E os seus Apóstolos .
Obama em Lisboa: as farpas a Trump, os avisos sobre IA e os
riscos para a democracia
Em Lisboa, dez mil pessoas aplaudiram Barack Obama. O
ex-presidente dos EUA alertou para o crescimento do autoritarismo e criticou a
política de Trump e os riscos da IA.
MARTIM
MADEIRA: Texto
OBSERVADOR,
11 out. 2026, 00:57
“A democracia, na história da humanidade, é um piscar
de olhos — uma ideia frágil que precisa de ser constantemente renovada.” O perigo dos discursos polarizadores
e a emergência de movimentos autoritários na democracia deram o tom do discurso
de Barack Obama, 44.º Presidente dos Estados Unidos da América e vencedor do
prémio Nobel da Paz, em 2009, que, neste sábado, esteve no evento Game
Changers, no Meo Arena, em Lisboa, 16 anos depois da última vez que tinha
visitado a capital portuguesa. Com mais de 10 mil pessoas a assistir, recebeu
uma ovação em pé da plateia.
Começando por notar que, “historicamente, quando há
grandes perturbações, as pessoas sentem incerteza ou medo e tendem a recair no
tribalismo, no nacionalismo extremo ou a culpar os imigrantes”, Obama explicou os perigos de uma
política baseada em tribos, recorrendo ao exemplo da “história feia da Europa
durante mil anos, que culminou na morte de 60 milhões e no Holocausto”.
As referências à Europa não se ficaram por aqui. Apesar de
elogiar a ideia de uma União Europeia que diz ter “proporcionado à Europa os tempos mais
prósperos que algum grupo de pessoas alguma vez viveu”, criticou a burocracia de
Bruxelas e sugeriu que a demora em “fazer o mais simples” leva os cidadãos, que
se queixam de a habitação estar mais cara e de que é difícil encontrar emprego,
a “perderem a confiança”.
O antigo presidente norte-americano alertou que o não
funcionamento dos governos democráticos, de uma forma eficiente, torna mais
atractiva a ideia propagada pelos líderes autoritários de que “vão
resolver os problemas quebrando as regras do sistema.”
Para solucionar este problema dos discursos
polarizadores e do crescimento dos movimentos autoritários, salientou a necessidade de haver
líderes políticos capazes de representar o seu próprio povo e de valorizar as
suas tradições, cultura e história, mas que também saibam dizer: “Eu vejo-vos, a vocês que estão fora
do meu país; sei que têm valor e acredito que partilhamos uma humanidade comum.”
Indirectas bem directas a
Trump
O antigo presidente norte-americano, que cumpriu dois
mandatos entre 2009 e 2017 e acabou a passar o testemunho a Donald Trump (no
seu primeiro mandato), aproveitou para analisar a política interna e deixar
algumas críticas veladas ao actual chefe de Estado.
Numa altura em que os Estados Unidos vivem um momento
político polarizado, entre os dois grandes partidos, democratas e republicanos,
e com as eleições intercalares à porta, Barack Obama não se conteve em
criticar o movimento e o slogan republicano de Trump “Make America Great Again” (Tornar a América Grande
Novamente).
Agora como um autointitulado “treinador” do partido democrata
e dos seus líderes políticos afirma que no movimento “MAGA” há quem tente
reconfirmar as “velhas hierarquias”. O grande esforço em dizer que existe uma “América Real”, na
realidade, é “uma nostalgia pelos dias em que as minorias raciais estavam
caladas e as mulheres sabiam o seu lugar e deviam estar na cozinha”, afirmou
Obama.
Ainda no plano interno, Barack Obama mostrou-se preocupado
com o aumento
de “políticos demagogos” que se aproveitam da frustração das pessoas para
alimentarem a ideia de que há inimigos como os “imigrantes que querem tirar
empregos”.
Por isso, pediu líderes que permitam ter a confiança: “eu quero viver num mundo onde as
minhas filhas têm as mesmas oportunidades que os meus filhos, onde não preciso
de me sentir superior a ninguém.”
Mesmo sem pronunciar o nome do seu sucessor, Obama
deixou uma farpa com enfoque na guerra no Médio Oriente, dando como exemplo a
situação “difícil” com que se deparou, enquanto Presidente, em relação à Síria,
numa altura em que Bashar al Hassad, antigo presidente sírio, “matava” o
próprio povo. Teve de decidir avançar (ou não) com uma ofensiva na Síria para
libertar o povo de Hassad.
No entanto,
à luz do direito internacional, essa incursão militar seria ilegal. Obama não
avançou e Hassad só abandonou o cargo 13 anos depois, em 2024, quando fugiu
para a Rússia.
Ao contar esta história, Obama acabou a deixar a farpa
a Trump, afirmando que uma incursão militar sem ser por retaliação seria ilegal
e que, segundo a Constituição norte-americana, tem de ter a aprovação do
Congresso.
Donald Trump
iniciou a ofensiva no Irão sem a aprovação do Congresso norte-americano,
utilizando a Lei de Poderes de Guerra de 1973 que permite ao presidente dos EUA
um prazo estrito de 60 dias para conduzir acções militares no exterior sem o
aval do parlamento.
Cuidado com a Inteligência
Artificial
Na conversa de cerca de uma hora, no Meo Arena, Barack
Obama virou-se também para os perigos da Inteligência Artificial na
sociedade.
Falou de uma tecnologia
que evolui de uma forma muito rápida e que vai afectar trabalhos que julgávamos
serem “protegidos” — advogados,
contabilistas ou médicos — funções que, alertou, vão ser feitas por
máquinas nos próximos 10 anos.
No entanto, acredita que há profissões que nunca vão ser
substituídas como “professores ou cuidadores”. Profissões que Obama disse serem
subvalorizadas, nomeadamente por serem historicamente desempenhadas por
mulheres.
Para Obama, os governos não estão a conseguir
acompanhar o desenvolvimento desta nova tecnologia, que se desenvolve “de três
em três meses”, e que, por isso, é necessária regulação, a começar “idealmente”
nos Estados Unidos. Mas, tendo em conta o avanço chinês na área, é
“preciso coordenação entre China e Estados Unidos para a criação de um quadro
regulatório”.
Alertou ainda para os perigos que a IA ao nível da
segurança nacional e deu outros exemplos, como modelos de código aberto que
qualquer pessoa pode descarregar para o seu computador e usar essa IA para
invadir o sistema financeiro, o controlo de tráfego aéreo, ou até desenvolver
uma nova pandemia. “Ainda não temos as barreiras de proteção
necessárias.”
Há ainda críticas direccionadas aos líderes das
grandes tecnológicas como a OpenAI, Anthropic, Grok, Meta, Google. Dizendo conhecer bem estes líderes,
recordou que foi durante o início da sua presidência que estas empresas
começaram a crescer. Lembra-se de Mark Zuckerberg (da Meta) como “uma criança que alguém
tinha trazido” e de Elon Musk c “São brilhantes numa perspectiva muito estreita, mas
não lêem romances, não ouvem música, nem pensam na literatura como algo tão
importante para a civilização quanto o PIB” e que, portanto, são necessárias
pessoas que tenham visões “mais abrangentes e empáticas”.
Jovens são necessários na
política
No final do discurso, o foco para o antigo presidente
de 65 anos passou a ser os jovens. Obama procurou puxá-los e influenciá-los a
entrar na política. A retórica foi direccionada especialmente a uma crítica ao
“idadismo”.
Começou por dar o exemplo de quando ainda estudava na
faculdade e realizava comícios contra o apartheid na África do Sul. A primeira vez que discursou,
fê-lo depois de ver dois rapazes sul-africanos que viajaram até aos Estados
Unidos, com poucos meios, e pensou: “Se eles conseguem ter impacto,
eu também consigo”.
Depois passou para um exemplo de quando chegou à Casa
Branca. Nas
salas de reuniões, os mais jovens costumavam sentar-se em cadeiras pequenas, na
parte de trás da sala, a passar bilhetes para os chefes. Na primeira semana de
trabalho decidiu virar-se para um desses jovens e perguntar — “e tu, o que
achas?” — e acabou por descobrir que os jovens muitas vezes sabiam mais que os
próprios chefes, pois faziam o trabalho todo dos superiores que apenas iam para
as reuniões ler as notas que lhes eram dadas.
Obama quis também desmistificar o mundo dos adultos. Servindo-se de mais uma
experiência pessoal, da altura em que chegou a representante local do estado de
Illinois, pensava que a assembleia era muito parecida com a escola secundária
mas que, quando “subisse de nível”, seria diferente. O problema,
continuou, é que
quando chegou ao Senado foi “exactamente igual”. Mesmo quando se tornou Presidente dos Estados
Unidos e foi a uma reunião do G20, percebeu que até entre os líderes mundiais
havia imaturidade e “parecia o secundário”.
Mesmo sobre a campanha eleitoral em 2008, Obama
acredita que foram os jovens que colocou a fazer voluntariado em comunidades
norte-americanas a vencer as eleições. Era no jovem de Nova Iorque que ia ao
Estado de Iowa ajudar que se depositava a intenção de voto, ainda que fosse em
Obama que se acabasse a depositar o voto.
Todas estas histórias serviram para Barack Obama passar a
mensagem final do discurso de que a política precisa de mais jovens e
que, com um mundo cada vez mais digital, “é necessário os mais novos
assumirem-se na política, porque os velhos não sabem usar as redes sociais”.
▲
António José Seguro recebeu, no Palácio de Belém, Barack Obama, "para uma
conversa informal e uma troca de impressões sobre temas da actualidade
internacional” .
Estados Unidos da América América Mundo
Barack Obama Donald Trump Inteligência Artificial Tecnologia Ditadura Sociedade Democracia União Europeia Europa Médio Oriente Guerra
Conflitos
COMENTÁRIOS:
Goncalo Narciso
Obama "lança farpas" à actual administração
de ter violado o direito internacional ao ter atacado o Irão... Ele, o
pacifista Nobel da paz, obviamente cumpriu o direito internacional! O que permitiu cerca de 13 anos de governação
do Assad na Síria desde o início da guerra civil que começou na governação
Obama. 500 mil pessoas morreram, destes 180mil civis às mãos de Assad, 60 mil
prisioneiros morreram sob tortura deste... Mas Obama prefere estes números, a
violar o direito internacional. Prefere não ser acusado pelo TPI, a salvar
estas pessoas.
Agora mando eu farpas aos anti-semitas e marxistas de
internet: Nunca vi ninguém com posters e caricaturas do Assad, como vejo para
Netanyahu e Trump. Nunca vi ninguém a fazer manifestações pela síria e pelas
centenas de civis mortos por este ditador, como fazem pela Palestina. Isto
porque eles não se importam com morte de pessoas inocentes se os estados não
forem do Ocidente, defensores do mundo livre.
Maria Paula Silva
o que
é que este palerma vem aqui fazer? haja paciência...
pertinaz
Sempre a mesma conversa vazia e politicamente
correcta… Síria, Líbia e Ucrânia … quantas centenas de milhar de mortos tem
Obama na consciência… repete o modelo de negócio do Al Gore… sirvam-lhe o
caviar…!!!
Rui Pedro Matos
Obama....um
parvalhão e as pessoas foram ouvir, pagando, um péssimo homem de estado!