quinta-feira, 10 de setembro de 2026

COMENTÁRIOS

 

Ao texto de HUGO DANTAS - O que é um autor na idade da IA? Um pequeno exercício

- O Homem tem de preservar a sua capacidade de criação cultural, penso. -

 Luis Fernandes Machado

Excelente artigo, até porque me debato com a mesma dúvida diariamente: até que ponto um texto produzido por um LLM é meu? Qual é o grau de "toque pessoal" que posso dar antes de o poder considerar meu?

Ponho a questão de outra perspectiva: quantos discursos, que damos como históricos ou socialmente impactantes, foram de facto escritos por quem os pronuncia? Sabemos que quase todos os políticos contam com escritores de discursos profissionais. O discurso de Obama aquando da captura de Osama Bin Laden foi escrito por um ghost writer. É do Obama ou do ghost writer?  E o de Ronald Reagan aquando da explosão do Chalenger, ou de Nixon quando os EUA chegaram à Lua ou o de Kennedy em Berlim? Ou o discurso anual do Rei de Inglaterra ao parlamento que é integralmente escrito pelo Governo: é do Governo ou o do Rei?

Portanto, e se pusermos a questão ao contrário? A autoria, a responsabilidade é de quem assina? Eu tenho um texto produzido por um ghost writer - se sou eu que o assino, que o falo, o texto é meu, certo? Se eu assino um texto assinado por um LLM a responsabilidade é minha, logo é meu, não?

Se o texto transmite o que pretendo, com os argumentos que pretendo, o texto reflecte o que eu pretendo dizer, logo para mim e para quem o lê, não se torna indiferente quem efectivamente o escreveu, porque o efeito prático é o mesmo?

Claro que isto aumenta o risco de fraude, no sentido em que indivíduos idiotas podem parecer brilhantes. Mas o brilho não dura. A IA amplifica o fazemos. Se o que fazemos é brilhante, mais brilhante fica. Se o que fazemos é miserável, mais miserável a IA o torna.

José Paulo Castro

Vou utilizar um argumento para o uso da IA em textos, o único que considero válido:

Pedi ao LLM um texto sobre uma tese qualquer, num estilo de pessoa que detesto, a defender os pontos fortes dessa tese, apenas para usar como inspiração contrária ao texto que eu próprio produzirei, sem recurso a IA, para contradizer essa tese (que sempre refutei).

Ainda serei escritor?

Rosa Ribeiro

Creio que voltarei a escrever à mão.

Já ficava incomodada quando o corrector alterava palavras que eu escrevia e, agora é impossível, fazer uma narrativa incoerente sem que a IA coloque uma coerência que uma pessoa repudie.

O raciocínio humano é fascinante nas suas nuances de profundidade e de superficialidade, de verdade e mentira, numa complexa mistura que só as pessoas podem ter. Só nestes pormenores, poderemos manter a nossa sanidade mental e exigir a nossa capacidade de "dominar", ou pelo menos, limitar o poder da IA, que deve ser utilizada/aproveitada para a Ciência, para a Arqueologia e para substituir o homem em tarefas delicadas ou perigosas.

 O Homem tem de preservar a sua capacidade de criação cultural, penso.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

«Penso eu de que…»

 

Desde que não sejam puras cópias, baseadas nas capacidades que subentendem, todavia, interpretação pessoal, um texto resulta sempre desse esforço de interpretação pessoal que difere, naturalmente, de humano para humano, qualquer que seja o tipo de escrita usado. Como podem as máquinas substituir as inteligências humanas nas suas capacidades de criação?  Julgo que não entendo o que seja isso de “Inteligência artificial”. Oxalá encontre ainda quem o explique e concretize, enquanto viva for…

O que é um autor na idade da IA? Um pequeno exercício

É difícil encontrar um argumento solitário que, dispensando o esforço do humano em escrever, de facto, alguma coisa, possa preservar intacta e absoluta a sua pretensão de autoria.

HUGO DANTAS, ADVOGADO

OBSERVADOR, 09 set. 2026, 00:20

A partir de que ponto é que alguém que use um LLM para escrever um texto pode deixar de dizer que o texto é seu ou apenas seu? Alguns farão como o jesuíta da velha anedota e responderão à pergunta com outra pergunta, a saber: O que é que isso importa?

E  pur, importa. Antes dos LLMs, e ressalvado o caso de plágio, o texto publicado em nome próprio era um instrumento de revelação pessoal, mesmo quando, ou até porque, não completamente subordinado ao seu autor. O texto comunicava sempre além de si mesmo: era uma sinalização da personalidade e das qualidades de quem o escrevia. Esta sinalização é essencial a todo o processo formal de avaliação por texto, como no caso dos trabalhos académicos, mas desempenha, na verdade, uma função muito mais vasta na interacção social. O recurso extensivo aos LLMs para escrever, que pode significar, no limite, encomendar-lhes o texto, interfere com este sistema de sinalização.

Este facto permanece mesmo perante desconstruções dos conceitos de autor e de autoria, em que geralmente nos citarão, para nossa edificação, Barthes e Foucault, e diante de argumentos mais prosaicos como o de que, no uso de LLMs, e diferentemente do que sucede nos casos de plágio, não existe um lesado. Todas estas teorias aparecem neste contexto sobretudo como racionalizações para a prática de assinar textos que se não escreveu. Se bem que a ética da utilização destes recursos esteja ainda em concepção, parece-me seguro dizer que teremos de qualificar grande parte dos exemplos destes primeiros tempos como fraudes ao leitor, ao editor e, mais do que tudo, ao próprio subscritor dos textos, desculpável apenas porque (parafraseando Peter Medawar sobre Chardin) para iludir os mais, precisou antes de se iludir a si mesmo.

O êxito dos LLMs na produção de texto estava predestinado, como o de qualquer máquina que possibilite a nossa preguiça, e que para mais permita satisfazer a pulsão contemporânea de aparecer, aparecer mais, aparecer sempre, independentemente de como se aparece. É a transição do artesão para a máquina, do artefacto dura e subjectivamente trabalhado para a produção em massa, em campos de actividade humana que, desde há, muito, obedeciam a uma lógica de massificação, conquanto imperfeitamente executada. No entanto, esta nova eficiência convive com estruturas que exigem a imputação pessoal de condutas, méritos e inclinações.

Não digo que não se usem LLMs – eu próprio os uso, para outros fins que não o de escrever. Não digo também, o que seria parvo, que não se deva distinguir entre os diversos contextos e propósitos do uso da linguagem. No entanto, parece-me uma boa máxima a de que se deva assinalar as intervenções de LLMs em textos assinados, de âmbito que não seja estritamente funcional – ainda que que isto signifique partilhar ou mesmo abdicar, substancialmente, da sua autoria. Sinto que me gritam aí de uma caixa de comentários qualquer: mas isso é quase o mesmo que pedir que não se usem! Esse grito é uma formidável contraprova do meu argumento: de facto, a autoria ainda importa, e algo se ganha socialmente em reclamar a autoria exclusiva de um texto, mesmo quando foi um LLM que o escreveu. O argumento implícito no grito é que a grande vantagem de usar LLMs é adquirir os méritos do texto sem realmente precisar do talento ou do esforço. É honesto?

Mas, porque o círculo é uma forma muito bela, retorno à pergunta inicial: a partir de que ponto é que o texto não é nosso? É que existe um arco amplo de intervenções que um LLM pode fazer num texto, em conjugação com um humano, e talvez nem todas justifiquem tributar-lhe os créditos. Analiso a seguir alguns argumentos para preservar o crédito exclusivamente humano do texto, perante diferentes graus de intervenção do LLM.

Fui eu que aceitei o texto e decidi publicá-lo.

O editor que aceita o texto na sua publicação e escolhe dá-lo à estampa teria de ser creditado, por estas mesmas razões, como autor. Não me importo de partilhar crédito com o bondoso editor que permite os meus estragos no Observador, embora ele se pudesse importar com a assunção da responsabilidade. O que é que nos levaria a dizer que aquele que publica um texto redigido por LLM é autor em vez de uma espécie de editor ou procurador de carne do modelo de linguagem?

Fui eu que escrevi o prompt.

É um excelente começo: há quem solicite ao LLM que redija os prompts para si mesmo. No entanto, há prompts e prompts. Um prompt genérico em que se pede ao LLM que escreva um texto sobre um tema é diferente de um prompt que determina a tese do texto ou os argumentos a apoiá-la. O que impede de dizer a um LLM: escreve um texto sobre um tema na ordem do dia que me faça parecer inteligente? Suspeito é que muitos, incluindo muitos colunistas, já fazem.

Fui eu que determinei o sentido ou tese do texto.

Muito bem. E os argumentos a sustentá-la? A invenção de argumentos soía ser o passo em que o autor demonstrava o seu conhecimento do estado da questão e exibia o engenho do seu intelecto. É justo que reclame o crédito de raciocínios que não são seus?

Fui eu que determinei o sentido o texto e enunciei os argumentos.

Nesta hipótese, o argumento para afastar o crédito ao LLM é decididamente mais robusto. No entanto, a exposição das ideias por escrito, nomeadamente, a organização dos argumentos, a clareza na expressão e o uso competente dos recursos estilísticos detêm também um valor relevante de sinalização das qualidades intelectuais dos autores. Em alguns contextos, o timbre da voz é particularmente relevante para a integridade do texto – pense-se no colunista de um jornal.

Argumento para utilizadores avançados: tenho trinta agentes a trabalhar para mim em diversos sectores da minha vida e um deles foi alimentado com todos os textos que escrevi na minha carreira, com indicação para usar o meu estilo, as minhas referências, as minhas posições.

Antes de mais: bravo! E sinto-me até incomodado por, ante tamanha demonstração de destreza tecnológica e futurismo, encontrar ainda dois mínimos problemas. O primeiro é que não se consegue em qualquer LLM a separabilidade entre o texto da autoria do humano com que se alimentou a máquina e o resto, quantitativamente muito maior, dos seus dados de treino, formados a partir de milhões de autores. O segundo é que, por este critério, tomado isoladamente, alimentaríamos a máquina com todos os textos de Cícero e teríamos agora excelentes textos do filósofo romano, em escorreito e clássico latim, sobre a ascensão da «inteligência artificial», a moção de censura do Chega ao Governo e a vitória da Espanha do Mundial de Futebol deste ano.

Enfim, é difícil encontrar um argumento solitário que, dispensando o esforço do humano em escrever, de facto, alguma coisa, possa preservar intacta e absoluta a sua pretensão de autoria. Não é que estas reservas éticas detenham alguém, como nunca detiveram. Talvez contribuam para cunhar quem as produza como uma forma de vida obsoleta. Seja. Mas que resta aos derrotados senão deixar lavrado o seu protesto nesse fóssil de uma espécie extinta, que é um texto inteiramente humano?

Inteligência Artificial        Tecnologia


A RÚSSIA

 

MANDA    PODE   e    QUER.  Como se calculava.


Presidente ucraniano admite dificuldades na intercepção de mísseis balísticos russos

O Presidente ucraniano relevou que vai reunir-se com países e empresas para discutir novas formas de defesa para Ucrânia. Em causa está a diminuição da taxa de intercepção de mísseis russos pelo país.

AGÊNCIA LUSA: TEXTO

OBSERVADOR, 08 set. 2026, 10:58

epa13190587 Ukrainian President Volodymyr Zelensky speaks during a joint press conference with President of Estonia Alar Karis (not pictured) at the Mariinsky Palace in Kyiv, Ukraine, 25 August 2026, amid the ongoing Russian invasion. Karis arrived in Ukraine on 24 August 2026 to take part in the Coalition of the Willing summit and Ukraine's Independence Day celebrations.  EPA/SERGEY DOLZHENKOi

"Os seus mísseis balísticos falam mais alto do que os seus discursos sobre a diplomacia", disse Sybiga sobre Putin

SERGEY DOLZHENKO/EPA

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reafirmou esta terça-feira, após mais um ataque russo em grande escala que fez pelo menos dois mortos, as dificuldades que a Ucrânia está a enfrentar para interceptar os mísseis balísticos russos.

No total, os nossos caças abateram 175 alvos aéreos esta noite, mas infelizmente não todos. Apesar dos bons resultados com mísseis de cruzeiro, os mísseis balísticos continuam a ser particularmente difíceis de interceptar, e todos os dias explicamos aos nossos parceiros a nossa necessidade de interceptores”, disse Zelensky na rede social X.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andriy Sybiga, denunciou também esta terça-feira, numa mensagem publicada no X, o ataque massivo da Rússia contra Kiev, ocorrido durante a noite, logo após a visita dos enviados norte-americanos Steve Witkoff e Jared Kushner.

“Assim que os enviados de paz do Presidente dos EUA [Donald Trump] partiram, [o chefe de Estado russo] Putin lançou outro ataque massivo e horrível contra Kiev, danificando áreas residenciais e matando pelo menos duas pessoas”, declarou Andriy Sybiga.

“Os seus mísseis balísticos falam mais alto do que os seus discursos sobre a diplomacia”, indicou Sybiga.

Segundo a Força Aérea Ucraniana, as suas defesas aéreas interceptaram 31 dos 32 mísseis de cruzeiro lançados pela Rússia. A Força Aérea informou ainda ter abatido dois mísseis balísticos, mas deixou de divulgar o número de mísseis lançados pela Rússia em agosto devido à queda drástica das taxas de intercepção.

Zelensky anunciou novas reuniões, a partir desta terça-feira, com representantes de países e empresas que podem fornecer novos mísseis PAC-3 para os sistemas de defesa aérea Patriot — os mais eficazes na intercepção de mísseis balísticos — e que podem ajudar a Ucrânia e parceiros europeus, como a Alemanha, a desenvolver os seus próprios sistemas de defesa aérea antimíssil balístico.

Além de Kiev, onde várias infraestruturas civis e edifícios residenciais foram danificados num ataque na manhã desta terça-feira, o ataque russo atingiu também um mercado nos arredores de Odessa, a locomotiva de um comboio que circulava entre Kiev e a cidade fronteiriça de Sumi, no nordeste do país, e uma estação ferroviária na região de Sumi.

Zelensky também relatou ataques nas regiões de Zaporijia e Dnipropetrovsk.

 

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