Farinha do mesmo
saco. Humano. Exaustivo.
Lições de Budapeste
Meloni não ocupará o lugar de Orbán no movimento conservador
internacional porque os dois modelos são fundamentalmente distintos, distinções
que devem ser motivo de profunda reflexão à direita.
ANDRÉ AZEVEDO ALVES Professor
do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa
OBSERVADOR, 29 abr. 2026, 00:21
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Afinal, a Hungria não era uma ditadura. Depois de 16 anos de Orbán no poder, o Fidesz teve uma derrota
eleitoral clara numa votação livre e justa. A transição democrática e pacífica do poder na Hungria deve ser
acolhida como uma mudança saudável depois de um longo período de governação por
parte de um partido e do seu líder – que naturalmente gera desgaste, cansaço e,
claro, vícios. Há aliás paralelismos vários com o que aconteceu em
Portugal com o PS e António Costa entre 2015 e 2024 (Costa que, curiosamente, mereceu o apoio de Orbán para
Presidente do Conselho Europeu, apoio esse que foi negado por Georgia Meloni).
Os resultados das eleições na Hungria
devem motivar muita reflexão, tanto para os críticos mais ferozes do regime
húngaro como para a direita “iliberal” orbanita. Relativamente ao
primeiro grupo, vale a pena salientar o que resumiu Eric Zemmour: “A derrota de Orbán não é nem uma derrota ideológica, nem uma
derrota política. O seu rival vitorioso vem do mesmo partido. Ele não é nem de
esquerda, nem centrista. (…) O futuro nos dirá se ele cumpre as suas promessas
de campanha e se continuará a ser o defensor da soberania do seu país. Peter
Magyar venceu opondo-se ao poder sobre o favoritismo e a corrupção. Mas ele
confirma todas as posições de Orbán sobre a defesa da civilização europeia.
Orbán certamente salvou o seu país da invasão migratória e dos delírios woke da
Comissão Europeia. Após ser tratado como um ditador por todos os meios de
comunicação ocidentais, ele deixa o poder após uma derrota nas urnas. Como um
democrata.”
De facto, não só Magyar fez toda a sua
formação e trajectória política no Fidesz (entre 2002 e 2024), partido de que
foi um dos mais destacados quadros até sair em ruptura com Orbán, em 2024, como
é razoável afirmar que corporiza a intenção de um retorno aos princípios
ideológicos centrais do próprio Fidesz. A revolta dos eleitores húngaros foi motivada principalmente pela
percepção de que Orbán traiu os princípios com base nos quais conquistou e
manteve o poder – e não contra esses princípios em si mesmos.
A direita iliberal fã (demasiadas vezes acriticamente…) de Orbán tem
por isso também fortes razões para reflectir. Como bem sintetizou Gonçalo Nabeiro: “Orbán montou um regime – em democracia, é certo – iliberal
(ou pós-liberal). Poderá parecer
um oxímoro, mas a Hungria mostrou que é uma fórmula de poder que pode ser
viável. Afinal, o Fidesz manteve-se no
poder 16 anos através de eleições e, nas últimas legislativas que serviram como
teste do algodão, abandonou-o tranquilamente. Com base nisto, é difícil de disputar que a Hungria é
uma democracia. Mas é ao mesmo
tempo iliberal porque dinamitou pilares sem os quais as democracias liberais
colapsam: para além da colonização dos tribunais, colocando em
risco o Estado de direito e a separação de poderes, o Fidesz colonizou também,
seguindo a lógica gramsciana de hegemonia cultural, os media e a
sociedade.”
Orbán não perdeu, no essencial, a
batalha das ideias na Hungria – ele perdeu a confiança dos eleitores húngaros
pela forma como abusou do poder. Além
da questão central da corrupção, as principais diferenças entre Magyar e Orbán
situam-se no domínio da política externa. Embora céptico
relativamente ao poder centralizado em Bruxelas, Magyar deseja normalizar as relações com a UE e, acima de tudo,
quebrar com a percepção de uma subordinação humilhante de Budapeste a Putin.
É certo que, no que diz respeito à
interferência externa na Hungria, a própria UE também não fica nada bem na
fotografia. Perante a (uma vez
mais…) lamentável postura de Ursula von der Leyen, é impossível não indagar em
que posição ficará a Presidente da Comissão Europeia caso o Rassemblement National conquiste o poder em França.
Mas a verdade é que JD Vance, enquanto
Vice-Presidente dos EUA, não
era certamente o melhor agente para denunciar essa interferência externa – como
fez em actos de campanha do Fidesz em Budapeste.
A derrota de Orbán marca também a derrota de um dos principais modelos
de conservadorismo na política europeia actual, como bem analisa Juan Ángel Soto. Esses dois modelos partilham vários
elementos ideológicos comuns – a crítica
ao progressismo e ao wokismo, a defesa de uma abordagem mais restritiva à imigração, a preocupação
com temas demográficos, culturais e educacionais – mas divergem na
abordagem estratégica e, frequentemente, na política
externa.
O primeiro modelo teve inegavelmente em Viktor Orbán o seu principal
mentor e protagonista. Curiosamente,
partindo de uma posição firmemente liberal clássica, Orbán evoluiu (?) para principal arquitecto de
uma direita assumidamente “iliberal” que optou por desafiar radicalmente o
consenso ocidental até então dominante. Simultaneamente, Orbán dedicou recursos muito
consideráveis à construção de uma vasta e bem financiada rede internacional de
promoção da sua agenda identitária e iliberal – com considerável
(mas talvez precário) sucesso. No plano externo, este modelo de
conservadorismo é acima de tudo pragmático e aposta num novo mundo multipolar –
o que justifica a interacção (e por vezes articulação) próxima com actores geopolíticos como a Rússia e a China (em linha com a estratégia desenvolvida pelo influente Balázs Orbán).
O segundo modelo encontra em Giorgia Meloni o seu principal
expoente. Igualmente conservador e igualmente crítico de muitos aspectos do
consenso dominante, este segundo
modelo tem diferenças estratégicas profundas e fundamentais com o primeiro.
Mais reformista do que revolucionário – e sem rejeitar as instituições liberais no seu todo – Meloni
procura redefinir e reformar o sistema a partir de dentro, através de uma
combinação de pressão e negociação. Um bom exemplo disso mesmo é a forma como Meloni está a conseguir
liderar a reorientação da política europeia relativamente à imigração. Também
na política externa o contraste é evidente: Meloni
mantém-se firmemente alinhada com os interesses de longo prazo da aliança
transatlântica, sem prejuízo da
afirmação de uma autonomia estratégica relativamente a quem ocupa a
Casa Branca – como ainda recentemente
fez relativamente à guerra
contra o Irão ou à polémica entre Trump e o Papa Leão XIV.
Meloni não será candidata a ocupar o lugar de Orbán no movimento
conservador internacional precisamente porque os dois modelos são
fundamentalmente distintos. Mas essas distinções devem ser elas próprias
motivo de profunda reflexão à direita. Em
especial para quem se sente tentado a achar que os (bons) fins justificam o
recurso aos (maus) meios. Citando novamente a excelente análise de Gonçalo Nabeiro: “E esta é a lição que os conservadores,
europeus e americanos, devem retirar do legado de Orbán. O combate
contra o Leviatã de Bruxelas e contra o wokismo deve ser visto como um
meio para chegar ao objetivo final – um regime de liberdade ordenada – e não um
fim em si mesmo. E para que a crítica conservadora à colonização
progressista do Estado faça sentido e conduza a um mundo melhor e mais livre, os conservadores não devem transformar-se, quando têm
acesso ao poder, num espelho da esquerda. (…) Porque, se assim
for, andaremos todos à mercê de quem, em
determinado momento, detém o poder; uns gostando mais, outros menos. E, com
isso, acabamos por perder todos.”
Que não haja ilusões: são escolhas difíceis, especialmente em
contextos nos quais a esquerda continua praticamente hegemónica culturalmente e
na ocupação das instituições, mas a defesa sustentada e sustentável da liberdade
ordenada não se compadece com atalhos “iliberais”, por mais tentadores que
possam ser.
HUNGRIA MUNDO
COMENTÁRIOS (de 14)
José Tomás: Parece que o cronista alinha no consenso de que
a esquerda (o "progresso) tem o direito à "hegemonia cultural,
[d]os media e [d]a sociedade" (da academia aos tribunais), mesmo
que seja copiosamente derrotada nas urnas pela direita (o "retrocesso").
Aceita que disputar-lhe esse direito é "iliberal". Tusk mandou a
polícia evacuar a televisão pública, Magyar encerrou-a - e bem, pois eram meio
de propaganda ideológica pagos por todos os contribuintes em benefício de
alguns - mas o que se diria se um governo de direita fechasse a RTP ou a
TVE? Não tenho dúvidas: seria a prova do regresso da censura e do fascismo. E o
cronista concordaria, suponho.
Antonio Sennfelt: Um artigo perfeitamente dispensável por não
dizer uma palavra sobre a cumplicidade (para ser simpático!) do Sr Orbán
para com a Rússia do Sr. Putin! E muito menos da falta de decoro
(para ser simpático e para não falar em traição!) do seu então ministro dos
negócios estrangeiros que sistematicamente passava dados confidenciais e
secretos da UE para o Kremlin!
Manuel Lisboa: A primeira ministra italiana tem demonstrado,
desde 2022, ser, politicamente, bastante diferente que o (quase ex) homólogo
húngaro. Talvez a sua atitude e propaganda antes de assumir a chefia do governo
tivesse alguns dos ingredientes comuns a outros partidos nacionalistas e
radicais de direita, europeus. Depois, a Itália, obviamente, não é a
Hungria. E até ao momento o governo italiano tem evitado escândalos,
designadamente casos ligados a corrupção ou a nepotismo evidente. Quanto à
imigração, sem excessivo ruído, acalmou as chamadas percepções e, sobretudo,
parece ter encontrado alternativas viáveis nas redondezas do território
italiano.
Por outro lado, a líder italiana tem sabido de forma hábil manter relações
com vários dirigentes de outros sectores políticos conhecidos pelas suas
posições centristas ou tradicionalmente conservadoras. Internacionalmente, o
actual governo de Roma, além de revelar distância saudável e higiénica em
relação a Moscovo, apoia Kiev; no âmbito da UE tem procurado agir de maneira
discreta; não mostra pruridos no contexto da NATO; e, até recentemente, ia
conseguindo fluidez no relacionamento com os EUA, apesar da irascibilidade do
chefe da administração central de Washington.
Desta forma, possivelmente, será o próximo primeiro ministro húngaro a
imitar a astuta homóloga italiana.
Paulo Machado: A esquerda não elegeu um único deputado, e a
direita é que deve reflectir? Boa malha.
Manuel Magalhaes: A esquerda deve grande parte da sua erradamente
considerada hegemonia cultural e ocupação das instituições, sobretudo à
nefasta influência de uma comunicação social mal preparada e desleal para com a
sua própria profissão, que tudo fazem para para perverterem a opinião
pública!!!
Kindu: Não é bem assim. Foi preciso uma enorme vaga de
fundo popular para ultrapassar todos os obstáculos e haver alternância. Numa
democracia a alternância deve ser normal, sem obstáculos, sem problemas.
José B Dias: Muito elucidativo o facto de nunca ninguém referir que também Angela Merkel
esteve 16 anos no Poder ... e não recordo alguém a referir-se a tal como
sinónimo de ditadura!
Francisco Almeida: Considerados isoladamente, nada a opor aos
argumentos e conclusões do autor, Mas falhou o essencial. A Hungria estava dilacerada entre duas
dependências antagónicas: energia russa e fundos de Bruxelas. E, antes da
corrupção e da centralização de poder, foi certamente esse o principal motivo
da clara escolha do eleitorado. Mais do que Magyar manter as promessas - vai ser curioso ter de se
aproximar politicamente da ex-mulher e ex-ministra da justiça - estou curioso
em ver como vai Bruxelas, assegurar ou tolerar o abastecimento energético da
Hungria que, nem tem portos nem oleodutos alternativos.