quarta-feira, 30 de novembro de 2022

«Mudam-se os tempos


Mudam-se as vontades», pois claro. Contra a força da passividade e da negligência há aceitação, não resistência, salvando-se por vezes uma ou outra “mulher de armas”, como MARIA JOÃO AVILLEZ, apta também na explanação das suas verdades…

Dr. Soares não lhes perdoe porque eles sabem o que fazem

“Fracturante” o 25 de Novembro? Inventou-se outra história. Mas não há outra história. Há a que houve. Eu estive lá. Vi tudo, escrevi sobre tudo, lembro-me de tudo.

MARIA JOÃO AVILLEZ

OBSERVADOR, 30 nov 2022, 00:22

1Há dias estive num debate na Biblioteca Municipal Verney, em Oeiras, por ela promovido – e também difundido on line – a debater o 25 de Novembro. “Os ânimos estão exaltados” afirmava sorrindo alguém da casa, ao olhar o écran do computador, antes do início da sessão.

Na sala não se exaltaram, pelo contrário, foi uma interessante, fundamentada, fluida, conversa; no país, sim, há ânimos exaltadíssimos. Legitimando essa exaltação com falsidades históricas – tão longe da realidade que a própria História terá muita dificuldade em contemplá-las. Quem havia de dizer que quase cinquenta anos depois, num salto (mortal?) enviesadíssimo e pouco sério, as esquerdas se iriam apoderar politicamente de Abril de 74, para lhe capturar o exclusivo da data e da glória? Evoco toda a esquerda naturalmente, com o PS de António Costa a caucionar hoje o inimaginável apagamento do próprio fundador da democracia portuguesa (e do PS…): exit Mário Soares. Como é possível? Não fora ele e toda de gente que se lhe juntou nesse tal 25 de Novembro hoje tão exaltadamente proscrito e não havia 25 de Abril, entendido no seu propósito inicial. (De resto também não há Spínola, como se o seu livro “Portugal e o Futuro” não tivesse tido uma importância fulcral no próprio 25 de Abril!).

A caminhada até Novembro – a bem dizer até 24 de Novembro – assustou, demorou, doeu, custou. Mas sem essas estações, nunca teria havido o parto da Democracia, nem o selo de autenticidade desse “valeu a pena”, que agora esvoaça por aí…ao contrário: foi cancelado. Com um pretexto batoteiro: a transformação da data de 25 de Novembro de 75 num combate da direita contra esquerda, (ah Dr. Soares olhe que sim, eles sabem o que fazem).

2Inventou-se assim virulentamente outra história. Mas não há outra história. Há a que houve. Estive lá, vi tudo, testemunhei, anotei, escrevi. Não esqueci nada: o que vivi foi o longo, sobressaltado e duríssimo combate do país liderado pelo PS com Mário Soares à frente, contra uma alucinante e alucinada minoria de divididos revolucionários, comunistas e extremistas. Desordenadamente ocupados em desviar o curso das águas postas a correr em Abril em 74, como se desvia o curso de um rio. De um lado a legitimidade democrática já certificada pelo voto por milhões de portugueses. Lembremos a propósito: mais de noventa por cento dos portugueses tinham livremente escolhido ir às urnas nesse Abril de 75. Cifra absolutamente extraordinária e obviamente irrepetível com a qual milhões de votantes julgavam ter trancado de vez as portas da revolução. Minuto a minuto porém ela subia de tom e de grau: nacionalizações, prisões sem culpa formada de centenas de pessoas; o parlamento cercado; um governo em greve; os “SUV” (“soldados unidos venceremos”) à solta, o “poder popular”, as betoneiras da “cintura industrial”; o Copcon, a FUR, as “manifs”, “as armas em boas mãos”, os “plenários”, a “vigilância revolucionária”, a ameaça da “comuna de Lisboa”, a guerra de ameaçadores comunicados&documentos assinados ora por militares comunistas, ora da extrema-esquerda. E last but not least, Soares a chamar Sá Carneiro e Freitas do Amaral para o acompanharem com armas e bagagens partidárias numa operação política de “mudança” para o Porto. Onde por sinal havia um indivíduo militar chamado Corvacho que num quartel que lhe estava confiado, se entretinha com execuções sumárias “a brincar”. (Nesse mesmo Porto onde há dias o seu presidente da Câmara, Rui Moreira, fez uma intervenção na “Festa da Liberdade”. Porventura menos como autarca da cidade e mais como filho que viu o seu pai ser preso sem culpa formada e mantido incomunicável por longos dias de arbítrio revolucionário. Coisas que não suportam a conveniência da revisão histórica em curso.)

3Chamar hoje a isto um combate da direita contra a esquerda é uma manipulação indecente, um insulto aos portugueses, uma traição à memória. E claro, uma extraordinária menorização do papel de Mário Soares nesta caminhada (como irão sair dessa?).

Soares não estava sozinho. Nem poderia. Há muito que a linha “justa” do MFA liderada por Melo Antunes e conhecida pelo Grupo dos Nove, vinha amparando e legitimando as “tropas” civis do então líder do PS. O exercício foi laborioso (o general Tomé Pinto recordou-o com a viçosa memória dos seus oitenta e seis anos, no final do debate de Oeiras): havia que tecer a unidade e lograr a total sintonia das cúpulas militares moderadas com as chefias partidárias: nenhuma delas faria nada sem a outra. Foi assim que após ter conspirado com ingleses, americanos, alemães; diplomatas, eclesiásticos de vários graus, socialistas, social-democratas, centristas e povo em geral, Soares arrancou para a Fonte Luminosa, com Portugal atrás. Não era qualquer um que o faria. O país pôs-se em sentido atrás dele. Era imprescindível responder àquela chamada.

O cancelamento do 25 de Novembro não é de hoje – não consta por exemplo dos manuais de história que se ensinam na escola pública. Foi semeado, depois vibrantemente adubado e agora é oficial. Tornou-se oficial: “é uma data fracturante” disse há meses Pedro Adão e Silva ainda só cidadão multicomentador, quando então se iniciava no exercício dascomemorações do cinquentenário de Abril de 74. Depois foi de supetão ocupar-se “da” Cultura – mas a frase ficou desfraldada ao vento do tempo: o 25 de Novembro foi “fracturante”. (Ah bom? E o 25 de Abril? Haverá data, dias, horas, mais fracturantes?)

E assim estamos. O 25 de Novembro não passará: é reacionário. Oportunisticamente manipulada a data, em vez de nacional, é reaccionária. Eles que me venham dizer isso a mim.

4Ah Dr. Soares não lhes perdoe porque eles sabem o que fazem.

25 DE NOVEMBRO   PAÍS

Saber viver

 

É fundamental. Tolos os que caem na esparrela dos discursos do bem-fazer por conta de outrem. Mas o “Avante” e as suas festas provam a harmonia que ali reina e promete continuar, o capitalismo só atacado, pelos chefes, nos que o praticam a descoberto. Joracy Camargo e o seu “Deus lhe pague” da mendicidade humilde e sabedora, fundamental noutros casos, não neste, de jogo, plutôt, atacante do cinismo alheio, no discurso virtuoso por conta própria. Contradições na matéria dos cinismos, mas ainda há mais, se bem pesquisarmos. Mas um autêntico achado esta pesquisa de JOSÉ DIOGO QUINTELA.

Das Kapital, sempre! Descapitalizar, nunca!

O PCP é tão bem gerido que tinha lugar num daqueles índices bolsistas. Podia perfeitamente ser a empresa estrela do PSICOPATA-20.

JOSÉ DIOGO QUINTELA Colunista do Observador

OBSERVADOR, 29 nov 2022, 00:2014

Estive a fazer contas e reparei que há quase 6 meses que não me alivio aqui de um pouco de anti-comunismo primário. É imenso tempo. De vez em quando, convém vazar o caixote de anti-comunismo, não vá o mais antigo começar a encrustar-se nas paredes. Depois só sai com aguarrás. Confesso que não percebo esta minha preguiça em fazer pouco de comunistas. É capaz de ser fastio. Há demasiadas razões para ser anti-comunista e eu pareço uma criança no corredor de bolachas de um supermercado (num país não comunista, claro). É tramado escolher. Por exemplo, como estamos em Novembro, posso recordar algumas façanhas do comunismo que se comemoram neste mês, como a Revolução Russa (um sucesso!), o Holodomor (idem!) ou o 25 de Novembro (não correu tão bem na altura, mas agora diz que évintage). Além dessas efemérides, há a recente nomeação de Paulo Raimundo para vencedor das eleições para Secretário-Geral, a que se juntou a polémica em torno da sua biografia e do uso do termo “operário” para descrever um “burocrata” – o que, francamente, só escandalizou quem ainda não tinha percebido que o PCP também usa “operação” para “guerra” e “democracia” para “Coreia do Norte”.

No frenesim mediático a que Paulo Raimundo teve de se submeter para passar de “aquele desconhecido careca que é o novo boneco de ventríloquo da Comissão Política do Comité Central” para “aquele careca chamado Paulo que é o novo boneco de ventríloquo da Comissão Política do Comité Central”, destacou-se esta afirmação, no podcast Perguntar não ofende: “Não temos qualquer país capitalista no mundo, desde o mais pequeno ao maior, que tenha tido o objectivo concretizado de acabar com a fome. É um facto. A China, independentemente da forma como olhamos para ela, este objectivo foi traçado e foi concretizado”. Foi uma declaração que mostrou as dificuldades que Paulo Raimundo, com pouca experiência em lidar com a comunicação social, ainda tem em fazer-se entender. Houve quem achasse que Paulo Raimundo tinha dito que não havia fome na China, o que é uma crítica injusta, pois nem o mais aldrabão dos comunistas seria capaz de tentar impingir essa peta. Obviamente, o que Paulo Raimundo pretendia dizer era que a China acabou com a fome, no sentido em que já não a utiliza como ferramenta política. Essa já é uma declaração aceitável. De facto, há algum tempo que o PCC não mata de fome propositadamente. Até porque agora dispõe de outros meios mais discretos. No, fundo, a China não acabou com a fome. Deixou foi de causar a fome. Paulo Raimundo vai aprender a navegar estas subtilezas semânticas que são a base da comunicação do marxismo-leninismo.

Porém, se tiver de eleger um predilecto, não é nenhum destes temas que hoje anima o meu anti-comunismo primário. É antes esta notícia do Expresso, de dia 18:“Cortes de pessoal ajudam finanças do PCP”.

Trata-se de uma notícia tão favorável para o PCP, que podia perfeitamente estar no caderno de Economia. Começa logo pelo título. “Cortes de pessoal ajudam finanças do PCP” é jargão financeiro para o habitual estribilho “o capital expropria o trabalho”. Só que, desta vez, apresentado como aspecto positivo. Depois, logo a abrir, somos informados que “o PCP gastou, no ano passado, €2,6 milhões para pagar os salários dos seus funcionários, o que representa uma quebra de 17% face ao ano anterior”. Ou seja, o PCP está a despedir gente. Por outro lado, “(…) foi também graças a esta redução que as contas do PCP apresentaram, em 2021, um recorde estatístico e um saldo positivo de €1,6 milhões”. Ou seja, o PCP está a despedir gente e isso é muito bem jogado. Incrível. Está explicado porque é que o patronato nunca votaria nos comunistas para liderarem o país: os patrões querem os comunistas livres de incumbências, para os poderem contratar para as suas empresas. Uma companhia gerida pelo camarada responsável pelas contas do PCP não só dá lucro, como não tem contestação laboral.

O máximo que se ouviu a um funcionário do PCP foi, curiosamente, ao próprio Paulo Raimundo, na RTP, a lamentar o que o aumento da prestação da casa vai fazer ao seu orçamento doméstico. Recorde-se que o salário de um colaborador do PCP anda à volta dos 750 euros líquidos. Quer dizer, na realidade é um pouco menos. Segundo o Expresso, “Este ano, o partido vai mais longe e propõe, «com a mesma audácia e confiança», que os militantes entreguem «um dia de salário ao partido», a somar à quota habitual que já pagam (e que tem como referência 1% do ordenado), mais a contribuição sindical (com o mesmo valor de referência) e a obrigatória assinatura do «Avante!», que custa €64 por ano ou €65 para quem preferir a versão digital.” Ora, se um dia de salário são 34 euros (750 euros a dividir por 22 dias úteis), 1% do ordenado são 7,5 euros e a assinatura do Avante! vale 5 euros por mês, tudo somado dá 46,5 euros. Logo, na realidade, um funcionário do PCP, responsável por andar a entregar panfletos a exigir o aumento do salário mínimo para o valor digno de 850 euros, acaba por receber uns indignos 703,5 euros. Conseguir que um funcionário funcione assim é uma medida de gestão que tem de ser ensinada num daqueles MBA caros na Nova School of Business and Economics and Stuff. O CFO do PCP devia andar a fazer palestras sobre liderança motivacional. Se pensar no dízimo que pode sacar dos cachês, de certeza que o Partido não se opõe.

A mestria da gestão comunista também se vê nestes indicadores económicos: embora a redução da despesa com funcionários entre 2005 (primeiro ano da liderança de Jerónimo) e 2021 tenha sido de 41% (de 4,5 para 2,6 milhões de euros), a redução do património global do PCP no mesmo período foi de apenas 19% (de 23,3 para 18,7 milhões de euros – atenção, que estes valores são aquelas ninharias que aparecem na factura do IMI, nem sequer são os valores que se obtêm no mercado. Na realidade, estes 18 milhões devem ser alguns 180 milhões que o PCP tem em prédios). O que quer dizer que, sem levantar ondas, o PCP foi mandando malta para a rua em vez de descapitalizar um bocadinho só para preservar postos de trabalho. Aqui se vê o génio dos comunistas. Mantêm a fortuna ao mesmo tempo que correm com empregados – que, ainda por cima, são famosos por serem particularmente contestatários. Por exemplo, bastava o PCP vender um imóvel por 750 mil euros (valor patrimonial de 100 mil euros), ainda ficava com muitos milhões, e só essa operação dava para pagar a 71 funcionários durante um ano. Era muito giro, mas o que é que o Partido ganhava com isso? Assim, consegue fazer o mesmo trabalho com menos gente e, ao mesmo tempo, aumenta o número de desempregados para poder atirar à cara do Governo. É juntar o útil ao agradável.

O PCP é tão bem gerido que, se quisesse, tinha lugar num daqueles índices bolsistas, tipo NASDAQ-100 ou S&P-500. Podia perfeitamente ser a empresa estrela do PSICOPATA-20.

PCP  POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 14):

Fernando Cascais: A brincar, a brincar, o macaco não sei o quê, não sei que mais. Assim está o caríssimo José Diogo Quintela com o PCP. A brincar a brincar mas com verdades claríssimas como a urina de quem bebe 4 litros de água por dia. Faltou esmiuçar a política dos IMI’s, que por alguma razão é apenas entendida pelos deputados da AR, que a isentaram de pagamento pelos partidos políticos. A ideia inicial - digo eu - seria permitir a sobrevivência existencial e económica dos partidos políticos, e, assim, não serem corridos da sua própria sede pela AT por não pagarem a tributação autarca, o que seria algo devastador para a sua imagem. O PCP, no seu papel de empresário de charuto cubano nas beiças, fato cinzento às riscas com colete e respectiva corrente para o relógio de bolso, viu aqui uma oportunidade de oiro para construir património. Com a ajuda do dízimo e subvenções do estado foi adquirindo património, e hoje, não se fica atrás em património imobiliário de nenhum dos nossos capitalistas de primeira linha. Agora a sério 1: que os partidos estejam isentos de pagar IMI das suas sedes principais é uma coisa, agora que aproveitem a medida para fazer negócio é outra ao estilo das peculiares subvenções vitalícias. Agora a sério 2: mais uma crónica excelente do Diogo Quintela, como já é habitual.                   Luis Freitas O PCP não passa de um partido político imensamente pior que os partidos fascistas pois é um partido político nazi-estalinista que defende ditaduras sanguinárias , em relação aos trabalhadores portugueses o PCP é um excelente exemplo de como escraviza os seus funcionários com salários de miséria e ainda lhes saca 1% do salário para pagar as quotas de filiação no partido. É do mais ordinário e hipocrisia que há,  ver o PCP a dizer que defende os trabalhadores portugueses do pratonato.:                     João Floriano: Excelente! «Assim se vê a força do PC» uma palavra de ordem muito gritada ao descer a avenida, pode ser substituída por «Assim se vê a hipocrisia do PC». Mas já o Bloco tinha feito ou anda a fazer algo parecido. A esquerda é impagável, mas há gente que ainda vai na conversa.

 

terça-feira, 29 de novembro de 2022

A bola de neve

 

Inútil mais esta achega, mas fica-nos sempre o prazer de sentir que, no meio do desconforto de uma progressiva “moralidade” que no fundo tem a ver com a perda de valores e de respeito para com o que nos ficou de construção pátria passada, disfarçada no presente em apego, apenas na altura dos jogos inter pares, que jogadores das mais diversas origens fingem estimar por alturas do hino nacional – fica-nos o prazer de ler textos que denotam a boa formação, não necessariamente religiosa, mas decididamente apoiada numa formação moral que nos encanta, antes que chegue a nossa vez de decidir sobre a nossa escolha de partida. Bem-haja, pois, às corajosas “Raquel Abecasis” destes tempos de tanta parcialidade clamorosa na “virtude”, e de arrogância e inapetência no estudo sério, que escondem uma real imoralidade imponente e pomposa, neste país sem direito a isso, por ausência de maturidade intelectual que se preze.

EUTANÁSIA: sabemos como começa, nunca   como acaba

Queiramos ou não, abrir a porta à Eutanásia conduz-nos inevitavelmente à tentação de valorizar alguns, descartando outros.

RAQUEL ABECASIS Jornalista e ex-candidata independente pelo CDS nas eleições autárquicas e legislativas

OBSERVADOR, 29 nov 2022, 00:17

Há coisas na vida que a vida desconhece. E a primeira delas é a origem da vida, o seu curso e o seu fim. É por isso que entendo que decidir sobre a nossa vida ou a vida dos outros é algo que nos deve estar vedado. Decidir sobre o que nos foi dado de mais precioso e que em grande parte desconhecemos é, no mínimo, brincar com o fogo.

Numa época em que discutimos a sustentabilidade e o destino do planeta. Em que nos preocupamos com direitos humanos e inclusão, defendendo que todos devemos ser respeitados tal como somos, porque todas as vidas podem e devem ser respeitadas, é anacrónico avançarmos para legislar sobre um suposto direito que não nos pertence: o direito de dar ou tirar a vida, o direito de decidir sobre a utilidade do tempo de vida que, insisto, não depende da nossa decisão, mas de factores que não controlamos.

Portugal é um país pobre e desigual. Cada vez mais pobre e cada vez mais desigual. Todos os dias nos chegam indicadores de como estamos mais dependentes de ajudas externas e mais incapazes de dar resposta aos nossos problemas. Dos mais básicos (como o acesso à saúde), aos mais complexos (como criar condições para que este país se desenvolva economicamente). É num país assim, com quarenta por cento da população em situação de pobreza, que nos preparamos para abrir uma porta enganadora. Em que a antecipação do final da vida pode facilmente surgir como a solução mais fácil para os próprios ou para terceiros.

Bem sei que a lei da Eutanásia que se prepara para ser aprovada no Parlamento é uma lei supostamente cautelosa e restritiva. Mas também sei, e é fácil comprovar (basta estudar os exemplos onde esta lei está em vigor, como a Bélgica ou a Holanda), que o que começa com pequenos passos, rapidamente evolui para outros caminhos. Até porque haverá sempre outros grupos, que não serão abrangidos por esta primeira versão da lei, que exigirão os seus direitos mais tarde ou mais cedo.

A Eutanásia está para uma sociedade, como a utilização de armas atómicas está para o mundo: sabemos como começa, desconhecemos por completo como termina. Sabemos apenas que termina mal, muito mal, sem que haja uma previsão de quem se salva e como se salva.

Tenho fé e a certeza de que a vida é sagrada, seja em que estádio for do seu desenvolvimento. Mas acho que não é preciso ter fé para reconhecer que a vida não é um bem que esteja ao nosso dispor, por isso mesmo o direito à vida é um direito protegido constitucionalmente nos quatro cantos do mundo.

Esta semana, os defensores das grandes causas modernas da actualidade, em nome dos direitos humanos, vão aprovar uma lei que põe em causa o principal direito humano consagrado internacionalmente: o direito à vida. Entendo que na fúria de garantirem todos os direitos e todas as liberdades, os promotores desta lei estejam convencidos que estão a dar mais um passo em direção a uma sociedade de progresso. Tenho pena que a sua sede progressista os impeça de estudar a sério o que se está a passar nos países, raros, em que esta lei está em vigor. Se o fizessem perceberiam rapidamente que esta lei é inibidora da liberdade de muitos e contribui para uma sociedade em que a vida é cada vez mais avaliada pela sua utilidade aparente, deixando de fora todos os que não encaixam nesse cliché. Queiramos ou não, abrir a porta à Eutanásia conduz-nos inevitavelmente à tentação de valorizar alguns, descartando outros.

PS: A revolta dos papéis brancos que por estes dias se desenvolve na China prova como, por mais elaborados que sejam os sistemas políticos, não é possível controlar o homem e a sua liberdade. Na mesma altura em que Xi Jinping se autoconsagra líder eterno dos chineses, contra todas as expetativas e arriscando a própria vida, milhares de chineses fazem ouvir a sua revolta contra um sistema que os quer controlados e fechados em casa.

Não sei o que será o desfecho desta revolta. Talvez acabe com acontecimentos trágicos como os da praça Tiananmen em 1989. Mas o que os protestos do povo chinês nos dizem é que a liberdade humana é um valor pelo qual o homem está disponível a dar a vida. Do outro lado estão os que preferem tirar a vida para manter o poder.

EUTANÁSIA  SAÚDE  DIREITOS HUMANOS  SOCIEDADE

COMENTÁRIOS:

Fernando Cascais: Direitos: direito à vida, direito à morte. Por que raio é que se deve proibir o direito à morte? Porque, durante centenas de anos, a nossa sociedade foi gerida de acordo com o livro sagrado da Bíblia, de onde saiu, que o suicídio era condenável pelas leis de Deus. Daí, que Marcelo, católico convicto, se opõe à Lei da Eutanásia, e tudo fará para que esta não seja aprovada, incluindo mandar abaixo o governo. A Lei da Eutanásia a ser aprovada durante o mandato de Marcelo, seria a mesma coisa que Marcelo descer aos infernos para discutir bola com o Diabo ou ser corrido do Vaticano à biqueirada quando lá fosse visitar Francisco, o Papa. Agora a sério 1: a Lei da Eutanásia não vai passar, nem o PS a vai levar a plenário para não provocar Marcelo. Agora a sério 2: as manifestações na China também não vão passar, mas, o regime tem um difícil dilema. Se acabarem com as restrições o regime perdeu para os manifestantes. Se agrava as restrições para mostrar a força do poder, o povo pode escolher a eutanásia e as manifestações entrarem numa nova dimensão com o exército a descer às ruas para matar o povo.