Se prepara no mundo. Valha-nos… Trump?
Trump, Irão e a arte de negociar com porta-aviões
Trump aposta que a pressão levará
Teerão a concessões; Teerão aposta que a resistência prolongada levará
Washington a aceitar compromissos imperfeitos; o resto do mundo observa,
ansioso, a coreografia
JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO
CARMO Coronel
"Comando"
OBSERVADOR, 09 fev. 2026, 00:1711
A propósito das actuais negociações entre os EUA e o Irão a pergunta que se
repete nos corredores diplomáticos, nos estúdios televisivos e nas redacções é
inescapável: Trump prepara-se
para atacar o Irão ou está apenas a encenar a ameaça como instrumento negocial?
A dúvida nasce de uma estratégia que mistura sinais
militares, retórica excessiva, fugas selectivas de informação e uma ambiguidade
diplomática que já se tornou a marca desta administração americana.
Caos ou aparência de caos?
Observadas com alguma distância, as peças encaixam-se num padrão de coerção
negocial, típico da história recente da política externa americana:
Trump ameaça, amplifica o tom,
exige tudo, desloca meios militares, cria a sensação de iminência e, no exacto
momento em que se começa a acreditar que a escalada é inevitável, regressa à
mesa das negociações proclamando vitória antes mesmo de a negociação começar.
A força não surge como destino, mas como argumento.
A retórica pública do
presidente norte-americano aponta nesse sentido. Insiste que Teerão “tem de voltar à mesa”, promete que qualquer ataque
futuro será “muito pior” do que os anteriores e fala de “armadas” em deslocação
para a região com grande exuberância verbal. Mas, na prática, não há ainda
nenhum compromisso operacional inequívoco. Apenas a
linguagem e a gesticulação de quem quer intimidar, não a de quem já decidiu
avançar. Os grandes primatas fazem isso e nós compreendemos
esse tipo de sinais, estão nos nossos arquétipos.
Os objectivos declarados dos EUA são os mesmos de
sempre: travar o programa nuclear iraniano,
limitar o desenvolvimento de mísseis balísticos, conter a rede de proxies regionais que permite a
Teerão projectar poder sem consequências e, eventualmente, derrubar o regime. Os do Irão são exactamente os opostos, todos ao serviço do grande
objectivo de hegemonia regional.
É revelador que não exista uma declaração formal de mudança de regime como
objectivo oficial, nem um plano anunciado para desmantelar a Guarda
Revolucionária, o verdadeiro núcleo do poder político, económico e militar da
República Islâmica.
Nos bastidores, é verdade, circulam cenários mais
musculados. Fala-se de ataques selectivos a infra-estruturas nucleares, de operações
cirúrgicas contra elementos-chave da Guarda Revolucionária, até de tentativas
indirectas de reacender protestos internos. Mas a história recente e o
“modelo venezuelano” aconselham cautela perante este tipo de teorias. Derrubar sistemas
entrincheirados e evitar o caos que se segue, exige muito mais do que
bombardeamentos e muito mais do ir e vir.
É aqui que os actores
regionais introduzem uma dose de realismo. Israel, Arábia Saudita, Emirados e Turquia sabem que o
poder aéreo, por si só, raramente derruba estruturas políticas profundamente
ideologizadas e militarizadas. O Irão não é um Estado frágil sustentado apenas por uma elite isolada; é um sistema com profundidade territorial,
vastos recursos humanos e uma estrutura de poder (Guarda Revolucionária),
desenhada para sobreviver a choques externos e internos. Um ataque limitado dificilmente produziria a implosão desejada por
alguns em Washington. Mais provavelmente, consolidaria a coesão
interna do regime sob a narrativa clássica da agressão estrangeira.
Teerão, aliás, joga o seu próprio jogo
assente no velho cinismo persa de mostrar os dentes enquanto se estende a mão.
Multiplica declarações públicas de desafio e ensaia demonstrações militares
destinadas ao consumo interno, mas mantém discretamente abertos os canais
diplomáticos. Não ignora a ameaça
americana, mas comporta-se como quem calcula que essa ameaça é, acima de tudo,
um instrumento negocial.
Existe ainda um factor frequentemente subestimado nas
análises mais alarmistas: a opinião pública americana.
As sondagens mostram de forma consistente que o apoio a uma
intervenção militar de larga escala contra o Irão é frágil e condicionado. Falar em impedir o acesso
iraniano a armas nucleares, é comestível; aventar uma guerra prolongada,
escalada regional ou botas no terreno, é indigesto, especialmente para o povo
MAGA.
E, com Trump ou sem
Trump, nenhuma administração americana sustenta um conflito sério sem apoio
sólido doméstico que, aliás, evapora rapidamente ao primeiro aumento do preço
do combustível ou à visão de ataúdes cobertos com a Stars and Stripes.
A análise operacional reforça a mesma conclusão. Muitos
dos alvos estratégicos iranianos encontram-se profundamente enterrados,
protegidos por sistemas de defesa dispersos e integrados em redes de comando
redundantes. Neutralizá-los exige campanhas prolongadas, operações
combinadas e um nível de compromisso político e militar que, neste momento, não
parece existir. E abriria muito provavelmente a porta a retaliações regionais: ataques contra bases americanas, contra
infra-estruturas energéticas do Golfo, contra aliados de Washington e,
naturalmente, contra Israel. A guerra deixaria de ser um golpe cirúrgico ao estilo de Caracas, e passaria a ser um processo longo, caro e
penoso, porque o Irão tem de facto muitos dentes para morder durante
muito tempo.
Mas a pressão americana sobre o dossier nuclear, destapa uma curiosa contradição. Há poucos meses, Trump proclamava que os
bombardeamentos anteriores tinham “obliterado” as capacidades nucleares
iranianas. A explicação mais
plausível é que os ataques degradaram capacidades, mas não eliminaram o
programa, e Teerão reconstruiu parte do que foi destruído com maior rapidez do
que se esperava. A retórica de vitória total terá
sido, pois, mais uma dança de vitória de Trump, para evitar ter de ir até ao
fim.
As peças do puzzle são estas:
Trump gesticula e ameaça como negociador coercivo; alguns cenarizam
rupturas históricas; outros amplificam as fragilidades do regime iraniano;
aliados regionais pedem prudência; o público americano permanece reticente; os
custos potenciais de uma guerra aberta são avassaladores; o desfecho é incerto.
Quando colocadas lado a lado, o quadro torna-se consistente: Não se trata
de uma guerra iminente, mas a de uma negociação conduzida sob pressão máxima.
Há 6 anos, Trump escreveu que “os iranianos nunca ganharam uma
guerra, mas nunca perderam uma negociação”. A frase, à época recebida como mais uma das suas
provocações retóricas, paira hoje como um comentário involuntariamente irónico
sobre a situação actual. Porque, se é verdadeira, a pergunta é óbvia:
por que razão regressar à mesa
negocial precisamente quando o regime iraniano parece atravessar um dos seus
momentos de maior fragilidade interna e externa?
A única diferença para
agora é realmente a pressão militar
O que significa que o
risco de incidentes militares está lá. A história mostra que a
combinação de forças armadas em prontidão, retórica agressiva e canais
diplomáticos frágeis, pode gerar choques inesperados. Golpes limitados, acções
calibradas ou demonstrações de força destinadas a reforçar a credibilidade das
ameaças permanecem perfeitamente plausíveis e a escalada também.
Mas nenhum dos actores quer isso e confundir essa possibilidade com a
preparação de uma guerra regional de larga escala é, pelo menos por agora, um
erro de análise. O que vemos é menos a marcha
inevitável para o conflito e mais um clássico exercício de negociação à sombra
do poder militar. Trump aposta que
a pressão levará Teerão a concessões; Teerão aposta que a resistência
prolongada levará Washington a aceitar compromissos imperfeitos; e o resto do mundo
observa, ansioso, esta coreografia de ameaças e sinais.
Se a “normalidade” prevalecer, o desfecho será
provavelmente menos dramático, no curto prazo, do que muitos pensamos: negociações arrastadas, episódios ocasionais de tensão militar
cuidadosamente controlada, compromissos ambíguos apresentados como vitórias
históricas e uma instabilidade regional que continuará a avançar por ciclos até
chegar ao momento em que o Irão obtenha uma arma nuclear. Nesse dia abre-se a
Caixa de Pandora. Alguns países da região já estão a contar com isso e a preparar-se
também para ir às compras de artefactos feitos com material físsil de grau
militar.
Médio Oriente Mundo Teerão Irão Estados Unidos da
América América
COMENTÁRIOS (de 11)
lvaro Venâncio: Claro, profundo e elucidativo, como sempre. Obrigado. graça
Dias: Mais
um artigo excelente, em que o Senhor Coronel José António do Carmo através da
sua lente, submete os factos irrefutáveis a uma análise tão funesta,
brilhante, actual e reveladora. Manifesto o meu obrigada, pois
interpretar o tão complexo xadrez político numa região de tantos perigos,
em que se cruzam interesses políticos com fundamentalismos religiosos,
não é para todos. ps. muito
lamento todo o sofrimento do povo iraniano, onde milhões sofrem às mãos de um
regime de terroriiisstaaas tiranos e sanguinários. Paradigmas
Há Muitos!: Só
digo que se eu fosse Trump ao ler declarações hiper provocadoras que o Khamenei
e o PM do Irão fazem constantemente contra o Grande Satã eu teria dito ao
Pentágono, "Por mim basta. Fogo à vontade. Tratem-lhes da saúde!". Quanto às divergências "irreconciliáveis"
entre muçulmanos sunitas e chiitas e quem são aliados ou não e quem corre
riscos ou não, o grande princípio em geo política da minha santa mãe é:
"podem ter muitas diferenças entre eles mas quando é contra nós estão
todos de acordo".
Talvez alguém devesse alertar Trump para isto! Df: Muito boa análise. Se os aiatolas
ultrapassarem esta crise ilesos, é certo que chegam à bomba atómica. Lá terão
os israelitas de continuar a tentar atrasar o desfecho (quase) inevitável. drumond freitas: Brilhante exposição sobre o tema!
Adorei a imagem do Sr Trump associada à dança dos grandes primatas...perfeitos-