sábado, 8 de agosto de 2026

Encantos

 

Ou desencantos existenciais ,,, Sim, o estímulo da leitura devia ser mais impositivo, não se percebe bem por que razão não o é, podendo aquela ser encarada como mais um nada que funciona como mais um estímulo para as tais vidas feitas de nadas, mas simultaneamente de “tudos” que nos aconchegam ,,.

Bucólica

A vida é feita de nadas;

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

De casas de moradia

Caiadas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;

De poeira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga  TORGA, M., Diário, 1941.


As humanidades não são de ninguém

Lê-se menos numa altura em que nunca tanta gente estudou; os clássicos, outrora fechados nas bibliotecas de meia dúzia de famílias, estão hoje na palma da mão, e ninguém os abre. Mas há um senão.

P. JOÃO BASTO. Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR,07 ago. 2026, 00:22

Há duas semanas, a Atlantic anunciou na capa o «fim da leitura». Menos de metade dos americanos leu um livro no último ano, a maior parte dos alunos recém-chegados à universidade não tem literacia suficiente, a grande maioria das pessoas não escreve ou encarrega a inteligência artificial dessa tarefa.

Diante disto, fazemos sempre uma de duas coisas. Ou cruzamos os braços, com o fatalismo de quem vê, ao longe, uma tempestade que não pode travar. Ou saímos à caça do culpado: o telemóvel, o TikTok, a geração Z, a escola e agora a inteligência artificial. As duas reacções compreendem-se. As duas são inúteis.

O diagnóstico é certo. Lê-se menos numa altura em que nunca tanta gente estudou; os clássicos, outrora fechados nas bibliotecas de meia dúzia de famílias, estão hoje de graça na palma da mão, e ninguém os abre; vende-se-nos uma máquina que escreve por nós no preciso momento em que deixámos de escrever. Tudo verdade.

Mas há uma coisa que estas contas nunca fazem entrar na equação. Um punhado de pessoas que continua, sem dar nas vistas, a ler Homero e Tolstoi ou a sublinhar Dostoievski e Steinbeck à noite, depois do trabalho. Não são professores universitários. Trata-se de uma massa considerável de trabalhadores, não necessariamente de profissões liberais, ou de jovens não alinhados.

Dizer que o número é escasso para inverter a tendência é enganador. Os renascimentos culturais começaram sempre à margem, e quase sempre contra a ortodoxia do seu tempo. O renascimento europeu foi impulsionado por tradutores não académicos e por uma ecologia de patronos e estudantes que operava fora do círculo oficial. O romantismo foi liderado por leitores não licenciados e por poetas das classes mais baixas, como William Blake, John Keats e John Clare. O renascimento americano foi desencadeado por ex-pastores e amadores, com Walt Whitman e Emily Dickinson a escreverem os seus poemas entre empregos. O modernismo teve como maiores pensadores e poetas banqueiros, bibliotecários, jornalistas e até vendedores de seguros, como Wallace Stevens.

É isto que se perde quando se tratam as humanidades como uma propriedade institucional, grupal ou estatal. Não o são. As humanidades são a maneira como uma sociedade aprende a imaginar, a discordar e a dar nome ao mundo, sem corrimão. Salvará as humanidades quem se importar o bastante para o fazer, mesmo que isso o empurre para as margens. Salvará as humanidades quem carregar Rulfo, Faulkner e Camilo como um correio de droga transporta estupefacientes. Salvaremos as humanidades desconfiando de tudo o que não for quase clandestino.

Precisamos de voltar a confrontar-nos com livros, quadros, filmes e obras difíceis. Precisamos de não perceber e de fazer leituras enviesadas. Precisamos de resistir às dicotomias idiotas e empobrecidas que já nos são oferecidas mastigadas. Precisamos de refinar ideias na solidão e no silêncio, e testá-las em conversas reais.

Whitman sentiu o peso esmagador do desespero perante as «cidades cheias de tolos» e «os fracos resultados de tudo». Não sei porque é que, connosco, haveria de ser diferente.

BIBLIOTECAS      LIVROS      LITERATURA      CULTURA

COMENTÁRIOS:

José Roque: As humanidades não são de ninguém, mas o uso que delas se faz, sim, é de alguém. Quando se escolhe Adorno e se ignora Pascal, quando se ensina Habermas, mas não Montaigne, quando se discute Popper, mas não Hegel, são humanidades que se seleccionam.

Carlos Nunes: Muito bem: menos de 50% dos americanos leu um livro no último ano. Eu não sei, mas arriscava que menos de 50% dos portugueses leu um livro desde que nasceu. E isto é muito grave. E perante este facto, o Padre João agarra-se ao “punhado de pessoas” suficientes para os “renascimentos culturais”. Ok, mas isso é outro assunto. O “assunto” é que uma sociedade que não lê é uma sociedade ignorante, doente, perdida. É disto que se deveria falar, e actuar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Uma portuguesa


… Uma pessoa, simplesmente - de lei.

Proximidade

Ter trazido hoje, com desenvoltura e gosto, as vicissitudes de um mercado de fruta numa cidade secundária, trar-me-á desvantagem face à soberania da actualidade: - então e Ceuta?  e Sánchez? e o Irão?

MARIA JOÃO AVILLEZ - Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 05 ago. 2026, 00:25

 

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1Quando me vi face a uma plateia de caldenses, sentada entre as forças vivas da cidade para moderar um debate sobre a icónica Praça das Caldas, louvei intimamente a iniciativa: com o mundo em guerras e a incerteza como destino ter a oportunidade de “in loco” voltar a confirmar o valor e a importância da “proximidade”, foi-me muito grato.

Cada uma daquelas pessoas trazia uma opinião de casa, propunha soluções, queria ouvir a dos outros. A Praça dizia-lhes respeito, era “deles”: sugestões, alternativas, ambições, perspectivas, quotidianos e até sustentos, passaram por ali no desenrolar da conversa no palco e a seguir, na plateia.

2A Praça da Fruta é um dos ex-libris das Caldas da Rainha, porventura o mais conhecido de tão presente, popular, participado, perene.

 Como escreveu Carlos Querido – um dos debatentes naquela tarde solarenga de Julho – no seu livro justamente chamado “A Praça das Caldas”, “se recuarmos 100 anos, hoje de manhã, lá estaria a Praça a fervilhar com o mesmo ritmo e as mesmas regras, só que com outros actores. Na verdade a Praça é como um palco, um cenário onde só os protagonistas mudam.”

Sim: o resto permanece. Com idade e vitalidade. E como a “proximidade” promove, interpela, convence (e desperta o civismo), a Praça foi de novo tema nas Caldas da Rainha: ciclicamente alguém se “lembra” que os vendedores e produtores não podem estar a céu aberto, sob a inclemência de chuvas e frio. Fazer o quê então? A “Gazeta das Caldas” – outro ícone! – que este ano celebra os seus também eles extraordinários cento e um anos, decidiu dar voz à cidade, pondo em mãos e em marcha um grande e muito profissional inquérito sobre a Praça. Coordenado por José Luís Almeida, ouviu-se tudo e todos, e as conclusões quase espantam pelo triunfo do bom senso: um) a Praça é um marco e nunca poderá sair “dali”; dois) há que proteger os vendedores das intempéries; três) a proteção não pode interferir com a identidade e a especificidade do lugar.

Mais convidativamente razoável é difícil.

Agora será com os poderes locais. A começar pelo autarca Vítor Marques – independente, em segundo mandato e presente no debate a que aludi e a acabar em interessados e, se possível, responsáveis. Mas hoje todos eles, já com o utilíssimo “instrumento” do inquérito da Gazeta na sua posse.

3Se me posso meter onde sou chamada, acendo um sinal vermelho: atenção: possibilidade de equívoco fatal.

Ou seja, em circunstância alguma – por razões históricas, culturais, de identidade e respeito à memória – se deverá confundir ou amalgamar a Praça da Fruta com a Praça da República.

Talvez que a principal joia da coroa desta questão resida nisto mesmo: de manhã, na Praça da República vende-se fruta, legumes, flores, frutos secos, queijos. Mas à tarde tudo se aquieta e o que emerge do burburinho alegre da manhã é a geometria harmónica da Praça da República, o seu empedrado lindíssimo, as suas proporções, o seu desenho. Que a eventualidade de uma protecção mais “humana” aos vendedores não deite a perder – desfigurando-a por completo, cruel assassinato – a história e a dignidade da Praça da República. (O que inevitavelmente aconteceria, por exemplo, se se optasse por uma cobertura fixa… Por favor, não!)

4Ainda a “proximidade”, ainda a “Gazeta”, símbolo vivo da (insubstituível) oportunidade que representa uma imprensa regional. Mensageira (única?) e (único?) traço de união entre um lugar e quem o habita. Levando notícia, acontecimento, histórias, levando o palpitar da vida em cada uma das 12 freguesias do concelho das Caldas. Ouço falar de algumas dificuldades sofridas pela Gazeta (tão bem pensada e dirigida pela minha colega Fátima Ferreira). Só tenho uma palavra a dizer: não deixem morrer a Gazeta. Por favor não deixem!

Não perceber que há elos que não podem ser cortados nem iniciativas deixadas para trás é não perceber – insisto – o formidável valor da política de “proximidade” (quem me dera).

5Claro que ter trazido para aqui, com desenvoltura e gosto ainda para mais, as vicissitudes de um mercado de fruta numa cidade secundária, ou de um órgão de comunicação regional, me colocará em evidente desvantagem face à soberania da actualidade: então e Ceuta e Sánchez e o Irão, e as imoralidades de Trump, e Luís Neves? E, e, e.

Não: hoje viva a proximidade! E o encanto que é – por exemplo – tratar algumas pessoas pelo nome próprio por estas bandas; ser amiga como sou do adorável casal que me guarda um toldo na Lagoa; pedir tudo e mais alguma coisa a António “Venda” da nossa freguesia; poder elogiar de viva voz o Tiago, director do (óptimo) coro do Santuário do Senhor da Pedra em Óbidos. E, e, e.

Um privilégio, digo-lhes eu, isto de ser devota da proximidade.

PS. Boas férias!

Receba um alerta sempre que Maria João Avillez publique um novo artigo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Irrequietude

 

As ambições da contínua insatisfação humana traçando o futuro. Oremus.

Enquanto a Europa olha para Ceuta

Quem esta semana olhou para Ceuta faria bem em olhar também para a Líbia. É lá, e não no Estreito de Gibraltar, que se decide boa parte do que há de vir.

MANUEL CASTELLO BRANCO, Estudante de Direito

OBSERVADOR, 04 ago. 2026, 00:21

Dezenas de milhares de migrantes atravessaram nos últimos dias de julho a fronteira de Marrocos para Ceuta e a Europa reagiu como reage sempre que o Estreito de Gibraltar lhe traz África à porta: Pedro Sánchez falou em violação da integridade territorial espanhola, Itália suspendeu Schengen e Portugal, fiel a si mesmo, registou os acontecimentos com grande preocupação. A rota ocidental do Mediterrâneo dominou, por isso, os títulos durante esta semana. Mas um pouco mais a leste, na Líbia, o país que mais pesa para os fluxos migratórios para a Europa e para a diversificação energética do continente, atravessa uma das transformações políticas mais significativas dos últimos 15 anos. Uma guerra de blocos rígidos dá lugar a uma geometria de parcerias flexíveis que, pela primeira vez desde a queda de Gaddafi, torna concebível a estabilização e a reunificação do país. Isso importa não só à região, mas à própria Europa, que tem no destino da Líbia uma das chaves da sua segurança energética e migratória, e que faria bem em prestar atenção ao que ali se decide.

Convém recuperar o que está em jogo, porque a divisão líbia tornou-se tão prolongada que se naturalizou. Desde a queda de Gaddafi que o país está partido em dois. O Governo de Unidade Nacional (GUN), reconhecido internacionalmente e liderado por Abdul Hamid Dbeibeh, governa a partir da capital Trípoli, mas o seu controlo não passa da parte mais ocidental do país e assenta na cooperação com as milícias da capital que o sustentam. Dbeibeh deveria ter sido primeiro-ministro interino apenas até às eleições de dezembro de 2021, mas estas foram adiadas e nunca reagendadas, pelo que no cargo interino Dbeibeh permaneceu.

No leste do país governa a Câmara dos Representantes a partir de Tobruk, sustentada pelo Exército Nacional Líbio (ENL) liderado por Khalifa Haftar a partir de Benghazi e cujas forças controlam a faixa costeira oriental e boa parte do interior. Em 2019 e 2020, Haftar tentou tomar o país inteiro numa ofensiva militar que acabou por ser travada às portas de Trípoli pela intervenção turca, com drones, equipamento e homens que salvaram o governo ocidental do colapso.

Esta divisão do país em dois acabou, no entanto, por ser menos prejudicial para os envolvidos do que poderia parecer à primeira vista. É que, na prática, nenhum dos lados precisou de vencer efectivamente para assegurar a manutenção do seu financiamento, uma vez que as exportações petrolíferas dependem dos campos de petróleo situados no território de Haftar, mas passam necessariamente por Trípoli e pela National Oil Corporation. Tanto para Haftar como para Dbeibeh, a manutenção do status quo é a forma que melhor permite a ambos consolidar as suas respetivas bases de poder, sem arriscar a perda de estatuto que um retorno à guerra aberta implicaria. Esta espécie de “partilha” tem sido por isso um dos mais claros obstáculos à reunificação da Líbia. Um Estado unificado traz possivelmente consigo o fim da opacidade que sustenta as fortunas dos dois lados desde 2014, pelo que se revela pouco atractivo para os players nacionais envolvidos.

Mas, para além desta espécie de economia da divisão, foram também os patrocinadores externos de cada lado que lhes garantiram as armas e o financiamento sem os quais o equilíbrio se teria desfeito.

O Egipto e os Emirados apostaram em Haftar, que se apresentou como o homem forte secular capaz de suprimir as facções islamistas radicais que emergiram do vácuo deixado por Gaddafi, pelo que se tornou uma aposta particularmente atrativa para dois regimes cuja legitimidade assenta na contenção do Islão político. Para Abdel Fattah el-Sisi, presidente do Egipto que chegou ao poder em 2013 num golpe contra o então presidente Mohamed Morsi (membro da Irmandade Muçulmana), a hostilidade ao Islão político é a matéria de que a sua própria ascensão política foi feita, pelo que o apoio a Haftar foi a aposta lógica. Ademais, a fronteira de 1115 quilómetros que o Egipto tem com o leste da Líbia fez com que o controlo da região fronteiriça fosse uma prioridade para Sisi, impedindo que o caos da Líbia transbordasse para o seu país. O controlo do leste por um militar próximo do Cairo assegurou, por isso, segurança na fronteira. Já para Mohammed bin Zayed (MBZ), o líder dos EAU, a mesma aversão ao Islão político combina-se com um projecto que corre em sentido contrário ao egípcio, o de emancipar Abu Dhabi da sombra saudita e montar uma esfera de influência própria, na qual a Líbia funciona como uma plataforma de financiamento e distribuição das redes de proxies dos emirados.

Do outro lado da barricada, e particularmente desde 2020 quando travou a ofensiva de Haftar sobre a capital, colocou-se a Turquia. O interesse turco na Líbia sempre foi, em parte, ideológico, já que o AKP de Recep Tayyip Erdogan, que acolheu os quadros da Irmandade Muçulmana depois de 2013, se viu quase forçado a intervir na Líbia face à iniciativa dos seus adversários, principalmente dos EAU. Mas o interesse foi também estratégico.

A doutrina Mavi Vatan, formulada em 2006 pelo almirante Cem Gürdeniz, à qual Erdogan tem vindo a dar cada vez mais importância, coloca a presença turca no Mar Negro, no Egeu e no Mediterrâneo oriental no topo da lista das prioridades geopolíticas do país. Mas coloca-a igualmente em rota de colisão com as reivindicações concorrentes da Grécia, do Chipre e, em certa medida, do Egipto em relação ao Mediterrâneo. O acordo assinado em 2019 entre Ancara e o governo de Trípoli parece consistir num reflexo claro desta doutrina. O acordo consiste num memorando de delimitação marítima que traça entre as costas turca e líbia uma fronteira comum de zonas económicas exclusivas, desenhando um corredor que ignora por completo as águas que a Grécia reclama, e que teve por efeito bloquear o gasoduto EastMed com que Grécia, Chipre e Israel contavam para escoar o gás do Mediterrâneo oriental para a Europa. Esta jogada turca tem ganho cada vez mais relevância à medida que o eixo Indo-Abraâmico entre Israel, Índia, EAU, Grécia, Chipre e Marrocos ganha mais profundidade.

O que mudou nos últimos meses foi a dissolução desta grelha clara de apoios cruzados, e quem melhor a ilustra é a própria Turquia, que tem procurado aproximar-se do leste que durante uma década combateu. A inflexão costuma ser atribuída ao acordo marítimo de 2019, que os Haftar podem agora ratificar em Tobruk e que a Grécia, Chipre, o Egipto e mais recentemente a Itália e a Tunísia contestam nas Nações Unidas, mas reduzir a jogada turca a essa ratificação confunde o instrumento com o objectivo. Ao longo de 2025, Ancara foi tecendo com o leste líbio, que durante anos tratara como território inimigo, uma teia de laços próprios, do encontro de abril entre Saddam Haftar e o chefe do estado-maior turco Selçuk Bayraktaroglu sobre treino militar e drones até à abertura de uma presença consular permanente em Benghazi.

O objectivo turco parece então ter evoluído de uma lógica fragmentária e confrontacional para uma reaproximação com ambos os lados, tendo Ancara percebido que estar presente dos dois lados da guerra civil vale mais do que arriscar vencer com um.

Mas este emendar de relações entre a Turquia e a família Haftar deveria, em teoria, espoletar forte oposição da parte do Egipto. Afinal a tal ameaça da presença turca no backyard geopolítico egípcio parece mais premente do que nunca. Mas o silêncio que temos visto da parte do Egipto aponta noutro sentido. Formalmente, a oposição do Cairo ao acordo de 2019 mantém-se, não parecendo haver abertura, pelo menos no curto prazo, para uma acomodação tout court das reivindicações turcas. O que mudou foi o lugar que esta disputa ocupa na hierarquia de prioridades do Cairo, agora subordinada ao peso de convergências mais urgentes com Ancara, como o apoio comum às forças armadas sudanesas (SAF) contra as RSF, a defesa conjunta do governo somali contra o apoio de Israel e de Abu Dhabi à independência da Somalilândia, a posição partilhada sobre Gaza, e os lugares que ambos ocupam no Conselho de Paz presidido por Trump e que travam as ambições de Netanyahu. Na verdade, eventuais bases turcas no sul da Líbia, longe da fronteira egípcia, não ameaçam o Cairo e abrem margem para coordenação de esforços no Sahel. É então a emergência deste eixo sunita entre Turquia, Egipto, Arábia Saudita e Paquistão, que surge em oposição ao já descrito eixo Indo-Abraâmico, que leva o Cairo a preferir uma coordenação, ainda que publicamente tímida, com a Turquia na Líbia, abrindo espaço a cooperação entre adversários regionais históricos.

Mas se esta convergência se pode revelar benéfica para o projecto de reunificação da Líbia, acaba por não servir os propósitos da Rússia e dos EAU, os dois actores cuja presença depende da fragmentação: os Emirados, que sem a Líbia perdem a plataforma das suas redes africanas, e a Rússia, que sem o país dividido perde a porta de entrada no Mediterrâneo, numa altura em que a sua presença no Mediterrâneo está já reduzida depois da queda de Bashar al-Assad na Síria. Nestes termos, parece abrir-se, de facto, uma janela que pode, e deve, ser aproveitada para unificar a Líbia. Não só o panorama de dinâmicas políticas regionais torna mais viável alcançar uma solução a longo prazo, com os vários actores regionais que antes serviam como entraves a uma resolução para o conflito em processo de alinhamento (no caso da Turquia e do Egipto) ou de perda de influência (no caso dos EAU e da Rússia), como a administração americana, essencial a qualquer esforço de paz, se tem mostrado mais interessada no destino do país. Em grande medida, este renovado interesse está directamente relacionado com a guerra no Irão e com a experiência do encerramento do estreito de Ormuz pela República Islâmica, que expôs os perigos da dependência excessiva num só chokepoint do mercado dos hidrocarbonetos. A Líbia ganha aqui relevância, visto que, por um lado, detém as maiores reservas de petróleo de África, com mais de 48 mil milhões de barris. Por outro lado, as exportações líbias não estão sujeitas aos mesmos perigos que as do Golfo, uma vez que a sua localização geográfica permite exportações fáceis sem exposição a chokepoints como o Estreito de Hormuz ou de Bab al-Mandeb. É essa realidade que trouxe de volta o interesse das petrolíferas americanas, com gigantes como a ExxonMobil e a Chevron a preparar projectos de grande exploração na região, e a ConocoPhillips a renovar até 2050 a licença do campo de Waha.

Mas a iniciativa de Massad Boulos, o enviado especial e conselheiro de Trump para assuntos africanos, ameaça desperdiçar este momento. É que Boulos parece partir de um diagnóstico oposto ao aqui exposto, tratando a divisão líbia como um mero problema de negociação entre lideranças quando ela é um problema da própria arquitetura dos incentivos. O plano de Boulos parece consistir num conjunto de arranjos (transitórios?) de partilha de poder que mantêm a família Dbeibeh, através de Abdul Hamid ou do seu sobrinho Ibrahim, e a família Haftar como líderes do país. É por isto que chamar à iniciativa de Boulos reunificação exige um elevado grau de generosidade semântica. Na verdade, sendo esta a sua visão para o futuro da Líbia, Boulos limita-se a cristalizar o status quo, um consociativismo familiar, sem mexer nos problemas de fundo que impedem a unificação. Um acordo que preserve as redes de interesse já instaladas, limitando-se a formalizar a cooperação entre elas, apenas dará patrocínio legal à economia da divisão que se instalou desde 2014, permanecendo as riquezas naturais do país ao serviço apenas das elites e das milícias que as apoiam, enquanto mais de 40% dos líbios permanecem abaixo da linha de pobreza.

Em alternativa, em vez de ancorar o envolvimento americano na elevação dos homens que passaram mais de uma década a destruir as instituições por dentro, os EUA deveriam condicioná-lo a progressos palpáveis. Isso significa reconstruir a independência do banco central e da National Oil Corporation e apoiar o plano das Nações Unidas para a Líbia, que prevê consultas alargadas junto da sociedade civil, a unificação das administrações paralelas e, por fim, eleições para um executivo único, sem que a governação seja entregue quer aos Dbeibeh quer aos Haftar. A isto acresce a contradição de a própria administração ter esvaziado a USAID, que sustentava na Líbia parte das instituições locais e nacionais que qualquer estabilização a longo prazo exige.

Durante anos, a Líbia foi vista como pouco mais do que um Estado falhado, um território condenado a servir de teatro às rivalidades dos outros. Mas os últimos meses aceleraram uma mudança que pode bem reabrir o futuro do país. Quem esta semana olhou para Ceuta faria bem em olhar também para a Líbia. É lá, e não no Estreito de Gibraltar, que se decide boa parte do que há de vir.

LÍBIA        MUNDO

COMENTÁRIOS:

GABRIEL MADEIRA  > AMÉRICO SILVA: E quem são esses? Invasores, conheço. Na semana passada houve uma grande amostra. Mas tem havido outras mais subtis, mesmo dentro de portas. É só olhar à volta.

DAVID PINHEIRO: Prendam o Gerhard Schröder e a Angela Merkel. Reactivem a energia nuclear e todas as centrais termoeléctricas entretanto desligadas. Parem a importação de energia líbia e rejeitem qualquer pedido de asilo. Assunto resolvido. Próximo!

ANTÓNIO ALBERTO BARBOSA PINHO: Análise bem elaborada e muito pertinente.

KOMOREBI HI: Excelentes artigos sobre o Oriente Médio e o Islão que sempre foi expansionista e usa e usará sempre a violência para alcançar os seus objectivos de hegemonia no mundo como religião/força política global.

A Líbia com Kadhafi era um Estado equilibrado nas forças relacionadas com interesses tribais, Kadhafi ao ser assassinado por forças dos USA, provocaram situação e os erros como faz Boulos, nunca mais a Líbia existirá como Estado "aliado" ou pelo menos com interlocutor, tal como sucedeu com a Líbia e antes com o iraque.

Nem sempre dividir para reinar servirá, nem a Israel e se os USA são prejudicados, podê-lo-ão sempre ser sem grandes problemas, enquanto tiverem acesso a campos petrolíferos seus ou de aliados de ocasião.

A Europa, ou melhor a UE, embarcará sempre na desgraçada política da indecisão própria de um bloco que depende de interesses de alguns dos seus Estados, cada vez mais afundados por políticas socialistas e de substituição da independência produtiva pelo mercado global que é uma miragem, em caso de conflito alargado que nem necessitará ser global, para ficar sem abastecimentos e logística cada vez mais dependentes de terceiros...

GRAÇA DIAS: Um artigo muito interessante e complexo com tantos players e interessantes divergentes.  Como o título indica " Enquanto a Europa olha para Ceuta...". Terá umas três semanas, li em jornal internacional um alerta do governo grego, sobre os mais de 400 mil imigrantes que poderão invadir os países europeus do Mediterrâneo!...mas do Directório de Bruxelas ninguém ficou inquieto. Obrigada pelo detalhe e informação deste excelente artigo.