quarta-feira, 1 de julho de 2026

ESTAR NA BERLINDA

 

Um propósito sempre apetecido.

TUDO SOBRE TRUMP, NADA SOBRE O IRÃO

Como é possível dizer que um país enfraquecido militarmente, a enfrentar uma crise económica grave, com um regime detestado pela maioria da população, ganhou uma guerra? Por causa de Trump

JOÃO MARQUES DE ALMEIDA Colunista do Observador

OBSERVADOR, 01 jul. 2026, 00:25

As discussões e os debates sobre a guerra do Irão foram de uma pobreza assustadora. Não foi só em Portugal, também foi no Reino Unido e em França (dois países europeus cujos debates sigo com atenção). A grande maioria dos analistas e comentadores nunca esteve interessada em discutir a guerra no Irão, e sobretudo as consequências para o país. O principal objectivo era, simplesmente, atacar Trump. A grande competição foi quase sempre para ver quem atacava Trump com mais dureza ou usando mais piadas (que quase nunca tinham graça).

Trump cometeu enormes erros. A guerra foi mal planeada e mal executada. As forças armadas norte-americanas sabiam que o Irão iria tentar ocupar o Estreito de Ormuz (fazia parte dos planos de guerra americanos na região há décadas), mas nada foi feito para o controlar antes do Irão. Ninguém sabe se as forças armadas americanas teriam conseguido ou falhado porque não foi tentado. As negociações com os iranianos também foram de uma pobreza enorme. Há um mito que nos diz que Trump é um negociador hábil. Talvez seja de negócios de construção civil e hotelaria. De negociações diplomáticas, não é seguramente. Trump não tem paciência para ganhar guerras e vencer na diplomacia. É impulsivo, farta-se, distrai-se, e está sempre a mudar.

Esta colecção de erros ajudou a tendência de discutir a guerra no Irão olhando apenas para Trump e ignorando quase tudo o resto. Aqueles que tentaram ir além de Trump foram raras e honrosas excepções. Os erros de Trump, e a antipatia e mesmo o ódio que causa em muitos comentadores, contribuíram para a pobreza das análises. Há uma dialética evidente sobre a mediocridade da política de Trump e a mediocridade das análises sobre a guerra do Irão.

A afirmação de que o Irão ganhou a guerra constitui o erro mais colossal de todos. Só mesmo o desejo de assistir a uma derrota de Trump pode levar à conclusão de que um país que perdeu o seu líder máximo, e grande parte das lideranças políticas e militares, e igualmente uma parte substancial da sua capacidade militar, venceu a guerra. Ninguém sabe quais são as consequências da guerra para o futuro do Irão e do seu regime. Sabe-se que há divisões no regime e no país, que a autoridade do Estado funciona mal e que a economia está destruída, com inflação descontrolada, o aumento do desemprego e da pobreza. O futuro do Irão pode ir desde o fortalecimento do regime, a mudanças no interior do regime, ao fim do regime ou a uma guerra civil. Ninguém sabe. Nem os iranianos. Qualquer destes cenários terá consequências enormes para a região. Daqui a dois anos, deixaremos de falar sobre a política do Presidente Trump, mas as mudanças internas no Irão, as suas relações com os seus vizinhos e o conflito com Israel continuarão a dominar os debates sobre o Médio Oriente.

Uma análise mais alargada do que aconteceu na região desde os ataques do Hamas a Israel, em Outubro de 2023, mostra mesmo que o Irão está muito mais fraco. A estratégia revolucionária do Irão tem sido durante décadas construir um cerco a Israel através de movimentos radicais apoiados e financiados por Teerão. O que se passa cerca de três anos depois? O Hamas está muito enfraquecido. O Hezbollah perdeu força, grande parte da sua liderança, e está isolado no Líbano. Na Síria, houve uma mudança de regime e de principal aliado passou a adversário do Irão. Depois de um acordo com a Arábia Saudita, assinado em 2021 (com mediação da China), e de uma aproximação com os vizinhos árabes do Golfo, estes olham agora para o Irão como a maior ameaça à sua segurança. Mais, os países do Golfo estão a pedir, uns em público (como os Emirados e o Bahrein), outros em privado, como a Arábia Saudita, a Israel para os ajudar a defenderem-se contra o Irão.

Mesmo no caso do Estreito de Ormuz, o futuro é complicado para o Irão. Se os iranianos insistirem em controlar o Estreito, serão os países da região, os europeus e as potências asiáticas a oporem-se. Os Estados Unidos não compram petróleo, nem gás, nem fertilizantes no Golfo. São sobretudo os países asiáticos que necessitam dos recursos naturais dos países do Golfo. No futuro, a culpa dos problemas na circulação no Estreito de Ormuz será dos iranianos e não de Trump.

Como é possível dizer que um país enfraquecido militarmente, a enfrentar uma crise económica grave, com um regime detestado pela maioria da população, isolado na região e depois de perder os seus principais aliados ganhou uma guerra? A resposta é muito simples. Por causa de Trump.

IRÃO      MÉDIO ORIENTE      MUNDO      DONALDO TRUMP      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA

COMENTÁRIOS (de 20)

Isabel Gomes: É possível porque é obviamente mentira. Os canais de informação são na realidade canais de propaganda anti Trump.

Fernando ce: Pela primeira vez alguém diz que o o”rei vai nu”. A alegria com que jornalistas e comentadores diziam e dizem todos os dia que Trump e os EUA perderam a guerra é inacreditável. Como é possível defenderem o regime do Irão - uma ditadura teocrática, medieval, que ameaça a existência de Israel e é um perigo regional. Os EUA ainda representam a democracia de tipo ocidental que felizmente o governo português apoiou. Veja-se como o Supremo Tribunal de Justiça ainda ontem deu a conhecer decisões contra o Presidente, apesar de ter uma maioria republicana. Haja decência senhores comentadores e jornalistas.

José Paulo Castro » José Paulo Castro: Claro que a maior ironia é que esses estão objectivamente a ajudar o outro pólo da globalização, o autocrático, como a China e a sua aliança com o Irão.

Ana Rita Tudo isto porque a Europa virou à esquerda, o seu antiamericanismo primário está ao rubro. Sinto vergonha de viver nesta Europa parolinha e invejosa.

Alcides Longras > Manuel Gonçalves Qual é a parte do artigo em que se sublinha os factos como tudo o que o Irão perdeu e como tem o seu futuro comprometido que você chama de trumpismo? É que Trump é passageiro mas a crise no Irão já existia antes dele e vai continuar a existir bem depois.  Ou isso também é trumpismo?

ANA CRISTINA: A hipocrisia é tão grande que nem conseguem imaginar qual a hipótese se Trump não tivesse sido o eleito. Kamala, tão ao jeito destes comentadores europeus wok, teria dado a machadada final na Civilização Ocidental. A Europa estaria num buraco de onde dificilmente já sairia. Trump tem a vantagem de ser inconveniente de não ter filtros. Talvez ainda tenhamos acordado a tempo!

JOSÉ PAULO CASTRO: Se Trump, de alguma forma, ganhar as lutas em que se empenha, isso representa um rude golpe na globalização. Todos os que apostaram nesse modelo de sociedade global estão obrigados a fazer de Trump o seu foco.

MANUEL GONÇALVES: Os trumpistas do Observador insistem na sua defesa, contra todas as evidências do seu carácter errático, incompetente e de verdadeiro estrabismo corrupto. Como já perceberam que é insustentável defendê-lo directamente, agora fazem essa defesa de forma criativa e enviesada. Enfim, há muitas vias para enterrar a cabeça na areia, inclusive mandar para moderação um comentário que não gostam…

Tim do A: Acho que foi mais por causa sa Europa que se colocou do lado do Irão ou, pelo menos, não apoiou os EUA e Israel. Puseram-se do lado contrário ou do lado errado, isolando os EUA e Israel, em vez de aproveitarem a oportunidade única para resolver o problema. Assim é difícil!

A busca da verdade

 

E, tantas vezes, a verdade da busca…

Isto vem tudo no Huxley

Onde é que nós queremos chegar, afinal, com este entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos, sem esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda?

NUNO GONÇALO POÇAS Advogado e Colunista do Observador

OBSERVADOR, 30 jun. 2026, 00:24

No tempo em que as crianças jogavam à bola na rua, por entre lancis, passeios, pedras da calçada levantadas, alcatrão, automóveis, camiões, portões de garagem amolgados pela força dos petardos lançados com bolas esfarrapadas pelo asfalto ou balizas feitas com calhaus, medidas com passos, havia uma série de regras altamente falíveis que eram seguidas à risca. Uma delas era a da validade dos golos quando as bolas iam altas. Levantava-se uma grande discussão sobre se o guarda-redes lá chegaria em teoria, simulando-se uma trave horizontal erguida à medida não de uma medida regulamentar, mas da altura de quem jogava à baliza – daí que, quanto mais pequeno o guarda-redes, melhor, porque se reduzia automaticamente a altura da baliza (sendo que pequeno e gordo seria a medida perfeita do guarda-redes, que acaba por transformar a baliza de pedras numa barreira intransponível). As discussões levantavam-se, não raras vezes acabavam à pancada, num processo de libertação hormonal e manifestação de força saudável, que fazia, a curto prazo, mais forte quem batia e, a longo prazo, quem levava.

Lembrei-me disto numa destas madrugadas, enquanto a seleção portuguesa de futebol era massacrada pelos colombianos neste evento de publicidade a que chamam Mundial de Futebol, quando um golo aos olhos de todos válido foi anulado à Colômbia. Aquela aberração a que chamam VAR, vídeo-árbitro, uma máquina que oferece imagens virtuais que apuram ao milímetro a verdade desportiva, descobriu a ponta de um dedo colombiano para lá da linha Maginot virtual que separava o último defesa português do seu guarda-redes. Como sou uma daquelas almas que já gostou mais de futebol do que de uma equipa, e não sou totalmente imune à nostalgia, achei que o golo ia ser validado. Não havia nada, entre o directo e a repetição, que indiciasse um fora-de-jogo. Mas lá surgiu a linha virtual e a Colômbia acabou por empatar um jogo que merecia ganhar.

Há, de facto, qualquer coisa de profundamente revelador num golo anulado porque a biqueira de uma bota ficou dois centímetros para lá da linha. Os jogadores fizeram tudo bem, o estágio explodiu, as gentes entram em êxtase, outras em profunda tristeza, tudo parece encaminhado para a revelação da Humanidade, e eis que uma máquina nos diz que não, que não foi bem assim. Não discuto sequer a regra, a tecnologia, a justiça real que tudo isto traz a um jogo que é, ainda por cima, cada vez menos um jogo e mais um mercado de capitais e transacções. Mas há aqui, em tudo isto, alguma coisa que nos fala sobre o tempo que vivemos e naquilo em que nos estamos a tornar ou em que nos tornámos já.

O que é que se espera do Homem que não aceita a imperfeição, o erro, a margem de erro, a ideia de que a vida é um conjunto infinito de zonas cinzentas oscilantes pela decisão humana que prevalece sobre a ideia de uma medição absoluta? O que é que se pode esperar de uma sociedade que exige a limpeza total, a exactidão total, o controlo total, a perfeição absoluta? Esta é a época das canetas de emagrecimento, afinal, uma revolução real que, procurando ser justo, melhorou, por enquanto, a vida de milhares de pessoas e representa um avanço extraordinário da ciência. Mas onde é que nós queremos chegar, afinal, com este entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos, sem esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda? Por mais sedutora que seja a ideia da perda de peso sem fome, será inevitável que cheguemos a outros sítios: à ambição de aprender sem estudar, de enriquecer sem poupar, de criar relações duradouras sem compromisso, de ter sucesso sem fracassar, de obter reconhecimento sem mérito, de ser feliz sem sofrer. Talvez nenhuma outra civilização tenha investido tanto na eliminação de qualquer forma de atrito pessoal, ao mesmo tempo em que se desmorona em atritos permanentes, sociais e pessoais.

Não digo que isto seja incompreensível. Não é. Durante séculos procurámos combater a doença, a fome, a pobreza, a dor, e felizmente vencemos muitas desses obstáculos, que nos permitiam salvaguardar o valor da vida. Não há romantismo nenhum no sofrimento, como é evidente. Mas há muito romantismo e demasiada utopia num mundo que luta pela abolição total da dor, até ao ponto em que o Homem passa a ser avaliado exclusivamente sob o ponto de vista da sua perfeição ou da sua utilidade. Talvez seja esse o grande esquecimento do nosso tempo: a confusão entre sofrimento e mal absoluto, o varrimento para debaixo de um tapete da ideia de que há um sofrimento que destrói e há outro que forma vontades e carácter. É por isso que o verdadeiro perigo em que vivemos não seja o vídeo-árbitro ou as canetas de emagrecimento, por exemplo, mas a filosofia que os permitiu: a ideia de que qualquer obstáculo é um defeito da realidade e de que a boa sociedade será aquela onde nada custa, nada dói e nada exige. E onde se é, afinal, menos livre porquanto deixamos de estar aptos a fazer escolhas. O Admirável Mundo Novo é este: a troca da liberdade pelo conforto, não pela força, mas pelo prazer. Permitam-me que não aprecie.

COMENTÁRIOS (de 21):

António Lamas: Se fosse vivo, Huxley teria que que escrever um novo livro.

"Terrível Mundo Novo".

terça-feira, 30 de junho de 2026

CONCLUSÃO

 

Do texto precedente (“UCRANIANOS”)

Mas a Rússia é vasta e tem Putn, mesmo sentado… Sem medos…Sorrindo…

(Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

O ministro da Defesa aclarou também que, com estes drones, a Crimeia está a ser “isolada” de qualquer cadeia de abastecimento da Rússia. “Parece que a Crimeia vai tornar-se uma ilha”, atirou Mykhailo Fedorov, antevendo que o “inferno está a começar para os russos”. “Temos esta janela de oportunidade. As rotas logísticas estão a ser cortadas e a Crimeia está a ser isolada. E isso está a ter um impacto no leste. Existe uma correlação directa entre a intensidade dos nossos ataques logísticos e o número de operações que ocorrem na linha da frente.”

A lógica do ministro é clara. Ao atacar a Crimeia, a Ucrânia está a criar uma enorme pressão na linha da frente, obrigando, em última instância, o Kremlin a desviar atenções e recursos para esta região — em vez de dar tanta atenção aos combates ainda em curso na região do Donbass. Em simultâneo, as tropas russas que permanecem no sul da Ucrânia (em redor da província de Kherson) arriscam-se a ficar sem o apoio logístico vital assegurado pela península.

Aliás, a Crimeia desempenhou um papel central no início da invasão total russa, tendo servido como uma das principais plataformas para a ofensiva das forças de Moscovo a sul do território ucraniano. Actualmente, a península funciona quase como um forte militar, albergando numerosas bases russas e constituindo um importante centro estratégico no Mar Negro.

Tropas russas na Crimeia

SERGEI ILNITSKY/EPA

Índice: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

De uma perspectiva mais militar, Alina Frolova, membro do think tank Center for Defense Strategies, descreve o que está a ocorrer no terreno ao Wall Street Journal como “uma operação clássica de isolamento”. “Costuma ser o tipo de operação que precede algum tipo de acção ofensiva. E, considerando que as defesas aéreas da Crimeia foram dizimadas e que as capacidades navais russas que ali existiam desapareceram, as coisas estão a avançar rapidamente”, diz a especialista, declarando: “Já estamos num ponto de isolamento sério, quase completo”.

Pela importância simbólica que a península tem para os ucranianos, o assunto galvaniza o moral das tropas. No Governo da Ucrânia, existe essa percepção, que coexiste com outra: a de que este cenário será um duro golpe para o Kremlin. “Será muito difícil de lidar” e pode “levar a certas consequências inesperadas” para os russos, avisa Mykhailo Fedorov. Com a Crimeia totalmente isolada e no cenário em que caia nas mãos dos ucranianos, a superioridade russa no campo de batalha — que já é posta em causa — pode mesmo cair por terra, levando muitos russos a reflectirem se a guerra na Ucrânia vale verdadeiramente a pena.

Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência

Tal como para os ucranianos, a Rússia vê a Crimeia como parte fundamental da sua estratégia. Foi o início do expansionismo russo na Ucrânia — e uma iniciativa que correu relativamente bem para Moscovo. Houve críticas do Ocidente, mas o Kremlin continuou a fazer negócios com as capitais europeias. O argumento de que a população desejava juntar-se à Federação Russa, mesmo que violando o Direito Internacional, colou entre muitos ocidentais.

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Mapa da Crimeia pintada com uma bandeira russa

Bloomberg via Getty Images

(ÍNDICE: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Historicamente, muitos governantes na Rússia também sempre viram a permanência da Crimeia na Ucrânia, após a queda da União Soviética, como um erro histórico que convinha reparar. O antigo líder soviético, Nikita Khrushchev, transferiu a península para o controlo da República Socialista Soviética Ucraniana em 1954, algo cuja lógica muitos nunca entenderam. Para provar a grandeza da Rússia, Vladimir Putin voltou a controlar o território, daí ser a sua “joia da coroa”.

Ao longo dos últimos anos, o território transformou-se numa estância balnear a que muitos russos vão passar férias no verão, como acontecia nos tempos da União Soviética. Para a população da Rússia, a Crimeia integra a Federação Russa: é parte indissociável do seu território desde 2014, mesmo que, à luz do Direito Internacional, a situação esteja longe de estar reconhecida. Até a oposição russa no exílio — incluindo o principal dissidente do regime russo, Alexei Navalny — foi criticada por ver a península como sendo russa.

Por tudo isto, um eventual isolamento da Crimeia não é algo que os russos vão aceitar de bom grado. Desde 2014, o Kremlin tem alimentado uma gigante máquina de propaganda em redor da anexação da região, convertendo-a num símbolo de orgulho e do nacionalismo da Rússia. A Ucrânia sabe perfeitamente a forma como a região é vista pelo Kremlin — e quer agora explorar um eventual cerco para gerar ondas de choque na sociedade russa.

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Bandeira da Ucrânia com a inscrição Crimeia

(Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergênciaA estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Além disso, a situação interna russa já não é fácil. A Ucrânia está a levar a guerra para dentro do território vizinho, atacando principalmente refinarias de petróleo em cidades como Moscovo ou São Petersburgo. Isto causa não apenas a escassez do combustível disponível, como também representa um rombo nas finanças do Kremlin. Muitos cidadãos começam a queixar-se dos impactos da guerra e estas reclamações geraram uma onda de críticas inéditas a Vladimir Putin, mesmo com a censura e o cerco à dissidência impostos no país.

Apesar de manter a convicção de que a Rússia vai controlar o Donbass pela força e não ceder na posição maximalista em eventuais negociações, Vladimir Putin já começou a reconhecer que a situação na Crimeia é preocupante. Questionado sobre os ataques com drones contra a península na semana passada, o Presidente russo afirmou que “a tarefa de eliminar essas ameaças recai sobre o Ministério da Defesa e outras agências de segurança”. “O Governo da Federação Russa também deve tomar medidas adicionais para minimizar, ou reduzir para zero, as consequências de tais acções.”

A situação no terreno é complicada. Partes da península ficaram sem água, luz e gás. Na imprensa internacional, fala-se numa situação anormal. Ao Wall Street Journal, Maksim Tikhomirov contou que não há electricidade há dias. “Em Sebastopol, especificamente, a situação é muito difícil. Muitas lojas não estão abertas. É impossível levantar dinheiro. Os transportes públicos estão a funcionar mal e em número limitado.”

"O Governo da Federação Russa também deve tomar medidas adicionais para minimizar, ou reduzir para zero, as consequências de tais acções."

Vladimir Putin, Presidente russo

Índice: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

O principal foco é também o turismo a grande fonte de receitas na Crimeia, principalmente nesta altura, que marca o início da época balnear. À CNN Internacional, o dono de uma pousada na cidade costeira de Noviy Svet descreveu o ambiente como “cauteloso, mas longe de haver pânico”. “Falando sobre nós pessoalmente, não vejo qualquer impacto crítico no trabalho da pousada neste momento. Os hóspedes continuam a vir; as praias, os cafés e as infraestruturas turísticas estão a funcionar. Mas existe incerteza e as pessoas estão mais atentas às notícias”, conta.

Em todo o caso, as autoridades pró-russas da Crimeia declararam o estado de emergência na região. Numa mensagem no Telegram publicada na passada sexta-feira, o governador Sergei Aksyonov justificou a decisão com a escassez energética. “O quadro legal do estado de emergência permite a rápida resolução de questões relacionadas com a manutenção do funcionamento de todos os sectores essenciais”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Sergei Aksyonov admitia que não sabia “quanto tempo ia vigorar” este estado de emergência. “Não posso divulgar um plano específico de acção, mas estamos a agir”, garantiu, concedendo que “infelizmente” os sistemas de defesa aéreos da Crimeia “não estão a ser perfeitos em termos de segurança e eficácia”. Para já, o governador assegurou que não havia “quaisquer restrições na liberdade de circulação” e não existe qualquer recolher obrigatório.

Por causa da situação, milhares de pessoas abandonaram a Crimeia nos últimos dias. Perante condições cada vez mais precárias, muitos turistas e habitantes da península decidiram regressar à Rússia. Têm sido registadas longas filas na ponte de Kerch, uma infraestrutura que se encontra, contudo, frequentemente encerrada devido aos ataques ucranianos.

A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?

O Presidente ucraniano revelou a estratégia publicamente. “A nossa operação, incluindo a que diz respeito à Crimeia, está a ser calculada cuidadosamente. A forma como a operação se está a desenrolar prova-o totalmente: se a Ucrânia receber exactamente o que precisa dos parceiros do G7, vamos criar as condições que vão forçar a Rússia a escolher a paz“, anunciou Volodymyr Zelensky, no discurso nocturno da passada quarta-feira. Esta iniciativa faz parte de um plano de 40 dias para obrigar a Rússia a sentar-se à mesa das negociações.

O isolamento da Crimeia visa precisamente isso: obrigar a Rússia a negociar e a recuar nas suas exigências maximalistas. Como analisa o especialista em política russa Mark Galeotti num artigo no The Times, o objectivo não é tomar a península pela força, pelo menos para já. “Algumas vozes mais ambiciosas em Kiev pedem uma tentativa de tomar a península pela força, mas o consenso geral é que seria muito difícil. Está muito bem defendida.”

Na realidade, escreve Mark Galeotti, a Ucrânia quer pressionar Vladimir Putin com a hipótese real de perder a Crimeia, a “joia da coroa” e aquela que vê como a sua “conquista mais valiosa”. Kiev pretende que o Presidente russo aceite “sentar-se à mesa das negociações e que aceite a exigência da Ucrânia para um cessar-fogo imediato”. Paralelamente, ao trazer a guerra para território que a população russa vê como sua, os ucranianos esperam que a sociedade civil reaja.

"Algumas vozes mais ambiciosas em Kiev pedem uma tentativa de tomar a península pela força, mas o consenso geral é que seria muito difícil. Está muito bem defendida." Mark Galeotti, especialista em política russa

ÍNDICE: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?

No entanto, Vladimir Putin não parece disposto a ceder. Mesmo tendo admitido que os ataques às infraestruturas “vão criar problemas” no país, o Presidente russo não dá sinais de recuo. Alegando que a Ucrânia lhe tentou propor uma trégua nos ataques de longo alcance, o chefe de Estado rejeitou-a categoricamente: “É claro o motivo pelo qual esta proposta foi feita: porque os nossos contra-ataques atingem o território ucraniano em profundidade. São muito fortes, têm um maior impacto e são, francamente, mais destrutivos”, atirou.

Para o Presidente russo, o seu país continua numa posição de vantagem no conflito, devido à “escassez catastrófica” de homens na Ucrânia para combater. Qualquer cessar-fogo, defendeu Vladimir Putin numa entrevista este fim de semana, daria apenas tempo aos ucranianos para ganharem forças. “Salvar o regime de Kiev não faz parte dos nossos planos”, garantiu.

Retórica para consumo interno ou plena confiança de que a Rússia continua num bom momento? Ninguém sabe o que vai verdadeiramente na cabeça de Vladimir Putin. No entanto, a população russa sente na pele os impactos reais do conflito. O cerco à Crimeia, assim como os ataques de longo alcance a várias regiões da Rússia, afectam a vida quotidiana da população. E a Ucrânia aguarda que a sociedade civil russa se revolte e quebre a malha de censura que o Kremlin lhe impõe.

É uma estratégia da Ucrânia que Mark Galeotti adjectiva como sendo de “alto risco”. Se Vladimir Putin temer perder a Crimeia, sentindo que “a incapacidade de a proteger mancha o seu legado ou pode mesmo derrubá-lo”, poderá “optar por negociar”, como quer Volodymyr Zelensky. “Mas também poderá ser tentado a aumentar a pressão” e provocar uma escalada ainda maior do conflito, alerta o especialista.

O isolamento com drones da Crimeia está em curso. No terreno, a estratégia ucraniana está a resultar, criando muitos constrangimentos à população russa e sérias preocupações no Kremlin. O símbolo de uma anexação bem-sucedida da Rússia está sob imensa pressão. Mas, para lá dos efeitos a curto prazo e simbólicos, será a península capaz de obrigar Vladimir Putin a sentar-se à mesa das negociações e aceitar um cessar-fogo? Para já, o líder russo não tem mostrado qualquer abertura para isso.

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