domingo, 18 de outubro de 2026

Cá por casa…

 

Não falta coragem…  É certo que… para inglês ver… Nos  nossos improvisos… de imitação alheia.

"É para aguentar!" Com dezenas de tendas, grupos de afinidade e vigias, acampada de Lisboa pela Habitação manteve-se madrugada adentro

Adriana Alves: Texto

Diogo Ventura: Fotografia

Quando as primeiras tendas foram montadas no Rossio ninguém arriscava dizer até quando ficava. No limite de hora legal formava-se um cordão para "aguentar" de forma "pacífica".

18 out. 2026, 04:39

Uma tenda azul, de aspecto frágil, é erguida no ar na praça D. Pedro IV, em Lisboa. Uma multidão aplaude e assobia. Às 17h30 de sábado a manifestação da CGTP ainda está a dispersar no Rossio, misturando-se com as pessoas que chegam para a “acampada” de Lisboa pelo direito à habitação. Junto à estátua da praça forma-se um círculo com os abrigos. Aos primeiros minutos do protesto ainda ninguém quer arriscar dizer se vai passar aqui a noite, mas ao longo da tarde e início da noite os sinais são claros: “É para aguentar”.

Quando o relógio marca a meia-noite e meia — o horário limite definido por lei para uma manifestação — chega o derradeiro aviso: “Pedimos que quem decida ficar na praça que o faça de forma pacífica. E pedimos que os agentes respeitem o nosso protesto”. Ninguém parece disposto a partir. É ao som de Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, e de cânticos contra o primeiro-ministro, que marcaram todo o protesto, que se forma um cordão humano à volta das tendas. Há de desfazer-se e reagrupar-se ao longo das duas horas seguintes. É só perto das 02h30 que os cânticos abrandam até cessarem quase completamente. Ao microfone sugere-se a criação de “grupos de afinidade” para passar a noite e para se criarem vigias, caso a polícia apareça.

▲ Durante a colocação das tendas foram-se ouvindo inúmeras palavras de ordem e, por várias vezes, o barulho de centenas de chaves a serem agitadas.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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“Uma vida digna não é só pagar contas”

Às 17h30, ao mesmo tempo que terminam de ser montadas as primeiras tendas, agitam-se centenas de chaves — umas a pender de cordões, outras enfeitadas com bonecos — para lembrar o mote do protesto (e imitar Madrid): Habitação para todos.

Erguem-se por toda a praça D. Pedro IV cartazes: “A política é bela, os políticos é que dão cabo dela”, “Casa mobilada com electrodomésticos e dívidas”. Mas o principal alvo é o primeiro-ministro. “Se protesto é egoísmo, ter 55 imóveis é o quê?”, lê-se numa cartolina, uma referência às palavras de Luís Montenegro, quando apelou aos manifestantes para que não fossem egoístas. As críticas ao primeiro-ministro marcam toda a tarde e noite. “Oh Montenegro, presta atenção, a tua casa vai virar ocupação”, ouve-se ao som de tambores. Já numa versão da tradicional música “Laurindinha” cantam também: “Oh Montenegro, vai para o c******”.

“Eu acho que o primeiro-ministro, que é uma pessoa que tem 55 casas, está bastante confortável para nos chamar egoístas quando estamos a lutar pelo nosso direito, começa por dizer Adriana Lima, uma das porta-vozes da acampada de Lisboa. “E também acho muito curioso, quanto mais ele tenta diminuir a nossa luta, mas na verdade ele está a mostrar o medo que tem de nós”, afirma. Sublinha que está em causa “a luta mais importante” em todo o país.

Apesar dos abrigos que vão surgindo, que são já mais de uma dezena, ao início da tarde muitos ainda não arriscavam dizer se iriam dormir na rua. “Vamos ficar aqui enquanto nos deixarem”, vão explicando alguns manifestantes ao Observador.

Dentro do círculo de tendas, onde se torna quase impossível passar sem pisar algum canto, há vários rostos tapados, quer por máscaras cirúrgicas, quer por lenços. Aos megafones gritam-se palavras de ordem — “Habitação é um direito, sem ela nada feito” — enquanto os manifestantes se vão acomodando.

▲ As primeiras tendas começaram a ser montadas por volta das 17h30.

Sentado dentro de uma tenda, de rosto parcialmente tapado, Gabriel, de 22 anos, enumera os motivos que aqui o trouxeram. “Não consigo arrendar uma casa neste momento. Estava a dividir a casa com três pessoas, uma saiu e agora temos todos de sair”, conta. Pagavam dois mil euros pelo apartamento. Agora tem até ao final do mês para encontrar outra opção. “Não temos ideia mesmo [se vamos conseguir arranjar]. Talvez tenhamos de ir para a rua, não sei».

Não faltam exemplos. Adriana Lima tem 26 anos, um contrato efectivo como professora e não antecipa sair da casa que aluga e conseguir comprar casa num futuro próximo. “Apesar de ter feito tudo o que nos mandam fazer — ir para a faculdade, ter mestrado, arranjar trabalho na minha área — não consigo comprar casa em Lisboa. Estou a pagar 600 euros por uma casa que estou a dividir com seis pessoas”, explica.

Há muitos outros que se juntam à manifestação por solidariedade. Ana Loureiro, de 43 anos, há muito que conseguiu comprar casa e veio para se juntar aos muitos que passam dificuldades para conseguir a mesma conquista. “Aquilo que eu estou a fazer, que é um trabalho essencial — eu sou enfermeira —, o ordenado que eu ganho com este modo de vida, com este incremento do custo médio de vida, eu não sei se vou conseguir até ter uma vida digna”, admite. “E uma vida digna não é só pagar contas”.

A enfermeira veio com uma tenda e está pronta para ali ficar enquanto for possível. Quanto tempo? Não sabe dizer. “Acima de tudo estarmos aqui a marcar todos presença. Deixem os bares, deixem os cafés, tragam tudo para aqui, acho que é o lema destes dias”.

Há também quem recorde que o problema não é só em Portugal, aludindo ao país vizinho. O caso de Maricarmen, uma idosa de 87 anos despejada da casa onde vivia há 70 anos, lançou os acampamentos em Puerta del Sol, em Madrid, que já duram há três semanas. “No fundo, houve uma visibilidade maior dessa senhora, mas há montes de gente nesta situação”, diz Liliana (nome fictício), de 26 anos. “Não são só jovens, é uma questão muito etária, mas não são só jovens”, sublinha.

“Não se fala com a bófia”

Os cânticos de ordem são interrompidos a meio da tarde para um breve alerta à multidão: “Não se fala com a bófia”. “Se alguém for detido, se alguém perguntar alguma coisa não falem. Toda a gente tem o direito de fechar a boca”, diz uma mulher ao megafone. “A bófia não é nossa amiga”. “Não precisam de saber as nossas informações, como viemos aqui ter, toda a gente que aqui está veio aqui ter por mero acaso”, afirma. Explica que, se alguém for detido, a primeira coisa que deve fazer é pedir um advogado.

As palavras recordam os momentos vividos nas manifestações no Porto, nos últimos dias. Na quinta-feira houve pessoas feridas e sete precisaram de assistência hospitalar após uma operação policial na Praça D. João I. Um agente também ficou ferido.

Os manifestantes e autoridades apresentam versões diferentes do que se passou. De um lado alegou-se que não chegaram ordens claras para dispersar e desmontar o acampamento, mantendo-se por isso um “cordão pacífico” à volta das tendas. Já a PSP recordou que a lei impede manifestações a partir das 00h30 e garante que agiu porque os manifestantes resistiram e tentaram impedir a sua acção.

No Rossio olha-se com desconfiança para os agentes da PSP, das equipas de intervenção e polícia municipal que patrulham na praça. O número de carrinhas das autoridades vai aumentando durante a tarde. Adriana Lima sublinha que os manifestantes não se sentem intimidados: “Ninguém deve ter medo de sair à rua”.

“Optimista”, a enfermeira Ana Loureiro espera que não haja problemas esta noite. Mas para prevenir, e porque vê “muita raiva acumulada daquele lado, sem razão”, trouxe consigo um kit de primeiros socorros. “Como já deu para ver ali atrás, parece que vai haver uma guerra. A pressão visual é muito grande, a quantidade de carros que está aqui para a quantidade de pessoas que aqui está (…). Tenho até pena deles de uma certa forma, porque eles também vivem em casas partilhadas, vêm de aldeias, ganham muito pouco e são instrumentalizados desta maneira”, diz.

A tarde ainda é marcada pela assembleia geral da acampada, com espaço para os manifestantes interessados falarem, dentro de um limite de dez minutos. “O que é que podemos esperar de Luís Montenegro, que tem 55 casas?”, começa logo por dizer o primeiro interveniente. No final são aprovadas as seis reivindicações: a reversão da lei do arrendamento; o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional; um travão à aquisição de habitação por parte de fundos imobiliários; o aumento de habitação pública; a iniciativa pública de recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais; e a aplicação de tectos de renda acessíveis.

▲ A assembleia popular, onde participaram centenas de manifestantes, começou poucos minutos depois das 19h.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“É para aguentar”

Os cânticos e testemunhos prosseguem noite fora até serem interrompidos para um novo aviso. São 23h e ao microfone alertam que, legalmente, a manifestação não pode continuar para lá das 00h30, que nessa altura a polícia pode intervir para retirar os manifestantes. Apela-se a que, ainda assim, as pessoas não desmobilizem: “É exactamente depois dessa hora que temos de estar aqui, por isso aguenta!”. Garantem que estão preparados para, se necessário, enfrentar a polícia, mas pedem que todos o façam de forma pacífica. Indicam como organizar as tendas, em meia lua, com “espaço suficiente para passar uma pessoa, mas não o suficiente para passar a bófia”.

Às 00h30 o cordão humano está formado. Há muitos manifestantes de cara tapada, alguns com capacetes na cabeça. Durante as próximas duas horas as pessoas vão descontrair, conversando e cantando madrugada fora, retomando o cordão humano apenas quando há algum aviso dos megafones ou há sinais de movimentação das autoridades. Foi o caso quando elementos da Polícia Municipal vieram retirar algumas grades deixadas para trás durante o protesto da CGTP, que tinham sido aproveitadas na acampada para reforçar a corrente à volta das tendas.

O ritmo só abranda cerca das 02h30. Algumas manifestantes de megafone espalham-se pela praça para aconselhar a criação de grupos de afinidade (que, em protestos, servem para impedir que alguém fique sozinho) e apelar ao descanso. Sugerem também que se escolham vigias para estarem atentos às movimentações das forças policiais, mas são poucos os carros das autoridades na praça.

▲ No limite de hora legal formou-se um cordão para "aguentar" de forma "pacífica".

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Depois do anúncio, cessam os cânticos e os tambores. Alguns grupos vão abandonando o local lentamente, mas permanecem ainda algumas centenas de pessoas no Rossio. A maior parte ainda não recolheu às tendas. Para amanhã já estão previstas novas acções. Às 10h está marcado “boxe popular”, seguido de uma “corrida popular solidária” e nova assembleia. O lema mantém-se: “É para aguentar”.

Quando as primeiras tendas foram montadas no Rossio ninguém arriscava dizer até quando ficava. No limite de hora legal formava-se um cordão para "aguentar" de forma "pacífica".

18 out. 2026, 04:39

sábado, 17 de outubro de 2026

CONTINUAÇÃO

 

Do texto anterior – de Rui Pedro Antunes

  Em “Mi Casa”

COMENTÁRIOS

Hoyo de Monterrey

Não percebo porque não emigram para Cuba ou Venezuela, onde há habitação para todos e o nível de vida é muito melhor

Pedro Campos

Obviamente, que estes movimentos que são um verdadeiro "polvo" em torno da habitação são controlados pela extrema-esquerda com uma natureza desordeira e de arruaça, e com a complacência da comunicação social!!

Carlos Carvalho

Não percebo tanto entusiasmo dos jornaleiros com meia dúzia de comunas. O modelo cubano tem as casas todas no chão. Vergonha de jornalismo

jose ferreira

Não esquecer o papel da agência lusa, onde são construídas as associações movimentos etc e logo divulgadas as intervenções.

este órgão de informação/comunicação está controlado por esta gente fechem agência lusa.

Bernardo Gonçalves

A geringonça destes comunas serviu para quê,  para além abolir o SEF, deixar entrar 1,5 milhões de imigrantes sem controlo, agravando o já grave problema da habitação?

A única solução que a esquerda e extrema esquerda se recusam aceitar é a liberalização do mercado, a construção de casas em massa, e claro, a conversão de dezenas, ou centenas, de imóveis abandonados do Estado em habitação de renda controlada?! Deixar o mercado funcionar e ter o Estado a apoiar.

50 anos de partidocracia do PS subsidiada pela UE dá nisto, pobreza e desigualdade. Quanto pior, melhor para estes parasitas do PZP, BE.

David Pinheiro

Quando vi tanto keffiyeh, pensei logo que o Porto devia estar com um frio pouco habitual para esta altura do ano. Alterações climáticas, certamente. A culpa só pode ser dos combustíveis, que ainda não estão suficientemente caros.

Mas depois ocorreu-me outra explicação: talvez sejam aqueles partidos que têm mais facilidade em reunir gente nas ruas do que votos nas urnas.

Hugo Rosado

PCP ainda existir é um atentado à democracia. Tal como qualquer partido nazi.

Let’s Go Brandon

1+3 deputados em 230 lideram o circo da palhaçada e hipocrisia na rua

Joao Goncalves

Perguntem aos angolanos se estão satisfeitos com a habitação depois de 50 anos de comunismo?

Paulo Silva

Às ordens ou não, esta gente é alimentada pela narrativa classista dos partidos de extrema esquerda. Se o fascismo é proibido porque não é o comunismo e afins?... A esquerda está a passar da "guerra de posições" à "guerra de movimentos"...

Vasco Matias

As bloqueiras que falem com o Robles que ele tem solução para a habitação

Paula Barbosa

Grande descoberta !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!  Havia dúvidas nos jornalistas , de que aquilo era tudo rapaziada do CDS !!!!! Tiveram de ir lá perguntar !!!!! Eu , quadro superior, só comprei casa aos quarenta anos e nos arredores de Lisboa. Antes, andei a saltar de andarzeco em andarzeco, nos anos oitenta e noventa !

Julio Pinheiro

Liderados pelo PCP, BE mas patrocinados pela SIC, expresso RTP e TVI, que parecem querer uma repetição do que se passa em França ou Espanha.

JPGSG

PCP e Berloco a caminho da extinção.

Manifestantes , burros, malandros, inúteis, marginais, droga a todos, falta de urbanidade, tudo mau, e apoiados pela esquerdalha.

O povo português não é isto

Manuel Filipe Correia de Araújo

Montenegro não se pode queixar, porque o PS diz 'Sim é Sim' ao PCP e ao Bloco de Esquerda, enquanto a AD diz 'Não é Não' a André Ventura que foi Militante do PSD durante Dezassete anos......!!!!!!

Jose Nunes

Sr Jornalista Rui Pedro Antunes, diga lá alguma coisa que nós não saibamos? Para ser notícia é fundamental que seja novidade!

E o sr é liderado por quem?

Alberto Gonçalves, Helena Matos e Miguel Morgado, são as 3 razões pelas quais ainda vale a pena assinar este (que já foi um) jornal.

pertinaz

A culpa é do ps dois….

Nunca quis chamar os bois pelos nomes…

Escumalha de esquerda ditatorial do caviar…!!!

Gabriel Madeira

Qual é a surpresa? Esta escumalha não sabe fazer mais nada!

Paulo Machado

Engraçado que o partido com mais Património imobiliário,  o PCP,

Juntamente com o partido que apoia a imigração massiva, BE,

Estejam a incitar uma contestação à falta de habitação

Fernando ce

Está escrito nos livros e agendas marxistas leninistas , maoistas e trotskistas: eleições são burguesas, o poder conquista-se na rua. Os comunistas de toda a espécie não perdem nunca a sua verdadeira natureza.

Manu Gue

A extrema esquerda na Europa esta reduzida a insignificância e sem o mínimo de ideias para resolver os problemas da sua massa votante, que está toda a fugir para os partidos populistas de direita. Como o seu discurso contra esses partidos também não está a resultar, decidiram incendiar as ruas para transformar a governação nesses países um inferno. O grande problema disto é o PS e os media ir atrás desta gente. O PS está perdido e extremado e se pensa que vai ganhar votos com isto, que se engane. Os moderados que neless votam vão deixar de o fazer e votar em quem tem mão dura com a violência. Acordem!!

Garcia Moreno

Desistiram de ocupar casas?

António Lamas

Acrescente à lista os "betinhos" do Livre

Luis Ferreira da Fonte > jose ferreira

E ainda são os contribuintes a pagar os salários desses activistas políticos da Lusa.

Luis Silva

Não entendo por que razão nenhum desses movimentos reivindica o Direito a Tomar Banho e a não Cheirar Mal.

Eduardo Russo

Eis mais uma das muitas razões para colocar a extrema-esquerda e a extrema-direita no mesmo patamar! Só servem para destruir, dividir e desorientar a sociedade!

Jose Rodrigues

Para mim "comunistas" e "bloquistas" são o mesmo: comunistas.

José B Dias

Presumo que a conclusão constante do título desta peça tenha sido o resultado de uma aturada investigação efectuada com o auxílio de especialistas russos de guerras híbridas ...

Luis Ferreira da Fonte

Tão fofinhos os desta extrema-esquerda, por isso os portugueses lhes estão a responder com os igualmente fofinhos da extrema direita… com patrocínio da comunicação social, que tem dois deles atrás de cada Bloquista!!!

João Sousa > Eduardo Russo

Queres comparar a destruição causada pela extrema-esquerda com a da extrema- direita?

MVitoria > Pedro Campos

E apoio!  Nalguns casos não escondem a clara simpatia.

Mi casa

 

Es tu casa. Só por isso agimos. De boa fé, sempre.

 

Comunistas e bloquistas lideram movimentos de luta pela habitação. Mas garantem independência financeira e de acção face aos partidos

Rui Pedro Antunes: TEXTO

Movimentos na luta pela habitação são liderados por militantes ou activistas da órbita de BE e PCP. Juram autonomia financeira e que partidos não lhes dão ordens. Montenegro tem outra opinião.

Rui Pedro Antunes: TEXTO

OBSERVADOR, 16 out. 2026, 23:24

4,5 milhões de euros em gastos irregulares na SGMAI

Salvador Sobral, um comediante subvalorizado

Dona das massas Milaneza em fusão de 1,8 mil milhões

"Abre portas" a Donetsk: Putin revela tomada de Dobropilia

Movimento decide não passar a noite na Praça D. João I

Rússia. Nova base de drones construída em seis semanas

Luís Montenegro aproveitou o último debate quinzenal para acusar os “partidos mais à esquerda” de “tentarem tudo” para “recriar alguns movimentos de indignação social” como aconteceu em Espanha após o caso Maricarmen. Na quinta-feira, na reacção à carga policial aos manifestantes no Porto, o primeiro-ministro voltou a apelar aos “partidos políticos” a que não sejam egoístas e não importem para Portugal “climas de instabilidade”. O que o Governo sugere, através do primeiro-ministro, é que PCP e Bloco de Esquerda estão por detrás dos movimentos que organizam protestos da habitação. Mas será mesmo assim?

O Observador foi olhar para a liderança dos principais movimentos pelo direito à habitação e — entre muitas plataformas inorgânicas, estruturas horizontais e organizações mais ou menos organizadas — é possível verificar que os protagonistas são, de facto, militantes, dirigentes ou antigos candidatos de Bloco de Esquerda e PCP. Apesar de a esmagadora maioria dos movimentos não divulgar nos respectivos sites a composição dos órgãos sociais ou a composição da coordenação, os dois partidos não escondem a ligação aos movimentos e até se têm feito representar ao mais alto nível nos protestos. Os organizadores do movimento garantem, no entanto, ao Observador que não recebem financiamento partidário e que, apenas ocasionalmente, pedem apoio a autarquias locais.

A mãe de todas as plataformas: comunistas e bloquistas numa ‘Casa Para Viver’

A maior capacidade de mobilização para as ‘manifs’ sobre habitação tem sido da plataforma “Casa Para Viver”, que acaba por agregar (e federar) vários movimentos pelos direitos à habitação (e não só). Os três membros da plataforma “Casa Para Viver” que ficaram responsáveis pela comunicação na sequência da carga policial no Porto fazem parte de três dos maiores movimentos: Nuno Ramos de Almeida (dirigente do Vida Justa), Rita Silva (do Habita!) e André Escoval (porta-voz do movimento Porta a Porta — Casa para Todos).

Nuno Ramos de Almeida, que também já tinha sido um dos rostos do movimento Que Se Lixe a Troika, reaproximou-se do PCP depois de ter deixado o Partido em 1999 (chegou a ser dirigente do Bloco nesse período) e actualmente é assessor do vereador da CDU na câmara de Almada. André Escoval é militante do PCP e foi dirigente local comunista na comissão concelhia de Vila Franca de Xira. Já Rita Silva foi assessora do Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda em Lisboa e era a número dois do partido à câmara de Lisboa no ano em que o cabeça de lista foi Ricardo Robles — tendo depois recusado assumir a vereação por discordar de um acordo com o PS. Foi ainda deputada municipal do Bloco na Assembleia Municipal de Lisboa.

Conhecida apenas como Habita!, uma das maiores associações da plataforma está registada como “Habita 65 — Associação Pelo Direito à Habitação e à Cidade” e teve como fundadores a própria ex-deputada municipal bloquista Rita Silva, mas também Luís Seixas do Carmo, que nas últimas autárquicas seguiu em número 6 da lista da CDU à câmara municipal do Barreiro e Lídia Canha Fernandes, que tem um percurso partidário muito similar ao de Rita Silva: foi deputada municipal pelo Bloco de Esquerda em Lisboa e assessora do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda.

Os movimentos estão, muitas vezes, em constante mutação. O movimento a Casa é Um Direito, protagonizado pelo humorista Diogo Faro (que fez parte das personalidades da cultura que apoiaram o Bloco de Esquerda nas Legislativas de 2024) fundiu-se com o Chão das Lutas, fundado por Fábio Salgado, que foi membro eleito pelo Bloco de Esquerda na Assembleia de Freguesia de Santa Maria Maior, e pelo ex-deputado municipal do BE, João Vasco Cruzeiro Oliveira Barata. Agora, estes movimentos que são mais próximos dos bloquistas juntaram-se num só colectivo: o 1º Esquerdo.

Outro dos associados da plataforma Casa para Viver é o Movimento Referendo pela Habitação — que, entretanto, passou a praticamente inactivo, tendo-se, parte dos seus membros, transferido para a petição “Parar o Hotel no Quartel da Graça”. Também Ana Gago, membro do movimento, foi candidata a vereadora pelo Bloco de Esquerda à câmara de Lisboa em 2021.

A força do PC nas associações

Entre os fundadores da associação Vida Justa não há militantes, mas há afinidades com os partidos de esquerda. Catarina Mendes Morais, advogada da família de Odair Moniz, foi subscritora de um manifesto organizado pelo PCP contra o pacote laboral do Governo de Montenegro. Outro dos fundadores, Yuri Paiva, tem várias manifestações públicas de apoio à CDU divulgadas no canal da coligação. O activista António Brito Guterres não é militante de nenhum partido, embora já tenha participado várias vezes no Fórum Socialismo, que é organizado pelo Bloco de Esquerda. Depois, além de Nuno Ramos de Almeida, um outro porta-voz do movimento, Flávio Almada, rapper conhecido como LBC, também já apoiou em diversas circunstâncias candidatos do PCP.

Nuno Ramos de Almeida, em declarações ao Observador, admite que há militantes comunistas na estrutura, mas garante que o movimento “não é propriedade do partido”. O também comentador da SIC Notícias diz que o Vida Justa tem “órgãos formais”, que tomam as decisões de forma completamente independente de qualquer partido.

O porta-voz do Vida Justa destaca, no entanto, que é natural que, numa situação como a crise da habitação, “os partidos que têm intervenção à esquerda do PS” saiam à rua. Igualmente natural, lembra, é que “as pessoas que estão nos movimentos sociais e que tenham uma maior predisposição para a intervenção social, também tenham para a intervenção partidária.”

Ramos de Almeida garante que o Vida Justa e o Casa Para Viver “não são do partido A ou B” e que “as decisões são tomadas nas assembleias dos movimentos”. Lembra ainda que a “JSD fez um acampamento a protestar contra a falta de residências universitárias. A JSD tinha aí um interesse partidário e uma causa justa”.

O porta-voz do movimento garante ainda que não há qualquer “financiamento de partidos” no Vida Justa e que a “festa anual que organizamos no 25 de Abril dá praticamente para o ano inteiro”. O orçamento do Vida Justa é ainda reforçado com mais “festas, convívios, acções e donativos” ou pedidos a “pessoas que sabemos que têm mais dinheiro e contactamo-las a pedir um apoio específico”. Além disso, explica, são pedidos apoios pontuais a autarquias. Não necessariamente do PCP. “Já pedimos a Oeiras. Uma vez precisávamos de transporte para batucadeiras e pedimos a Oeiras [liderada por Isaltino Morais, ex-autarca do PSD]”, conta.

O terceiro grande movimento da plataforma “Casa para Viver” é o Porta a Porta, que tem o militante comunista André Escoval como porta-voz. A associação, no universo dos movimentos de defesa da habitação, está mais conotada com o PCP. E há várias razões para isso.

O movimento foi convidado recentemente pelo eurodeputado comunista João Oliveira para ir a Bruxelas, numa visita em que a associação deslocou vários membros ao centro da Europa. O Porta a Porta organizou uma manifestação junto ao edifício da Comissão Europeia, na rotunda Schuman. Membros do movimento participaram ainda numa conferência internacional sobre o custo de vida organizada pelo grupo europeu a que pertence o PCP, o The Left. Um dos membros do Porta a Porta que falou para as redes sociais do movimento durante a acção em Bruxelas foi João Canas, o candidato a presidente da Assembleia Municipal de Águeda nas últimas autárquicas pela CDU.

O porta-voz do Porta a Porta, André Escoval, garante que o movimento “não tem filiação com qualquer estrutura partidária” e o que une os seus membros é a “concordância com o manifesto fundador”, que garante ter sido subscrito por “pessoas das mais variadas correntes políticas ideológicas e até religiosas”. Com responsabilidades também na plataforma que agrega os vários movimentos, Escoval acrescenta que “no Casa Para Viver não estamos a perguntar se este ou aquele coletivo tem esta ou aquela afinidade política”, pois o que lhes interessa é mesmo a defesa do “Artigo 65º da Constituição”, que defende o direito à habitação.

André Escoval admite, no entanto, que existe um “diálogo com os partidos porque entendemos que são eles que no quadro da Assembleia da República podem legislar no sentido das políticas que melhoram a habitação.” E sobre isso, acrescenta, “não temos equívocos: sabemos quem está do nosso lado”. Questionado se se referia a PCP, BE e Livre, o porta-voz do movimento Porta a Porta admite que são esses “três partidos que têm iniciativas legislativas que defendem muito mais o direito de uma casa para viver do que os demais. Isso é inegável.”

O líder do movimento lamenta ainda as “grandes dificuldades em incluir o PS”, uma vez que “não tem apresentado políticas que vão ao encontro do Porta a Porta e Casa para Viver.” Adverte, aliás, que “quando esteve no Governo foi em sentido contrário: o programa Mais Habitação só surgiu depois da primeira luta da Casa Para Viver a 1 de abril de 2023. Não foi uma opção deles”. André Escoval considera que se o PS quer provar que está ao lado da esquerda nesta causa tem uma “oportunidade: votar contra o Orçamento do Estado”.

Na mesma linha do Vida Justa, André Escoval garante ao Observador que “todo o financiamento” que o Porta a Porta tem vem da “angariação de fundos direta, que passa por venda de crachás, de autocolantes, que temos uns muito bonitos”. E dá dois exemplos: “Organizámos comes e bebes na Rampa de Santo António e nos Santos Populares vendemos cerveja pela cidade. É esta a nossa forma de pagarmos os nossos cartazes. Não temos personalidade jurídica, nunca podíamos ter outras formas de financiamento, muito menos de partidos”.

O militante comunista, que lembra que “não tem qualquer cargo de dirigente há vários anos”, garante ainda que conta com “colaborações logísticas de autarquias da cidade de Lisboa, seja para baias de segurança, estrados ou mesmo fotocópias”. Mas acaba por admitir: “Nunca solicitámos a juntas da AD, até porque sabemos bem o que Carlos Moedas pensa”.

Mas não é apenas nos maiores movimentos que está o PCP, que mantém presença no topo de várias associações de moradores que são associadas da plataforma Casa Para Viver. A presidente da APPA, Associação do Património e da População de Alfama, é Lurdes Pinheiro, que já foi candidata da CDU à Presidência da junta de freguesia de Santa Maria Maior. Na Associação dos Inquilinos Lisbonenses (AIL) — que também faz parte da plataforma Casa Para Viver — o presidente é Pedro Ventura, candidato da CDU à câmara de Sintra nas últimas autárquicas. O PCP sempre fez questão de estar na liderança desta associação que representa os inquilinos na capital. Antes de Pedro Ventura, a AIL foi liderada durante mais de 20 anos por Romão Lavadinho, histórico do PCP. O mesmo acontece em outros exemplos como na Comissão de Utentes e Moradores de Marvila, cujo presidente, Tiago Gonçalves, foi candidato a presidente da junta de freguesia de Marvila pelo PCP nas últimas eleições autárquicas.

Sobre esta presença de dirigentes ou destacados militantes comunistas nas associações de moradores ou pelo direito à habitação, André Escoval reconhece que faz parte do “ADN dos militantes do PCP”. O porta-voz do Porta a Porta lembra ainda que, entre Congressos, o PCP organizou em 2022 uma Conferência Nacional em que a resolução dizia que os militantes comunistas deviam “reforçar a luta social” e que o “envolvimento social tem de subir de tom”. Ora, explica, esta presença em associações “corresponde ao aumento dessa luta social.”

A plataforma Casa Para Viver inclui ainda outras associações com outras causas — como combate ao racismo ou de defesa dos direitos LGBTQI+ — que são igualmente muitas delas lideradas por militantes, dirigentes ou eleitos de partidos à esquerda do PS. As associações de outras causas envolvem-se na luta pelo que os manifestantes chamam de “interseccionalidade“, uma teoria que mostra que os sistemas de discriminação não operam de forma isolada, mas sim de maneira simultânea e indissociável. Isso explica, por exemplo, porque é que há tantas bandeiras e grupos de defesa da Palestina nas últimas manifestações pela habitação — situação já referida pelo Governo. Muitos dos membros destas associações são, aliás, membros de vários movimentos em simultâneo.

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