terça-feira, 13 de abril de 2021

Um banho de Economia


São dados preciosos sobre Economia e Políticas, o texto de Helena Garrido e os dos seus comentadores, que me apraz ler, mas já não interiorizo. Prefiro voltar aos clássicos, que não falavam em números mas mostravam que a exploração sempre existiu e por isso foram surgindo as doutrinações tendentes a corrigir as injustiças. Mas esse desejo de as combater, através de novas propostas de Filosofia e Ética, acabaram sempre por redundar em discrepâncias ainda mais fundas, como se tem visto... o que não retira a bondade da doutrinação.

E retomo o poema de La Fontaine, poeta e fabulista do século XVII, bom analista das almas, que nos mostra, bem realisticamente, tanto das amarguras de viver do povo, que clama pela Morte, em desespero de causa, mas disfarça e encobre o motivo do seu apelo, preferindo continuar a viver. Como todos nós. Naquela altura, ainda não se falava em eutanásia.

La Mort et le Bûcheron

Un pauvre Bûcheron tout couvert de ramée,
Sous le faix du fagot aussi bien que des ans
Gémissant et courbé marchait à pas pesants,
Et tâchait de gagner sa chaumine enfumée.
Enfin, n'en pouvant plus d'effort et de douleur,
Il met bas son fagot, il songe à son malheur.
Quel plaisir a-t-il eu depuis qu'il est au monde?
En est-il un plus pauvre en la machine ronde?
Point de pain quelquefois, et jamais de repos.
Sa femme, ses enfants, les soldats, les impôts,
Le créancier, et la corvée
Lui font d'un malheureux la peinture achevée.
Il appelle la mort, elle vient sans tarder,
Lui demande ce qu'il faut faire
C'est, dit-il, afin de m'aider
A recharger ce bois ; tu ne tarderas guère.
Le trépas vient tout guérir ;
Mais ne bougeons d'où nous sommes.
Plutôt souffrir que mourir,
C'est la devise des hommes.

Tradução:

Um pobre lenhador todo coberto de ramos

Vergado ao peso do molho e ao da sua idade,

Curvado e gemebundo, caminhava a passos lentos

Tratando de alcançar a sua choupana enfumarada.

Enfim, não podendo mais suportar a dor e os esforços

Atira o ramo ao chão, pensa nos seus desgostos.

Que prazeres é que teve desde que nasceu?

Haverá alguém mais desgraçado na máquina redonda?

Sem pão por vezes, e nenhum descanso,

Mulher, filhos, os soldados, os impostos,

O credor e o trabalho

Traçam de um infeliz um retrato acabado.

Clama pela Morte, ela vem sem tardar,

Pergunta-lhe o que dela pretende.

É, responde, que me ajudes

A carregar este molho; não demorarás muito.

A morte vem tudo curar;

Mas não saiamos do nosso poiso

Antes sofrer que morrer

É a divisa dos homens.

Opinião O regresso da América e os excessos liberais /premium

Washington quer o mundo a aplicar uma taxa mínima de imposto sobre os lucros. O FMI apela ao combate às desigualdades. Os excessos do passado expostos pela pandemia estão a fazer mudar as políticas.

HELENA GARRIDO      OBSERVADOR, 12 abr 2021

Há já mais de duas décadas, todos os anos o ex-ministro das Finanças Ernâni Lopes, que morreu em 2010, fazia um encontro com jornalistas. Nunca dava notícias, mas oferecia muitos motivos de reflexão. Num desses encontros, talvez a propósito das tendências liberalizadoras a que assistíamos, falou-nos no efeito pêndulo. Trajectórias em excesso num sentido, conduzem depois a efeitos em sentido contrário. Para simplificar, o liberalismo iria dar lugar a intervencionismo.

A memória abriu-se para este distante encontro com Ernâni Lopes na sequência das propostas que a nova administração norte-americana está a fazer, de recuperação da economia e do seu financiamento, e das posições que estão a ser assumidas pelo FMI, nomeadamente em matéria de impostos. Os EUA avançaram com o “The made in America tax Plan” que transcende o objectivo de financiar o plano de investimentos em infraestruturas de Joe Biden. Com seis princípios, entre as medidas previstas está o aumento da taxa de imposto sobre os lucros das empresas de 21% para 28% assim como uma taxa mínima de 15% sobre os resultados contabilísticos de empresas que declaram elevados lucros, mas têm um resultado tributável baixo.

Integrado nesse plano, está a intenção de chegar a um acordo global de tributação, no âmbito das negociações que estão a decorrer na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE). De acordo com o Financial Times, a administração Biden colocou em cima da mesa uma proposta, que enviou a 135 países, e que aborda os dois pilares da negociação: a definição de uma taxa de imposto mínima global sobre os lucros das empresas de 21%  e a criação de uma taxa sobre as vendas em cada território nacional de empresas que são fundamentalmente tecnológicas e que conseguem fugir aos impostos – uma batalha antiga entre os EUA e, por exemplo, a União Europeia, e que tem levado à opção de múltiplas taxas. (Inês Domingues fala igualmente do tema aqui no Observador). Podemos estar perante um avanço histórico em matéria de governação global da tributação, com o objectivo de combater o planeamento fiscal agressivo das empresas, por um lado, e a estratégia de “roubar o vizinho”, que alguns países têm seguido, para atraírem receita fiscal à custa dos seus parceiros. Não será fácil, nomeadamente a taxa mínima global. Países como a Irlanda, a Holanda e o Luxemburgo têm vivido à custa desta falta de entendimento global e serão dos grandes afectados por esta medida de imposto mínimo.

As iniciativas de Biden estão a merecer o aplauso de economistas como Paul Krugman que no New York Times dá o exemplo da Irlanda para mostrar como a estratégia de reduzir impostos se tem revelado um fracasso enquanto meio para atrair empresas que geram emprego. E Joe Biden tem sido bastante assertivo, no sentido de defender o aumento de impostos. A falar do seu plano de infraestruturas, reporta o Político, disse: “Estou farto e cansado de ver pessoas comuns a serem espoliadas”. A mudança de abordagem fez-se igualmente sentir no FMI que, no seu Fiscal Monitor vem defender o aumento de impostos e até a criação de um imposto temporário a recair sobre os negócios que lucraram como a crise, como por exemplo as farmacêuticas ou algumas tecnológicas.

Em Portugal o tema do aumento de impostos a incidir sobre os que ganharam, ou não perderam, com a pandemia foi lançado pela economista Susana Peralta numa entrevista ao Jornal I. O debate centrou-se muito na expressão que usou “burguesia do teletrabalho”, mas o espírito da proposta parece ir ao encontro do que agora é proposto pelo FMI.

A necessidade de avançar com medidas muito significativas para recuperar a economia e, ao mesmo tempo, combater o agravamento das desigualdades justificam no fundamental as propostas feitas pela área das políticas orçamentais do FMI – dirigida pelo ex-ministro das Finanças Vítor Gaspar.

O FMI trata aliás de forma relativamente desenvolvida o problema do agravamento das desigualdades que a pandemia expôs e ainda aumentou mais. E os dados que divulga são reveladores, nomeadamente na concentração da riqueza. No caso de Portugal, o Fiscal Monitor, que tem o título elucidativo “Fair Shot”, revela que 52% da riqueza está concentrada em 10% da população (ver página 29). A desigualdade é aliás mais grave quando se olha para os dados da riqueza em vários países. E Portugal é igualmente um dos países que viu a desigualdade agravar-se entre 1990 e 2019 (ver os dados relativo ao gráfico da página 26).

A pandemia pode ter sido o gatilho para o pendulo se movimentar, com a iniciativa de países que têm o poder de fazer mudar as regras, como os Estados Unidos. Os excessos a que se assistiram desde a última década do século XX acabaram por não ser corrigidos, como se esperou, na crise financeira. Os cínicos dirão que a classe política só se move por medo e o medo chama-se movimentos populistas, discursos que vão ao coração das pessoas que, como Biden disse, estão fartas de serem espoliadas.

Em Portugal só é preciso ter cuidado para não serem espoliados os mesmos do costume, salvando-se os mesmos do costume. Mas que será necessário falar menos e ter de facto políticas redistributivas mais eficazes na educação, na saúde e no rendimento, isso parece ser urgente. Porque no caso português, nos últimos anos, o discurso do combate aos excessos do liberalismo não passou disso, de palavras, enquanto fomos vendo degradar-se a educação e a saúde.

É também fundamental que os excessos passados não passem para excesso em sentido contrário. Se Ernâni Lopes tiver razão, é de facto isso que vai acontecer: os excessos do liberalismo darão lugar aos excessos de intervencionismo.

IMPOSTOS   ECONOMIA   FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL   ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA   AMÉRICA   MUNDO

COMENTÁRIOS

Antonio Monge: À falta de ideias ou de querer ter o trabalho de puxar pela cabecinha para poupar com gorduras orçamentais, desvios, corrupção, clientelismos, ajustes directos com empresas formadas há 15 dias, com fundações sanguessugas, com comissões obsoletas, aplica-se a mesma receita fácil e populista: aumentar os impostos. Agora na variante "aos ricos". Sendo que em Portugal um "rico" é uma pessoa que ganha uns 2500 euros por mês. A única coisa que conseguirão é redistribuir a pobreza e afugentar aqueles que conseguirem deslocar-se para países asiáticos emergentes. Boa sorte!         Karoshi > Antonio Monge: " gorduras orçamentais..." - Cheira-me a Passos Coelho. Esse também falava em cortar as gorduras do estado. E acabou a centenas de milhares à fome, sem casas e sem fontes de rendimento.          Adriana Cardoso: O único excesso que deve ser combatido é o excesso de imposto!!!!!        Vitor carvalho: Aumentar impostos tem dado um resultadão, ou seja andamos a trabalhar para entregar o nosso dinheiro a governantes que nunca fizeram nada na vida e o dinheiro não lhes custou a ganhar. Já agora o Gaspar não foi aquele que pediu desculpa pelo aumento brutal de impostos?          Antonio Monge > vitor carvalho: Reconheceu que as políticas dele não resultaram, mas hélas, foi promovido. Faz lembrar a directora do SEF...          Filipe Costa: O meu ordenado é pago após me sonegarem 40%, como posso fazer planeamento fiscal agressivo? Obrigado.      Vaipo Caraxo:Os excessos do passado são os mesmos excessos do nosso triste presente e tudo indica que do futuro também: excesso de impostos, excesso de controlo, regulamentação e poder coercivo do(s) Estado(s) sobre os cidadãos, excesso de subserviência perante todos aqueles que violentamente querem destruir a nossa sociedade (ainda) minimamente livre, democrática e tolerante. Não se deixem enganar, os excessos são esses, não outros quaisquer.       Antonio Monge > Vaipo Caraxo: Excelente comentário!           Jose Martins: Não entendi nada !!! em portugal existe liberalismo?         Antonio Monge > Jose Martins: Não nunca existiu. É uma fantasia da Ana Gomes e das suas cheerleaders. Não esquecer que a Helena Garrido exultou de alegria quando soube em primeira mão, pelo Teixeira dos Santos, que Sócrates iria chamar a Troika.          Paulo Guerra: Muito bem HG. É exactamente disso que se trata. Só se está a fazer agora com a crise económica e social pandémica que se adivinha o que já se devia ter feito para combater a crise económica e social que o último crash despoletou. Mesmo que alguns populistas de direita em Portugal continuem a chamar-lhe corrupção. Há quase um século, depois do crash de 29 que também lançou o mundo para a catástrofe que todos conhecemos muito bem, com as novas medidas regulatórias introduzidas o liberalismo até se viu obrigado a mudar de nome para neoliberalismo. Era suposto na altura um liberalismo mais soft e onde imperasse mais moralidade que a total impunidade que levou ao crash. Ou se preferirmos, somente mais regulado. Infelizmente depois da total desregulação financeira que começou a ser levada a cabo a partir da década de 70 do século passado, o neoliberalismo já é há muito tempo um monstro de espoliação de riqueza com que o liberalismo nunca sonhou. Claro que qualquer medida que provoque uma maior distribuição da riqueza já vem com muitas décadas de atraso.  Mas como se costuma dizer vale mais tarde que nunca. Até porque o próprio planeta, muito além de todos os espoliados, também não aguenta muito mais toda a economia neoliberal que se desenvolveu nas últimas décadas. Ela própria, um sorvedouro de todos os recursos naturais não renováveis muito além de qualquer razoabilidade até económica. Se levarmos em linha de conta a sua própria sustentabilidade a médio prazo. Eu diria pois que qualquer sinal do tempo que soe remotamente a músicas intemporais como o “times are a changing” são um bom augúrio. Até que ponto ainda é o que vamos ver. E quem diria com o FMI?! A quem ainda durante a última intervenção em Portugal era impensável pedir aos seus sócios que reflectissem sobre políticas que nunca nenhum país conseguiu levar a cabo para responder a uma dívida que só foi acumulada pela percepção das agências de rating e o subsequente aumento dos juros que nos enviou para onde nos enviou.      Antonio Monge > Paulo Guerra: «Claro que qualquer medida que provoque uma maior distribuição da riqueza» é uma fantasia. Qual a motivação de uma pessoa trabalhar se sabe que o seu rendimento vai ser distribuído por quem não quer trabalhar? Todas as tentativas de distribuição de riqueza só resultaram em distribuição de pobreza. Ou conhece algum país, algum momento, em que isso funcionou?

Francisco Correia: Em vez de irem sobre quem foge aos actuais impostos, vão sobre quem já paga impostos. Portanto serão os cumpridores (empresas e pessoas) a arcar com mais este fardo. Lá chegará o dia em que estes farão um manguito e mandarão o Estado criar riqueza. O problema não se resolve a tirar o "peixe" aos ricos para dar aos pobres. Por mais atraente que esta singela ideia seja (mais parece um Ovo de Colombo para dummies). Isso é o socialismo a funcionar, que até hoje nunca funcionou em lado nenhum. O problema resolve-se ensinando o pobre a pescar. E quem não quiser aprender, temos pena!         Antonio MongeFrancisco Correia: Essa é a dura realidade. Mas há também quem não queira aprender a pescar: bacalhau basta. E está no seu direito. Mas não se vá roubar o peixe a quem arduamente jorna.     Rogerio Russo: Mais impostos? Mais emissão monetária! Era mais lógico do meu ponto vista aumentar o IVA. É algo intermédio entre emissão monetária e imposto. De facto o IVA "cria" moeda e é um forte gerador de inflação. Por outro lado temos que concordar num ponto: Só os que não pagam impostos concordam com eles -Não me digam que o Gates e etc pagam impostos . Nem os remediados, nem os ricos gostam de pagar impostos. Um dia chegaremos ao totalizador (100%) de impostos e taxas e como vai ser? Estamos no ponto zero porque os preços já estão todos acomodados. Ora isto não é vida a economia parece um número de circo. Assim acabe-se com o dinheiro físico e com os impostos. Repe(n)sem lá a coisa senhores economistas e financeiros sob pena de o dinheiro privado virtual - bitcoins e similares - tomar conta da condução dos negócios em circuito fechado como no tempo das trocas. Levas batatas e trazes-me arroz... certo?       José Paulo C Castro: Desde a lei de Pareto que se sabe que a distribuição natural de riqueza segue sempre um padrão desigual em que metade da riqueza é distribuída e outra metade acumulada naturalmente para reinvestir mais tarde. Isto gera a famosa curva de distribuição 80-20 e suas variações 64%-4% ou 50%-1% (são todas o mesmo, façam as contas). O ponto da curva onde se faz a análise pode criar números mais chocantes ou menos. Assim, se em Portugal temos 52%-10% não anda muito mal... É o mesmo que ter 26%-1% que parece chocante mas bastante menos que o famoso 50%-1% de Pareto, que é o natural sem excesso de tributação. Indica que já andamos a redistribuir uma boa parte da riqueza dos mais ricos. Outra coisa não seria de esperar com a carga fiscal existente... Só mesmo marxistas podem achar que ainda se deve ir mais longe sem começar a restringir a economia e a desfazer o bolo que se quer redistribuir.     Alvaro van Zeller > Observador Censurador: Se tem. O Estado só deve intervir para poder proporcionar Educação, Justiça e Segurança igual para todos. Depois, deixem o sistema funcionar que ele vai-se ajustando. O problema é sempre o Poder e a ganância que ele traz. Sem ética os sistemas não funcionam. Nós estamos há 45 anos com um sistema intervencionista e as desigualdades só têm aumentado. Será que podemos citar Singapura como um bom exemplo de desenvolvimento? Baseiam-se em 3 princípios: meritocracia, pragmatismo e honestidade.    Antonio Monge > Alvaro van Zeller: Apoiado. Ou o milagre de Hong Kong que nos anos 60 reduziu drasticamente a carga fiscal, retirou o Estado do não essencial e hoje é um dos tigres asiáticos também.   José Paulo C Castro: Como é que tributar os excessos (que é o que o lucro é...) não é em si mesmo um excesso? Como é que ficar com o que livremente se produziu é um excesso? Chamar excessos liberais ao desejo de quem produz não denota o condicionamento socialista ?    José Paulo C Castro: O mundo está em condicionamento socialista  (ironicamente reforçado pelo liberalismo!...) desde a Revolução Francesa, e com renovação periódica de tal condicionamento estruturante, garantida e legitimada pelo dispositivo democrático (o tal poder da maioria)... Ou seja, desde que a tal maioria deixou de acreditar que pode produzir para si própria o suficiente. Que síndrome de Estocolmo.          Maria L Gingeira: O problema é a gestão desses impostos. É evidente que taxar lucros a empresas é fácil, mas com esse dinheiro para o Estado é sempre duvidoso que chegue a quem precise. É o caso do dinheiro que vai entrar agora vindo da solidariedade da UE. Vai chegar aos pobres? Vai criar mais igualdade? Não. Se a intenção é promover aqueles que pouco têm, então determinem que milionários e empresas tenham de contribuir directamente para causas sociais. Há empresas que já o fazem, o problema são os milionários individuais.        Hel_Marques Marques >Maria L Gingeira: Penso que tem razão, o estado quer mais dinheiro para se sustentar a ele próprio, e começa a engordar e vai daí, precisará de mais dinheiro, mais impostos e continuará a aumentar e será eternamente necessário mais dinheiro e o dinheiro nunca chegará a quem precisa porque o Estado precisa de mais dinheiro para a sua sobrevivência, seja de impostos ou de empréstimos, a máquina não pára de engordar, consta que em Portugal no ano passado entraram mais 20.000 pessoas para trabalhar para o Estado.          Luis Fernandes Machado: A única estratégia que estes "líderes" se lembram para combater a China comunista, parece ser por optar ser-se também comunista.Portugal, que Futuro: Helena Garrido, 1.- Quando três instituições tão diferentes como o actual governo dos EUA, o FMI e a OCDE que referiu, concordam na necessidade de fazer convergir a política fiscal e a aumentar os impostos a quem mais pode para combater a forte recessão económica mundial causada por esta inédita pandemia e diminuir a assimetria na distribuição do rendimento, não parece que devamos falar em liberalismo ou em socialismo. 2.- Ao contrário do que escreveu, não é só na Irlanda que “a estratégia de reduzir impostos se tem revelado um fracasso enquanto meio para atrair empresas que geram emprego”. Olhe para a Holanda: as empresas, incluindo as portuguesas do PSI20, que em termos estritamente jurídicos mudaram as suas sedes para lá, que emprego criaram na Holanda se basta uma caixa postal, zero empregados e zero escritórios, para criarem as holdings holandesas que só existem no papel? 3.- É obviamente mau para nós, e acima de tudo mau para o nosso crescimento económico, a informação contida no Fiscal Monitor do FMI de Abril 2021, que referiu e que mostra que 52% da riqueza portuguesa está concentrada em 10% da população”, mas repare que na mesma “Figure 2.2. Income and Wealth Shares of the Top 10 Percent of the Population” há nomes sonantes com situação bem pior do que a nossa: Os EUA com 80%, a Holanda com 70%, a Dinamarca com 65%, a Alemanha com 62%, a Irlanda com 57% ou a Austria com 55% e outros menos sonantes mas também com pior situação do que Portugal: Chile, Letónia ou Estónia. Por sua vez, Reino Unido, Canadá, França ou Luxemburgo estão a par de Portugal.      Mario Areias: De um modo geral estou de acordo com as suas opiniões mas hoje não posso estar mais em desacordo. Repare que é voz corrente que a concorrência beneficia o consumidor. Sabemos, por inúmeros exemplos no mundo, que a fixação de preços por parte das autoridades leva à escassez. Porque haverá de ser diferente com os impostos? Todos conhecemos a incompetência dos políticos para governar. Vitorino Nemésio dizia que os intelectuais eram os mamíferos mais inúteis ao cimo da terra. O mesmo se pode aplicar aos políticos - logo a fixação de um imposto vai potenciar ainda mais a incompetência deles e estarão muito mais à vontade, com mais dinheiro, para comprar votos que é a sua única especialidade. Ao contrário do que diz Krugman (cuja posição não me surpreende em nada. Se perguntar ao Jerónimo de Souza verá que é a mesma) a Irlanda, a Holanda e o Luxemburgo têm crescido. Veja que no Luxemburgo os transportes públicos são gratuitos. Quer medida mais socialista? Em Portugal criaram-se os passes sociais à custa de mais dívida pública. Não temos que mudar as políticas liberais que criam riqueza, temos é que mudar os políticos para aplicarem bem a riqueza que se produz e usar o imposto como uma variável que deve subir em momentos de expansão económica, para os estados constituírem poupanças, não para distribuir, e aliviar impostos em tempos de contracção económica e aí distribuir o que se poupou para aliviar as empresas e famílias.            Manuel Magalhães: Isto pode ser tudo muito bonito, mas há que ver que estamos em Portugal, onde o partido do governo só pensa nele próprio e nas suas clientelas, além de que impostos provisórios TODOS se tornam definitivos e não esquecer que em cima dos impostos às empresas ainda há a derrama para os municípios o que normalmente eleva os custos em impostos para as empresas acima dos tais 28%... há que ser realista Dra. Helena Garrido!          Gil Lourenço: O Biden acha que pode ser o governo do Mundo. Cada país deve ser livre para definir a sua política fiscal. Chama-se a isto, soberania. Excessos do liberalismo? Onde? Em Portugal? No país onde as empresas são espoliadas pelo inferno fiscal. O Biden sim que é um populista socialista. Antes o Trump a este tipo. Ao menos o Trump não tinha intenções de se meter nas coisas dos outros países.          Adelino Lopes: Eu vejo alguma confusão neste artigo: Tributar para corrigir os excessos do liberalismo? Apelar à “Tributação dos outros” destina-se a “fazer propaganda”; é populismo puro e duro. Os excessos do liberalismo podem ser resolvidos com regulação, digo eu. E tantos que existem nos EUA, não é? Por exemplo as transações de alta frequência; a globalização, etc, etc. E a Helena Garrido nunca deve esquecer a história: recorda-se das razões porque nasceram as “off-shores”? Pois, e as “bitcoins”? Agora vamos perspetivar o futuro: não acredita que a seguir virá outra qualquer estratégia, para fugir aos impostos? É simples, não é? E acha que alguém tem dúvidas em fazê-lo neste mundo inundado de populistas? Não é preciso referir o último caso (Ivo Rosa)? Agora a questão dos “cada vez mais pobres” e das desigualdades. Eu acredito que as desigualdades serão cada vez mais gritantes: resultado da globalização e não só. Veja bem: do ponto de vista económico o que é que acontece quando se dá (muito) dinheiro a um pobre. Isto não é 100% assim, claro; mas é só analisar o que se passa nos países socialistas. 1º) Aumenta a dívida, porque não existiu criação de riqueza. 2º) Para além do pobre não lhe dar valor algum, a seguir irá entregá-lo aos lucros do vendedor, não é? O pobre fica com a dívida no país (dívida pública) e o vendedor está no “off-shore” (atualmente). Consegue inventar maior maneira de criar desigualdades?        Antes pelo contrário: Não é "a América", nem "Washington", são os senadores de extrema-esquerda Warrem e Sanders que têm feito lóbi para isso graças ao actual presidente senil, e graças à sua própria senilidade marxista!!! A ignorância absoluta de quem não percebeu nem quer perceber que o padrão-ouro já acabou, e por conseguinte a riqueza já não implica a "acumulação", ou seja, o dinheiro não é tirado a ninguém: É criado pelos próprios mercados. Todos os dias!!! Porque o dinheiro que é criado pelos bancos centrais, se não passar pelos mercados ou pelas indústrias - que precisam elas próprias dos mercados para criar riqueza, e se não for processado pela economia, não produz qualquer riqueza. Acaba numa pizza ou num hambúrger cujo fim é a sanita!!! Mas se for entregue a alguém que o invista, seja em acções, seja em qualquer coisa de concreto e permanente ou de preferência criador de riqueza, cria mais riqueza. Porém os próprios Estados, sejam ou não emissores de moeda - nós, por exemplo, deixámos de ser - necessitam dos mercados para lhes comprarem as dívidas e lhes emprestarem dinheiro!!! E mesmo os que não pedem dinheiro emprestado - todos pedem, em maior ou menor grau - dependem de haver ou não confiança nas suas economias, pois essa confiança que depende do valor da riqueza produzida - e acumulada, ou seja não gasta  - é que vai determinar os juros e os salários, etc. Usar o dinheiro para criar benefícios e dependentes desses benefícios que não produzam nada em troca - é que destrói a riqueza!!! Não é o enriquecimento, que a cria!!! O que destrói a riqueza é o socialismo!!! Aliás, a demonstração de tudo isto que acabei de escrever de forma simplificada é o facto de a civilização, a seguir à pré-História, ter aparecido precisamente graças à acumulação e ao capitalismo!!! Pois foram as primeiras trocas que permitiram o aparecimento de cidades e de Estados. Já o socialismo, que tem menos de 200 anos, nunca produziu outra coisa a não ser pobreza, fomes, e guerras!!! Em qualquer parte do mundo!!! Pois trata-se sempre de ROUBAR quem produz alguma coisa. Antonio Monge >Antes pelo contrário: Nem mais: Socialismo é viver às custas dos outros. São os liberais à americana. Mais socialistas que muitos socialistas.         bento guerra: "De boas intenções está o Inferno cheio". São as empresas que criam empregos e pagam as receitas dos estados, por isso esses são discursos de "boas e populares" intenções.

 

 

Ao vivo


Carlos do Carmo, reconhecendo-o no perfil exigente, antes do seu fim. Dois jovens em ascensão: com “Bicho Carpinteiro”: Vasco Ribeiro Casais e Rui Rodrigues. Apresentação enriquecedora de Nuno Pacheco.

I.CARLOS DO CARMO: Tinha a obsessão de gravar este disco e aguentou a vida até garantir que ele podia sair

Gravado ao longo de dois anos e meio por imperativos de saúde, E Ainda… é o último legado musical de Carlos do Carmo e chega dia 16 às lojas. A sua história é a de uma vitória contra a morte, contada ao Ípsilon a dez vozes: a do produtor (seu filho) e as dos músicos, compositores e escritores nele envolvidos.

NUNO PACHECO  PÚBLICO, 9 de Abril de 2021

Para começar, basta um pretexto. Neste caso, foi um poema de Herberto Helder. Carlos do Carmo era leitor assíduo e devoto da sua poesia. Com um senão: “Sempre me danou não sentir a possibilidade de o cantar. Até que descobri, e a minha mulher [Maria Judite] ajudou-me a localizar, as duas últimas páginas de um livro que tenho ali…” Isto ainda o ouvimos explicar, na entrevista gravada em vídeo e documentada no DVD que integra a edição especial de E Ainda…, o seu derradeiro disco, que só agora chega ao público.

Cantar o “incantável” Herberto Helder, eis o desafio. Viver foi outro. No início de 2019, Carlos do Carmo gravou e divulgou um vídeo anunciando a despedida dos palcos. Era uma medida preventiva, face a debilidades de saúde. Apesar disso, antes de completar 80 anos, ainda arriscou palcos grandes, com espectáculos esgotados em Braga (Theatro Circo, 12 de Outubro), Porto e Lisboa (nos Coliseus, nos dias 2 e 9 de Novembro). No vídeo, ele dizia: “Estou a gravar um disco que sairá nessa altura” (na dos concertos), mas a realidade trocou-lhe os passos. A gravação demorou e a nova data [27 de Novembro de 2020] foi adiada devido ao seu estado de saúde e também à pandemia. Subitamente, no dia 1 de Janeiro, Carlos do Carmo deixou o mundo dos vivos. Mas o disco, gravado pela obsessão de nunca desistir, acabou por ser uma vitória sua (mais uma) contra a morte.

“Um disco pode ser gravado numa semana, ou em quinze dias”, diz Alfredo Almeida (Becas), produtor musical do disco e filho do cantor. “Mas este foi gravado em dois anos e meio, pelas interrupções de saúde, porque ele esteve bastante débil durante este período. Mas ele tinha esta obsessão de gravar estes temas e aguentou a própria vida até garantir que o disco podia sair. As sessões que fizemos em 2019, as que fizemos no início de 2020, aquilo foi tudo para o lixo, no sentido de que para ele não estava ainda em condições. E quis repetir aqueles temas todos”. Porquê voltar a estúdio? “Porque achou que tinha alguma coisa a dizer ao seu público, às pessoas.” Em 2018 começaram a pensar no material e foi no Verão de 2020 que o disco avançou para a masterização, já pronto. Com a centelha num livro. “Sem dúvida, os Poemas Canhotos do Herberto Helder. Ele descobriu que de repente aquilo até era musicável e entendível para a música, foram uma alavanca muito importante para o estimular a recolher o resto do material. Nem que fosse só por esse tema, por essa descoberta, ele não queria deixar de ir a estúdio gravar”.

 Enquanto ele não sentisse que a palavra tinha o peso que ele lhe queria dar, repetia tantas vezes quantas as que fossem precisas”, diz Alfredo Almeida (Becas), produtor e filho do cantor. “O Carlos cantava e deixava tocar, havia uma conversa entre todos, e isso às vezes não se encontra em muitas pessoas”, diz Carlos Manuel Proença FILIPE FERREIRA

Mas a lista era mais vasta. A Herberto (1930-2015), juntaram-se Vasco Graça Moura (1942-2014), Júlio Pomar (1926-2018), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e José Saramago (1922-2010), mas também Jorge Palma e Hélia Correia, que escreveram para ele pela primeira vez, embora Hélia já tivesse escrito para outros fadistas, como MísiaCristina BrancoMafalda Arnauth ou para o guitarrista António Chaínho.

Musicar o “incantável” Herberto

António Victorino de Almeida explica como o cantor lhe pediu que musicasse Poemas canhotos: “Disse-me: ‘Tenho aqui uma coisa do Herberto Helder, que acho óptimo mas toda a gente me diz que ele é incantável’. Eu disse que ia ver. Ora, pelo contrário, foi até dos poemas em que mais rapidamente avancei, numa só manhã resolvi o assunto. Realmente havia uma volta que o Herberto dava ao texto que cortava o balanço, um verso com muito menos sílabas. Mas deu-se-lhe a volta rapidamente e o Carlos até se admirou, disse que era um ovo de Colombo.”

E assim o cantou. “Ainda tive a alegria de o ouvir, no talvez mais autêntico concerto de despedida que o Carlos do Carmo fez, no Museu do Fado, para os amigos [em 30 de Setembro de 2019], pedindo a todos que não fôssemos ao coliseu, que era uma coisa já para o público.” Com cerca de dezena e meia de músicas escritas para Carlos do Carmo, o maestro seguia sempre um mesmo método de trabalho: “Eu ia lá a casa dele, sentava-me ao piano, tocava uma ou duas vezes, ele gravava num gravador de cassetes e depois ia trabalhar na recriação do tema. Nunca assisti, era uma coisa íntima dele. Depois, quando ia para a gravação, era absolutamente um mestre.

“O estímulo dele era a poesia, era das palavras que ele partia para o tema, para a música. E era muito perfeccionista. Como qualquer fadista que se preze, não gostava de repetir, mas dava o litro para tudo sair na perfeição e com o maior rigor

Os poemas de Graça Moura e Júlio Pomar couberam a Paulo de Carvalho, enquanto o de Sophia foi entregue a Mário Pacheco. “Eram dois poemas que o Carlos tinha e que ele achou que poderiam estar perto do fado mais gingão, um Mouraria mais rápido, corrido. E ele achava que eu podia fazer a música”, diz Paulo. “Aliás, uma das minhas frustrações em relação ao Carlos é que ele nunca me convidou para fazer uma coisa mais lenta, mais para o lado do Fado Menor. Porque ele achava que eu era o gajo dos fados gingões.” E se Paulo já musicara para Carlos do Carmo uns dez fados, de Lisboa, menina e moça (1976)Casa do fado (2002), para Mário Pacheco foi uma estreia. “Volta e meia encontrávamo-nos e, há dois ou três anos, disse-me ‘Já há anos que estou para lhe pedir que componha para mim’. Depois, a meio do ano passado, telefonou-me: ‘Quero gravar dois poemas da Sophia de Mello Breyner’. Eu disse ‘olá!’, porque a minha paixão pela Sophia é grande, e fiz duas músicas. Uma, ele já não conseguiu cantar, e é uma música que eu adoro; e a que ficou não foi fácil, mas permitiu-me entrar dentro do poema e percebê-lo à minha maneira. Mas gostei imenso, ele gostou também, e fiquei contente por essa música entrar no disco.

A par da citada música de Mário Pacheco, ficaram de fora temas de Ivan Lins e Pedro Abrunhosa. “Ficaram vários de fora”, diz Alfredo. “Houve instrumentais feitos, mas o meu pai já não teve capacidade de lhes pôr a voz definitiva. Por isso é que o disco é curto. O do Abrunhosa, por exemplo, foi feito à volta da sonoridade e da musicalidade do meu pai, pensando nele, e é muito bom. Tive muita pena que não tivesse conseguido gravá-lo. E ele ficou com muita pena, também, de não gravar tudo o que queria.”

Jorge Palma, Hélia e Mia Couto

Já o de Jorge Palma, prometido há 20 anos, teve melhor sorte. Palma recorda-se da encomenda: “Ele fazia questão de dizer: ‘Não é um fado, é uma canção à Jorge Palma’. Disse ok, vou pensar nisso e ver se consigo fazer uma coisa à altura. Quando são pessoas que admiro, e de quem gosto, aceito. Mas sem compromisso, muito menos de tempo.” Até que, em Abril de 2018, ficou pronta. “Chama-se Canção de vida e é devida, porque estava prometida. Passaram-se para aí vinte anos! E acabou por ser um bocado o resumo da nossa existência”, diz Palma. Alfredo Almeida comenta: “Apareceu com o timing perfeito e com a canção perfeita para o timing. Este belo balanço de vida parecia uma encomenda de propósito no ocaso da vida.” E adaptou a música ao seu modo, diz ainda Jorge Palma: “Ele praticamente não mexeu na melodia, mas deu-lhe um toque de fado. Por exemplo: logo no início, eu tinha escrito ‘nascemos?’, para cima, como uma interrogação, e ele cantou ‘nascemos’, conclusivo. Só melhorou. Os compassos acabam por ser os mesmos, mas os espaços entre cada frase é que ele os fez à sua maneira.”

As palavras, quando lhe agitavam o espírito, transportavam-no para um outro mundo; começava então a cantá-las e a modelá-las na cabeça, com papéis nas mãos, de um lado para o outro, antes sequer de permitir que lhe descessem à voz. Antes de chegar cá fora, já todo um fado refulgia dentro de Carlos do Carmo KENTON THATCHER

Hélia Correia, outra “estreante” na escrita para Carlos do Carmo, recorda o primeiro contacto: “Recebi um telefonema que não atendi, porque nunca atendo telefonemas de números não identificados, e ele deixou-me um recado muito engraçado, a dizer que queria falar comigo se eu fizesse a fineza de falar com ele, e acabava assim: ‘Carlos do Carmo, fadista’.” E ela ligou-lhe. “Falámos, ele nem sequer sabia que eu já tinha escrito para fados, e eu lá lhe disse que ia tentar (nunca prometo nada, porque não sei se vem ou se não vem), porque era aquela voz admirável que me acompanhou ao longo da vida, mesmo quando eu não gostava de fado”. Não foi à primeira tentativa: “Foi tortuoso, porque fiz um fado com uma espécie de temática autobiográfica (dele) e ele telefonou-me muito aflito, a dizer que nunca tinha cantado nada autobiográfico.” Então ela pediu-lhe que sugerisse uma música. “Disse-me que nunca tinha cantado o Fado Menor do Porto, que eu não fazia a mínima ideia do que era. Então lá fui investigar, ouvir, e escrevi com essa música de fundo. E ele depois, ao telefone, cantou-me o fado. São coisas assim que são pérolas na nossa vida, ter o Carlos do Carmo ao telefone a cantar o nosso fado!”

O disco abre e fecha com um tema instrumental, Fado Zé, escrito pelo guitarrista José Manuel Neto, um dos membros do trio de fado que acompanhou Carlos do Carmo nas últimas duas décadas (ele, Carlos Manuel Proença na viola e José Marino de Freitas no baixo) e que é o precioso (e único) suporte instrumental deste disco. José Manuel Neto explica: “Ele pediu-me para fazer um fado. E havia uma letra. Mas quando estávamos em ensaios, vimos que soava bem como instrumental e eles decidiram dividir o tema e metê-lo como abertura e fecho. Inspirei-me basicamente na forma do Carlos cantar. E o poema manda muito, temos de seguir as emoções do poema. Mas ele não se sentiu bem ao cantá-lo e, como adorou a música, quis que ela ficasse no disco e ficou como instrumental”. Ao qual o cantor acrescentou, a fechar, esta frase dita: Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida”.

É uma frase do escritor moçambicano Mia Couto, do conto A Cantadeira, incluindo no livro Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos (Editorial Caminho, 2001). Mas não foi do livro que ele a tirou, recorda Alfredo: “Ele leu essa frase citada num jornal, penso que no PÚBLICO, e ficou absolutamente agarrado a ela, porque sentia que tinha a ver com ele, com a sua sensibilidade sobre a vida e a música. E quis dizê-la, tanto nos coliseus como no disco.” Mia Couto desconhecia a referência. Contactado pelo Ípsilon, que lha deu a ouvir, disse: “Eu não sabia, talvez me tenha sido referido, mas numa circunstância fortuita. Mas é uma surpresa que muito me comove e me honra. Tenho pelo Carlos do Carmo o maior respeito, como músico e como pessoa. A voz do Carlos permanece, afastando a morte. A poesia resgata essa eternidade que o canto anuncia.”

A não-decadência, até ao fim

Paulo de Carvalho está convencido de que Carlos do Carmo não queria pôr aqui um ponto final nos discos: “Este, para ele, não era o último disco. Era mais um. Mas sempre naquela ânsia que ele tinha de busca de coisas novas respeitando a tradição. E conseguiu, mais uma vez, apesar de eu sentir que, a cantar, ele já não estaria tão bem como há tempos atrás. Mas isso é normal. Cantar, como viver, é um acto de inteligência. Tem de se ir à procura do caminho. E resolver os novos problemas que se nos apresentam.”

E esses problemas surgiram, naturalmente, no processo de gravação. “Fomos por fases, conforme ele ia ficando melhor. Mas tínhamos ensaios em casa dele, de vez em quando, juntávamo-nos”, diz José Manuel Neto. E Marino de Freitas, que começou a trabalhar com ele em 1996, no disco Margens, acrescenta: “A exemplo de discos anteriores, era um processo que começava a ser preparado e elaborado na casa do Carlos. Fazíamos triagens, experiências, criávamos introduções. A produção musical éramos nós três, ele dizia que éramos os anjos da guarda dele. Desta vez ele estava muito, muito contente, com este trabalho. Eu sou madeirense, e ele ia cantar pela primeira vez um poema do Herberto Helder [nascido no Funchal]. Estava eufórico, falava daquilo como se o poema fosse de um familiar próximo.” Carlos Manuel Proença, que tocou pela primeira vez com ele no CCB, no concerto dos 35 anos (1998), consegue ver nesta demora “as suas vantagens”: “A possibilidade de amadurecer os temas, de experimentar caminhos novos para cada música, para escolhermos a forma mais indicada de os servir. E sendo Carlos o músico maravilhoso que era, com uma capacidade maravilhosa de inventar e interpretar as músicas, acompanhá-lo era para mim a coisa mais fácil. O Carlos cantava e deixava tocar, havia uma conversa entre todos, e isso às vezes não se encontra em muitas pessoas.”

Alfredo Almeida sublinha um ponto: “O estímulo dele era a poesia, era das palavras que ele partia para o tema, para a música. Enquanto ele não sentisse que a palavra tinha o peso que ele lhe queria dar, repetia tantas vezes quantas as que fossem precisas. E era muito perfeccionista. Como qualquer fadista que se preze, não gostava de repetir, mas dava o litro para que saísse na perfeição e com o maior rigor possível. Era muito autocrítico em relação à exigência e ao produto final. A última vez que ele cantou em público foi no Coliseu de Lisboa. E basta ouvir o disco para ver que ele conseguiu cumprir a não-decadência vocal, porque está muito bem cantado e com uma grande voz, conseguiu isso até ao fim.”

tp.ocilbup@ocehcap.onun

TÓPICOS

CULTURA-ÍPSILON  MÚSICA  CARLOS DO CARMO  FADO  CULTURA  RELAXAR  MÚSICA  PORTUGUESA   TORNE-SE PERITO

COMENTÁRIO: mzeabranches EXPERIENTE: Muito interessante, elucidativo e comovente!

II - Cultura-Ípsilon: MÚSICA: São dois músicos, têm Bicho Carpinteiro e puseram Fado Beirão num videoclipe

 

PÚBLICO, 11 de Abril de 2021

Bicho-carpinteiro pode ser sinónimo de caruncho mas também de irrequietude, de quem não pára quieto. Mas se lhe tirarmos o hífen, Bicho Carpinteiro mantém a irrequietude, mas sem caruncho que se lhe pegue. Trata-se de um duo formado pelos músicos Vasco Ribeiro Casais (Omiri, Seiva, Dazkarieh) e Rui Rodrigues (Casuar, LOT, Uxu Kalhus, Dazkarieh) e foi há praticamente um ano que, em palco, criaram músicas para um álbum. O nome do grupo explica-o assim Rui Rodrigues:Queríamos um nome que, além de nos representar, estivesse ligado ao imaginário português”. E Vasco Ribeiro Casais acrescenta: “Como nós passamos a vida a inventar projectos novos e não conseguimos ficar parados, achámos que o nome Bicho Carpinteiro assentava que nem uma luva nas nossas personalidades e que fazia todo o sentido com a música que fazemos.”

E a música que fazem é descrita, na apresentação do single e videoclipe Fado Beirão, que se estreia este domingo, como “um rock instrumental e um folk ‘musculado’ regado a viras, fados, chulas e lenga-lengas servidos numa bandeja de ambientes electrónicos temperados com toda a riqueza que a tradição portuguesa têm para oferecer”. Porque “a tradição é uma coisa viva”.

Fado Beirão, explica Vasco,é um fado instrumental composto por nós e tocado na viola beiroa e na viola braguesa, dois instrumentos tradicionais que não costumam estar ligados ao fado tradicional. Para além de usarmos esses instrumentos, também utilizámos cavaquinho, adufes e electrónica. Demos-lhe o nosso cunho e acaba por ser uma visão nossa do fado, que deu o mote para as composições seguintes do nosso projecto.” Rui: “A música foi composta e produzida entre Lisboa, Setúbal e Castelo Branco. Portanto, para além de ser tocada num instrumento originário da Beira Baixa, também a melodia nasceu em terras beirãs, nas mãos de um nativo beirão!”

Fado Beirão é um instrumental, mas o álbum que há-de vir ainda este ano  terá também canções com letra. Nas gravações e nas apresentações ao vivo (há registos, no YouTube, de apresentações dos Bicho Carpinteiro na Fnac e no Westway Lab de Guimarães, em Abril de 2021) Vasco Ribeiro Casais tem a seu cargo a viola braguesa enquanto Rui Rodrigues toca viola beiroa. Além delas, ambos asseguram o mesmo lote de instrumentos: cavaquinho, bombos, programações e voz.

TÓPICOS: GUIMARÃES  CULTURA-ÍPSILON  MULTIMÉDIA  FADO  BEIRA BAIXA

 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

“Nós salvámo-nos na fuga”

 

Já aqui o referi, este verso da poesia “NÓS” de Cesário Verde: a família foi para o campo, para fugir da peste. Uma peste adiada, pois a tuberculose lá estava, a ceifar-lhe a vida bem cedo. Fugir da peste, fugir da selva, fugir da guerra, fugir do perigo, fugir da responsabilidade… É apenas um adiamento. Poupa-se a vida, por vezes a dignidade – verdadeira ou falsa…

Às vezes resulta em brilho: sai-se de um ministério para outro. E em glória, o que é sempre bonito. Que importância tem a verdade? O que conta é a glória, sobretudo se traduzida em rupias, libras, dólares, euros, ienes ou rublos…

A verdade está em cada um de nós, embora exista uma Justiça modelar... Que só conta para os que não têm euros, nem rupias, nem escudos nem libras, nem dracmas antigos… Uma Justiça séria, modelar, carismática, do antigamente… se é que existia mesmo, antigamente...

É essa a verdade. É consoante os méritos, que não têm que ser os de um ideal abstracto, falacioso. Que a Justiça, afinal, também tem os seus amigalhaços. Qual Salomão a repartir a criança pelas duas mães?!... É claro que a mãe boa perdeu o filho, para o poupar à morte, fugindo à verdade, e à sua felicidade… O que parece bem injusto. Mas só Deus sabe.

 O Dr. Salles bem poderia dar-nos a sua versão, que tem sempre um toque de picardia, para alegrar as hostes, e nos tirar deste estado de melancolia, tão autêntica como a actual epidemia - em todas as frentes…

 

PELO TOQUE DA ALVORADA - 3

 HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO 12.04.21

Antes de ter sido Primeiro Ministro da Índia, Lal Bahadur Shastri fora Ministro dos Caminhos de Ferro, cargo de que se demitiu aquando de um desastre ferroviário que vitimou fatalmente várias dezenas de passageiros. Os seus correligionários ainda hoje exaltam essa auto-demissão como gesto de grande dignidade; os adversários apontam a fuga.

Onde estará a verdade?

 

COMENTÁRIOS

 Anónimo  12.04.2021 : À bon entendeur..

 Adriano Miranda Lima  12.04.2021  13:07: Este caso faz lembrar o do Jorge Coelho, que, infelizmente, nos deixou há poucos dias. É sempre difícil avaliar o que é um gesto de natureza genuinamente política, que enobrece a democracia, e o que pode significar, de facto, a oportunidade para se livrar de um cargo que mais não é que um fardo. Em minha opinião, a democracia está hoje em dia pelas ruas da amargura que não é com o simbolismo de gestos desta natureza que ela se valoriza. Eu, no lugar dos demissionários, preferia enfrentar o problema para, no meu posto de trabalho, contribuir para minorar as suas consequências e tomar medidas para que o mesmo não se repita no futuro. Mas penso assim talvez por ser militar. É que um comandante militar não pode demitir-se se lhe corre mal uma operação. Tem de assumir as suas responsabilidades em toda a plenitude.

Anónimo  12.04.2021  : Medium virtutis - como pratica um meritíssimo juiz, recentemente célebre.

 Miguel Magalhaes  12.04.2021: Em minha opinião não terá sido o Shastri o principal e único responsável pelo desinvestimento na ferrovia indiana. Há décadas que vemos fotografias de como se viaja nos comboios indianos....