sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Relato


Sobre uma História Pátria – ou Africana - de travessia africana. Ao que parece, ignorada, modestos que somos.

A travessia que nunca ninguém fizera

A primeira travessia da África Austral da história euroafricana e a única missão transcontinental documentada de ida-e-volta é uma proeza em linha com os Descobrimentos.

JOSÉ RIBEIRO E CASTRO Advogado e cidadão

OBSERVADOR, 06 ago. 2026, 00:15

(As mais lidas: EUA. Marines tentam lançar-se ao mar após 9 meses a bordo   Médicos querem rastreio cardiovascular a partir dos 35 anos   Coroa saudita cancela viagem à Madeira   Sábado já há trovoadas, granizo e aguaceiros   Marcelo recebe alta hospitalar. "Sinto-me bem"   Jovem de 15 anos suspeito de matar a mãe em Algés)

A história portuguesa guarda maravilhas por descobrir que custa entender como foram desvalorizadas e, durante séculos, geralmente desconhecidas. O caso é a travessia da África Austral, de costa a costa, de Angola a Moçambique, essa grande epopeia do final do nosso século XIX.  Sempre pensei – como quase todos – que os primeiros grandes feitos deste desígnio pertenceram a Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, nas décadas 1870 e 1880; e, olhando aos ingleses, a David Livingstone, na década 1850. Também pensei que este propósito surgira apenas na segunda metade do século XIX, no quadro das ideias que desaguaram na Conferência de Berlim, de 1884/85. Não foi assim.

Em Outubro de 2025, participei no lançamento do livro “A PRIMEIRA TRAVESSIA DA ÁFRICA AUSTRAL”, de José Bento Duarte (ed. Perfil Criativo – Edições, 2025) autor que me revelou um facto extraordinário e surpreendente: os heróis da primeira travessia de Angola a Moçambique, e volta, foram dois pombeiros portugueses, angolanos, escravos por sinal, Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, que realizaram essa proeza ao serviço de Portugal, entre 1802 e 1814: nove anos à ida (1802-1811) e três anos à volta (1811-1814). Formidável! Meio século antes de Livingstone e 70 anos antes de Serpa Pinto, Capelo e Ivens, já aquela missão portuguesa se iniciara para ser concluída, com êxito total. Foram os luso-angolanos Pedro João Baptista e Anastácio Francisco que realizaram, pela primeira vez, a travessia que nunca ninguém fizera.

Confirmei, depois, que MARIA EMÍLIA MADEIRA SANTOS, historiadora que é uma autoridade na área, relatara também estes factos (embora discretamente), no artigoOs países africanos de língua portuguesa na África do século XIX”, que publicou, em 2008, NO VOLUME VI DA “HISTÓRIA DA HUMANIDADE” (DA UNESCO, PUBLICADA EM PORTUGAL PELA VERBO): «A partir dos finais do século XVIII, a exploração científica ultramarina gozou do apoio oficial da Universidade e da Real Academia de Ciências. Em 1797, o matemático Lacerda e Almeida foi o primeiro cientista português a tentar atravessar África, mas, não possuindo quinino, morreu de febre no Cazembe. Nos finais do século XVIII, os portugueses haviam reunido as condições materiais necessárias para empreender a travessia de África com o envolvimento de homens práticos. Perante as dificuldades dos cientistas, recorreu-se à colaboração de dois pombeiros negros do Cassanje, assimilados pela sociedade luso-africana, ambos com grande experiência de viagens a pé e capazes de manter um diário de percurso. Esta travessia de África foi possível graças aos chefes africanos que abriram os caminhos aos seus irmãos negros, que pediam passagem em nome do Muene Puto, rei de Portugal (1802-1814). O diário dos pombeiros, que viu a luz do dia em 1843, permitiu aos geógrafos europeus preencher espaços em branco até à altura desconhecidos no mapa de África. O governo preocupou-se, então, com a proteção da exploração geográfica, deixada à iniciativa privada durante quase três décadas.» A historiadora apresentara já este feito, de modo mais desenvolvido, na sua obra de 1978,Viagens de Exploração Terrestre dos Portugueses em África”.

No seu livro, JOSÉ BENTO DUARTE relata desenvolvidamente, desde o século XV, a chegada dos portugueses a África e como se estabeleceram em vários pontos da costa ocidental e, depois, na contracosta oriental no Índico, instalando-se onde viriam a formar-se Angola e Moçambique.

O interessantíssimo livro de José Bento Duarte.

Também confirma que o desígnio português de fazer a travessia da África Austral já era, em Portugal, um objectivo científico, académico e político na segunda metade do século XVIII. Relata a viagem preparatória em 1755-56 de Manuel Correia Leitão, sargento-mor dos distritos do Dande, em Angola. Correia Leitão, acompanhado pelo piloto António Grizante, fora mandado pelo novo governador de Angola, António Álvares da Cunha, desbravar as terras para leste da feira do Cassanje, na região de Malanje, então o ponto mais oriental conhecido a partir de Luanda, para reunir informações sobre as terras a atravessar na rota para Moçambique.

A seguir, ainda no século XVIII, o livro narra, desde a preparação com envolvimento político directo do governo em Lisboa, a expedição de Francisco José de Lacerda e Almeida, cientista credenciado e cartógrafo, formado em Matemática pela Universidade de Coimbra. Lacerda e Almeida foi enviado pela Coroa para estabelecer a ligação terrestre entre Rios de Sena (Moçambique) e Angola. Era uma expedição com boa organização e propósito ambicioso. Partindo de Tete, em Julho de 1798, atravessou o interior africano até ao Cazembe (na actual Zâmbia), onde esperava prosseguir para Angola, a oeste. Venceu todas as peripécias até conseguir partir e venceu as dificuldades da viagem; mas o desgaste físico e as doenças impediram-no de cumprir a missão. Em Novembro, morreu no Cazembe, tornando-se símbolo dos limites da exploração científica europeia em África.

JOSÉ BENTO DUARTE encerra o livro com a apaixonante narrativa da primeira travessia terrestre de Angola para Moçambique, por PEDRO JOÃO BAPTISTA e ANASTÁCIO FRANCISCO entre 1802 e 1811 – e regresso a Angola em 1814. Eram pombeiros luso-angolanos, na condição de escravos, pertencentes ao tenente-coronel Francisco Honorato da Costa, governador da feira de Cassanje, experientes nas rotas comerciais do interior africano. Apenas quatro anos depois de Lacerda e Almeida morrer no Cazembe, os pombeiros partiram do lado angolano, no sentido inverso, de Cassanje com destino a Rios de Sena, em Novembro de 1802, enfrentando uma viagem de nove anos, marcada por longas permanências intercalares em territórios africanos, complexas negociações com chefes locais e dificuldades de toda a ordem. Estiveram logo dois anos parados nas terras do rei Bumba (actual leste do Moxico, Angola), de onde seriam resgatados por HONORATO DA COSTA. E o momento decisivo ocorreu, já perto de Moçambique, no Cazembe, onde tiveram de permanecer quatro anos antes de obter autorização para prosseguir. Chegaram a Tete, em 2 de Fevereiro de 1811, demonstrando pela primeira vez a viabilidade da ligação terrestre entre as duas possessões portuguesas. Regressaram a Angola em 1814, assim concluindo uma expedição de cerca de doze anos, no total.

A rota da travessia de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, no percurso de Cassanje (Angola) a Rios de Sena (Moçambique) – 1802-1811. Fonte: Portal da História.

Pedro João Baptista e Anastácio Francisco eram pombeiros experientes, muito habituados ao trato com as populações africanas. Pombeiros eram comerciantes no interior de África, que faziam longas viagens, em que consolidavam valiosas competências de relacionamento: negociar preços, resolver conflitos, conhecer costumes, dominar várias línguas africanas, interpretar protocolos, saber quando oferecer presentes, pedir audiências, reconhecer hierarquias locais. Por isso, PEDRO JOÃO BAPTISTA, homem de confiança de HONORATO DA COSTA (ele mesmo rotinado no trato com chefes africanos), tornara-se num “diplomata comercial”, com qualidades pessoais que explicam o êxito alcançado. O chefe da longa missão não era um cientista, nem um militar, nem um político, nem um embaixador, mas um agente intercultural. Sobreviveu a doze anos de negociações contínuas com chefes locais e soberanos africanos. E, no final, a saída diplomática achada para se libertar da última paragem de quatro anos no Cazembe confirma-o como líder dotado de enorme paciência, respeito pelo protocolo local, capacidade e sensibilidade para compreender interesses políticos e total autocontrolo.

Por outro lado, a esta distância e desconhecendo a cultura do tempo e do lugar, não deixa de impressionar que estes dois escravos não fugissem e, pelo contrário, mantivessem, ao longo de todas as contingências e peripécias, a fidelidade e a determinação no cumprimento da missão que lhes fora confiada ao serviço da Coroa (no dizer do tempo e do lugar, o Muene Puto): fazer a travessia que nunca ninguém fizera. Extraordinário!

BENTO DUARTE relata o remate desta história formidável: o reconhecimento oficial da missão pela Coroa. Depois de regressado a Cassanje, Pedro João Baptista viaja para Luanda, onde é recebido pelo governador como herói. E daqui, em 1815, na fragata “Príncipe Dom Pedro”, foi até ao Rio de Janeiro, onde apresentou os roteiros e documentos da sua formidável viagem. O príncipe regente D. João (pouco depois, rei D. João VI) determinou a criação de uma Companhia de Pedestres, destinada a assegurar a comunicação terrestre entre Angola e Moçambique, nomeando Pedro João Baptista seu Capitão e concedendo-lhe um soldo relevante. Francisco Honorato da Costa foi também recompensado pelos serviços prestados na organização da expedição.

OS FEITOS E ENSINAMENTOS DA VIAGEM DE PEDRO JOÃO BAPTISTA, COMO ANTERIORMENTE DE LACERDA E ALMEIDA (ESTA, NÃO CONCLUÍDA), INFLUENCIARAM DE MODO INSOFISMÁVEL OS FUTUROS EXPLORADORES EUROPEUS, 50 ANOS DEPOIS. Os documentos relativos à missão de Pedro João Baptista foram publicados nos Annaes Marítimos e Coloniaes, publicação mensal da Associação Marítima e Colonial, em 1843 – surge dentro do título geral «Explorações dos Portugueses no Interior da África Meridional», que incluía os «Documentos relativos à viagem de Angola para Rios de Sena». E a documentação da missão incompleta de Francisco Lacerda e Almeida foi publicada nos mesmos Annaes Marítimos e Colonias, em 1844 e 1845. Em Inglaterra, ambas as missões estão publicadas pela Royal Geographical Society, desde 1873, na obra «The Lands of Cazembe. Lacerda’s Journey to Cazembe in 1798… Also Journey of the Pombeiros (…) across Africa from Angola to Tette on the Zambese». Uma atenção internacional que bem merece respeito e comprova a prioridade.

O Portal da História, que publica na internet vários documentos e relatos da viagem dos pombeiros, escreve: «Este relato, traduzido para inglês no ano seguinte à sua publicação, serviu para Livingstone, o missionário escocês que explorou o território entre Angola e Moçambique, preparar as suas viagens.»

Por isso, nesta nossa celebração dos 900 anos de Portugal, não posso deixar de registar e destacar a extraordinária viagem dos luso-angolanos Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, entre 1802 e 1814, como a primeira travessia da África Austral da história euroafricana. É também, ao que hoje sabemos, nessa época, a única missão transcontinental documentada de ida-e-volta realizada por uma mesma expedição no interior da África Austral – todas as outras foram só num sentido. É, na verdade, uma grande proeza da História de Portugal – e da História de Angola também.

Uma proeza em linha com os Descobrimentos, “por mares nunca dantes navegados”: eles próprios travessias que nunca ninguém fizera.

[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]

Portugal 900 anos História Cultura

COMENTÁRIOS:

M: m b

Do que aqui se relata é ou não possível inferir que instituições e regimes de escravidão podem ser social e politicamente funcionais e desempenharem um papel positivo?

E que é historicamente factual que tais instituições foram efectivamente social e politicamente funcionais e contribuíram positivamente para o desenvolvimento da espécie humana? E que só isso pode explicar o facto de tais instituições e regimes cedo terem surgido na história da humanidade e persistido universalmente até épocas recentes?

Meio Vazio: Do (para mim) enigmático José Bento Duarte nada soube até 2018 quando uma filha, sabendo-me fascinado  pela Idade Média na Ibéria, me fez chegar às mãos o soberbo "Peregrinos da Eternidade" (Lisboa, Ed. Estampa, 2003) - que releio repetidamente com acrescido proveito e prazer - e de quem não mais tinha tido referência até hoje. Obrigado, José Ribeiro e Castro, pela oportunidade do reencontro.

Francisco Almeida: É mais um triste sintoma do que se passa no ensino em Portugal que esta primeira travessia de África, seja universalmente desconhecida. Para mim foi uma surpresa total e, em conhecimentos históricos do passado português, considero-me um pouco acima da média.

Sr Leão: Muito esclarecedor e oportuno. Ignorava que tivesse havido tentativas anteriores a Serpa Pinto, Capelo e Ivens.

Américo Silva: Bem lembrado, sobretudo num tempo em que ser portuguès, ou francês, ou inglês, e mais, é só circunstância e conveniência.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Às aranhas

 


É  como me sinto, ao transcrever estes textos do blog do Dr. Salles, que mal entendi, na sua reposição pessimista, de quem prevê males próximos, afinal não muito diversos dos males presentes e passados, como inerentes à precária condição humana…

 

agosto 03, 2026

Desta vez, trato dos três níveis de motivação humana que mais me interessam:

1.  O nível das ideias, conceitos, políticas, estratégias… - aquele a que se dedicam os espíritos superiores;

2.  O nível dos factos a que se dedicam os espíritos medianos, vulgares e quiçá mesquinhos na busca da verdade que só eles têm por boa;

3.     O nível dos que tratam de discutir pessoas, ou seja, dos medíocres – o reino da manipulação mediática.

Agosto de 2026

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

Comentários

Anónimo, 9 de agosto de 2026 às 21:58: Ó Dr. Salles da Fonseca. E aqueles que, como eu, partem dos factos para as ideias? Abra lá mais uma possibilidade onde eu possa ser arrumado. Abraço António Palhinha Machado

TEXTO:

ABRINDO A PORTA... fevereiro 02, 2026 Ao estilo de Declaração de Princípios, esta é a casa do       … humanismo no sentido inequívoco do antropocentrismo em que o Estado serve o cidadão, por ultrapassagem do teocentrismo medieval e em oposição a todos os sistemas que obriguem a pessoa servir o Estado  … da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU 1948) e contra tudo que a contrarie;   … da sistemática busca da harmonização de interesses nem sempre concomitantes, por oposição a perturbadora luta de classes;      … da liberdade de pensamento e respectiva expressão;      …do pluripartidarismo que, abrindo alternativas de doutrina e estratégia, permite ao eleitorado (o verdadeiro «dono» do poder) a opção perene ou flutuante entre doutrinas e circunstâncias;      … da definição doutrinária do bem-comum, na esperança vinculada de que propostas disruptivas da harmonia e da liberdade como conceitos unicitário chumbem nas urnas ..

SOMOS POUCOS

março 09, 2026

    A área urbana de Londres tem cerca de 9,2 milhões de residentes; na região de Paris moram 11,2 milhões e Berlim alberga cerca de 6,4 milhões. Comparando com os nossos 10,75 milhões a nível nacional, resta a conclusão que somos poucos. Mas, para além de sermos poucos em termos absolutos, somos ainda menos quando «contamos as espingardas» fiéis aos Valores da Europa Ocidental. Ou seja, no actual litígio contra o imperialismo russo, não podemos correr o risco de deixarmos que as nossas Forças Armadas e de Segurança sejam minadas por russófilos ou seus amigos. Eis a cautela que desaconselha a obrigatoriedade do Serviço Militar: nem todos merecem a honra de servir nas Forças Armadas. Não esbanjemos recursos com «tropa fandanga» cujo amadorismo só prejudica a eficácia dos profissionais. Centremo-nos em pequenas Unidades de grande operacionalidade e deixemos as maciças acções de «botas no terreno» para aliados mais populosos que nós. E assim me refiro às forças terrestres...

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DO BEM-COMUM

fevereiro 04, 2026

  O conceito de bem-comum tem tudo a ver com harmonia social, com solidariedade e com o Estado de Direito. Com respeito pelas minorias, o bem-comum assenta na vontade da maioria. O bem-comum é antónimo de luta de classes, de privilégios classistas e de revolução. Dá para crer que os movimentos disruptivos nascem e medram a partir da desconfiança sob a profusão de compadrios, mas também podem resultar da inveja. Contudo, seja qual for a causa e seja qual for a consequência, tudo isso é contrário ao bem-comum. O Ocidente tem que ser transparente e, portanto, defensor do seu homónimo, o bem-comum. Mas… … se o secretismo referendário é o garante da transparência eleitoral, já na gestão corrente da «coisa» pública a transparência é garantida pela difusão da informação assim impedindo ilegitimidades e compadrio. No cenário actual, o Ocidente é a Europa e pouco mais. O Ocidente, sede do bem-comum democrático, já é só quase a Europa. A ver se a seguramos pelas pontas…e nó...

 

sábado, 8 de agosto de 2026

Encantos

 

Ou desencantos existenciais ,,, Sim, o estímulo da leitura devia ser mais impositivo, não se percebe bem por que razão não o é, podendo aquela ser encarada como mais um nada que funciona como mais um estímulo para as tais vidas feitas de nadas, mas simultaneamente de “tudos” que nos aconchegam ,,.

Bucólica

A vida é feita de nadas;

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

De casas de moradia

Caiadas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;

De poeira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga  TORGA, M., Diário, 1941.


As humanidades não são de ninguém

Lê-se menos numa altura em que nunca tanta gente estudou; os clássicos, outrora fechados nas bibliotecas de meia dúzia de famílias, estão hoje na palma da mão, e ninguém os abre. Mas há um senão.

P. JOÃO BASTO. Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR,07 ago. 2026, 00:22

Há duas semanas, a Atlantic anunciou na capa o «fim da leitura». Menos de metade dos americanos leu um livro no último ano, a maior parte dos alunos recém-chegados à universidade não tem literacia suficiente, a grande maioria das pessoas não escreve ou encarrega a inteligência artificial dessa tarefa.

Diante disto, fazemos sempre uma de duas coisas. Ou cruzamos os braços, com o fatalismo de quem vê, ao longe, uma tempestade que não pode travar. Ou saímos à caça do culpado: o telemóvel, o TikTok, a geração Z, a escola e agora a inteligência artificial. As duas reacções compreendem-se. As duas são inúteis.

O diagnóstico é certo. Lê-se menos numa altura em que nunca tanta gente estudou; os clássicos, outrora fechados nas bibliotecas de meia dúzia de famílias, estão hoje de graça na palma da mão, e ninguém os abre; vende-se-nos uma máquina que escreve por nós no preciso momento em que deixámos de escrever. Tudo verdade.

Mas há uma coisa que estas contas nunca fazem entrar na equação. Um punhado de pessoas que continua, sem dar nas vistas, a ler Homero e Tolstoi ou a sublinhar Dostoievski e Steinbeck à noite, depois do trabalho. Não são professores universitários. Trata-se de uma massa considerável de trabalhadores, não necessariamente de profissões liberais, ou de jovens não alinhados.

Dizer que o número é escasso para inverter a tendência é enganador. Os renascimentos culturais começaram sempre à margem, e quase sempre contra a ortodoxia do seu tempo. O renascimento europeu foi impulsionado por tradutores não académicos e por uma ecologia de patronos e estudantes que operava fora do círculo oficial. O romantismo foi liderado por leitores não licenciados e por poetas das classes mais baixas, como William Blake, John Keats e John Clare. O renascimento americano foi desencadeado por ex-pastores e amadores, com Walt Whitman e Emily Dickinson a escreverem os seus poemas entre empregos. O modernismo teve como maiores pensadores e poetas banqueiros, bibliotecários, jornalistas e até vendedores de seguros, como Wallace Stevens.

É isto que se perde quando se tratam as humanidades como uma propriedade institucional, grupal ou estatal. Não o são. As humanidades são a maneira como uma sociedade aprende a imaginar, a discordar e a dar nome ao mundo, sem corrimão. Salvará as humanidades quem se importar o bastante para o fazer, mesmo que isso o empurre para as margens. Salvará as humanidades quem carregar Rulfo, Faulkner e Camilo como um correio de droga transporta estupefacientes. Salvaremos as humanidades desconfiando de tudo o que não for quase clandestino.

Precisamos de voltar a confrontar-nos com livros, quadros, filmes e obras difíceis. Precisamos de não perceber e de fazer leituras enviesadas. Precisamos de resistir às dicotomias idiotas e empobrecidas que já nos são oferecidas mastigadas. Precisamos de refinar ideias na solidão e no silêncio, e testá-las em conversas reais.

Whitman sentiu o peso esmagador do desespero perante as «cidades cheias de tolos» e «os fracos resultados de tudo». Não sei porque é que, connosco, haveria de ser diferente.

BIBLIOTECAS      LIVROS      LITERATURA      CULTURA

COMENTÁRIOS:

José Roque: As humanidades não são de ninguém, mas o uso que delas se faz, sim, é de alguém. Quando se escolhe Adorno e se ignora Pascal, quando se ensina Habermas, mas não Montaigne, quando se discute Popper, mas não Hegel, são humanidades que se seleccionam.

Carlos Nunes: Muito bem: menos de 50% dos americanos leu um livro no último ano. Eu não sei, mas arriscava que menos de 50% dos portugueses leu um livro desde que nasceu. E isto é muito grave. E perante este facto, o Padre João agarra-se ao “punhado de pessoas” suficientes para os “renascimentos culturais”. Ok, mas isso é outro assunto. O “assunto” é que uma sociedade que não lê é uma sociedade ignorante, doente, perdida. É disto que se deveria falar, e actuar.