domingo, 3 de maio de 2026

Não se trata de “Livro”

 


O tal referido no poema de Pessoa - o da Liberdade de “ter um livro para ler e não o fazer”, mas puramente de textos explorando as temáticas do dia, (ou mesmo do mês e até do ano) à ordem dos fregueses - os da escrita e os da leitura – temáticas que fazem parte do historial por nós vivido e que um dia ficará registado conforme a sua repercussão nas nossas almas. De toda a maneira, agradecemos ao OBSERVADOR a síntese, de reflexão bem ponderada.

 

Pontos de Vista

              Carlos Maria Bobone

Editor de Opinião

 

 

 

Bom dia aos leitores do Observador,

Esta newsletter vem com uma novidade. Não vamos falar apenas dos textos mais interessantes, como o do Paulo Nogueira, que trata, com a graça e ironia de sempre, o problema da masculinidade tóxica (Os Homens não se medem aos parvos), nem dos que tratam os assuntos políticos mais prementes, como o do Miguel Morgado sobre a reforma da Lei Laboral; vamos pegar em alguma da opinião publicada ao longo da semana e pedir esclarecimentos aos autores. Perguntas provocatórias, análise das consequências que viriam do que propõem, críticas, todo o tipo de perguntas: a newsletter servirá não só para conhecer o que foi publicado, mas também para aprofundar o que foi discutido, com a ajuda dos próprios autores.

E o primeiro texto escolhido para ir a interrogatório foi um texto que se queixa, ele próprio, da falta de escrutínio aos políticos. Em A Casa dos Segredos da democracia, Luís Rosa invoca uma série de casos pouco edificantes da relação entre política e negócios para explicar porque é que o famoso discurso de Aguiar Branco foi absurdo; no entanto, pareceu-nos que era possível inverter o argumento. Todos os grandes casos de corrupção, referidos no texto, mostram precisamente que o escrutínio não está a resultar. Não significa isto que pode ser contraproducente intensificar uma estratégia que não resulta, e que talvez afaste quem não é corrupto da política, mas não parece afastar dela a corrupção, em vez de procurar outros métodos de combate à corrupção?

Luís Rosa respondeu com a ideia de que não se está a intensificar o escrutínio, bem pelo contrário – a opacidade é cada vez maior. “Pior”, diz ele, “é um terrível paradoxo que hoje tenhamos menos acesso à informação, do que nos anos 90. No tempo da digitalização e da inteligência artificial, os obstáculos à circulação de informação são maiores do que no tempo pré-internet. Parafraseando Popper, a sociedade está mais fechada, do que aberta. A transparência é algo vital para a democracia – é algo que caracteriza uma democracia (a tal sociedade aberta). A opacidade, que parece ser a nova estratégia a executar, mais do que fazer regredir a qualidade da nossa democracia, vai prejudicar uma tomada de decisão devidamente informada dos cidadãos – ao fim, e ao cabo, aqueles nos quais reside a soberania que está na origem do contrato social entre representados e representantes.”

André Azevedo Alves (num texto sobre um tema que também ganha com a leitura da opinião de Mafalda Pratas, sobre o significado e a força de uma Internacional Nacionalista) trouxe ao Observador uma reflexão sobre o papel de Meloni na Europa pós-Órban, e explica que não devemos esperar da italiana que ocupe o espaço vazio – o tipo de liderança de Meloni é muito diferente. Decidimos perguntar, no entanto, se não poderia dar-se o caso de a própria União Europeia empurrar Meloni para o lugar de Órban. Perguntámos-lhe se  o estilo de Meloni não era possível apenas porque havia Órban, com uma atitude mais confrontacional, que obrigava a UE a ceder diante de um perfil como Meloni. Sem Orban, isto não obrigará Meloni a tornar-se mais confrontacional, ou não resultará numa UE a apertar o seu modo de lidar com Meloni?

E André Azevedo Alves respondeu: “A postura mais confrontacional de Orbán certamente aumentava o espaço de manobra para perfis como o de Meloni. Se por um lado a saída de cena (pelo menos como governante) de Orbán aumenta o potencial agregador de Meloni na direita europeia, também é verdade que aumenta a pressão para uma atitude menos conciliatória com a UE – e em especial com o PPE. Sob pena de Meloni deixar de ser vista como uma alternativa credível ao status quo e reabrir espaço para opções mais radicais no contexto da direita europeia. Uma questão que no fundo se relaciona também no contexto europeu com a capacidade do European Conservatives and Reformists Group (de Meloni e Kaczyński) para se afirmar à direita do PPE face à concorrência do grupo Patriots for Europe (de Orbán, Le Pen e Ventura). As eleições presidenciais francesas de 2027 serão a este respeito um momento decisivo.”

Houve ainda dois textos voltados para o papel da esquerda em Portugal e na Europa que quisemos confrontar.

O primeiro foi o de Nuno Gonçalo Poças, A esquerda e a santinha da ladeira, que expõe a contradição entre as práticas de uma esquerda tantas vezes corrupta, como se vê agora no caso que envolve a entourage de Pedro Sánchez, e a imagem de pureza e superioridade moral que continua a espalhar. Usámos a “contradição” de uma esquerda que invoca “a sua superioridade moral, o seu feminismo militante” mas “fomenta e/ou tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e nas instituições”, palavras do próprio, para perguntar: isto acontece porque a esquerda não acredita nestas tais causas, e as usa apenas como capote para as práticas corruptas (hipótese que parece demasiado severa) ou acredita mas tem, como todos os governos, problemas que não advêm das suas ideias, e sim da natureza humana. Nesse caso, para quê fazer a associação?

Ao que Nuno Gonçalo Poças respondeu: “A natureza humana ditará que sempre existirão casos de corrupção, de contradições entre a palavra e a acção e por aí fora. O que se passa com a esquerda ocidental não é exactamente um problema que se aponte a falhas pontuais decorrentes da natureza humana. É um programa político concreto: acenando com temas que demonstram a sua bondade perante os homens, vão desconstruindo os alicerces morais da sua própria civilização. Sánchez é o oportunista no meio disto, que se usa de tudo para se perpetuar no poder. Em Portugal tivemos pelo menos dois assim, com graus de ilicitude diversos, mas muito parecidos com o espanhol.”

Noutro texto, que fala sobre as aliança que existe, na política municipal de Lisboa, entre o PS e os partidos à sua esquerda, quisemos aproveitar o tema das alianças para perguntar a Margarida Bentes Penedo se o que se aplica em Lisboa ao PS e à esquerda não se aplicaria na aliança hipotética mais badalada dos últimos anos – uma aliança entre PSD e Chega. Perguntámos: “O bloco PS+esquerda lembra inevitavelmente a tão badalada conversa das linhas vermelhas, que normalmente assume que ligar-se ao Chega contaminaria o PSD; mas vendo o caso de Lisboa, em que a esquerda se tornou um pequeno satélite do PS, sem voz própria, não poderia ser este o resultado de uma aliança da AD com o Chega, neutralizá-lo?”

Mas Margarida Bentes Penedo não foi na conversa e respondeu-nos que:

“A pergunta não deve ser posta nesses termos, porque assenta em premissas erradas. A extrema-esquerda contaminou fortemente o PS: entrou no partido e deslocou-lhe o eixo político. Mesmo aceitando a analogia, ela não é transportável. Na Assembleia Municipal de Lisboa, o Chega ainda tem uma bancada de escala comparável à do Bloco e do PCP. No plano nacional não. O Chega tem hoje uma dimensão muito aproximada à do PSD, o que torna qualquer absorção inverosímil. Quanto à “contaminação”, ela já aconteceu: basta ver a mudança de retórica e de prioridades políticas. O Chega obrigou a direita a falar de assuntos que a própria direita não queria ver. E não precisou de alianças.”

A(s) Figura(s) da semana

Esta semana, o gesto teatral de Pedro Delgado Alves fez das suas as costas mais largas do país. Aqui no Observador também Rui Ramos, Rui Pedro Antunes ou Helena Garrido escreveram umas linhas apoiadas nas costas do socialista; no entanto, houve mais um socialista a entrar com estrondo pela Assembleia, pelo que não podíamos deixar de acrescentar o texto de Miguel Pinheiro sobre Pedro Nuno Santos a esta pequena secção.

 

 

              Luís Rosa

A Casa dos Segredos da democracia

 

Se decidir aumentar a opacidade, Luís Montenegro cometerá um erro estratégico terrível. Porque entregará a bandeira da transparência ao PS - o partido que teve Sócrates e os 75.800 euros em São Bento.

 

              André Azevedo Alves

Lições de Budapeste

 

Meloni não ocupará o lugar de Orbán no movimento conservador internacional porque os dois modelos são fundamentalmente distintos, distinções que devem ser motivo de profunda reflexão à direita.

 

              Nuno Gonçalo Poças

A esquerda e a Santinha da Ladeira

 

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha.

 

              Margarida Bentes Penedo

Sem o PS

 

Moralizar alianças é o último recurso de quem já não consegue disputar o governo. Quando governar sem o PS passa de improvável para indevido, o problema já não é partidário. É do regime.

 

Os Pedros do PS

"Responder a um desconforto com um virar de costas está ao nível de maturidade de quem se zangou com um coleguinha da creche porque não cantou com ele uma música do Panda e os Caricas. Há a agravante de Pedro Delgado Alves ter defendido, após o protesto dos deputados do Chega na presença de Lula, que o código de conduta fosse “musculado” "

Rui Pedro Antunes

sobre Pedro Delgado Alves, antes de lembrar algumas leis em que o próprio deputado contribuiu para a opacidade

 

"É uma infantilidade, a raiar a incapacidade de viver com a diferença de opinião, aquilo que fez o deputado do PS Pedro Delgado Alves, virando-se de costas para o presidente da Assembleia da República. Até porque José Pedro Aguiar Branco pode ter escolhido incorrectamente a terapia, oportunidade e a forma de abordar o problema, mas ele existe. "

Helena Garrido

no meio de uma série de reservas ao discurso de Aguiar Branco

 

"Não, ao levantar-se para virar as costas ao presidente da Assembleia da República, Pedro Delgado Alves não chamou a atenção para nenhum tema. Chamou apenas a atenção para si próprio. Porque a única coisa que fez, com a sua traquinice de escola suburbana, foi desrespeitar a Assembleia da República e aqueles que o elegeram."

Rui Ramos

que também discorda do fundamental no discurso de Aguiar-Branco

 

"Pedro Nuno Santos é como aquelas jovens promessas que venceram o Festival de Pequenos Cantores de Rimini, mas depois viram a carreira desabar logo que passaram pela mudança de voz. Todos eles, chegando à idade adulta, perceberam, com nostalgia e frustração, que tinham um grande futuro atrás deles. "

Miguel Pinheiro

antes de traçar um paralelo entre Pedro Nuno Santos e uma figura quase caricata do antigo Labour de Inglaterra, Tony Benn

 

 

Não pode perder

1                          Sim, sou pró-Israel

                            Não haja dúvidas, Israel é, de certo modo, um pretexto. Para a Europa, a grande ameaça às nossas democracias é a coligação entre os islamistas radicais e as extremas esquerdas

 

2                          Alterações climáticas: um debate estéril

                            Fora do “wishful thinking” de determinadas comunidades “científicas” e da redacção do “Expresso”, não deve haver praticamente uma alminha que evite ter filhos por se afligir com a temperatura

 

3                          Os capitães, as nossas tropas e as malhas da ideologia

                            Pode repetir-se, noutro cenário de guerra, o que aconteceu em África, em 74/75, às Forças Armadas? 52 anos depois, com a Defesa e os militares a ganharem peso, há perguntas que temos de fazer.

sábado, 2 de maio de 2026

Uma sugestão criativa


A fé (apesar da descrença ironicamente crítica, de AG, na juventude pateticamente amiga dos prazeres) – na maturidade humana, trazida pelo avanço na idade, que alterará as ambições e os comportamentos próprios do ser humano. Podemos, pois, continuar a crer na evolução populacional, o clima proporcionando momentos de lazer e de prazer sadios e propícios ao bem-estar. E mesmo que assim não seja… Haverá alegria maior do que essa de gerar filhos?

Alterações climáticas: um debate estéril

Fora do “wishful thinking” de determinadas comunidades “científicas” e da redacção do “Expresso”, não deve haver praticamente uma alminha que evite ter filhos por se afligir com a temperatura

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 02 mai. 2026, 00:24

A partir de um estudo estrangeiro de 2021 e de um estudo nacional ainda não publicado, o “Expresso” concluiu queQuatro em cada dez jovens hesitam ter filhos [sic] por causa das alterações climáticas”.

Os resultados são assustadores: assusta assistir na nossa época tão informada e esclarecida à repetição do exacto “milenarismo” de há mil anos. E “exacto” é força de expressão. Por regra, as crenças medievais no iminente fim dos tempos tinham alguma razão de ser, e aconteciam em períodos de crise ligados a guerras, fome e epidemiasou seja, às trivialidades quotidianas daqueles tempos. Hoje, os “jovens”, que prolongam a juventude até à meia-idade e beneficiam de um conforto que os senhores feudais nem sequer podiam imaginar, deixam-se tolher face a uma ameaça vaga, discutível e, salvo na retórica apocalíptica do eng. Guterres, remota. Além disso, os medos justificados de antigamente, aliados à escassez de anticoncepcionais eficazes, não impediam as pessoas de se reproduzirem, imprudência sem a qual não estaríamos aqui, eu, o leitor, os jornalistas do “Expresso” e as jovens que padecem de “ecoansiedade” entrevistadas pelo “Expresso”. Já os medos comparativamente injustificados de agora parecem implicar uma apetência para a extinção da espécie. Antes que o clima trate do assunto, a própria espécie despacha-o mediante suicídio programado.

Isto tudo, note-se, se levarmos a sério os referidos estudos e o artigo do “Expresso”. No artigo, se o espremermos bem, o vetusto semanário limita-se a falar com duas “jovens” portuguesas. Uma, Catarina, 25 anos, teme procriar por não encontrar “respostas claras” a duas perguntas “difíceis”:Até que idade poderá viver um filho que tenha nos dias de hoje? Será que a zona onde vivemos continuará habitável daqui a algumas décadas?”. Não são perguntas difíceis. Eis as respostas: 1) até aos oitenta, oitenta e dois, se atendermos à esperança de vida actual; 2) à conta das proezas do “poder local” e dos efeitos da “arquitectura” contemporânea, inúmeras “zonas” do país já não são habitáveis há muito.

A segunda “jovem” a falar com o “Expresso” chama-se Mourana, tem 29 anos e pertenceu à Greve Climática Estudantil, uns moços e moças que, a fim de prevenir o degelo,  lançam tinta em cima de políticos, vandalizam montras e bloqueiam estradas. Após ter cortado nos banhos e na carne, vencido as insónias e experimentado “diferenças nas capacidades cognitivas”, Mourana licenciou-se em psicologia, arranjou emprego (?) no grupo EcoPsi, “focado na promoção da saúde mental no cenário de alterações climáticas”, e “recuperou o sonho de ser mãe”. Que bom. Ou não.

É que há duas questões fundamentais em que o artigo do “Expresso” não toca. Por um lado, é positivo não só que os “ecoansiosos” tenham reservas em produzir descendentes como é sobretudo aconselhável que não o façam de todo. A julgar pelo alegado desarranjo mental dos hipotéticos pais, nada indica que os filhos, alimentados a caldos de imaturidade, ilusões de grandeza, visões do Juízo Final e paranóia, possam sair menos avariados. O provável é saírem mais avariados, mesmo que convenha apurar se tal é possível.

A outra questão de que o “Expresso” foge é a seguinte: em vez de debater se as alterações climáticas de influência antropogénica existem na dimensão propagada e com as consequências anunciadas, não seria preferível aceitar que existem, desejar que existam e rogar aos santinhos que cumpram o seu papel com rapidez? Dito de maneira diferente, vale a pena ambicionar a continuação de sociedades em que uma parte significativa da população não regula bem? Se as percentagens de “ecoansiosos” forem autênticas, é altura de começar a ponderar não os riscos das alterações climáticas, e sim a respectiva necessidade. Os perigos decorrentes de gente que, sem reparar no absurdo, recorre a tecnologia avançada para organizar manifestações em que se exige a devolução da humanidade ao Paleolítico são muito maiores. Entre ver a Terra arrasada por ondas de calor e inundações ou entregue a multidões de tontos, o meu coração não balançaria.

A nossa sorte é que estes dilemas épicos não se colocam. De regresso à realidade, fora do “wishful thinking” de determinadas (e financiadas) comunidades “científicas” e da redacção do “Expresso”, não deve haver praticamente uma alminha que evite ter filhos por se afligir com a temperatura a longo prazo. As novas gerações evitam ter filhos, e na verdade têm pouquíssimos, porque as casas são caras, porque os salários são baixos, porque tendem ao egoísmo, porque não apreciam obrigações, porque simplesmente não calhou e porque dispõem da pílula, ora essa.

A invocação, neste contexto, das “alterações climáticas” apenas visa conceder uma dignidade postiça a motivos prosaicos. É um tique contagioso, uma forma infantil de legitimação, uma “causa” que à semelhança da adesão a “causas” similares convence os meninos e as meninas de que têm relevância nos destinos do mundo. Depois, na maioria dos casos, os meninos e as meninas crescem. E uns tantos multiplicam-se.

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS       CLIMA       AMBIENTE       CIÊNCIA  

COMENTÁRIOS (de 17)

Glorioso SLB: Algum dos entrevistados é imigrante paquistanês? É q esses têm filhos à brava. 1/3 das crianças q nascem em Portugal já são filhos de estrangeiros. A grande substituição está em marcha. Orquestrada ou ñ. Mas se é para substituir malucos eco ansiosos q recebem subsídios para colóquios, exposições e manifestações ou imigrantes q, para já, vergam a mola, e são anti-homossexualismo, ñ sei se os segundos ñ são bem melhores. A minha dúvida é: qd é q o Expresso decidiu ser wokista? Foi o Sócrates? Foi qd o Balsemão adoeceu? De PSD a BE em 20 anos!

José Paulo Castro: Estou espantado por ninguém ter ansiedade com o aumento da carga fiscal que é pretendido pelos promotores das teses climáticas. A minha carteira fica muito ansiosa. Será ecoansiedade?

Universo de magia

 

O Universo Bíblico.

Rostos do Evangelho

É como quem se vê ao espelho e vê o mundo. Não há noticiário ou reportagem que se aproxime do que podemos ver nos rostos que desfilam pelo Evangelho

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 01 mai. 2026, 00:24

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Volti dei Vangeli é um programa do Dicastério para a Comunicação do Vaticano de 2022, em que o Papa Francisco vai comentando brevemente e de viva-voz rostos dos Evangelhos, que passam diante de nós vistos e ilustrados ao longo dos séculos por grandes pintores ou anónimos copistas.

É um desfile que nos alerta para uma evidência: não há noticiário ou reportagem que se lhe aproxime, até em actualidade; nada que nos dê tão sucintamente o mundo e a natureza humana na paz e na guerra.

Todos nos vamos reconhecendo e reconhecendo este mundo e os rostos que o habitam nos pequenos tratados da condição humana que são as parábolas: o pobre Lázaro e o rico sem nome; o filho pródigo, o irmão mais velho e o Pai; o homem assaltado, o sacerdote, o levita e o bom samaritano.

Dir-nos-á alguma coisa o abismo sulcado pelo rico que “se vestia elegantemente e vivia todos os dias no prazer e no luxo”, sensível a todos os requintes e subtilezas, mas insensível a Lázaro que, “deitado à sua porta, desejava comer ao menos as sobras da sua mesa”; um abismo tornado intransponível e que, consequentemente, assim continua quando, depois da morte, as posições se invertem (Lucas 16:19-31). Ou o homem assaltado por ladrões que fica no chão, meio-morto, ante a indiferença dos que passam, até do sacerdote e do levita, membros e símbolos da religião e da solidária ideologia oficial, e que só encontra o seu verdadeiro próximo no samaritano, no marginal excluído da boa sociedade, que cuida dele, o carrega até uma hospedaria e zela pela sua cura (Lucas 10, 25-37). Ou como o Pai que recebe o filho devasso e perdulário, ante o escândalo e o ressentimento do filho mais velho, o correcto, o cumpridor (Lucas 15, 11-32).

Entre os rostos do Evangelho que o Papa vai percorrendo, estão também os rostos reais de S. Pedro, inseparável do galo que apregoa a sua repetida traição, e de S. José, santo que, tal como nós mas mais notoriamente, vive lado a lado com o mistério e com a aceitação do mistério e de que Francisco se diz  particularmente devoto (tinha na mesa de cabeceira uma imagem de S. José dormindo e, quando tinha alguma dúvida, escrevia-lhe um bilhete e punha-o debaixo da imagem).

Cristo prevê a traição de Pedro, tal como prevê a traição de Judas, porém a liberdade de cada um leva-os por caminhos diferentes.

Pilatos e Judas

E há também o rosto de Pilatos, num dos momentos cruciais dos Evangelhos: a paixão e a morte de Cristo. E quanto a Pilatos, o Papa Francisco não tem dúvidas: o governador da Judeia, homem inteligente e até sensível, condena Cristo para não comprometer a carreira. Pilatos ocupa, assim, o 14º episódio dos Volti dei Vangeli, que Francisco intitula “schiavo del carreirismo”, “escravo do carreirismo”.

Pilatos e Judas – e com eles o mistério do Mal, o lavar de mãos, a traição por trinta dinheiros – são dos rostos mais perturbadores do Evangelho e dos mais presentes na arte e na cultura ao longo dos séculos.

O diálogo entre Jesus e Pilatos, relatado pelos quatro evangelistas, é dos textos mais intrigantes e fascinantes da Bíblia. Pôncio Pilatos é o poder político, o poder de Roma e do seu império, a autoridade máxima na Judeia.  É a Pilatos que os judeus recorrem para neutralizar Cristo, usando o ardil de um delito que sabem punível pela lei romana e de que Cristo seria réu: o crime de lesa-majestade de se intitular “rei dos judeus”, elevando-se acima de César.

A figura de Pilatos, que devia ser ali o decisor “schmittiano”, mas que se recusa a sê-lo, é objecto de juízos variados e opostos ao longo da História. Nietzsche, no Anticristo (1895), vê-o como um “aristocrata romanoentre judeus primitivos e fanáticos. Ao seu modo radical, vai mesmo classificar o governador da Judeia como “a única figura nobre” do Novo Testamento, na sua distância e recusa em se envolver nas querelas dos locais. E no famoso “O que é a verdade?” de Pôncio Pilatos, vê, naturalmente, uma sentença céptica e até irónica. Para Nietzsche, uma religião em que Deus, o Filho de Deus, morre voluntariamente numa cruz, é uma patética apologia da fraqueza e da renúncia ao poder, uma negação da verdade, a origem do Mal (já que o Bem, conforme o define no Anticristo, é tudo o que é susceptível de aumentar “a vontade de poder” e o próprio poder no homem).

Bem oposta a esta imagem de Pilatos como nobre governador romano é a de Mikhail Bulgakov, em O Mestre e Margarida. O Pilatos de Bulgakov é um homem inteligente e a figura e o pensamento de Yeshua Ha-Nozri fascinam-no; mas hesita em salvá-Lo e recua, perante o risco que representa para a sua carreira de alto funcionário imperial. Bulgakov imagina também um destino e uma punição para Pilatos, pondo o Procurador, na sua humanidade medrosa e cautelosa, a mandar punir Judas Iscariotes por ter vendido Cristo.

Se Pilatos tivesse tido a coragem de não condenar Jesus, como se consumaria a Paixão? E se Judas, o traidor, não tivesse traído e entregado Cristo, como se consumaria o que “estava escrito” e a Salvação?  São mistérios da presciência divina e da liberdade humana, da conflituosa coexistência do Mal e do Bem, da providência divina e do livre-arbítrio com que, consciente ou inconscientemente, nos confrontamos diariamente.

Dante põe Judas na Judecca, o pior lugar do Inferno, o Nono Círculo gelado, onde o traidor é pessoalmente atormentado pelo próprio Lúcifer; e em Shakespeare, em tragédias como Othello e Macbeth, Judas é também o traidor por excelência. Já Jorge Luis Borges, no conto “Tres versiones de Judas, de 1944, escreve uma imaginativa e imaginária justificação de Judas, narrando em jeito de nota ou de opúsculo académico a história de Nils Runeberg, um teólogo sueco fictício, que, no livro Kristus och Judas, seguindo Thomas De Quincey, sustenta que Judas entrega Cristo para O obrigar a assumir a Sua divindade, instigando uma revolta nacional judaica contra Roma.

Há muitas outras explicações para a traição de Judas, assistidas por razões racionais ou até éticas. Eu, que cresci nos primeiros anos cinquenta, nos tempos pré-conciliares de Pio XII, aprendi que só havia uma pessoa que, garantidamente, estaria no Inferno: Judas Iscariotes. Mas, disse-nos Bento XVI, parece que nem isso é certo; que “no Seu misterioso projecto de salvação”, Deus assumia “o gesto indesculpável de Judas como ocasião do dom total do Filho pela salvação do mundo”, e, quem sabe, na Sua infinita misericórdia, não tivesse até perdoado o discípulo traidor, que devolveu os 30 dinheiros antes de, no desespero, se suicidar.

CRISTIANISMO         RELIGIÃO        SOCIEDADE 22

 COMENTÁRIOS (de 22)

António Rocha: Excelente, obrigado

Domingas Coutinho: Este maravilhoso texto leva-nos a refletir primeiro sobre as parábolas de Jesus cheias de enigmas que até os padres sempre demoncstram dificuldade em explicar e depois sobre a atitude controversa de Pilatos e a traição de Judas que afinal pode ter sido digno de misericórdia divina. É bom que de vez em quando alguém aborde estes temas e Jaime Nogueira Pinto já nos habituou a assuntos diferentes que gosto sempre de ler. Obrigada.

Maria Nunes: JNP, obrigada por este brilhante artigo. 

Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!

 Seknevasse: Caramba, excelente reflexão. Gostei muito, ainda há católicos com méritos!! Também gostava de ler alguma coisa escrita pelo prof, sobre Pedro Sanchez, o actual lider progressista de cariz mundial... Fica  a sugestão.