sábado, 7 de março de 2026

O professor de Português

 

Está sujeito – como os demais professores das outras disciplinas – a um programa que impõe respeito pela matéria superiormente ordenada, não pode alterar caprichosamente os temas propostos pelo Ministério da Educação. Mas é sempre de bom tom arrasar quem se limita honradamente a essa via sem as tergiversações dos que embarcam em fugas que a vastidão literária e dos literatos pode proporcionar, num enriquecimento  que poderá captar ou não o interesse dos alunos. Todavia, é sempre de bom tom denegrir, e o rasteirismo seguidista das aulas de português atrai naturalmente a condenação dos mais exigentes. A verdade é que as demais disciplinas, objectivas e rigorosas que são, sujeitam-se aos programas, as aulas de literaturas permitem facilmente fruições superiores, desde que os professores enveredem por vias de manipulação dos programas – o que parece ser o caso descrito pelo aluno de Lobo Antunes. O certo é que serão esses que sobressaem … e sobretudo se forem referências ilustres, como no caso citado pelo discípulo de Lobo Antunes. Fosse este um vulgar professor, sem nome distinto, não seria, talvez referenciado, pois não traria importância ao autor do texto que segue:

Lobo Antunes foi meu professor de português 

No meio de leituras redondamente moralistas de textos durante as aulas, depois da insipidez das “explicações” das obras obrigatórias, Lobo Antunes mostrava-me que a literatura podia ser outra coisa.

P. JOÃO BASTO: Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR, 06 mar. 2026, 00:2410

O primeiro texto que li de António Lobo Antunes terá sido uma crónica nas aulas inaugurais do secundário. Chamava-se “Chopin é um frango”. Na verdade, li-o ainda nas férias, num apartamento grande, ainda em luto pela morte do meu bisavô, quando abri os livros novos, que tinham chegado mais cedo nesse ano. De lá para cá, aquela sensação de ser enganado por um autor, de ele nos perseguir, de, por fim, nos ludibriar, de isso ser imensamente mais prazeroso e bondoso que a evidência, continua a raptar parte da minha imaginação.     Durante os anos que se seguiram, nas imensas tardes livres daqueles três anos, ou nas fugas propositadas às fichas de matemática e aos exercícios de físico-química, que não escolhi voluntariamente, António Lobo Antunes foi a pessoa com quem podia falar de literatura. Fosse, de novo, nas crónicas, nos romances, ou nas entrevistas.

No meio de leituras redondamente moralistas de textos durante as aulas, depois da insipidez das “explicações” das obras obrigatórias, depois de Camões ser esquartejado para servir de alimento às pequenas bocas famintas de análise e classificação de orações, depois de tudo isso, Lobo Antunes mostrava-me que a literatura podia ser outra coisa. O seu efeito só era, então, comparável ao de quando, numa aula do 9.º ano, uma professora veio à aula de ciências apresentar o livro da sua vida e se comoveu tanto a falar de As Velas Ardem até ao Fim, que teve de sair antes do planeado. Quer num, quer noutro caso, nunca imaginei que um livro não servisse para manter a compostura.

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Odiei – secretamente ainda odeio – todos os livros que os meus professores recomendavam nas aulas, nomeadamente aqueles que se podem catalogar sob o epíteto “livros para quem não gosta de ler, mas que tem de ler alguma coisa ou porque faz bem, ou porque é preciso fazer uma apresentação oral no final do período”. Mas comovia-me sempre que António Lobo Antunes falava de um novo autor e eu o lia: Faulkner, Borges, Carver, Céline, Proust, Montaigne, Conrad. E, tal como nessa altura, ainda hoje não me interessa se os entendo. A literatura não serve para isso.

Nele, tudo parecia tão diferente das aulas de português. Quando lia a sua voz interludial, desequilibrada, empalada, sangrada, abria, através dela, mais mundo, mais feridas e mais insónias, do que lendo as habituais convenções de boas maneiras e bom gosto. Quando o ouvia dizer que só vale a pena escrever se for para mudar a história da literatura, sentia que recebia algo que os pedidos de textos expositivo-argumentativos no final dos testes não podiam satisfazer. Quando ouvia repetidamente a sua conversa com George Steiner, frequentava, finalmente, a escola que eu queria. No fim de contas, tudo parecia falar de um Deus que não era o Deus do dono da casa. A mim, no entanto, que tinha passado os verões com pessoas nascidas no início da Primeira Guerra Mundial, que tinham tido como brinquedo de infância um primeiro volume do Dom Quixote, tudo era luminoso.

Ontem, depois da notícia da sua morte, reli uma frase sua: “Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre.” Devemos fazer-lhe a vontade. Mas sem tomar paracetamol.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES       LITERATURA       CULTURA 10

COMENTÁRIOS

Daniel Estudante Protásio: Gostei muito desta crónica, apesar de não ser um apreciador de Lobo Antunes. Mas valorizo muito quem escreve sobre literatura enquanto ferramenta indispensável do lazer e de cultura.                  Maria Paula Silva: Ter tido um bom professor é uma bênção. Ter tido António Lobo Antunes como professor é uma bênção vezes mil.                    FC: Belo texto. Obrigado.             Carlos Nunes: Este padre, é um sucedâneo do imanentismo, do historicismo e da ética de situação, latentes nos artigos da imprensa secularista, que tem "catequizado" os católicos portugueses desde há muitas décadas. Nomes como o do dominicano neo-marxista Bento Domingues, o Cardeal Tolentino, o missionário Anselmo Borges, o capuchinho Ventura, e mais uns quantos avençados da elite liberal, que esporadicamente escrevem sobre o hegeliano aggiornamento eclesial nos jornais politicamente correctos.                 Margarida Almeida: Os professores que contam são os que nos abrem portas. É uma bênção ter pessoas assim, próximo! Abrem-nos para o mundo e nunca mais esquecemos que tal é possível! Bem haja,Antonio Lobo Antunes por ter sido um desses raros seres! RIP.                Idalina Amador: Lembro me q os livros de leitura obrigatória no meu tempo eram isso mesmo. A minha sorte meu pai ter uma pequena e variada biblioteca, com Hemingway, C. Mansfield, Welles, Papini, Axel Munthe, Fitzgerald, Dumas. Lembro me de no entanto ter lido com gosto Camilo, Eça e Ferreira de Castro...                 victor guerra: Sorte sua, já que tem uma profissão castradora                Américo Silva: Sinodalmente, o sinodal sínodo da sinodalidade iniciou a apresentação de conclusões, a conferência episcopal alemã pediu autorização para que os leigos façam homilias, a clerezia não se cansa de lutar contra os fiéis.                  Teresa Henriques: Lobo Antunes é um dos meus favoritos.             Maria Beatriz  > C. C. de Pinho: Gostei!

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

The Importance of Being Earnest

 

Preparativos em força para a guerra. Que já começou, claro. E seremos orgulhosamente parte activa, pois fabricaremos parte dos Gripen E, aviões de combate de potencial como se pretende no combate. Alverca é o lugar do fabrico honroso.

Os novos Gripen E, que a Saab descreve como o "o caça mais moderno do mundo”.

Happy Wilder


"Muito potencial". Suecos acenam com produção de novos caças em Portugal para convencer Governo a comprar substitutos dos F-16

Portugal vai ter de substituir os caças F-16, e a sueca Saab está de olho no contrato. Responsáveis admitem que uma parte das aeronaves pode vir a ser produzida pela OGMA, uma "óptima empresa".

ANA SANLEZ: Texto

OBSERVADOR, 05 mar. 2026, 20:084

Não é um leilão, mas a Suécia quer subir a parada. O Governo está prestes a dar início ao processo para a escolha dos aviões de combate que vão substituir os quase obsoletos F-16 da Força Aérea, e nos bastidores já se trava uma guerra de razões. À diplomacia económica dos EUA, interessados em vender os caças F-35 a Portugal, a Suécia responde não só com a promessa de entregar o “avião de combate mais avançado do mundo”, o novo Gripen E, como abre a porta à possibilidade de produzir parte do modelo em Portugal, nas oficinas da OGMA.Tem muito potencial”, diz DANIEL BOESTAD, vice-presidente do departamento de desenvolvimento dos Gripen.

Oficialmente, o Governo português ainda não deu início ao processo e não há conversas a decorrer, garante o responsável. Mas a empresa, que é uma das principais fornecedoras dos sistemas de defesa e segurança aeroespacial e naval da Europa, vai-se posicionando.Achamos que [o novo Gripen] seria um produto excelente para Portugal”, sublinhou o responsável durante uma visita com jornalistas portugueses à sede da Saab em Estocolmo.

 “Não há nenhum processo formal em andamento, vamos esperar que o Governo português lhe dê início, mas claro que vamos estar lá, e se nos fizerem questões vamos colaborar”, acrescentou DANIEL BOESTAd, deixando nas mãos do Governo e da Força Aérea a tarefa de pesar os prós e os contras. Mas atira com aquele que espera ser um “pró” para a Suécia. A Saab tem há anos uma parceria com a OGMA e, quando questionado sobre se o modelo mais recente do Gripen pode vir a ter partes fabricadas em Portugal, o responsável não hesita: “Potencialmente, claro que sim”.

A Saab já o faz com o Brasil, o primeiro país, depois da Suécia, ao qual vendeu o novo modelo do caça. Chegaram às forças armadas brasileiras “11 ou 12” aeronaves, das 36 encomendadas, e algumas partes do novo modelo foram fabricadas no Brasil, onde a Saab também tem uma parceria com a Embraer, que é accionista da OGMA. A empresa sueca comprou quatro aviões de transporte à Embraer, os KC-390, que são também em parte produzidos nas oficinas da OGMA em Alverca.Trabalhámos muitos anos com a OGMA” como subcontratada, explica o responsável. “É uma óptima empresa, fazem coisas impressionantes”.

Além do Brasil, o Gripen E já foi encomendado pela Colômbia e pela Tailândia. Também há um princípio de acordo para o fornecimento de 150 caças à Ucrânia ao longo da próxima década. Boestad não desvenda o valor que pode ter um contrato para a aquisição destes novos caças, porque “depende” de muitas variáveis. Mas sublinha que “o importante não é a etiqueta com o preço mas quanto custa operá-lo ao longo dos anos. E nós temos de longe a aeronave com o maior custo benefício ao longo do tempo”. O contrato recente que a Saab assinou com o Governo da Colômbia, por exemplo, prevê a entrega de 17 aeronaves por 3,1 mil milhões de euros.

No processo que vai levar à troca dos F-16, os suecos enfrentam uma concorrência feroz. De um lado estão os EUA. A Lockheed Martin também está interessada no contrato que o Estado português terá de fazer em breve, e tem posto a diplomacia a funcionar. Numa entrevista recente à CNN Portugal, o embaixador dos EUA em Lisboa, John Arrigo, destacou as vantagens da aeronave norte-americana. “O F-35 é o melhor caça. É um caça furtivo de quinta geração, vai levar a Força Aérea Portuguesa à Liga dos Campeões da UE”, defendeu. Questionado sobre se a diplomacia sueca também já começou a mexer-se neste sentido, Daniel Boestad não se alonga: “Só Portugal é que pode decidir o que quer”.

“Os nossos engenheiros costumam dizer ‘criamos o código de manhã e à tarde estamos a voar’. Na prática, talvez seja esticado dizer que é possível introduzir novas funções na aeronave num dia, mas em menos de uma semana é possível. Mais ninguém consegue fazer isso”.

. Daniel Boestad, vice-presidente do departamento de desenvolvimento dos Gripen

Em setembro do ano passado, segundo noticiou o Expresso, o ministro sueco da Defesa visitou Portugal e assinou dois memorandos de entendimento para, de acordo com o jornal, “intensificar a cooperação industrial no âmbito do desenvolvimento do caça Gripen”. Um dos memorandos foi assinado com a OGMA, e visa a produção, manutenção e reparação de aeronaves. O outro foi assinado com a Critical Software para que as duas empresas avaliem projectos de software para a aviação. Também de acordo com o Expresso, em fevereiro o vice-presidente da Saab, Johan Segertoft, esteve em Lisboa para uma visita à tecnológica na sequência desse memorando.

Além da Lockheed Martin, os suecos também têm concorrência europeia na corrida ao contrato para equipar a Força Aérea Portuguesa. A divisão de defesa da Airbus, a Airbus Defence and Space, que faz parte do consórcio Eurofighter e equipa membros da NATO como Alemanha, Espanha ou Itália, já começou a fazer diligências nesse sentido. No final do ano passado, assinou um memorando de entendimento com a AED Cluster Portugal, o Cluster Português para as Indústrias de Aeronáutica, Espaço e Defesa, precisamente para “criar uma proposta industrial valiosa para a substituição” dos F-16 com uma “solução verdadeiramente europeia, o programa Eurofighter”. Tal como os suecos, a Airbus acena com uma ‘moeda de troca’: o centro tecnológico de Coimbra e a fábrica de Santo Tirso, que ainda este ano receberá investimento com vista à expansão, e que poderá crescer mais caso o consórcio seja o escolhido na substituição dos F-16.

O que é que o Gripen E tem?

É, neste momento, “o caça mais moderno do mundo”, além de ser também, a nível global, o modelo de avião desenvolvido mais recentemente. Mas a juventude não é o factor que os suecos destacam no Gripen. “Parece muito semelhante às versões anteriores, mas é completamente diferente. Sobretudo por dentro. O Gripen E dá ao piloto e à Força Aérea algo que é essencial hoje em dia em combate, que é velocidade. E não estou a falar de voar depressa, estou a falar da velocidade com que o modelo pode ser alterado”, começa por explicar.

Com a tecnologia cada vez mais presente no campo de batalha, os equipamentos de defesa “têm de se adaptar depressa” às condições do terreno. “É dessa velocidade que estamos a falar. Essa foi a pedra de toque quando estávamos a decidir desenvolver este modelo. Os sistemas informáticos do novo Gripen podem ser alterados muito depressa”. Nos modelos anteriores, não só do Gripen mas de qualquer caça, “se quisermos fazer alguma alteração temos de falar com as pessoas da indústria, eles levam o avião, demora tempo e custa muito dinheiro. O avião estará de volta talvez num ano ou dois, depende das alterações”.

 Produção dos Gripen na fábrica de Linköping, na Suécia.

Per Kustvik/ Saab

O Gripen, detalha, deu um passo à frente.Os nossos engenheiros costumam dizer ‘criamos o código de manhã e à tarde estamos a voar’. Na prática, talvez seja esticado dizer que é possível introduzir novas funções na aeronave num dia, mas em menos de uma semana é possível. Mais ninguém consegue fazer isso”.

E dá um exemplo. “No ano passado pegámos num avião e introduzimos um agente de IA, que foi treinado para um tipo de batalha. Foram precisas duas ou três semanas para fazer a integração. Depois fomos voar. Isto foi em espaço aéreo civil, muito controlado. O Gripen voou sozinho, o piloto afastou as mãos dos comandos, e estava a voar contra outro avião que tinha piloto”. Ao fim de “algumas” missões, o piloto que estava a voar manualmente “não conseguiu ganhar. Isto mostra sobretudo o quão rápido conseguimos introduzir uma função destas na aeronave e voar no espaço aéreo civil. Mais ninguém está a fazer isso”.

 “Por vezes comparamo-lo ao iPhone”, acrescenta Ingemar Karlsson, responsável da Saab para Portugal e Espanha. “A plataforma é a mesma mas conseguimos fazer um upgrade do software, ter novas aplicações… Qualquer um pode fazer alterações no Gripen através de código, isso não afecta o voo. Os engenheiros separaram o software crítico de missão do software crítico de voo. É possível fazer tudo no que toca a funcionalidades e acrescentar outras novas sem comprometer a segurança dos voos. Caso contrário, as aeronaves teriam de receber novas certificações depois de um upgrade”, como acontece com os restantes modelos de caças.

Na indústria “fala-se muito das gerações de aeronaves, aqui nós podemos mudar de geração todos os dias. Como o combate está cada vez mais tecnológico, não podemos demorar dois anos nem sequer dois meses a adaptar-nos”, resume Daniel Boestad.

Os novos caças não estão incluídos no pacote de 5,8 mil milhões de euros do empréstimo que Portugal garantiu junto da UE no âmbito do mecanismo SAFE para investimento em defesa. Mas a Saab tem outros planos para Portugal além dos caças.

O submarino Ikea e o avião Top Gun

É com submarinos de guerra, torpedos e camuflados que os visitantes são recebidos na sede da Saab na capital sueca. Afinal, a Saab existe por causa da guerra. A empresa nasceu na década de 1930 porque o governo sueco, perante a ameaça de um conflito mundial, quis começar a produzir os seus próprios aviões. O primeiro assento ejectável da história da aviação militar foi inventado pelos suecos. Da história da Saab faz ainda parte a Bofors, especializada em material militar, e cujo dono mais célebre foi Alfred Nobel. E também os carros, que a empresa não produz desde 2011. “Mas todas as semanas recebemos emails de pessoas a perguntar por eles”, confessam os responsáveis.

Os modelos de armas de guerra em exposição em Estocolmo, a mais de 200 quilómetros da fábrica da Saab em Linköping, são à escala reduzida e exibidos num ambiente sombrio, que contrasta com o segundo dia de sol do ano em Estocolmo. No dia em que o Observador visitou as instalações da Saab, o conflito no Médio Oriente escalava depois dos ataques dos EUA e de Israel ao Irão. Três caças norte-americanos tinham sido atingidos por “fogo amigo” no Kuwait, “porque os radares não conseguiram identificar de onde vinham” e as defesas aéreas dispararam, explica Ingemar Karlsson junto a um dos radares fabricados pela Saab. Estes dispositivos, “se não rodarem, conseguem ver mais longe. Se rodarem têm uma visão 360º, mas é mais limitada”, acrescenta.

 Radares, mísseis e camuflagem em exposição na sede da Saab em Estocolmo.

Happy Wilder

Este sábado passam dois anos desde que a Suécia aderiu à NATO. O banco central da Suécia, o Riksbank, emitiu esta semana uma recomendação, “dada a atual situação internacional”, para que os suecos tenham em casa mil coroas suecas (pouco menos de 100 euros) por adulto, para que consigam fazer face a “disrupções temporárias, crises e, no pior cenário, guerra”. E é de guerra que se fala na Saab.

A ‘montra’ de artefactos da empresa sueca começa com o mais recente modelo de submarino, o A26, capaz de permanecer debaixo de água por períodos muito prolongados de tempo. Quanto? “É segredo”, mas “certamente algumas semanas”, explica Ingemar Karlsson. São, por isso, mais difíceis de encontrar, garante o responsável da Saab. Foram também concebidos para não emitirem vibração, o que os torna mais caros que outros modelos. “Foi uma decisão que tomámos para termos hipóteses contra o nosso ‘amigo’ do leste”, resume. É também, acrescenta Ingemar Karlsson, um “submarino Ikea”. Ou seja, é modular e pode ser comprado e montado com mais ou menos módulos. Para já só é utilizado pela Suécia mas está prestes a ser adquirido pela Polónia.

 Produção de submarinos nas oficinas da Saab. Saab

O responsável pela Saab em Portugal e Espanha sabe que a Marinha portuguesa tem dois submarinos, o Tridente e o Arpão, fabricados na Alemanha, até porque estão equipados com componentes da empresa sueca, como sensores e radares de alerta. A compra de A26 não entrará nas contas da Marinha, que estará actualmente “a olhar para a aquisição de mini submarinos”, segundo os responsáveis suecos. No verão do ano passado, a Marinha assinou um memorando na Coreia do Sul com a HD Hyundai Heavy Industries para o desenvolvimento de um pequeno submarino.

A Portugal, a Saab vendeu ainda radares e sistemas de sensores para equipar a fragata Vasco da Gama no processo de modernização que está a decorrer no Alfeite. E também camuflagem para os jipes VAMTAC usados pelo exército. Mas a empresa sueca está atenta ao Plano Nacional de Investimentos em Defesa, e à anunciada lista de compras de Portugal de 5,8 mil milhões de euros. “Vamos ver o que vão comprar. A nova LPM (Lei de Programação Militar) surgirá dentro de alguns meses. Creio que estão à espera de ter dinheiro para comprar coisas novas. Esperamos que tanto a Força Aérea como a Marinha e o Exército recebam dinheiro, mas ainda não sabemos”, confessa o responsável da Saab para Portugal.

O que não deverá chegar a Portugal é o “Top Gun” da Saab, um dos equipamentos mais populares que os suecos fabricam actualmente, devido ao “custo-benefício”. O GlobalEye é um “radar voador”, que originalmente é um avião a jacto da canadiana Bombardier, que é “despido” na fábrica pelos suecos e transformado num radar com equipamento e sistemas capazes de monitorizar áreas de muito grandes dimensões. “Com este avião é possível ver o telescópio de um submarino”, exemplifica Daniel Boestad. “Se Portugal o comprasse, conseguiria cobrir metade do Atlântico”.

A jornalista viajou para Estocolmo a convite da Câmara de Comércio Luso-Sueca

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COMENTÁRIOS

Jacinto Leite: Nenhum destes caças tem a autonomia necessária para defender as colónias.

graça Dias: Com este governo de Luís Montenegro, Portugal irá continuar mergulhado no marasmo económico, cultural e social.  Luís Montenegro  = flope.               Pertinaz: Na Suécia a corrupção é muito menor…                      Uiros Ueramos: 2.º Round das grandes decisões estratégicas de defesa. Portugal está novamente perante uma decisão estratégica de longo prazo. Tal como aconteceu recentemente na escolha das novas fragatas, não se trata apenas de escolher um equipamento: trata-se de definir o posicionamento militar e tecnológico do país durante as próximas décadas. No primeiro “round”, na escolha das fragatas, Portugal tomou uma decisão sensata ao optar por uma plataforma oceânica robusta, próxima em deslocamento e capacidade de um destroyer ligeiro,  em vez de uma fragata mais leve. A lógica foi simples: num país com recursos limitados, mais vale investir em plataformas com maior capacidade e margem de evolução ao longo do tempo do que em soluções mais baratas mas estruturalmente limitadas. Agora chegamos ao segundo round: a substituição dos F-16. Nos últimos meses tem sido visível uma campanha intensa de promoção do Gripen E. No entanto, quando analisamos a questão de forma fria, a comparação com o F-35 revela-se profundamente assimétrica.O Gripen E é um  caça de 4,5 geração, concebido com filosofia de caça ligeiro: menor peso, menor carga útil, menor alcance e persistência em missão, dependência maior de guerra electrónica e de apoio externo em cenários de alta ameaça.O F-35, por outro lado esta noutro nível, pertence à 5.ª geração e foi concebido para um paradigma operacional completamente diferente: furtividade real (Very Low Observable), fusão avançada de sensores, guerra em rede, capacidade de penetração em ambientes altamente contestados. Trata-se de duas gerações tecnológicas diferentes.Para um país como Portugal,  com orçamento de defesa limitado esta diferença é ainda mais importante. Quando os números são reduzidos, a qualidade e a sobrevivência de cada aeronave tornam-se decisivas. Uma frota pequena de aeronaves com elevada capacidade de sobrevivência e consciência situacional pode gerar mais poder militar efectivo do que uma frota maior de plataformas de geração anterior. F-35 é o que a nossa FA precisa.                            Daniel José: Portugal lá tem dinheiro para os F35

Ab initio


E as tricas começam já, a provar o nosso gosto pelos “portraits” da coscuvilhice matreira,  ameaçadora das reputações, ou apenas exemplificadoras das nossas capacidades intelectivas……


Marcelo fecha vida política com promessa de silêncio (que não convence Montenegro). Cenas de uma despedida institucional

Numa despedida a dois, primeiro-ministro elogiou a coabitação que acaba, já com muita expectativa na futura. Marcelo prometeu experimentar assistir a tudo em silêncio, mas pôs peso sobre Seguro.

RITA TAVARES:Texto

JOÃO PORFÍRIO

OBSERVADOR, 05 mar. 2026, 20:453

Um sentado muito direito, pés alinhados, e de botão do fato disciplinadamente desapertado. O outro menos direito, ora de queixo encostado na mão, ora de braços abertos, botão apertado, com as pernas das calças desalinhadas. Luís Montenegro e Marcelo Rebelo de Sousa não podiam ser mais diferentes e isso notou-se na coabitação Belém/São Bento nestes 23 meses (e também na hora da despedida). O primeiro-ministro jura que não estava desejoso de ver Marcelo pelas costas, mas vai já partindo para o próximo com a “certeza absoluta” de que vão “entender-se bem.” Não tem igual convicção de que Marcelo não andará por aí, ainda que este garanta que vai experimentar ser um ex-Presidente exemplar.

Era “um briefing diferente”, como anunciava o próprio primeiro-ministro depois de uma reunião do Conselho de Ministros presidida pelo Presidente da República que está de saída e que estava sentado na poltrona ao seu lado, num salão do palacete de São Bento, para uma conversa “informal” com os jornalistas. Desta vez, as decisões da reunião não eram o ponto forte, mas sim Marcelo, a sua despedida e algumas justificações relativas ao passado que ambos quiseram aproveitar para dar. As declarações de parte a parte começaram pela esperada cortesia — antecedida de uma sessão de cumprimentos de todos os membros do Governo (ministros e secretários de Estado) e ainda de uma foto de família e uma selfie presidencial.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Conhecendo o alinhamento subterrâneo que existia entre o seu antecessor e Marcelo (sintetizado na frase éramos felizes e não sabíamos), Montenegro tentou ombrear: “Fomos felizes e eficazes”. O Presidente não quis destoar da simpatia e garantiu ali mesmo que “aqui fomos felizes e sabíamos”. Não foi tão longe como Montenegro, que considerou mesmo que a relação entre os dois, sobretudo na parte de antecipar problema, “deve fazer escola”.

Afinal, Marcelo parece não esquecer as vezes em que se queixou de falta de comunicação com este primeiro-ministro, cujo perfil chegou mesmo a desenhar como desafiante logo nos primeiros dias em que o apanhou em São Bento. Mas Montenegro queria levar ali o desmentido de qualquer complexidade institucional, garantindo que “não raras vezes” recorreu a Marcelo, sobretudo ao seu “conhecimento técnico-jurídico, da realidade concreta dos temas que era importante tratar e, ao contrário daquilo que muitas vezes se foi dizendo, com antecipação“.

Jurou que a sua felicidade não tem a ver com o Presidente “ir embora”, mas sim “uma análise de dois anos de convivência”, onde destaca “o papel preventivo” de Marcelo “em muitas ocasiões” para “influenciar positivamente o contexto e enquadramento de algumas decisões e para corrigir um ou outro aspecto”: “Foi um período positivo. E quando digo ‘fazer escola’ é a pensar em todos os governos e nos próximos Presidentes da República”.

Mas Montenegro olha já para o próximo com confiança, devido ao “respeito mútuo muito, muito assinalável” e à “postura” de António José Seguro que “expressa uma expectativa muito positiva relativamente ao relacionamento e cooperação institucional a partir da próxima segunda-feira. Tenho a certeza absoluta que nos vamos entender bem, do ponto de vista pessoal e do ponto de vista institucional.”

Marcelo prometeu contribuir para isso, ainda que ao seu lado tivesse — como fez questão de sublinhar — um primeiro-ministro pouco convencido da sua capacidade de resistir à tentação de permanecer no espaço público. Mas o ainda Presidente garantiu que sim, quer ser uma “cidadão” e exemplar. Depois de uma vida inteira dedicada à política — fosse como jornalista, deputado constituinte, líder social-democrata, comentador político ou Presidente da República –, não quer passar à prática política consagrada por Pedro Santana Lopes do “andar por aí”. Vai experimentar mudar de vida.

Prometeu não empecilhar em relação ao Presidente da República, em relação ao primeiro-ministro, em relação ao Governo, em relação à Assembleia da República, com intervenções.” Um ex-Presidente, disse, “deve abster-se de intervenção política”. Montenegro ouvia pouco crente, com Marcelo a acabar por revelar que o primeiro-ministro apostou em como não vai conseguir resistir. “Diz que a tentação vai ser muito grande. Mas há que, realmente, resistir à tentação porque é salutar para as instituições. E, portanto, vou experimentar contribuir para a saúde das instituições, dessa maneira.”

Pelos vistos, a promessa para o futuro é diferente daquela que fez a si mesmo quando, há dez anos, se deslocou daquela que era a casa dos seus pais, na Lapa, a pé até à Assembleia da República, onde tomaria posse como Presidente. Neste mesmo briefing a dois, Marcelo contou que foi nesse percurso que decidiu que não ia mudar a sua maneira de ser.

 “Não, eu não vou mudar. Não vou mudar porque depois não fica nem carne nem peixe. Nem fica aquilo que a pessoa é, nem aquilo que quer ser para vestir um facto institucional e uma maneira de agir e de proceder, mesmo ritualmente, que não é a sua maneira de ser. Não vou mudar.” Agora diz que vai, até porque tem a “obrigação de ter aprendido a lição”.

“Eu aprendi a admirar os meus antecessores ainda mais do que já admirava. Aprendi a dificuldade que é ser-se Presidente da República. Aprendi quantas vezes eu não agradeceria não ter ex-presidentes da República a intervir na vida política”, detalhou mesmo em direcção ao único ex-Presidente que o criticou, Cavaco Silva. Por tudo isto, passa a uma experiência totalmente nova para o bicho político que sempre foi: “Falar de outras coisas. Posso no domínio da cultura. Posso no domínio social, da prestação de serviços sociais”.

Ao contrário do que chegou a prever — nas antecipações de calendário que sempre vai fazendo — que fosse António Costa, e não ele, a encerrar este ciclo político. Fechou-se um “ciclo de 50 anos na democracia portuguesa” e agora entra outro. “O senhor primeiro-ministro foi um dos novos protagonistas desse novo ciclo da vida política portuguesa, há dois anos.  Teremos, a partir de segunda-feira, um novo e importante protagonista também, o senhor Presidente da República Portuguesa. E, portanto, é também na vida portuguesa — não é só no mundo — um virar de página.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Descobrir

Encerra o seu ciclo sem grande análise sobre eventuais erros — “ninguém pode dizer que nunca cometeu nenhum erro” — e a justificar cada uma das dissoluções. Afinal são o peso maior que leva desta passagem por Belém, numa história em que é tantas vezes apontado de ter, através das sucessivas antecipações de eleições, ajudado ao agigantar da extrema-direita em Portugal. Começou por dizer que alguém um dia fará “um juízo definitivo” sobre isso, mas acabou a justificar cada uma com a defesa da “estabilidade”.

 “A estabilidade em si mesma é um valor fundamental. Portanto, num caso, a estabilidade orçamental, que era muito importante para a estabilidade do Governo. Em outro caso, a estabilidade ao nível da liderança do Governo e do principal partido, o partido maioritário no Parlamento. E, em outro caso, as condições para um governo que está a governar, poder proceder à governação”, afirmou sobre a dissolução de 2021, a de 2022 e a de 2025. Mas afinal o juízo que lhe interessa está feito: “Os portugueses julgaram três vezes, e das três vezes deram razão ao Presidente”.

Quem vem a seguir, só tem de fazer melhor. O desafio está também lançado por Marcelo que embora não queira empecilhar o seu sucessor, empecilhou. Colocou-lhe em cima dos ombros a pesada responsabilidade de ter de “ser o melhor de todos os presidentes da República”. “Porque tem um apoio tal, e tem uma esperança tal das pessoas atrás dele, que isso implica que seja obrigação de todos os cidadãos — agora já falo quase como cidadão — desejarmos isso mesmo. E que numa das peças fundamentais esteja o relacionamento com o Governo, e do Governo com Presidente.” Marcelo vai experimentar ficar só a ver.

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA      POLÍTICA      GOVERNO      MARCELO REBELO DE SOUSA      PRESIDENTE DA REPÚBLICA      PRIMEIRO-MINISTRO

 

COMENTÁRIOS:

Fernando Silva Correia: Que presidente tão foleiro!… mais parece um influencer de meia tigela com sede de protagonismo bacoco.                Alberico Lopes: Espectáculo vergonhoso de duas personagens.  inacreditável.                  Alberto Bruno: O desbocado… Quem não se recorda …. “ o……. (Primeiro ministro na altura) está lé- lé da cuca” E agora diz que vai ser um “monge cartuxo” Alguém acredita no desbocado?              António Duarte: Horrível cata-vento continua com selfies dez anos depois de isso sair de moda…