sexta-feira, 29 de maio de 2026

Epitáfio porquê? Para quê?

 

Somos quem somos, fazemos bem, fazemos mal, colaboramos na marcha do mundo com a nossa singularidade, note-se ou não. Como todos a têm, com mais ou menos poder. Creio que se o mundo proliferou tivemos participação nisso, boa ou má. Não digo que recolhamos à nossa insignificância, todos nós significamos qualquer coisa, mesmo que seja apenas no trabalho, nos filhos, na brincadeira. Esforcemo-nos, sim, como pudermos, para participar razoavelmente nos esforços em que nos comprometemos. Já seria bom se resultasse bem. Se, não, procuremos melhorar, talvez… Participemos… Ou não. Para participar como a Rússia, hoje, mais valia suspender, sem dúvida. e contemplar as estrelas. À noite. Dormir de dia. Tudo o que acontece por algum motivo é, é certo. A Historiografia que o diga. E o bla bla bla como este, também, talvez proveniente de cansaço, que pode terminar sem epitáfio.

Os 100 anos que ninguém notou

O ponto mais interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido.

ALEXANDRE BORGES Escritor e argumentista

28 mai. 2026, 00:21

(1 Lei de retorno teria impedido libertação de narcotraficante

2 Entre eleições e não assuntos: desgaste de Governo sem rumo

3 Os 100 anos que ninguém notou

4 O 28 de Maio de há um século

5 A cova que Passos está a cavar

6 O veredito do fantasma)

Fosse biologicamente possível e festejaria com mais propriedade o meu funeral do que o aniversário – podemos não gostar de pensar nisso, mas temos consideravelmente mais participação na forma como morremos do que naquela como chegámos a este mundo. Reconheço, porém, que não seja a corrente de pensamento mais popular. E, todavia, tenho quase a certeza de que toca o mesmo ponto fraco que nos faz comemorar umas efemérides e desviar os olhos de outras.

Em 2010, celebrámos durante um ano a implantação da República. Houve comissão para as comemorações, filmes, programas de televisão, debates, fóruns, livros, exposições. Mas hoje, que faz precisamente cem anos que essa primeira tentativa de regime republicano, liberal, democrático, caiu, não encontrarão mais do que meia dúzia de conversas em programas de tv, rádio, ou textos como este. Sim, bem sei que continuámos a viver em república depois do golpe de 28 de Maio – bem sei que vivemos em república até hoje – mas viver em república não é um bem por si mesmo, tal como viver em monarquia não é certamente um mal. O que aconteceu há 100 anos foi o epitáfio de um projecto muito concreto e faríamos melhor em dar-lhe alguma atenção.

Quando as tropas de Gomes da Costa vieram de Braga, em desfile país abaixo até à capital, não havia duas frentes em confronto, duas visões de mundo ou, ao menos, uma oposição. Havia cansaço, desilusão. Meros 16 incompletos anos depois, tinha fracassado a tentativa de implantar em Portugal um regime determinado pelos portugueses, os portugueses “reais”, que não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes trabalhadoras, sem privilégios de classe. Mas o país que também antes se tinha cansado da monarquia e, sobretudo, da corte, dos condes e dos barões, e que correra até com os padres e os frades na repetida ânsia de culpar alguém ou alguma coisa pelos males que o afligem, desembocara num estado de miséria ainda pior do que aquele em que se encontrava antes de 1910, esmagado pelas consequências da Guerra, em que se metera por vaidade dos protagonistas políticos preocupados com a afirmação do regime além-fronteiras (o clássico “para inglês ver”), pela gripe espanhola e, acima de tudo, pelo caos político e social.

Há cem anos, quando o resto do mundo ocidental celebrava os “loucos” anos 20, Portugal vivia a década em que mais divergiu economicamente dos seus parceiros de continente. Os governos sucediam-se à média de três a quatro por ano, de desilusão em desilusão, dilacerados, primeiro, pelo projecto hegemónico de poder de Afonso Costa e do Partido Republicano e, depois, pelas múltiplas correntes e dissidências. Ficou a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar, enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no ensino superior, mas sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na democracia real.

O ponto mais interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido. Pior ainda do que em 1910, quando não se ofereceram mais do que Paiva Couceiro e umas centenas de militares para defender uma monarquia de quase 800 anos e que tanto nos orgulhávamos de, de tempos a tempos, ter salvo e recuperado quase por milagre, não apareceu sequer, dessa vez, um herói mais ou menos romântico que se atravessasse no caminho daRevolução Nacional”. Bernardino Machado, Presidente da República, e António Maria da Silva, primeiro-ministro, entregaram pacificamente o poder a Gomes da Costa quando este chegou a Lisboa, e até intelectuais como Fernando Pessoa defenderam, por um momento, a necessidade temporária de uma ditadura militar para “limpar” o país dos males causados pela I República.

Só que, atrás de Gomes da Costa, não estava qualquer projecto; estava um conjunto de gente que não podia pensar de formas mais distintas: monárquicos, republicanos, militares, maçons, católicos, quase todos desiludidos de alguma coisa. Unia-os a desilusão, o estarem fartos. Mas estar farto não é um projecto político, como se perceberia pela incapacidade de produzir um nos meses ou sequer anos seguintes. O que se sucederia não seria, portanto, propriamente, temporário, mas a mais longa ditadura da Europa Ocidental.

Em 1926, o regime caiu de podre; como em 1910; como, em boa parte, em 1974; como talvez seja a única maneira de mudar alguma coisa num país tão velho. Não por combate vigoroso ou sanguíneo, mas por desistência, por cansaço. 100 anos depois, os portugueses vivem extraordinariamente melhor do que nesse Portugal de então, mas os perigos do cansaço e da desilusão voltam a pairar por aí e a confundir-se, exactamente como há um século, com um “projecto”, uma “ideia” que, na verdade, ninguém sabe qual é, nem os próprios. Não temos ataques bombistas nem milícias a distribuir pancada pelas ruas, mas não falta, como em 1926, quem implore por “ordem”, “limpeza”, alguém que “pegue nisto”. Um descrédito das instituições, uma falta de pessoal “qualificado”, de vez em quando um ténue fantasma a espreitar: a “ingovernabilidade”. E agora, até uma geração que parece achar que um governo autocrático talvez nem seja coisa má de todo.

Poderíamos meditar um pouco nas razões destas nossas mortes recorrentes, destas quedas. Assinalar com pelo menos metade da pompa os funerais das efemérides que, tão galhardamente, nos ocupamos em celebrar. Para perceber as razões e melhor descortinar os inimigos. Afinal, em 1926, quando caiu a república livre e democrática, entregue a si mesma e à autodeterminação do seu destino, quem falhou não foram os reis, nem os padres, nem os militares, nem a extrema-esquerda, nem a extrema-direita. Fomos nós.

POLÍTICA HISTÓRIA CULTURA

COMENTÁRIOS (de 65)

Luis Fernandes Machado: Como sempre o Alexandre Borges é brilhante, mas há duas notas onde insiste, de certa forma, num erro de percepção institucionalizado: nem a Implantação da Republica em 1910 foi uma aspiração popular, surgida de um movimento popular consistente, nem a I República foi "livre e democrática". O derrube da monarquia foi um projecto de alguns poucos que, simplesmente, ambicionavam ocupar a posição na política e na sociedade ocupada antes por outros. Entre alguns poucos idealistas mais ou menos genuínos, como Machado dos Santos, ou proto-ditadores como Afonso Costa e seus muitos cúmplices, ninguém "pediu" licença ao povo, ninguém "ouviu" o povo e muito menos ninguém "consultou", antes ou depois, o povo sobre isso. Tal como uma certa ideologia política hoje em dia, "actuou em nome do povo, porque não podemos deixar ao povo a decisão do que quer".

O que aconteceu durante aqueles 16 anos, não foi mais liberdade, nem mais democracia que antes na Monarquia, nem sequer depois no Estado Novo. Foi antes um delírio à la revolução francesa de gente não recomendável que se serviu do país num banquete sanguinário, desde a insistência na participação idiota na Grande Guerra, contra a vontade dos próprios aliados, até à Camioneta Fantasma de 1921. Tal como o Napoleão foi a "salvação" das  loucuras da Revolução Francesa, também o Estado Novo acabou por o ser da I República.

Mas há uma ideia onde o Alexandre Borges está total e irremediavelmente correcto: o paralelismo com o que vivemos hoje é absoluto.

COMENTÁRIOS:

Df: Como podia a 1ª República ser "livre e democrática" se havia "milícias a distribuir pancada nas ruas" e o direito de voto era mais restrito do que na Monarquia? Algo não bate certo.

Francisco Almeida: Chamar república livre de democrata à ditadura "de facto" de Afonso Costa e do Partido Democrático, apenas define o autor. E mencionar o que o povo escolheu, quando se restringiu o direito de voto e quando as "revoluçõezinhas" a começar pela de 1910 eram decididas em Lisboa e comunicadas ao país por telégrafo, mete dó. Incidentalmente, é facto que a resistência se limitou a Paiva Couceiro mas houve motivos para isso. O general comandante militar de Lisboa deu ordem para dois regimentos saírem mas o cabo telegrafista era da Carbonária e, pura e simplesmente não enviou as mensagens. Para quem gosta de comparar revoluções, algo de semelhante aconteceu com a malograda saída do Regimento das Caldas em 16.3.1974. Presos todos os oficiais spinolistas o MFA ficou aberto a comunistas iinfiltrados e até foi escolhido para liderar um palhaço vaidoso e manipulável.

Ricardo Horta: Como se pode qualificar a I.ª República como uma "república livre e democrática" quando "... sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na democracia real."!!???

José Tomás: Um artigo com contradições - porque o autor sabe a história, (brilhantemente resumida no artigo de Nogueira Pinto), mas não abdica do mito - mas que é muito útil para chamar a atenção para isto: num tempo em que (graças à Internet) "os de sempre" perderam o exclusivo da narrativa e o poder de martelar os factos sem ninguém os contrariar, só lhe resta tentar que ninguém se lembre de que hoje faz 100 anos o 28 de Maio de 1926 (uma das 3 datas-chave do séc. XX português).

Maria Paula Silva: Excelente! Excelente análise histórica, de forma sintética e divertida. Fartei-me de rir porque, afinal, tanto faz o tipo de governo, somos mesmo  uma nhoca ingovernável  sem governantes qualificados.  Cem anos depois, uma análise perfeita da realidade actual.

Luis Monte Rosa, abre os olhos, se fores capaz! Não és, está mais que provado. Este artigo é extremamente oportuno mas, infelizmente, não vai servir de nada. Daqui a 100 anos alguém escreverá algo idêntico. Sempre achei interessante esta parecença de nomes (Gomes da Costa/Costa Gomes;  Afonso Costa/António Costa nos ciclos que se repetem).

 

UM HOMEM

 


JAIME NOGUEIRA PINTO. Que se respeita, como respeita os cidadãos “respeitáveis” da sua Pátria – os que a amam, afinal – que tem coragem para repor verdades, há muito ocultas – ou esbatidas - dos manuais pedagógicos. JNP prova que homens de coragem sempre os houve, apesar de tudo, neste país pequeno, que uma curiosidade grande levou por esse mundo de além-mar …

O 28 de Maio de há um século

Indiferentes à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de Maio.

JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 mai. 2026, 00:25

1 PSD aponta culpas ao PS nas Águas de Gaia

2 Diogo Feio: "Passos não é o líder da direita"

3 Moral e Coelho: os socialistas no centro do novo abalo no PS

4 Não se prendem médicos com fel

5 O Estado que notifica, mas já não executa

6 Entre eleições e não assuntos: desgaste de Governo sem rumo

Há cem anos, deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiaiscapitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.

Braga era a sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamadarevolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de 1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa, ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes, ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.

A República jacobina

Com um record de governos sem precedentes45 em 16 anos –, a Primeira República caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”. Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do Progresso e da Liberdade.

Afonso Costa e os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos, reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe, serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.

Mas a repressão não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.

Por isso, além de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912, enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de 1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o “presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado, confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas superiores de luta em caso de necessidade.

A seguir ao sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e “avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921); a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos “democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado Santos.

O Zeitgeist europeu

Dera-se, entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma “direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926, dias antes do 28 de Maio.

Em Portugal também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária, organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo anti-monárquico.

A tripartição fatal

Os anos finais da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300 bombas em Lisboa), com três forças políticas em lutaa oposição conservadora católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticose a nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve PACHECO PEREIRA, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários públicos, alfaiates e ferroviários”.

Mas o PCP era então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troikaEstaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”, os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no movimento operário português em relação aos comunistas.

De qualquer modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%. Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro de 1926.

O partido (militar) do Estado Novo

É neste acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de 1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar.  E que vão purgando os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democrático”, herói do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho, com a família. Vão ficar Carmonaoficial diplomata, prudente, mais de salão do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que, apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo: a crise financeira.

Como em todos os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política. Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de excepção.

Aqui a diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas” requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos, institui a censura prévia e mantém uma polícia política.

A esquerda unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis, tendem a chumbar nos actuais polígrafos.

Nos anos 50não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um “colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que o império ultramarino era essencial para independência e para importância política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar – primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em Abril de 1974.

Salazar criara um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele, com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.

ESTADO NOVO      POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 32)

Ricardo Ribeiro: Obrigado por mais uma excelente lição de história que deveria ser obrigatória em qualquer manual de História deste país. Mas infelizmente sabemos que esses manuais são material de propaganda e influência esquerdista nas cabecinhas e mentalidades das nossas gerações futuras. Aqui em Setúbal até existe um bairro Afonso Costa em homenagem ao "maravilhoso " democrata que ele foi...                      Américo Silva; Se houve portugueses grandes, um deles foi Salazar, possivelmente o maior, não que seja desejável voltar ao salazarismo, mas o homem foi admirável.                    António Costa e Silva: Ao contrário do que acontece no nosso tempo, o 28 de Maio e o Estado Novo revelam uma história em que a fidelidade à terra e ao povo foi mais forte que os pequenos actores e as grandes vaidades.                        Paulo Simões: Salazar foi, como todos nós, produto do tempo em que viveu. Veja-se por exemplo o afinco com que ele impediu que Portugal fosse envolvido na segunda guerra mundial, ele tinha assistido ao desastre que aconteceu na primeira guerra mundial. No contexto da época em que viveu e governou foi um grande Estadista. E nesse tempo os únicos a serem perseguidos eram os comunistas, anarquistas e afins. No fundo não era muito diferente do que existe hoje, os únicos a serem perseguidos são os de extrema-direita do Mário Machado.                         Df: Muito boa lição de história.                            Fernando Calisto: Porque não se "rouba" um pouco de tempo antena aos " Elucidativos "e infindáveis programas (desportivos?) para dar a esta nossa pobre geração de jovens, que não tem culpa da sua ignorância, uma visão correcta da nossa história recente ? talvez não interesse... Obrigado por este excelente artigo, Dr JNP                               manuel rodrigues: "A esquerda unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes encomendados e subsidiados (...)" Verdadeiro escândalo a lavagem ao cérebro que, tendo como ponto de partida o programa comemorativo do 25/4 (conduzido pelo aparatchique Adão e Silva), tem sido levado a cabo pela RTP, com migalhas para a SIC e as outras. Com dinheiros públicos, falsifica-se a história e manipulam-se cidadãos. Não há responsáveis. Que faz perante isto o centro-direita no governo?                              Joao Almeida > manuel rodrigues: Qual governo de centro direita? O PSD nada tem de centro e menos ainda de direita. O que tem é um descomunal complexo de esquerda para além duma vontade nula em fazer qualquer reforma.                       José Tomás: 100 anos sobre uma das três datas mais importantes do Século XX português, e só o defunto "DN" traz a efeméride para a capa, com o subtítulo "a data que a direita radical pode tentar resgatar" -   o que talvez nem o "Época" ou o "Novidades" escrevessem a respeito do 5 de Outubro. Eis o retrato de um regime apavorado, limitado nos seus mecanismos de manipulação, e sem resposta, para lá da censura e da língua de pau, para o "o estado a que chegámos" (sic, Cap. Salgueiro Maia, Santarém, 25.04.1974).                             José Roque: Muito acertado o comentário final: a Marcello Caetano faltou em decisão o que sobrou em escrúpulo. Foi um tarefeiro, num momento que exigia um estadista.                      Fernando Calisto > Oscar gomes: Até Mário Soares o elogiou ao dizer que nunca tocou nos dinheiros públicos...!  Só foi pena ter insistido em lutar contra ventos e marés daquela época relativamente ao ultramar...  Foi um autoritário patriota e intelectualmente honesto, o que infelizmente não existe os nossos dias...                          Óscar gomes: JNP dá-nos a conhecer de uma forma sumária mas inequívoca o que foi o desastre da 1º República, e o retrocesso do país nesse período. A esquerda  evita tocar neste período, evita falar da importância de Salazar na recuperação do país e nas suas qualidades como um excelente 1ª ministro que teve o seu inequívoco tempo de   glória e apreço dos portugueses. Com a devida distância temos os governos dos últimos 50 anos que, de certa forma se equivalem ao desastre da 1º República. Será nossa sina termos políticos incompetentes ou corruptos ? Está-nos no sangue?                    Fantasma da Redação > Paulo Simões: E o Salazar não perseguiu a dita "extrema-direita"? Ele não engavetou o Rolão Preto?

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

MUNDO DE HOJE

 

Do nosso espanto sombrio.

Eles estavam sempre aos gritos". Marine Rousseau mudou várias vezes de casa antes do abandono dos filhos em Portugal

Vizinha de Marine e do ex-marido recorda "gritos" e "discussões" constantes do casal antes da mudança para Colmar. Crianças vão voltar à cidade sob o cuidado das autoridades francesas.

27 mai. 2026, 20:23

MARTIM ANDRADE (em Troyes, França): TEXTO

Em Troyes, a semana começou quente e silenciosa. O feriado da segunda-feira de Pentecostes quando se registaram 32 °C nesta cidade francesa, em plena cúpula de calor, fechou as lojas da Rue Émile Zola, onde viveu Marine Rousseau. Durante quase uma década, foi lá que morou com os filhos e o então marido e pai de B. e Z., as duas crianças encontradas em Monte Novo do Sul. A mulher, agora em prisão preventiva em Portugal tal como o actual companheiro, não deixou recordações nos novos moradores e, até no sítio onde trabalhou até 2022, não passa de uma cara que apareceu nas notícias.

Só na terça-feira é que o Centre Médico-Psycho-Pédagogique (CMPP) da região de Aube reabriu as suas portas. Aqui, segundo o seu perfil de LinkedIn, Marine Rousseau acompanhou várias crianças e adolescentes dos quatro aos 20 anos e organizou “oficinas de relaxamento” para adolescentes entre os 16 e os 18. Realizou, também, várias sessões especiais destinadas a menores “com perturbações de representação espacial e perturbações práxicas”.

Este foi o seu local de trabalho durante quase oito anos, desde 2014 até 2022. Mas a sua longa passagem pelo centro de apoio psicológico, que nos dias de hoje até tem uma nova direcção, não é relembrada. O nome “Marine Rousseau”, que por si só não suscita reacção às funcionárias, só ganha sentido com a menção do caso. É a mulher que abandonou os filhos em Portugal.

Marine trabalhou no Centre Médico-Psycho-Pédagogique (CMPP) da região de Aube durante quase oito anos

MARTIM ANDRADE/OBSERVADOR

Marine, o marido e os três filhos viviam perto da Rue Emile Zola, uma das principais ruas comerciais da cidade de Troyes

MARTIM ANDRADE/OBSERVADOR

Porém, Troyes foi a cidade onde Marine passou mais tempo desde que saiu da Universidade de Sorbonne, onde se formou em psicomotricidade a cerca de um quilómetro da Catedral Notre Dame em Paris. Mal recebeu o diploma, começou a afastar-se gradualmente da capital francesa. Começou por Villejuif, ainda na Área Metropolitana de Paris, onde terá nascido o seu primeiro filho B., que é meio-irmão das duas crianças abandonadas.

A mulher viveu quatro anos na periferia da capital até se ter mudado durante dois anos para Provins. Seria a sua última paragem antes de Troyes, onde foi sempre discreta, e onde se começou a interessar por outra área de estudo.

Os “gritos” constantes e uma saída “abrupta”

Em 2018, quando ainda estava no CMPP de Troyes, Marine Rousseau passou a envolver-se em mais iniciativas sobre sexologia e, no ano seguinte e em paralelo com os jovens que ia recebendo no consultório, já dava também consultas na área da saúde sexual de forma autónoma.

Marine acabou por abandonar o Centre Médico-Psycho-Pédagogique e a cidade de Troyes para tornar-se sexóloga em regime full-time. Ela, o marido e os filhos decidiram comprar uma casa na aldeia de Saint Phal, a aproximadamente meia hora de carro de Troyes. Apesar de se situar já fora da “rolha” a que é comparada a forma da região histórica de Champagne, os tons bege e castanho dos edifícios mantêm-se e as planícies verdejantes acompanham toda a estrada.

Quase sempre vazio, o autocarro pára junto à imponente igreja gótica de Saint Phal, uma autêntica aldeia-dormitório. “As pessoas vão trabalhar para Troyes logo de manhã e só voltam à noite, para dormir”, relata uma funcionária da autarquia local. O sol queima e as sombras escasseiam. Em Saint Phal, não há um café, um restaurante, um supermercado ou até uma esquadra da polícia. É a hora de almoço e a aldeia está deserta.

Enquanto lá viveu e como os seus então vizinhos, Marine continuava a trabalhar em Troyes, onde os filhos estavam inscritos na creche e na escola. A sexóloga dava consultas online, mas também tinha um consultório na cidade. “Não estiveram cá muito tempo e nunca passaram aqui pela Câmara”, conta a funcionária da autarquia, que nunca se cruzou com Marine na aldeia.

O OBSERVADOR sabe que  Marine terá saído da casa número cinco da Rue des Cannes, em Saint Phal, com os filhos no verão de 2025. Passado quase um ano, na moradia exibe-se um cartaz a anunciar que foi vendida mas não há sinais dos novos inquilinos: o relvado frente à casa continua abandonado.

Os vizinhos não sabem quem comprou a casa, mas entre eles, há quem recorde uma passagem “instável” de Marine pela aldeia.Tentei falar várias vezes com ela, mas nunca me deu conversa”, conta uma vizinha ao Observador. E uma noite, o marido teve que “intervir numa discussão” entre a sexóloga e o pai dos dois filhos.

“O meu marido teve de ir lá às 21h, porque eles não paravam de gritar e de certeza que as crianças precisavam de dormir. Estavam sempre aos gritos”, recorda. Quando o pai das crianças saiu de casa, a vizinha relata que Marine “proibiu” várias vezes o ex-marido de ver os filhos. Foi Marine que ficou com a guarda total das duas crianças, B. e Z., após o divórcio. Ao pai só foram permitidas “visitas limitadas e supervisionadas”, decisão de que entretanto recorreu, de acordo com o procurador de Colmar.

Segundo o relato da vizinha de Marine, a sexóloga abandonou a moradia número cinco “abruptamente” em direção a Colmar e encarregou o pai do transporte dos seus pertences de Troyes até à cidade na região de Alsácia.

A casa onde Marine Rousseau, o marido e os três filhos viveram em Saint Phal

MARTIM ANDRADE/OBSERVADOR

Crianças abandonadas vão regressar a Colmar e ficar ao cuidado dos serviços de apoio social

Marine e os filhos chegaram a Colmar no verão de 2025 e, menos de um ano depois, a mulher e Marc Ballabriga começaram a viagem num Opel cinzento que culminaria na sua detenção em Portugal. Só depois é que a cara de Marine deixou de ser uma incógnita e passou a ser facilmente identificada como a da “mãe que abandonou os filhos” entre Alcácer do Sal e a Comporta. No dia 11 de maio, o pai de B. e Z. participou o desaparecimento das crianças e da ex-mulher às autoridades em Colmar, onde a ausência dos meninos também foi notada nas escolas que frequentavam.

As crianças foram abandonadas numa mata próxima da Nacional 253, salvas pelo padeiro Alexandre Quintas, e Marine Rousseau e Marc Ballabriga foram detidos pela GNR dois dias depois, em Fátima. Após duas noites no hospital, B. e Z. passaram a última semana ao cuidado de uma família de acolhimento, enquanto a mãe e o padrasto estão em prisão preventiva. Esta terça-feira, o juiz-presidente do Tribunal Judicial da Comarca de Setúbal confirmou que os dois menores iriam ser repatriados.

“Este regresso ao país da sua residência habitual vai ser articulado e executado entre as autoridades portuguesas e francesas competentes com vista a garantir o mínimo prejuízo para o superior interesse destas crianças, esgotando-se assim, com a sua execução, a intervenção das autoridades judiciárias portuguesas”, informou ANTÓNIO JOSÉ FIALHO num comunicado emitido esta terça-feira.

Foram as autoridades judiciárias francesas que tomaram a decisão de colocar B. e Z. aos cuidados dos serviços de apoio social de Colmar, enquanto “procedem à avaliação de familiares ou terceiros com vista a aferir as condições destes para acolher as crianças, considerando a situação da mãe e o regime de visitas supervisionado e controlado do pai”. Assim, mais de duas semanas após terem entrado em Portugal de carro através da fronteira com Espanha em Miranda do Douro, os menores irão regressar ao local onde viveram durante os últimos meses, sem a mãe.

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