segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Conflitos, sempre

 

No mundo das inteligências. Das ambições, também. Com retaliações, por vezes. Com petróleo, para aquecer mais.


O mundo de olhos postos em Bisqueque. O que está em causa na cimeira que vai reunir Putin, Xi, Modi, Pezeshkian e até Guterres?

No ano em que completa 25 anos, a SCO reúne no Quirguistão com conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, sanções ao Irão e gasodutos russos em cima da mesa.

António Moura dos Santos  - Texto

OBERVADOR, 31 ago. 2026, 00:32

Esta terça-feira tem início a 26.ª cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), no mesmo ano em que o grupo informal atinge os 25 anos de existência. Os encontros realizam-se em Bisqueque, a capital do  Quirgistão, um dos 10 membros deste bloco que tem assumido o objectivo de constituir uma força contrária à influência dos países ocidentais.

Nos dias que antecederam o início da cimeira, foi confirmada a presença de alguns dos líderes mais poderosos da Eurásia, como o presidente chinês Xi Jinping — que chegou este domingo — o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e o presidente russo Vladimir Putin.

Além disso, o encontro será também marcado pela comparência do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, num contexto de pressão económica crescente por parte dos EUA e no rescaldo dos primeiros ataques norte-americanos ao território em mais de um mês.

Segundo confirmou a agência de notícias turca Anadolu junto do secretariado da SCO, a agenda desta cimeira será marcada pelos principais desafios de segurança regionais e internacionais em curso, como os conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia.

Foi já anunciado que Putin vai ter encontros bilaterais com Pezeshkian e Xi, tendo este triângulo especial significância no contexto das tentativas de Donald Trump de bloquear apoios financeiros e militares a Teerão, particularmente por parte da China e da Rússia.

A 25 de agosto, a administração Trump iniciou a “Operação Exclusão Económica”, uma campanha de pressão económica consistindo na imposição de sanções secundárias aos parceiros comerciais do Irão nos sectores do ouro, da tecnologia, dos ativos digitais, da aviação e do transporte marítimo. Além disso, Washington ameaçou também os aliados do Irão com sanções directas. A China — que é um dos principais importadores de petróleo iraniano a nível mundial — já reagiu a estas acções, afirmando que irá “defender firmemente” os seus interesses.

Estas reuniões bilaterais em Bisqueque decorrem também dias depois de o director da CIA, John Ratcliffe, ter visitado Moscovo, com esta viagem a ser alvo de elevada especulação quanto ao que terá sido discutido no que toca aos conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia.

Além dos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, outros pontos de interesse desta cimeira residem na tentativa de descongelamento das relações diplomáticas entre a China e a Índia depois de anos de tensões fronteiriças, e na forma como a Índia e o Paquistão vão lidar com as consequências das escaramuças de maio do ano passado na região de Caxemira.

A interdependência e a conectividade económica também vão tomar um destaque importante, a começar pelo sector dos transportes. Um dos projectos na agenda é o corredor logístico [ferroviário e marítimo] promovido pela Rússia: projecctado para ter 7.200 quilómetros, deverá ligar São Petersburgo a Mumbai, passando pelo Irão e por portos do Golfo Pérsico.

Outro dos temas económicos na agenda é o projecto do gasoduto Siberian Force-2, infraestrutura planeada para transportar gás natural dos campos da Sibéria ocidental para o mercado chinês, atravessando o território da Mongólia. O acordo sobre este gasoduto não pôde ser concluído, como era desejo de Moscovo, durante a visita do chefe do Kremlin ao gigante asiático em maio passado.

Está ainda planeado retomar as discussões quanto à potencial criação de um Banco de Desenvolvimento da SCO, que tem sido alvo de sucessivas negociações quanto à sua estrutura e modalidades de funcionamento.

A Organização de Cooperação de Xangai centra grande parte da sua actividade na cooperação política, económica e de segurança, incluindo o combate ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo. Ao contrário da NATO, não dispõe de uma cláusula de defesa mútua e toma as suas decisões por consenso, mas tem assumido um importante papel geopolítico, principalmente pela forma como a China e a Rússia têm usado esta organização como força de pressão contra os adversários do Ocidente.

A reunião do ano passado em Tianjin, por exemplo, foi marcada por declarações de defesa pela criação de um “mundo multipolar” e por críticas mais ou menos veladas: se Putin acusou os países ocidentais de provocarem a guerra na Ucrânia, Xi denunciou “actos de intimidação” por parte dos EUA.

As origens deste grupo remetem para os “Cinco de Xangai”, formação precursora criada em 1996 pela China, a Rússia, o Cazaquistão, o Quirguistão e o Tajiquistão para mitigar tensões militares e resolver disputas fronteiriças na sequência do colapso da União Soviética. Quando o Uzbequistão aderiu, em 2001, este bloco tornou-se na Organização de Cooperação de Xangai.

Hoje, a SCO é composta por 10 países, com as entradas da Índia e do Paquistão como membros de pleno direito em 2017, seguindo-se o Irão em 2023 e a Bielorrússia em 2024. Além dos membros oficiais, juntam-se ainda o Afeganistão e a Mongólia como observadores e cerca de 15 parceiros de diálogo onde constam a Turquia, o Azerbaijão e a Arábia Saudita.

É no contexto deste grupo mais alargado que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também vai marcar presença na cimeira em Bisqueque, tendo previsto discursar na reunião da Organização de Cooperação de Xangai Plus, um formato alargado que reúne os membros da SCO e convidados, observadores e outros parceiros.

“Neste discurso, espera-se que o secretário-geral enfatize o valor da cooperação entre a ONU e a Organização de Cooperação de Xangai. Abordará também outros temas, incluindo os recentes acontecimentos no Médio Oriente”, confirmou o seu porta-voz, Stéphane Dujarric.

*com Lusa

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Natureza

 

O nosso mundo começa cá dentro da nossa porta, diz o cantor.

Mas temos de contar sempre com os imprevistos causados pelas ambições alheias, nós próprios também já tendo dado provas disso.

 

Mais de um mês depois, EUA voltam a atacar Irão que já retaliou

Os Estados Unidos atacaram o Irão, na ilha Larak, para impedir o lançamento de rockets que pretendiam voltar a colocar minas no Estreito de Ormuz. O Irão já retaliou com ataques a bases na Jordânia.

Agência Lusa

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Observador

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31 ago. 2026, 00:39

epa13125319 Cargo vessels are seen at one end of the Strait of Hormuz near the coast of Dibba Al Fujairah, United Arab Emirates, 21 July 2026.  EPA/STRINGER

STRINGER/EPA

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A última vez que os Estados Unidos tinham atacado o Irão foi a 29 de julho. Um mês depois voltam a atacar. Atingiram lançadores de ‘rockets’ que se preparavam para lançar minas no Estreito de Ormuz, segundo foi noticiado.

Meios de comunicação semioficiais iranianos noticiaram sons de explosões nas proximidades da ilha iraniana de Larak, que se situa nas imediações do estratégico estreito, no golfo Pérsico. As forças militares norte-americanas tinham indicado ter concluído a desminação das rotas de navegação internacional no estreito.

O Irão já retaliou. A Guarda Revolucionária do Irão fez saber que tinha lançado vários ataques a bases militares dos Estados Unidos na Jordânia. E se fontes norte-americanas dizem que o ataque terá sido interceptado, o corpo militar assegura que infligiu danos.

A televisão Al Jazeera noticiou, citando um responsável norte-americano sob condição de anonimato, que os Estados Unidos (EUA) atacaram dois lançadores de foguetes da Guarda Revolucionária localizados em Larak. Forças do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica foram observadas a preparar-se para lançar foguetes com minas navais para o estreito, segundo o responsável norte-americano, que falou sob anonimato para poder divulgar informações sobre estas movimentações militares de contornos sensíveis.

“Posso confirmar que, hoje de manhã, as forças norte-americanas atacaram dois lançadores iranianos na ilha de Larak. Foram observadas forças do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica a prepararem-se para lançar rockets com minas marítimas para o Estreito de Ormuz”, afirmou o porta-voz do Comando Central dos EUA, o capitão Tim Hawkins, ao Axios. O porta-voz adianta que as forças norte-americanas estão a “acompanhar de perto a zona”, continuando “preparadas para proteger o livre trânsito do comércio” através do estreito.

Segundo a agência noticiosa espanhola EuropaPress, pelo menos duas pessoas morreram e outras duas ficaram feridas neste ataque em Larak. A Guarda Revolucionária, numa declaração divulgada pela televisão estatal iraniana, referiu, por sua vez, “o martírio e ferimentos de vários combatentes e compatriotas”.

O Irão garantiu ainda que o ataque irá “resultar na punição do agressor”. E foi mesmo assim que a Guarda Revolucionária chamou ao ataque.

A guerra entre os Estados Unidos e o Irão completou na sexta-feira seis meses. Este ataque acontece poucos dias depois de Donald Trump ter anunciado que concentraria os esforços na pressão económica.

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domingo, 23 de agosto de 2026

O factor épico

 

De longa data transposto numa historicidade nem sempre de exactidão, na sua reprodução humana, mais chamariz da atenção alheia sobre aquele que relata do que na autenticidade dos factos - forma, talvez, de acentuar a qualidade expositiva do seu relator, como já as epopeias clássicas tão bem o manifestaram. Pese, embora, a fugacidade do relato oral actual, apesar das técnicas modernas de “armazenamento”  oficial.  Só, de resto, um analista de muito saber, como Miguel Tamen, se lembraria de fazer ironia sobre a transmissão das notícias mundanais – que, melhor ou pior, vão ilustrando os saberes dos ouvintes menos ilustrados pelas leituras dos jornais. É o meu caso. Por isso estou grata aos telejornais permissivos de uma aprendizagem visual e auditiva, no recosto do sofá, a mesa e a cadeira mais utilizadas aquando das palavras cruzadas e outras regalias de escrita propiciada pelos jornais.

O POEMA DA FORÇA

É a combinação de leviandade, violência, pompa e comentário que mantém o telejornal na tradição da épica grega.

MIGUEL TAMEN, Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

OBSERVADOR, 22 ago. 2026, 00:20

Hi, dad,’ observou Telémaco.  Para quem se sente culpado por não saber grego e não quer estar na bicha para os filmes de peplo, o telejornal é uma fonte  uma historicidade alternativa e barata de poesia épica. Como os grandes poemas de antigamente, é longo, heterogéneo e repetitivo; e como eles terá evoluído a partir da linguagem oral, ou pelo menos é recitado por rapsodos (como lhes chamavam na Grécia) que têm o cuidado de nos assegurar que o mundo se move pela força, a qual escraviza e arrasta as cabeças no ar em estado de fúria.

Algumas pessoas preferem outros tipos de ficção ao telejornal; mas esses tipos de ficção não conseguem dar uma ideia clara da Grécia arcaica:  do pitoresco das linguagens, do disparatado das opiniões, da noção de que tudo está relacionado, e sobretudo de que há uma força nas coisas.   Os espectáculos da ira dos heróis são encorajados; e não lhes são estranhas as principais emoções helénicas, em especial a imitação do sentimento da dignidade ofendida.  Os rapsodos que recitam o telejornal chamam quase sempre tragédia à épica; mas essa imprecisão terminológica não afecta a sua intenção mais profunda.

Ao telejornal não basta com efeito pôr em verso uma história fatal.  É necessário que o metro encantatório se possa prolongar durante muito tempo em muitas histórias desirmanadas; e depois que elas se repitam aos bocados e se repitam os seus melhores bocados em palavras soltas, de acordo com a vontade presumida do freguês.   Os telejornais são literatura oral sem questão homérica: a ninguém ocorreria vir a escrever mais tarde aquelas coisas.  São improvisados por pessoas dotadas de uma memória tão opulenta que as impede de pensar no que estão a dizer.

Há em cada noite o eco das proezas atléticas dos tempos antigos, quando os profissionais bem pagos eram capazes de recitar dezasseis mil versos em apneia, sem raciocinar uma única vez.   Os espectadores desses recitais estavam muito habituados às expressões que não queriam dizer nada, e não se importavam: sabiam que elas estavam lá para ajudar à memória e dar um ar da sua Grécia.  É por isso que entre as personagens épicas antigas tantos heróis tinham o pé leve, e que a aurora e as rosas tinham dedos.

Ao público do telejornal também não importam os rastos de destruição, a vizinha Espanha, ou a velhinha lei da gravidade: são auxiliares da memória que se esquecem depressa.   O que quer assegurar é que em qualquer noite lavrem os maiores incêndios desde a Antiguidade; que haja banquete; e que a seguir se represente a comédia do Ciclope Transatlântico, a quem a Europa das mil manhas engana sempre com sucesso (pensar que foi na península de Setúbal que nasceu o cavalo de Tróia!)  É essa combinação de leviandade, violência, pompa e comentário que mantém o telejornal na tradição da épica grega.

COMENTÁRIOS:

José B Dias: Muito bom!

Manuel Matos: Excelente!

Américo Silva: Esta crónica é de se lhe tirar o chapéu, aplaudo de pé.

Rosa Ribeiro: Crítica subtil ou humor apontado aos locutores e comentadores dos Telejornais? Os comentadores multiplicam-se como cogumelos.

Carlos Almeida: simplesmente delicioso .