Hoje, não para “inglês ver”,
mas para ser visto e considerado, de par com o tal inglês vidente, que não
deixou, contudo, os seus créditos por mãos alheias. Há muito que o tal
“Ocidente” quis mostrá-lo. E conseguiu-o, com o dito “inglês” puxando a carroça
da humanidade humilde… e sempre cristãmente digna, na sua crítica condigna.
Nós, os "ultramarinos", demos bem conta disso, acusados que fomos de
"escravatura", pese embora a "formatura" de tantos povos
que assim foram engrandecendo... e não só culturalmente, mas economicamente,
naturalmente... Como, de resto, os Trumps deste mundo bem podem confirmar, por
conta própria, os seus próprios espaços de assentamento, resultantes da mesma
coragem desses povos de navegantes de outrora, assim destemidos, que não
largaram o naco, contudo, entregando-o, igualmente, aos seus naturais, como exigiram de nós outros, mais dispersos…
Nunca mais teremos Paris (nem Londres)?
Dois titãs europeus dos
tempos de “Casablanca” ajudam a perceber alguns pigmeus contemporâneos.
PAULO NOGUEIRA Escritor
e jornalista, autor de 14 livros - o mais recente, “O Cancelamento do Ocidente”
(Guerra e Paz, 2024)
OBSERVADOR, 15 out. 2026, 00:23
Sem os eventos de 1940,
Charles de Gaulle talvez fosse lembrado só como um pensador militar
interessante. E Winston Churchill como um combo de dom Quixote e Sancho Pança,
com fiascos retumbantes. A II Guerra transfigurou-os em
colossos, uniu-os e separou-os. Churchill autorizou que um obscuro general de brigada falasse
na BBC como líder da França Livre. Quando a parceria azedou, o inglês
ironizou: “De
Gaulle pensa que é Joana d’Arc, e não consigo que o raio dos meus bispos o
queimem na fogueira”.
Churchill, feérico e mundano, amava prazeres
opulentos. De
Gaulle, taciturno e austero, marimbava-se para o luxo
– Presidente da
República, instalou um medidor de electricidade nos seus aposentos particulares
no Palácio do Eliseu para pagar as despesas do próprio bolso. E
resmungou: “Como
é possível governar um país que tem 246 tipos de queijos?”
Churchill professou-se um mamute vitoriano: “Com tristeza assisto ao fim do
Império Britânico e suas glórias”. De Gaulle duvidava que a
França absorvesse os muçulmanos da integração da Argélia. Gracejou
que seu lar espiritual, Colombey-les-Deux-Églises, já era “Colombey-les-deux-Mosquées”. Mas
engoliu o sapo: “É natural sentir nostalgia do Império, da luz suave
das lamparinas a óleo, do esplendor dos navios à vela… Mas um político tem que
ser realista”. A extrema-direita não o perdoou por “abandonar a Argélia”, porém falhou
os atentados contra aquele alvo de 2 metros de altura.
No fim, competiram pela
posteridade literária: a prosa exuberante dos 6 volumes de “The Second
World War” (Churchill), contra a sobriedade clássica dos 3 tomos
de “Mémoires de Guerre” (de Gaulle). O britânico contou com
uma equipa, e encheu o chouriço com copiosos documentos. O francês
esfalfou-se sozinho, para “criar uma obra de arte”. E grunhiu: “Churchill
jamais escreveu um livro propriamente dito”. Quando Churchill recebeu
o Nobel de Literatura em 1953, de Gaulle reagiu com a mesma alegria de Lobo
Antunes em 1998 ao saber das notícias de Estocolmo sobre Saramago.
De Gaulle saiu à francesa
em 1969. “La Bataille de Gaulle”, um biopic de Antonin Baudry, foi a maior bilheteira do
cinema francês no Verão de 2026, incluindo a libertação de Paris e os amuos com
Churchill. Mas
a revolta estudantil de hoje é igual à de 58 anos atrás? Nem por isso.
Em 1968, a França surfava 30 anos de prosperidade desde o pós-guerra (Les
Trente Glorieuses), com um poder de compra e consumo inéditos – e dez vezes
mais universitários do que em 1939. Nascia o conflito geracional,
e os meninos maus das boas famílias desatavam a chorar de barriguinha cheia.
Nem Mao explica Maio: o estopim foi
exigência dos alunos da Universidade de Nanterre de irem aos quartos das
alunas, e vice-versa. A
pílula anticoncepcional fora legalizada no dia 27 de dezembro de 1967 -
e as restrições à sexualidade já pareciam opressivas: é proibido proibir. Os
soixante-huitards
acabaram por baixar a bolinha, mas vivemos no corolário deles. Hoje a noção de restringir o
acesso de jovens aos dormitórios do sexo oposto soa digna de um brontossauro –
e há quem já não faça a mínima ideia do que é um sexo oposto, ou sequer se isso
existe.
A recente visita de Leão XIV à França matizou um
bocadinho as coisas: 80 mil jovens a rezarem no Stade de France, apoteose na Notre Dame, 800 mil fiéis na Place de la Concorde.
Reparação pela abertura das Olimpíadas de Paris de 2024, que incluiu uma paródia
da Última Ceia com drag queens? Embora 58% dos franceses entre 18 e 59
anos declarem não ter religião, os baptismos de adolescentes e jovens adultos
em 2026 aumentaram dez vezes desde 2019. Mas assim que o Papa virou as
costas, o país voltou à vaca fria (ou a la vache qui rit), com as fracturas
nacionais já reflectidas na legalização da eutanásia.
No dia 21 de setembro,
fervilharam os protestos contra a escassez de professores e a precariedade de
escolas. Barricadas para impedir qualquer entrada nos liceus, labaredas de lixo
incendiado nas ruas, manifestantes com máscaras, 100 estabelecimentos de ensino
vandalizados, dezenas de funcionários, estudantes e polícias feridos, 500
escolas fechadas por segurança. Em Nantes, o liceu Nelson Mandela, novinho em
folha, foi reduzido a cinzas, e uma tenente da polícia atacada no chão sob os
urros de “Matem a cabra!”. 6.000 pessoas foram presas.
Jean-Luc Mélenchon, candidato às
presidenciais de 18 de abril de 2027 por La France Insoumise (LFI), deita
lenha à fogueira através de aliados como o Extinction Rebellion, o RED Jeunes,
os Étudiants Musulmans de France e a Urgence Palestine, ligados à Irmandade
Muçulmana. Cada escola secundária tem o seu representante eleito
pela LFI. O maire de Saint-Denis, Bally Bagayoko, inflama a malta;
o deputado Louis Boyard filma a si próprio como líder de recreio; Aymeric
Caron arenga miúdos envoltos em bandeiras palestinianas, argelinas, sírias,
marroquinas (não se percebe bem o que elas têm a ver com a educação nacional,
mas faz de conta). Bandeiras da França, nem vê-las. A LFI saliva pelos eleitores que votarão pela
primeira vez em 2027. Clémence Guetté lembrou que em 2022 faltaram
“ridículos 400 mil votos, ou 1%, para Mélenchon estar na segunda volta – mas
agora a juventude irá levar-nos à vitória”.
Não que os sarilhos franceses se reduzam à
radicalização imberbe. Trabalhadores entraram em greve e
marinheiros bloquearam portos contra o aumento dos combustíveis. A dívida da França é de
120% do valor de tudo o que o país arrecada num ano, encarquilhando o magnânimo
estado de bem-estar social, apanágio da identidade nacional. Por
décadas, impostos elevados, déficits e juros baixos permitiram que se
empurrasse a miragem com a barriga. Esse tempo acabou – mas a tentativa de passar a idade
de reforma de 62 para 64 anos já incendiara o país.
Do outro lado da Mancha, há uma Grã-Bretanha com mais
berbicachos. A elite é tão woke como a dos EUA (e a do
Brasil). Segundo o censo de 2021, 2,5% da população britânica é negra, mas mais
da metade de todos os anúncios de TV apresentam pessoas negras. (Essa
disparidade é ainda maior do que a representação negra nas estatísticas de
homicídios, em que os britânicos de cor são 26% de todos os assassinos
condenados.) Ninguém
diria que a Grã-Bretanha foi a primeira nação do planeta a abolir a escravidão
e, em seguida, usou a marinha mais poderosa do mundo para acabar com o tráfico
global de escravos – as vidas negras importavam para os britânicos muito antes
de George Floyd. Ao custo de milhares de vidas de marinheiros e milhões de libras, navios
britânicos patrulharam a costa africana durante 50 anos, interceptando mais de
mil navios negreiros e libertando 150 mil pessoas. Os
contribuintes britânicos finalmente terminaram de pagar essa conta em 2015.
Pelos vistos, a Grã-Bretanha ainda tem imenso a expiar.
Para aumentar a “diversidade”, asiáticos
(indianos, paquistaneses, afegãos), que representam 9,3% da população,
protagonizam 28% dos anúncios (paquistaneses também são sobrerrepresentados nos
gangues de tráfico de adolescentes para fins de abuso sexual). 81,7%
dos britânicos identificaram o seu grupo étnico como “branco” – mas só 12% dos
anúncios de TV mostram pessoas brancas. Agora até Anna Bolena e
Macbeth foram interpretados no cinema por actores negros, e há elfos negros nas
novas versões de Tolkien. Vilões? Sorry, mas só brancos, héteros e
cristãos (já não precisamos dos mordomos dos policiais para nada).
Quando em 2014 Michael
Brown foi morto pela polícia em Ferguson, Missouri (acção
justificada pelo júri e pelo Departamento de Justiça de Obama), manifestantes
britânicos marcharam por Londres, a gritar “Mãos ao alto, não atirem!” – o que
foi um bocadinho pateta, pois os policiais londrinos não andam armados.
Desde 2021, tudo mudou alucinadamente. No
ano passado, o “crescimento
natural” entre os povos nativos das ilhas britânicas adicionou
19.000 pessoas à população. Mas a imigração em massa somou o recorde de 816.500 almas em
apenas 11 meses. Durante gerações, a população cresceu porque nasciam mais
britânicos do que morriam – uma evolução administrável, que preservava valores
e cultura. Na nova era demográfica, comunidades inteiras (cidades, vilas e aldeias)
estão irreconhecíveis. Em
2025,130 áreas de conselhos na Inglaterra e no País de Gales viram as
populações locais aumentarem em no mínimo 1.000 pessoas -, 15 delas com uma
adição de 3.000. Em 11, a imigração foi mais de 100% de todo o crescimento
populacional. Como, mais de 100%? Porque, sem ela, as populações dessas áreas
tinham diminuído. No UK já há mais muçulmanos do que galeses.
Os moradores da liliputiana aldeia de Piddington
realizaram um referendo simbólico no qual 285 dos 312 eleitores votaram a favor
da independência do Reino Unido. Eles estão aterrorizados com
os planos do governo de abrigar 1.250 homens solteiros solicitantes de asilo
numa instalação militar contígua, de onde poderão entrar e sair quando quiserem.
O primeiro-ministro Andy
Burnham ralhou-lhes: “O povo de Piddington precisa de fazer a sua parte!”
Cruzes canhoto.
Vá lá: o governo
distribuiu a candidatos à imigração um folheto a explicar que a violação de
menores de idade não é um costume britânico. Mas, no mundo paralelo do
multiculturalismo, gosto não se discute.
O chanceler alemão Friedrich Merz evocou uma
Europa “satisfeita com a exportação de produtos caros, a protecção dos EUA e a
importação barata de produtos da China e do petróleo russo”. Mas essa
divisão de tarefas foi chão que já deu uvas. As fricções globais proliferam e a
Europa precisa de gastar mais com defesa e energia, enquanto os EUA se
distanciam do Velho Continente em produtividade e inovação.
A geração Baby Boomer nasceu após a II Guerra Mundial de
Churchill e de Gaulle. A ideia de que o conflito foi causado por um
distúrbio psicológico em massa de medo e ódio cristalizou-se num consenso. E a
respectiva panaceia: tolerância incondicional, mas com repressão
automática à veleidades “fascistas”.
Os boomers cresceram
numa cultura confiante, centrada na família e na religião: se um cidadão
fizesse as escolhas certas podia contar com uma vida boa. Outro slogan do Maio de 68: “Debaixo
da calçada, a praia”. Enfim: trabalhar, só se fosse para o bronze. Tão boa era a
vidinha que na década de 1960 aquelas augustas premissas foram mandadas à fava
– um truque que só podia ser usado uma vez. O que se sedimentou foi a convicção
de boa parte da elite de que era necessário suportar qualquer custo para
impedir patologias como as dos satânicos anos 1930, com aqueles nazis todos
(contra os quais, aliás, Churchill e de
Gaulle nunca desistiram de lutar). Fora a xenofobia, viva a xenofilia.
“Wir schaffen das!” (“Nós
aguentamos!”) ronronou
Angela Merkel em 2015, ao escancarar de par em par as fronteiras da Alemanha
para mais de um milhão de pedidos de asilo e imigrantes ilegais, semeando
pressões demográficas e culturais, e instabilizando a política em boa parte da
Europa.
Traduzindo para o Espanhol de Pedro Sanchez: “Mi casa es su casa!”
Afinal, os europeus são ricos e sortudos, e tudo acaba por correr bem.
Pena que agora as nações
sejam menos endinheiradas e coesas. Inúmeros jovens, danados com a crise
habitacional (e por isso até cinquentões gramam com casa, comida e wi-fi dos
pais), já não vislumbram o tal excedente à mão de semear. A França está de tanga e à pancada, e
a crise ameaça empestar outros países da Zona Euro. Homens e mulheres comuns suspiram por
fronteiras seguras, imigração controlada, medidas energéticas sensatas e
governos que priorizem os seus próprios cidadãos – se não for pedir muito.
Greta Thunberg – a adolescente mais idosa do
mundo, e viciada em Apocalipses – chegou a Paris, foi a um liceu em
Saint-Denis e regurgitou uma das suas platitudes amuadas: “O nosso futuro está a ser roubado de
nós!” Mas alguma vez na vida ela frequentou uma escola?
Na Suécia de Greta, hoje 3
dos 11 milhões de habitantes são estrangeiros ou filhos de pais estrangeiros.
Cerca de 65% dos estrangeiros podem votar. Em setembro, votaram contra o
SD, o partido no governo, que proibira o hijab em público e refreara a imigração
em massa. Começou
uma nova fase na história sueca: a questão não é mais como impedir a imigração,
mas sim o que esses eleitores muçulmanos desejam. Os
Social-Democratas e o Partido da Esquerda distribuíram material de campanha em
árabe. Na Dinamarca 51% dos islâmicos creem que a lei dinamarquesa
deve ser baseada na sharia –
para o seu ethos pré ou anti-Iluminista, a fé não é um assunto privado.
No romance
“Submissão”, de Michel Houellebecq, o Islão não conquista a França pela força.
O establishment cede a um movimento muçulmano porque precisa dos votos e quer
manter os rivais fora do poder. O Islão avança através da própria democracia,
que se curva à demografia.
Em Bruxelas, também em convulsão, só
21,5% dos residentes são de origem estritamente belga (gente que nasceu com
nacionalidade belga e cujos pai e mãe também são belgas). Entre os
menores de 18 anos, a origem belga na capital da Bélgica cai para 10,5%. E
é assim que as elites radicais (cujo sonho é viver para sempre na canção
“Imagine”, de John Lennon) alienam e exasperam milhões de europeus, à mercê das
consequências de políticas pelas quais muitas vezes jamais votaram. O plano é: para salvar o Ocidente,
vamos destruí-lo primeiro. Está a resultar.
Nancy Astor foi a primeira mulher a integrar a
Câmara dos Comuns no Reino Unido. Um dia, disse a Churchill: “Winston, se eu
fosse a sua esposa, punha veneno no seu chá”. E ouviu a réplica: “Lady Astor,
se eu fosse o seu marido, eu bebia esse chá.” Bem, se tal diálogo fosse hoje, e
a interlocutora Angela Merkel, creio que a resposta de Churchill era outra:
“Madame, as senhoras, primeiro!” E com o apoio do general de Gaulle: “Bon
appétit , frau Merkel!”
Por lapso a que o autor é
alheio, o artigo foi publicado sem a sua parte final. Pedimos desculpa aos
leitores pelo sucedido.
Europa Mundo
COMENTÁRIOS:
António
Soares
Nem Lisboa teremos...
Brilhante crónica, como é apanágio do autor!
Jorge
Isidoro
Obrigado pelo excelente artigo.
José B
Dias
... o estopim foi exigência dos alunos da Universidade
de Nanterre de irem aos quartos das alunas, e vice-versa.
Ao contrário dos de hoje os
jovens de 68 sabiam identificar perfeitamente o que permite a manutenção da
espécie ...
José
Tomás > Américo Silva
Em 1948, no território do
Mandato da Palestina havia 1,3 milhões de árabes e 600 mil judeus. Se muitos
descendentes dos árabes da Palestina já não estão lá (e estão lá 7,5 milhões e
não 5), foi porque 5 países árabes invadiram o Estado Judaico na data da sua
independência, para tentar exterminar quem lá vivia, e falharam. Se não existe
Estado Palestiniano, foi, antes de mais, porque, entre 1948 e 1967 o Egipto e a
Jordânia, que ocuparam Gaza, a Margem Ocidental e Jerusalém Oriental não
deixaram.
Lily
Lu > Américo Silva
Não há palestinos.
Manuel
Barroso
A Europa anda mais
preocupada com a Rússia que com a destruição que está a sofrer por dentro.
Magda
Que óptimo artigo!
Manuel
Lisboa
Excelente crónica, como é
habitual. Gostei, em especial, dos paralelismos entre Churchill e De Gaulle.
Quanto ao quotidiano é o
que vê: triste e vil. Em menos de um ano talvez a França esteja em situação
semelhante à que se vive actualmente no Brasil: a escolha entre dois candidatos
presidenciais muito maus ou péssimos.
Luis
Silva
É um artigo de opinião identitário-conservador
globalmente bem escrito. Dificilmente se encontra disto em
Portugal, tivemos de ir ao Brasil. Ponto.
António
Duarte
Extraordinária, esta
crónica! Em boa hora encontrei este autor, do melhor que por aqui
anda!