É o que parecemos, todos, para sempre, também segundo Os Lusíadas, I, estr. 106: “No mar, tanta tormenta… Na terra, tanta guerra, tanto engano…”
Mas cá
vamos andando, atamancando, acusando…
Viva o
povo brasileiro?
O que se passa com o povo brasileiro? Deixou-se
manipular pela desinformação, pelo populismo, pela demagogia, pelo extremismo,
ou foi mesmo interferência externa?
JAIME
NOGUEIRA PINTO,Colunista do Observador
OBSERVADOR, 08 out. 2026, 00:25
Foi Trump. Foi Netanyahu. Foi a grande internacional
da extrema-direita. Só pode ter sido interferência externa.
De outra maneira não se explicam os resultados no Brasil.
O que se passa com essa outra metade, inesperadamente maioritária, do
povo brasileiro, que parece já não ter como referência a imprensa de referência
que tanto se esforçou para lhe indicar o caminho do bem? Deixou-se manipular,
evidentemente. Cedeu à desinformação, ao populismo, à demagogia, ao extremismo
alheio e “votou mal.”
Escrevi aqui, há duas semanas, sobre os casos de
corrupção e abuso de poder no Supremo Tribunal Federal, mais próprios de uma
pequena república cleptocrática das antigas do que de uma nação como o Brasil. E sublinhei o quase silêncio dos
media portugueses sobre o grosso dessa corrupção, inequivocamente ligado aos
partidários e amigos do Presidente incumbente. Aparentemente, para
bem do povo e da democracia, achou-se melhor falar só do dinheiro que Flávio Bolsonaro, alinhado com o mal, pedira ao
corruptor Vorcaro para o filme Dark Horse sobre o seu
pai, Jair, e silenciar as avenças milionárias, as viagens em jactos, os hotéis de
luxo, as garotas de programa, as mensagens e os favores trocados entre o grande
corruptor e os seus amigos e clientes do Supremo Tribunal, Alexandre de Moraes
e Gilmar Mendes, alinhados com o bem. É que o povo, na sua simplicidade e ignorância,
na sua bondade intrínseca, tinha de ser guiado, conduzido, endoutrinado por
quem sabia o que era melhor para ele.
Porém no Domingo, 4 de Outubro, para profunda tristeza e
incredulidade de muito pivot, comentador e entrevistado de rua escolhido ao
acaso entre os apoiantes de Lula, houve uma fatia inesperadamente
maioritária do povo brasileiro que se mostrou pouco dócil aos apelos dos seus
melhores, surda aos papões e aos polígrafos agitados, indiferente até à
possível reencarnação do próprio Hitler nos trópicos que se adivinha – ou mais atenta à realidade do
que se esperava. Porque além de, ao contrário do proclamado pelas sondagens, Bolsonaro
ter ficado à frente de Lula por 47/45, a direita e o centro-direita tiveram uma
vitória esmagadora nas eleições para o Congresso e vitórias significativas nos
governadores eleitos – culminando na eleição para governador do Paraná, à
primeira volta, de Sérgio Moro, do Partido Liberal, protagonista do
Lava Jacto que condenou Lula à cadeia e ministro da Justiça e Segurança
Pública do governo de Jair Bolsonaro.
Os números
Nas presidenciais, Flávio
Bolsonaro teve mais 2 200 000 votos que Lula da Silva. No Senado, que renovava 2/3
dos seus 81 lugares, o Partido Liberal de Bolsonaro passou de 15 para 28
senadores, quase duplicando a sua representação. O Partido dos
Trabalhadores tem 9. Os números, além de consolidarem a
importância do “bolsonarismo” no legislativo, tornam possível o saneamento dos
juízes (ou “ministros”) do Supremo Tribunal Federal que incorreram em “irregularidades”,
já que muitos dos senadores eleitos na vaga direitista fizeram da promessa de
impeachement dos juízes corruptos o seu cavalo de batalha. E se para a interdição dos
juízes prevaricadores são precisos 54 senadores, são já pelo menos 49 os que a
defendem.
A corrupção dos seus aliados na Corte Suprema saiu cara ao
“incumbente” do Planalto que, à última hora, ainda tentou dissociar-se do
“bando dos Quatro”, disparando para o ar banalidades moralistas, tais como
“ninguém se pode tornar ministro do Supremo Tribunal Federal para enriquecer”,
enquanto exaltava a luta de Moraes (o que mais enriquecera…) “em defesa da
Democracia”.
Quando o povo “ameaça a Democracia”
Agora que se estipulou que a Direita desapareceu e só
existe a Ultra-Direita, a Esquerda e os centristas que vêem o chão a fugir-lhes
debaixo dos pés não conseguem resolver a equação que os acompanha desde os
tempos em que os autoritarismos vigoravam nos países do Sul da Europa e na
América Latina. Se para combater os autoritarismos e as ditaduras militares
conservadoras todos – até os comunistas, estalinistas, maoistas, polpotistas ou
trotskistas, partidários de Repúblicas Democráticas ou Socialistas mais
opressivas e assassinas do que os regimes que combatiam – reivindicavam eleições livres, porque a democracia
era boa, o povo era bom e a maioria era sagrada, o que fazer agora contra a
“ultra-direita”, quando o povo, a maioria, escolhia “mal”, ou escolhia precisamente
a “ultra-direita”?
A hipótese de, em épocas de descontentamento,
decadência, crise e tensão, os cidadãos, os eleitores, que constituem o povo
soberano, poderem usar o voto, a sua fracção de soberania, mais contra
do que a favor, parece não se pôr. Sobretudo se é contra quem está no poder e o representa; contra quem
proclama que o país “não é quintal de ninguém” enquanto faz do país o seu
quintal privativo.
Desde o fim da Guerra Fria que o poder no Ocidente, no mundo
euroamericano, tem sido exercido por aquilo a que podemos chamar “o
centrão”, através de
uma burocracia considerada “apolítica” e “tecnocrática”, mas que, por convicção
ou cedência útil, se foi regendo pelos valores culturais e sociais de uma
esquerda
“esclarecida”, “progressista”, “hedonista”, “elitista” e “radical”. Esse conjunto de
elites, todas globalistas, apostou na desindustrialização e na progressiva abolição das fronteiras,
rumo a uma grande comunidade, a um grande mercado, abrangendo generosamente
toda a humanidade, mas onde essas mesmas elites e as suas “razões práticas” se
moviam com maior destreza e proveito. Com isto gerou-se no Ocidente
um mundo de extremas desigualdades económicas, em que as classes trabalhadoras
foram marginalizadas e as classes médias empobreceram.
Entretanto, nesse mesmo mundo euroamericano, o revisionismo da Escola de Frankfurt e
os “marxismos imaginários” de que falava Raymond Aron, multiplicados até à
alucinação, tornaram-se o catecismo dos pequenos e médios intelectuais das
universidades e da comunicação social dos dois lados do Atlântico, largamente
subsidiados por uma burguesia discreta, centrista, civilizada. E quando os eleitores, privados de outros instrumentos
– a
Academia, a Comunicação Social – reagem pelo voto, e reagem contra, então o povo
deixa de ser sábio e soberano para passar a ser manipulado, a maioria deixa de
ser sagrada para passar a ser fraudulenta ou pasto de “interferência externa” e
a Democracia passa a estar “sob ameaça”.
O Brasil, o país mais importante da América do Sul, já
esboçara uma reacção deste tipo com Jair Bolsonaro, vencido em 2022 por uma
coligação da esquerda pêtista e parte substancial do Centrão. A gestão
governamental de Lula, o apetite do seu filho, Lulinha, por “dinheiro vivo”,
juntamente com os escândalos no Supremo Tribunal, levaram aos resultados de 4
de Outubro.
Mas o país está dividido e
ainda há uma segunda volta. Pode ser que, apesar de o “arrastão bolsonarista”
da primeira volta já ter causado sérios “danos à Democracia” por via eleitoral,
o povo ainda queira “salvar a Democracia”, votando Lula. Só assim, devidamente alinhado com o bem, o
bom povo, o dócil povo, poderá voltar a ser “sábio e soberano”.
Infelizmente para os que assim o desejam, tudo indica
que não, que, no dia 25, o povo brasileiro ainda vá dar sinais de vida.
COMENTÁRIOS:
(Mais votados 22 Todos 58)
Ricardo Ribeiro
Das mais esclarecidas descrições dos tempos actuais
com as respectivas explicações das causas e efeitos subjacentes. Há parágrafos
neste texto verdadeiramente sublimes. E o resultado das políticas adoptadas,
desde as Américas até ao velho Continente, estão à vista! Agora, queixem-se!...
Miguel Seabra
Muito bom! As TVs vão estar de luto novamente no dia
25 e no dia 25 de Abril de 2027 os sabujos locais não vão poder (mais uma vez)
lamber os pés ao Lula na Assembleia da República.
João Floriano
A nossa CS é muito discreta no que diz respeito a Lula
da Silva.
Não me lembro de ter ouvido falar nas «aventuras» do Lulinha. Por aquilo de que
me apercebo entre os brasileiros meus conhecidos há uma grande expectativa
sobre o que o PT irá fazer porque é opinião comum entre quem vota Lula ou
Bolsonaro, que o PT não vai largar o osso . Uma das minhas curiosidades
se Bolsonaro ganhar (para já, os sinais apontam para tal acontecer), é observar
como se vai comportar o Brasil nos BRICS e como os países associados
antiamericanos irão reagir a uma guinada política no Brasil. Independentemente da
política, Lula já enjoa os brasileiros. é o que acontece quando se serve
constantemente Lula recheada de juízes corruptos, banqueiros trafulhas e toda a
espécie de vigaristas. E ainda por cima Lula ressequida, que o panamá não
consegue esconder.
Antonio C.
Excelente artigo. Curioso saber que a maioria dos
“fugidos” para Portugal da democrática e próspera República Lulesca tenham
votado no mesmo. Coincidências…,
Maria Nunes
Excelente artigo JNP.
Regra geral, a nossa comunicação social parece que tem medo de dizer
as verdades sobre Lula.
Manuel Martins
Faz lembrar o discurso do candidato do PCP em Almada,
depois de ter surpreendentemente ter perdido as eleições autárquicas, que não
perdia desde o 25 Abril:" o povo tinha-se enganado e então iria sofrer por
isso" ...
Ruço Cascais
Sociedades cada vez mais crispadas, ódios cada vez
mais à flor da pele, violência gratuita cada vez mais frequente.
As esquerdas não estão preparadas para lidar com a
democracia cada vez que perdem eleições. As direitas começaram a reagir às
provocações das esquerdas.
As esquerdas já não representam o povo, representam
esquemas corporativos para garantirem a manutenção do poder. As direitas
conquistaram os povos porque resolvem os problemas das populações.
As esquerdas no poder não conseguiram resolver os
problemas da habitação, do ensino, do sistema nacional de saúde, da redução da
subsídio-dependência, do aumento de rendimento per capita.
Os povos começaram a perceber o engodo das esquerdas e
a votar na direita que lhes oferece mais perspectivas para um futuro melhor
para eles e para os filhos. As esquerdas não aceitam essa derrota, não se
conformam com os resultados das suas políticas. Desesperadas com a derrota
estão disponíveis para tudo, incluindo a tomado do poder pela força.
A possibilidade de um banho de sangue no Brasil é
real, mas, também não é de desconsiderar esse banho de sangue em Espanha, nos
Estados Unidos, França, quiçá em Portugal com uma vitória redundante do CH.
Na minha opinião, o mundo não está num dos seus
melhores momentos. A nova sociedade digital com as suas redes sociais,
informação em catapulta, fake news, influência e manipulação transforma cada
cidadão num potencial activista e muitos deles em activistas radicais de cabeça
perdida. Tudo pode acabar num grande banho de sangue.
Um mundo radicalmente dividido, em que metade tem um
ódio de morte à outra metade.
Américo Silva
O Tribunal Constitucional da Roménia anulou o
resultado da eleição presidencial por uma suposta interferência russa,
Georgescu encontra-se actualmente detido.
João Diogo
Mais uma excelente crónica , por cá no burgo a
C.Social , nem umas notas em rodapé, sobre a corrupção instalada no Supremo
Tribunal da camarilha de Lula, como esse execrável Alexandre Moraes.
João Floriano > Ruço
Cascais
«Um mundo radicalmente dividido, em que metade tem um
ódio de morte à outra metade. »
Um frase redonda que descreve talvez o aspecto mais
evidente das nossas sociedades ocidentais democráticas: o ódio de morte que se tem vindo a tornar indisfarçável. Gente da minha
geração nascida no pós guerra ( eu sou um boomer de 1952) tem vivido
confortavelmente na ilusão de que as guerras civis ficaram lá bem no passado.
Mas o banho de sangue de que o Ruço fala é cada vez mais uma possibilidade.
Olho para França, e agora para a Bélgica para onde os protestos se estão a
estender e não sei como os políticos vão acalmar as ruas. Tanto esquerda como
direita mesmo os ditos tolerantes e moderados têm culpas no cartório. A
esquerda porque trepou e caiu também na armadilha de pensar que seria sempre
seguida pelos desfavorecidos que são em maior número. A direita porque
deixou que a esquerda lhe pusesse freio
e culpas nas costas e não protestou. Mas mesmo agora que está a pôr as mãos na massa, ainda há dentro da
própria direita quem prefira aliar-se à esquerda. Já se sabe o que a
esquerda pode fazer pelo bem-estar das populações e solução dos seus problemas:
NADA! Um saco cheio de vento. Mas a direita ainda não pode apresentar provas
conclusivas que consegue fazer melhor.
L Faria
Quando é que estes comentadorzinhos de neeerda das tvs
portuguesas vão reconhecer que bolsonaro é um preso político ao
melhor estilo soviético?
Garcia Moreno
Para a esquerda verdadeira democracia significa
ditadura do proletariado.
Manuel Magalhaes
Esperemos é que os “impolutos” media (de lá e de cá) não continuem
vigaristicamente como é seu hábito, a deturpar e a impingir mentira sobre
mentira a fim de prejudicarem um muito necessário resultado para o dia 25 para
que o Brasil volte ao seio dos países respeitáveis…
graça Dias
Senhor Professor Jaime Nogueira Pinto
Mais um valioso contributo de JNP para o debate
político do momento. Numa prosa de muito brilho, submete com rigor e ironia a
atmosfera política vigente no Brasil, no qual há dois “maestros " -- as narrativas do
incumbente e a doutrinação de uma CS, que tanto do lado de lá do Atlântico,
como do lado de cá, entrou em desaire e descontrole !
Assisti num dos canais das nossas TVs, mas em
determinada altura, já com resultados praticamente definitivos desta 1ª volta,
um dos bonecos falantes ficou « out of control », e percebi que a boneca era de
"barro vidrado" , com a etiqueta de « Mafaldinha dos anjinhos», e que
se estilhaçou!... de imediato tive que
fechar a TV, para não ter que recorrer à pá e à vassoura a limpar o verniz que
saltava fora do ecrã.
O meu obrigada a JNP
por esta "viagem" ao Brasil através de um texto de grande
eloquência.
L Faria > Antonio C.
Acontece o mesmo que vemos com os mustafas. Procuram
transformar os países que lhes dão de comer, na mesma meeerda de países de onde
saíram. O socialismo estupidifica.
L Faria
A descrição perfeita de como os socialistas/comunistas
se servem do povo. Voltem no tempo, não é preciso muito. Em todos os países
dominados pelo comunismo, a elite que pastoreia o povo é estupidamente rica e
poderosa e o povo na miséria. O mesmo estava a acontecer no Brasil do Ptt e do
crápula lula da Silva. Enriquecimento extraordinário, fruto da corrupção ao
mais alto nível, mas ao mesmo tempo a empobrecer o povo, dizendo que os
defendem enquanto lhes sacam oboouco dinheiro que têm. Custa a acreditar como
depois disto tudo, este filho de uma grande fruta ainda tem 45% dos votos.
Veremos se a metade do país que ainda tem um cérebro funcional consegue reagir.
Glorioso SLB > Manuel
Martins
Esse ñ é grande exemplo. É q sofreu e continua a
sofrer.
Alberico Lopes
Excelente texto, ao nível dos que o autor nos vai
oferecendo. Obrigado, professor!
Maria Cordes
O Brasil tornou-se mais compreensível com este texto,
o que é muito gratificante. Adoro a ironia. Em Portugal há uma grande
ignorância sobre a realidade, devido á manipulação da comunicação social, que
não disfarça. O lado redutor é que, mesmo quem se interessa, somos poucos ( a
lua cheia ou o pôr do sol, despertam muito mais atenções, que o vídeo da
estudante francesa a desmontar a luta dos "estudantes") , tem
dificuldade em construir uma consciência da realidade, mesmo que aproximada. É
frustrante.
Thomas Zurc > Antonio C.
Ainda há dias questionei uns brasileiros porque,
continuando a optar pelo Luladrão, não tinham ficado no Brasil, paraíso do
PT....
Se a miséria e expectativa de uma vida melhor os
fizeram vir para aqui, porque não votavam na mudança ???
Glorioso SLB > Henrique
Mota
Caro amigo eu voto no CDS. Em Almada no PSD. O PC era
mau, mas a Inês ainda é pior.
Cristina Torres
Sem dúvida, que
"no Domingo, 4 de Outubro, para profunda tristeza e incredulidade
de muito pivot, comentador". Pois assisti incrédula no canal NOW o
comentador Germano Almeida a tentar endoutrinar a escritora Margarida Rebelo
Pinto, que num esforço justificava a inevitável vitória Bolsonaro.