sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CONTINUAÇÃO

Do Texto anterior, “A nazificação do passado europeu”, de  RUI RAMOS, em

COMENTÁRIOS:

MaJorge Carvalho

Um poder de síntese argumentativa e factual excelente. Obrigado Rui Ramos

Ana Luis da Silva

“Oligarquias moral e intelectualmente desarmadas”…

Esta tirada de Rui Ramos deve ter doído ao PM e ao Ministro dos Negócios Estrangeiros…

Ainda para mais é “injusta”: veja-se a importante atenção que o chefe do Governo dá às questiúnculas dentro da Seleção Nacional de Futebol a ponto de suscitar um telefonema seu (para acalmar os ânimos?).

Uma verdadeira postura de Estado, moral e intelectualmente elevada!

Não tem comparação com a defesa da imagem internacional de Portugal na ONU, nem com a defesa da sua História de 900 anos e da sua presença na Europa e no Mundo que, como sabemos são balelas diante das desavenças entre o selecionador Jesus e Cristiano Ronaldo… Afinal qual a importância de deixarmos que outros assassinem a História reduzindo a nossa presença portuguesa no mundo ao comércio de escravos e os nossos “egrégios avós” a odiosos esclavagistas?

Ironias à parte, mais uma vez Rui Ramos põe o dedo na ferida: o governo não contraria a narrativa da Extrema-esquerda, pelo contrário, alinha nela, desvalorizando o que mais nos importa, desconsiderando a  nossa identidade, a identidade de cada povo europeu.

Comete-se o mesmo erro de sempre ao desvalorizar as investidas desta gente que tem uma agenda assassina que quer desmontar as bases da identidade europeia, gente esta amplamente remunerada por lobbys, sustentada por gente colocada em lugares de topo por influência desses lobbys, e que quer destruir o Ocidente e os seus valores milenares!

António Duarte

O Montenegro é um cobardolas woke e só espero que o povo acorde e o mande para o lugar de onde nunca deveria ter saído. O caixote do lixo da História.

graça Dias

Caríssimo Rui Ramos

Um artigo de excelência e bem oportuno, que evidencia a traição à nossa História e aos portugueses, protagonizada pelo nosso 1ºMinistro Luís Montenegro e certificada pelo seu ministro progressista doutorado nos corredores de Bruxelas, Paulo Rangel, e  com  as  falácias  argumentativas   no início desta semana, quando ambos actuaram secretamente nas costas dos portugueses!...

Os portugueses continuam perplexos, como foi possível, em presença de tão hedionda proposta do Ganda  "o mais grave crime contra a humanidade” na história do mundo ", em que o seu mentor foi o « líder espiritual » Mr. A. Guterres,  fez da ONU, um centro de ideologia política, onde se constroem narrativas, através de argumentos enviesados, perversos, selectivos e de muitas omissões, com o objectivo de reescrever a história, contra a  civilização  Ocidental  e contra  o  Homem   Branco, e ir em auxílio de um bando de malfeitores, que desde há muitas e muitas décadas, têm espoliado os seus povos através da corrupção contínua e reiterada !...como foi possível o nosso 1º Ministro se ter abstido, quando sem quaisquer hesitações se deveria ter votado contra.

Notas:

a)  Livro -Cataclismo Atlântico: Repensar o Tráfico Atlântico de Escravos muda o paradigma das discussões sobre a escravatura, rebatendo ideais há muito estabelecidos e falsos consensos históricos.

b)  David Eltis, historiador canadiano especializado na história da escravidão nas Américas, apresenta uma análise profunda e inovadora sobre o tráfico transatlântico de escravos, desafiando interpretações tradicionais e expondo a complexidade deste fenómeno.

c) David Eltis é professor emérito de História Robert W. Woodruff da Emory University e da University of British Columbia. Os seus interesses de investigação centram-se no mundo atlântico do início da era moderna, na escravatura e na migração – tanto forçada quanto voluntária. Nenhum debate sobre a escravatura pode, agora, ser feito sem considerar este livro.

Manifesto o meu obrigada a RR por este brilhante lembrete sobre factos históricos.

Luís Pombo

Brilhante. parabéns

Guardado está

 

(O bocado para quem o há-de comer), costuma-se dizer. Provavelmente serão muitos desses atacantes desse passado prioritário – conquanto não exclusivo – português, os que hoje mais e melhor saboreiam os extractos desse passado descoberto por gente valente. E curiosa. Que sempre admiraremos, enquanto vivos formos.

A nazificação do passado europeu

Para a ONU, o infante D. Henrique teria sido um Himmler, Vasco da Gama um Goering, Camões um Goebbels, e o ultramar português um campo de extermínio como Auschwitz.

RUI RAMOS, Colunista do Observador

OBSERVADOR, 02 out. 2026, 00:25

O tráfico de escravos e a escravidão não singularizam as nações europeias na história da humanidade: o que as singularizou foi terem sido elas, antes de qualquer outra civilização, a proibir o tráfico e a abolir a escravidão. Poderiam, por isso, esperar algum reconhecimento. Mas não. É ao contrário: a assembleia geral da ONU, a 25 de Março, identificou os europeus como os únicos culpados do tráfico de escravos, e exige-lhes, duzentos anos depois, “reparações”.

Tudo isto é absurdo, e desde logo o princípio de litigar o que aconteceu há séculos. Mas mesmo aceitando esse anacronismo, a incongruência persiste. As potências muçulmanas do Médio Oriente tiraram tantos escravos de África como os europeus. Porque é que a Turquia ou o Omã não são interpelados? E porque é que, além dos descendentes dos compradores europeus de escravos, não são convocados os descendentes dos vendedores africanos de escravos, como a rainha Nzinga de Angola, sem os quais não teria havido tráfico?

O objectivo é político e muito claro: culpar o Ocidente. O método também é óbvio. A resolução da ONU classifica o tráfico de escravos africanos no Atlântico pelos europeus como “o mais grave crime contra a humanidade” na história do mundo. É fácil de ver onde se quer chegar, ao usar termos outrora reservados ao extermínio dos judeus pela Alemanha nazi: tratar os europeus como se todos tivessem sido sempre nazis e tudo o que fizeram no mundo equivalesse ao holocausto. O infante D. Henrique teria sido um Himmler, Vasco da Gama um Goering, Camões um Goebbels, e o ultramar português um campo de extermínio como Auschwitz. Aos europeus, restaria uma maneira de se redimirem: renegarem o seu passado, e aceitarem que são os únicos povos que no mundo não têm direito à continuidade histórica nem à soberania política.

Quando percebemos isto, percebemos que o problema não são as ditaduras africanas. É a esquerda revolucionária ocidental, e o ascendente que adquiriu através do wokismo: a linguagem da resolução da ONU é sua. Para a extrema-esquerda, a criminalização do passado ocidental serve dois fins: levar os ocidentais a desligarem-se das identidades e instituições que assentam nesse passado, e que são factores de resistência às revoluções que a extrema-esquerda gostaria de promover; e dissuadir os imigrantes do Terceiro Mundo de se integrarem em sociedades assim expostas como as mais abjectas da história. Num Ocidente reduzido a um aglomerado de populações sem nada de comum entre si, umas cheias de culpas e outras de ressentimentos, as revoluções voltariam a ser possíveis.

Mas não é só a esquerda revolucionária. Ao seu lado, estão os idiotas úteis de um eurocentrismo às avessas, convencidos de que o destino da Europa é agora expiar todos os pecados do mundo, e uma velha oligarquia cobarde e oportunista, que trata as “reparações” como uma simples e manhosa concessão ao “ar do tempo”, para facilitar traficâncias com ditadores. De facto, não nos devemos indignar com quem exige desculpas e reparações, mas com quem não é capaz de as recusar, como os Estados europeus que se abstiveram na votação da ONU e agora andarão a negociar com o Gana. O governo português já negou estar a negociar. Mas Portugal foi um dos Estados que se absteve na ONU, isto é, que não teve a sabedoria e a coragem de defender o seu passado e os seus valores. Nada ameaça tanto a democracia e o Estado de direito no Ocidente como estas oligarquias moral e intelectualmente desarmadas, e por isso incapazes de guardar e valorizar a história das nações ocidentais.

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(CONTINUA)

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

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Do texto anterior: “O insubstituível lugar do passado”

Por Maria João Avillez

Em:

“Tudo são recordações”

5 Ia o jantar no seu fim quando o passado insistiu em abrir um outro leque, falava já Filipe Gonzalez. O tempo deu uma brusca reviravolta e parou em Viana do Castelo, num dia quente de verão de 1980. Gonzalez era então um jovem andaluz, cabelo despenteado e colete preto, que estava ali para participar na campanha legislativa de Mário Soares e da sua Frente Republicana e Socialista.

Ambicioso e intrépido, Filipe queria um país e eu queria uma entrevista. Ambos ganhámos: Filipe veio a ter a Espanha durante 14 anos (1982/96) como Presidente do Governo, eu obtive a entrevista.

E pude, ao longo do tempo, cruzar-me de novo com ele, em diversas ocasiões, todas superlativas: três entrevistas – duas na oposição, a terceira no governo; um jantar histórico numa tasca em Vilamoura, antes de um comício de Mário Soares em Portimão onde ele reuniria vários líderes socialistas europeus, entre eles Mitterrand, Bettino Craxi, o próprio Filipe. Soares queria comer peixe fresco e, sorte minha, o facto de sermos apenas meia dúzia de pessoas – entre elas sua filha Isabel – permitiu que pudesse conversar largamente com o líder espanhol. Quase no final dos anos noventa o então já ex-Presidente do Governo espanhol apresentou no Palace de Madrid a versão espanhola dos livros que fiz com Soares, num discurso absolutamente extraordinário: tal a minúcia da leitura, a profundidade da análise do homem e do livro; a admiração pelo seu amigo, a rendição ao político. Já neste milénio tentei um reencontro profissional que não aconteceu, Filipe, vice-presidente da Internacional Socialista e muito requisitado internacionalmente, viajava constantemente, eram grandes as ausências de Espanha. Não foi possível.

6 Aconteceu naquela noite. Sentada àquela mesa, ouvindo conversas que iam rolando em óptimo ambiente, não podia, porém, deixar de pensar no tão misterioso élan – impulso? inspiração? intuição? – que faz ou não acontecer as coisas, surgirem as circunstâncias, produzir momentos “especiais”. Acontecem: no dia seguinte, com trinta e oito graus de calor, estava a entrevistar Filipe Gonzalez em Évora. No jantar da noite anterior mal pudera abordá-lo – era o “super-convidado” – mas na manhã seguinte a conversa fluiu, um rio a correr. Antes tínhamos “brincado” quando lhe mostrei as fotos de cada um dos encontros a que aludi acima: “o tempo passa…” Sorriso meio doce, meio irónico. O tempo trata-o bem, porém: Filipe tem 84 anos, um farto cabelo branco e os ombros algo curvados, sim. Mas a inteligência, a lucidez, a imensíssima experiência da política e do mundo, servidas por uma notável agilidade mental e um raciocínio estruturadíssimo, transmitem a (espantosa) impressão de que nada está fora do seu radar. E não está.

Mostra-se muito pouco “ilusionado” com o mundo que percebe perigosíssimo. Quase tudo o desgosta, indigna ou revolta – é conforme – e por isso se mantém tão activo. Possui o poderoso instrumento da palavra, usa-a com propósito e mestria. Intervém, sobe a palcos, desloca-se ao encontro dos “bons interlocutores” que tem pelo mundo, procura outros. Tudo menos desistir. Nunca lhe ocorreria.

Um grande, grande político.

À despedida, um rasgadíssimo elogio a Mário Soares de quem era profundamente amigo. Nunca deixou de o ver, aparecendo a visitar a família Barroso Soares em Lisboa ou Nafarros e cozinhando “ovos rotos” para o dono da casa que tinha por eles uma “perdição”. E as conversas não tinham fim.

7 Aqui chegados (os textos têm de acabar…) pergunto-me: não fora o passado – bem preservado – e a memória – bem cuidada –, como poderia ter escrito hoje o que aqui deixo?

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COMENTÁRIOS

Filipe Paes de Vasconcellos

É tão bom e inspirador ler esta extraordinária Senhora logo ao começo do dia. É uma prosa-poética. Palmas e obrigado.

Henrique Mota: 

Sublime.