quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Às aranhas

 


É  como me sinto, ao transcrever estes textos do blog do Dr. Salles, que mal entendi, na sua reposição pessimista, de quem prevê males próximos, afinal não muito diversos dos males presentes e passados, como inerentes à precária condição humana…

 

agosto 03, 2026

Desta vez, trato dos três níveis de motivação humana que mais me interessam:

1.  O nível das ideias, conceitos, políticas, estratégias… - aquele a que se dedicam os espíritos superiores;

2.  O nível dos factos a que se dedicam os espíritos medianos, vulgares e quiçá mesquinhos na busca da verdade que só eles têm por boa;

3.     O nível dos que tratam de discutir pessoas, ou seja, dos medíocres – o reino da manipulação mediática.

Agosto de 2026

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

Comentários

Anónimo, 9 de agosto de 2026 às 21:58: Ó Dr. Salles da Fonseca. E aqueles que, como eu, partem dos factos para as ideias? Abra lá mais uma possibilidade onde eu possa ser arrumado. Abraço António Palhinha Machado

TEXTO:

ABRINDO A PORTA... fevereiro 02, 2026 Ao estilo de Declaração de Princípios, esta é a casa do       … humanismo no sentido inequívoco do antropocentrismo em que o Estado serve o cidadão, por ultrapassagem do teocentrismo medieval e em oposição a todos os sistemas que obriguem a pessoa servir o Estado  … da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU 1948) e contra tudo que a contrarie;   … da sistemática busca da harmonização de interesses nem sempre concomitantes, por oposição a perturbadora luta de classes;      … da liberdade de pensamento e respectiva expressão;      …do pluripartidarismo que, abrindo alternativas de doutrina e estratégia, permite ao eleitorado (o verdadeiro «dono» do poder) a opção perene ou flutuante entre doutrinas e circunstâncias;      … da definição doutrinária do bem-comum, na esperança vinculada de que propostas disruptivas da harmonia e da liberdade como conceitos unicitário chumbem nas urnas ..

SOMOS POUCOS

março 09, 2026

    A área urbana de Londres tem cerca de 9,2 milhões de residentes; na região de Paris moram 11,2 milhões e Berlim alberga cerca de 6,4 milhões. Comparando com os nossos 10,75 milhões a nível nacional, resta a conclusão que somos poucos. Mas, para além de sermos poucos em termos absolutos, somos ainda menos quando «contamos as espingardas» fiéis aos Valores da Europa Ocidental. Ou seja, no actual litígio contra o imperialismo russo, não podemos correr o risco de deixarmos que as nossas Forças Armadas e de Segurança sejam minadas por russófilos ou seus amigos. Eis a cautela que desaconselha a obrigatoriedade do Serviço Militar: nem todos merecem a honra de servir nas Forças Armadas. Não esbanjemos recursos com «tropa fandanga» cujo amadorismo só prejudica a eficácia dos profissionais. Centremo-nos em pequenas Unidades de grande operacionalidade e deixemos as maciças acções de «botas no terreno» para aliados mais populosos que nós. E assim me refiro às forças terrestres...

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DO BEM-COMUM

fevereiro 04, 2026

  O conceito de bem-comum tem tudo a ver com harmonia social, com solidariedade e com o Estado de Direito. Com respeito pelas minorias, o bem-comum assenta na vontade da maioria. O bem-comum é antónimo de luta de classes, de privilégios classistas e de revolução. Dá para crer que os movimentos disruptivos nascem e medram a partir da desconfiança sob a profusão de compadrios, mas também podem resultar da inveja. Contudo, seja qual for a causa e seja qual for a consequência, tudo isso é contrário ao bem-comum. O Ocidente tem que ser transparente e, portanto, defensor do seu homónimo, o bem-comum. Mas… … se o secretismo referendário é o garante da transparência eleitoral, já na gestão corrente da «coisa» pública a transparência é garantida pela difusão da informação assim impedindo ilegitimidades e compadrio. No cenário actual, o Ocidente é a Europa e pouco mais. O Ocidente, sede do bem-comum democrático, já é só quase a Europa. A ver se a seguramos pelas pontas…e nó...

 

sábado, 8 de agosto de 2026

Encantos

 

Ou desencantos existenciais ,,, Sim, o estímulo da leitura devia ser mais impositivo, não se percebe bem por que razão não o é, podendo aquela ser encarada como mais um nada que funciona como mais um estímulo para as tais vidas feitas de nadas, mas simultaneamente de “tudos” que nos aconchegam ,,.

Bucólica

A vida é feita de nadas;

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

De casas de moradia

Caiadas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;

De poeira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga  TORGA, M., Diário, 1941.


As humanidades não são de ninguém

Lê-se menos numa altura em que nunca tanta gente estudou; os clássicos, outrora fechados nas bibliotecas de meia dúzia de famílias, estão hoje na palma da mão, e ninguém os abre. Mas há um senão.

P. JOÃO BASTO. Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR,07 ago. 2026, 00:22

Há duas semanas, a Atlantic anunciou na capa o «fim da leitura». Menos de metade dos americanos leu um livro no último ano, a maior parte dos alunos recém-chegados à universidade não tem literacia suficiente, a grande maioria das pessoas não escreve ou encarrega a inteligência artificial dessa tarefa.

Diante disto, fazemos sempre uma de duas coisas. Ou cruzamos os braços, com o fatalismo de quem vê, ao longe, uma tempestade que não pode travar. Ou saímos à caça do culpado: o telemóvel, o TikTok, a geração Z, a escola e agora a inteligência artificial. As duas reacções compreendem-se. As duas são inúteis.

O diagnóstico é certo. Lê-se menos numa altura em que nunca tanta gente estudou; os clássicos, outrora fechados nas bibliotecas de meia dúzia de famílias, estão hoje de graça na palma da mão, e ninguém os abre; vende-se-nos uma máquina que escreve por nós no preciso momento em que deixámos de escrever. Tudo verdade.

Mas há uma coisa que estas contas nunca fazem entrar na equação. Um punhado de pessoas que continua, sem dar nas vistas, a ler Homero e Tolstoi ou a sublinhar Dostoievski e Steinbeck à noite, depois do trabalho. Não são professores universitários. Trata-se de uma massa considerável de trabalhadores, não necessariamente de profissões liberais, ou de jovens não alinhados.

Dizer que o número é escasso para inverter a tendência é enganador. Os renascimentos culturais começaram sempre à margem, e quase sempre contra a ortodoxia do seu tempo. O renascimento europeu foi impulsionado por tradutores não académicos e por uma ecologia de patronos e estudantes que operava fora do círculo oficial. O romantismo foi liderado por leitores não licenciados e por poetas das classes mais baixas, como William Blake, John Keats e John Clare. O renascimento americano foi desencadeado por ex-pastores e amadores, com Walt Whitman e Emily Dickinson a escreverem os seus poemas entre empregos. O modernismo teve como maiores pensadores e poetas banqueiros, bibliotecários, jornalistas e até vendedores de seguros, como Wallace Stevens.

É isto que se perde quando se tratam as humanidades como uma propriedade institucional, grupal ou estatal. Não o são. As humanidades são a maneira como uma sociedade aprende a imaginar, a discordar e a dar nome ao mundo, sem corrimão. Salvará as humanidades quem se importar o bastante para o fazer, mesmo que isso o empurre para as margens. Salvará as humanidades quem carregar Rulfo, Faulkner e Camilo como um correio de droga transporta estupefacientes. Salvaremos as humanidades desconfiando de tudo o que não for quase clandestino.

Precisamos de voltar a confrontar-nos com livros, quadros, filmes e obras difíceis. Precisamos de não perceber e de fazer leituras enviesadas. Precisamos de resistir às dicotomias idiotas e empobrecidas que já nos são oferecidas mastigadas. Precisamos de refinar ideias na solidão e no silêncio, e testá-las em conversas reais.

Whitman sentiu o peso esmagador do desespero perante as «cidades cheias de tolos» e «os fracos resultados de tudo». Não sei porque é que, connosco, haveria de ser diferente.

BIBLIOTECAS      LIVROS      LITERATURA      CULTURA

COMENTÁRIOS:

José Roque: As humanidades não são de ninguém, mas o uso que delas se faz, sim, é de alguém. Quando se escolhe Adorno e se ignora Pascal, quando se ensina Habermas, mas não Montaigne, quando se discute Popper, mas não Hegel, são humanidades que se seleccionam.

Carlos Nunes: Muito bem: menos de 50% dos americanos leu um livro no último ano. Eu não sei, mas arriscava que menos de 50% dos portugueses leu um livro desde que nasceu. E isto é muito grave. E perante este facto, o Padre João agarra-se ao “punhado de pessoas” suficientes para os “renascimentos culturais”. Ok, mas isso é outro assunto. O “assunto” é que uma sociedade que não lê é uma sociedade ignorante, doente, perdida. É disto que se deveria falar, e actuar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Uma portuguesa


… Uma pessoa, simplesmente - de lei.

Proximidade

Ter trazido hoje, com desenvoltura e gosto, as vicissitudes de um mercado de fruta numa cidade secundária, trar-me-á desvantagem face à soberania da actualidade: - então e Ceuta?  e Sánchez? e o Irão?

MARIA JOÃO AVILLEZ - Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 05 ago. 2026, 00:25

 

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1Quando me vi face a uma plateia de caldenses, sentada entre as forças vivas da cidade para moderar um debate sobre a icónica Praça das Caldas, louvei intimamente a iniciativa: com o mundo em guerras e a incerteza como destino ter a oportunidade de “in loco” voltar a confirmar o valor e a importância da “proximidade”, foi-me muito grato.

Cada uma daquelas pessoas trazia uma opinião de casa, propunha soluções, queria ouvir a dos outros. A Praça dizia-lhes respeito, era “deles”: sugestões, alternativas, ambições, perspectivas, quotidianos e até sustentos, passaram por ali no desenrolar da conversa no palco e a seguir, na plateia.

2A Praça da Fruta é um dos ex-libris das Caldas da Rainha, porventura o mais conhecido de tão presente, popular, participado, perene.

 Como escreveu Carlos Querido – um dos debatentes naquela tarde solarenga de Julho – no seu livro justamente chamado “A Praça das Caldas”, “se recuarmos 100 anos, hoje de manhã, lá estaria a Praça a fervilhar com o mesmo ritmo e as mesmas regras, só que com outros actores. Na verdade a Praça é como um palco, um cenário onde só os protagonistas mudam.”

Sim: o resto permanece. Com idade e vitalidade. E como a “proximidade” promove, interpela, convence (e desperta o civismo), a Praça foi de novo tema nas Caldas da Rainha: ciclicamente alguém se “lembra” que os vendedores e produtores não podem estar a céu aberto, sob a inclemência de chuvas e frio. Fazer o quê então? A “Gazeta das Caldas” – outro ícone! – que este ano celebra os seus também eles extraordinários cento e um anos, decidiu dar voz à cidade, pondo em mãos e em marcha um grande e muito profissional inquérito sobre a Praça. Coordenado por José Luís Almeida, ouviu-se tudo e todos, e as conclusões quase espantam pelo triunfo do bom senso: um) a Praça é um marco e nunca poderá sair “dali”; dois) há que proteger os vendedores das intempéries; três) a proteção não pode interferir com a identidade e a especificidade do lugar.

Mais convidativamente razoável é difícil.

Agora será com os poderes locais. A começar pelo autarca Vítor Marques – independente, em segundo mandato e presente no debate a que aludi e a acabar em interessados e, se possível, responsáveis. Mas hoje todos eles, já com o utilíssimo “instrumento” do inquérito da Gazeta na sua posse.

3Se me posso meter onde sou chamada, acendo um sinal vermelho: atenção: possibilidade de equívoco fatal.

Ou seja, em circunstância alguma – por razões históricas, culturais, de identidade e respeito à memória – se deverá confundir ou amalgamar a Praça da Fruta com a Praça da República.

Talvez que a principal joia da coroa desta questão resida nisto mesmo: de manhã, na Praça da República vende-se fruta, legumes, flores, frutos secos, queijos. Mas à tarde tudo se aquieta e o que emerge do burburinho alegre da manhã é a geometria harmónica da Praça da República, o seu empedrado lindíssimo, as suas proporções, o seu desenho. Que a eventualidade de uma protecção mais “humana” aos vendedores não deite a perder – desfigurando-a por completo, cruel assassinato – a história e a dignidade da Praça da República. (O que inevitavelmente aconteceria, por exemplo, se se optasse por uma cobertura fixa… Por favor, não!)

4Ainda a “proximidade”, ainda a “Gazeta”, símbolo vivo da (insubstituível) oportunidade que representa uma imprensa regional. Mensageira (única?) e (único?) traço de união entre um lugar e quem o habita. Levando notícia, acontecimento, histórias, levando o palpitar da vida em cada uma das 12 freguesias do concelho das Caldas. Ouço falar de algumas dificuldades sofridas pela Gazeta (tão bem pensada e dirigida pela minha colega Fátima Ferreira). Só tenho uma palavra a dizer: não deixem morrer a Gazeta. Por favor não deixem!

Não perceber que há elos que não podem ser cortados nem iniciativas deixadas para trás é não perceber – insisto – o formidável valor da política de “proximidade” (quem me dera).

5Claro que ter trazido para aqui, com desenvoltura e gosto ainda para mais, as vicissitudes de um mercado de fruta numa cidade secundária, ou de um órgão de comunicação regional, me colocará em evidente desvantagem face à soberania da actualidade: então e Ceuta e Sánchez e o Irão, e as imoralidades de Trump, e Luís Neves? E, e, e.

Não: hoje viva a proximidade! E o encanto que é – por exemplo – tratar algumas pessoas pelo nome próprio por estas bandas; ser amiga como sou do adorável casal que me guarda um toldo na Lagoa; pedir tudo e mais alguma coisa a António “Venda” da nossa freguesia; poder elogiar de viva voz o Tiago, director do (óptimo) coro do Santuário do Senhor da Pedra em Óbidos. E, e, e.

Um privilégio, digo-lhes eu, isto de ser devota da proximidade.

PS. Boas férias!

Receba um alerta sempre que Maria João Avillez publique um novo artigo.