terça-feira, 27 de outubro de 2026

Histórias passadas


Presentes também.

Conde de Gobineau: o homem que inventou o racismo

O francês Arthur de Gobineau, nascido há 210 anos, é o autor de “Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas”, a obra que lançou as bases para a hierarquização das raças e inventou o mito ariano

João Miguel Tavares:  Texto

Rui Ramos: Texto

27 out. 2026, 06:04

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(Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões).

E o resto é história. É a pera esburrada. Do Vicente e Toalha, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Ao longo dos anos, nós temos recebido algumas questões a propósito do racismo, como por exemplo, a do ouvinte Gonçalo Saraiva Mendes, que nos pediu para falar da história do racismo e da origem do fenómeno. Ora, dá-se o caso de este ano passarem 210 anos do nascimento, a 14 de julho de 1816, do francês Arthur de Gobineau, mais conhecido como Conde de Gobineau, autor de "Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas", que começou a ser publicado em 1853. E esta foi a obra que inventou o mitariano e defendeu a divisão da humanidade em raças devidamente hierarquizadas. A teoria racial de Gobineau argumentava que uma suposta decadência civilizacional se devia à miscigenação de raças, em que as raças inferiores se misturavam com as raças superiores, o que conduzia a que a raça branca perdesse a sua, e isto é uma citação, vitalidade. Esta teoria não tendo nada de científico, era apresentada no século XIX como ciência e viria a servir de base para a emergência de movimentos supremacistas e antissemitas, inspirando também a própria ideologia nazi. É por tudo isso que o Conde de Gobineau é considerado o pai do racismo. Rui, certamente que já existiam preconceitos raciais antes de ser publicado este ensaio sobre a desigualdade das raças humanas. Porquê o Conde de Gobineau é diferente dos racistas que o precederam?

Ou não é, mas vamos ver. Vamos primeiro ver quem é que era o Conde de Gobineau e o que ele disse. O Arthur de Gobineau foi um diplomata francês. Ele serviu em embaixadas francesas em variadíssimos países. Esteve na Suécia, esteve na Grécia, esteve no Brasil, esteve no Irão, isto tudo nas décadas de 1850, 1860, 1870. Ele era de uma família da antiga nobreza, e daí o título de Conde, mas a família era também uma família legitimista, como se dizia em França no século XIX, isto é, fiel à dinastia dos Bourbons, dos reis de França até Luís XVI e depois da Restauração, Luís XVIII e Carlos X, e, portanto, uma família que via os regimes políticos em França depois de 1830, isto é, depois dos Bourbons terem sido afastados da chefia do Estado, como ilegítimos. Mas isso não impediu Gobineau de fazer carreira na diplomacia desses vários regimes, a começar pela Segunda República, de 1848, em grande medida graças ao seu amigo Alexis de Tocqueville, que era ministro de Negócios Estrangeiros e que o nomeou pra vários cargos. E depois também serviu, como diplomata, o Segundo Império de Napoleão III, a partir de 1852. Até lhe agradou mais, era uma autocracia imperial, portanto, agradou-lhe mais, mas depois também continuou ao serviço da Terceira República Francesa a partir de 1870. Isto é, com essas opiniões, ele apesar de tudo, esteve a serviço destes três regimes. Mas era diplomata, e aparentemente o serviço diplomático deixava-lhe bastante tempo livre, sendo autor também de muitos livros. Autor de contos, é autor de novelas, de livros de viagens, obviamente associados às suas viagens diplomáticas. E agora, depois, o que mais nos vai interessar, também de obras de erudição nos domínios da filologia e da antropologia. Antropologia não tinha exactamente no século XIX o sentido que tem hoje. Antropologia remetia para uma espécie de história natural do homem. Também era antropologia de cultura, de costumes, mas era também muito antropologia física, digamos assim.

E foi por isso que ele ficou famoso e não pelo seu talento como romancista.

Na altura, ele é muito mais famoso pelo talento como homem de letras, como autor de contos e de novelas. Mas o tempo depois associou-lhe uma obra que ele escreveu na Suíça, em Berna, quando estava na alegação francesa, chamado "Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas." Ele escreve entre 1849 e 1854, começa a publicar em 1853, tem quatro volumes, tem 1600 páginas.

Tinha mesmo muito tempo.

Não é um pequeno volume. Tu já referiste as teses, mas vou só lembrar as teses principais muito esquematicamente e depois até chamar a atenção para que o livro, até pelo seu tamanho, é muito mais complexo do que essas teses que geralmente nós temos presentes. Gobineau começa por distinguir grupos humanos, a que ele chama raças, na humanidade, portanto, a dividir a humanidade a partir de características físicas, cor da pele, mas também mistura com geografia e depois o nível de civilização, portanto os critérios não são extraordinariamente coerentes. Mas ele estabelece três grandes grupos, os europeus, os brancos, os asiáticos, os amarelos e os africanos, os negros. Portanto, esses três grandes grupos.

Eu acho que tu vais explicar isso mais à frente, mas só pra adiantar aqui, a ideia de raça, tu explicas mais à frente. Mas essa não foi inventada pelo Gobineau, não é?

Não, isto não é nada. Quer dizer, ele faz isso.

É só porque como estamos a falar que é o pai do racismo, só para deixar explícito.

Nada disto é original. Até agora não tem originalidade nenhuma, isso era o que toda gente dizia O que muita gente dizia. Gobineau admite que todos estes grupos humanos descendem dos mesmos antepassados, portanto, não perfilha a tese de alguns autores do seu tempo que acham que as raças tinham sido criadas já separadamente, isto é, que não tinham nada a ver uns com os outros. Ele acha que não, descendem todos de uma origem comum, mas que se distingue por haver grupos que continuaram a desenvolver-se e outros não, outros estacionaram. Ou uns desenvolveram características que ele acha mais nobres, mais interessantes, e outros que desenvolveram características que ele considera menos nobres, menos interessantes. Há uma valorização moral desta desigualdade que ele vê entre as raças. Os europeus teriam continuado a desenvolver a sua civilização. A civilização moderna deve-se aos europeus, segundo Gobineau, e os asiáticos e os africanos, não. Aliás, Gobineau para afirmar que as diferenças não se devem a outros factores que não aquilo que nós hoje diríamos as origens genéticas, isto é, a raça propriamente dita, ele nega ou desvaloriza a influência do meio ambiente, que no século XVIII tinha sido um factor bastante utilizado para explicar as diferenças de civilização, as diferenças não apenas em termos hierárquicos, mas em termos de características diferentes. Ele acha que o ambiente não tem grande influência, é mesmo a raça. Mas mesmo entre os europeus, ele distingue raças. Já se está a perceber que isto é uma coisa mais complicada. Raças com uns com desenvolvimento superior aos outros e identifica as raças germânicas como as mais nobres e chama-lhes arianos. Arianos era um termo que se estava tornando comum entre os filólogos da época, que tinham estudado os textos da Índia escritos em sânscrito. Já falámos aqui, ariano era a palavra que designava na antiga Índia aqueles que precisamente falavam sânscrito e que seguiam a tradição dos Vedas e que os eruditos alemães e ingleses desta altura estavam a traduzir ariano por nobre, é a nobreza. Gobineau identifica os alemães, os germânicos, como os nobres na Europa, os mais nobres.

O que está a dizer é que Gobineau era um homem modesto então, porque ele não era ariano, não é?

Não, ele depois escreve em um terceiro volume.

Pensava que ele era francês.

Ele escreve a dizer que vem do Norte. Não, ele acautelou.

Ele modestamente colocava-se fora.

Não, ele tem algumas dúvidas, como já vamos falar.

Muito bem.

Gobineau, apesar de atribuir a grandeza da civilização a esta raça ariana, argumenta que todas as raças têm características que são valiosas. Por exemplo, mesmo aquela raça que ele mais desvaloriza, que são os negros, os africanos subsaarianos, ele atribui-lhes qualidades artísticas. Ele acha que são aqueles que têm mais qualidades artísticas. E atribui-lhes mesmo a origem da arte. A arte viria deles. Ele atribui características diferentes e depois também diz que está a falar dos grupos e não está a dizer que não há indivíduos talentosos em todos os grupos. Ele diz que há indivíduos talentosos e até em um grupo pode haver indivíduos mais talentosos que a média de um outro grupo que ele considera superior. Por exemplo, ele diz que os chefes das tribos africanas são naturalmente gente muito mais inteligente do que os trabalhadores brancos europeus. São gente muito superior aos trabalhadores brancos europeus. Há uma aristocracia mesmo entre um grupo que ele considera inferior. E depois a outra tese principal dele, que é a tese da obra das 1600 páginas, é que estas raças estão todas a caminhar para a igualdade, para a unidade.

Porque se misturam.

Porque estão se misturando e ele não considera que isso é uma coisa boa. Porquê? Porque está a fazer todas as raças na mistura a perder as suas características.

A tal vitalidade.

E os negros estão a perder as suas características, os amarelos estão a perder as suas características e os brancos também estão a perder as suas características, o que é mais grave, segundo Gobineau, porque os brancos são o principal factor da civilização no mundo. Ele, por exemplo, quando está no Brasil, é onde ele encontra, dos países que visita, a maior miscigenação. Acha que no Brasil praticamente toda gente se mistura com toda gente e diz: "Isto é terrível, é um país que daqui a 200 anos não vai existir. Isto vai perder tanta vitalidade que daqui a 200 anos..."

Não é que esteja espectacular, mas podemos dizer que aí ele se enganou, não é?

Digamos que é uma das profecias dele que a história não parece ir confirmar. A partir daqui, Gobineau chega a posições que podem parecer contraditórias, mas que fazem sentido. Por exemplo, ele é extraordinariamente hostil à escravidão.

É?

Opõe-se imenso à escravidão. No Brasil, quando ele está entre 1869 e 1870, faz pressão junto a Dom Pedro II, o imperador do Brasil, a favor da abolição da escravidão. Mas porquê?

Então qual era a tese?

É porque a escravidão leva à mestiçagem. Porque os senhores de escravos geralmente tendiam a dormir com as escravas.

É um facto.

Era uma preocupação dele. E era também uma preocupação pessoal. É que a mãe dele era do Haiti, tinha vindo do Haiti.

A mãe do próprio Gobineau.

A própria do Gobineau. E a mulher com quem ele casou vinha da Martinique. E ele teve sempre suspeitas sobre sua própria pureza, embora depois tenha escrito um livro a dizer que é nórdico, aparentemente ele teve alguma angústia sobre as suas verdadeiras origens. Isto é, ele pensa que talvez ele também fosse um mestiço. Parte da decadência da essência.

E os seus próprios filhos, imagino eu.

Claro, e suas filhas. As filhas ainda mais, porque se a mãe deles já era, mas a mulher dele também já era, então ainda era pior. Segundo, ele não é eurocêntrico, ele não é a favor dos europeus.

Como não?

Ele não afirma a supremacia europeia. Porquê? Porque ele vive no Irão entre 1855 e 1858, mais uma vez ao serviço da diplomacia francesa, e depois outra vez na década de 1860, entre 1861 e 64. E no Irão, o que acontece? Encontra mais uma vez uma população miscigenada, portanto, que ele despreza imenso, os arianos actuais, mas encontra o Irão antigo, os restos arqueológicos, as tradições do Irão antigo. E ele considera o Irão antigo, o Irão dos Aqueménidas, do século VI antes de Cristo, como a maior civilização que alguma vez existiu na história da humanidade. É a grande civilização para ele, e ele acha que a Europa é apenas o resultado de uma migração iraniana. Aliás, planeada, segundo ele, por Ciro, o Grande, o xá do século VI antes de Cristo, que ele considera uma espécie de pai da Europa, portanto, foi ele que criou a Europa, Ciro, o Grande. Gobineau vai escrever uma história dos persas, em 1869, que ele considera que é a continuação do ensaio sobre a desigualdade das raças humanas e que ele diz que o Irão é o vértice, é o topo da civilização, é a grande civilização, este Irão dos Aqueménidas.

Portanto, seriam eles que estavam na base dos germanos que se sobrepuseram aos arianos.

E dos arianos, porque ele acha que os arianos vêm do Irão, que o Irão quer dizer a terra dos arianos. É a origem desta raça ariana e que está nos Aqueménidas, no império aqueménida iraniano, que pra ele é supremo. A Europa já é uma espécie de um transplante iraniano.

Isto é um pai do racismo muito sofisticado.

É muito complexo, é um literato. Agora, para percebermos onde é que ele quer chegar, acho que vale a pena perceber a época em que ele está a escrever. Isto é, fim dos anos 40, princípio dos anos 50 do século XIX. O que é esta época? Esta época é marcada pelas revoluções de 1848. Aliás, ele na dedicatória aos ensaios, diz que o objectivo dos ensaios é perceber, diz ele, as causas ocultas das revoluções, das guerras e das desordens actuais. Portanto, ele quer dar uma explicação do que se está a passar na Europa.

Uma época muito turbulenta.

(CONTINUA)

domingo, 25 de outubro de 2026

CONTINUAÇÃO

 

Do TEXTO “HISTÓRIAS DA BÍBLIA”

Texto de P. João Basto, João Francisco Gomes e Rádio Observador

25 out. 2026, 06:03

Olá a todos. Antes de avançar para esta história destes três irmãos, quero, como sempre, aproveitar para lembrar os nossos ouvintes que nos podem escrever para as historiasdabiblia@observador.pt. A nossa caixa de e-mail está sempre à disposição para perguntas, sugestões, comentários, e nós procuramos responder às perguntas dos nossos ouvintes num episódio especial todas as quintas-feiras, exclusivamente em podcast. Por isso, não se esqueça de seguir o programa na plataforma em que nos está a ouvir para não perder nenhum episódio. E na próxima quinta-feira vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada por um ouvinte que quer saber por que a morte de Jesus era, afinal, necessária para a salvação. Vai ser muito interessante, fica para a próxima quinta-feira. Entretanto, continuamos com esta nossa terceira temporada, em que estamos a fazer mais 11 episódios dedicados a algumas das personagens mais emblemáticas da Bíblia. E esta semana vamos falar sobre estes três irmãos: Lázaro, Marta e Maria. São três personagens, sobretudo do Evangelho de João. Também há, obviamente, pistas sobre elas nos outros três Evangelhos. Algumas delas até meio que acrescentam mais confusão à história, mas já lá vamos.

Antes disso, vamos começar pelo Evangelho de João. O texto apresenta-nos este homem, Lázaro de Betânia, um homem que está muito doente, está às portas da morte, e as irmãs dele, Marta e Maria, mandam chamar Jesus. Basicamente, Jesus era a única esperança delas, era um homem que já tinha andado a fazer milagres por todo lado e, portanto, como era muito amigo da família, elas tinham esperança que ele pudesse salvar o irmão. Ora bem, Jesus recebe a informação, pondera ir até Betânia para os ajudar. Os discípulos ainda o avisam que pode ser perigoso, porque já há uma conspiração de judeus que estão furiosos com Jesus, mas ele decide que há de ir na mesma. Só que, Daniel, nós logo aqui no princípio desta história, vemos um indício de que vai haver uma importância grande para este episódio. Jesus demora dois dias a decidir ir e depois acaba por dizer aos discípulos que Lázaro realmente morreu. Ou seja, Lázaro estava doente quando Jesus recebe a informação e depois acaba por morrer. E Jesus até diz mais, que ainda bem que ele não estava lá para o impedir, porque assim os discípulos vão acreditar. Porquê esta demora? Porquê Jesus demora tanto a ir ajudar o seu grande amigo Lázaro, que estava doente? Não era de ir a correr? Se te ligassem a ti que um amigo está às portas da morte, se calhar ias a correr.

Sim, mas o Evangelho de João é um pouquinho diferente. Este é o último dos grandes sinais, é a palavra utilizada, dos grandes sinais de Jesus, como dizias, antes de ir para Jerusalém, antes da Última Ceia, basicamente. Nos outros Evangelhos, nos chamados sinópticos, Mateus, Marcos e Lucas, fala-se sobretudo de milagres. Portanto, a palavra já indica um conceito diferente. Aqui, estes sinais tratam de desafios à fé. O fundamental não é a morte ou a vida de Lázaro, mas a fé daqueles que são chamados a acreditar em Jesus. E por isso esta demora é talvez uma forma do narrador sublinhar que Jesus não está a agir aqui apenas por critérios humanos, que nos instigariam a nós para durante o dia, à meia-noite, irmos socorrer um amigo que estivesse doente, mas é como que o próprio Jesus dando a entender que está a falar de uma outra coisa. Um jogo também de mal-entendidos, muito comum no Evangelho de São João, mostra isso. Jesus diz que o Lázaro está a dormir. Os discípulos pensam: "Ah, então se está a dormir, pronto, olha, está a dormir é porque não morreu". Mas Jesus diz: "Não, este dormir não significa isso. Lázaro morreu. Mas agora vamos passado este tempo", não foi imediatamente, foi algum tempo depois, "para que isto sirva de sinal para acreditarem que ele é o Filho de Deus, que ele é o enviado de Deus".

E, portanto, Jesus acaba por querer usar esta história também como demonstração do seu poder sobre a vida e a morte, digamos assim.

Sim.

É uma espécie de grande antecipação, estes episódios que vamos falar, são um pouquinho de antecipação do mistério pascal. Mas certas relações que podem tirar.

Quando Jesus chega finalmente a Betânia, encontra um cenário desolador. Lázaro está morto, está já há quatro dias no túmulo, é o que nos é dito. Está por ali muita gente a consolar as irmãs dele, Marta e Maria. E podemos dizer que a reacção de Marta é humanamente compreensível. Basicamente, ela diz a Jesus: "Se cá estivesses há uns dias, se calhar ele não tinha morrido". O que depois acontece nesta história?

É uma espécie de ralhete que, na verdade, contém duas posições da relação, que mostra a relação de Marta com Jesus, porque parece que Marta realmente acredita no poder de Jesus, que ela diz: "Se tivesse estado aqui, o meu irmão não teria morrido". Portanto, ela acredita realmente no poder de Jesus, mas acredita no poder de Jesus ligado a uma ressurreição futura, porque no diálogo com Jesus, que é também muito próprio do Evangelho de João, recordemos o diálogo com a samaritana, com Nicodemos, até o diálogo com a população quando é o cego de nascença curado, Marta diz que realmente acredita que ele vai ressuscitar no último dia. E Jesus responde-lhe, e isso é um ponto interessante: "Marta, eu sou a ressurreição e a vida". Aqui uma diferença que é um detalhe, mas que faz toda a diferença. Para Marta, a ressurreição é uma coisa de calendário, é uma data que vai acontecer. Para Jesus, a ressurreição pode acontecer já, não através de uma questão de calendário, mas de uma relação. A ressurreição é mais uma relação. Aliás, penso aqui um paralelo outra vez com a arca de Noé, com a ideia de que Deus salva não só Noé, mas toda a sua teia de relações. Ainda assim, é curioso que Jesus diga que aqueles que acreditam nele não morrerão para sempre. Jesus não diz que aqueles que acreditam nele não morrerão. Jesus faz esta tónica, ou seja, próprio do Evangelho de João, estas palavras com duplo sentido, mal entendidos, de tal maneira que há um biblista que estudou este evangelho, que diz claramente que Marta é uma espécie de crente modelo, que passa no diálogo com Jesus por um processo de purificação. De tal maneira que antes da ressurreição de Lázaro, as duas irmãs, que é Marta, que é posteriormente Maria, têm que a elas próprias também ressuscitar. É curioso que, por exemplo, a seguir este momento, Marta vai anunciar a Maria, à irmã, que o Salvador, Jesus, chegou, o mestre chegou, o Rabi, chegou. E os verbos que são utilizados para mostrar os movimentos de Maria, que são dois "levantou-se" simultâneos, ou seja, Maria levanta-se e depois levanta-se outra vez, são os mesmos que são usados para a ressurreição, o verbo "egeiro" e "anástasis". Há aqui várias relações, tanto que Lázaro tem certos paralelos com Jesus, ao mesmo tempo que tem coisas que são totalmente diferentes. Lázaro quando sai para fora, enquanto que na ressurreição de Jesus a pedra já está retirada, quando Jesus ressuscita, Jesus aqui manda retirar a pedra, portanto, há aqui uma pedra, mas a ligação à pedra é diferente. Lázaro quando sai para fora ainda vem enfaixado, coberto com as ligaduras, e Jesus, um dos sinais da ressurreição que Pedro deteta logo é que as ligaduras estão à parte.

Mas nós já vamos explorar um bocadinho talvez as semelhanças e diferenças entre essas duas ressurreições. Mas antes disso, quando encontramos ali aquele momento em que Jesus se depara com as irmãs e com o cenário da morte de Lázaro, encontramos um momento muito célebre em todo o Evangelho, que é um dos poucos momentos em que Jesus fica emocionado e chora.

É mais do que emocionado, realmente chora.

Chora mesmo. Nós já falámos aqui num daqueles episódios de quintas-feiras sobre a dupla natureza de Jesus. Jesus é simultaneamente Deus e homem. Este momento é uma demonstração da humanidade de Jesus. Ele tem poder para ressuscitar Lázaro, mas não deixa de se emocionar e de chorar pela morte dele.

Aí diria que se formos ouvir o episódio de quinta-feira, dessas perguntas, a menos que quem respondeu, acho que até fui eu, tenha dito asneira da grossa, a resposta é não. Jesus chorar não é demonstração que ele é humano. Para nós, Jesus Cristo é uma unidade, uma pessoa divina, que tem duas naturezas, natureza humana e natureza divina. De tal maneira, quando ele expressa o chorar, ele não está a expressar a natureza humana, porque os humanos são sentimentais e Deus é o macho alfa durão que não chora. Não, Jesus Cristo está a mostrar que Deus, para os cristãos, chora, se emociona com aquilo que está a ver.

Mas há aqui não só essa ideia do chorar, que também tem alguma ambiguidade, como aliás, é ambíguo o nosso chorar. Nós choramos quando estamos tristes, quando estamos diluídos, porventura quando estamos alegres. O nosso chorar não é unívoco, pode exprimir várias coisas. O texto aqui também sublinha, e isto é depois, o João falou sobretudo do encontro com Marta, que tem uma perspectiva mais convencional de uma ressurreição no fim dos tempos e acredita que Jesus pode, porque é um homem capaz de fazer milagres. Depois, Jesus, ao dizer que é a ressurreição e a vida, vamos perceber que se calhar até a postura da próxima irmã de Maria, que é mais dada, de certa forma. Isto também é ambíguo. Há autores que dizem que preferem a atitude de Marta, outros de Maria, e portanto, há aqui muita ambiguidade nestas coisas Nesta parte em que se diz que Jesus chorou, também se diz que ele ficou profundamente tocado, comovido, mas os verbos utilizados no texto, noutros contextos significam estar zangado. Portanto, também não temos propriamente uma janela clara para o estado de espírito que Jesus tem aqui. Ainda assim, essa humanidade está aqui muito à tona, visível, mas sobretudo esta ideia de que se está a aproximar a hora de Jesus e, portanto, essa hora que se cumpre na hora da morte e ressurreição de Jesus. Aqui vamos vendo que Jesus se vai aproximando do final da sua missão e vai, de alguma forma, mostrando a Marta e a Maria um caminho a fazer enquanto discípulos.


 

 

As Histórias da Bíblia

 

Anotações prévias.

Da Wikipédia:

Evangelhos sinópticos

Quase todo o conteúdo do evangelho segundo Marcos pode ser encontrado no evangelho segundo Mateus, e muitas partes têm similaridade com Lucas. Adicionalmente, Mateus e Lucas têm uma grande quantidade de material em comum, não encontrado em Marcos.

Evangelhos sinópticos ou evangelhos sinóticos são os evangelhos segundo Mateus, Marcos e Lucas, assim referidos por conterem uma grande quantidade de histórias em comum, narradas na mesma sequência, às vezes com as mesmas frases. Considera-se que tal grau de paralelismo, em termos de conteúdo - narrativa, linguagem e estrutura de frases - somente pode ocorrer em uma literatura interdependente. Muitos estudiosos acreditam que esses evangelhos compartilham o mesmo ponto de vista e são claramente ligados entre si.

Desde que a exegese começou a ser aplicada à Bíblia, ainda no século XVIII, os exegetas os chamaram de "evangelhos sinópticos" pois se aperceberam que, dos quatro evangelhos, os três primeiros apresentavam grandes semelhanças entre si, de tal forma que, se colocados em três grelhas paralelas – donde vem o nome sinóptico, do grego συν, "syn" («junto») + oοψις, "opsis" («ver») –, os assuntos neles abordados correspondiam quase inteiramente. Ou seja, são classificados assim, por fazerem parte de uma mesma visão ou um mesmo ponto de vista.

Por parecer que teriam bebido na mesma fonte, os primeiros grandes exegetas alemães designaram essa fonte como Q, abreviatura de Quelle, que significa precisamente 'fonte', em alemão. Adicionalmente, Mateus e Lucas também incluíram um material de duas outras fontes exclusivas, designadas como Fonte M e Fonte L respectivamente.

Quanto ao quarto Evangelho canónico, o Evangelho segundo João, este relata a história de Jesus de um modo substancialmente diferente, razão por que não se enquadra nos sinópticos. Desta maneira, há quatro evangelhos canónicos, dos quais três são sinópticos.

Enquanto que os evangelhos sinópticos apresentam Jesus mais como humano (que se destaca dos comuns por suas acções milagrosas) e são fontes de informações históricas sobre Jesus Cristo, o Evangelho segundo João descreve Jesus como o Messias, isto é, destacando o carácter divino de quem traz a redenção absoluta ao mundo. O evangelho segundo João sugere que ele próprio tivesse conhecimento dos Evangelhos Sinópticos, nos quais já existia informação suficiente sobre a vida de Jesus como homem, incumbindo-se João de mostrar, em seu Evangelho, os atributos de Jesus como Deus.

 

 

Depois de ressuscitar, Lázaro morreu outra vez?

Uma ressurreição, vários jantares, um perfume caríssimo. As histórias dos irmãos Lázaro, Marta e Maria, que faziam parte do grupo de amigos de Jesus. O novo episódio de "As Histórias da Bíblia".

Texto de P. João Basto, João Francisco Gomes e Rádio Observador

25 out. 2026, 06:03

Depois de ressuscitar, Lázaro morreu outra vez? Este é o sétimo episódio da terceira temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido.

Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor da Universidade Católica Portuguesa.

Eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.

Esta semana vamos conhecer três das personagens mais famosas do Novo Testamento: Lázaro, Marta e Maria. São três irmãos muito amigos de Jesus, que protagonizam alguns momentos célebres da história do Evangelho. O episódio mais conhecido é a ressurreição de Lázaro, relatada no Evangelho de João. É o último acto público de Jesus antes de se dirigir para Jerusalém para enfrentar a sua própria morte. As irmãs de Lázaro, Marta e Maria, também estão no centro de um episódio muito conhecido da Bíblia: um jantar na casa das duas irmãs, em que uma delas é quem faz o trabalho todo. Mas quem eram, afinal, estes amigos de Jesus? Estas são as histórias da Bíblia.

(CONTINUA)