domingo, 19 de abril de 2026

Vivências

 

Não posso deixar de registar Opiniões que li por essas alturas e que registei, por exemplo no texto “E PORTANTO”, pois acho-me com direito a dá-las, tendo vivido esses momentos como tanta gente nessa altura, hoje descrita no texto abaixo, e tendo-a registado por exemplo no livro “CRAVOS ROXOS - Croniquetas verde-rubras”, em 1981.

É, pois, mais uma das reacções – de afecto magoado, naturalmente – que como ultramarina das que foram chutadas de África, reagiria em tempos de menos movimentação, por exemplo no livro “CRAVOS ROXOS”, no tal texto das mágoas de então:

“Eu só tenho pena que não me tenham perguntado a mim sobre o referendo e a independência e tirado o retrato. E havia de dizer que não ao referendo – estávamos tão bem assim! - e havia de dizer que sim ao Samora Machel, por causa do bem-estar dele, que quando viaja para a Zâmbia para travar as conversações vai no avião particular do Kaunda e é recebido no palácio deste com o estatuto, enquanto o desprezado Mário Soares fica no hotel sem avião, coitado, por falta do estatuto”.

É, pois, apenas mais um exemplo de reacção a uma vivência passada, que RUI RAMOS traz à baila no texto infra:

 

Os presos de Abril: a prisão política em Portugal entre 1974 e 1975

A partir de Setembro de 1974, a prisão às ordens dos militares tornou-se um instrumento essencial para o PCP, a extrema-esquerda e a ala esquerda do MFA anularem adversários.   Ensaio de Rui Ramos.

RUI RAMOS: Texto

OBSERVADOR, 18 abr. 2026, 21:05

No dia 28 de Setembro de 1974, MÁRIO SOARES, MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS, discursou na assembleia parlamentar do Conselho da Europa. A sua mensagem sobre a situação em Portugal, cinco meses depois do movimento militar de 25 de Abril de 1974, não podia ser mais tranquilizadora: a nova situação política em Portugal tivera origem numa “revolução sem derramamento de sangue”, e “mesmo numa transição revolucionária”, fazia questão de “aplicar” a Declaração Universal dos Direitos do Homem. A prova do carácter benigno e original da revolução portuguesa estava nisto: era “um regime sem presos políticos”.

Havia, no entanto, um problema. Quando Mário Soares saiu de Lisboa, era verdade que, descontando os agentes da PIDE-DGS, suspeitos de violações de direitos humanos, a nova situação política tinha feito poucas prisões. Por exemplo: dos 30 membros do governo de Marcello Caetano, só 4 estiveram presos durante mais do que algumas semanas, e foram todos soltos no Verão de 1974. Mas a 28 de Setembro, precisamente quando Soares gabava à Europa o respeito pelos direitos humanos em Portugal, as prisões da revolução estavam a encher-se com cerca de 200 pessoas detidas por motivos políticos – um número superior ao que, em 25 de Abril, existia nas prisões políticas do Estado Novo na metrópole.

A partir daí, e durante mais de um ano, a ascendência das facções do Movimento das Forças Armadas em sintonia com o Partido Comunista e a extrema-esquerda gerou em Portugal o que o Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, em 1976, designou como uma “situação de não-direito”, correspondendo a “prisões arbitrárias, falta de garantias judiciárias, tortura, tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes da pessoa humana, e outras violências e abusos”. A revolução portuguesa não foi tão benigna e original como se quis apresentar à Europa em Setembro de 1974.

As prisões terão aliás sido efectuadas com a colaboração de militantes do PCP, do MDP-CDE e de outros partidos de extrema-esquerda. O comunicado do Comité Central do PCP de 29 de Setembro tratava as prisões como a prova de que o MFA, depois de meses de complacência, passara à “ofensiva”.

A “ofensiva” do MFA

No fim do Verão de 1974, os confrontos entre o Presidente da República general António de Spínola e a ala esquerda do MFA puseram termo a qualquer idílio democrático. Na noite de 27 para 28 de Setembro de 1974, nas vésperas da manifestação da “maioria silenciosa” de apoio a Spínola, a ala esquerda do MFA decidiu e executou, através do COPCON, a prisão de cerca de 200 pessoas, a fim de impedir a manifestação. Esta iniciativa satisfez o clamor do PCP e extrema-esquerda para que as autoridades militares prevenissem um suposto avanço da direita. Desde Agosto que o PCP exigia a prisão de “conspiradores e provocadores” e apelava à denúncia de “tudo quanto pareça suspeito: reuniões de gente reaccionária, contactos em sítios recatados, afixação de cartazes anti-comunistas” (Avante, 23 de Agosto e 20 de Setembro de 1974).

As prisões terão aliás sido efectuadas com a colaboração de militantes do PCP, do MDP-CDE e de outros partidos de extrema-esquerda. O comunicado do Comité Central do PCP de 29 de Setembro tratava as prisões como a prova de que o MFA, depois de meses de complacência, passara à “ofensiva”. As detenções foram de facto fundamentais para destruir as forças políticas à direita, e para galvanizar os apoiantes da esquerda militar mais radical. Entre as 200 pessoas presas na noite de 28 de Setembro de 1974, estavam os organizadores da manifestação da “maioria silenciosa”, activistas dos partidos e da imprensa da direita, antigos dirigentes do Estado Novo, e indivíduos investigados pelos Serviços de Coordenação da Extinção da PIDE-DGS e LP, todos acusados de “associação de malfeitores”. Não formavam um grupo homogéneo, mas correspondiam aos grupos percebidos como potencialmente hostis pelo PCP e pela esquerda militar.

A lógica da detenção extra-judicial

A partir de Setembro de 1974, a prisão às ordens das autoridades militares tornou-se um instrumento essencial para o PCP, a extrema-esquerda e a ala esquerda do MFA anularem adversários. A 13 de Dezembro de 1974, ocorreu uma nova onda de prisões, incidindo sobre accionistas e gestores de várias empresas, suspeitos de “sabotagem económica”, o que o PCP e a extrema-esquerda entenderam como a afirmação da orientação socialista da revolução. Na sequência da revolta militar de 11 de Março de 1975, seriam detidos 144 militares e 39 civis. Provavelmente, as prisões nesta ocasião terão sido mais numerosas. Por exemplo, só no Estabelecimento Prisional do Porto (Custóias), em Março de 1975, chegaram a estar detidos cerca de 53 indivíduos, por ordem do Comando da Região Militar do Norte. Alguns dos militares presos haviam participado na revolta, e poderiam ser arguidos por crime de rebelião, mas muitas outras pessoas, como notou a Comissão de Averiguações de 1976, teriam sido detidas “essencialmente por ideias ou atitudes que lhes eram atribuídas”. Foi o caso dos 22 presos às ordens do Comando da Região Militar de Évora em Março de 1975. O seu comandante explicou à Comissão de Averiguações ter-se tratado de “prisões preventivas” de indivíduos conhecidos pelas suas “ideias reaccionárias”, e que teriam servido “para os proteger a si próprios e para acalmar a indignação popular”. O comandante admitiu ainda que as prisões foram decididas a partir de “uma lista numerosa de indivíduos a deter” apresentada por partidos políticos e por sindicatos.

A luta política explica também a prisão, a 28 de Maio de 1975, de cerca de 400 militantes do MRPP, partido maoísta que contestava o MFA e a influência do PCP. Segundo fontes do MRPP, já antes, em Março e Abril, teriam sido detidos cerca de uma centena de militantes seus. As manifestações independentistas nos Açores ou o levantamento popular anti-comunista no norte do país durante o Verão de 1975 geraram também muitas detenções. A quantificação dos presos é difícil, já que muitas prisões não terão sido registadas e poucas deram origem a processos, até pelo atraso da instituição das instâncias de instrução especial previstas em 1975, como o Tribunal Militar Revolucionário. Mas a 21 de Dezembro de 1975, na Emissora Nacional, o capitão Sousa e Castro, do Conselho da Revolução, reconheceu a existência de mais de 1000 presos políticos no fim do mês de Novembro.

Um oficial desse regimento confessou à Comissão de Averiguações de 1976 ter interrogado pelo menos 800 presos em dois meses e meio no Verão de 1975, alguns deles menores. Tudo isto sugere que a detenção extra-judicial foi então um instrumento corrente de controlo do espaço público pelo poder militar revolucionário.

As autoridades militares efectuaram também prisões no ultramar, provavelmente em número muito superior ao da metrópole. A 15 de Agosto de 1974, por exemplo, o Diário de Notícias reportava “mais 200 presos” em Luanda, às ordens da Junta Governativa. As prisões em África serviram essencialmente para desmobilizar a oposição à ditadura dos partidos únicos marxistas que herdaram o poder colonial. Em Cabo Verde, em meados de Dezembro de 1974, foram presos 58 indivíduos, a seguir deportados para Lisboa. A maior parte foi libertada à chegada, mas 19 foram mantidos no Forte Militar de Caxias até 18 de Setembro de 1975. Acusados de ligações à PIDE, nunca motivaram qualquer diligência da respectiva Comissão de Extinção. Segundo o general Manuel Monge, que com eles esteve preso em Caxias, eram simplesmente políticos cabo-verdianos em oposição ao PAIGC.

Os militares prenderam igualmente muita gente para além da esfera política, como no caso do Regimento de Polícia Militar, enquanto colaborou no policiamento de Lisboa. Um oficial desse regimento confessou à Comissão de Averiguações de 1976 ter interrogado pelo menos 800 presos em dois meses e meio no Verão de 1975, alguns deles menores. Tudo isto sugere que a detenção extra-judicial foi então um instrumento corrente de controle do espaço público pelo poder militar revolucionário.

Foram várias as entidades que solicitaram prisões, conforme é sugerido por uma lista de 58 “indivíduos a deter” elaborada pelo Comando Operacional do Continente (COPCON) a 31 de Março de 1975, onde é indicada, para cada caso, a origem da decisão: “ordem do comando do COPCON”; “pedido da Comissão de Inquérito ao 11 de Março de 1975”; “ordem do gabinete do primeiro-ministro”; “ordem da Assembleia Revolucionária do MFA”; “pedido da Força de Fuzileiros”; “pedido do gabinete do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas”; “pedido da Secção de Apoio (ao Conselho da Revolução)”; “ordem do Conselho da Revolução”; “ordem do Comando-Geral da GNR”.

A intervenção do COPCON terá sido decidida nas vésperas das prisões de 28 de Setembro, quando o comandante da PSP de Lisboa se recusou a executar os mandados de captura, por não os considerar legais. A partir daí, o COPCON passou a emitir todos os mandados de captura. No Conselho da Revolução, o dossier dos presos parece ter estado entregue ao almirante Rosa Coutinho, enquanto presidente dos Serviços de Apoio e do Serviço de Coordenação e Extinção da PIDE-DGS. Mas nunca houve uma efectiva centralização, já que muitas outras entidades levaram a cabo investigações e efectuaram prisões. Assim, em fins de Janeiro de 1975, o Comando da Região Militar do Norte teria criado uma “secção de apoio ao comandante da região no âmbito da contra-informação”, a qual passou a executar “detenções para averiguações”.

Também o Serviço Director e Coordenador da Informação (SDCI), na dependência do Conselho da Revolução, executou, segundo o Relatório do 25 de Novembro, “buscas, detenções e prisões irregulares”, além de submeter a vigilância “todo aquele que partilhava de uma opção política não identificada com a óptica dos agrupamentos políticos à esquerda do PS”. A Comissão de Averiguações de 1976 desvendou a intervenção de militantes do PCP, do MDP, da UDP e do MRPP na prisão, interrogatório e guarda de presos. As prisões tiveram sempre um sentido político preciso. Em 1974 e 1975, reflectiram a ascendência das facções da esquerda militar identificadas com o PCP e a extrema-esquerda.

Irregularidade e violência

O Programa do Movimento das Forças Armadas previa que “os crimes cometidos contra o Estado” seriam “instruídos por Juiz de Direito e julgados em tribunais ordinários, sendo dadas todas as garantias aos arguidos”. Pelo contrário, as autoridades militares em 1974-1975 usaram o Código de Justiça Militar e certos aspectos do Código Penal para eliminar a maior parte das garantias. Os presos não foram apenas detidos pelas autoridades militares, mas sujeitos, incluindo civis, ao foro militar, e mantidos em presídios sob controle militar, à margem das instâncias policiais e judiciais normais, e com limitação das garantias, como o habeas corpus e a assistência judiciária. Por outro lado, o uso sistemático, como causa de detenção, da fórmula genérica de “associação de malfeitores” permitiu a prisão sem culpa formada.

A Comissão de Averiguações de 1976 detectou prisões efectuadas sem mandados de captura regulares, e fora das horas legais. Muitos detidos não foram interrogados ou foram-no sem assistência de advogado, e as suas prisões prolongadas indefinidamente sem qualquer explicação, e com períodos de incomunicabilidade até 3 meses. Os presos viram ainda os seus nomes publicados na imprensa, tiveram as suas contas bancárias congeladas, e foram saneados ou despedidos de empregos.

No relatório da Comissão de Averiguações, os documentos mais detalhados de tortura são referentes a prisões efectuadas no Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS) em Maio de 1975, com espancamento, tortura da “estátua”, choques eléctricos, e abusos sexuais.

A lei 9/75 de 7 de Agosto criou o Tribunal Militar Revolucionário, mas apenas para julgar os implicados na revolta militar de 11 de Março de 1975. A Promotoria de Instrução do Tribunal Revolucionário seria activada em Setembro de 1975, mas só 44 presos viriam a ser processados. As 200 prisões de 28 de Setembro de 1974 nunca levaram à instrução de qualquer processo, apesar de alguns dos detidos terem estado encarcerados mais de um ano.

Os maus tratos e o uso de violência física e moral com o fim de obter informações ou confissões parece terem sido correntes. Por exemplo, 14 presos detidos na Região Militar Norte em Março de 1975, e mantidos no CICAP, queixaram-se à Comissão de Averiguações de longos períodos de isolamento contínuo em cela fechada, e interrogatórios realizados de noite, com ameaças e agressões físicas. Um dos presos foi sujeito a um “fuzilamento simulado”.

No relatório da Comissão de Averiguações, os documentos mais detalhados de tortura são referentes a prisões efectuadas no Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS) em Maio de 1975, com espancamento, tortura da “estátua”, choques eléctricos, e abusos sexuais. O registo médico de uma das vítimas no Hospital Militar confirmou traumatismo craniano, contusões e hematomas generalizados, e perda de visão, resultantes de agressão. Também há muitas queixas sobre a prática de tortura por elementos do SDCI na sede da antiga PIDE, em Lisboa, e no Forte Militar de Caxias. Em declarações à Comissão de Averiguações, a 27 de Abril de 1976, o ex-comandante do COPCON reconheceu que o SDCI sugerira a utilização nos interrogatórios de “processos menos recomendáveis no aspecto militar”.

Terá havido, com efeito, uma pressão de militares radicalizados à esquerda para que fosse aumentada a violência, como se constata no relatório de uma equipa em Caxias ao comandante do COPCON, de 30 de Maio de 1975, a lamentar a “brandura” dos interrogatórios. Também nas prisões de militantes do MRPP de 28 de Maio de 1975, ocorreram agressões sistemáticas, que as autoridades justificaram pela resistência dos detidos. Houve pelo menos um caso de morte por falta de assistência médica, o do engenheiro José Joaquim Pedroso Santos, preso a 27 de Setembro de 1974, e que faleceria a 3 de Dezembro, depois de sofrer uma hemorragia interna na prisão de Caxias.

“Como organizar a PIDE com outro nome”

As prisões efectuadas não impediram o Ministério da Justiça de continuar a insistir, em comunicado no Diário de Notícias a 23 de Outubro de 1974, que “não existem em Portugal depois de 26 de Abril, presos políticos”, apenas “encontram-se privados de liberdade alguns suspeitos de participação na tentativa de sublevação da legalidade democrática verificada em 28 de Setembro”.

Havia, porém, discussões nos bastidores. Um dos primeiros desses debates sobre as prisões políticas aconteceu no Conselho de Ministros, a 17 de Dezembro de 1974. Os ministros Salgado Zenha, Mário Soares e Magalhães Mota, do PS e do PPD, exigiram que as autoridades militares se sujeitassem “aos princípios jurídicos democráticos sobre a prisão preventiva e sem culpa formada”. Mesmo Álvaro Cunhal admitiu a necessidade de “controlo das prisões”, mas notou que se as prisões “alarmaram algumas pessoas, satisfizeram muitas outras”.

Numa entrevistada publicada em livro, Otelo Saraiva de Carvalho contou a piada de que COPCON queria dizer “Como Organizar a PIDE Com Outro Nome”.

No entanto, as detenções não foram, durante muito tempo, grande tema de polémica. Em Janeiro de 1975, por exemplo, o comandante do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho, em entrevista para o livro Cinco Meses que Mudaram Portugal, ainda podia admitir candidamente que “decidi efectuar prisões que interessam ao processo para-democrático em curso, pois no foro militar não há prazos fixos para a privação de liberdade aos malfeitores”. Também não teve problemas em reconhecer que “as pessoas ficam uma porção de tempo sem serem ouvidas” e que, na prática, o COPCON “tem actuado” como uma “polícia política”. Com bom humor, contou até a piada de que COPCON queria dizer “Como Organizar a PIDE Com Outro Nome”. De resto, não tinha dúvidas: “Estamos a viver num Estado revolucionário, em que a lei deve ser feita por nós, de acordo com o que consideramos que deve ser feito”.

Nada disto terá causado grande escândalo até Junho de 1975, quando o PS passou a contestar abertamente o “gonçalvismo”, isto é, o predomínio do PCP através do primeiro-ministro Vasco Gonçalves, e quando, no caso do MRPP, as prisões atingiram um movimento de esquerda. Perante rumores sobre a situação dos presos, vários jornalistas foram convidados pelo COPCON para visitar a prisão de Caxias. O tema já figurou na célebre entrevista de Oriana Fallaci a Álvaro Cunhal, publicada no Europeo de 7 de Junho de 1975 e traduzida pelo Jornal do Caso República: “Quantos detidos políticos há hoje em Portugal?“ Resposta de Cunhal: “Não sei. De qualquer forma, não muitos. Não os que deveria haver. Põem-nos logo em liberdade com demasiada facilidade”.

Na semana seguinte, a 14 de Junho de 1975, foi a vez do episcopado católico, na Nota Pastoral sobre o Momento Presente, lamentar “o carácter arbitrário de numerosas prisões que têm sido feitas”. Mas, no mesmo dia, o comandante do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho, confrontado com perguntas de jornalistas sobre presos políticos, queixou-se de que “toda a gente considera que é um escândalo tremendo”, e desabafou, numa frase famosa, que “teria sido melhor se em Abril de 74 encostássemos à parede ou mandássemos para o Campo Pequeno umas centenas ou uns milhares de contra-revolucionários” (Primeiro de Janeiro, 15 de Junho de 1975).

 Cunhal sobre os presos políticos durante a revolução: Põem-nos logo em liberdade com demasiada facilidade”

Um sintoma do incómodo com os rumores de maus tratos nas prisões são as directivas emitidas pelo Conselho da Revolução a 12 de Junho de 1975. A primeira determinava que os detidos só poderiam ser transferidos, “seja qual for a entidade responsável pela sua captura”, por ordem do comandante do COPCON ou pelo director dos Serviços Prisionais militares. A segunda regulava o regime de isolamento, de modo a “evitar o exercício desnecessário de violências sobre os detidos”. Finalmente, a terceira reservava os interrogatórios aos juízes dos tribunais militares, Polícia Judiciária Militar, Comissões “sancionadas pelo Conselho da Revolução”, e SDCI, e estabelecia que “os comandantes dos presídios deverão tomar as medidas julgadas necessárias para impedir que os interrogatórios se processem com utilização de métodos de tortura física ou psicológica”. Era, também, o reconhecimento das violências e desmandos em curso.

A 10 de Julho de 1975, a questão dos presos políticos foi levantada na Assembleia Constituinte pelo deputado do PS António Arnaut, no momento em que o PS rompeu com o governo de Vasco Gonçalves. Arnaut exprobrou a “ostensiva e, por vezes, impudica falta de respeito pelos direitos, liberdades e garantias individuais” no Portugal revolucionário depois do 25 de Abril, dizendo que lhe lembrava “uma página negra do passado”. A intervenção irritou os deputados do MDP, PCP e UDP, que vaiaram Arnaut e abandonaram a sala em protesto.

“O relatório das sevícias”

Depois da derrota das facções do MFA conotadas com o PCP e a extrema-esquerda, a 25 de Novembro de 1975, multiplicaram-se as denúncias sobre as prisões políticas ocorridas durante a ascendência dessas facções. A 18 de Dezembro, o Diário Popular noticiava que “a Comissão Internacional de Juristas compara a justiça militar em Portugal com a que vigora no Chile de Pinochet”, devido à “ausência de adequadas garantias jurídicas e direitos de defesa”. Os mandados de captura em branco, assinados pelo comandante do COPCON, converteram-se então num caso célebre.

Entretanto, todos os presos seriam libertados pelas autoridades militares entre Dezembro de 1975 e Abril de 1976. Alguns publicaram então testemunhos da sua experiência prisional, com enorme impacto: o livro Até na prisão fui roubado, do apresentador de televisão Artur Agostinho, esgotou 20 mil exemplares. Outro ex-preso, o advogado António Maria Pereira, no livro A Burla do 28 de Setembro, refutou dois argumentos usados para minimizar as prisões: a ideia de que, apesar de tudo, com a PIDE teria sido pior, porque “no Portugal democrático que desejamos não é admissível que, para justificar abusos cometidos, se invoque como termo de comparação os crimes da PIDE-DGS”; e o mito da “legalidade revolucionária”, porque “a legalidade revolucionária é a legalidade baseada nas leis revolucionárias, as quais – nomeadamente o programa do Governo Provisório — tinham tornado a Declaração Universal dos Direitos do Homem como parte da ordem jurídica portuguesa”.

Foi neste ambiente que o Conselho da Revolução nomeou, a 19 de Janeiro de 1976, uma Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, para atender às “queixas que têm chegado ao Conselho da Revolução, e de que a imprensa se tem feito eco, de prisões arbitrárias, de falta de garantias judiciárias, de tortura, tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes da pessoa humana, e de outras violências e abusos cometidos no acto da prisão, e durante esta, por autoridades militares ou a coberto delas, desde 25 de Abril de 1974 até ao presente”. Presidida por um militar, era composta por mais três oficiais das Forças Armadas, um juiz de direito nomeado pelo Ministério da Justiça, e três advogados nomeados pela Ordem dos Advogados.

A Comissão ouviu cerca de 200 pessoas, e pediu documentos a várias entidades militares. O relatório seria publicado em Novembro de 1976. No seu prólogo, da autoria da “Presidência da República”, era reconhecido que Portugal vivera em 1974-1975 um “quadro histórico de Terror”, uma “situação de Não-Direito”. A 9 de Dezembro de 1976, a Assembleia da República aprovou um voto de congratulação pela sua publicação. O PCP e a extrema-esquerda, porém, clamaram que o inquérito – a que passaram a chamar o “relatório das sevícias” — era apenas um instrumento de perseguição política contra os militares ligados ao “gonçalvismo” e ao COPCON em 1975. Quanto ao relatório, não se lhe seguiu qualquer procedimento penal ou disciplinar (até devido à amnistia do decreto-lei no. 729/75 de 22 de Dezembro), com a excepção da passagem compulsiva à reserva do almirante Rosa Coutinho, por decisão do Chefe do Estado Maior da Armada.

O debate sobre os presos políticos assinalou, no princípio de 1976, a ruptura com a fase revolucionária e a refundação do regime como Estado de Direito democrático. A resolução do Conselho da Revolução que criou a Comissão de Averiguações, em Janeiro de 1976, era a esse respeito muito clara: “a instituição de um sistema político-jurídico em que se verificassem o respeito pela pessoa humana e as garantias constantes da Declaração Universal dos Direitos do Homem foi uma das mais nobres finalidades da Revolução de 25 de Abril”. Não tinha sido, porém, uma finalidade para todos os revolucionários.

Nota bibliográfica: Entre os testemunhos publicados em livros sobre perseguições e prisões em 1974-1975, além dos já citados no texto, mencionaremos os seguintes: Pedro Manuel de Oliveira Reis, Oito Meses nas Prisões do Portugal Democrático, Lisboa, Margem, 1976; Manuela Preto, Tortura depois de Abril. Relato duma jornalista detida em Caxias sem culpa formada, Queluz, Literal, 1977; Aurora Rodrigues, Gente Comum. Uma História na PIDE, Castro Verde, 100 Luz, 2011 (inclui o relato da sua prisão em Maio-Junho de 1975 pelo COPCON); Nuno Alves Caetano, Prisioneiros de Caxias. 28 de Setembro de 1974, Lisboa, Chiado Editora, 2015. Ver também os estudos de Pedro Jorge Castro, O Ataque aos Milionários. O cerco às famílias Espírito Santo, Mello e Champalimaud depois da revolução de 1974: as detenções, o dia-a-dia na prisão, as contas congeladas e a fuga para o exílio, Lisboa, Esfera dos Livros, 2014; e de Tomás Moreira, No Terramoto de 1975. As Prisões Políticas no PREC: o Caso Ruy Moreira, o fundador da Molaflex, que a revolução prendeu e os trabalhadores quiseram libertar, Lisboa, Guerra e Paz, 2026. Livros que serviram de fonte de informação: Mário Soares, Portugal auConseil de l´Europe, Lisboa, Ministério dos Negócios Estrangeiros, 1974; Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, Nomeada por Resolução do Conselho da Revolução de 19 de Janeiro de 1976, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1976; Afonso da Costa Ribeiro, Acuso e recuso a canga após o Abril dos Cravos. Apontamentos para a história de uma revolução, Viseu, Edições M.B., 1976; Manuel Amaro Bernardo (org.), Memórias da Revolução. Portugal, 1974-1975, Lisboa, Prefácio, 2004; Livro Branco da 5ª Divisão, 1974-1975, Lisboa, Livraria Ler Editora, 1984; Relatório do 25 de Novembro. Texto Integral, Lisboa, Edições Abril, 1976, 2 volumes; Otelo Saraiva de Carvalho, Cinco Meses Mudaram Portugal, Lisboa, Portugália Editora, 1975; Livro Branco da 5ª Divisão, 1974-1975, Lisboa, Livraria Ler Editora, 1984, pp. 312-314; AAVV, As Sevícias dum Relatório, s.l., Editorial 18 de Janeiro, 1977; AAVV, O “Relatório das Sevícias” e a Legalidade Democrática, Coimbra, Centelha, 1977; Luís de Azevedo (org.), A Hierarquia Militar e o Estado Democrático. Caso Rosa Coutinho, Coimbra, Centelha, 1978;

(A primeira versão deste estudo foi publicada no Dicionário de História de Portugal. O 25 de Abril, obra coordenada por António Reis, Maria Inácia Rezola e Paula Borges Santos, Porto, Livraria Figueirinhas, 2018, vol. 7, pp. 63-72. A presente versão, revista e abreviada, foi originalmente publicada na revista Crítica XXI, nº 11, Primavera de 2025, pp. 79-91)

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COMENTÁRIOS (de 14)

UIROS UERAMOS: Obrigado, Rui, por trazeres a público mais uma parte do lado negro do pós-25 de Abril, tantas vezes branqueado. A verdade é que Portugal esteve muito mais perto de resvalar para uma deriva revolucionária de matriz comunista do que hoje muitos querem admitir. Tenho sérias dúvidas de que, sem a chegada de cerca de 600 mil portugueses brancos expulsos de África, muitos deles profundamente marcados pela hostilidade ao comunismo, o país não tivesse perdido o equilíbrio e caminhado para uma espécie de Cuba da Europa. Também vale a pena lembrar que, quando se fala desse período, há muitos testemunhos e memórias sobre saneamentos, listas para prender, pasme-se até os vizinhos, num clima de intimidação brutal dos comunistas, e isto muito para lá de Lisboa. Finalmente acabou a versão edulcorada que durante anos se quis impor.                     PAULA BARBOSA: Esmagador !!!!!!!!!!!!!! Conheci tantos dos presos e maltratados. A verdadeira História do 25 de Abril está por fazer. A que ensinam nas escolas, é do género, dos Três Mosqueteiros.  Só de ver a foto deste canalha que tanta gente fez sofrer, dá-me vómitos,              FRANCISCO ALMEIDA: No dia 28 de Setembro dirigia-me do Ribatejo a Lisboa para participar na manifestação de apoio ao general Spínola. A Ponte almirante Américo Thomaz estava fechada por barricadas perto da saída para Vila Franca. Estava sozinho e conduzia um Mini, já velhote. Estacionado na fila apareceu um militante, com uma braçadeira qualquer que me fez sinal para baixar o vidro, o que fiz dizendo: pode ir-se embora que eu não compro nada. Voltei a subir o vidro enquanto o carro era cercado por indivíduos com ar agressivo. Finalmente apareceu um sargento de Marinha, armado, que me intimou a sair do carro e identificar-me. Obrigou-me a entregar a carteira e quando viu o bilhete da tourada de dois dias antes que exibiu aos civis, obrigou-me a encostar-me ao carro para me revistar. Entretanto tinham entrado no carro e revistado tudo, estragando um banco porque uma mola solta foi tomada por eventual arma escondida. No porta-bagagens arrancaram o forro e desmontaram o pneu sobressalente.  Passadas talvez duas horas o mesmo sargento veio autorizar-me a inverter a marcha e a regressar a casa. Quando lhe pedi que me devolvesse o bilhete para o Campo Pequeno, olhou-me como se eu estivesse louco mas, após um ou dois minutos, meteu a mão no bolso e colocou o bilhete na mão que eu mantinha estendida. Ainda hoje tenho o bilhete.             PAULO SIMÕES: Lembro-me bem desse 28 de Setembro (dia do meu aniversario), era um petiz, voltava da terra dos meus avós de carro com os meus pais. Estivemos horas à espera para passar nas portagens de Vila Franca de Xira, quando finalmente conseguimos chegar as ditas portagens os kamaradas de plantão andaram a apalpar os sacos com batatas e outros produtos alimentares. Pensavam que trazíamos armas com certeza.                PERTINAZ: Otelo nem devia ter direito a que as suas fotos fossem publicadas… criminoso do pior…!!!                  JOSÉ LÚCIO: Excelente Ensaio! Seria útil enviar uma cópia ao Dr António Costa para ver se ele aprende alguma coisa de história política portuguesa.                       JORGE PEREIRA: Indesculpável o CRIME de Soares: ter amnistiado os criminosos                       ROSA GRAÇA: Pois. Grande Rui Ramos.                     PAULO SILVAPAULO SIMÕES: Uma história muito parecida. Regressávamos a casa de uma visita a uns familiares que residiam no interior. Por uma estrada que podia conduzir à capital, às tantas, à saída de Alpiarça surge uma barragem composta por populares de caçadeiras na mão que nos mandam parar, fazendo sair o condutor, o meu pai, para lhes abrir a mala do carro. Quando lhes pergunta onde está a autoridade, um responde em voz alta: “A autoridade aqui somos nós!” Alguns minutos de tensão antes de seguirmos viagem; eu e a minha irmã mais nova na parte de trás olhávamos em volta; ao lado outros carros eram parados e revistados… As armas foram sempre a desculpa que os camaradas e compagnons de route deram para estas acções de sabotagem e intimidação.                       LUÍS ANTÓNIO: Recordo que neste período estiveram presos no RALLIS dois militares (Marcelino da Mata e Rebordão de Brito), os quais foram vítimas de espancamentos selvagens e humilhações. Estes militares foram presos por vingança devido à participação destemida e heróica na Operação Mar Verde.                        MARIA VILHENA: Por ter tido tristes recordações, no pós 25 de abril, apesar de ser uma jovem no início da adolescência, nunca consegui chegar ao fim dos espectáculos das comemorações. Saí sempre, principalmente quando começava a tocar a música Grândola...! Era difícil aceitar e apagar as más memórias que tinha vivido, com as ocupações e os maus tratos à famíliia. O medo pelas perseguições era enorme, as noites eram assustadoras, principalmente na zona do Alentejo. Jamais esquecerei quem vi partir e ser acusado sem qualquer julgamento e até aos dias de hoje, ninguém sabe. Por tudo isso, não consegui nunca acreditar, nem aceitar que a liberdade não era aquilo que apregoavam.                A SAMEIRO:  O crime é curial se for canhoto!!!  In-Natalia Correia Epístola aos lamitas

 

Inesquecível

 

Esse tal passado, nas memórias de cada um – os desprevenidos do golpe abrilino, os comentadores críticos, os responsáveis orgulhosamente felizes pelo seu pontapé festivaleiro na História Antiga, embora Essa tivesse multiplicado os espaços do seu país pequeno, com coragem exemplar. Felizmente que existem Historiadores Atentos e Responsáveis, como JNP, para denunciar a pequenez dos anti-heróis de uma actualidade indolente e desconhecedora desses dados outrora prestigiantes e hoje conhecidos apenas de alguns atentos e amantes do seu PAÍS, e a quem não falta a ironia contra os indiferentes do cortejo actual – ou talvez apenas gratuitamente impertinentes.

Mas coloco o comentário justo de PERTINAZ ao texto esclarecedor de JNP:

PERTINAZ: Artigo muito instrutivo para as novas gerações e para os que têm memória curta…!!! Espero que acabe de vez a mordaça com que vivemos nos últimos 50 anos…!!!                     

 

Marcelino da Mata, os presos de Abril e as eleições em Loures

Há um claro regresso da Política e do político, do amigo e do inimigo, ao espaço público. Até por cá.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 18 abr. 2026, 00:23

Um dos lugares de confronto foi a Assembleia Municipal de Lisboa, com uma batalha toponímica desencadeada pela proposta de um representante do PSD de dar o nome do tenente-coronel Marcelino da Mata a uma rua da capital.

MARCELINO DA MATA nasceu na Guiné quando a Guiné fazia parte do “Ultramar” português. Tal como dezenas de milhares de conterrâneos, Marcelino escolheu ser português e lutar no exército português contra o PAIGC, o movimento de guerrilha independentista. Em 1974, cerca de 36.000 homens, um terço das tropas portuguesas na Guiné, eram de recrutamento local e a Guiné era o território ultramarino onde a percentagem de combatentes locais era menor; em Angola, metade do total de um efectivo de cerca de 80.000 homens era de recrutamento local, e em Moçambique os locais eram mais de metade dos 60 000 soldados mobilizados. Quando a guerra começou, em 1963, o Times de Londres escreveu que a Guiné era “o calcanhar de Aquiles” do império português. E foi. Basta olhar os curricula dos generais, dos capitães, dos promotores da contestação militar à política ultramarina de integração racial e territorial, até a “guineização” de todo o ultramar português, avançada em Portugal e o Futuro.

Bom ou mau, o “colonialismo português” foi ali substituído pelo que é hoje uma cleptocracia instável, uma ditadura militar que goza da pior fama de ligações ao narcotráfico transatlântico. Em Novembro do ano passado, deu-se o original “auto-golpe” de Sissoco Embaló que, perante uma derrota eleitoral anunciada, pôs os militares a derrubá-lo e a congelar as eleições. Sissoco, legitimado internacionalmente por Lisboa e pelos socialistas portugueses no meio de um debate pós-eleitoral mais do que suspeito, encontra-se actualmente em Marrocos, depois de deixar a hospitalidade do seu amigo Denis Sassou-Nguesso, o octogenário “président à vie” da República do Congo-Brazzaville. Parece que, agora, o “Comando Militar”, instrumentalizado por Sissoco, não quer deixar o poder e vai dizendo ao auto-exilado presidente que não pode garantir a sua segurança. AconteceEntretanto, Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC e, por isso, o provável vencedor da eleição congelada, continua detido no seu domicílio em Bissau.

Voltando ao passado, MARCELINO DA MATA nasceu na Guiné no tempo da administração portuguesa e foi ao serviço de Portugal que, por feitos em combate, recebeu as mais altas condecorações nacionaisEra e sentia-se português, mas parece que há certas identidades e auto-determinações proscritas; talvez por isso, no PREC, tenha sido preso e torturado em cárcere privado por maoistas do MRPP, numa dessas demonstrações de liberdade do PORTUGAL DE ABRIL.

Por tudo isto, a questão toponímica transformou-se numa questão política de primeira instância com linhas divisórias bem claras. Ou nem tanto, porque, ao contrário do que aconteceu quando da nacionalidade e da possibilidade de os menores poderem mudar de “género” sem conselho médico e concordância paternal, houve quem saísse da linha, e a maioria à direita – AD (PSD e CDS) e Chega –, que devia ter funcionado, não funcionou.

Consta que, para se redimir do inesperado voto da representante do CDS, que contrariou a proposta toponímica ao lado da Extrema-Esquerda do PCP, BE e Livre, da Esquerda do PS e do centrão da IL, o CDS-PP quer agora apresentar uma recomendação para que passem a existir ruas Marcelino da Mata em Lisboa e no Porto.

O intelectual e o populista

O outro confronto deu-se no aniversário da Constituição, quando “o populista” achou por bem agitar as águas, lembrando que, a partir do 28 de Setembro de 1974, havia nas cadeias da República da Metrópole mais presos políticos do que os que lá estavam no dia 24 de Abril. Facto indesmentível, ainda que destinado a merecer o “descontextualizado” ou o “pimenta na língua” que os polígrafos e os intelectuais orgânicos sempre guardam para os populistas que ameaçam a democracia.

E se houve quem se tivesse limitado a abandonar a Assembleia, incomodado e em protesto, houve um intelectual que clamou por um debate televisivo, para contextualizar factos, determinar culpas, esclarecer o povo…  e apurar quem é que, afinal, tinha tido mais votos em Loures.

E eis que chegou, finalmente, o tão aguardado dia do decisivo confronto. De um lado, os quarenta e muitos anos de longa noite fascista, regime deposto há cinquenta anos, mas que continua a ganhar o troféu de grande responsável pelos males que há cinquenta anos nos assolam; do outro, o recém-enlameado meio século de madrugada democrática, regime inaugurado há cinquenta anos, mas que resiste ainda e sempre a toda e qualquer mácula.

Como em todos os concursos de malfeitorias, as posições extremaram-se, bem como o arremesso de lama de parte a parte.

Mas vamos à parte contestada e cancelada dos factos, aquela a que devia cingir-se o debate, se a intenção fosse esclarecer e debater: logo a seguir ao 25 de Abril foram presos, na Metrópole, os funcionários da PIDE-DGS, que seriam à volta de três mil (e que nem sequer entraram na contabilidade do “populista”). Depois do golpe, a Esquerda Revolucionária comunista e extremista cedo compreendeu que o inimigo principal eram os militantes dos partidos que, em democracia, procuravam defender valores nacionais e salvar, do Ultramar, o que ainda pudesse ser salvo. A chamada manifestação da Maioria Silenciosa, marcada para 28 de Setembro, foi o pretexto para os neutralizar. Seguindo listas de “suspeitos” estabelecidas por ex-dirigentes associativos que assinalaram os “potencialmente perigosos”, o COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho procedeu às detenções com generosa profusão de mandados de captura em branco, preenchidos ad hoc. O mesmo se passaria depois do 11 de Março, outra “inventona” em que a oposição anticomunista caiu e que levou a mais prisões arbitrárias e, sobretudo, à socialização da economia, de cujas consequências ainda não nos livrámosE entre o número de presos, políticos ou não, no então Ultramar e de mortos e feridos na guerra de África e o número de vítimas pós-libertação, da “descolonização exemplar” às guerras civis, é fazer as contas.

Mas, enfim, para quê comparar?

Quando, há muitos anos, numa entrevista para a Rádio Renascença, aludi às prisões pós-Abril, o Dr. Cunhal perguntou-me isso mesmo: se seriam comparáveis “uns meses de prisão de umas centenas de reaccionários” com os muitos anos que somaram os dirigentes do PCP nos cárceres da ditadura. Respondi-lhe que não, que não eram comparáveis, mas que só não eram comparáveis porque logo depois do 25 de Novembro o Partido Comunista perdera o poder de prender e perseguirCuriosamente, não tive aí resposta. O Dr. Cunhal sabia bem – e nós também, a avaliar pelo período em que os militares da esquerda do MFA tutelavam o processo revolucionário – que se comunistas, trotskistas e maoistas tivessem continuado com poder, o número de mortos, presos e torturados não seria muito diferente do dos regimes comunistas da Europa Oriental.

A ditadura militar e o salazarismo, que eram declaradamente autoritários e que não eram, nem pretendiam ser, democráticos, detinham assumidamente inimigos políticos, não por delitos de opinião, mas por conspiração ou acção política. Ao contrário, em Abril, as centenas de prisões sem culpa formada e a violência, ora “não existiam” porque a democracia já raiara, ora faziam parte de um processo natural, assumidamente revolucionário, inserido no calendário das festividades democráticas… (as FP-25, que executaram 17 pessoas já nos anos 80, eram, presumimos, um grupo de foliões que não percebeu que a “festa da democracia” tinha acabado e se deixou para ali ficar a um canto, entre bombas).

Mas se as prisões e sevícias levadas a cabo nos alvores deste regime não se podem comparar com as do antigo regime, já a corrupção em que vivemos, dizem-nos, é altamente comparável com a do “antigamente”. O Estado Novo, dizem-nos, era também um regime extremamente corrupto. Mais corrupto até que o actual. Estranhamente, os vários governos e responsáveis que, no pós-25 de Abril, vasculharam com todo o à-vontade e poder os arquivos em busca de indícios de corrupção, só encontraram um presidente da RTP que metia almoços e presentes para uma amiga nas contas da empresa e pouco mais. Ao Almirante Henrique Tenreiro, suspeito de grandes abusos, o MFA teve-o preso e acabou por libertá-lo à socapa, sem encontrar motivos para o processar. É certo que a corrupção faz parte da natureza dos homens e dos regimes e que aquela escassez de indícios talvez não se devesse às melhores razões.  É que ao contrário de futuros líderes políticos, que não sendo pessoalmente corruptos tenderiam a fechar os olhos aos corruptos porque precisavam deles, indo à janela fumar um cigarro, Salazar que, para o bem e para o mal, estava atento e vigilante e não fumava, inspirava respeito. E até medo, se se quiser.

Mas isto também não se pode dizerA única coisa que se pode e deve dizer do antigo regime, a única coisa a dizer com notória utilidade pública, é que a repressão era incomensurável, os interditos incontáveis, a pobreza e o analfabetismo inenarráveis, a repressão colonial draconiana e a corrupção igual ou pior à que hoje nos corrói. Daí que todos os males que há meio século nos acometem se devam, não a este último meio-século, mas ao quase meio-século anteriorHá, por isso, que continuar a comparar regimes, mas só partindo deste construtivo pressuposto, evidentemente.

É, de resto, de toda a utilidade. Tal como o debate a que assistimos e em que não ficámos sequer a saber o fundamental: quem é que, afinal, teve mais votos em Loures?

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COMENTÁRIOS (de 39)

Francisco Almeida: Como de costume Jaime Nogueira Pinto demonstra coragem e rigor mas, mesmo assim quero alinhar algumas precisões - desnecessárias ao escopo do artigo - apenas porque tive uma ligação pessoal ao ten-cor. Marcelino da Mata. Marcelino foi chamado por engano porque a conscrição seria para um irmão mais velho mas decidiu ficar. Começou por soldado raso e todas as suas promoções ao posto superior até capitão foram por mérito em combate. Esteve em Angola e regressou depois à Guiné, onde o conheci como furriel e onde comandou o primeiro grupo de comandos africanos "ad hoc" depois de vencer longa resistência do seu e meu comandante de sector. Dezoito homens, escolhidos por ele e com autonomia operacional, embora administrativamente encaixados na companhia operacional do sector, que por algum tempo comandei interinamente e que, lhe dava apoio, sobretudo em operações na proximidade da fronteira. Chamavam-se "Os Roncos" expressão com sentido associado a vaidade e ostentação em crioulo da Guiné, mas que mereciam por inteiro. Foram dizimados num mau momento ao atravessar a bolanha de Binta e só dois, Marcelino e outro, saíram sem ferimentos. JNP refere que foi torturado em cárcere privado mas eu explicito que, sabendo pela rádio que era procurado, apresentou-se na sua unidade, o Regimento de Comandos, de onde o transferiram para o RALIS unidade revolucionária onde pontificava o cap. Diniz de Almeida, conhecido por "Fittipaldi das Chaimites" e onde, tal como no Regimento da Polícia Militar do major Tomé, entravam e agiam civis, neste caso ligados ao MRPP, citando-se  os nomes de Daniel de Matos e de Saldanha Sanches, embora não tenha elementos que me permitam ligá-los directamente à tortura, violentíssima e que incluiu choques eléctricos nos testículos. Mas é impossível o desconhecimento dos oficiais e sargentos do regimento, incluindo o comandante tenente-coronel Leal de Almeida que o "Relatório das Sevícias" indica como pessoalmente ligado aos actos de tortura, identificando também dois outros oficiais, o cap. Quinhones de Magalhães e o cap.-ten. (da Marinha) Costa Xavier.                   ANA LUIS DA SILVA: Eu diria que, desta feita, Jaime Nogueira Pinto partiu a loiça toda Os comunistas não são pois os neo-conservadores fofinhos e cheios de patine que envelheceram bem, mas as termitazinhas que continuam laboriosamente a consumir as fundações deste país, desde aqueles tempos a seguir ao 25 de abril em que mostraram e lançaram as garras a todos os que se opunham ao socialismo e a tudo o que tinha valor em Portugal, para se apossarem desse valor e o desbaratarem, em nome dos valores ideológicos “democráticos” de Abril. Parece-me, porém, que o “fervor revolucionário” contra pessoas e bens se transferiu para outros partidos e sobrevive mais ou menos encapotado no BE, no Livre e no PS. O caso do “terrorista do cocktail molotov” contra a Marcha pela Vida é sintomático disso mesmo.                     JOÃO SANTOS: No debate entre o "populista" e o "intelectual-de-esquerda-que-afinal-nunca-deixou-de-o-ser" ficou claro para todos que ao segundo ficou destinado o papel de mostrar quão efémera é a sua arrogância pesporrenta, mais própria dos seus avoengos medievais do que do marxista-leninista... Quanto ao primeiro, afinal é a um suburbano ex-seminarista que ficamos a dever o alargamento do nosso espaço de liberdade - passou a ser possível afirmar no espaço público que o 25 de Abril também tem os seus podres...                MARIA GINGEIRA: Rigor e factos. O resto é tentar manter de pé, narrativas que se vão despedaçando. Felizmente que a história tem vários contadores              JOÃO FLORIANO: 1989: foi esta  a data que encontrei para a candidatura de Pacheco Pereira a Loures. Há quase 40 anos. Se a data está errada peço que me corrijam porque tive de ir pesquisar ao sítio do costume e só encontrei esta data. Em 2005 o historiador foi mandatário do candidato do PSD. O que salta imediatamente à vista é que não há motivos de comparação e que a décalage das datas é flagrante (perdoem-me o galicismo). Em 1989 André Ventura tinha 6 anos. Será que quando lançou a questão Pacheco Pereira não se apercebeu da falta de lógica? Continuo sem saber os motivos que levaram a deputada municipal do CDS a votar contra o nome da rua. Mas gostava muito de saber. O que muito me admirou foi ter descoberto que se trata de Helena Gouveia Ferro. Conhecendo e admirando os pontos de vista desta senhora, fico ainda mais curioso para descobrir os motivos. E tendo errado (no meu ponto de vista), voltam  a errar novamente ao propor agora ruas não só em Lisboa como no Porto. Em poucos dias um volte face que não fica nada mas mesmo nada bem na fotografia. E claro que Cunhal tem razão mas apenas porque não deram tempo suficiente  aos comunistas para instalarem  prisões à maneira soviética e quem sabe gulags. Se os tivessem deixado ainda hoje estariam  a prender e a torturar os seus opositores.              PERTINAZ: Artigo muito instrutivo para as novas gerações e para os que têm memória curta…!!! Espero que acabe de vez a mordaça com que vivemos nos últimos 50 anos…!!!                      FERNANDO CE: Muito bem. Haja quem relembre esses péssimos tempos (1974/1975), onde reinava a arbitrariedade, ausência de liberdade, e de um verdadeiro Estado de Direito. Como já não sou novo lembro-me de o MFA / COPCON promover os “ dias de trabalho para a nação”, e até um dia que os cidadãos se pusessem e limpar ruas e outros afazeres, lembrando  as práticas maoístas, já sem falar nas barricadas e auto-stops por civis sem qualquer legitimidade para passarem revista a viaturas à procura de armas para “partirem os dentes à besta fascista”.                    AMÉRICO SILVA: Abaixo dos nossos adversários estão os nossos inimigos, e abaixo dos nossos inimigos estão os nossos traidores, olá CDS, estás aí?                 JOSÉ B DIAS: É importante recordar para que a realidade não morra enterrada pelas narrativas mais convenientes ...                JOSE LIMA: Na contabilidade faltou incluir aqueles que como a dra. Joana Simeão e outros opositores da Frelimo, em Moçambique, foram capturados pelo MFA e entregues  à Frelimo para uma morte trágica nos campos de concentração no Norte do pais.                 MARIA NUNES: Excelente artigo. Obrigada pela sua Coragem JNP.                   MANUEL F > FRANCISCO ALMEIDA: O seu testemunho, acredito que descreve o que viveu, o que é o mais importante. Eu estive na Guiné, em Bissorá, no exército entre 72 e 74 e quando regressei, já após o 25A , só me perguntava o que iria acontecer aos muitos milhares de combatentes guineenses que lutavam por Portugal . Uma nódoa da qual o país nunca se poderá limpar. Talvez ao contrário das compensações pela escravidão do passado, que os esquerdistas agora reclamam, por motivos  de agenda política, fosse mais importante  Portugal homenagear, através de um qualquer monumento com a devida grandeza todos esses combatentes africanos que foram mortos por vingança após o abandono a que Portugal os condenou.  JOÃO DAS REGRAS: Muito bom.                     MIGUEL NORONHA: Loures ficou sem os votantes de Moscavide, se não me engano na localidade, como disse o Doutor André Ventura, e por isso, até nesse ponto, o Dr. Pacheco Pereira não foi intelectualmente correcto, não sendo os resultados comparáveis. Apesar de ser uma pergunta retórica…               TIM DO A: Muito bem!                    MARIA CORREIA: Muito bem! Obrigada.              ANA RITA > FRANCISCO ALMEIDA: Parabéns pelo seu comentário. Pelo que vejo, não sabemos nada dessa época negra do pós 25 de Abril. Tanta injustiça se cometeu.                  PERTINAZ > PEDRA NUSSAPATO: Não tens nada para dizer… na verdade… os factos são esmagadores e por isso a escumalha é de esquerda…!!!                 TIM DO A > AMÉRICO SILVA: Por isso morreu. É um protectorado do PSD                   JOSÉ MIRANDA: Grande crónica! Há muita gente, tenho amigos assim, que não consegue ou não quer enfrentar  a realidade aqui admiravelmente exposta .                PERTINAZ > TRISTÃO: Estás tristão… 🤣🤣🤣            PEDRO PEREIRA: Jaime, sei que não lê os comentários, mas é já tempo de publicar estes textos em livro.                  MIGUEL MACEDO: Muito bem! Como sempre!