Exista demasiada arrogância em
relação a nós – ou sentimento de inferioridade envergonhada em relação aos
povos estrangeiros – neste nosso tão arreigado sentido crítico interno que por
vezes apaga a visão do quanto de bom por cá se fez e se faz. Para já, julgo que
o amor pelo nosso rectangulozinho é bem real. Talvez por isso, sejamos mais críticos em
relação a nós próprios, que nem sempre correspondemos em qualidade de actuação.
Mas assusta de facto, esta realidade da dependência relativamente à aparelhagem
sonora e visual que nos facilita o saber ligeiro, impedindo-nos da leitura mais
pausada e reflexiva.
É a
estupidez, estúpido
Não sei se a inteligência
artificial destruirá a humanidade, conforme alguns prometem. Mas é evidente que
a estupidez natural está bastante empenhada nisso.
ALBERTO GONÇALVES, Colunista do Observador
OBSERVADOR, 12 set. 2026, 00:24
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No Verão de 2008, a revista
“Atlantic” trazia para a capa o título de um artigo: “O Google Está a Tornar-nos
Estúpidos?” Para evitar suspenses desnecessários, a resposta é “sim”.
Quanto ao artigo, escrito pelo jornalista Nicholas Carr, tinha como subtítulo “O que a Internet Faz aos Nossos
Cérebros” e usava o Google enquanto símbolo genérico da chamada “era digital”.
As conclusões, que aqui resumo imenso para que não escapem sequer aos
viciados no TikTok, previam que o uso constante da Internet provocaria
alterações neurológicas, com consequências drásticas nas capacidades de atenção
e concentração. Ou seja, às cabecinhas crescentemente dependentes da pesquisa
rápida e dos saltinhos entre páginas “web”, cada vez seria mais difícil ler
textos longos e, Deus as livre, interpretá-los.
Grosso modo, Carr acertou em cheio, e fê-lo antes da
omnipresença do “online” e da disseminação do “smartphone” e do advento das
“redes sociais” e do tempo em que uma “storie”, uma fotografia vertical
acompanhada de sanfona e frase tonta, constitui o exacto oposto de uma história.
Em 2008, ainda não
havia casais mudos à mesa do restaurante, entretidos a contemplar as maravilhas
embutidas nas entranhas do iPhone. Ou criancinhas, frequentemente com 50 anos,
com inquestionável talento para, horas a fio, deslizarem o polegar no ecrã cerca
de 0,6 segundos após o início de um vídeo de 3. Ou os portentos do convívio
social, avessos a conversas arcaicas mas que são a alma da festa nos 86
“grupos” do WhatsApp onde trocam centenas de mensagens por minuto. Se possível,
e é possível, muitos usam umas rolhas enfiadas nas orelhas para ouvir nem ouso
imaginar o quê e, sobretudo, evitar que a realidade lhes perturbe a rotina. Confirma-se: a Internet tornou-nos
estúpidos.
Há indicadores discutivelmente fiáveis que provam o
inexorável avanço da estupidez. Um deles são os testes de QI, cujas pontuações
aumentaram durante um século e que nas últimas duas ou três décadas desataram a
afocinhar, principalmente nos insignificantes sectores do raciocínio e da
abstracção. Outro é o PISA, o estudo comparativo promovido
pela OCDE aos alunos de 15 anos e que sai de 3 em 3. Há dias saiu um, e os
resultados imitam a torre que não lhe deu o nome. Nos critérios avaliados
(leitura, matemática e ciências), o tombo é brutal e, à semelhança dos testes
de QI, principalmente brutal na Europa, menos brutal nos EUA e nada brutal na
Ásia Oriental. E, preparem-se porque por esta não esperavam, em leitura e matemática
Portugal tombou mais que o resto.
Dado que somos um país
especializado em escalpelizar as desgraças a posteriori, a fim de parecermos
preparados para a desgraça que fatalmente se seguirá, meio mundo lançou causas
sortidas para justificar a vergonha do PISA caseiro. São os imigrantes. Foi a Covid. É o
PS. É a fuga dos professores. É a invasão das “aprendizagens essenciais”.
Quase todos
acertaram um bocadinho, quase todos falharam uns bons bocados.
É verdade que a imigração
recente influencia negativamente as notas do PISA, embora, a julgar pelos dados
disponíveis, o respectivo peso seja ligeiro face à queda total. E é verdade que a Covid, ou a
alucinada decisão de fechar os petizes em casa a pretexto de uma doença que
estatisticamente não os afectava, ajudou à derrocada: em geral os países – e os estados dos
EUA - que menos prolongaram a loucura das escolas fechadas - menos caíram no
PISA, ou não caíram de todo. Sucede que a Covid não explica uma tendência que
remonta a 2012 e 2015 e desde aí prossegue sem parança. O que talvez explique são as
gerações amamentadas a telemóvel e restantes pechisbeques digitais, e a maneira
como os sistemas de ensino das diferentes geografias resistiram, ou cederam,
aos pechisbeques.
Para continuar no exemplo português, aqui o ensino não se
limitou a tolerar a moderníssima “digitalização”: a partir de 2015, o
ministério, em sábias mãos socialistas, decidiu que não bastava às criancinhas
passarem dois terços da vida a fitar ecrãs e despejou ecrãs no terço que
faltava. De repente, mesmo que com origem num “relativismo” velho, os
“conhecimentos tradicionais”, leia-se “o conhecimento”, foram desprezados em
prol de “novas valências”, leia-se “ideologia e lero-lero”, regadas com baldes
generosos de “informática”, que é o “futuro” (não sabiam?). Em vez de elevar os alunos à escola,
afinal a única utilidade da dita, a escola desceu aos alunos, já de si,
excepções sempre à parte, incapazes de uma vaga noção sobre se Pitágoras era um
filósofo e matemático ou a cidade natal de uma senhora chamada Teorema. Ou
sobre se Salazar governou: a) No século XX; b) No século XII; c) No século que
vi num short “bué” cringe e agora não me lembro; d) O que é salazar? Sob o PS,
a escola abdicou dos derradeiros resíduos de exigência e adaptou-se com
entusiasmo à estupidez.
Simplificando,
que a época não está para complexidades, suspeito que é por aí que espreitam as
diferenças nos resultados do PISA em Portugal e na OCDE inteira, na forma como
certas escolas de certos e raros lugares teimaram em continuar a ensinar e a
vasta maioria das demais optaram por se transformar em espaços de ATL, curvadas
ante as vistosas luzinhas do “progresso” e o mínimo denominador comum. Pelo
meio, haverá incontáveis variações, e a prazo nenhuma deverá escapar à escolha
entre a “inclusão” [sic] e o rigor. Ou a escola tenta salvar todos e acaba a
não salvar ninguém, incluindo a si própria, ou a escola ignora o processo de
ignorância em curso, resgata os que são resgatáveis e, “elitista” e caluniada e
parcial, sobrevive.
Um epílogo. O PISA também pede aos meninos e às
meninas que falem de emoções e sentimentos. Aqui Portugal está em grande por
comparação com a média europeia: os nossos alunos não sofrem tanto “bullying”,
sentem segurança acrescida, fazem amigos sem problema e são solidários. Há quem
aplauda o facto de a escola ser “mais humana e acolhedora”. Não sei se a inteligência artificial
destruirá a humanidade, conforme alguns prometem. Mas é evidente que a
estupidez natural está bastante empenhada nisso.
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Alberto Gonçalves publique um novo artigo.
PISA Educação
COMENTÁRIOS (de 9)
Maria Tubucci
Muito bem, Sr. AG. Faço
minhas as palavras de outro Alberto, o Einstein: “Duas coisas são infinitas: o universo e a
estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.”
E ainda não havia telemóveis, mas já havia socialismo…
Jorge Espinha
Eu uso as rolhas nos ouvidos
para ouvir, entre outras coisas, a si. Acho que 8 anos de política de educação
do PS explicam os resultados de PISA. Tudo o que de bom foi deixado por Crato
foi destruído. Tendo em conta que o Português é dos povos que apresenta maiores
dificuldades com a língua portuguesa, duvido que a imigração tenha feito
qualquer mossa. Aposto que em breve os melhores alunos, pelo menos na escola
pública, serão chineses, indianos e nepaleses.
António Alves
A estupidez e a ignorância é
bem anterior ao aparecimento dos telemóveis pois estas crianças são vítimas dos
estúpidos que as antecederam. Não foram as actuais crianças que votaram anos a
fio nos estúpidos que nos roubaram e destruíram as escolas.