Dos nossos tempos. E do nosso espanto sem resposta.
Reconstituição. O deslize na bomba de gasolina, o
abandono dos filhos no meio do mato e o casal sorridente que levantou suspeitas
MARTIM ANDRADE: Texto
INÊS CORREIA: Ilustração
MARINE ROUSSEAU E MARC
BALLABRIGA são suspeitos dos crimes de exposição
ou abandono e violência doméstica em Portugal. Crianças estão com família de
acolhimento.
OBSERVADOR, 22 mai. 2026, 23:36
Cerca de três horas terão
passado até que alguém salvasse B., de cinco anos, e Z., de três, depois de
serem deixados pela mãe e pelo padrasto à beira da estrada nacional 253. Foi
junto a uma vedação, ao pé de um canal cheio de água e não muito longe de arrozais
alagados, entre Alcácer do Sal e a Comporta, que Alexandre Quintas viu os
irmãos, que correram “a chorar e a gritar” atrás do seu carro.
Às costas, levavam mochilas com o que os adultos lhes
tinham deixado: duas mudas de roupa, bolachas, uma garrafa de água e duas peças
de fruta. Os pequenos sacos não deixaram dúvidas ao padeiro de Monte Novo que
lhes abriu a porta do carro: tinham sido abandonados.
Pouco depois, entre brincadeiras e já alimentados pela
família Quintas, com gelados para os cativar, os menores relataram aos
militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) aquilo em que Alexandre Quintas
já acreditava. A mãe e o padrasto tinham-nos deixado, vendados, mandado procurar um
brinquedo, e depois desapareceram. As autoridades ainda procuraram Marc
Ballabriga e Marine Rousseau nas imediações, sem sucesso. O seu paradeiro foi
desconhecido até se sentarem, um dia e meio depois, num café em Fátima, onde
uma mulher desconfiou do casal e chamou a GNR.
Era o fim de uma fuga que começou
em Colmar, França, sem qualquer aviso e que deixou surpreendidos tanto a
família como o ex-companheiro de Marine e pai dos menores, que fizeram
queixa junto das autoridades — até porque os menores estavam há dias sem ir à
escola.
Termos e condições | Pinto Lopes Viagens
Marine Rousseau e Marc Ballabriga foram presentes a um juiz no
tribunal de Setúbal na tarde desta sexta-feira, por suspeitas de violência
doméstica e de crimes de exposição ao abandono. O OBSERVADOR faz a reconstituição dos
momentos desde que a família entrou em Portugal até ao momento em que o casal
deu entrada no Tribunal de Setúbal.
A chegada a Portugal depois de atravessarem dois
países
O casal francês parou para abastecer o carro numa bomba de
gasolina em Miranda do Douro, onde utilizaram um cartão bancário para pagar,
que permitiu o seu rastreamento
É dia 11 de maio e um Opel cinzento pára junto da bomba número 1 de um
posto de abastecimento no IC5, em Miranda do Douro, a poucos quilómetros da
fronteira espanhola. Uma mulher, que seguia sentada no lugar do
passageiro, sai do carro para pedir ajuda ao funcionário a encher o tanque. Nas
imagens captadas pelas câmaras de vigilância, também o condutor abandona o
veículo com matrícula francesa. Lá dentro, é possível ver duas crianças a
mexerem-se.
Para pagar o combustível, a
mulher utilizou um cartão multibanco — o que deu um sinal às autoridades francesas que já
seguiam o sinal do seu telemóvel. Foi com esta transação que a polícia que procurava Marine percebeu que a mulher de 41
anos já se encontrava em território português e, passado pouco tempo, teria
acesso às imagens que mostravam Marine, Marc, B. e Z. em Miranda do Douro.
Depois deste “deslize”,
Marine não voltou a fazer um pagamento com cartão, pelo que o seu próximo
destino não é conhecido. Durante oito dias, andaram por Portugal sem serem detectados.
O último almoço em família
B., Z., Marine e Marc almoçaram no snack bar Rustikus,
no centro de Alcácer do Sal, no dia em que as duas crianças foram abandonadas
Testemunhas não assinalaram comportamentos suspeitos
Estavam mais de 30ºC em Alcácer do Sal e o calor levou turistas e locais às
esplanadas na margem do rio Sado, que não há muito tempo inundou toda a baixa
de Alcácer. Marine
e Marc não foram
excepção. À hora de almoço de terça-feira, por volta das 12h, os dois
adultos dirigiram-se, com as duas crianças, ao snack-bar Rustikus. Em
declarações ao Correio da Manhã, uma funcionária do estabelecimento
descreveu que B. e Z. comeram ambos “carapaus fritos e beberam leite
achocolatado”.
De acordo com Teresa Pinto, as crianças “estiveram a
jogar à bola” enquanto Marine e Marc permaneciam na mesa, e não recorda
qualquer comportamento suspeito. Estiveram pelo menos duas horas no restaurante até voltarem a entrar no
carro de matrícula francesa e prosseguirem a sua viagem.
O “senhor de óculos e barba” que escondeu as crianças
Uma testemunha que seguia na N253 relatou ter visto um
homem "com óculos e barba" com duas crianças à margem do canal perto
de Monte Novo do Sul — e um carro cinzento com matrícula francesa
O que aconteceu logo a
seguir ao almoço permanece uma incógnita. Foi só pelas 16h que o carro de cor escura e matrícula francesa voltou a ser avistado, mas desta vez fora do centro de Alcácer do Sal. Também não foi numa via
movimentada, aliás, foi por esse motivo que o
Opel chamou a atenção de Luís Henrique, que se dirigia no sentido oposto, na
N253, rumo à Comporta.
O casal francês parou junto ao canal que segue em paralelo à
estrada nacional que liga a Comporta a Alcácer do Sal, como relatou a
testemunha à CMTV. “Estava a passar por Monte Novo [do Sul] e vi um homem
com duas crianças a passar rente ao canal”, descreveu Luís Henrique. Foram “quatro ou cinco segundos”,
mas o homem que seguia de mota pela N253 diz ter visto o que mais tarde
descobriu ser B. e Z., um em cada mão do “senhor de óculos e barba”.
Quando fez contacto visual com Marc, o padrasto terá
“recolhido as crianças para as suas pernas”, o que fez Luís Henrique pensar
“que se passava alguma coisa de errado”. Naquele curto período de
tempo, também foi capaz de identificar a mãe, Marine, que estava sentada no
Opel à margem daquele canal a beber água. A agora testemunha ia a
caminho de casa, chegou ao destino, e resolveu voltar àquela localização. “Mas
quando lá voltei, já não vi nada”, acrescentou.
Os gritos e lágrimas que alertaram Alexandre Quintas
Alexandre Quintas viu as duas crianças aos "gritos"
e em "lágrimas" junto à vedação que separa o canal e o acesso a Monte
Novo do Sul
Três horas passaram entre as duas crianças e os dois
adultos serem vistos juntos na estrada, até à chegada de Alexandre Quintas, a
caminho do trabalho na padaria da família. Três horas em que estiveram sozinhos.
Os dois menores franceses correram atrás do carro do padeiro
junto à vedação que separa a estrada do canal. Gritaram e choravam. Após
alguma hesitação, Alexandre decidiu parar o carro e abrir a porta do carro,
onde também seguia o seu filho de quatro anos. “Quando vi a mochila que levavam,
com uma muda de roupa, água, duas peças de fruta e umas bolachas percebi que
tinham sido abandonados”, relatou ao OBSERVADOR.
Na sua casa foram alimentados,
receberam gelados para quebrar o gelo e acabaram a brincar com os brinquedos
preferidos do filho mais novo e a pintar desenhos. Acalmaram.
A tradutora que ajudou os irmãos franceses a relatar o
abandono à GNR
Alexandre Quintas levou as crianças para a sua padaria, onde
lhes deu comida e brinquedos, enquanto aguardava pela chegada das autoridades
Poucos minutos após a chamada de Alexandre Quintas, um
destacamento composto por cerca de seis agentes e três carros da GNR chegou ao
pequeno aldeamento de Monte Novo do Sul (vivem seis a dez pessoas no local)
para tomar conta da ocorrência. Na padaria Quintas e com a ajuda de uma médica
francesa e amiga de um dos filhos do padeiro que serviu de tradutora, os
militares da GNR interrogaram as duas crianças com o objectivo de entender o
que se teria passado e para tentar confirmar as suspeitas de abandono.
Foi neste período de tempo que B. relatou terem
sido vendados pelo padrasto e mandados procurar um brinquedo num “jogo” que
terminou com a saída discreta dos adultos e as duas crianças a ficarem sozinhas
num mato próximo daquela localidade.
Os irmãos também conseguiram identificar a mãe, quando
lhes foi mostrada uma imagem de videovigilância em que esta surgia a abastecer
o carro. “Maman,
maman!“,
disse B., o irmão mais velho.
B. e Z. ficaram internados
durante duas noites
As duas crianças chegaram
com um "bom estado de saúde" ao Hospital de Setúbal, onde ficaram
duas noites a ser acompanhados na unidade de pediatria
Apesar de as crianças não terem qualquer ferimento
visível quando foram encontradas por Alexandre Quintas, as autoridades
decidiram que seria melhor B. e Z. serem vistos por profissionais de saúde.
Assim, os bombeiros chegaram a Monte Novo do Sul por volta das 23h, como
relataram testemunhas ao Observador, depois de terem sido accionados pelo
Centro de Orientação de Doentes Urgentes às 22h06.
Feitos alguns exames no local, as duas crianças
acabaram por ser transportadas para o Hospital de São Bernardo, em
Setúbal,
onde ficaram internadas no serviço de pediatria. Ao Observador, fonte oficial desta
unidade local de saúde garante que B. e Z. apresentavam “um bom estado de
saúde” e que permaneciam naquelas instalações apenas por uma questão de
monitorização. Os dois menores franceses acabaram por ficar no hospital durante
duas noites.
O casal sorridente que alertou a dona do café O Vasco
Marine e Marc estiveram cerca de cinco horas no café O Vasco
perto de Fátima até terem sido denunciados à GNR por uma cliente desconfiada.
Um galão, uma chávena grande de café e bolos. Foi este
o pedido feito por um casal de franceses pelas 9h no café O Vasco, em Fátima. Izabel Santos, proprietária do estabelecimento,
contou à CNN Portugal que os dois chegaram “sorridentes” ao café e que lá
ficaram várias horas. A mulher passou uma grande parte do tempo a
escrever numa agenda, com deslocações frequentes até ao carro. Já o companheiro
“estava com muita labuta no telemóvel”.
“Estavam calmamente, tranquilamente, sorridentes um com o
outro e a brincar com todos os clientes que chegavam”, contou a proprietária.
Chegaram mesmo a ser interpelados por uma outra cliente que falava francês, que
ficou curiosa com a situação e questionou o casal sobre o seu local de origem.
“Eu moro no
mundo”, respondeu
o homem.
Outra mulher desconfiou do casal. “A minha prima disse-me: ‘Será
que são estes os franceses de que andam à procura?”, admitiu à CNN
Portugal. Decidiu apontar a matrícula do Opel cinzento que estava
estacionado perto da entrada e de onde a mulher francesa entrava e saía
repetidamente, e contactou a GNR. A chamada e o alerta chegaram aos militares pelas 14h56 e, pelas 15h30, as autoridades identificaram os
dois franceses como Marine Rousseau e Marc Ballabriga. A detenção ocorreu “sem resistência nenhuma”.
Família de acolhimento recebeu os dois irmãos
Nessa mesma tarde, os dois irmãos, B. e Z., depois de
continuarem com um quadro clínico estável e sem qualquer problema de saúde após
duas noites naquela unidade, receberam alta do Hospital de Setúbal.
No seguimento de uma decisão do TRIBUNAL DE FAMÍLIA E
MENORES DE SANTIAGO DO CACÉM, a tutela das crianças francesas — que estavam a ser acompanhadas
pelos serviços da Embaixada de França — foi atribuída a uma família de acolhimento
francesa, segundo a
RTP. 48 horas depois de terem sido abandonados e após duas noites passadas
numa unidade de internamento, B. e Z. dormiram numa casa em Portugal.
Pais das crianças passaram
a noite na GNR de Fátima
O casal foi detido e os dois franceses passaram a
noite no destacamento da GNR em Fátima
Após a identificação no café O Vasco, Marine Rousseau e Marc Ballabriga foram transportados até ao
destacamento da GNR em Fátima.
A detenção, por suspeitas de violência doméstica e de
exposição ao abandono, acabou formalizada pelas autoridades e o casal passou a
noite de quinta-feira nas instalações. Aos militares, optaram por não prestar
quaisquer esclarecimentos e, segundo o Jornal de Notícias, também não
perguntaram pelo estado de saúde das crianças que tinham abandonado 48 horas
antes.
“Temos de parecer doidinhos”
De Fátima, o casal foi
transportado para o posto da GNR em Palmela, enquanto aguardavam audiência no
Tribunal de Setúbal
No dia seguinte, militares da GNR de Setúbal encaminharam-se
para Fátima para recolher Marine e Marc para os trazer de volta para a
península a sul de Lisboa. Segundo o depoimento de um militar da GNR,
foi nesta viagem que o casal foi ouvido a dizer: “Temos de parecer
doidinhos.”
Pelas 12h50, os dois franceses chegaram ao destacamento de
Palmela, onde o militar deixou o momento da conversa registado, com a
audiência em tribunal marcada para “depois de almoço”. Mas a
curta estadia do casal nestas instalações não foi pacífica. Ao que o Observador
apurou, Marc terá estado “aos gritos” com os militares da GNR.
A canção de Marine e a declaração de Marc
Marc foi o primeiro a sair da carrinha da GNR após a chegada
ao Tribunal de Setúbal. Algemado e agitado, o francês gritou duas vezes
"Je vous aime" Marine saiu após o companheiro, a cantar tanto dentro
como fora do transporte da GNR
O casal esteve diante um
juiz para ficar a conhecer as medidas de coação
Numa carrinha da GNR e acompanhados por meia dúzia de
militares, o casal francês chegou ao Tribunal de Setúbal poucos minutos
após a hora prevista. Quando as portas foram abertas, ouviu-se Marine a cantar,
momento que foi nitidamente captado pelas câmaras e microfones dos jornalistas
que aguardavam a chegada do casal.
Marc foi o primeiro a sair, algemado, e a gritar “Je
vous aime” (Eu amo-vos, em francês) em direcção às câmaras, apesar de não ser
claro a quem se dirigia esta mensagem. Marine continuou a cantar, mesmo fora da
carrinha e com as mãos abertas atrás das costas, enquanto atravessava a porta
que liga a garagem aos corredores do tribunal, onde foram ouvidos por um juiz.
A mãe terá recusado prestar declarações e só o
padrasto terá sido interrogado. Um interrogatório interrompido perto da meia
noite e que continua este sábado, a partir das 10h00, para conhecerem então as
medidas de coação. Até lá, a noite será passada nas celas da GNR de Palmela.
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