Com optimismo. Apesar da guerra que a preclara Rússia concretizou, por aí, e que avança por quem a isso se adapta, para glória dos nossos tempos, numa Terra sempre fortalecida por gente corajosa e orgulhosa para marcar a História do seu século e do seu país, nos manuais que os meninos memorizam, desbobinando as batalhas da glória histórica.
40 anos depois, precisamos de mais Portugal na Europa
A História tem demonstrado que
é nos momentos de crise que a Europa encontra a janela de oportunidade para os
maiores avanços.
CARLOS COELHO Vice-Presidente
do PSD. Presidente da Direcção da Plataforma de Cidadania Nossa
Europa/Comissário Nacional das Comemorações dos 40 anos de Portugal na UE
OBSERVADOR, 25 mar.
2026, 00:13
A Europa vive uma crise múltipla e
complexa, 71 anos depois da assinatura do Tratado de Roma. A União e o projecto de integração enfrentam,
de facto, uma espécie de “policrise”, mas a História tem demonstrado que,
nestes momentos, em lugar de recuos no aprofundamento, demos passos – se não
saltos – em frente. Foi assim na crise da cadeira vazia e
o Compromisso do Luxemburgo, com a “Eurosclerose”
e os Pacotes Delors,
com as
reticências face ao Mercado Único, ao Euro ou aos alargamentos, que, entretanto, se tornaram realidade e,
mais recentemente, com a resposta à crise financeira e à pandemia como mais
à frente me permito sublinhar.
A guerra está nas nossas fronteiras,
com a insistência de Putin na invasão ilegal, injustificada e ilegítima da
Ucrânia; a
confiança mútua na Aliança Atlântica está longe do melhor momento, com a guerra
no Irão a afastar ainda mais o posicionamento norte-americano e europeu face ao
Direito e às Relações Internacionais; a transição dupla (verde e digital)
obriga-nos a repensar a forma como trabalhamos e produzimos, sobretudo com a
ascensão de soluções de inteligência artificial; a pressão migratória traz desafios demográficos, mas
sobretudo políticos, com o discurso extremista do ódio a ganhar espaço em
várias latitudes; a nossa economia demora a relançar a
sua competitividade, com um mercado interno que demora a estar plenamente
integrado; e, finalmente, a ascensão de movimentos populistas anti-europeus
obrigam-nos, a todos, de Bruxelas a cada uma das capitais, a comunicar e
explicar melhor a Europa.
Por outro lado, a História tem demonstrado que é nos momentos de crise
que a Europa encontra a janela de oportunidade para os maiores avanços. Respondemos
à crise financeira do final da primeira década com um quadro de governação
económica e de salvaguarda de sectores estratégicos que nos garantiu
estabilidade financeira. Ainda
assim, precisamos completar a União Bancária e fazer da União das Poupanças e
do Investimento uma realidade. Respondemos
à pandemia com solidariedade efectiva, particularmente relevante na
distribuição de vacinas, mas também na emissão de dívida pública europeia para
financiar os esforços de relançamento da economia e apoiar quem ficou sem
trabalho. Agora, temos o desafio de cumprir
prazos e reflectir sobre a mais-valia de tornar alguns mecanismos permanentes. E temos a
guerra e a nova dinâmica das relações transatlânticas (que segundo a estratégia
nacional de segurança dos EUA, não estão a viver o melhor momento), que nos
obriga a olhar para a União da Defesa como mais que um slogan. Felizmente,
estamos a dar passos concretos, mas ainda temos de fazer muito para garantir a
nossa autonomia estratégica.
Que desafios enfrentamos e que
respostas temos para dar? Em primeiro lugar, temos o desafio da Segurança e
Defesa, que ultrapassa a guerra perto das nossas fronteiras, num país que é
nosso vizinho, mas que queremos como parceiro e aliado: a Ucrânia. A crise
do multilateralismo (e da relação transatlântica) exige uma União da Defesa
efectiva, que continue a ter a NATO no centro, mas que crie uma capacidade
instalada europeia (através da cooperação dos Estados-Membros) que só
conseguimos alcançar com um Mercado Único da Defesa integrado e menos
fragmentação. Em segundo lugar, precisamos de relançar a competitividade da nossa
economia e há muito trabalho a fazer cá dentro: simplificação regulatória,
combate à burocracia, integração plena do mercado interno, mais harmonização
onde faz sentido e menos obrigações redundantes. E também
precisamos saber que o Mundo de 2026 é um Mundo de imprevisibilidade, onde a
Europa tem de se diferenciar pelo diálogo contra a agressividade, pela
cooperação contra o isolacionismo, pela confiança contra a instabilidade. A celebração de acordos com outros grandes espaços
económicos é central, como é o controlo efectivo dos serviços que são prestados
na Europa, sobretudo na área digital e das plataformas. Em terceiro
lugar, temos a dupla transição verde e
digital, que não é só um slogan: é uma megatendência que está a desenhar o
nosso presente (tanto ou mais que a moldar o nosso futuro). A Europa
não tem falta de talento, mas tem obstáculos à sua fixação e à atracção de quem
possa investir nesse talento. É nesse esforço que devemos estar empenhados
todos, de Bruxelas a cada uma das capitais europeias.
Ora,
se em cada crise que enfrentámos escolhemos mais Europa; se os europeus
respondem sistematicamente que querem mais Europa; e se a ascensão de alguns
dos movimentos populistas revela a desilusão com uma Europa que se devia fazer
mais presente; a solução afigura-se relativamente simples de identificar: mais Europa!
Portugal,
ao assinalar 40 anos de adesão,
é exemplo paradigmático de como a integração europeia pode transformar um país:
consolidou a Democracia, modernizou infraestruturas, abriu horizontes às novas
gerações. Mas a Europa não pode ser apenas um
projecto institucional, reservado a Cimeiras e regulamentos. Tem de ser um
projecto de cidadania, vivido nas escolas, nas empresas, nas autarquias, nas
nossas escolhas quotidianas. Renovar
o compromisso europeu é reconhecer que a nossa soberania é hoje partilhada para
ser mais eficaz. Na verdade, para ser verdadeira soberania.
O Mundo em que vivemos e os desafios
de 2026 não permitem hesitações prolongadas. Temos de ter a coragem de 1957,
com o Tratado de
Roma. A mesma coragem do alargamento a
Portugal, trinta anos depois. A Europa já demonstrou que sabe avançar
quando pressionada. A questão é se o fará por convicção estratégica ou apenas
por reacção. Portugal pode e deve estar no pelotão da frente na
exigência de mais Europa. Acredito que quer o Presidente Seguro, quer o
Primeiro-Ministro Montenegro partilham idêntica União Europeia