Um mundo próximo… Do apocalipse? Por aqui vamos indo,
cada um com os seus problemas. Por lá também… Mas,,,
Leiamos Torga, para disfarçar. Ou contemplar como ele. E ponderar
também, se for possível:
Bucólica
A vida é feita de nadas;
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga TORGA,
M., Diário, 1941.
Os EUA do
lado do Hezbollah?
Se os EUA já não
protegem os aliados quando os aliados enfrentam os inimigos dos EUA, então
quem, exactamente, ainda deve apostar a própria sobrevivência na palavra
americana?
JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel
"Comando"
OBSERVADOR, 05 jun. 2026, 00:24
Na passada segunda-feira, o Irão esticou a corda. Não com a delicadeza
habitual dos aiatolas, feita de ameaças, chantagens e promessas de apocalipse.
Esticou-a de modo ostensivo, suspendendo os contactos indirectos com os EUA,
ameaçando alargar a guerra, acenando com estreitos, frentes, mísseis e
desgraças variadas, e dizendo que qualquer ataque israelita aos subúrbios de
Beirute onde o Hezbollah acoita a direcção política, a musculatura militar e os
zeladores iranianos da empresa, seria tratado como violação da trégua em todos
os teatros. Em português corrente, se Israel tocar no nosso braço
libanês, nós fazemos birra mundial e expelimos mísseis.
Foi um momento definidor
porque obrigou os EUA a fazer escolhas e mostrar em que pé estão as coisas.
A situação era clara: ou os EUA
aceitavam a chantagem iraniana e pressionavam Israel a suspender a ofensiva
contra o Hezbollah, ou ignoravam a ameaça e colocavam Teerão perante a
alternativa de recolher as garras ou avançar para a guerra que dizia querer.
A jogada iraniana é, em si, reveladora. Teerão não arriscaria
tanto por um ornamento. Se a Guarda Revolucionária decidiu que valia
a pena travar as negociações, e ameaçar americanos e israelitas, para salvar o Hezbollah de uma pancada israelita
em Beirute, é
porque o grupo terrorista não é um acessório da sua política externa.
É uma das suas
artérias. É o punhal colocado no pescoço de Israel, a base avançada no
Mediterrâneo, um seguro de vida estratégico do regime e a prova material de que
o Líbano deixou há muito de ser um Estado soberano para se transformar numa
sala arrendada pela “teocracia” militar iraniana.
Perante isto, os EUA cederam.
Segundo os relatos
disponíveis, Trump falou com Netanyahu, anunciou contactos indirectos com o
Hezbollah por intermediários, e obrigou Israel a suspender uma operação
prevista contra Beirute. Traduzido da língua diplomática para a língua
dos adultos, a organização terrorista disparou, ameaçou, escondeu-se atrás de civis,
invocou o patrão iraniano e recebeu como prémio a protecção americana contra
os israelitas.
É possível que isto seja apenas uma leitura injusta.
É possível que Trump tenha na manga um acordo de uma dureza tal que
torne tudo compreensível. Um acordo que liquide a questão nuclear, desmonte os mísseis
balísticos, seque os proxies, abra Ormuz, reduza o Irão a uma potência regional
domesticada e deixe os aiatolas a assinar, com lágrimas nos olhos, uma rendição
que nem o general Grant recusaria. Tudo é possível. Também é possível
que o monstro do Loch Ness tenha carreira no direito marítimo. O problema é
que, até prova em contrário, a hipótese fantástica continua a ser fantástica.
A outra possibilidade, mais prosaica, mais feia e, por
isso mesmo, mais provável, é que Trump Allways Chicken Out e quer desesperadamente
um acordo. Não necessariamente um bom acordo, mas um acordo. Um
objecto político vendável em conferência de imprensa. Um troféu para exibir
como “melhor do que o de Obama”, o que, convém reconhecer, não é uma
fasquia propriamente alpina. O acordo de Obama era um queijo suíço de buracos,
ingenuidades e calendários feitos para agradar aos optimistas profissionais. Mas um mau acordo não se corrige
com outro mau acordo acompanhado de foguetes, hipérboles tremendas, bonés MAGA
e insultos telefónicos.
É que se esta segunda hipótese for verdadeira, as
consequências são devastadoras.
Para o Irão, será uma vitória estratégica de enormes
dimensões, apesar dos danos sofridos. Teerão aprenderá a
lição de que suportar destruição, atacar terceiros, manter
objectivos máximos, nunca aceitar exigências verdadeiramente irrevogáveis e
arrastar negociações até que o outro lado prefira chamar paz à fadiga, compensa.
Logo, será repetida.
A Guarda Revolucionária precisa apenas de convencer Washington de que a continuação da batalha é mais
incómoda do que a cedência. Foi assim que muitos impérios começaram a
morrer, não por falta de legiões ou porta-aviões, mas por excesso de vontade de não os
usar.
Para Israel, a lição é brutal. O seu
inimigo existencial continuará a existir como tal. Os seus mísseis continuarão
a ser fabricados. Os seus proxies continuarão a ser alimentados. O Hezbollah
continuará a ser reconstruído no Líbano, como o bolor regressa às paredes
quando se pinta por cima da humidade. E Israel descobrirá, mais uma vez, que a dependência
estratégica de terceiros tem um preço. Um país que nasceu porque os judeus
perceberam, tarde e com sangue, que ninguém os salvaria, não pode transformar-se
num protectorado sentimental dos EUA. Pode ter aliados. Deve ter aliados. Mas
não pode entregar a sua sobrevivência ao calendário emocional de Washington.
Há qualquer coisa de obsceno em ver um aliado
que lutou ao lado dos EUA, que suportou ataques iranianos, que absorveu
mísseis, drones e pressão diplomática, ser apunhalado pelas costas no momento
em que se prepara para atingir o centro de comando do inimigo. Mais obsceno ainda se os
relatos da chamada entre Trump e Netanyahu forem exactos no tom e na
substância. Os
grandes aliados não precisam de ser tratados com luvas brancas; a
política internacional não é um chá de beneficência, mas há uma diferença entre
pressão estratégica e humilhação pública, entre conselho duro e a sobranceria
de quem confunde liderança com berro.
Para os EUA, o dano pode ser ainda mais profundo.
A América não perde a sua posição no mundo apenas quando abandona Cabul
em caos, quando deixa aliados pendurados, quando ameaça parceiros
europeus, quando trata a Coreia do Sul como inquilina atrasada ou quando
transforma Israel em subordinado descartável. Perde-a quando os outros concluem que
a garantia americana é uma moeda que se desvaloriza exactamente nos momentos em
que devia valer mais. A confiança internacional é feita de
memória. E a memória raramente se deixa subornar por adjectivos.
O problema central não é Trump. Seria confortável
reduzir isto ao temperamento de um homem, às suas vaidades, às suas cóleras e à
sua necessidade de anunciar vitórias antes de as possuir. Mas o problema é maior. A
América parece oscilar entre a tentação imperial e a de abandonar o mundo
inteiro sem compreender as consequências. Entre o excesso imperial e a
deserção, falta-lhe a velha gravitas, a capacidade de definir fins, escolher
meios, sustentar aliados e fazer os adversários perceberem que certas linhas
existem para não serem pisadas.
Para o Ocidente, a mensagem
é gelada. Entramos
em tempos de Hobbes com elites de salão. Os lobos estão a regressar: Irão,
Rússia, China, proxies, milícias, piratas ideológicos, Estados falhados,
Estados predadores, organizações terroristas com departamentos de comunicação e
embaixadas oficiosas. E nós respondemos com cimeiras, fórmulas, pedidos de reuniões
do Conselho de Segurança, prudências, “desescalada” e o medo de chamar inimigo
ao inimigo. O apaziguamento é cobardia mas vem sempre vestido de
sabedoria. Explica
que evitou o pior, que ganhou tempo, que salvou vidas, que preservou canais.
Depois, mais tarde, quando o pior regressa maior, mais armado e mais insolente,
os mesmos explicadores garantem que ninguém podia prever.
Podia. Pode-se quase sempre prever. Quando
se recompensa a chantagem, há mais chantagem. Quando se salva um
proxy, há mais proxies. Quando se apunhala um aliado no momento
em que ele ameaça vencer, há menos aliados confiantes e mais inimigos atentos. Quando a maior potência do mundo se
deixa chantagear por uma teocracia que comunica por mísseis e milícias, está a
pagar a primeira prestação da próxima guerra.
Eu preferia acreditar que Trump sabe exactamente o que
faz. Preferia
acreditar que existe um plano secreto, uma armadilha brilhante, uma
arquitectura estratégica tão subtil que os seus críticos parecem apenas
impacientes. Preferia acreditar que, no fim, aparecerá um acordo magnífico,
leonino, verificável, definitivo, capaz de desmontar o nuclear, os mísseis, o
Hezbollah, os Houthis, Ormuz e a arrogância iraniana de uma assentada.
Preferia. Mas o cepticismo é a higiene mínima
de quem observa a política internacional sem incenso na mão.
O que se viu, até agora, foi que o Irão ameaçou, o Hezbollah
ganhou tempo, Israel foi rasteirado e Washington cedeu. Talvez seja
génio. Talvez seja cálculo. Em qualquer dos casos, a pergunta que fica não
é agradável, mas é inevitável: se os EUA já não protegem os aliados
quando os aliados enfrentam os inimigos dos EUA, então quem, exactamente, ainda
deve apostar a própria sobrevivência na palavra americana?
A resposta a essa pergunta
interessa a todos os que vivem do lado errado dos lobos e ainda acreditam que
uma civilização se conserva com promessas.
Não se conserva. Conserva-se com
força, vontade, lealdade e memória. Quando faltam as três, a história costuma voltar. E raramente
volta para pedir licença.
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MUNDO
COMENTÁRIOS:
Rui Pedro Matos: E o Tribunal de Haia, o
que diz da situação? E o passivo Guterres, da ONU, o que diz da situação? Enfim..... Coitados dos
Ucranianos! N A: Ficará na História pelas
piores razões. Ao lado de Estaline, Mao, Hitler e outros Antonio Almeida: Putin
é um verdadeiro assassino ao nível de Hitler e Estaline. Está a destruir a
Ucrânia e também a Rússia por ambição pessoal, maldade e vontade de matar
inocentes ☠️ Jose Pires > Liberal do
Costume: Vai ler o Avante.... Eduardo Russo: Putin
vai ser apeado do poder mais dia menos dia...
Alberico Lopes > Eduardo Russo: Oxalá e que seja já
amanhã Carlos Jerónimo: Fuga
para frente!… Gabriel Madeira > Rui
Pedro Matos: Não diz nada. Está caladinho. Só abre a boca se for
para falar do clima. Ou sobre Israel. Cisca
Impllit: É... à bruta,
estertor putinesco, a estourar o paiol russo Eduardo Mãos de Tesoura > Luis
Silva: És um defensor de genocidas. mais um O PCP apoia e vai
comemorar a dança Putinica na festa do avante livre de impostos. Eduardo Mãos de Tesoura: A
Ucrânia tem que redobrar os ataques contra alvos russos, quaisquer que sejam os
alvos, lançando centenas de drones todos os dias, 7 dias por semana. Eduardo Mãos de Tesoura > Luis
Silva: Não seja ridículo. As suas mentiras vão directas para o
caixote do lixo, tal como a propaganda mentirosa do Kremlin para justificar a
sua invasão genocida de um país soberano e independente. E se o Kremlin está
muito preocupado com regimes que assassinam o seu próprio povo, como fez o
regime estalinista, então deveria era invadir o Sudão....ou invadir-se a si
próprio!! Eduardo Mãos de Tesoura
> JAP: Serão
mais. Serão uns 500 mil soldados russos mortos na Ucrânia. JAP > Rui
Pedro Matos: guterres de putin? Que lhe paga muito bem: JAP: 300.000 russos
mortos por este louco Lily Lu > Luis
Silva: É propaganda da História, seguramente. Está documentado e há
escritos sobre o Holodomor. Alcochete4@ Portugal
ParaSempre: Confesso que sou independente e não defendo nem
Ucrânia nem a Rússia. O que é verdadeiramente ATERRADOR é constatar que, em 4
anos, foram mortos uns 500.000 jovens e adultos em ambos os países. Pensem bem !! 500.000 vidas
perdidas, milhões de crianças órfãs traumatizadas, em choque, e sem um único
sorriso ou sonho para nos transmitir. Com centenas de milhares de famílias
destruídas e quase todas as infra - estruturas públicas e privadas destruídas
do lado Ucraniano, receio que teremos uns 20 a 25 anos para ajudar a
reconstruir um país ou quem sabe mais alguns países próximos da Ucrânia…. Nós não estamos assim
tão longe de Kiev ou de Moscovo, e muitos dos países Europeus da UE querem
resolver esta guerra com reuniões, congressos, sanções, viagens, etc etc. Sejamos práticos e realistas. Só
a China em conjunto com os EUA podem pôr fim a esta guerra. Nuno PinhoAlcochete4@ > Portugal
ParaSempre: E
a Rússia. Um
agressor deve sempre ser colocado na posição de terminar a chacina. A Rússia deve cair Vasco Matias > Liberal do Costume:
Os camaradas do PCP não se alistam para combater o fascismo ao lados dos
Russos? Preferem fazer greves gerais no conforto capitalista! Lily Lu: Não
mete Israel, não interessa condenar nem sancionar. Que vergonha. Lily Lu > Luis Silva: 1932
na Ucrânia. Isso foi um genocídio. Pedro
Correia > Rui Pedro Matos: Não mete Gaza nem Palestina. Para o
Guterres não conta... além disso, está no bolso do Putin. Luis Silva > Eduardo Mãos
de Tesoura: És
uma anedota. Luis Silva: A única
escalada é a propaganda acéfala anti-Rússia. Para isso é que existe
a imprensa e a televisão. Miguel Cabral:
Falta coerência ao artigo. E não dá confiança nenhuma que as fontes
tenham sido verificadas.