Somos quem somos, fazemos bem, fazemos mal, colaboramos na
marcha do mundo com a nossa singularidade, note-se ou não. Como todos a têm,
com mais ou menos poder. Creio que se o mundo proliferou tivemos participação
nisso, boa ou má. Não digo que recolhamos à nossa insignificância, todos nós
significamos qualquer coisa, mesmo que seja apenas no trabalho, nos filhos, na
brincadeira. Esforcemo-nos, sim, como pudermos, para participar razoavelmente nos
esforços em que nos comprometemos. Já seria bom se resultasse bem. Se, não, procuremos
melhorar, talvez… Participemos… Ou não. Para participar como a Rússia, hoje,
mais valia suspender, sem dúvida. e contemplar as estrelas. À noite. Dormir de
dia. Tudo o que acontece por algum motivo é, é certo. A Historiografia que o diga.
E o bla bla bla como este, também, talvez proveniente de cansaço, que pode
terminar sem epitáfio.
Os 100 anos que ninguém notou
O ponto mais interessante de
observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se
deu sem resistência, praticamente a pedido.
ALEXANDRE BORGES Escritor
e argumentista
28 mai. 2026, 00:21
(1 Lei de retorno teria impedido libertação de
narcotraficante
2 Entre eleições e não assuntos: desgaste de Governo
sem rumo
3 Os 100 anos que ninguém notou
4 O 28 de Maio de há um século
5 A cova que Passos está a cavar
6 O veredito do fantasma)
Fosse biologicamente
possível e festejaria com mais propriedade o meu funeral do que o aniversário –
podemos não gostar de pensar nisso, mas temos consideravelmente mais
participação na forma como morremos do que naquela como chegámos a este mundo.
Reconheço, porém, que não seja a corrente de pensamento mais popular. E,
todavia, tenho quase a certeza de que toca o mesmo ponto fraco que nos faz
comemorar umas efemérides e desviar os olhos de outras.
Em 2010, celebrámos durante um ano a implantação da
República. Houve comissão para as comemorações, filmes, programas
de televisão, debates, fóruns, livros, exposições. Mas hoje, que faz
precisamente cem anos que essa primeira tentativa de regime republicano,
liberal, democrático, caiu, não encontrarão mais do que meia
dúzia de conversas em programas de tv, rádio, ou textos como este. Sim,
bem sei que continuámos a viver em república depois do golpe de 28 de Maio – bem
sei que vivemos em
república até hoje – mas viver em república não é um bem por si
mesmo, tal como viver em monarquia não é certamente um mal. O que
aconteceu há 100 anos foi o epitáfio de um projecto muito concreto e faríamos melhor em
dar-lhe alguma atenção.
Quando as tropas de Gomes da Costa vieram de
Braga, em desfile país abaixo até à capital, não havia duas frentes em confronto,
duas
visões de mundo ou, ao menos, uma oposição. Havia cansaço, desilusão. Meros
16 incompletos anos depois, tinha fracassado a tentativa de implantar em
Portugal um regime determinado pelos portugueses, os portugueses “reais”, que
não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes trabalhadoras, sem privilégios de
classe.
Mas o país que
também antes se tinha cansado da monarquia e, sobretudo, da corte, dos condes e
dos barões, e que correra até com os padres e os frades na repetida ânsia de
culpar alguém ou alguma coisa pelos males que o afligem, desembocara num estado
de miséria ainda pior do que aquele em que se encontrava antes de 1910,
esmagado pelas consequências da Guerra, em que se metera por vaidade dos
protagonistas políticos preocupados com a afirmação do regime além-fronteiras
(o clássico “para inglês ver”), pela gripe espanhola e, acima de tudo, pelo
caos político e social.
Há cem anos, quando o resto do mundo ocidental celebrava os
“loucos” anos 20, Portugal vivia a década em que mais divergiu economicamente dos seus
parceiros de continente. Os governos sucediam-se à média de três a quatro por ano, de
desilusão em desilusão, dilacerados, primeiro, pelo projecto hegemónico de
poder de Afonso Costa e do Partido Republicano e, depois, pelas múltiplas
correntes e dissidências. Ficou a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar,
enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no ensino superior, mas sobraram os recuos: no sufrágio
universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições
de vida dos portugueses, na democracia real.
O ponto mais
interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar
hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido. Pior
ainda do que em 1910, quando não se ofereceram mais do que Paiva Couceiro e umas centenas
de militares para defender uma monarquia de quase 800 anos e que
tanto nos orgulhávamos de, de tempos a tempos, ter salvo e recuperado quase por
milagre, não apareceu sequer, dessa vez, um herói mais ou menos romântico
que se atravessasse
no caminho da “Revolução Nacional”. Bernardino Machado, Presidente da República, e António
Maria da Silva, primeiro-ministro, entregaram pacificamente o poder a Gomes da Costa quando este chegou a Lisboa, e até
intelectuais como Fernando Pessoa defenderam, por um momento, a
necessidade temporária de uma ditadura militar para “limpar” o país dos males causados
pela I República.
Só que, atrás de Gomes da Costa, não estava
qualquer projecto; estava um conjunto de gente que não podia pensar de
formas mais distintas: monárquicos, republicanos, militares, maçons, católicos, quase todos
desiludidos de alguma coisa. Unia-os a desilusão, o estarem
fartos. Mas estar farto não é um projecto político, como se
perceberia pela incapacidade de produzir um nos meses ou sequer anos seguintes.
O que se
sucederia não seria, portanto, propriamente, temporário, mas a mais longa
ditadura da Europa Ocidental.
Em 1926, o regime caiu de podre; como em 1910; como,
em boa parte, em 1974; como talvez seja a única maneira de mudar alguma coisa
num país tão velho. Não por combate vigoroso ou sanguíneo, mas
por desistência, por cansaço. 100 anos depois, os portugueses
vivem extraordinariamente melhor do que nesse Portugal de então, mas os perigos
do cansaço e da desilusão voltam a pairar por aí e a confundir-se, exactamente
como há um século, com um “projecto”, uma “ideia” que, na verdade, ninguém sabe
qual é, nem os próprios. Não temos ataques bombistas nem milícias a distribuir pancada
pelas ruas, mas não falta, como em 1926, quem implore por “ordem”, “limpeza”,
alguém que “pegue nisto”. Um descrédito das instituições, uma falta
de pessoal “qualificado”, de vez em quando um ténue fantasma a espreitar: a “ingovernabilidade”. E
agora, até uma geração que parece achar que um governo autocrático talvez nem seja coisa má de
todo.
Poderíamos meditar um pouco
nas razões destas nossas mortes recorrentes, destas quedas. Assinalar com pelo
menos metade da pompa os funerais das efemérides que, tão galhardamente, nos
ocupamos em celebrar. Para perceber as razões e melhor descortinar os
inimigos. Afinal, em
1926, quando caiu a república livre e democrática, entregue a si mesma e à
autodeterminação do seu destino, quem falhou não foram os reis, nem os padres,
nem os militares, nem a extrema-esquerda, nem a extrema-direita. Fomos nós.
POLÍTICA
HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS
(de 65)
Luis Fernandes Machado: Como sempre o
Alexandre Borges é brilhante, mas há duas notas onde insiste, de certa forma,
num erro de percepção institucionalizado: nem a Implantação da Republica em
1910 foi uma aspiração popular, surgida de um movimento popular consistente,
nem a I República foi "livre e democrática". O derrube da monarquia
foi um projecto de alguns poucos que, simplesmente, ambicionavam ocupar a
posição na política e na sociedade ocupada antes por outros. Entre alguns
poucos idealistas mais ou menos genuínos, como Machado dos Santos, ou proto-ditadores
como Afonso Costa
e seus muitos cúmplices, ninguém "pediu" licença ao povo,
ninguém "ouviu" o povo e muito menos ninguém "consultou",
antes ou depois, o povo sobre isso. Tal como uma certa ideologia política
hoje em dia, "actuou em nome do povo, porque não podemos deixar ao povo a
decisão do que quer".
O que aconteceu durante
aqueles 16 anos, não foi mais liberdade, nem mais democracia que antes na
Monarquia, nem sequer depois no Estado Novo. Foi antes um delírio à la
revolução francesa de gente não recomendável que se serviu do país num banquete
sanguinário, desde a insistência na participação idiota na Grande Guerra,
contra a vontade dos próprios aliados, até à Camioneta Fantasma de 1921. Tal
como o Napoleão foi a "salvação" das
loucuras da Revolução Francesa, também o Estado Novo acabou por o ser da
I República.
Mas há uma ideia onde o Alexandre Borges está total
e irremediavelmente correcto: o paralelismo com o que vivemos hoje é absoluto.
COMENTÁRIOS:
Df: Como podia a 1ª República ser
"livre e democrática" se havia "milícias a distribuir pancada
nas ruas" e o direito de voto era mais restrito do que na Monarquia? Algo
não bate certo.
Francisco Almeida: Chamar república livre de
democrata à ditadura "de facto" de Afonso Costa e do Partido
Democrático, apenas define o autor. E mencionar o que o povo escolheu, quando
se restringiu o direito de voto e quando as "revoluçõezinhas" a
começar pela de 1910 eram decididas em Lisboa e comunicadas ao país por
telégrafo, mete dó. Incidentalmente, é facto que a resistência se limitou a Paiva Couceiro mas houve
motivos para isso. O general comandante militar de Lisboa deu ordem para
dois regimentos saírem mas o cabo telegrafista era da Carbonária e, pura e
simplesmente não enviou as mensagens. Para quem gosta de comparar
revoluções, algo de semelhante aconteceu com a malograda saída do Regimento
das Caldas em 16.3.1974. Presos todos os oficiais spinolistas o MFA ficou
aberto a comunistas iinfiltrados e até foi escolhido para liderar um palhaço
vaidoso e manipulável.
Ricardo Horta: Como se pode qualificar a
I.ª República como uma "república livre e democrática" quando
"... sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das
mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na
democracia real."!!???
José Tomás: Um artigo com contradições -
porque o autor sabe a história, (brilhantemente resumida no artigo de Nogueira
Pinto), mas não abdica do mito - mas que é muito útil para chamar a atenção
para isto: num tempo em que (graças à Internet) "os de sempre"
perderam o exclusivo da narrativa e o poder de martelar os factos sem ninguém
os contrariar, só lhe resta tentar que ninguém se lembre de que hoje faz 100 anos o 28 de Maio de 1926 (uma
das 3 datas-chave do séc. XX português).
Maria Paula Silva: Excelente! Excelente
análise histórica, de forma sintética e divertida. Fartei-me de rir porque,
afinal, tanto faz o tipo de governo, somos mesmo uma nhoca ingovernável sem governantes qualificados. Cem anos depois, uma análise perfeita da
realidade actual.
Luis Monte Rosa, abre os
olhos, se fores capaz! Não és, está mais que provado. Este artigo é
extremamente oportuno mas, infelizmente, não vai servir de nada. Daqui a 100
anos alguém escreverá algo idêntico. Sempre achei interessante esta parecença
de nomes (Gomes da Costa/Costa Gomes;
Afonso Costa/António Costa nos ciclos que se repetem).