domingo, 21 de junho de 2026

UM CHEFE NECESSÁRIO

 


Em época revolta.

 

A compreensão do que foi o «Estado Novo» só pode ser feita à sombra da figura de Salazar. Ele é o cerne da compreensão do regime que à sua imagem edificou.

LUIZ CABRAL DE MONCADA, Professor universitário

OBSERVADOR20 jun. 2026, 00:12

1.Já se sabe que é assim. Volta e meia discute-se se houve ou não fascismo no nosso país. A questão nunca estará enterrada. Para a esquerda é evidente que sim, que houve, quanto mais não seja porque precisa deste termo para projectar uma série de ideias confusas sobre o assunto e porque lhe dá o maior jeito colocar no mesmo saco tudo, desde Auschwitz até ao forte de S João do Estoril, e retirar daí munições para no presente atacar tudo quanto a ela não se rende. É a posição de alguns teorizadores esquerdistas de modo a daí retirarem dividendos obscuros no debate político actual.

Para compreender bem o que foi o regime do Estado Novo é necessário separar três coisas, o seu quadro institucional, a sua prática política e a sua ideologia.

De um ponto de vista institucional ou formal, se assim quiserem, o Estado Novo apresentou-nos toda a panóplia de instituições que caracterizaram o fascismo, a saber; partido único (a União Nacional), milícia armada (a Legião Portuguesa), poder executivo de matriz presidencialista (a partir da Constituição de 1933), organismos de enquadramento de massas (a Mocidade Portuguesa e o Movimento Nacional Feminino), controlo da economia privada através do condicionamento industrial, corporativismo estatizado e não de base, trabalho subordinado (Estatuto do Trabalho Nacional), polícia política activa repressiva cheia de poderes discricionários e fora dos quadros do Estado-de-Direito, tribunais especiais para julgamento de crimes «políticos», subordinação ao Governo dos tribunais comuns e total ausência de liberdades políticas e até civis. Outros aspectos haverá mas que não podem ser aqui enunciados. Estamos perante um quadro de ditadura repressiva. Se era ou não fascista, vamos ver.

2.Qual então a diferença? Era principalmente ideológica. Distinguia-se da particular conotação ideológica do fascismo, na sua versão racista como no nazismo e na sua versão revolucionária como no fascismo italiano, para não falar aqui de outras versões. A ideologia foi fundamental no nazismo alemão e no fascismo italiano. De comum como salazarismo há o nacionalismo e até o imperialismo embora este muito mais moderado no caso português porque as colónias já existiam pelo que o colonialismo se revestiu de um epíteto humanista e ecuménico que já vinha, aliás, muito detrás no nosso país.

3.A compreensão do que foi o «Estado Novo» só pode ser feita à sombra da figura de Salazar. Mais do qualquer outro ditador, a personalidade de Salazar é o cerne da compreensão do regime que à sua imagem edificou.

A prática política do salazarismo não se distinguiu no essencial da do fascismo. Caracterizou-se pela própria de um regime autoritário, reaccionário, antiliberal e antidemocrático e de poder altamente personalizado, pelo menos desde que, a partir de 1932, Salazar conseguiu erradicar a total indisciplina que, iluminada pelas várias e contraditórias correntes do «reviralho», dava origem a sucessivas «quarteladas» do Exército e sobretudo da Marinha, arvoradas a mandatárias da nação.

As diferenças são sobretudo ideológicas. O salazarismo não foi uma corrente ideológica coerente mas sim o resultado de uma personalidade que marcou indelevelmente décadas de actividade política. O regime foi pessoal e não propriamente ideológico. Mas o que o marcou foi mais uma prática política do que uma ideologia definida. A ideologia existiu? Certamente que sim mas funcionava pela negativa, por exclusão, e não pela positiva através da afirmação de programas e iniciativas. Nisto se distinguiu do voluntarismo transformador do fascismo.

O cimento ideológico do salazarismo era difuso e fragmentário: centralismo político, autoritarismo governamental, que com a sua própria pessoa se confundia, catolicismo na sua versão mais reaccionária e paternalismo. Nisto se distinguiu do fascismo italiano pois que, ao contrário de Mussolini, Salazar nunca aceitaria ficar nas mãos de um Gran Consiglio Fascista, que se sobrepunha ao Estado, órgão todo-poderoso do il Movimento com poderes de decisão ao mais alto nível que, no fim, até o destituiu, nem aceitaria um Chefe de Estado munido de legitimidade própria que não poderia controlar.

A sua ideologia era um pastiche, não uma cartilha. Alimentava-se não de uma visão voluntarista e transformadora mas principalmente do magistério da Igreja Católica, tal como era entendido à época no nosso país, bem diferente do de hoje, com tudo o que tinha de culto da obediência e conformismo.

É por isso que Salazar foi sempre um homem da Igreja. Esta garantia a disciplina de que a sua concepção autoritária e centralizadora do poder necessitava. A igreja de que era adepto foi obviamente a própria de uma versão muito anterior ao Concílio Vaticano II, que apenas começou, aliás, em 1962 e que mal conheceu, e mesmo anterior à doutrina social da Igreja que se consolidou desde finais do século XIX. Conheceu bem esta, mas reteve dela apenas enunciados nunca levados à prática nem nunca traduzidos em letra de lei. Da mensagem da democracia cristã resultante daquela doutrina social, pouco ou nada lhe ficou. O que o motivou foi sempre uma ortodoxia retrógrada bem visível na sua volumosa colaboração para a imprensa católica anteriormente às suas funções governamentais.

4.Salazar teve sempre o cuidado de retirar a quaisquer organizações de enquadramento de massas e até ao próprio «partido» institucional que o apoiava quaisquer ímpetos revolucionários que pudessem sair do controlo governamental por ele superiormente garantido. Alguns episódicos surtos neo-fascistas logo foram silenciados. E a direita ultramontana e rigidamente conservadora que Salazar conhecia desde os seus tempos de estudante coimbrão, então em moda na Academia, mais entre os estudantes do que entre os professores, quase todos adeptos do positivismo e da democracia política de base parlamentar, nunca lhe suscitou qualquer entusiasmo. Salazar nunca foi monárquico e manteve sempre larga distância relativamente ao «integralismo lusitano» patrocinado por muitos dos seus antigos colegas coimbrões. Agradava-lhe a moral gerada pelos órgãos naturais da sociedade, família, escola, freguesia e município mas, ao contrário daqueles, execrava a descentralização e as autonomias que daí resultariam.

5.As diferenças principais entre o fascismo e o salazarismo são assim  ideológicas. Não alinhava em versões escatológicas e redentoras. Não acreditava num homem novo a despontar por obra de um credo salvífico. Conhecia demasiado bem a psicologia acomodatícia do português rural que formatava a maioria da população do seu tempo e com a qual sempre contou.

Conhecia muito bem o país rural, pouco alfabetizado e pobre e os recursos financeiros de que dispunha eram muito escassos. Mas interessava-lhe muito mais o culto da obediência do que o bem-estar social. Este adviria naturalmente da modéstia da vida habitual, da paz com Deus e da observância dos «bons princípios».

Ainda assim, divulgou a instrução, industrializou um país em que não existiam empresários, pois foi ele que os inventou, apostou no fomento a partir da década de quarenta, mas fez tudo isso com mão de ferro sem confiar numa sociedade civil que pretendia atenta, veneranda e obrigada sempre em posição de cócoras perante um governo paternal, atitude que infelizmente se mantém até hoje.

6.Salazar sempre ambicionou ter sido o primeiro ministro de um monarca absoluto, como foi Pombal. Não lhe ocorreu o anticlericalismo deste apenas na medida em que necessita da colaboração da Igreja. Uma componente muito importante do pensamento e da acção do Estado Novo foi a tecnocracia, vista como o governo dos melhores e dos mais capazes. Para tanto, todos os seus governos eram escolhidos criteriosamente entre os mais reputados académicos e profissionais do seu tempo e não se importava muito com as suas convicções ideológicas desde que lhe obedecessem. Queria era obra feita. O seu modelo, sei-o de fonte segura, era o reformismo prussiano de inícios do século XIX no quadro da então ainda monarquia absoluta, adepto da «boa revolução», feita a partir de cima e por quem sabia, de modo a evitar que o poder caísse na rua ou fosse expropriado por revolucionários. Outro dos seus émulos foi Napoleão III autor de vasta obra reformista baseada na industrialização acelerada, na criação de infraestruturas e na transformação urbana. De registar ainda a influência do corporativismo cristão e conciliador do chanceler austríaco E. Dolffuss, assassinado pelos nazis. Mas qualquer destas influências era apenas isso: influência mais ou menos difusa e distante e não passava disso. O seu mote foi sempre o pragmatismo.

7.Salazar tinha uma verdadeira fobia ao que considerava «desordem». Daí o seu arreigado reaccionarismo baseado numa visão «natural» da sociedade alimentada por hierarquias, a começar pela família e por outras instituições (igreja, escola, exército) e pela moralidade que segregavam. Daí a noção de autoridade a todos os níveis da ordem social, a que correspondia um dever de obediência aos comandos de quem estava indicado para governar «a bem da Nação». Por aqui se distingue claramente a visão salazarista da sociedade fascista que apostava na destruição das hierarquias e dos valores tradicionais e no modernismo das realizações. O fascismo não foi um movimento reaccionário ao passo que o salazarismo foi. A ordem salazarista era «natural», imanente na sociedade estratificada que conheceu, não era gerada pela vontade impetuosa e iconoclasta de uma vanguarda revolucionária. Viver «habitualmente» e não «perigosamente».

Na sua visão a «nação» tinha valores próprios, historicamente sedimentados que o parlamento não representava e que apenas as instituições «naturais» da sociedade podiam honrar, não os partidos políticos consumidos por interesses de grupos e de pandilhas de costas voltadas para os interesses «nacionais». Se o parlamento teve ainda alguma importância política no início do regime, depressa a perdeu a favor de um governo cada vez mais robustecido e verdadeiro centro do poder, sob a constante interferência do próprio Salazar que sempre considerou os ministros como seus inferiores hierárquicos e comissários na sua inteira disponibilidade. A obediência pessoal era um dos motes principais do regime que instituiu.

A sua fobia à desordem levava-o ainda a um encarniçado antiparlamentarismo. Ficou para sempre traumatizado com o espectáculo do parlamentarismo republicano que conheceu pois que foi eleito deputado por Guimarães em 1921 pelo Centro Católico, única organização política que abraçou.

8.A maioria dos tentativas actuais de retratar Salazar falha o alvo porque quer ver nele um doutrinador, coisa que nunca foi nem quis ser. Foi principalmente um homem de convicções e de consequente acção. Salazar, que sempre fora consumido desde jovem por ambições políticas (não pessoais), muito embora o negasse, construiu um regime de poder personalizado que não sobreviveria à sua morte. Tinha perfeita consciência disso. Considerou-se sempre um homem providencial ungido para resolver os difíceis problemas nacionais com que se defrontou. Só confiava em si próprio e, portanto, não permitiria qualquer protagonismo político de facções ou organizações que não fossem por ele rigidamente controladas. Não tinha preocupações de coerência ideológica nem, bem vistas as coisas, se guiou por um programa ideológico definido. Mesmo a reaccionária doutrina da Action Française, a que tantos o quiseram colar, não colhia nas suas opções, dado o seu pendor monárquico e descentralizador gerador de tendências centrífugas que não toleraria. Muito menos o influenciou o falangismo revolucionário de Primo de Rivera que Salazar mal conhecia e de que nunca quis saber. Teve sempre um cuidado especial em não enfeudar a sua acção a parâmetros ideológicos bem definidos ou a escolas de pensamento. Preocupava-se muito mais com a acção do que com a teoria e baseava-a nos critérios um tanto difusos da unidade nacional, da «ordem», da obediência e da moral institucional tutelada pela igreja.

9.Contrariamente ao que muitos pensam, Salazar não era um homem de larga cultura. Mas sobrava-lhe em inteligência aquilo que lhe faltava em ilustração política e filosófica. Considerava até uma vantagem passar ao lado de discursos ideológicos que poderiam empecilhar a acção. A cultura política em excesso era uma enxúndia que convinha dispensar.

Bem sei que corro o risco de ser mal interpretado, mas não me importo. Salazar foi um fascista? O termo é infeliz para o caracterizar. Salazar foi um ditador que construiu um regime de poder personalizado para o que se serviu de um quadro institucional parecido com o do fascismo mas sem os objectivos inconformistas e até revolucionários deste. Preferiu sempre o pragmatismo.

Com a sua morte tudo desapareceu. Ficou quase nada. E ele sabia. Foi preciso reconstruir tudo desde a base, desde o estado à sociedade civil que ele quis reduzir a pouco mais do que uma colectividade recreativa e  um conjunto de agregados familiares.  Do salazarismo só nos ficou algum conservadorismo ou seja, a crença numa ordem de valores, hoje reduzida ao mínimo expoente, como cimento da sociedade, mas também nos ficou a desconfiança das realizações da sociedade civil. Algum conservadorismo mas nunca o liberalismo. Andamos ainda às apalpadelas mas se conseguimos atinar ele não acreditaria.

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COMENTÁRIOS:

HUMILDE SERVO: Para mim é sinal infalível de ignorância atrevida a invocação do caso Galileu como prova da aversão da Igreja pela ciência. Desinteresso-me imediatamente de qualquer discussão com tal interlocutor porque perco imediatamente o respeito intelectual por ele. Ao menos que se informasse.

LÚCIO MONTEIRO: É absolutamente verdade que Galileo Galilei foi formalmente condenado à prisão perpétua pelo Tribunal do Santo Ofício em 22 de junho de 1633, e a sua retratação pública (a abjuração) foi, ironicamente, uma condição necessária para que essa pena não fosse ainda mais severa.

A história por trás desse veredicto revela como funcionavam os mecanismos de poder e heresia da Inquisição na época.

O Julgamento e a Sentença

O grande detonador do julgamento de 1633 foi a publicação da obra Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo (Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo) no ano anterior. Nela, Galileu defendia abertamente o modelo heliocêntrico de Copérnico — que colocava o Sol no centro do Universo —, desafiando uma ordem directa da Igreja de 1616 para não ensinar ou defender tal teoria.

Quando o Tribunal do Santo Ofício emitiu a sentença, Galileu foi considerado "veementemente suspeito de heresia". A punição estabelecida dividiu-se em três partes principais:

A Abjuração: Galileu foi forçado a ajoelhar-se e ler um texto preparado pelo tribunal, no qual declarava que "amaldiçoava e detestava" os seus erros passados e a teoria de que a Terra se movia ao redor do Sol.

A Prisão Perpétua: A sentença inicial determinava formalmente a "prisão formal neste Santo Ofício por um período a ser decidido de acordo com a nossa vontade".

A Proibição Literária: O seu livro Diálogo foi colocado no Index Librorum Prohibitorum (a lista de livros proibidos pela Igreja).

Apesar de toda a evidência, ainda hoje, a Igreja Católica - e os seus porta-vozes, como este cronista - considera que Galileo Galilei foi escrupulosamente respeitado como cientista. Aliás, a pena de prisão perpétua domiciliária foi uma comutação de uma pena muito mais grave, sentenciada pelo Tribunal do Santo Ofício (a Inquisição): a pena de morte. De qualquer forma, as mãos da Igreja Católica continuarão permanentemente manchadas de sangue inocente, como o de Galileo Galilei. Não adianta tentar branquear a realidade...

COMENTÁRIOS:

HUMILDE SERVO > LÚCIO MONTEIRO: Está bem, abelha...

MEIO VAZIO: Galileu Galilei teve oposição, directa e imediatamente, dos seus pares; a generalidade dos físicos e matemáticos do seu tempo tinha reservas quanto às suas teses. Reduzir a controvérsia em que Galileu esteve envolvido a um conflito entre ciência e religião, entre razão e fé, entre clarividência e obscurantismo labora num equívoco superiormente alimentado pelo ressentimento jacobino, passe a redundância.

Como sempre

 

Um discurso de graça irresistível.



Odiar o ódio: um Manual interdisciplinar

Dado ser bastante improvável que os simplórios consultem voluntariamente o “Manual” e que se deixem contaminar pelo seu conteúdo, a finalidade prática do produto é influenciar leis

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 20 jun. 2026, 00:24

Por todo o mundo civilizado, há milhares de pessoas especializadas na investigação e desenvolvimento da imuno-oncologia, da cirurgia robótica e da medicina regenerativa. Por sorte, também há quem se preocupe com coisas sérias e ocupe o expediente a estudar o “discurso de ódio”. Algumas destas boas almas lançaram na passada quinta-feira a obra seminal “Discurso de Ódio: Manual de Apoio e Glossário”, coordenado pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e produzido por três insignes académicos da Universidade de Aveiro e, claro, do ISCTE, além da colaboração de prestigiados nomes da ILGA e do SOS Racismo. Promete.

E cumpre. Se alguém duvida da importância de semelhante empreitada, os autores elucidam: “O objectivo é ajudar os cidadãos a compreenderem como se manifesta o discurso de ódio, o seu impacto nas vítimas e testemunhas, a partir de uma perspectiva interdisciplinar e contextualizada.” Só neste sumário temos “perspectiva interdisciplinar”, temos “contexto” e temos “vítimas”, o que já é meio caminho andado para se concluir que o assunto é da maior pertinência. Mas o que consagra de uma vez a importância do “Manual” é a respectiva capacidade de “ajudar os cidadãos a compreenderem”, leia-se a enfiar um pouco de sensatez nas duras cabeças das pessoas comuns. Dado ser bastante improvável que os simplórios consultem voluntariamente o “Manual” e ainda mais improvável que se deixem contaminar pelo seu conteúdo, a finalidade prática do produto é influenciar leis, justificar restrições e punições, ou, no mínimo, contribuir para um clima de pensamento único que coincida, sem tirar nem pôr, com o pensamento dos cientistas sociais do ISCTE.

Desde logo, é preciso compreender que o “discurso de ódio” de que o “Manual” trata não é um sentimento genérico e difuso e essencialmente humano. Pelo contrário, o “ódio” aqui é assaz específico e limita-se a “comunidades racializadas e LGBTQIA+, migrantes e mulheres”. Se, por exemplo, o Zé Carlos odeia o cunhado por conta de um corta-relva que lhe emprestou em 1998 e não voltou a ver, o “Manual” não cobre essa circunstância. E se – novo exemplo – um aborígene deseja do fundo do coração e na página dele no Instagram a extinção dos caucasianos, o “Manual” também não elucida a propósito. Por rigoroso princípio epistemológico, o “Manual” apenas aborda o “ódio”, declarado ou presumido nas entrelinhas, que os homens ocidentais “brancos” dedicam às referidas “minorias”. E mesmo aqui há nuances que convém assinalar: o sexo, a naturalidade e a melanina até são secundários se o portador de “ódio” for associado, ou “associável”, à “extrema-direita”, igualmente conhecida por “direita radical” ou “ultra direita”.

No fundo, a pertença à “megadireita” é o critério decisivo. Se uma lésbica negra depreciar o Islão, a senhora é evidentemente da “superdireita” e uma comprovada portadora de “ódio”. Porém, se um heterossexual gritar em público louvores a Gaza, o que poderia ser erradamente interpretado como a aprovação do ódio aos homossexuais que por lá são perseguidos e assassinados, o “Manual” não condena. Se um europeu de quarenta gerações declarar apoio e devoção à República Islâmica do Irão, discutivelmente uma exibição de ódio às mulheres que lá gozam de estatuto sub-humano, o “Manual” não critica. Se um socialista pálido insultar o “sionismo” e os “sionistas”, que uma análise excessivamente zelosa talvez confundisse com o velho e tradicional ódio aos judeus, o “Manual” não censura.

De resto, além de estabelecer que à esquerda não se odeia ninguém, o “Manual” não pretende censurar absolutamente nada, garantem os autores, os primeiros a lembrar que “as sociedades democráticas dependem da liberdade de expressão, do debate aberto e do pluralismo”. Nestes pilares da democracia não se toca, portanto. Ou toca-se somente nos casos em que os senhores e as senhoras do ISCTE decidem que se deve tocar: “a protecção destes princípios deve andar de mãos dadas com a salvaguarda da dignidade humana, da igualdade e da não discriminação”. Traduzindo para português, isto significa que, no universo idílico do “Manual”, somos livres de dizer o que quisermos contanto que digamos o que as regulamentações ideológicas esparramadas no “Manual” permitem que se diga. A nossa liberdade, que é plena e absoluta e inviolável e inquestionável e sagrada, termina onde começam as proibições levantadas por “eles”, os donos dos conceitos de “dignidade humana”, “igualdade” e “não discriminação”. Parece razoável. Da Coreia do Norte à China, passando por Cuba, Rússia e o actual Reino Unido, não há lugar decente na Terra que não garanta aos cidadãos esse exacto tipo de liberdade com excepções, as excepções que as elites superiormente esclarecidas definem a pretexto do Bem.

Desgraçadamente, em Portugal continua a haver um fosso que separa a realidade das comiserações humanitárias do “Manual”. Há dias, a “hiperdireita” parlamentar, que vai do Chega à Iniciativa Liberal, passando por PSD e CDS, rejeitou uma proposta do Livre para aumentar as penas aplicadas a qualquer discurso que destoe dos impolutos discursos do dr. Rui Tavares. Ou seja, no que depender da “gigadireita”, um sujeito emite opinião divergente das autorizadas pelo “Manual” e não arrisca mais do que 5 anos no xilindró, com tempo de sobra para depois refazer a sua vida racista, misógina e transfóbica. É impossível não odiar gente assim.

LGBTQ      DIREITOS HUMANOS      SOCIEDADE

COMENTÁRIOS:

Gabriel Madeira: Pelo que descreve do Manual, este serve para quando falta o papel higiénico.

PAULO SILVA: “Racismo estrutural”, “racismo sistémico”, “racialização”, “privilégio branco”, “apropriação cultural”, “micro-agressão”, “discurso de ódio”, etc… são anátemas extraídos do novo decálogo que a esquerda radical conseguiu impor nas sociedades ocidentais contemporâneas ao fim de décadas de maturação do marxismo cultural nas suas universidades. A 'interdisciplinaridade' foi a forma pela qual as ciências sociais e humanas se foram contaminando, e passando o vírus a outras. Isto não é uma obra do acaso, mas fruto de uma estratégia pensada que teve em Gramsci um dos seus pioneiros mentores, e quiçá os próprios Marx e Engels, (vide "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado", obra seminal para o feminismo radical), e que outros implementaram, mas que também contou com a colaboração preciosa dos governos ocidentais pela indiferença e negligência, entretidos que estavam em guerras quentes e guerras-frias. O mal está feito, mas se não existirem movimentos de resistência à tirania disfarçada de 'direito-humanismo' com as directivas DEI do multiculturalismo, o distópico e despótico admirável mundo novo chegará mais depressa que um falcão… O Brasil do luladrão parece ir na dianteira... Portugal segue na peugada nota: o Ruizinho “comunista” Tavares parece juntar o melhor de dois mundos; marxismo clássico (com o rendimento básico incondicional) e marxismo cultural, tudo embrulhado no verniz da liberdade, que estala de cada vez que o Ruizinho se distrai.

sábado, 20 de junho de 2026

As guerras

 

Dos grandes poderes e das grandes complexidades, hoje. Os textos dos grandes prazeres literários, ou das realidades sombrias.

O TEXTO clássico:

Do Padre António Vieira sobre a guerra (1668)

“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e, quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades em que não há mal nenhum que ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro: - o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.” P. António Vieira (1668)

 

UMA DEFINIÇÃO NA ACTUALIDADE:

Este compromisso acolhe uma série de pretensões iranianas, reduz os meios de pressão dos EUA, e deixa cair praticamente todos os principais objectivos declarados por Trump.

BRUNO CARDOSO REIS, Historiador e especialista em segurança internacional

OBSERVADOR, 20 jun. 2026, 00:23

Para que serve uma guerra? War! What is it good for? Cantavam os The Temptation e depois os Jam. E respondiam: Absolutely nothing! Absolutamente nada! Não é assim tão simples. Grandes inovações da triagem na medicina até à internet surgiram num contexto de conflito. Apesar disso, ninguém – pelo menos, ninguém no seu perfeito juízo, como escrevia Clausewitz – inicia uma guerra sem saber quais são os seus objectivos políticos, e sem se certificar de que não os consegue alcançar por meios mais pacíficos, menos custosos, menos incertos. Uma guerra pode ser um mal necessário: não creio, por exemplo, que Hitler fosse susceptível a argumentos diplomáticos. Um dos grandes problemas de uma guerra, no entanto, é ser muito difícil saber como irá acabar. O inimigo tem um voto que torna a sua evolução, custo e desfecho difíceis de prever. Trump cometeu em relação ao inimigo iraniano um erro frequente e sempre muito custososubestimar o inimigo e a sua vontade de continuar a combater. Este acordo de cessar-fogo reflecte esse erro. O mínimo que podemos fazer é tentar aprender alguma coisa com o sucedido.

O grande escritor e humorista Mark Twain gostava de dizer que a guerra era a forma de Deus obrigar os seus compatriotas norte-americanos a aprenderem geografia, a conhecerem melhor o resto do Mundo. Um dos autores mais conhecidos da escola geoestratégica francesa, Yves Lacoste, deu como título ao seu livro clássico de 1976: A Geografia serve sobretudo para fazer a guerra. Efectivamente, sem um bom conhecimento de geografia não é possível compreender ou conduzir operações militares com sucesso. Por muito que os meios tecnológicos e as suas aplicações militares possam ter mudado, o controlo do estreito de Ormuz, um dos pontos de estrangulamento da navegação global e ponto de passagem obrigatório de rotas comerciais vitais ligando oriente e ocidente, continua a ser tão importante hoje como era no tempo de Afonso de Albuquerque. E em Ormuz a geografia apertada do estreito que reduz o tempo de reacção das defesas, combinada com tecnologia como drones, mísseis e novos tipos de minas, favorecia o Irão. Trump optou por ignorar que estamos num mundo onde nivelar o poder é mais fácil, e garantir a liberdade de navegação é mais difícil.

A centralidade de novas tecnologias disruptivas é clara na Terceira Guerra do Golfo, e também na Guerra de agressão russa contra a Ucrânia. O governo de Kiev transformou o seu país, sob bombardeamento constante e indiscriminado, numa superpotência de drones. A Ucrânia está a produzir perto de 800.000 drones por mês dos mais variados tipos, aéreos, navais e terrestres! Isso não garante a vitória, tendo em conta a enorme assimetria de poder militar favorável à Rússia, mas devolveu alguma iniciativa à Ucrânia, e aumentou muito o custo económico e em baixas da guerra para a Rússia.

A inovação não fica por aí. Teremos de lidar com o peso crescente da robótica militar, no mínimo semiautónoma. Teremos de lidar com o uso crescente da inteligência artificial. Isso cria grandes oportunidades, mas também cria grandes problemas, inclusive éticos. Um dos mais importantes para a Europa é que os europeus se habituaram nos últimos séculos a uma forma de fazer a guerra com base numa enorme assimetria tecnológica que lhes é favorável. A sua perda seria uma enorme revolução estratégica. Zelensky tem razão quando insistiu esta semana, no encontro do G7 e no Conselho Europeu, que a Europa não pode ficar para trás.

A proibição imposta pelo governo de Trump ao uso, fora dos EUA, dos modelos mais avançados de inteligência artificial da Anthropic deixa isso bem claro. Estamos cada vez mais numa Guerra Fria tecnológica e em torno de outros recursos estratégicos entre os EUA e a China, em que a Europa está a ficar para trás, marginalizada. A Europa corre o risco, se ficar a regular sem inovar, de acabar por não ter o que regular. Precisamos de mudar de paradigma, não nas palavras, mas nas acções. Temos de investir numa escala massiva. Isso implica criar um mercado de capitais realmente integrado. Implica também uma cultura de risco e recompensa que parece cada vez mais ausente da Europacom exceções como a Ucrânia, forçada a isso pela guerra. Talvez precisemos de aprender alguma coisa com o sucesso da China e criar zonas económicas especiais, com menos regulação e menos impostos, para promover com a rapidez necessária quer a inovação tecnológica, quer a produção massiva de meios militares, por exemplo drones. Se isso não for feito ao nível da União Europeia – por inércia e bloqueios vários – corremos o risco de que não seja feito de todo, ou que acabe por ser feito por alguns países mais relevantes e dinâmicos, ou seja, sem Portugal.

Lições de paz

Trump sempre achou que podia acabar com uma guerra com a facilidade com que fecha acordos imobiliários à custa da força da sua marca personalizada. A política externa é mais complicada, e terminar uma guerra é especialmente complicado. Na passada semana estive numa conferência internacional de história militar. Um dos temas mais discutidos foi precisamente este, que na língua franca académica global é etiquetado como war termination. Quais são alguns dos seus problemas clássicos? Numa guerra a dimensão emocional muitas vezes sobrepõe-se ao simples cálculo racional de perdas e ganhos. Muitas vezes o inimigo não aceita a derrota, e opta por prolongar o conflito mesmo que por meios não-convencionais, como a guerrilha espanhola e portuguesa contra as tropas do invencível Napoleão. O acumular de baixas, de mortos, de custos, torna politicamente mais díficil de vender ao público o fim do conflito com um compromisso que formaliza cedências, do que prolongar ou congelar o conflito no limbo, num cessar-fogo que se vai prolongando. Como aqui escrevi várias vezes esse era o cenário mais provável para o desfecho deste conflito.

Vimos todas essas dinâmicas em jogo na Guerra russa contra a Ucrânia e na Terceira Guerra do Golfo. Este memorando de entendimento reflecte um padrão fundamental dos conflitos armados de tipo assimétrico desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945): favorece o lado aparentemente mais fraco, mas que joga no próprio terreno, face a uma potência mais bem armada, mas que está a assumir os custos de projectar forças a milhares de quilómetros da sua pátria. Este padrão é claro do Vietname às guerras coloniais tardias até ao Afeganistão. E com um presidente tão impaciente por resultados rápidos, tão preocupado com o mercado bolsista como Donald Trump, a limitada vontade política dos EUA para se envolver num conflito prolongado no Médio Oriente ainda se acentuou mais. O Irão parece ciente de que os EUA querem terminar rapidamente o conflito e precisam da reabertura do estreito de Ormuz para evitar os custos da estagflação e de uma crise económica global mais séria. Efectivamente, Trump deixou claro que uma das razões por que chegou agora a este acordo frágil com o regime dos aiatolas é que não quer ser um novo Hoover, o presidente dos EUA que foi responsabilizado pela Grande Depressão.

O resultado é que este compromisso acolhe uma série de pretensões iranianas, reduz os meios de pressão dos EUA, e deixa cair praticamente todos os principais objectivos declarados por Trump: mudança de regime, fim do programa de mísseis, fim do apoio a grupos armados pela região, fim do programa de enriquecimento nuclear. De todos estes pontos apenas o nuclear é mencionado, mas em termos de um compromisso de continuar a negociar. E o Irão sempre disse que não queria ter armas nucleares. O problema nunca foi que o dissessem, mas sim, ter garantias concretas que impedissem que fizessem uma bomba atómica. Os principais problemas e ameaças criados pelo regime iraniano ficam por resolver, e podem agravar-se com a promessa do fim das sanções e de um fundo de 300 mil milhões de dólares para ajudar o Irão a reconstruir-se. Não custa imaginar que o regime dos aiatolas dará prioridade à reconstrução da sua máquina de guerra. Este memorando será no máximo um mal menor, se garantir a reabertura segura e sem restrições ou taxas do estreito de Ormuz. Mas mesmo isso não está garantido, e não era um problema antes do início desta guerra. Os EUA viram a sua credibilidade como aliado e o seu papel de máximo garante da ordem global mais uma vez minados pela Administração Trump. A Trump isso não importa, só lhe interessa o seu protagonismo, os seus ganhos económicos e políticos pessoais, mas os verdadeiros amigos dos EUA sabem que isto é um grande problema, e não apenas para os norte-americanos.

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