sábado, 2 de maio de 2026

Universo de magia

 

O Universo Bíblico.

Rostos do Evangelho

É como quem se vê ao espelho e vê o mundo. Não há noticiário ou reportagem que se aproxime do que podemos ver nos rostos que desfilam pelo Evangelho

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 01 mai. 2026, 00:24

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Volti dei Vangeli é um programa do Dicastério para a Comunicação do Vaticano de 2022, em que o Papa Francisco vai comentando brevemente e de viva-voz rostos dos Evangelhos, que passam diante de nós vistos e ilustrados ao longo dos séculos por grandes pintores ou anónimos copistas.

É um desfile que nos alerta para uma evidência: não há noticiário ou reportagem que se lhe aproxime, até em actualidade; nada que nos dê tão sucintamente o mundo e a natureza humana na paz e na guerra.

Todos nos vamos reconhecendo e reconhecendo este mundo e os rostos que o habitam nos pequenos tratados da condição humana que são as parábolas: o pobre Lázaro e o rico sem nome; o filho pródigo, o irmão mais velho e o Pai; o homem assaltado, o sacerdote, o levita e o bom samaritano.

Dir-nos-á alguma coisa o abismo sulcado pelo rico que “se vestia elegantemente e vivia todos os dias no prazer e no luxo”, sensível a todos os requintes e subtilezas, mas insensível a Lázaro que, “deitado à sua porta, desejava comer ao menos as sobras da sua mesa”; um abismo tornado intransponível e que, consequentemente, assim continua quando, depois da morte, as posições se invertem (Lucas 16:19-31). Ou o homem assaltado por ladrões que fica no chão, meio-morto, ante a indiferença dos que passam, até do sacerdote e do levita, membros e símbolos da religião e da solidária ideologia oficial, e que só encontra o seu verdadeiro próximo no samaritano, no marginal excluído da boa sociedade, que cuida dele, o carrega até uma hospedaria e zela pela sua cura (Lucas 10, 25-37). Ou como o Pai que recebe o filho devasso e perdulário, ante o escândalo e o ressentimento do filho mais velho, o correcto, o cumpridor (Lucas 15, 11-32).

Entre os rostos do Evangelho que o Papa vai percorrendo, estão também os rostos reais de S. Pedro, inseparável do galo que apregoa a sua repetida traição, e de S. José, santo que, tal como nós mas mais notoriamente, vive lado a lado com o mistério e com a aceitação do mistério e de que Francisco se diz  particularmente devoto (tinha na mesa de cabeceira uma imagem de S. José dormindo e, quando tinha alguma dúvida, escrevia-lhe um bilhete e punha-o debaixo da imagem).

Cristo prevê a traição de Pedro, tal como prevê a traição de Judas, porém a liberdade de cada um leva-os por caminhos diferentes.

Pilatos e Judas

E há também o rosto de Pilatos, num dos momentos cruciais dos Evangelhos: a paixão e a morte de Cristo. E quanto a Pilatos, o Papa Francisco não tem dúvidas: o governador da Judeia, homem inteligente e até sensível, condena Cristo para não comprometer a carreira. Pilatos ocupa, assim, o 14º episódio dos Volti dei Vangeli, que Francisco intitula “schiavo del carreirismo”, “escravo do carreirismo”.

Pilatos e Judas – e com eles o mistério do Mal, o lavar de mãos, a traição por trinta dinheiros – são dos rostos mais perturbadores do Evangelho e dos mais presentes na arte e na cultura ao longo dos séculos.

O diálogo entre Jesus e Pilatos, relatado pelos quatro evangelistas, é dos textos mais intrigantes e fascinantes da Bíblia. Pôncio Pilatos é o poder político, o poder de Roma e do seu império, a autoridade máxima na Judeia.  É a Pilatos que os judeus recorrem para neutralizar Cristo, usando o ardil de um delito que sabem punível pela lei romana e de que Cristo seria réu: o crime de lesa-majestade de se intitular “rei dos judeus”, elevando-se acima de César.

A figura de Pilatos, que devia ser ali o decisor “schmittiano”, mas que se recusa a sê-lo, é objecto de juízos variados e opostos ao longo da História. Nietzsche, no Anticristo (1895), vê-o como um “aristocrata romanoentre judeus primitivos e fanáticos. Ao seu modo radical, vai mesmo classificar o governador da Judeia como “a única figura nobre” do Novo Testamento, na sua distância e recusa em se envolver nas querelas dos locais. E no famoso “O que é a verdade?” de Pôncio Pilatos, vê, naturalmente, uma sentença céptica e até irónica. Para Nietzsche, uma religião em que Deus, o Filho de Deus, morre voluntariamente numa cruz, é uma patética apologia da fraqueza e da renúncia ao poder, uma negação da verdade, a origem do Mal (já que o Bem, conforme o define no Anticristo, é tudo o que é susceptível de aumentar “a vontade de poder” e o próprio poder no homem).

Bem oposta a esta imagem de Pilatos como nobre governador romano é a de Mikhail Bulgakov, em O Mestre e Margarida. O Pilatos de Bulgakov é um homem inteligente e a figura e o pensamento de Yeshua Ha-Nozri fascinam-no; mas hesita em salvá-Lo e recua, perante o risco que representa para a sua carreira de alto funcionário imperial. Bulgakov imagina também um destino e uma punição para Pilatos, pondo o Procurador, na sua humanidade medrosa e cautelosa, a mandar punir Judas Iscariotes por ter vendido Cristo.

Se Pilatos tivesse tido a coragem de não condenar Jesus, como se consumaria a Paixão? E se Judas, o traidor, não tivesse traído e entregado Cristo, como se consumaria o que “estava escrito” e a Salvação?  São mistérios da presciência divina e da liberdade humana, da conflituosa coexistência do Mal e do Bem, da providência divina e do livre-arbítrio com que, consciente ou inconscientemente, nos confrontamos diariamente.

Dante põe Judas na Judecca, o pior lugar do Inferno, o Nono Círculo gelado, onde o traidor é pessoalmente atormentado pelo próprio Lúcifer; e em Shakespeare, em tragédias como Othello e Macbeth, Judas é também o traidor por excelência. Já Jorge Luis Borges, no conto “Tres versiones de Judas, de 1944, escreve uma imaginativa e imaginária justificação de Judas, narrando em jeito de nota ou de opúsculo académico a história de Nils Runeberg, um teólogo sueco fictício, que, no livro Kristus och Judas, seguindo Thomas De Quincey, sustenta que Judas entrega Cristo para O obrigar a assumir a Sua divindade, instigando uma revolta nacional judaica contra Roma.

Há muitas outras explicações para a traição de Judas, assistidas por razões racionais ou até éticas. Eu, que cresci nos primeiros anos cinquenta, nos tempos pré-conciliares de Pio XII, aprendi que só havia uma pessoa que, garantidamente, estaria no Inferno: Judas Iscariotes. Mas, disse-nos Bento XVI, parece que nem isso é certo; que “no Seu misterioso projecto de salvação”, Deus assumia “o gesto indesculpável de Judas como ocasião do dom total do Filho pela salvação do mundo”, e, quem sabe, na Sua infinita misericórdia, não tivesse até perdoado o discípulo traidor, que devolveu os 30 dinheiros antes de, no desespero, se suicidar.

CRISTIANISMO         RELIGIÃO        SOCIEDADE 22

 COMENTÁRIOS (de 22)

António Rocha: Excelente, obrigado

Domingas Coutinho: Este maravilhoso texto leva-nos a refletir primeiro sobre as parábolas de Jesus cheias de enigmas que até os padres sempre demoncstram dificuldade em explicar e depois sobre a atitude controversa de Pilatos e a traição de Judas que afinal pode ter sido digno de misericórdia divina. É bom que de vez em quando alguém aborde estes temas e Jaime Nogueira Pinto já nos habituou a assuntos diferentes que gosto sempre de ler. Obrigada.

Maria Nunes: JNP, obrigada por este brilhante artigo. 

Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!

 Seknevasse: Caramba, excelente reflexão. Gostei muito, ainda há católicos com méritos!! Também gostava de ler alguma coisa escrita pelo prof, sobre Pedro Sanchez, o actual lider progressista de cariz mundial... Fica  a sugestão.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Era uma vez


ALGUÉM que amava o seu PAÍS e por tal o desejava formado por um genérico populacional virtuosamente aplicado ao saber estruturante da condição de racionalidade em que o tal genérico tivera o condão de nascer. E daí as leituras desse ALGUÉM – entre as mais, de autores como ele, inconformados com a indignidade de uma condição populacional que atravessou séculos da sua História, desprotegida dessa vontade de saber, importunada sobretudo pelo desejo de sobreviver, buscando longe riquezas para o seu poder, inferiores estas, todavia, às que uma maior aplicação intelectual mais amplamente proporcionaria, juntamente com o poder, talvez. E esse ALGUÉM insiste nos seus exemplos de textos de orientação educacional, bem necessários a uma população que considere também indispensável esse preceito formativo, que governantes anteriores mal souberam apoiar, tirantes os Dinizes iniciais e outros seguintes, do mesmo consenso educacional, que naturalmente redundará na tal nobreza de pensamento de que trata, entre outras nobrezas, o seu nobre texto. Daí, o nosso sentimento de apreço e comunhão em tais anseios, que tornariam o nosso pequeno território mais racionalmente organizado. O nosso bem-haja sempre, ao autor dessas pesquisas tão argutamente buscadas.

 

 

PELO BEM-COMUM

Ex -"A bem da Nação"

«FUNDAÇÃO EUGÉNIO DE ALMEIDA»

abril 30, 2026

Ou

III Condes de Vil’Alva

 Ser nobre é questão de estatuto; ter nobreza é questão de condição. O estatuto herda-se; a condição conquista-se.

O nobre é o que consta dos Registos oficiais e históricos. Quanto à nobreza ela divide-se em do espírito e a das atitudes:

     A nobreza de espírito é a que consiste na busca do significado das coisas, dos lugares e dos factos, ou seja, resulta da busca do significado, do espaço e do tempo;

     A nobreza de atitudes varia conforme os ambientes da vida mas na maior generalidade, considera sentir-se igual entre os grandes e ser protector dos menores.

«Se queres ser nobre, merece-o.»    Friedrich Schiller (1759-1805)  * * *

Eis Maria Teresa e Vasco Maria Eugénio de Almeida, III Condes de Vil’Alva e refundadores dos estudos de nível superior a sul do Tejo português. Instituído (e perenemente financiado) o ISESE, foi lançada a semente que floresceu na Universidade. E do marasmo se fez dinâmica; da região de emigração para horizontes mais promissores se gerou força centrípeta de desenvolvimento endógeno. Tudo, porque o conhecimento é a base do desenvolvimento e a educação é a melhor arma contra a pobreza. «Se um pobre te pedir um peixe, ensina-o a pescar».

Contudo, é moroso o tempo que decorre entre a evidência da educação como motor do desenvolvimento e o convencimento dos carenciados em vencerem a inércia mental.

Por isto, passados 50 anos sobre iniciativa dos ora homenageados e de políticas incentivadoras de instrução pública, o NUTS centrado em Évora ainda apresenta conforme estimativa do INE para os anos 2025/6 uma taxa de analfabetismo de 2,98% em vez dos ambicionados 0%;  55% da população em idade activa possua o ensino obrigatório em vez dos 80% desejáveis; 30% dos maiores de 25 anos terem alguma formação pós-secundária em vez dos 50% que, por si só, constituem acelerador inter-geracional do progresso.

«Em Portugal não é o Ministério da Educação quem mais combate o analfabetismo, mas sim as agências funerárias» - Roberto Carneiro, Ministro da Educação nos Governos de Cavaco Silva.

***

Cumpre-nos continuar a obra iniciada pelos Conde de Vil’Alva pelo que, com vista a colmatar as lacunas acima identificadas e em complemento das já em vigor, parece útil adoptar as seguintes medidas de política:

·        Envolvimento do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) no combate ao analfabetismo pela formação de formadores, os Alfabetizadores (sobre cujas funções tratarei noutro texto);

·       Equiparação progressiva da formação profissional do IEFP ao ensino ministrado pelas vias profissionalizantes (antigas Escolas Técnicas);

·       Alargamento substantivo e geográfico das vias profissionalizantes equivalentes ao 12º ano;

·       Relançamento perene da Telescola;

·       Criação nos Institutos Politécnicos do ano Zero dando equivalência ao 12º ano e acesso aos cursos ministrados no mesmo Instituto;

·       Lançamento do ensino à distância nas Universidades Públicas como forma de entrada no mercado global e inerente medida da competitividade de cada Instituição.

Assim teremos ocasião de transformar o país da mão-de-obra medido pelo PIB numa Nação cérebro-de-obra medida em PNB.

 

Abril de 2026

Henrique Salles da Fonseca

 Comentários

 

 

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Os princípios e os fins


Farinha do mesmo saco. Humano. Exaustivo.

Lições de Budapeste

Meloni não ocupará o lugar de Orbán no movimento conservador internacional porque os dois modelos são fundamentalmente distintos, distinções que devem ser motivo de profunda reflexão à direita.

ANDRÉ AZEVEDO ALVES Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

OBSERVADOR, 29 abr. 2026, 00:21

14

Afinal, a Hungria não era uma ditadura. Depois de 16 anos de Orbán no poder, o Fidesz teve uma derrota eleitoral clara numa votação livre e justa. A transição democrática e pacífica do poder na Hungria deve ser acolhida como uma mudança saudável depois de um longo período de governação por parte de um partido e do seu líder – que naturalmente gera desgaste, cansaço e, claro, vícios. Há aliás paralelismos vários com o que aconteceu em Portugal com o PS e António Costa entre 2015 e 2024 (Costa que, curiosamente, mereceu o apoio de Orbán para Presidente do Conselho Europeu, apoio esse que foi negado por Georgia Meloni).

Os resultados das eleições na Hungria devem motivar muita reflexão, tanto para os críticos mais ferozes do regime húngaro como para a direita “iliberal” orbanita. Relativamente ao primeiro grupo, vale a pena salientar o que resumiu Eric Zemmour: “A derrota de Orbán não é nem uma derrota ideológica, nem uma derrota política. O seu rival vitorioso vem do mesmo partido. Ele não é nem de esquerda, nem centrista. (…) O futuro nos dirá se ele cumpre as suas promessas de campanha e se continuará a ser o defensor da soberania do seu país. Peter Magyar venceu opondo-se ao poder sobre o favoritismo e a corrupção. Mas ele confirma todas as posições de Orbán sobre a defesa da civilização europeia. Orbán certamente salvou o seu país da invasão migratória e dos delírios woke da Comissão Europeia. Após ser tratado como um ditador por todos os meios de comunicação ocidentais, ele deixa o poder após uma derrota nas urnas. Como um democrata.”

De facto, não só Magyar fez toda a sua formação e trajectória política no Fidesz (entre 2002 e 2024), partido de que foi um dos mais destacados quadros até sair em ruptura com Orbán, em 2024, como é razoável afirmar que corporiza a intenção de um retorno aos princípios ideológicos centrais do próprio Fidesz. A revolta dos eleitores húngaros foi motivada principalmente pela percepção de que Orbán traiu os princípios com base nos quais conquistou e manteve o poder – e não contra esses princípios em si mesmos.

A direita iliberal fã (demasiadas vezes acriticamente…) de Orbán tem por isso também fortes razões para reflectirComo bem sintetizou Gonçalo Nabeiro: “Orbán montou um regime – em democracia, é certo – iliberal (ou pós-liberal). Poderá parecer um oxímoro, mas a Hungria mostrou que é uma fórmula de poder que pode ser viável. Afinal, o Fidesz manteve-se no poder 16 anos através de eleições e, nas últimas legislativas que serviram como teste do algodão, abandonou-o tranquilamente. Com base nisto, é difícil de disputar que a Hungria é uma democracia. Mas é ao mesmo tempo iliberal porque dinamitou pilares sem os quais as democracias liberais colapsam: para além da colonização dos tribunais, colocando em risco o Estado de direito e a separação de poderes, o Fidesz colonizou também, seguindo a lógica gramsciana de hegemonia cultural, os media e a sociedade.

Orbán não perdeu, no essencial, a batalha das ideias na Hungria – ele perdeu a confiança dos eleitores húngaros pela forma como abusou do poder. Além da questão central da corrupção, as principais diferenças entre Magyar e Orbán situam-se no domínio da política externa. Embora céptico relativamente ao poder centralizado em Bruxelas, Magyar deseja normalizar as relações com a UE e, acima de tudo, quebrar com a percepção de uma subordinação humilhante de Budapeste a Putin.

É certo que, no que diz respeito à interferência externa na Hungria, a própria UE também não fica nada bem na fotografia. Perante a (uma vez mais…) lamentável postura de Ursula von der Leyen, é impossível não indagar em que posição ficará a Presidente da Comissão Europeia caso o Rassemblement National conquiste o poder em França. Mas a verdade é que JD Vance, enquanto Vice-Presidente dos EUA, não era certamente o melhor agente para denunciar essa interferência externa – como fez em actos de campanha do Fidesz em Budapeste.

A derrota de Orbán marca também a derrota de um dos principais modelos de conservadorismo na política europeia actual, como bem analisa Juan Ángel Soto. Esses dois modelos partilham vários elementos ideológicos comuns – a crítica ao progressismo e ao wokismo, a defesa de uma abordagem mais restritiva à imigração, a preocupação com temas demográficos, culturais e educacionais – mas divergem na abordagem estratégica e, frequentemente, na política externa.

O primeiro modelo teve inegavelmente em Viktor Orbán o seu principal mentor e protagonista. Curiosamente, partindo de uma posição firmemente liberal clássica, Orbán evoluiu (?) para principal arquitecto de uma direita assumidamente “iliberal” que optou por desafiar radicalmente o consenso ocidental até então dominante. Simultaneamente, Orbán dedicou recursos muito consideráveis à construção de uma vasta e bem financiada rede internacional de promoção da sua agenda identitária e iliberalcom considerável (mas talvez precário) sucesso. No plano externo, este modelo de conservadorismo é acima de tudo pragmático e aposta num novo mundo multipolar – o que justifica a interacção (e por vezes articulação) próxima com actores geopolíticos como a Rússia e a China (em linha com a estratégia desenvolvida pelo influente Balázs Orbán).

O segundo modelo encontra em Giorgia Meloni o seu principal expoente. Igualmente conservador e igualmente crítico de muitos aspectos do consenso dominante, este segundo modelo tem diferenças estratégicas profundas e fundamentais com o primeiro. Mais reformista do que revolucionário e sem rejeitar as instituições liberais no seu todoMeloni procura redefinir e reformar o sistema a partir de dentro, através de uma combinação de pressão e negociação. Um bom exemplo disso mesmo é a forma como Meloni está a conseguir liderar a reorientação da política europeia relativamente à imigração. Também na política externa o contraste é evidente: Meloni mantém-se firmemente alinhada com os interesses de longo prazo da aliança transatlântica, sem prejuízo da afirmação de uma autonomia estratégica relativamente a quem ocupa a Casa Branca – como ainda recentemente fez relativamente à guerra contra o Irão ou à polémica entre Trump e o Papa Leão XIV.

Meloni não será candidata a ocupar o lugar de Orbán no movimento conservador internacional precisamente porque os dois modelos são fundamentalmente distintos. Mas essas distinções devem ser elas próprias motivo de profunda reflexão à direita. Em especial para quem se sente tentado a achar que os (bons) fins justificam o recurso aos (maus) meios. Citando novamente a excelente análise de Gonçalo Nabeiro“E esta é a lição que os conservadores, europeus e americanos, devem retirar do legado de Orbán. O combate contra o Leviatã de Bruxelas e contra o wokismo deve ser visto como um meio para chegar ao objetivo final – um regime de liberdade ordenada – e não um fim em si mesmo. E para que a crítica conservadora à colonização progressista do Estado faça sentido e conduza a um mundo melhor e mais livre, os conservadores não devem transformar-se, quando têm acesso ao poder, num espelho da esquerda. (…) Porque, se assim for, andaremos todos à mercê de quem, em determinado momento, detém o poder; uns gostando mais, outros menos. E, com isso, acabamos por perder todos.”

Que não haja ilusões: são escolhas difíceis, especialmente em contextos nos quais a esquerda continua praticamente hegemónica culturalmente e na ocupação das instituições, mas a defesa sustentada e sustentável da liberdade ordenada não se compadece com atalhos “iliberais”, por mais tentadores que possam ser.

HUNGRIA        MUNDO 

 

COMENTÁRIOS (de 14)

José Tomás: Parece que o cronista alinha no consenso de que a esquerda (o "progresso) tem o direito à "hegemonia cultural, [d]os media e [d]a sociedade" (da academia aos tribunais), mesmo que seja copiosamente derrotada nas urnas pela direita (o "retrocesso"). Aceita que disputar-lhe esse direito é "iliberal". Tusk mandou a polícia evacuar a televisão pública, Magyar encerrou-a - e bem, pois eram meio de propaganda ideológica pagos por todos os contribuintes em benefício de alguns - mas o que se diria se um governo de direita fechasse a RTP ou a TVE? Não tenho dúvidas: seria a prova do regresso da censura e do fascismo. E o cronista concordaria, suponho.

Antonio Sennfelt: Um artigo perfeitamente dispensável por não dizer uma palavra sobre a cumplicidade (para ser simpático!) do Sr Orbán para com a Rússia do Sr. Putin! E muito menos da falta de decoro  (para ser simpático e para não falar em traição!) do seu então ministro dos negócios estrangeiros que sistematicamente passava dados confidenciais e secretos da UE para o Kremlin!  

Manuel Lisboa: A primeira ministra italiana tem demonstrado, desde 2022, ser, politicamente, bastante diferente que o (quase ex) homólogo húngaro. Talvez a sua atitude e propaganda antes de assumir a chefia do governo tivesse alguns dos ingredientes comuns a outros partidos nacionalistas e radicais de direita, europeus. Depois, a Itália, obviamente, não é a Hungria. E até ao momento o governo italiano tem evitado escândalos, designadamente casos ligados a corrupção ou a nepotismo evidente. Quanto à imigração, sem excessivo ruído, acalmou as chamadas percepções e, sobretudo, parece ter encontrado alternativas viáveis nas redondezas do território italiano.

Por outro lado, a líder italiana tem sabido de forma hábil manter relações com vários dirigentes de outros sectores políticos conhecidos pelas suas posições centristas ou tradicionalmente conservadoras. Internacionalmente, o actual governo de Roma, além de revelar distância saudável e higiénica  em relação a Moscovo, apoia Kiev; no âmbito da UE tem procurado agir de maneira discreta; não mostra pruridos no contexto da NATO; e, até recentemente, ia conseguindo fluidez no relacionamento com os EUA, apesar da irascibilidade do chefe da administração central de Washington. 

Desta forma, possivelmente, será o próximo primeiro ministro húngaro a imitar a astuta homóloga italiana.          

Paulo Machado: A esquerda não elegeu um único deputado, e a direita é que deve reflectir? Boa malha.

Manuel Magalhaes: A esquerda deve grande parte da sua erradamente considerada hegemonia cultural e ocupação das instituições,  sobretudo à nefasta influência de uma comunicação social mal preparada e desleal para com a sua própria profissão, que tudo fazem para para perverterem a opinião pública!!!

Kindu: Não é bem assim. Foi preciso uma enorme vaga de fundo popular para ultrapassar todos os obstáculos e haver alternância. Numa democracia a alternância deve ser normal, sem obstáculos, sem problemas.

José B Dias: Muito elucidativo o facto de nunca ninguém referir que também Angela Merkel esteve 16 anos no Poder ... e não recordo alguém a referir-se a tal como sinónimo de ditadura!

Francisco Almeida: Considerados isoladamente, nada a opor aos argumentos e conclusões do autor, Mas falhou o essencial. A Hungria estava dilacerada entre duas dependências antagónicas: energia russa e fundos de Bruxelas. E, antes da corrupção e da centralização de poder, foi certamente esse o principal motivo da clara escolha do eleitorado. Mais do que Magyar manter as promessas - vai ser curioso ter de se aproximar politicamente da ex-mulher e ex-ministra da justiça - estou curioso em ver como vai Bruxelas, assegurar ou tolerar o abastecimento energético da Hungria que, nem tem portos nem oleodutos alternativos.