Corajosamente, a sua PÁTRIA,
sempre me pareceu. Digo, SALAZAR, um nome sonoro. Imorredoiro.
Salazar,
os americanos e as Lajes
Por duas vezes, em Washington, gizaram-se planos de
ocupação dos Açores e houve mesmo o deslize de falar das ilhas como se fossem terra
de ninguém.
JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador
OBSERVADOR, 15 out. 2026, 00:25
O uso pelos
norte-americanos da base das Lajes, recentemente evocado pela visita do
Secretário de Estado Marco Rubio a Lisboa e pelos protestos da esquerda
parlamentar pela passagem pela Terceira de aviões destinados a operações
aeronavais na guerra do Médio Oriente, trouxe para a actualidade um tema-base
das relações luso-americanas ao longo da História do século XX.
Os Açores estiveram no centro da política externa
portuguesa em momentos decisivos em que Salazar foi determinante.
Agora que, por decisão da autarquia de Santa Comba Dão, os trabalhos do novo “Centro Interpretativo do Estado Novo
– Regime e Resistência” ficaram entregues à Ephemera de José Pacheco Pereira,
os portugueses vão finalmente ficar esclarecidos quanto a este e outros
aspectos da vida e obra do munícipe mais notório da terra. Ou não, já que o Centro Interpretativo
de Santa Comba, talvez na ânsia de surpreender e de fazer incidir nova luz
sobre o regime anterior e o seu “ditador”, abre com uma exposição sobre… a Censura. Dificilmente
se poderia ilustrar melhor a divisa da exposição – “Só existe o que se sabe que existe”. O resto continua a não existir.
Adiante. Durante a Segunda
Guerra Mundial, Salazar, que em 1936, no princípio da Guerra Civil de Espanha,
acumulara a presidência do Conselho de Ministros com o Ministério dos Negócios
Estrangeiros, equacionou os interesses nacionais com a neutralidade. O império
ultramarino português, entre os territórios de África, a então Índia
portuguesa, na costa ocidental da Índia inglesa, e Timor e Macau, no
Extremo-Oriente, dependia dos ingleses. Ingleses esses que, em
Setembro de 1939, não tinham solicitado assistência militar. E Salazar
embirrava com Hitler, que considerava um demagogo histriónico.
Na Segunda Guerra Mundial
Mas a neutralidade portuguesa implicava a neutralidade
peninsular. E embora Franco, o exército e o povo espanhol, saídos da guerra
civil meses antes do começo da guerra na Europa, não quisessem nem pudessem
dar-se ao luxo de entrar no conflito, havia entre a ala nacionalista radical do
regime franquista fortes simpatias pró-alemãs: afinal, Berlim
ajudara militarmente os rebeldes franquistas na guerra civil e a Wermacht
tomara a França na Primavera de 1940, numa campanha relâmpago.
Franco jogava, então, na ambiguidade manhosa.
Enquanto, na entrevista de Hendaia, proclamava inequívoca solidariedade
anticomunista com Berlim, ia pondo a Hitler condições que sabia que o Führer
não lhe podia dar.
As ilhas atlânticas de Portugal, principalmente os
Açores e Cabo Verde, estavam em causa, já que F. D. Roosevelt e alguns na sua
Administração pensavam que os alemães podiam invadir e ocupar Portugal com a
cumplicidade de Madrid. Preventivamente, em Washington, gizavam-se planos de
ocupação e houve mesmo o deslize de falar das ilhas como se fossem terra
de ninguém, o que levou Lisboa a enérgicos protestos diplomáticos,
reforçados por Londres.
As coisas acalmaram, até os americanos voltarem à
carga em 1943, com o núcleo duro do OSS – Office of Special Services, o
antecessor da CIA – pronto a pôr em acção uma operação para ocupar os Açores.
Por sorte, quem estava em Lisboa como conselheiro da Embaixada americana
era George F.
Kennan, depois autor do “Longo Telegrama” de Moscovo e o grande estratega da
Política de Contenção. A morte do
embaixador, Bert Fish, apadrinhado por Roosevelt, tornou Kennan responsável pela Embaixada e
pelas negociações directas com Salazar.
Kennan tinha ideias conservadoras e realistas e estabeleceu
com Salazar uma relação de admiração e respeito mútuo. De regresso a
Washington, Kennan soube da operação Alecry do OSS para tomar os Açores e
tentou, em vão, pará-la em sede própria. Depois, através de Harry Hopkins,
teve acesso a Roosevelt e explicou-lhe quem era e quem não era Salazar
– e o que não era,
seguramente, era um “ditador de república das Bananas”. Roosevelt, que conhecia bem
os Açores dos seus tempos de Subsecretário da Marinha durante a Grande Guerra, quando a Marinha norte-americana ali
estivera instalada, ficou convencido com os argumentos de Kennan e escreveu uma carta a Salazar, ditada
por Kennan, dando garantias do respeito de Washington pela soberania portuguesa sobre
as ilhas. E tudo se resolveu a bem, e por bem, graças ao prestígio do
“ditador”.
Na Guerra de África
Os Açores voltaram a ser importantes para a afirmação
dos interesses portugueses no início da guerra do Ultramar em Angola, em
1961-1962. Os
Estados Unidos, sob a Administração J.F. Kennedy, decidiram optar por uma
política “anti-colonial”, a fim de agradarem ao bloco terceiro-mundista, agregando
os novos Estados saídos da descolonização europeia. Era compreensível: estava-se em plena
Guerra Fria e no quadro da disputa com a União Soviética nas Nações Unidas e na
cena mundial.
O grande impulsionador
dessa política era o Subsecretário de Estado para os Assuntos Africanos, Mennen
“Soapy” Williams, um progressista norte-americano que, em 1961, ao eclodir a
guerra insurrecional em Angola, com os sangrentos massacres da UPA de Holden
Roberto no Uíge e no Norte, levou os Estados Unidos a votar contra Portugal nas
Nações Unidas.
Salazar não gostou. Mas primeiro tratou de controlar
internamente o grupo de generais conspiradores, liderado por Júlio Botelho Moniz, Ministro da Defesa que, com
alguma simpatia de Washington, tinha paralisado o envio para Angola de reforços
à escala das necessidades. E em 13 de Abril, apoiado por
João Lumbrales e Santos Costa, e com o decisivo suporte de Kaúlza de Arriaga,
então Subsecretário da Força Aérea, Salazar deu o contragolpe, assumiu a pasta da Defesa,
“falou à Nação” e promoveu o envio de tropas “rapidamente e em força” para
Angola.
Depois da chegada dos
reforços, sob a responsabilidade dos generais Venâncio Deslandes, governador e
comandante em chefe da Província, e Silva Freire, comandante da Região Militar
de Angola, acelerou-se a reocupação das zonas tomadas pelos guerrilheiros da
UPA no Norte, em Nambuangongo. Foi a Operação Viriato, em que
se distinguiram o tenente-coronel
Armando Maçanita
e o tenente miliciano de Engenharia Jardim Gonçalves. Em Agosto, a
maior parte do território voltava ao controlo português.
Os americanos não se
mostraram muito sensíveis à nova situação e, no fim do ano, dava-se a invasão
da Índia portuguesa pelo Exército indiano, por decisão do primeiro-ministro
Nehru. Também
aí, faltaria a “solidariedade ocidental”.
Mas em 31 de Dezembro de 1962 ia ser preciso rever o
Acordo das Lajes, e Salazar e Franco Nogueira deram a entender aos
norte-americanos que não haveria renovação do uso da base caso os Estados
Unidos continuassem hostis à política ultramarina portuguesa. A opinião dos responsáveis americanos
estava dividida: Mennem Williams e Chester Bowles (grande adepto da política
de captação do Terceiro Mundo à custa dos aliados europeus) faziam pressão pela continuação da
oposição a Lisboa, enquanto os militares do Pentágono insistiam na importância
das Lajes.
Dean Rusk, Secretário de Estado de Kennedy, veio a
Lisboa, onde esteve 22 horas. Rusk
percebeu a determinação de Salazar em ir para frente com a não-renovação dos
Acordos se não houvesse uma mudança de política.
E houve. Rusk esteve com
Salazar duas horas e a política norte-americana mudou – embora, “para Terceiro Mundo ver”,
se mantivessem as ambiguidades retóricas.
Açores País Sociedade
COMENTÁRIOS (de 15)
António Costa e Silva
Franco Nogueira conta muito
bem a História da questão das Lajes e da
operação diplomática de Salazar que, numa conjuntura crítica e sob uma
violenta pressão americana, forçou o respeito pela soberania portuguesa nos
Açores.
As memórias de Pedro Theotonio Pereira são
também muito elucidativas da acção diplomática portuguesa desenhada por Salazar
e conduzida por
Theotonio Pereira junto de Franco, que evitou a entrada da Espanha na guerra e
por consequência, também a de Portugal.
Hoje, sobre esse tempo, Pacheco Pereira destaca a
censura; censura que era muito tímida e surpreendentemente tolerante.
A cada um a sua dimensão.
COMENTÁRIOS:
Jorge Barbosa
Eis mais um excelente
artigo Histórico de JNP
Observador
Gostei muito da expressão “demagogo
histriónico” com que Salazar qualificava Hitler. Não sei porquê, mas
fez-me lembrar outro demagogo histriónico, mais actual, que exerce os seus
talentos cá no burgo. Tenho poucas dúvidas de que Salazar o caracterizaria
precisamente da mesma forma.
Quanto ao resto, reconheço
que Salazar fez coisas importantes e soube, em vários momentos, defender os
interesses do país com inteligência. Uma parte da esquerda parece entender que
tudo o que fez foi mau. Não concordo. Considero até que foi necessário e
importante num determinado período da nossa história. Foi pena que, depois da
Segunda Guerra Mundial, não tivesse liberalizado o regime e aberto caminho à
democracia. Poderia ter ficado na história como um grande estadista. Essa
sempre foi a minha opinião.
Agora, também tinha
defeitos, como é evidente, e foi um ditador, sem aspas. Disso não há dúvida.
José B >DiasAntónio
Costa e Silva
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