segunda-feira, 2 de março de 2026

Mais sangue

 

Suor e lágrimas. Por cá.

Da Internet:

Dados biográficos de Khamenei::  

Ali Hosseini Khamenei (Mexede19 de abril de 1939 – Teerã28 de fevereiro de 2026) foi o Marja' duodecimano xiita iraniano que serviu como Líder Supremo do Irã, de 1989, quando sucedeu o Aiatolá Khomeini, até à sua morte em 2026. Anteriormente, também foi presidente do Irã de 1981 a 1989. Khamenei foi o Chefe de Estado há mais tempo no poder no Oriente Médio e o segundo líder com mais tempo na chefia do Irã no século XX, atrás apenas do Xá Mohammed Reza Pahlavi.

 

Membros da Guarda Revolucionária iraniana com o retrato de ayatollah Ali Khamenei NurPhoto via Getty Images

Sem Khamenei, Guarda Revolucionária deve radicalizar regime iraniano. "Pode ficar brutal como a Coreia do Norte"

No meio da guerra e após a morte de Khamenei, Guarda Revolucionária deve aproveitar vácuo de poder e assumir protagonismo. Regime pode ficar mais bélico e militarista, aumentando repressão interna.

JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

OBSERVADOR, 01 mar. 2026, 22:1012

ÍNDICE

“Um sistema mais confrontacional”. Militares podem tomar o poder?

As consequências internas e externas de um regime mais militarizado

Os riscos de uma guerra regional no Médio Oriente

A chorar. Na televisão estatal iraniana controlada pelo regime, os pivôs não conseguiram controlar as lágrimas a enquanto liam a notícia da morte Ali Khamenei. Para os defensores da República Islâmica que encaram agora o ayatollah como um mártir, a morte do Líder Supremo foi a perda de uma referência. Mas não só. Nos órgãos de comunicação social afecta à República Islâmica, há juras de vingança e é transmitida a ideia de que chegou a altura de salvar a face. A principal oportunidade para isso reflecte-se precisamente na sucessão do mais alto cargo da nação.

Durante os 37 anos que esteve à frente do Irão, ALI KHAMENEI optou quase sempre pela táctica da “paciência estratégica”. O regime não arredava pé das suas convicções, mas mantinha uma postura cautelosa na política externa. Por um lado, a República Islâmica sabia que ficava quase isolada e era alvo de inúmeras sanções internacionais devido, por exemplo, ao desenvolvimento do programa nuclear. Por outro, as provocações que fazia eram calculadas ao milímetro e indirectas, não começando guerras que sabia que dificilmente poderia vencer. O regime iraniano era um pária que sabia como dissimuladamente acicatar os ânimos dos adversários geopolíticos. Uma prova disso foi a rede de proxies que passou a patrocinar no Médio Oriente, como o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iémen.

No entanto, as circunstâncias mudaram com a operação militar conjunta entre os Estados Unidos da América (EUA) e Israel iniciada este sábado. Os iranianos mais conservadores não se podem dar ao luxo de adoptar a tal “paciência estratégica, podendo não sobreviver à ofensiva estrangeira. Desta vez, a guerra dá-se em território iraniano e os rivais israelitas e norte-americanos não escondem que pretendem acabar com o regime. A morte do Líder Supremo dá força à tese de que o Irão não pode recuar e tem agora de se impor perante os adversários — e abre espaço para a Guarda Revolucionária, o braço armado do regime, reforçar ainda mais o seu poder.

Internamente, as repercussões deverão incidir sobre a sucessão de Ali Khamenei, em concreto, na escolha provável de um líder da linha mais dura. Neste momento, existe um conselho de transição que está a assegurar o poder liderado por três nomes: o ayatollah Alireza Arafi, o Presidente Massoud Pezeshkian e o líder do Supremo Tribunal do Irão, Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i. Os domínios da religião, da política e da justiça estão unidas para traçar o futuro do país em tempo de guerra. Não será por muito tempo, ainda assim. Em breve, haverá a nomeação de um novo Líder Supremo, com o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, a antecipar que pode ser daqui a “dois dias”.

Na política externa, as consequências podem ser mais graves. O Irão pode sentir que não há mais nada a perder e lançar ataques contra os países vizinhos e aliados dos Estados Unidos, como já está a acontecerEm declarações à Al JazeeraHassan Ahmadian, professor de política iraniana na Universidade de Teerão, aponta para o fim da “paciência estratégica” e o início da “política de terra queimada”: “A decisão foi tomada. Se atacado, o Irão vai queimar tudo”.

 Ali Khamenei defendeu uma política de "paciência estratégica" Anadolu via Getty Images

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As consequências internas e externas de um regime mais militarizado

Os riscos de uma guerra regional no Médio Oriente

“Um sistema mais confrontacional”. Militares podem tomar o poder?

Antes de morrer este sábado, aos 86 anos, Ali Khamenei preparou durante meses a sucessão, de modo a que o regime sobreviva mesmo sem a sua presença. O objectivo era que ficasse tudo a postos para a República Islâmica manter a coesão e organização, assente nos ensinamentos dos clérigos xiitas e no militarismo. Em junho de 2025, a Guerra dos Doze Dias contra Israel já tinha levado o Líder Supremo a acelerar os preparativos para um futuro sem ele.

Mais do que a religião, o regime sabe que, neste momento, a força militar e policial é mais necessária do que nunca. O país enfrenta uma guerra e, nas ruas, existe a possibilidade de milhares de iranianos insatisfeitos com a República Islâmica. Como tal, a Guarda Revolucionária iraniana, o braço armado e principal sustentáculo da República Islâmica, deverá desempenhar um papel muito importante durante a transição de poder. Esse protagonismo deverá estender-se à forma como influencia a sucessão de Ali Khamenei.

Existe mesmo a possibilidade de a Guarda Revolucionária assumir o poder no futuro sem Ali KhameneiNum artigo escrito para o think tank Atlantic Center, o analista Jonathan Panikoff  conjectura que o Irão se pode converter num estado controlado pelos militares que poderão apresentar o nome do novo Líder Supremo como um “símbolo para milhões de iranianos conservadores”, mas com o poder “concentrado” nos guardas da Revolução.

 Apoiantes do regime reúnem-se para prestar homenagem a Ali Khamenei Getty Images

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As consequências internas e externas de um regime mais militarizado

Os riscos de uma guerra regional no Médio Oriente

Assim, a Guarda Revolucionária pode transformar o papel de Líder Supremo numa “figura decorativa”, principalmente durante a operação militar israelo-americanaEm declarações à France24, Ellie Geranmayeh, membro do think tank European Council on Foreign Relations, alerta para esse risco e acrescenta: “No caso de os Estados Unidos e Israel se focarem num colapso completo do regime, haverá um sistema muito mais confrontacional, em comparação com a tímida e calculista República Islâmica de Ali Khamenei”

As perspectivas, por agora, são que Israel e os Estados Unidos provavelmente vão redobrar a ofensiva. Ainda este domingo, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, adiantou que deu ordens para continuar o conflito contra o Irão. “As nossas forças estão a avançar no coração de Teerão com intensidade crescente e isso só se intensificará mais nos próximos dias”, afirmou. Os Estados Unidos sugeriram também que haverá uma intensificação dos ataques aéreos.

Para Telavive e Washington, a possibilidade de serem eleitas figuras militaristas de uma linha mais dura para cargos de destaque dificilmente os apanha desprevenidosDe acordo com um relatório da CIA de há duas semanas a que a agência Reuters teve acesso, as secretas norte-americanas apontaram que o cenário mais provável, no caso da morte de Ali Khamenei, seria a tomada de lugares de topo do regime por quadros pertencentes à Guarda Revolucionária.

"No caso de os Estados Unidos e Israel se focarem num colapso completo do regime, haverá um sistema muito mais confrontacional, em comparação com a tímida e calculista República Islâmica." Membro do think tank European Council on Foreign Relations, Ellie Geranmayeh Índice

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As consequências internas e externas de um regime mais militarizado

Os riscos de uma guerra regional no Médio Oriente

Nesta lógica, o Irão passaria a ser um Estado fortemente militarizado. À Al Jazeera, o especialista e jornalista Liqaa Maki apresenta um prisma mais religioso, citando uma frase que terá sido dita pelo profeta Maomé: “O crente não é picado duas vezes pelo mesmo mal”. Mas o Irão foi picado duas vezes”, complementa o analista, numa referência à Guerra dos Doze Dias em junho (e também aos ataques norte-americanos a três locais onde o Irão desenvolveu o programa nuclear) e à ofensiva recente chamada “Fúria Épica”.

Para os dirigentes do regime, a máxima é que é necessário redobrar os cuidados depois do que muitos dentro da Guarda Revolucionária vêem como uma humilhação por não a terem conseguido evitar: a morte do Líder Supremo. Mas se a “cabeça” da serpente — representada por Ali Khamenei — pode ter sido cortada, ainda ficou o “corpo”, refere Liqa a Maki. Ora, o que restou é um potente arsenal que é suficiente para tornar o Irão num estado extremamente militarizado em que a dissidência interna é dizimada.

No pior dos cenários, o jornalista e analista político iraniano Karim Sadjadpour aponta que o regime pode ficar paranóico e obcecado com os inimigos internos. “Internamente, o regime pode ficar intacto e tornar-se tão brutal como a Coreia do Norte — e ainda mais brutal do que se tornou nas semanas mais recentes com a morte de milhares de iranianos nos protestos de janeiro de 2026, diz o especialista, numa entrevista à revista Foreign Affairs

"Internamente, o regime pode ficar intacto e tornar-se tão brutal como a Coreia do Norte — e ainda mais brutal do que se tornou nas semanas mais recentes com a morte de milhares de iranianos." Especialista e jornalista Liqaa Maki

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As consequências internas e externas de um regime mais militarizado

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As consequências internas e externas de um regime mais militarizado

A face do regime deverá ficar mais militar, ainda que vá depender de como os Estados Unidos vão influenciar a sucessão de Ali Khamenei e se serão capazes de convencer altos dirigentes a colaborar. Em princípio, a República Islâmica manter-se-á uma teocracia, mas com uma componente mais militarista. “A insegurança tende a beneficiar as forças de segurança, porque, durante vazios de poder, os homens que mobilizam a violência é que prevalecem”, afirma Karim Sadjadpour.

É precisamente isso que está a acontecer no Irão, se bem que o vácuo no cargo de Líder Supremo se espera que seja muito breve e haja um conselho de transição em funções. De qualquer forma, com um regime provavelmente mais militarista e a tentar sobreviver a uma guerra, a táctica da “paciência estratégicapromovida por Ali Khamenei parece ter chegado ao fim. “O Irão aprendeu uma lição dura em junho de 2025 durante a guerra [contra Israel]: a contenção é interpretada como fraqueza“, expõe Hassan Ahmadian, professor na Universidade de Teerão.

Durante uma transição de poder, sob o risco de colapsar, o regime não pode demonstrar fraqueza. Tem de demonstrar combatividade não só perante os rivais, como também diante dos críticos internos. Este sábado, milhares de pessoas já celebraram a morte de Ali Khamenei nas ruas. Os norte-americanos e israelitas esperam também que a população iraniana que se manifestou no início de janeiro se mobilize para derrubar a República Islâmica.

Desde o exílio nos Estados Unidos, o príncipe herdeiro do último Xá da Pérsia tem tentado mobilizar à distância a oposição ao regime. Para a Guarda Revolucionária, Reza Pahlavi é uma figura indesejável por tudo o que corporiza: o passado antes da Revolução e o facto de ser um símbolo de esperança para muitos monárquicos e descrentes no rumo da República Islâmica. Durante uma situação de vazio de poder, a voz do filho do antigo monarca é indesejável, principalmente a dos seus apoiantes.

Com os Estados Unidos e Israel a incentivarem protestos e com uma voz activa no exílio, o regime iraniano deve apertar a malha nos próximos tempos aos dissidentes. À Deustche Welle, Sara Kermanian, professora de Relações Internacionais na Universidade de Sussex, lembra que a República Islâmica está a “lutar pela sobrevivência política enquanto sistema não democrático”.

Não havendo contrapoderes no país, o regime iraniano estámenos sujeito à pressão doméstica no que toca às perdas humanas e financeiras”, continua Sara Kermanian. Para sobreviver sem mazelas e de modo a manter a mesma estrutura, a República Islâmica terá de evitar “lutas pelo poder internas”. E isso deverá envolver violência e repressão.

 Parada militar da Guarda Revolucionária em 2024     ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

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As consequências internas e externas de um regime mais militarizado

Os riscos de uma guerra regional no Médio Oriente

Na mesma linha, o analista Jonathan Panikoff  corrobora que um regime militarista seria uma “ameaça regional e doméstica”, adoptando estratégias ainda “mais radicais na busca pela consolidação do poder” e focado na finalidade de que “nenhum outro actor interno” possa assumir o poder.

Os riscos de uma guerra regional no Médio Oriente

Fora de fronteiras, Jonathan Panikoff admite que um regime controlado pela Guarda Revolucionária até poderia mostrar alguma “flexibilidade com os Estados Unidos” com dois objectivos em mente: “Ganhar o apoio da população iraniana” tentando obter um “impulso económico através do alívio de sanções”. O Presidente norte-americano já indicou que a nova liderança iraniana deseja dialogar com a Casa Branca e Donald Trump concordou com essa ideia.

Outro cenário que se levanta é o prolongamento de uma guerra regional no Médio Oriente. Num regime militarista que se quer impor, o Irão poderá continuar a atacar as bases militares norte-americanas em países como o Qatar, o Kuwait, o Bahrain e os Emirados Árabes Unidos. “Defender-nos-emos, custe o que custar, e não imporemos limites à defesa e à protecção do nosso povo. Ninguém nos pode dizer que não temos o direito de nos defendermos”, declarou, este domingo, Abbas Araghchi.

 “Defender-nos-emos, custe o que custar, e não imporemos limites à defesa e à proteção do nosso povo. Ninguém nos pode dizer que não temos o direito de nos defendermos." Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi

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As consequências internas e externas de um regime mais militarizado

Os riscos de uma guerra regional no Médio Oriente

Israel manter-se-ia como um dos principais alvos nessa lógica de guerra regional. Ideologicamente, é encarado pelo regime como o principal inimigo e um regime mais militarista não vai mudar isso, já que a operação militar também foi desencadeada pelas Forças de Defesa israelitas. Porém, os principais alvos seriam os países do Golfo Pérsico, acredita o jornalista Karim Sadjadpour.“Há um perigo de uma guerra regional em que o Irão tenta destruir [os países] do Golfo e pode atacar infraestruturas petrolíferas para aumentar o preço do petróleo. Israel também está mais bem equipado para se defender por causa do seu poderio militar e devido à distância face ao Irão. Os países do Golfo são mais vulneráveis”, prossegue o mesmo especialista. A “paciência estratégica” de atacar indiretamente os inimigos parece ter chegado ao fim este sábado. A tática já tinha sido questionada em junho durante a Guerra dos Doze Dias, mas a morte do Líder Supremo é uma nova fase para a República Islâmica, onde não há agora uma voz como a de Ali Khamenei a determinar uma estratégia. Tudo leva a crer que será uma época mais repressiva e bélica, mas não ainda é claro quanto tempo vai durar — e se o plano israelo-americano vai impedir que essa tendência vingue.

IRÃO      MÉDIO ORIENTE      MUNDO      ISRAEL      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA

COMENTÁRIOS (de 8)

Eduardo Mãos de Tesoura > Bruno Dias Ferreira: Já mataram mais de um milhão nos últimos 40 anos. E depois esses guardas revolucionários serão exterminados, mais as suas famílias. Um verdadeiro oceano de sangue. E milhares de mesquitas e madraças serão incendiadas e arrasadas por todo o Irão. O Islão poderá desaparecer para sempre do Irão, tal será a fúria dos iranianos contra os ayatollahs e mullahs. Nem o túmulo de Khomeini escapará: será reduzido a cinzas.                  Paulo Valente: Será impressão minha ou este artigo parece um manifesto de apoio ao regime sanguinário do Irão?!          Eduardo Mãos de Tesoura: Se a dita Guarda Revolucionária radicalizar o Irão, os bombardeamentos pelos EUA e por Israel serão ainda mais devastadores. E esses guardas serão mortos aos milhares. Será um massacre nunca visto.                Bruno Dias Ferreira: Sim, agora é que existe o perigo de matarem 30 mil pessoas em uma ou duas semanas     Lily Lu: Disparate completo.

domingo, 1 de março de 2026

Pedro deve vir


Não por si, para efeitos de posicionamento pessoal – de que não necessita – mas por um PAÍS que dele necessita – nos seus valores de rectidão, coragem, força moral, rigor nas contas… Infelizmente os heroísmos hoje já não têm a Pátria como ideal a cumprir, fascinados que somos por outras matérias de maior envergadura posicional. Mas devíamos rever a História. Talvez nela encontrássemos ainda algum Nun’Álvares inspirador de sacrifício pessoal em prol de uma pretensa pátria amada, ditosa ou menos.

(Respondo à última frase do do comentário final a este texto:

 Um país que espera tudo de um homem está, à partida, condenado.

Sim, gostaria que PEDRO PASSOS COELHO se assumisse como o herói que nele prevejo).

 

Os lobos têm medo de Pedro

Pedro Passos Coelho é, que se veja, a única esperança em “federar” uma direita (?) cuja imensa representação parlamentar é inconsequente.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 fev. 2026, 00:2584

Quem tem medo de Pedro Passos Coelho? Pelos vistos, uma quantidade enorme de gente. Desde logo, a enorme quantidade de gente que por aí anda a garantir que Pedro Passos Coelho se prepara para cometer inomináveis malfeitorias, entre elas a suprema blasfêmia de regressar à política dita “activa”. O medo não só é proporcional à iminência desse regresso: é proporcional ao previsível impacto do regresso.

Para início de conversa, informo que não faço a mínima ideia se haverá regresso. Sei, toda a gente sabe, que Pedro Passos Coelho se tem feito notar particularmente nos últimos tempos. E, pela consulta à sua agenda pública, imagino que continuará a fazer-se notar nos próximos. “Eventos” sucessivos dão-lhe a oportunidade de aparecer a insistir em dois ou três assuntos fixos, acima de todos a necessidade de reformas e o perigo de ignorá-las. A cada aparição, há ligeiros tremores de terra, compatíveis com a legitimidade do homem em dizer o que diz. A opinião publicada, habitualmente hostil a Pedro Passos Coelho à esquerda e a certa “direita”, critica-o enquanto finge aconselhá-lo.

As críticas são engraçadas. E são, para parafrasear o intelectual orgânico Hugo Soares, rajadas de tiros ao lado. Umas vezes, acusam Pedro Passos Coelho de acusar de imobilismo um governo com a mobilidade de uma cómoda. Outras vezes, sugerem que ele se arrisca a alienar uma porção do eleitorado do PSD. Nos intervalos, enxovalham-no por “normalizar” (ai, o conforto dos vocábulos idiotas) o Chega. Vamos por partes.

Em primeiro lugar, Pedro Passos Coelho tem duas tradições a seu favor: a pessoal, quando liderou em condições quase impossíveis a regeneração possível após a proverbial bancarrota socialista, e a partidária, dado que sob as três chefias relevantes da sua história o PSD sempre possuiu uma vocação reformista. Isto dá-lhe a legitimidade suficiente para notar que o dr. Montenegro não é um chefe relevante e não deseja perturbar a quietude da pátria. Muitos dos aflitos que avisam, trémulos, para a “mudança” de Pedro Passos Coelho sabem perfeitamente que quem mudou foi o PSD. Ou, para efeitos de precisão, são os sucessores dele que teimam em transformar o partido numa cópia discutivelmente moderada do PS actual. Salvo por alterações fiscais difíceis de medir com um paquímetro e alguma contenção no ódio à propriedade privada, em que é que o presente governo difere dos socialistas assumidos que o precederam? Não se incomodem a responder.

Em segundo lugar, admito que haja eleitores do PSD desgostosos com a “traição” de Pedro Passos Coelho. Infelizmente, esses eleitores, numerosos ou escassos, não se apercebem que os traidores são eles. São eles que, com o fervor de adeptos, votam numa sigla à revelia do conteúdo, que tanto pode incluir a privatização do oxigénio quanto o confisco dos electrodomésticos. Ou, como acontece, numa sigla sem conteúdo que não seja a gestão diária do poder – ou a sobrevivência rasteira, sem razão e, se assim continuar, sem futuro. Sucede também que Pedro Passos Coelho já deu provas bastantes que a popularidade, ou o receio de a perder, não constam da sua lista de preocupações.

Por fim, há a questão do Chega. Ao contrário do dr. Montenegro, e de uma avassaladora percentagem da “direita” que vai aos estúdios televisivos afirmar-se “civilizada”, Pedro Passos Coelho nunca achou razoáveis as “linhas vermelhas” que condenavam à irrelevância centenas de milhares de descontentes. A tese das “linhas” venceu e o resultado vê-se: os descontentes subiram ao milhão e, hoje, ao milhão e meio ou mais. De resto, nada, ou pouco, existe em comum entre as “recomendações” de Pedro Passos Coelho e aquilo que o Chega defende na maioria das ocasiões. De novo: não foi ele que se aproximou do Chega, embora se desconfie que o Chega estaria disposto a aproximar-se dele, conforme o próprio André Ventura indiscretamente admitiu.

Eis a moral desta história: Pedro Passos Coelho é, que se veja, a única esperança em “federar” uma direita (?) cuja imensa representação parlamentar é inconsequente. De que valem os inéditos dois terços da AR se o país se encontra ingovernável ou, o que é igual ou pior, apenas se governa em função de uma “estabilidade” que é um eufemismo estafado para a estagnação em que caímos há 30 anos? Sobretudo Pedro Passos Coelho é o único político capaz de um sentido e de uma visão que contrastem com a paralisia vigente. É o adversário do socialismo que o PSD actual não parece interessado em ser. E é a alternativa racional ao famoso “sistema” que se espuma à menção do seu nome. Ventura é hábil e útil a escoar o protesto, mas convém que o protesto adquira coerência e propósito.

Os lobos juram repetidamente que Pedro virá. Talvez um dia ele venha. E, não antecipo por que vias, era bom que viesse.

PEDRO PASSOS COELHO       POLÍTICA

COMENTÁRIOS (DE 84):

Ana Lucas > MariaPaula Silva: Concordo perfeitamente. Votei no PSD à falta de melhor, mas Montenegro nunca me convenceu. Não faz política para melhorar a vida dos cidadãos, mas para melhorar a sua e manter o poder. Pedro Passos Coelho fez política para os cidadãos e numa altura muito difícil e não se aproveitou dela!            Carlos Almeida: Era mesmo óptimo que viesse rapidamente para tirar este país deste marasmo velho e decadente em que se encontra!!! Um país miserável, sempre de mão estendida, infelizmente. Está tudo dito pelo AG.          MariaPaula Silva: Excelente. O problema do retorno de Pedro Passos Coelho reside em vários pontos, de onde saliento apenas um:   SE  PPC resolvesse voltar ao exercício da política em quem poderia confiar?  Precisamente pelo facto de o actual PSD ser um amante fiel do PS, Pedro Passos Coelho teria a vida muito dificultada.

De 2011 a 2015 assistimos à guerra dos aventais contra PPC.  Hoje, com a amantização oficializada, seria muito pior.   As recentes declarações (vergonhosas) de Hugo Soares são a prova disso.   Parece que, para além do medo, os lobos, i.é., o actual PSD está pronto para linchar o Pedro, o que não deixa de ser demoníaco e vergonhoso. Tenho vergonha deste país, a política sempre foi  uma  pulha, mas a actual política é inominável.                       Rui Lima: Pedro Passos Coelho governou Portugal no momento mais crítico das últimas décadas. Executou um programa de ajustamento que não foi desenhado por si, mas cuja responsabilidade política assumiu plenamente o que permitiu a saída do país do resgate financeiro e a recuperação do acesso aos mercados. Ninguém pode negar que liderou num contexto de enorme adversidade e tomou decisões que poucos estariam dispostos a assumir, um verdadeiro estadista onde só há políticos .                 Gustavo Lopes: Aguardo ansiosamente pelo regresso do senhor. A par de Cavaco, foi um dos dois políticos com verdadeiro espírito de missão e visão (depois pode-se gostar dela ou não, é outra coisa…) que o país teve!!! O primeiro desiludiu-me recentemente ao ter de se juntar à carneirada que veio apoiar publicamente o Tozé… bastava o silêncio! Mas não apaga o que fez anteriormente! Obrigado por mais uma crónica fabulosa, caro AG! Subscrevo todo o conteúdo.                   SDC Cruz: Caro Alberto Gonçalves, uma excelente crónica que é um prenúncio (espero que seja), do regresso de Pedro Passos Coelho (qualquer que seja o meio de transporte utilizado), para que, finalmente, o PS2 "passos" a ser PSD.  Obrigado e até para a semana.                    Maria Tejo > Rui Lima: O PS esquece, sistematicamente, o facto de ter lutado achincalhando a chamada “saída limpa” da assistência da Troika em 2014. Achavam eles que era cedo demais. O modelo para o PS /BE era a Grécia da altura com resgates sucessivos. Pequeno detalhe apagado das narrativas vigentes. O slogan que preferem (deve estar para ressurgir): o Passos foi além da Troika. A nenhum dos “bem pensantes” interessou analisar as razões subjacentes de tal Estratégia, que mais não pretendia que o País deixar de estar de mão estendida e readquirir credibilidade nos mercados externos o mais cedo possível. A partir de 2016 souberam bem, sem pudor ou vergonha, tirar partido da herança deixada no erário público.                 Maria Emília Santos: O inimigo de Portugal tem muito medo de Passos Coelho e, logo que ele entre nesta de novo, vai ser tão blasfemado como André ventura, porque não partilha a cartilha da esquerda, tresloucada, globalista, amoral, serva de Bruxelas, de fronteiras abertas para que entre tudo, absolutamente tudo, amiga dos terroristas e inimiga dos polícias e autoridades, amiga dos LGBTs e inimiga da Fé católica, e por aí vai! Passos Coelho é um Senhor que como Ventura ama o seu país que é Portugal! Passos anseia por dar o seu a seu dono e acabar com a corrupção e os portugueses que não permitiram que lhes formatassem as mentes, também!                 Carlos F. Marques: Muito bom. Se PPC regressar à política activa (espero que sim) estarão reunidas condições "únicas" para a Direita fazer as reformas, que em 50 anos, nunca foram feitas. Tão depressa não voltará a acontecer. Os Portugueses que acordem!                 José B Dias: E mais uma vez as verdades embaladas em mordaz ironia ... subscrevo sem hesitação!                    Alberico Lopes: Alberto: o que dizer deste artigo? Excelente, como sempre!              Antonio Rodrigues: Acabei de ouvir o Daniel Oliveira a falar sobre Passos Coelho, a voz do homem até fica mais aguda. É muito divertido ouvir as pessoas de esquerda falarem sobre 'falsos moralistas'. Só o efeito pavloviano que Passos Coelho causa à esquerda já justifica as suas intervenções. Perdem completamente a racionalidade, se é que têm alguma.                Manuel Ferreira21: Excelente. Tenho receio que ele volte com uma nova pré-bancarrota, desta vez, provocada pela AD. Os sinais estão todos aí, não se deixem enganar, com ajudas PRR e Fundo temos "crescimentos" de 1,9%, crescimento sem fundos e PRR deve ser negativo. Agora com a tragédia de 6000 milhões (quase 2,5% do PIB) continuam a fazer de conta que não se passa nada. Qualquer dia estão a lançar impostos e a cortar nos vencimentos  e reformas e o povo engolirá tudo. Lembram-se que a culpa era da Merkel e da troika? A culpa agora vai ser de quem?               António Lamas: É isso mesmo Alberto. O Luís assim não vai lá.  Será preciso alguém que deixe umas caixas de vinho com 75.800 euros nas estantes do seu chefe de gabinete                Tristão: Passos Coelho foi, sem dúvida, uma figura determinante no período da troika. Mas convém dizer as coisas como elas são: ele governou com um guião previamente definido, imposto pelos credores internacionais. Fosse Passos, fosse outro primeiro-ministro, mais cedo ou mais tarde aquele programa teria de ser cumprido. A margem de manobra era reduzida. Onde Passos Coelho verdadeiramente se distinguiu foi na convicção que aplicou o programa. Acreditava que aquele caminho duro, impopular e exigente  era uma das poucas vias possíveis para endireitar o país. E quando uma política é aplicada com convicção, os resultados tendem a ser diferentes. Aliás, Passos Coelho chegou a dizer  que gostaria de ir mais além da troika, não por gosto pelo sacrifício, que foi a conotação que a oposição lhe quis atribuir (resumindo, para eles Passos era um sádico), mas por ambição reformista. Queria aproveitar aquele momento excepcional para corrigir problemas estruturais que vinham de décadas. Isso distingue-o claramente. Por isso mesmo, foi uma pena não ter vencido as eleições de 2015. Estou convencido de que, sem a troika já em cena, Passos teria continuado a reformar o país por iniciativa própria. Talvez, com o tempo, algumas mentalidades tivessem mudado. Em vez disso, venceu a geringonça e tudo regressou ao normal:  reversões, gestão de curto-prazo, gestão política em vez de estratégia.  Convém lembrar um ponto essencial: Passos Coelho governou com maioria parlamentar. Isso fez toda a diferença. E mesmo assim, não foi fácil. Tinha uma coligação com o CDS que, em vários momentos, roeu a corda. As tensões eram tantas que nem dentro da própria aliança a coesão era garantida. Foi preciso muito trabalho político para manter o rumo. Agora, a verdadeira pergunta é outra: como seria Passos Coelho hoje, sem maioria, num contexto de normalidade institucional, sem uma troika a impor disciplina externa? O que faria de diferente? Simples, as reformas que apresentasse seriam chumbadas ou descaracterizadas. Enfrentaria greves, bloqueios parlamentares, desgaste político. E provavelmente cairia pouco depois, em eleições antecipadas. Porque aqui está o ponto central  e talvez o mais incómodo: o país não quer reformas. Ou, pelo menos, não quer reformas que o atinjam directamente. Quer reformas no quintal dos outros, nunca no seu sector. Por isso, duvido muito que Passos Coelho volte à política activa, a não ser num cenário de clamor profundo, transversal, quase excepcional. E sinceramente, não vejo esse clamor a formar-se. Não acredito em sebastianismos. Admiro Passos Coelho, mas não o vejo como um D. Sebastião nem acho desejável que um país dependa de um homem providencial. Os problemas de Portugal resolvem-se colectivamente. As lideranças são importantes, claro que são. Mas sem apoio social, sem maturidade colectiva e sem continuidade política, nenhuma liderança,  por mais competente que seja, consegue transformar um país. Um país que espera tudo de um homem está, à partida, condenado.