessoas deixem de ter medo, que estejam a ser comprimidas como uma mola e que, um dia, essa mola rebente”, avisou.

A presidência russa reagiu a este vídeo e assegurou tê-lo visto. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, admitiu que o vídeo “é bastante popular”, se bem que desvalorize muitas das críticas da influencerEstá a ser feito muito trabalho” quanto aos “muitos temas” abordados pelo vídeo. Nos bastidores, o regime russo terá instruído os meios de comunicação para não o explorarem e para apenas mencionarem a resposta do porta-voz. Na mesma linha, Victoria Bonya veio dizer que não era “traidora” e agradeceu à resposta de Dmitry Peskov. “Amo o meu país, não o vou trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a dizer. Não sou nenhuma figura da oposição.”

“Amo o meu país, não o vou trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a dizer. Não sou nenhuma figura da oposição."

Influencer Victoria Bonya

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influencer russa no Mónaco não vai seguir o caminho político. O seu vídeo não deixa, ainda assim, de ser um sintoma dos problemas que os russos enfrentam diariamenteNum artigo escrito no site do think tank Carnegie Endowment for International Peace, a analista Tatiana Stanovaya recorda que o russos “se habituaram a uma sociedade altamente digitalizada nas últimas duas décadas”. As proibições do início da guerra nunca “tiveram grande impacto”, mas, em poucas semanas, o “mundo online que conheciam começou a desintegrar-se”.

A “batalha burocrática” entre as secretas e o Governo sobre o bloqueio na Internet

A ideia de bloquear redes sociais e sites ocidentais encaixa na lógica de um Estado cada vez mais autoritário, liderado por um antigo agente do KGB. Para o Kremlin, as plataformas que não controla totalmente representam um sério risco: o que os cidadãos escrevem escapa ao filtro estatal e a gestão de conteúdos está nas mãos de grandes tecnológicas estrangeiras, cujos donos podem não acatar as ordens de Moscovo.

A incógnita aqui não está tanto nos motivos, mas no timing e na maneira como Moscovo está a lidar com tudo isto. É certo que a Rússia tem eleições parlamentares marcadas para setembro de 2026 e é costume que, nos meses que antecedem momentos eleitorais, o Governo aperte a malha. O que é inédito desta vez é o grau de indiferença do regime perante o tom das críticas: o Kremlin avançou com cortes e bloqueios massivos sem se preocupar em explicar de forma convincente por que razão tomou esta iniciativa.

 Russos no metro de Moscovo a usar o telemóvel

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 “As consequências políticas do esforço para estabelecer um controlo total da internet permanecem incertas, mesmo para quem trabalha para o regime”, diz Tatiana Stanovaya, explicando que as repercussões passam por “sabotagem cautelosa por parte de funcionários de base, críticas directas de apoiantes e murmúrios de dissidência — e algum pânico — entre empresários”. “Esta insatisfação ganha tracção com as frequentes interrupções na internet, que tornam impossíveis tarefas antes simples.”

Isso tem muito a ver com quem está por trás deste bloqueio, como revelou o portal de investigação The Bell: o Serviço Federal de Segurança (FSB). É o Segundo Serviço do FSB — o ramo das secretas russas responsável pela “protecção da ordem constitucional” e pelo combate ao “extremismo” interno — que teorizou e está a pôr em marcha o plano de controlo da internet. Como lembra a jornalista russa que colaborou com a investigação, Maria Kolomychenko, num artigo publicado pelo think tank Carnegie Endowment for International Peace, trata‑se do mesmo grupo de operacionais que esteve envolvido no envenenamento do líder da oposição Alexei Navalny, em 2020.

A transferência da supervisão da internet russa “de técnicos dos departamentos do FSB para o Segundo Serviço” fez com que a missão passasse a estar focada em encontrar inimigos internos. “Para eles, a internet não representa uma infraestrutura que permite a troca de informações ou que contribui para o crescimento económico, mas antes um ambiente suspeito e caótico que requer aplicar um filtro constante”, aclara Maria Kolomychenko. Esta abordagem mais radical terá sido ordenada directamente por Vladimir Putin. O Presidente russo sempre confiou no FSB, o principal herdeiro do KGB nos serviços secretos russos.

 Vladimir Putin numa reunião no FSB

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Ainda assim, surgem várias interrogações e até disputas internas. Um relatório de 2022, baseado em informações de vários serviços de informações ocidentais e citado pelo Wall Street Journal, apurou que o chefe de Estado não usa internet e prefere escrever tudo à mão, receando ser espiado. Em teoria, um líder quase infoexcluído pode não ter plena noção do impacto quotidiano destas medidas sobre a vida dos cidadãos.

Neste contexto, o poder russo está dividido entre o Segundo Serviço e outras facções que pretendem a aplicação de restrições menos severas na internet. Numa batalha burocrática em curso, de um lado está o FSB e do outro está o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, juntamente com o seu protegido político, Maksut Shadayev, que é o atual ministro do Desenvolvimento Digital. “Está a propor uma abordagem menos destrutiva em alcançar o controlo total da internet”, nota Maria Kolomychenko sobre os esforços do actual governante.

A frustração não é sentida apenas por membros do Governo russo. Outros grandes empresários e políticos têm expressado a sua insatisfação. Além disso, até os responsáveis por gerir a imagem pública de Vladimir Putin no Kremlin estão “claramente irritados” com o “bloqueio dos serviços de segurança”. De acordo com TATIANA STANOVAYA, muitos responsáveis no Kremlin estão insatisfeitos com “a imprevisibilidade, os limites à sua capacidade para exercer influência e o facto de serem excluídos das decisões sobre a forma como as pessoas entendem e avaliam as autoridades”.

"Para o FSB, a internet não representa uma infraestrutura que permite a troca de informações ou que contribui para o crescimento económico, mas antes um ambiente suspeito e caótico que requer aplicar um filtro constante." Jornalista Maria Kolomychenko

 

(CONTINUA)

 

Em bicos de pés

 

Uma vetusta pequenez no seu espaço europeu, tornou Portugal um país sem grande dimensão, corajoso e empreendedor que fora outrora, isso tal perdido no tempo, sendo o hóquei em patins, há uns anos, um desporto que lhe deu também eventual visibilidade, embora não do mesmo caris mental. De facto, o que mais importaria era uma saliência cultural que não deixámos de conquistar também, é certo, embora facilmente por outros ultrapassada, alguns governantes desatentos a esse respeito. Não é importante a notoriedade, mas o ter-se o cuidado educativo como prioridade generalizada na formação humana é indispensável, não por vaidade mas por racionalidade – a expressão “em bicos de pés” perante outros, facilmente apreendida quando isso falha.

 

De La Toja à Gulbenkian e até ao mundo

A manutenção da independência face à Espanha, no seio da Europa, ligada a uma relação especial com Estados de outras civilizações pode ser o novo desígnio que continue a justificar a nossa existência

ANDRÉ ABRANTES AMARAL Colunista do Observador

OBSERVADOR, 03 mai. 2026, 00:22

No seu discurso perante o Congresso norte-americano, Carlos III fez menção aos valores democráticos que os norte-americanos herdaram dos britânicos e que foram aplicados por “rebeldes audaciosos e engenhosos com uma causa”. Foi aplaudido de pé. Toda a viagem de Carlos aos EUA foi uma lição de classe e uma aula viva de como um chefe de Estado se deve comportar. Num discurso simpático e elogioso do espírito americano, Carlos puxou dos galões e fundamentou na tradição britânica a revolução democrática dos EUA. Valores congénitos, logo comuns e para sempre. Irmãos que podem ter desavenças, mas nunca deixam de ser o que são.

No dia seguinte ao discurso de Carlos III teve lugar em Lisboa mais uma edição do Fórum La Toja – Vínculo Atlântico. A quarta em Lisboa. As intenções deste espaço de reflexão e debate constam do seu manifesto e visam, em Lisboa e a par do que se faz na ilha de la Toja na Galiza, discutir um caminho europeu comum com o Atlântico no meio.

O ponto é interessante, quanto mais não seja porque não é frequente. A herança luso-espanhola é geralmente referida nos seus aspectos negativos, nomeadamente a escravatura, fruto de uma preponderância da historiografia anglo-saxónica e holandesa em detrimento da portuguesa e, essencialmente, da espanhola. A decadência dos povos peninsulares não se ficou pelo menor desenvolvimento económico, político e social. A história contada também foi outra. E o peso político que Portugal e Espanha poderiam tirar dessa outra forma de contar a história perdeu-se.

Mas pode ser recuperado como o comprovam os debates na última quarta-feira na Gulbenkian. A actual necessidade de reinventar o espaço atlântico é a mesma que levou à implementação do que temos hoje após a Segunda Guerra Mundial. Vitoriosos, EUA e Reino Unido criaram uma ordem mundial liderada pela língua inglesa e os resultados foram estrondosos. Ainda o são. Mas para que se mantenham será preciso algo mais e é nesse mais que Portugal e Espanha podem acrescentar algo. O quê? Acima de tudo, dimensão. O alargamento do vínculo atlântico para o sul abarcaria toda a América Latina, a África Austral e uma relação especial com um Estado com uma localização estratégica fundamental que é Cabo Verde.

Nada disto é fácil, menos ainda imediato. A aliança atlântica que conhecemos precisou de duas guerras mundiais, milhões de mortos e feridos, o fim de impérios (na Europa e nas colónais) e o derrube de monarquias centenárias para que fosse implementado. Nada disto é fácil, dizia, como também tem muitas especificidades. Uma delas é a relação entre Portugal e Espanha, que é excelente mas tem a sua história.

“O que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimento, nem a conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter resistido a Castela. O ter mantido, através de sangue e fogo, o princípio de independência dos territórios periféricos.” É com esta citação de Agostinho da Silva que José Medeiros Ferreira inicia o seu pequeno livro, escrito em 1989, sobre as relações entre Portugal e Espanha, “Um Século de Problemas – As relações luso-espanholas da União Ibérica à Comunidade Europeia”. Medeiros Ferreira disserta depois sobre uma série de episódios em que, desde 1864, a união com Espanha foi ponderada ou em que a independência do nosso país esteve em risco de se perder, mesmo que a maioria da população não se tivesse apercebido disso. É preciso não esquecer que a unificação da Alemanha e da Itália acabaram por ter alguma influência nas conclusões que alguns tiraram sobre o futuro da Península Ibérica: por que não nos juntamos nós também, portugueses e espanhóis? Por que razão não se unem Portugal e Espanha numa grande união ibérica que constitua outro novo motor da Europa? Tanta força teve essa discussão que só depois da Segunda Guerra Mundial a Espanha colocou de parte qualquer possibilidade em anexar Portugal.

Actualmente tudo isso é passado. Mesmo assim, foi curioso reparar no debate na Gulbenkian entre Mariano Rajoy e Paulo Portas, sobre os desafios políticos da Europa, que o antigo presidente do governo espanhol deu maior ênfase à necessidade de uma política externa comum europeia enquanto o ex-governante português se focou na política de defesa. E a razão é muito simples: a defesa de Portugal integrada na europeia (com o Reino Unido e, para nós portugueses obrigatoriamente com os EUA) implica assegurar a independência do nosso país. Já o mesmo não podemos dizer relativamente a uma política externa comum europeia que significaria a subalternização da relação especial que Portugal tem com o Brasil e África em detrimento da visão espanhola.

É de mencionar que o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, tocou nesse ponto quando distinguiu a posição da Espanha da de Portugal. A primeira como potência europeia que procura apoio Atlântico (Franco considerou isso mesmo nas conversações que teve com Hitler como forma de ter algum peso no Eixo), enquanto o nosso é um país essencialmente atlântico e com pouco peso europeu. E isso não é de agora.

Ou seja, e regressando ao princípio, Portugal e Espanha devem fazer com os seus parceiros transatlânticos o que Carlos III fez nos EUA: salientar pontes que sustentem um futuro comum em benefício de todos. Mas isso também requer da nossa parte um cuidado acrescido para não pormos em causa o grande feito que é o de continuarmos a existir contra todas as probabilidades. No século XV Portugal descobriu no Atlântico o garante da sua independência. Enquanto navegávamos sozinhos não houve problemas. A partir do século XVII, quando as grandes potências seguiram as nossas rotas marítimas, o truque encontrado para não sermos engolidos pelos problemas dos outros foi a neutralidade. Neutrais, neste canto da Europa não nos envolvíamos em guerras que não nos diziam respeito. Essa neutralidade deixou de ser possível depois de 1945 porque o mundo se tornou mais global e se dividiu em dois blocos. Foi só após o 25 de Abril com o fim do império e, de forma mais assumida, com o fim da Guerra Fria que Portugal pôde assumir uma estratégia de multilateralidade. Actualmente, e num momento em que se constrói um novo equilíbrio, o espaço talvez seja o de uma multilateralidade estratégica de quem está num bloco, mas tem ligações especiais (e não necessariamente militares) com outros estados de outros blocos. O tal princípio de independência dos territórios periféricos. A manutenção da nossa independência face à Espanha, no seio da Europa, e ligada a uma relação especial, profunda e de diálogo com outros estados de outras civilizações bem pode ser o novo desígnio que continue a justificar a nossa existência. E que nos permita continuar o nosso maior feito que é ser quem somos.

ESPANHA        EUROPA        MUNDO 8

COMENTÁRIOS (de 8)

Antonio Sennfelt: Basta olhar a Espanha do Sr. Sanchez para reiterar que de Espanha nem bom vento nem bom casamento!

Filipe Afonso: Um parceiro como a Espanha que não cumpre os acordos que tem connosco e não nos devolve território que sempre foi nosso (Olivença) não me parece muito fiável.... Mas claro que também aqui os nossos governantes têm culpa quando não se impõem.       

 Joaquim Ribeiro: O mundo está cheio de nações e povos históricos que não se conseguem organizar como Estados independentes e soberanos. A independência, no concerto das nações organizadas sob a forma de Estados soberanos, é o bem mais valioso, mas também o mais difícil de ser conservado. A liberdade e a independência de um Povo, de qualquer um, está sempre em risco. Portugal, como nação histórica com quase mil anos, não deve a sua posição de povo livre e soberano a este ou àquele país em particular : em cada período histórico e a cada crise, conseguiu manter-se livre e aceite no concerto das nações soberanas, fazendo pactos de conveniência e guerras, quando foi necessário. Quase sempre, avaliou e decidiu sobre a pressão das conjunturas e quando a conjugação das circunstâncias a colocava perante problemas existenciais. A posição geográfica é um factor importante , de enquadramento, mas o que determina as alianças e as guerras, é a VONTADE de permanecer como povo livre e soberano. Não somos continentais ou marítimos; não estamos no centro ou na periferia ; não somos “ingleses”, ou “franceses” ou “alemães “ : existiremos enquanto tivermos essa vontade e o concerto das nações soberanas o permitir. Evitar, a cada conjuntura, o resultado nefasto de sermos privados da liberdade é o desígnio maior que deve orientar acção política na arena internacional.

victor guerra: Um erro não se ter estabelecido o país Ibéria. Seria uma potência europeia e  com força na América Latina

Pedro Abreu > victor guerra: A Ibéria não existe. Se existisse não seria mais que o espelho do que é hoje Espanha. Um país colado com cuspo, cheio de nacionalismos e prestes a desintegrar-se continuamente. Somos portugueses há 900 anos e provámos muitas e muitas vezes que soubemos trilhar o nosso caminho, fazer a nossa História e lutar pela nossa Independência.  Por tudo isso e pelos milhares que deram o sangue pela existência de Portugal, devemos honrar a sua memória e continuar o seu legado. 

João Floriano: A situação tradicionalmente dita periférica, pode funcionar muito bem  a nosso favor, desde que haja coragem para construir novas pontes, para além de mantermos as habituais com os nossos aliados do costume. É um facto que os nossos amigos atlânticos, sobretudo Estados Unidos e Reino Unido não atravessam um momento particularmente brilhante e sobretudo Trump suscita-nos muitas dúvidas. Mas não será por isso que vamos destruir essas pontes como Sánchez muito erradamente está  a querer fazer. Precisamos todos da NATO, mas em novos moldes e sem dependências dos interesses dos Estados Unidos. 

Ricardo Pinheiro Alves: "A partir do século XVII, quando as grandes potências seguiram as nossas rotas marítimas, o truque encontrado para não sermos engolidos pelos problemas dos outros foi a neutralidade." A nossa independência nunca se deveu à neutralidade.  Deveu-se sempre à aliança com os britânicos. Eles foram sempre, desde a conquista de Lisboa até às invasões francesas, o garante da nossa independência. E essa independência nunca esteve em causa, nem com o ultimato britânico, uma vez que não queriam invadir Portugal. E mesmo a neutralidade da segunda guerra mundial foi consentida pelos aliados.

João Floriano > Ricardo Pinheiro Alves: Estou de acordo com o seu comentário. A coroa portuguesa esteve ligada à espanhola de 1580 a 1640. Durante esse período sofremos ataques em África, Ásia e sobretudo no Brasil devido à guerra que parte da Europa protestante mantinha com a Espanha católica imperial. O Recife é uma cidade muito particular no Brasil devido à presença holandesa

 

domingo, 3 de maio de 2026

Não se trata de “Livro”

 


O tal referido no poema de Pessoa - o da Liberdade de “ter um livro para ler e não o fazer”, mas puramente de textos explorando as temáticas do dia, (ou mesmo do mês e até do ano) à ordem dos fregueses - os da escrita e os da leitura – temáticas que fazem parte do historial por nós vivido e que um dia ficará registado conforme a sua repercussão nas nossas almas. De toda a maneira, agradecemos ao OBSERVADOR a síntese, de reflexão bem ponderada.

 

Pontos de Vista

              Carlos Maria Bobone

Editor de Opinião

 

 

 

Bom dia aos leitores do Observador,

Esta newsletter vem com uma novidade. Não vamos falar apenas dos textos mais interessantes, como o do Paulo Nogueira, que trata, com a graça e ironia de sempre, o problema da masculinidade tóxica (Os Homens não se medem aos parvos), nem dos que tratam os assuntos políticos mais prementes, como o do Miguel Morgado sobre a reforma da Lei Laboral; vamos pegar em alguma da opinião publicada ao longo da semana e pedir esclarecimentos aos autores. Perguntas provocatórias, análise das consequências que viriam do que propõem, críticas, todo o tipo de perguntas: a newsletter servirá não só para conhecer o que foi publicado, mas também para aprofundar o que foi discutido, com a ajuda dos próprios autores.

E o primeiro texto escolhido para ir a interrogatório foi um texto que se queixa, ele próprio, da falta de escrutínio aos políticos. Em A Casa dos Segredos da democracia, Luís Rosa invoca uma série de casos pouco edificantes da relação entre política e negócios para explicar porque é que o famoso discurso de Aguiar Branco foi absurdo; no entanto, pareceu-nos que era possível inverter o argumento. Todos os grandes casos de corrupção, referidos no texto, mostram precisamente que o escrutínio não está a resultar. Não significa isto que pode ser contraproducente intensificar uma estratégia que não resulta, e que talvez afaste quem não é corrupto da política, mas não parece afastar dela a corrupção, em vez de procurar outros métodos de combate à corrupção?

Luís Rosa respondeu com a ideia de que não se está a intensificar o escrutínio, bem pelo contrário – a opacidade é cada vez maior. “Pior”, diz ele, “é um terrível paradoxo que hoje tenhamos menos acesso à informação, do que nos anos 90. No tempo da digitalização e da inteligência artificial, os obstáculos à circulação de informação são maiores do que no tempo pré-internet. Parafraseando Popper, a sociedade está mais fechada, do que aberta. A transparência é algo vital para a democracia – é algo que caracteriza uma democracia (a tal sociedade aberta). A opacidade, que parece ser a nova estratégia a executar, mais do que fazer regredir a qualidade da nossa democracia, vai prejudicar uma tomada de decisão devidamente informada dos cidadãos – ao fim, e ao cabo, aqueles nos quais reside a soberania que está na origem do contrato social entre representados e representantes.”

André Azevedo Alves (num texto sobre um tema que também ganha com a leitura da opinião de Mafalda Pratas, sobre o significado e a força de uma Internacional Nacionalista) trouxe ao Observador uma reflexão sobre o papel de Meloni na Europa pós-Órban, e explica que não devemos esperar da italiana que ocupe o espaço vazio – o tipo de liderança de Meloni é muito diferente. Decidimos perguntar, no entanto, se não poderia dar-se o caso de a própria União Europeia empurrar Meloni para o lugar de Órban. Perguntámos-lhe se  o estilo de Meloni não era possível apenas porque havia Órban, com uma atitude mais confrontacional, que obrigava a UE a ceder diante de um perfil como Meloni. Sem Orban, isto não obrigará Meloni a tornar-se mais confrontacional, ou não resultará numa UE a apertar o seu modo de lidar com Meloni?

E André Azevedo Alves respondeu: “A postura mais confrontacional de Orbán certamente aumentava o espaço de manobra para perfis como o de Meloni. Se por um lado a saída de cena (pelo menos como governante) de Orbán aumenta o potencial agregador de Meloni na direita europeia, também é verdade que aumenta a pressão para uma atitude menos conciliatória com a UE – e em especial com o PPE. Sob pena de Meloni deixar de ser vista como uma alternativa credível ao status quo e reabrir espaço para opções mais radicais no contexto da direita europeia. Uma questão que no fundo se relaciona também no contexto europeu com a capacidade do European Conservatives and Reformists Group (de Meloni e Kaczyński) para se afirmar à direita do PPE face à concorrência do grupo Patriots for Europe (de Orbán, Le Pen e Ventura). As eleições presidenciais francesas de 2027 serão a este respeito um momento decisivo.”

Houve ainda dois textos voltados para o papel da esquerda em Portugal e na Europa que quisemos confrontar.

O primeiro foi o de Nuno Gonçalo Poças, A esquerda e a santinha da ladeira, que expõe a contradição entre as práticas de uma esquerda tantas vezes corrupta, como se vê agora no caso que envolve a entourage de Pedro Sánchez, e a imagem de pureza e superioridade moral que continua a espalhar. Usámos a “contradição” de uma esquerda que invoca “a sua superioridade moral, o seu feminismo militante” mas “fomenta e/ou tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e nas instituições”, palavras do próprio, para perguntar: isto acontece porque a esquerda não acredita nestas tais causas, e as usa apenas como capote para as práticas corruptas (hipótese que parece demasiado severa) ou acredita mas tem, como todos os governos, problemas que não advêm das suas ideias, e sim da natureza humana. Nesse caso, para quê fazer a associação?

Ao que Nuno Gonçalo Poças respondeu: “A natureza humana ditará que sempre existirão casos de corrupção, de contradições entre a palavra e a acção e por aí fora. O que se passa com a esquerda ocidental não é exactamente um problema que se aponte a falhas pontuais decorrentes da natureza humana. É um programa político concreto: acenando com temas que demonstram a sua bondade perante os homens, vão desconstruindo os alicerces morais da sua própria civilização. Sánchez é o oportunista no meio disto, que se usa de tudo para se perpetuar no poder. Em Portugal tivemos pelo menos dois assim, com graus de ilicitude diversos, mas muito parecidos com o espanhol.”

Noutro texto, que fala sobre as aliança que existe, na política municipal de Lisboa, entre o PS e os partidos à sua esquerda, quisemos aproveitar o tema das alianças para perguntar a Margarida Bentes Penedo se o que se aplica em Lisboa ao PS e à esquerda não se aplicaria na aliança hipotética mais badalada dos últimos anos – uma aliança entre PSD e Chega. Perguntámos: “O bloco PS+esquerda lembra inevitavelmente a tão badalada conversa das linhas vermelhas, que normalmente assume que ligar-se ao Chega contaminaria o PSD; mas vendo o caso de Lisboa, em que a esquerda se tornou um pequeno satélite do PS, sem voz própria, não poderia ser este o resultado de uma aliança da AD com o Chega, neutralizá-lo?”

Mas Margarida Bentes Penedo não foi na conversa e respondeu-nos que:

“A pergunta não deve ser posta nesses termos, porque assenta em premissas erradas. A extrema-esquerda contaminou fortemente o PS: entrou no partido e deslocou-lhe o eixo político. Mesmo aceitando a analogia, ela não é transportável. Na Assembleia Municipal de Lisboa, o Chega ainda tem uma bancada de escala comparável à do Bloco e do PCP. No plano nacional não. O Chega tem hoje uma dimensão muito aproximada à do PSD, o que torna qualquer absorção inverosímil. Quanto à “contaminação”, ela já aconteceu: basta ver a mudança de retórica e de prioridades políticas. O Chega obrigou a direita a falar de assuntos que a própria direita não queria ver. E não precisou de alianças.”

A(s) Figura(s) da semana

Esta semana, o gesto teatral de Pedro Delgado Alves fez das suas as costas mais largas do país. Aqui no Observador também Rui Ramos, Rui Pedro Antunes ou Helena Garrido escreveram umas linhas apoiadas nas costas do socialista; no entanto, houve mais um socialista a entrar com estrondo pela Assembleia, pelo que não podíamos deixar de acrescentar o texto de Miguel Pinheiro sobre Pedro Nuno Santos a esta pequena secção.

 

 

              Luís Rosa

A Casa dos Segredos da democracia

 

Se decidir aumentar a opacidade, Luís Montenegro cometerá um erro estratégico terrível. Porque entregará a bandeira da transparência ao PS - o partido que teve Sócrates e os 75.800 euros em São Bento.

 

              André Azevedo Alves

Lições de Budapeste

 

Meloni não ocupará o lugar de Orbán no movimento conservador internacional porque os dois modelos são fundamentalmente distintos, distinções que devem ser motivo de profunda reflexão à direita.

 

              Nuno Gonçalo Poças

A esquerda e a Santinha da Ladeira

 

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha.

 

              Margarida Bentes Penedo

Sem o PS

 

Moralizar alianças é o último recurso de quem já não consegue disputar o governo. Quando governar sem o PS passa de improvável para indevido, o problema já não é partidário. É do regime.

 

Os Pedros do PS

"Responder a um desconforto com um virar de costas está ao nível de maturidade de quem se zangou com um coleguinha da creche porque não cantou com ele uma música do Panda e os Caricas. Há a agravante de Pedro Delgado Alves ter defendido, após o protesto dos deputados do Chega na presença de Lula, que o código de conduta fosse “musculado” "

Rui Pedro Antunes

sobre Pedro Delgado Alves, antes de lembrar algumas leis em que o próprio deputado contribuiu para a opacidade

 

"É uma infantilidade, a raiar a incapacidade de viver com a diferença de opinião, aquilo que fez o deputado do PS Pedro Delgado Alves, virando-se de costas para o presidente da Assembleia da República. Até porque José Pedro Aguiar Branco pode ter escolhido incorrectamente a terapia, oportunidade e a forma de abordar o problema, mas ele existe. "

Helena Garrido

no meio de uma série de reservas ao discurso de Aguiar Branco

 

"Não, ao levantar-se para virar as costas ao presidente da Assembleia da República, Pedro Delgado Alves não chamou a atenção para nenhum tema. Chamou apenas a atenção para si próprio. Porque a única coisa que fez, com a sua traquinice de escola suburbana, foi desrespeitar a Assembleia da República e aqueles que o elegeram."

Rui Ramos

que também discorda do fundamental no discurso de Aguiar-Branco

 

"Pedro Nuno Santos é como aquelas jovens promessas que venceram o Festival de Pequenos Cantores de Rimini, mas depois viram a carreira desabar logo que passaram pela mudança de voz. Todos eles, chegando à idade adulta, perceberam, com nostalgia e frustração, que tinham um grande futuro atrás deles. "

Miguel Pinheiro

antes de traçar um paralelo entre Pedro Nuno Santos e uma figura quase caricata do antigo Labour de Inglaterra, Tony Benn

 

 

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