quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CONTINUAÇÂO

 

 

Do Texto anterior:  

de  JOSÉ MANUEL FERNANDES: “O que a Alemanha e a Suécia nos dizem sobre o “não é não”

in “COMENTÁRIOS

Fernando ce

Nem mais. O centro, direita e a esquerda moderadas, acham que sabem o que o povo quer e não o ouvem. Até os comentadores da imprensa escrita e TV, são quase todos de esquerda.  O Expresso virou à esquerda com esta última direcção, acabando por reduzir o número de leitores. Só assim percebo o contacto telefónico insistente que me fazem para voltar a assinar o referido semanário. Leitor assíduo durante dezenas de anos, deixei de o ler.

Como referiu JMF esses defensores da pureza democrática deviam “começar por ter respeito pelos eleitores e pelas suas inquietações. Quando em vez disso se prefere erguer dedos acusatórios, o feitiço acaba por virar-se contra os feiticeiros (que são muitos, infelizmente).”

Note-se que na Suécia hoje é consensual o endurecimento da política migratória, introduzida pela direita radical.

Jorge Espinha

A Alemanha tem mais de 80 milhões de habitantes. Se na Alemanha um milhão de entradas de chofre causaram problemas sociais e nas capacidades de resposta dos serviços públicos,  1 milhão de entradas em Portugal é refresco? Parece que é!

Filipe Batista

O novo jogo dos partidos de esquerda é acelerar a substituição demográfica para obter os votos que está a perder junto dos europeus nativos.

Se a substituição demográfica não parar, podemos dizer adeus a Portugal. Mesmo que Portugal continue a chamar-se  Portugal, não será mais Portugal.

Joao Cadete

Cheganos são uma criação do PS, é bem verdade, mas é pior... Cheganos são agora mais xuxas que os xuxas... é ver as suas propostas.

João Floriano >Jorge Espinha

Refresco de cicuta, certamente.

Observador  > Joao Cadete

João Cadete, tem toda a razão. Os cheganos estão, em muitas matérias, mais socialistas do que os próprios socialistas. Não é à toa que lhe roubam eleitorado.

É a lógica populista: agradar a todos, prometendo dinheiro a todos, e logo se vê quem paga.

O Chega viveu muito à boleia da imigração, mas, quando olhamos para algumas propostas económicas, encontramos coisas que até o PCP dificilmente defenderia, como equiparar a pensão mínima ao salário mínimo e, ao mesmo tempo, baixar a idade da reforma.

Prometer é fácil. Fazer as contas é que estraga o populismo.

Ana Luis da Silva

Já vem tarde a reflexão de JMF.

O “não é não” deixou de ser problema a partir do momento em que o CHEGA já ultrapassou o PSD nas intenções de voto.

Se o CHEGA ganhar, ou melhor, quando o CHEGA ganhar, qual vai ser mesmo a resposta do PSD a colaborar com o partido mais votado? Se não o fizer, o CHEGA dará uma razia nos poleiros dos sociais-democratas, se o fizer, será engolido por um partido que se comprometeu a colocar o país à frente dos interesses partidários…

Em que ficamos, caros laranjinhas?

Observador

As cercas sanitárias aos partidos populistas de extrema-direita não parecem estar a resultar. E não há nada como ter responsabilidades governativas para sofrer o desgaste da governação, é assim em todo o lado. Falar é fácil, resolver é outra coisa.

A direita portuguesa fez bem em não cair nessa lógica. O “não é não” de Montenegro nunca significou uma cerca sanitária como algumas mentes mais limitadas podem pensar, significava não haver Chega no Governo nem coligação governativa com o partido. Outra coisa é negociar, votar em conjunto ou chegar a entendimentos parlamentares quando existe convergência. Aliás, isso já aconteceu várias vezes.

Relembro, que foi a própria direita, contra a vontade da esquerda, que considerou, e bem, que o Chega tinha todo o direito a estar representado nos órgãos da Assembleia da República.

Portanto, convém não confundir, uma coisa é excluir o Chega do Governo, outra é fingir que os seus deputados não existem. Quando forem úteis, negoceia-se. Quando não forem, cada um segue o seu caminho. O resto é a democracia a funcionar.

Paulo Almeida

A Alemanha está num buraco. A Afd ganhou também porque o país está desfigurado.

Mais de 20% de imigrantes

Mais de 8% da população toda são muçulmanos.

Mas sobretudo, em 2015 cerca de 80% da população tinha Pais alemães. 10 anos depois já é cerca de 68%.

E como os muçulmanos têm tipicamente muitos filhos e todos eles seguem a religião dos Pais (que remédio), não é preciso nenhum génio matemático para perceber o que será a Alemanha daqui a uns anos.

Na recente eleição, as pessoas saíram em força de casa para dizer basta a este rumo. Podem ser pobres nesse Estado, mas sabem se calhar melhor que os ricos da Baviera avaliar a sociedade e para onde vai.

E sabem o que querem. Sabem que não têm opção de mudar de casa ou país facilmente. Lutam por uma identidade.

E se cá não fazemos o mesmo, vamos dar ao mesmo local.

Paulo Simões > Filipe Paes de Vasconcellos

Mas qual extremismo???!!! Denunciar e querer parar a colonização da Europa por exemplo é extremismo? Ou será apenas bom senso? A verdade incómoda é que a realidade se tem encarregado de provar que os partidos "extremistas" têm tido razão desde o inicio e que os moderados não passam de umas baratas tontas.

João Floriano:

Costuma-se dizer que vemos as nossas costas pelas costas dos vizinhos. Já repararam como as nossas costas são território praticamente desconhecido no mapa do nosso corpo, território esse que apenas vislumbramos ao espelho ou numa foto?  A política portuguesa devia prestar muita atenção ao que acontece à nossa volta. e sobretudo tirar conclusões. Fala-se sempre na radicalização de uma parte do espectro partidário, neste caso a direita, não  a mansinha, a fofinha, a frufru que tão querida é pela esquerda, porque não traz qualquer problema. É uma flor de plástico que compõe um ramo de flores. Ajuda a manter a ilusão de que a esquerda é democrática, quando geralmente só o é na medida em que não conte com oposição. Mas e a radicalização da esquerda e até do centro? Nunca se fala nela? A terceira lei de Newton ou Princípio da Ação e Reação diz o seguinte:

A toda a força de ação corresponde sempre uma força de reacção de igual intensidade, mesma direcção e sentido oposto.

Terá havido posição mais radical nos últimos tempos do que o NÃO É NÃO de Montenegro?  Então qual a admiração com o que estamos a observar na vida partidária portuguesa?

madalena colaço

Comentadores, jornalistas, especialistas, políticos... parece não quererem entender e saber as verdadeiras causas de partidos como a AfD terem a votação que tiveram. SOBERANIA, é o que estes partidos prometem à população, em que a Constituição de cada país está acima da dita constituição europeia. Numa Europa, que caminha a passos largos para uma Europa Federada, sem que o povo tenha sido chamado a pronunciar-se, em que tudo é imposto de Bruxelas, desde as leis sobre a imigração às regras desastrosas que impuseram aos agricultores, (curiosamente foi na Alemanha e não em França que os agricultores se revoltaram primeiro com a legislação europeia que os está a estrangular), à senhora Van der Leyen que aceita sem discutir as tarifas que o Trump lhe impõe, e é esta mesma senhora que decide quais os canais de televisão que pode mandar fechar, como a RT, para já não falar das mensagens com a Pfizer que se recusa a mostrar e que pôs o orçamento europeu com dívidas, é toda esta arrogância que vem de Bruxelas que os eleitores já não suportam.  Agora, a comissária, juntamente com Macron, querem retirar a soberania que cada país ainda tem nas suas forças armadas para o comando da Europa. É este dirigismo da política europeia que está a revoltar quem tradicionalmente votava nos países do centro. Lembro que em 2013, quando surgiu a AfD, achei o partido extremamente corajoso porque a sua máxima era saírem do euro para voltarem a ter a soberania monetária. Coragem, porque nesses idos anos de 2013, era a Alemanha que tirava uma enorme vantagem de estar no Euro. A depreciação desta moeda por causa da crise da dívida de muitos países do euro, beneficiou a Alemanha nas suas exportações. Com um euro muito barato beneficiava das exportações mas para o partido, o importante, era regressar à sua Soberania monetária.

Vitor Batista > Joao Cadete

Criações do ps foram bancarrotas e tachos para os membros do politburo xuxalista, de resto nunca fizeram m*rda nenhuma de jeito.

Maria Gomes

Em Portugal o caso do não é não particularmente incompreensível. Estávamos a ser governados por um PS cada vez mais próximo de partidos de matriz soviética ou marxista com uma influência desproporcionada em áreas estruturais, como a saúde, a educação, a ferrovia, transportes e educação e cujos resultados estão à vista. Todas estas áreas estão num estado calamitoso. Veja-se os resultados do Pisa.

Além disso, estamos reféns de uma administração pública desgovernada e que nos trata como um incómodo do qual se precisa de livrar.

A preocupação devia ser pôr termo a isto tudo independentemente de o Chega também não ser solução.

Infelizmente temos a CS que temos, os mensageiros da geringonça.

Quando apareceu, a IL parecia estar bem consciente do papel que podia desempenhar denunciando o estado do país. A CS fez um silêncio ruidoso à volta deste partido. Os ganhos que a IL teve conseguiu nas eleições onde teve oportunidade de ser ouvida. Entretanto mudou de estratégia, já é tolerada pela CS, mas deixou de ser credível.

Por muito paradoxal que seja, devemos ao Chega ter travado parte da irracionalidade com que éramos governados.

José Paulo Castro

Ainda não entendi porque a cerca se chama sanitária...

Não será o caso porque apenas se aplica a políticos? Principalmente aos que a definiram?

Os eleitores parecem imunes ou indiferentes.

João Floriano > Ruço Cascais

Adorei, adorei, adorei esta versão contemporânea da Branca de Neve e dos sete anões, embora não tenha percebido onde estão os anões porque o Dengoso já há bastante tempo que cresceu. Estes contos dos irmãos Grimm só aparentemente são para crianças. No fundo são para adultos. Repare só na falta de vergonhice do conto do Capuchinho Vermelho. Começa logo por ser um capuchinho vermelho, uma cor que diz muita coisa. Depois a CPCJ é muito descuidada com a situação da Capuchinho que é mandada sem supervisão parental levar a bucha à avó. O lobo é um pedó…fi…lo sem recuperação que só pensa em comer a Capuchinho. Depois ainda explora a avó, o que é um caso de maus tratos a idosos. Então agora que sabe que a velha vai ter um reforço de pensão anda doido. Entretanto os lenhadores apanham o lobo em flagrante e dão-lhe um enxerto dos valentes. A sorte do lobo é que a senhora do PAN mete um recurso por ser um lobo ibérico e ele safa-se com termo de identidade e residência. E aí o temos de novo, a perseguir a Capuchinho e a sacar o cartão da avozinha para satisfazer o vício.

Ruço Cascais

Não é Não, uma história dramática.

Tudo começou com a Branca de Neve e os seus sete anões. Um deles, o Dengoso, tinha a líbido muito desenvolvida, e sempre que apanhava a Branca sozinha de joelhos a lavar o chão tentava a sua sorte. Branca de Neve que não gostava de homens baixos, muito menos de anões, travava com autoridade as investidas de Dengoso e dizia-lhe repetidamente com austeridade: NÃO É NÃO!

Dengoso andava desesperado e triste. Um dia enquanto se aliviava na floresta, ouviu os planos da Bruxa Má e do Príncipe Encantado para endrominarem a Branca e a seduzirem.

Dengoso limpou-se rapidamente a umas folhas secas e correu a grande velocidade para a Branca de Neve, e ainda ofegante disse-lhe: - ouvi agora o Príncipe Encantado e a Bruxa da mãe a conspirar sobre ti. - O que é que eles disseram? Perguntou a Branca cheia de curiosidade e com as hormonas aos saltos. Dengoso sabendo que Branca era muito alcoviteira e não resistia a um segredo, aproveitou a situação e respondeu: - conto-te tudo, mas só se baixares as calcinhas. Branca respondeu-lhe mais uma vez: - NÃO É NÃO.

Branca (Montenegro) tramou-se. O Príncipe Encantado (Carneiro) e a Bruxa Má (Brilhante Dias) envenenaram Branca com uma maçã podre (Luís Neves) e Dengoso (Ventura) deixou de tentar seduzir Branca e passou a chamar-lhe nomes feios e continuou a aliviar-se sozinho na floresta.

O NÃO É NÃO faz o caminho. 🤪

Tim do A > Fernando ce

O "Expresso foi sempre um jornal de esquerda, mas agora a roçar a extrema- esquerda, como o Público.

Ricardo Ribeiro  > Jose Miguel Pereira

Você sabia quem seriam os ministros do governo da AD/Montenegro? Talvez o das finanças...

Zé Pagador

Os partidos que defendem as cercas sanitárias ainda não viram que as cercas o que fazer e limitar os próprio que as defendem. O não é não é um exemplo disto. PS2 podia ter acabado com o CH armou em parvo agora vai ser o CH que vai absorver o PS2 e o que sobrar vai se juntar ao PS.

Filipe Paes de Vasconcellos

Tem toda a razão no que escreve neste seu excelente artigo.

No entanto, entendo que as “cercas sanitárias” são, ao contrário do que muitas vezes se pensa, provocadas pelos próprios que, devido ao extremismo e até fanatismo das suas ideias e propostas levam a que esses partidos  sejam excluídos pelo “sistema “ em benefício próprio.

Tim do A > Filipe Batista

Isso mesmo.

Ricardo Ribeiro > João Cadete:

Ui, a criação de um fundo soberano para intervenção em empresas "estratégicas", a taxação de lucros extraordinários das petrolíferas e a dádiva de um bónus anual aos pensionistas entre outros exemplos, é ser socialista?...talvez!

Viragens

 

Há muito estabelecidas

O que a Alemanha e a Suécia nos dizem sobre o “não é não”

A "cerca sanitária" em redor da AfD não a enfraqueceu, pelo contrário. O mesmo sucede com o partido de Le Pen. Quando é que perceberão que essa política não defende a democracia, protege, é, a esquerda?

JOSÉ MANUEL FERNANDES

OBSERVADOR 16 set. 2026, 00:28

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O Estado da Saxónia-Anhalt é um dos mais pequenos e sobretudo um dos mais pobres da Alemanha, mas desde a semana passada que está no centro da política europeia. E talvez não nos enganemos se acrescentarmos que a vitória esmagadora da AfD – Alternative für Deutschland — está a ter um impacto que ultrapassa em muito as fronteiras do país.

Não admira. Primeiro, a AfD teve 43,8% dos votos, ultrapassando as previsões das sondagens e numa eleição altamente participada, mesmo a mais participada de sempre. Ou seja, mais do que duplicou a sua votação relativamente a 2021, quando obteve pouco mais de 20% dos votos. Ao mesmo tempo as sondagens indicam que, a nível nacional, o partido surge em primeiro lugar, bem à frente da CDU do actual chanceler, estando a duplicar ou quase duplicar as suas votações mesmo em eleições locais na antiga Alemanha Ocidental e em regiões ricas.

Depois, a AfD não é apenas um partido populista como tantos outrosé porventura o mais radical e extremista de todos os que têm tido sucesso eleitoral, defendendo o levantamento das sanções contra a Rússia, criticando o apoio à Ucrânia e querendo-a fora da União Europeia e, na política interna, exigindo políticas de remigração e sendo acusado de tentar normalizar o passado mais negro da Alemanha. O seu extremismo é tal que o grupo europeu que integra o partido de Marine Le Pen e o nosso Chega o expulsou antes das eleições de 2024 por o seu cabeça de lista ao Parlamento Europeu, Maximiliam Krah, ter considerado ser “errado” afirmar que todos os membros das SS eram “criminosos”.

Um sucesso com razões conhecidas

O mais extraordinário, porém, é que as razões do sucesso eleitoral da AfD são conhecidas. É conhecida a decadência económica da Alemanha. É conhecida a incapacidade de promover reformas que permitam o relançamento da economia. É conhecido o impacto negativo que tiveram algumas das medidas adoptadas no quadro da chamada “transição energética”. É sobretudo conhecido o mal-estar criado pelas recentes vagas migratórias.

O momento de viragem foi a decisão, em 2015, de Angela Merkel de abrir as portas do país aos refugiados da Síria – a frase “Wir schaffen das”, “podemos fazê-lo”, tornou-se mesmo icónica, o que levou à entrada em poucos meses de mais de um milhão de estrangeiros, com impactos enormes nos serviços públicos, sobretudo nas estruturas do Estado Social. E apesar de a maioria dos que chegaram se terem integrado, registou-se um aumento do extremismo, do antissemitismo e da criminalidade. Isso mesmo: da criminalidade. A Alemanha tem estatísticas e nelas os estrangeiros surgem sobre-representados na criminalidade: em 2023, por exemplo, 39% dos condenados não tinham passaporte alemão, uma proporção muito superior à sua presença no país.

Esta mudança demográfica foi o gatilho que levou ao rápido crescimento da AfD. Em 2013 o partido era pouco mais do que um grupo de economistas que se opunham ao euro e aos apoios à Grécia, mas isso durou pouco tempo. Em 2017, quando conseguiu eleger 94 deputados, a AfD já se tinha radicalizado, o que não obstou a que continuasse a crescer eleitoralmente, sendo que na última eleição, em 2025, chegou aos 152 deputados.

A regra do “cordão sanitário”

Durante todo este tempo a AfD foi sempre tratada como um pária pelos restantes partidos alemães. A regra sacrossanta foi a do “cordão sanitário”, uma regra que se manteve até quando o partido começou a ganhar eleições nos Länder da antiga Alemanha de Leste. Mesmo agora, quando ficou a apenas três mandatos da maioria absoluta na Saxónia-Anhalt, nenhum dos partidos tradicionais parece disposto a deixar que governe – apenas um outro partido populista, mas de extrema-esquerda, estará inclinado a abrir conversações.

O que nos leva a outro ponto, à política pura e dura: o que aconteceu não se deve apenas às dificuldades económicas da Alemanha ou à imigração é também uma consequência de escolhas feitas por Merkel que continuam a condicionar as opções da CDU, o grande partido cristão-democrata da direita alemã. Primeiro, o cinismo com que interpretou o princípio de que à direita da CDU não podia haver nada (até porque os tribunais o proibiriam), achando que tinha esse flanco protegido e que podia virar à esquerda. Enganou-se: a AfD acabou por provar que havia espaço à direita da CDU.

Ao mesmo tempo, ao definir a política do “cordão sanitário”, acreditou que podia isolar e secar a AfD, e aconteceu precisamente o contrário: o partido beneficiou de ser praticamente o único da oposição num tempo de sucessivos “blocos centrais” CDU-SPD, enquanto o seu isolamento acabou a impulsionar a sua radicalização, congresso após congresso.

A Alemanha confronta-se assim com o pior dos dilemas: como lidar com um partido que se desejou marginal mas que está em vias de se tornar o preferido dos eleitores? Se a estratégia da “cerca sanitária” não resultou, será que há alternativa? Para onde olhar uma vez que o mesmo pode estar em vias de acontecer em França, onde a União Nacional de Marine Le Pen já é regularmente o partido mais votado e a sua líder a favorita para ganhar as presidenciais de 2027?

E que tal olhar para a Suécia, a Finlândia, a Áustria, os Países Baixos?

Uma hipótese é olhar para a Suécia, onde houve eleições este domingo. Ainda não é claro que governo possa sair do novo parlamento (na altura em que escrevo nem sequer todos os votos estão contados), os sociais-democratas tiveram o seu pior resultado em 100 anos, mas mesmo assim podem voltar à chefia do executivo pois a coligação de centro-direita, cujo governo dependia do apoio parlamentar dos radicais dos Democratas da Suécia, perdeu a sua maioria precisamente porque esses radicais caíram eleitoralmente (o partido Moderado, o do primeiro-ministro, até subiu).

O que é que isto pode significar? Aquilo que muitos cientistas políticos têm colocado como hipótese: quando os partidos radicais são chamados a partilhar responsabilidades governativas, mesmo que só por via de apoios parlamentares, acabam por ser confrontados com os limites das suas propostas políticas e por experimentar o desgaste típico da governação em tempos difíceis. Em Portugal aconteceu com as esquerdas radicais trituradas pela geringonça, na Suécia pode ter acontecido com a sua direita radical.

Quando se olha para a experiência de outros países esta ideia parece confirmar-se. Na Áustria, o primeiro país onde um partido radical de direita chegou ao poder – o FPÖ de Jörg Haider –, a experiência de 2000-2002 foi catastrófica: caiu de 26,9% para 10%. Em 2017 voltou ao governo e voltou a cair, desta vez de 26% para 16,2%. Nos Países Baixos a experiência é mais recente, pois só em 2023 o PVV de Wilders chegou ao governo, mas este não durou muito e o partido caiu de 37 para 23 lugares no parlamento em 2025. A experiência finlandesa também não é muito diferente: o partido dos “verdadeiros finlandeses” foi eleitoralmente castigado depois da sua primeira experiência ministerial.

Alguns estudos académicos recentes – como este – parecem confirmar a hipótese de que a existência de “cordões sanitários” resulta por regra em governos menos predispostos a atender às inquietações dos partidos radicais, o que depois se traduz em melhores resultados eleitorais desses mesmos partidos. O que até faz sentido se formos às origens desta ideia de criar uma barreira – muitas vezes mais moral do que políticaentre os partidos da direita tradicional e os novos partidos populistas, ou radicais, de direita, sempre apresentados como fascistas, ou pós-fascistas, ou nazis, ou neonazis, ou racistas, ou o que quer que possa desconsiderá-los mesmo quando tais acusações fazem pouco sentido.

Mitterrand, esse supremo Maquiavel

Recordemos, pois, François Mitterrand, esse supremo Maquiavel, que ainda na década de 1980 viu na Frente Popular do pai Le Pen, e na construção de uma barreira entre esse partido e a direita republicana, uma forma de dar à esquerda mais hipóteses de se manter no poder ao impedir a direita de fazer aquilo que a esquerda conseguira precisamente da primeira vez que Mitterrand chegou ao Eliseu: unir-se no apoio a um só candidato.

A cerca sanitária, a que em França se chama pomposamente Frente Republicana”, foi permitindo à esquerda francesa estar mais tempo no poder do que resultaria da simples aritmética eleitoral e, ao mesmo tempo, foi sempre barrando o caminho do poder, e até do parlamento, aos apoiantes da direita nacionalista, mesmo quando esta crescia, crescia e crescia.

Não surpreende por isso que o nosso Chega tenha sido em boa parte uma criação dos socialistas, que inicialmente viram nele uma forma de limitar o crescimento da alternativa à sua direita e, depois, acreditaram que podiam mobilizar o eleitorado das esquerdas em nome da criação de “uma barreira ao Chega”. Em 2022 isso ainda permitiu a António Costa conquistar uma maioria absoluta, mas todos sabemos o que se seguiu: os escândalos da governação e o desconchavo da política migratória escancararam as portas a um André Ventura que, no Parlamento, tinha vindo a ser promovido por um Augusto Santos Silva de má memória.

Podia ter sido diferente? Claro que podia, mas o mal feito – em Portugal, em Espanha, na França, na Alemanha – é tão grande que começa a ser difícil reconstruir uma casa em ruínas. Há “cercas sanitárias” que, bem vistas as coisas, não só fizeram muito mal aos nossos regimes como nos distraíram do essencial, um essencial que devia começar por ter respeito pelos eleitores e pelas suas inquietações. Quando em vez disso se prefere erguer dedos acusatórios, o feitiço acaba por virar-se contra os feiticeiros (que são muitos, infelizmente).

Extremismo      Sociedade      Alemanha      Europa      Mundo      Partido      Chega      Política      Marine Le Pen      Frente Nacional      França

(CONTINUA)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

RISCOS

 

Da IA, nestes tempos de muita perspicácia natural.

China rejeita "Guerra Fria silenciosa da IA " com os EUA mas também teme "perda de controlo" da tecnologia

Pequim associa os pedidos de abrandamento na IA a uma “táctica da Guerra Fria” para atingir a China. Mas também já colocou o cenário de “perda de controlo” na lista de riscos.

CÁTIA ROCHA - Texto

OBSERVADOR,14 set. 2026, 20:37

Índice

Como é que o governo chinês vê os riscos da IA?

Empresários chineses da IA estão contra  afirmações de rivais dos EUA

Seria sequer possível um entendimento entre EUA e a China sobre a IA?

Estão em pólos opostos mas há pelo menos uma coisa em que a administração Trump e o governo chinês concordam: na rejeição aos pedidos de abrandamento nos avanços da inteligência artificial (IA).

“Está em curso uma conspiração doentia contra a IA e contra os centros de dados e a única parte que fica contente com isto é a China”, afirmou o Presidente dos EUA na Truth Social, esta segunda-feira. “Quem ganhar [a corrida para dominar] a IA vence”, afirmou. “O único controlo ou ‘salvaguardas’ de que a IA precisa é um Presidente forte e inteligente (com alto QI) e os EUA têm isso, ainda por cima”, escreveu Donald Trump, em reação às afirmações dos executivos da Anthropic, OpenAI e xAI feitas durante o fim de semana.

Na prática, foi uma repetição, já que este domingo Trump criticou as “forças negativas” que alertaram para o risco existencial da IA. Como, por exemplo, o ex-investigador da Anthropic, que na semana passada alertou o mundo para a possibilidade de a IA poder “matar-nos a todos até ao fim da década”. No aviso, Jacob Coxon também mencionou a China, afirmando que a Anthropic e a OpenAI não param por “medo” de que os EUA sejam ultrapassados por Pequim.

O alerta de Coxon foi feito na passada terça-feira, mas só esta segunda é que Pequim reagiu, através de um editorial no Global Times. Na publicação do jornal estatal, os avisos vindos dos EUA foram descritos como uma “táctica da Guerra Fria”.

“Esta ‘Guerra Fria silenciosa da IA’ é hipócrita e míope”, declarou o governo chinês. Para Pequim, excluir a China da inovação global em matéria de IA “aumentaria significativamente os custos de tentativa e erro e os riscos de perda de controlo no desenvolvimento global da IA”.

No sábado, Dario Amodei, o CEO da Anthropic, falou sobre um “grave perigo para os EUA e o mundo” se houver uma “vantagem chinesa na IA”. Defendeu, por isso, restrições à venda de chips de IA potentes à China e o combate à “destilação não autorizada” de modelos de IA. Num relatório de segurança recente, a Anthropic detectou actividades do género na Chinaa destilação é uma forma de desenvolver modelos a partir dos rivais, poupando tempo e dinheiro. “Se aplicarmos bem estas medidas, acredito que irão abrandar o progresso da China o suficiente para alargar significativamente a vantagem dos Estados Unidos nos próximos três a cinco anos”, disse Amodei.

Sem surpresas, a China não está de acordo com os pedidos de Amodei, que Trump acusou deestar a fingir ser um ‘anjinho perfeito'”. “É uma tentativa de travar o desenvolvimento de IA da China através de barreiras tecnológicas e monopólios regulatórios, manter a hegemonia monopolista de Washington no domínio da tecnologia de ponta e excluir a China do sistema global de governação da IA”, disse o governo chinês no editorial.

O desenvolvimento de IA foi tema da conferência de imprensa de Pequim esta segunda-feira. Citado pela Reuters, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Guo Jiakun, afirmou que “fomentar várias narrativas de ameaças, entrar em confronto e praticar uma concorrência desleal só irá perturbar o processo de governação global da inteligência artificial”, afirmando que tal “não é do interesse de nenhuma das partes”.

“Todas as partes devem colaborar para promover a IA de uma forma aberta, inclusiva, benéfica para todos e orientada para o bem comum.”

Como é que o governo chinês vê os riscos da IA?

Tal como outros pontos do globo, também a China reconhece que a IA é um campo de batalha no que toca à geopolítica. Num artigo publicado no China Cyberspace, gerido pelo regulador Administração do Ciberespaço da China, Chen Yixin, ministro da Segurança Estatal chinês, descreveu a IA como uma nova arena de rivalidade estratégica entre grandes poderes”, cita o South China Morning Post.

Chen destacou a necessidade de haver barreiras de segurança nesta tecnologia e referiu riscos como a possibilidade de a IA “ser usada por forças hostis” para gerar desinformação, por exemplo.

Pequim também coloca os riscos da IA na lista de ameaças

Em relação aos EUA, Chen avisou sobre os riscos dos modelos de última geração desenvolvidos por empresas norte-americanas, como a OpenAI ou a Anthropic. Defendeu que modelos como o Mythos (Anthropic) ou o GPT-5.5 (OpenAI) podem representar riscos para a infraestrutura crítica chinesa. Um alerta depois de vários casos de agentes de IA que se organizaram, sem intervenção ou pedido humano, para atacarem empresas. O episódio mais conhecido diz respeito ao ataque à Hugging Face.

Está longe de ser o primeiro alerta feito pelos reguladores chineses sobre os riscos da IA e do cenário de “perda de controlo”. A primeira vez em que a China falou sobre este risco foi em setembro de 2024, nota a Reuters, no guia da Administração do Ciberespaço da China.

O documento referia que não se podia excluir a possibilidade de que, no futuro, a IA pudesse “obter recursos externos de forma autónoma, replicar-se, desenvolver autoconsciência e procurar poder externo”, podendo até competir com os seres humanos pelo controlo.

Um ano depois, o alerta foi reforçado. Em setembro de 2025, foi incluído o cenário de risco sobre um “salto inesperado” significativo das capacidades da IA. E, diz a Reuters, também foi feita referência a um cenário possível de uma “IA fugir do controlo”um fenómeno que vai ao encontro da ‘IA rebelde’ dos ataques feitos por agentes de forma autónoma.

A IA também já entrou nas mensagens políticas do Presidente chinês. Numa conferência em Xangai, em julho, dedicada à IA, Xi Jinping sublinhou que as autoridades devem aproveitar a “oportunidade históricada IA, mas com um alerta para a possibilidade de a tecnologia gerar “novas injustiças históricas”. Nessa ocasião, vincou ainda que a IA “deve permanecer sempre sob controlo humano”.

Empresários chineses da IA estão contra afirmações de rivais dos EUA

Uma das grandes questões sobre o abrandamento na IA é se as empresas da área estão dispostas a chegar a um acordo para pôr o pé no travão. Para já, os líderes da Anthropic, OpenAI e da XAI mostraram disponibilidade para isso. Também Satya Nadella, da Microsoft, uma das primeiras investidoras da OpenAI, declarou que “se a IA que criamos não estiver a ajudar a humanidade e não estiver sob controlo humano, não vale a pena prosseguir com o projecto”.

Há um significado particular em ter os principais players que estão a desenvolver os modelos de fronteira a fazer este tipo de compromisso”, disse à Bloomberg Micah Hill-Smith, cofundador e CEO da empresa Artificial Analysis, que se dedica a estudar o mercado da IA. “Espero que haja mais concorrentes a juntarem-se, mas é relevante que vários players tenham assumido o compromisso este fim de semana.”

Mas também reconheceu que a corrida para liderar a IA “é mais competitiva agora do que em qualquer outro ponto da história”, notando que há muitas mais empresas em campo. Incluindo na China, onde existem gigantes como a Alibaba, Tencent, Baidu ou, mais recentemente, nomes como a DeepSeek ou a Moonshot.

Na China, os apelos dos rivais norte-americanos foram recebidos com cepticismo, nota o jornal South China Morning Post.Quem já dispõe de recursos pode dar-se ao luxo de fazer uma pausa. Quem ainda está a construir a sua carreira não pode”, afirmou o investigador Zhang Xuanming, que trabalha para a Alibaba, que é dona do jornal chinês.

“Quando tentamos acelerar, dizem-nos para abrandar? OMG… [oh meu Deus]”, comentou no X Lin Junyang, investigador que também já esteve ligado ao desenvolvimento dos modelos Qwen, da Alibaba. Pediu ainda aos executivos dos EUA para “pararem de fingir”.

Já Ronny He, engenheiro da MiniMax, outra empresa chinesa em destaque na IA, criticou a alteração de prioridades. “Ontem, a missão era a AGI [IA geral, que em teoria ultrapassará as capacidades humanas]. Hoje, dizem-nos para abrandar. Porque é que são sempre eles a definir o jogo – e a mudar as regras”, questionou.

É expectável que a IA seja um dos temas do encontro entre Xi Jinping e Donald Trump. Segundo o jornal South China Morning Post, tanto a China como os EUA estarão interessados em colocar o tema nos tópicos de discussão da reunião da próxima semana na Casa Branca.

Só que, para os especialistas que seguem de perto a relação entre China e os EUA, um entendimento entre os dois pólos no que toca à IA é “quase impossível”. “No âmbito dos interesses fundamentais de segurança nacional de cada Estado, é muito, muito improvável que haja cooperação no sentido de avançar de forma mais gradual e segura no que diz respeito à IA”, disse à BBC Chang Jun Yan, professor assistente da Escola de Estudos Internacionais Rajaratnam, de Singapura.

Ainda assim, o facto de haver algum ponto de encontro entre os riscos de fronteira pode ser um sinal positivo, destacou Kenton Thibaut, investigadora sénior residente especializada na China no Atlantic Council, numa nota recente. “Há sinais claros de que Washington e Pequim partilham uma compreensão comum dos riscos de fronteira.”

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