terça-feira, 28 de abril de 2026

Estratégias


Dos que ajudam a Terra  a girar, segundo os seus apetites.

Trump pestanejou, ou apenas adiou o ataque?

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 27 abr. 2026, 00:23

Quando toda a gente esperava bombas, Trump resolveu oferecer tempo. Em vez do fogo, avançou com o prolongamento do cessar-fogo até Teerão apresentar uma proposta e até as conversas chegarem a alguma coisa palpável que tenha frases e parágrafos. Não levantou o bloqueio, não retirou a ameaça, não desmobilizou os instrumentos de coacção. Limitou-se, para já, a trocar a moca pelo garrote. É talvez uma maneira mais polida de apertar o pescoço, mas pouco mais do que isso.

A República Islâmica declarou vitória, enfim o que qualquer tirania com pergaminhos e pretensões faz nestas ocasiõesAraghchi repetiu que o Irão não negocia sob ameaça, e outro responsável explicou que Teerão não aceita conversações conduzidas como rendição. Tudo previsível. Regimes destes vivem da fabricação contínua de aparências. Precisam de converter cada paragem alheia num triunfo próprio, nem que para isso tenham de se contorcer com a elasticidade facial que as ditaduras desenvolvem quando a realidade lhes é hostil.

Mas a propaganda é apenas a maquilhagem que a realidade usa quando tem vergonha de si. E a leitura estratégica séria raramente coincide com o teatro para consumo interno.

É muito provável que os EUA estejam simplesmente a tentar extrair concessões sem pagar o custo político, económico e militar de uma nova escalada. Se mantêm o bloqueio, conservam os meios militares prontos e avisam que a campanha pode recomeçar em breve, não estão propriamente a recuar. Estão a jogar poker para testar e engodar, vício antigo das superpotências.

É precisamente por isso que o regime, enquanto posa para a fotografia da resistência indómita, se apressa a denunciar a pressão e a insinuar armadilhas. Um conselheiro de Ghalibaf falou mesmo num possível ardil para preparar um ataque de surpresa.

Quem se sente seguro não vê ciladas em toda a parte. Quem fareja ciladas é, em regra, quem sabe que a sua posição é desconfortável.  A desafiadora exuberância verbal de Teerão não traduz portanto confiança, mas sim ansiedade.

Todavia, uma decisão racional em Washington, pode ser lida em Teerão de forma muito diferente. A pausa pode ser prudente vista do Potomac, mas também pode, aos olhos iranianos, parecer excessiva sensibilidade à dor económica. E esse é talvez o calcanhar de Aquiles da Administração Trump, o nervo mais vulnerável que a guerra expôs. O estrangulamento de Ormuz, o caos marítimo, a turbulência energética, a pressão sobre o crude, os alarmes nos mercados, compuseram a velha música que os políticos americanos mais temem ouvir quando se aproximam eleições.

No próprio dia em que Trump prolongou o cessar-fogo, forças iranianas voltaram a disparar sobre navios no Estreito e apreenderam embarcações. Teerão fez pois o favor de esclarecer o que pretende. Não apenas sobreviver, mas mostrar que continua a possuir a chave da perturbação.

Aqui a questão é mais séria. O Irão, acredite ou não que a América perdeu a vontade de combater, pode pensar, e com alguma razão, que os EUA receiam o preço de combater demasiado tempo. A diferença é subtil, mas decisiva. Uma coisa é duvidar da força do adversário; outra é confiar na sua fadiga.

Regimes como o iraniano, habituados à longa arte da chantagem, têm um faro apuradíssimo para hesitações. Farejam-nas à distância. Identificam-nas, cultivam-nas, exploram-nas. Se a Guarda Revolucionária concluir que Trump quer, acima de tudo, evitar novo choque nos combustíveis, nova pressão inflacionista,  novo desgaste interno, a tentação será endurecer posições, arrastar negociações, comprar tempo, vender fumo, e trocar a demora pela sobrevivência, porque o tempo político não corre a favor da Casa Branca. Se isso acontecer, a pausa deixa de ser um instrumento de pressão para passar a ser oxigénio administrado gratuitamente ao paciente. Uma pausa com contrapartidas visíveis pode ser inteligência estratégica. Sem resultados é apenas hesitação onerosa. E esta é, na política americana, material altamente tóxico. Corrói presidências, desmoraliza aliados, excita inimigos e produz a fatal impressão de que a força existe mas a vontade vacila.

Trump move-se, assim, entre uma vantagem táctica imediata e um risco político monumental. A vantagem é que evita, para já, uma nova vaga de bombardeamentos, preserva margem diplomática e mantém formalmente a iniciativa. O risco é parecer refém das circunstâncias. A sua actuação recente ajudou pouco a dissipar a dúvida. Primeiro anunciou que não queria prolongar o cessar-fogo; depois prolongou-o até à apresentação de uma proposta iraniana e à conclusão das conversas. Os fãs chamarão genial a esta imprevisibilidade. Os menos impressionáveis chamar-lhe-ão improviso e errância táctica.

Daí também que, entre os falcões e vários militares, cresça o argumento de que a diplomacia já rendeu o que podia render, isto é, pouco ou nada. Não faltam vozes a defender que Washington deve abandonar a fantasia de mais uma ronda de conversa civilizada com um regime que aproveita cada trégua para respirar, recompor-se e retomar a chantagem em melhores condições. A tese, reduzida ao essencial, é que a liderança iraniana está muito danificada, a cadeia de comando apresenta fracturas, a economia está debilitada, a sociedade vive sob grande tensão, logo este não é o momento de afrouxar a pressão, mas de a agravar até o regime ceder.

Do ponto de vista militar, o raciocínio é límpido. Se o adversário vacila, a pior opção é oferecer-lhe tempo para se recompor. A guerra tem uma lógica própria, que raramente recomenda pausas piedosas quando o outro lado cambaleia. Convém não sobrestimar o regime iraniano em nome da prudência. O país está com fragilidades militares, económicas e sociais severas. A guerra agrava uma situação já deteriorada, empurrando mais gente para a pobreza, aprofundando o desemprego e aproximando uma crise de sustentação. Antes desta fase já havia protestos nacionais contra a degradação económica e social, e a resposta do regime foi a resposta típica das tiranias que se agarram à vida: repressão brutal, mortos, prisões, silêncio imposto a tiro. Neste momento o regime está armado, mas não está tranquilo. Está de pé, mas menos firme do que estava. E é por isso que cada trégua lhe sabe a remédio.

A experiência americana está repleta de campanhas em que a política quis administrar a guerra em prestações, como quem compra um electrodoméstico caro, e acabou apenas por prolongar o custo sem resolver o problema. Guerras de para, arranca e recomeça, preferidas pelas democracias fatigadas, que desejam colher os benefícios da força sem pagar o preço da decisão, tendem a deixar mais ruína do que clareza.

Penso que, militarmente, o Irão fará mal em confundir pausa com impotência americana. Politicamente, Trump fará pior, se prolongar indefinidamente uma suspensão que não produza nada de tangível. Se arrancar concessões concretas, venderá esta manobra como disciplina, contenção e força. Se não conseguir nada, ficará com o pior dos mundos: uma guerra sem decisão e uma diplomacia sem frutos. E se isso acontecer, a propaganda iraniana deixará de ser mera encenação para começar a assemelhar-se a uma descrição plausível dos factos.

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no. Os eleitores americanos também. Resta saber se Trump, no meio das suas coreografias de força e hesitação, ainda percebe a diferença entre suspender o golpe e perder a mão. Irão 

MÉDIO ORIENTE        MUNDO

 

COMENTÁRIOS (de 63)

José B Dias: O aqui cronista sente a falta do "smell of napalm in the morning" ... questiono-me se também ouve Wagner enquanto escreve 🤔

Nuno Pinho > Américo Silva: Eu ajudo:
Irão
Execuções extrajudiciais de manifestantes (especialmente após os protestos de 2019 e 2022)
– Tortura sistemática de detidos políticos
– Violência sexual contra manifestantes sob custódia estatal
– Detenções arbitrárias generalizadas
– Julgamentos sem garantias mínimas de defesa
– Repressão institucionalizada contra mulheres (polícia da moralidade)
– Perseguição sistemática de minorias religiosas (Bahá’ís, cristãos convertidos, sunitas)
Qualificados por missão independente do Conselho de Direitos Humanos da ONU como possíveis crimes contra a humanidade.
Rússia
– Ataques deliberados ou indiscriminados contra civis na Ucrânia
– Bombardeamento de infraestruturas civis (energia, hospitais, habitação)
– Execuções sumárias em territórios ocupados
– Deportação forçada de crianças ucranianas
– Tortura em centros de detenção em territórios ocupados
– Uso de violência sexual como instrumento de guerra
O Tribunal Penal Internacional emitiu mandado de detenção contra Vladimir Putin pela deportação ilegal de crianças
Além disso:
– Destruição massiva de áreas civis na Chechénia (Grozny)
– Ataques contra hospitais e infraestruturas civis na Síria em apoio ao regime de Assad
Documentados por missões da ONU e organizações internacionais independentes
Coreia do Norte
– Existência de campos de prisioneiros políticos com trabalho forçado
– Execuções públicas sistemáticas
– Tortura institucionalizada
– Desaparecimentos forçados
– Perseguição religiosa total
– Escravização laboral em campos penais
– Controlo absoluto da circulação interna e externa da população
A Comissão de Inquérito da ONU concluiu que estes actos constituem crimes contra a humanidade em curso

Nuno Pinho > Américo Silva

Acrescento:
- Degolação e decapitação de civis a 7 de outubro.

Sr Leão: Além do conhecimento extenso da situação que informa a comunicação, o Coronel exprime-se de uma forma literariamente brilhante.

A informação e o prazer da leitura são as duas grandes vertentes que fazem a qualidade e o sucesso de um jornal.

Maria Tubucci: Calma Sr. Coronel, tem de dar tempo ao tempo. Segundo  consta, no Irão está instaurada uma luta de poder entre 3 ou 4 facções, o D Trump está a dar-lhes tempo para se poderem aniquilar umas às outras e uma tomar o poder, para assim ter com quem negociar mais seriamente. À facção mais sanguinária o IRGC, está a deixá-los pousar para depois levarem chumbo. Uma pausa também faz bem, por exemplo, para deixar os líderes europeus com os nervos em franja, é uma pausa estratégica, pois o D Trump tem muito mais informação que qualquer um de nós ... 

miguel cardoso: Dou-lhe os parabéns, Senhor Coronel! Alguém que diga o óbvio!

Nuno Pinho > José B Dias: Anda distraído….sempre atarefado a analisar os USA/Israel e Europa….menos presente  no que toca aos podres dos estados “irmãos” unidos como “nunca”.

João Diogo: Excelente crónica, como sempre , assertivo , lúcido e bem escrita.

João Amorim: Análise perfeita.

Jose Carmo > José B Dias: O autor sente só a falta de pãezinhos quentes pela manhã e ouve o que calhar enquanto escreve, desde a betoneira das obras ali ao lado, até ao piar das gaivotas, passando por música de todos os géneros, excluindo a Internacional e o Avante Camarada Avante.

Ana DESVIGNES > José B Dias: Que comentário mais disparatado, Sr. Dias. Se quer evocar o "Apocalypse now" arranje outro pretexto. Mas para já releia o texto do cronista e deixe-se de tretas !

Jose Carmo > Américo Silva: Um crime de guerra é uma violação grave do Direito Internacional Humanitário, cometida no contexto de um conflito armado, internacional ou interno, por pessoas que participam directa ou indirectamente nesse conflito.

Jose Carmo > José B Dias: 60% de enriquecimento não é para fins civis. É para estar a algumas semanas de uma bomba nuclear 

Kindu: O Irão pode ganhar tempo, mas também lhe vai sair caro. Há aqui um factor pouco conhecido. Impossibilitado de exportar e não havendo mais capacidade de armazenamento, será preciso fechar poços de petróleo. Acontece que um poço fechado perde-se para produção, por muito tempo ou para sempre. Este factor está com certeza a ser tido em conta nas tácticas adoptadas pelos dois lados.

David Pinheiro > José B Dias: Mais um que acredita nas "fiscalizações" da AEA

adriano ribeiro: Brilhante análise. O melhor cronista sobre este tema. Espero que Trump tenha alguém que lhe diga isto.  Como em tudo na vida é o qb do sal que determina o sucesso ou o desastre.  10 a 0 a todos os analistas 

Maria Nunes: Muito bem Sr. Coronel JAR. 

Komorebi Hi: A vitória do Irão é uma falácia propagada pelos media ocidentais e pelos canais ligados ao Islão e RPC que a propósito está numa situação de graves problemas de reservas de petróleo e derivados como muitos outros países incluindo a UE. O poder no Irão poderá estar à beira de numa situação semelhante ao que sucedeu no Iraque depois da execução de Sadham, ou na Líbia com a execução de Kadhafi. O próximo passo e não outro, será a destruição das infraestruturas no Irão, provocará pulverização do poder semelhante ao que sucedeu no Iraque, há que pensar duas vezes. As duas forças militares no Irão são a Guarda Revolucionária e o Exército, só dando força ao Exército e enfraquecendo a Guarda Revolucionária será possível alterar o panorama político no Irão que não tem estrutura de governo sólida no momento. Como dizia o outro: "penso eu de que..."

As consequências


Dos actos sentimentais humanos. sejam estes susceptíveis ou não de provocar o prazer físico e espiritual, são muitas vezes nefastas,  sobretudo para a Mulher, em virtude da sua condição de inferior qualidade física exigente de superior qualidade moral, esta criada pelo Homem para a Mulher - pesem embora algumas “Madame Bovary´s das excepções comportamentais -  naturalmente merecedoras de reparo, pela fuga aos conceitos da moral criada também pelo Homem - as Madame Curie (s) votadas que são a estudos mais de carácter científico.

Mas repito o  justo COMENTÁRIO de JOSÉ B. DIAS sobre a excelência do texto de PATRÍCIA FERNANDES:

“José B Dias: Aleluia!! Uma voz de bom senso e racionalidade num mundo cada vez mais movido a emoções básicas e desejos mágicos ...”

 

As limitações do consentimento

Se os conceitos filosóficos não considerarem as diferenças naturais entre homens e mulheres, as políticas que se baseiam neles acabarão por gerar efeitos indesejáveis

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 27 abr. 2026, 00:21

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É por muitos considerado um dos capítulos mais bonitos da literatura ocidental. Começa com uma rainha “ferida já há muito por séria pena de amor” e que hesita perante os sentimentos que tem pelo hóspede recente. Já recusou muitos candidatos e manteve-se fiel ao marido morto, mas Eneias faz vacilar o seu espírito – o que, numa mulher, significa geralmente que bastam condições propícias para que a sua vontade ceda. Vénus e Juno, por razões diferentes, garantem que tal aconteça, mas:

“Aquele primeiro dia foi a causa da catástrofe, aquele primeiro dia a causa da desgraça, e nem Dido é demovida pelas conveniências da sua reputação nem reflecte já num amor furtivo. Chama-lhe matrimónio e com este nome encobre a culpa.”

Dido consentiu nesta entrega, mas fê-lo dizendo a si própria que se tratava de “matrimónio”. Já para Eneias, apresentado como igualmente apaixonado, os mesmos actos são entendidos de forma diferente pelo que não hesita quando o pai dos deuses o manda partir para a missão a que estava destinado. Abandona Tiro e Dido suicida-se:

“Morrerei sem vingança. Morra embora! Mesmo assim, mesmo assim me apraz descer ao reino das sombras! Que o cruel Troiano, lá do mar alto, ponha os olhos nestas chamas e consigo leve o agouro da minha morte.”

1O paradigma do consentimento

O termo liberalismo ainda não tinha sido cunhado e já John Locke fundamentava a sua teoria política na ideia de consentimento. O contexto era o da revolução gloriosa, pela qual os revolucionários afastaram o rei James II e convidaram William de Orange para governar nos termos da Bill of Rights. Locke trabalhava a partir da tradição contratualista e centrava no indivíduo e nos seus direitos naturais, de que dispunham no estado de natureza, toda a lógica política: o estado civil e político só surgiria com o consentimento dos indivíduos que concordavam submeter-se ao contrato social.

A tradição liberal subsequente trabalhou a partir deste conceito, mas terá sido Immanuel Kant, como em tantas outras coisas, a deixar a herança mais relevante, sobretudo com a ideia de dignidade humana. O respeito pela liberdade, racionalidade e dignidade exigia consentimento e é isso que vamos encontrar no século XX, em especial no domínio da Bioética a partir da segunda guerra mundial, com o amadurecimento da expressão consentimento livre e informado.

Mas talvez precisemos de um terceiro autor para fechar esta revisitação histórica: John Stuart Mill, ao consagrar o princípio do dano como princípio de legitimidade da acção política, garante que a intervenção do estado só é legítima se tiver como objectivo evitar o dano a terceiros. Resulta desta ideia que o indivíduo deve dispor do mais amplo espaço de liberdade para gozar da sua vida e dispor do seu corpo como bem entender desde que não provoque danos a outrem.

Todos estes contributos dão forma à moralidade liberal dos nossos dias: a partir de um paradigma do consentimento, as sociedades liberais tendem a organizar-se em torno da noção de que aquilo que está certo ou errado deve ser apreciado 1) em função da vontade expressa do indivíduo e 2) desde que não provoque danos a terceiro.

2As limitações do consentimento

Foi este paradigma de consentimento livre e informado que se instalou no espaço público e é recorrentemente apresentado como verdade última para determinar a moralidade e a legitimidade das nossas acções. Como se o ato de consentimento bastasse para expurgar todos os problemas.

Não é, porém, difícil de compreender que, como sempre acontece com os conceitos filosóficos e políticos, também o consentimento tem as suas limitaçõesMichael Sandel, no exercício permanente de questionar os pressupostos do liberalismo, chama a atenção para situações em que, apesar de parecer haver consentimento livre e informado, este não resiste a uma análise mais profunda.

Seria o caso das “barrigas de aluguer”, muito populares nos Estados Unidos, e que resultariam de um acordo entre as partes. Mas quando uma mulher, sobretudo jovem e numa primeira gravidez, celebra um contrato pelo qual consente em “vender” o bebé que vai carregar durante a gestação, sabe realmente no que está a consentir? É um consentimento realmente informado? Não é por acaso que algumas legislações procuram superar esta dificuldade criando como condição que a mulher já tenha sido mãe: já saberia pelo menos o que significa o processo de gestação.

Mas podemos levantar uma segunda dificuldade: quando as barrigas de aluguer são contratualizadas com mulheres mais pobres (em particular de países mais pobres), o consentimento é realmente livre? Também neste caso algumas legislações são desenhadas a pensar nesta desigualdade entre as partes.

O mesmo tipo de argumentário aplica-se à prostituição e à pornografia, mas os problemas levantam-se igualmente quanto à eutanásia (o livro mais recente de Kathleen Stock desafia-nos precisamente a pensar nestes limites, numa altura em que, no Reino Unido, o assunto está em cima da mesa): a partir do momento em que se abre a porta a este tipo de legislação, como garantimos que o consentimento é realmente livre e informado?

A eutanásia é, aliás, o melhor exemplo de como o apelo à chamada “falácia da rampa escorregadia” é apenas uma estratégia discursiva para silenciar um problema. Em alguns países que aprovaram entusiasticamente a eutanásia em situações muito determinadas, a legislação acabou por ser alterada para facilitar cada vez mais a sua utilização – num verdadeiro acto de rampa escorregadia.

E o mais grave desses deslizamentos é o que diz respeito à eutanásia infantil, com crianças que ainda não completaram o seu processo de amadurecimento cerebral a poderem requerer ser eutanasiadas. Trata-se, aliás, de uma situação paralela aos procedimentos de género que invadiram o Ocidente nos últimos anos: como podemos reconhecer como válido o consentimento de crianças e jovens para medidas tão profundas e irreversíveis?

Mas talvez o caso que desperta mais surpresa e reflexão quando o discuto nas aulas seja o do chamado “Canibal de Rotemburgo e que revela bem como, apesar do discurso histriónico que pulula no espaço público, o paradigma do consentimento tem muitas limitações.

3O feminismo reaccionário

Regressemos ao livro IV da Eneida, o poema épico que Vergílio escreveu no século I a.C. e que me parece a melhor representação do pensamento que tem vindo a ser designado, a partir de Mary Harrington, como feminismo reaccionário.

O feminismo reaccionário procura questionar os pressupostos mais importantes do feminismo liberal e, em particular, do paradigma do consentimento, destacando que este conceito não é adequado para abarcar a complexidade das relações entre homens e mulheres e todas as dimensões da vida sexual.

Afinal, e como chama a atenção Louise Perry, homens e mulheres são não só biologicamente diferentes, como também psicologicamente diferentes, tendo desenvolvido estratégias adaptativas distintas no processo de evolução (em resposta, fundamentalmente, a necessidades reprodutivas). Não seria, assim, por acaso que o livro IV da Eneida continua a ressoar entre nós: também aqui o consentimento expressa coisas diferentes para Dido e Eneias.

Quais são as consequências de aceitarmos este argumento de que homens e mulheres são fisica e psicologicamente diferentes (e é incrível como se tornou um acto de coragem dizer isto publicamente), considerando sempre a regra de distribuição normal?

A principal consequência é a recusa da “teoria da página em branco”, que formata muito dos argumentos utilizados no espaço público e defende que nascemos sem quaisquer condicionamentos físicos ou biológicos. Em sentido contrário, e para usar a expressão de Jonathan Haidt, devemos pensar-nos comopáginas rascunhadas” pelo que, apesar de não estarmos totalmente determinados, existem limites para as alterações que podemos impor socialmente. E quando forçamos demasiado esses limites, os sintomas manifestam-se em mal-estar social (qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência).

Isto significa que, se os conceitos filosóficos não considerarem estas diferenças naturais, as políticas que se baseiam neles acabarão por gerar efeitos indesejáveis, como acontece tantas vezes com o conceito de consentimento. É nesse sentido que Christine Emba, em Rethinking Sex, reflecte sobre como a cultura de “casual sex”, prevalecente nas universidades norte-americanas e centrada no paradigma do consentimento, tem deixado a maioria das mulheres jovens emocionalmente insatisfeitas.

Os anos #metoo são, aliás, uma boa imagem desta complexidade: juntamente com situações reais de assédio e abuso, foram apresentados muitos casos em que as relações sexuais simplesmente não tinham correspondido ao que as mulheres desejavam, fazendo com que se sentissem emocionalmente abusadas no dia seguinte, apesar de ter havido… consentimento.

Mas o argumento de Louise Perry vai mais longe: não só o conceito de consentimento não reflecte o modo como a maioria das mulheres olha para as relações entre os sexos, como deixa as mulheres mais desprotegidas por fazê-las acreditar que o consentimento é suficiente para travar impulsos biológicos e psicológicos. O problema não estaria, assim, no facto de vivermos num sistema patriarcal (argumento que o feminismo reaccionário recusa), mas no facto de o paradigma do consentimento nos fazer esquecer que somos seres corpóreos, pelo que alguns homens (a minoria) farão sempre valer o seu desejo e a sua maior força física.

Como não somos páginas em branco, também não somos seres puramente racionais e que agem em resposta a conceitos abstractos. E, por isso, o melhor que podemos fazer pelas nossas filhas não seria falar em “consentimento”, mas fazer notar que, dadas as diferenças biológicas entre homens e mulheres, elas não se devem colocar em situações de fragilidade.

IGUALDADE DE GÉNERO        SOCIEDADE

 

COMENTÃRIOS (de 14)

José B Dias: Aleluia!! Uma voz de bom senso e racionalidade num mundo cada vez mais movido a emoções básicas e desejos mágicos ...

Joaquim Carvalho: "... homens e mulheres são física e psicologicamente diferentes (e é incrível como se tornou um acto de coragem dizer isto publicamente)". A Patricia Fernandes é simplesmente a colunista mais sofisticada que escreve no Observador. Incrivel como continuamos a lutar com conceitos tão abstrusos como a "teoria da página em branco". Obrigado Patrícia.

Rosa Silvestre: A primeira defesa de qualquer pessoa, nomeadamente da mulher, é precisamente evitar situações que se adivinhem de risco.

Rui Lima: Artigo útil que todo o homem e mulher devia ler

Tomazz Man: Como é que a regra mais básica de todas, nao nos colocarmos em risco, se transformou em algo impossível de verbalizar?!!

 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

CONCLUSÃO

 

Do policial” precedente”:

 

“Uma história dourada”

 

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

 “Buscas muito prolongadas” surpreenderam vizinhos de norte-americano

À porta da vivenda na rua Luís de Camões, somam-se os jornalistas, se bem que num aparato bem inferior ao causado pelos inspectores envolvidos nas buscas ocorridas na semana passada e que se alongaram por vários dias. Atrás da fachada, e fruto das obras idealizadas pelo norte-americano, a casa esconde outro anexo que chega quase à zona do jardim que era, dantes, uma piscina. Dada a dimensão do material escondido naquela habitação, as “buscas foram muito prolongadas”, como confessou o director da PJ do Centro. “Foi um trabalho hercúleoque não se restringiu apenas à casa do norte-americano, “por motivos óbvios”, mas também se prolongou “à casa do mordomo”, acrescentou Avelino Lima.

Reunidas entre as vedações das casas a discutir o que aconteceu, três vizinhas confessam que só viram “algumas carrinhas” que ocupavam grande parte da rotunda. “Perguntei o que se passava aqui, com tanto carro à porta”, recorda uma delas. Como não viram as identificações dos inspetores da PJ e só repararam no entra e sai de objectos que eram levados para um carro de porta aberta, disseram que “deviam ser mobílias para arrendar a casa do falecido [norte-americano]”.

“Era um homem bem feito, elegante, nunca imaginei que fosse ter em casa quadros do Picasso e do Miró e de outros que eu nem sei dizer o nome…”, desabafa uma vizinha que continua sem perceber como é que aquelas obras — cuja autenticidade ainda está a ser comprovada — foram parar à sua rua.

 PJ do Centro lidera investigação

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

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PJ acredita que origem das obras é ilícita e aponta norte-americano como possível branqueador

A alguns quilómetros dali, a equipa da PJ do Centro, dirigida por Avelino Lima, reúne esforços para seguir as poucas pistas sobre a vida deste norte-americano que, acredita, terá usado estas obras para branquear os ganhos de alguma actividade criminosa. “As informações que temos é que a origem das obras poderá não ser lícita, daí o branqueamento”, resume o responsável, a partir da sede de Coimbra, a escassos metros das Escadas Monumentais.

“É uma investigação de enorme complexidade e que levará o seu tempo para que não restem quaisquer dúvidas quanto à origem e ao destinatário das obras de arte”. Para já, e segundo apurou o Observador junto da Museus e Monumentos de Portugal, 15 obras já estariam prontas a serem vendidas para França.

“No presente caso, não houve qualquer denúncia, tendo sido identificada a irregularidade da situação a partir da comunicação prévia de expedição temporária com possibilidade de venda em França, de quinze bens artísticos, que deu entrada na MMP a 4 de março de 2025. Apresentando-se o processo mal instruído e com incongruências de propriedade dos bens, a Direcção de Colecções, Circulação e Classificação aprofundou a investigação interna que habitualmente desenvolve em sede de apreciação processual, o que haveria de conduzir a informação duvidosa sobre os intervenientes”, resume a MMP em resposta ao Observador.

Ainda fora do mercado, mas com as obras prontas a serem enviadas para uma “conhecida leiloeira internacional”, a PJ entrou em campo para travar a transação. “A investigação resulta de um americano entretanto falecido que comprou aquela residência e decorou-a com belo gosto e com uma quantidade incrível de obras de arte”, explica Avelino Lima.

“O mordomo considerou ser o legítimo herdeiro das obras de arte e tentou vendê-las. A partir daí propunha-se uma acção imediata” para identificar a origem daquele património antes da sua venda. A investigação tenta perceber duas questões: se M. L. é, de facto, o herdeiro legítimo daquele espólio e, depois, se o próprio americano teve acesso às obras de forma legal — sobre este segundo ponto, segundo revelou a PJ, já existem alguns indícios que sustentam uma forte suspeita de que as obras tenham sido adquiridas de forma ilegal.

"As informações que temos é que a origem das obras poderá não ser lícita", disse Avelino Lima INÊS LACERDA/OBSERVADOR

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Sem desvendar o percurso do norte-americano ou um passado ligado ao crime, o diretor da PJ do Centro admite que há “uma grande possibilidade” de este homem pertencer a redes criminosas internacionais, “considerando alguns conhecimentos que temos do seu histórico aqui na Europa”. Com a certeza que, por ter morrido, não será, naturalmente, perseguido criminalmente, Avelino Lima revela “alguns indicadores” que o colocam como figura central no processo de branqueamento de capitais de “organizações internacionais”.

As suspeitas de ligações criminosas adensam-se por não ser conhecido qualquer percurso profissional do norte-americano. “Não temos conhecimento do exercício de uma actividade corrente”, destaca o director. Por outro lado, já “há um conhecimento significativo sobre o cidadão e a sua família, em princípio tem herdeiros”.

Dada a dimensão dos crimes que podem estar em causa, a PJ tem tido a colaboração de entidades como a Europol e a Interpol, que apoiam este trabalho “hercúleo” em mãos dos investigadores portugueses. “Esperamos que com o cruzamento de informação internacional possamos ter respostas mais breves, mas também estamos a falar de perícias que são demoradas, porque é uma quantidade enormíssima de obras”.

Para esse trabalho de peritagens, que permitirá perceber realmente a autenticidade das obras, a PJ conta com dois especialistas escolhidos pelo Museu Nacional de Machado de Castro, como revelou fonte do museu ao Observador. Como já tinha adiantado a mesma fonte ao Observador, os peritos têm confiança que estas obras são “genuínas”, mas só a “perícia formal” o determinará com toda a certeza,

“É muito prematuro eu afirmar o valor, as perícias vão ser determinantes a esse nível. Nós estamos a falar de autores consagrados, como é sobejamente conhecido, estamos a falar de obras de muita antiguidade, nunca poderemos para já avançar com um valor minimamente adequado. Mas estamos a falar de um valor, de uma forma simplista, na ordem dos milhões”, detalhou Avelino Lima. Para já, podem estar em causa os crimes de branqueamento de capitais e abuso de confiança, motivo pelo qual M. L. foi constituído arguido, ficando apenas com Termo de Identidade e Residência.

Levantada a hipótese de o mordomo não ter real noção do material que tinha em mãos, a PJ afasta essa teoria, recordando que o próprio procurou “tirar proveito económico” com a venda das obras e teria conhecimentos de um “círculo estritamente restrito que é o negócio da arte”.Há um conjunto de poucas pessoas que têm acesso e domínio destas matérias e que em função deste domínio podem negociar isto”. No caso, M. L. “achou-se no direito [de lucrar com as obras]. Mas estamos em crer que ainda não terá vendido estas obras”.

A MMP esclarece ao Observador que continuará a colaborar com “o objectivo de traçar a proveniência dos bens culturais em causa”.As competências e atribuições da MMP não se confundem com as da PJ; continuaremos a desenvolver, isso sim, estreita colaboração institucional e a prosseguir objectivos comuns no que concerne ao combate ao tráfico ilícito de bens culturais”. A lista final das obras apreendidas continua na posse da PJ.

A investigação “muito recente” — com uma “comunicação e uma atuação muito rápida” porque “havia riscos” — vai continuar à procura de eventuais cúmplices deste crime. Agora, resta esperar. Tanto da parte do mordomo — “não faz sentido avançar com iniciativas processuais sem termos um domínio mais adequado de toda a realidade” — como dos eventuais afectados com o desaparecimento das obras — “neste momento temos um trabalho pericial em curso, depois há que procurar junto de museus ou coleccionadores particulares. Haverá um momento para isso, admito que com esta publicitação, quer museus, quer colecções privadas possam comunicar com a PJ”, remata Avelino Lima.

Enquanto em Coimbra a PJ investiga, os vizinhos do falecido americano desdobram-se em questões sobre o património — agora à guarda da polícia — que tiveram ali tão perto durante tanto tempo, mas sob segredo. “Tenho quadros, mas não têm valor… ou têm, mas é valor sentimental, dos meus filhos e do meu marido. Mas os outros [do americano] não era só valor sentimental”, assinala outra vizinha. “Por isso é que eu digo que a transparência vale muito. Na minha casa podem entrar que não tem nada para ver.”

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