domingo, 15 de março de 2026

Sem tréguas


E sem piedade. Digo, naturalmente, o sentido do humor de AG, de uma acuidade crítica ímpar, na análise dos esgares assumidamente sérios de Seguro, dadas as suas novas – e nobres – responsabilidades de encaminhamento de uma nação, por pequena que seja.

 

Caídos no chão comum: o Facebook do presidente Seguro

O dr. Seguro pertence à vasta escola de políticos que, na escassez de substância, trocam as ideias que não possuem por vocábulos soltos e clichés desavergonhados.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR,14 mar. 2026, 00:24140

 “Ao contrário de Marcelo, Seguro usa redes sociais para comunicar enquanto presidente”, informa o Público com provável entusiasmo. E depois desenvolve: “Nos últimos dias, o Presidente [a maiúscula é deles] tem recorrido às suas contas no Instagram, TikTok e Facebook (…) para divulgar a agenda presidencial, publicar vídeos e fotografias das visitas oficiais e partilhar momentos de contacto com a população.”

Em princípio, tudo o que seja o “contrário” do prof. Marcelo é bom. O problema surge quando percebemos o significado de “comunicar” para o Público e, pior, para o dr. Seguro. Não investiguei a conta de Sua Excelência no Instagram, cuja mecânica ignoro, nem no TikTok, que nem sei bem o que é. Mas fui à página dele no Facebook. E estou aqui para testemunhar. Ou, como se diz na Internet, se eu vi vocês também têm de ver.

Segunda-feira, 9 de Março (após a tomada de posse)

“Assumo hoje, perante vós e perante o povo português, a honra e a responsabilidade de servir Portugal como Presidente da República. Saúdo todos os portugueses. Fico eternamente agradecido pela confiança que depositaram em mim para vos servir como Presidente: Presidente de Portugal inteiro e Presidente de todos os portugueses, vivam em Portugal ou no estrangeiro.”

A estreia do novo PR é ambígua. Por um lado, num texto pequenino farta-se de repetir palavras (Portugal, portugueses, Presidente – sim, ele é igualmente dado às maiúsculas) e a sugestão de que é nosso serviçal. Em compensação, não recorre ao medonho truque do “portuguesas e portugueses”, o que é um sinal de esperança.

Segunda-feira, 9 de Março (convívio com “populares” [?])

“Que alegria ver estes jardins cheios de vida, de sorrisos e de boa disposição. Uma Presidência próxima e com as portas abertas às pessoas. Vamos repetir estes momentos muitas vezes.”

Mau! As maiúsculas alastram à própria “Presidência”. Por azar, o esforço de solenidade contrasta com o resto, que parece genuína e comoventemente escrito por uma criança. Começa a impor-se a impressão de que o presidente, perdão, Presidente Seguro não é dado a reflexões excessivamente profundas.

Segunda-feira, 9 de Março (imagem com a família)

“Trago-vos uma palavra de esperança. Acreditem em Portugal. Na minha visão de Portugal, todos contam e cada um tem um papel a desempenhar. É urgente recuperarmos o sentido de comunidade e restaurar o nosso chão comum que nos permite viver em harmonia uns com os outros. Onde cada geração acrescente qualidade de vida à geração dos seus pais.”

Avisei há pouco para a profundidade das reflexões. Agora faço notar a frontalidade: o dr. Seguro está falar especificamente de quê? Da pobreza? Da insegurança? Da desigualdade? Do medo? Da imigração? Dos independentistas açorianos? Cada frase vem recheada de uma indulgência tão genérica que se torna aplicável a tudo, o que é o mesmo que não se aplicar a nada.

Segunda-feira, 9 de Março (confraternização com “jovens”)

“A minha geração via o futuro como uma avenida larga. Muitos jovens hoje sentem que têm pela frente uma rua estreita. Isso não pode ser o destino do nosso país. Quero construir uma verdadeira coligação com os jovens. Uma parceria aberta, onde possamos ouvir mais, recolher ideias e pensar juntos o país que queremos para os próximos anos. Portugal tem recursos e tem talento. Mas, acima de tudo, tem a capacidade de definir o seu futuro.”

Ai, ai. A referência ao “chão comum” do “post” anterior já indiciava uma tendência preocupante para o lirismo dos pacotinhos de açúcar. As ruas e as avenidas deste “post” confirmam os maiores receios. A parte divertida é a mistura dos arremedos “poéticos” com a língua de pau da baixa política: a “rua estreita” desagua sem pausa nem escrúpulos em “coligações” e “parcerias” (“abertas”, para distinguir das fechadas). Quanto ao conteúdo, parece que o dr. Seguro tenciona “pensar o país” com a miudagem. Não fica esclarecido como é que isso funcionará, mas os resultados prometem. Acrescento que, já na geração do dr. Seguro, a avenida era bastante mais larga para quem se enfiava cedo nas juventudes partidárias.

Terça-feira, 10 de Março (na aldeia de Mourísia)

“A Mourísia precisa – e o interior exige – de respostas da política. Sobretudo quando se fazem promessas de apoio, é importante que as promessas sejam concretizadas.”

O dr. Seguro promete fazer com que se “concretizem” as promessas. Veremos como estará Mourísia – e o interior – daqui a 5 anos. Ou não veremos, porque não nos lembraremos de tal coisa. Louva-se a brevidade do “post” e a ausência de metáforas.

Terça-feira, 10 de Março (em Guimarães)

“A geração que aqui fundou Portugal lutou pela independência, pela liberdade e pela afirmação de um povo. A nossa geração enfrenta outro desafio, proteger o planeta, responder às alterações climáticas e garantir às novas gerações um futuro sustentável. Guimarães mostra que esse caminho é possível.”

O facto de o dr. Seguro achar que uma guerra pela autonomia dinástica visou a “libertação de um povo” é revelador de dois ou três pormenores, e nenhum abona em favor de Sua Excelência. Saltar daí para as “alterações climáticas” é uma proeza ainda mais espantosa. Se compreendi bem, e de certeza que não, o caso de um fidalgo que bateu na mãe há 900 anos serve de exemplo aos que hoje combatem o degelo dos pólos. Anoto ainda a cautelosa falta de referências às acções de D. Afonso na expulsão dos árabes, que pelos vistos não serve de exemplo à nossa geração.

Terça-feira, 10 de Março (na Casa da Música, no Porto)

“Iluminada no exterior com as cores nacionais; aquecida no interior com os corações dos portuenses; alegrada pela dança e pela música de artistas de excelência; marcada, pelo longo aplauso, em pé. de todas as pessoas que encheram a sala principal; cantada pelo hino nacional à capela. Que noite. Muito obrigado à cidade Invicta.”

Não comento a pontuação, excepto para dizer que é moderna. Quanto ao texto em geral, julgo que já o lera algures: em quatrocentos sites autárquicos, a descrever “certames patentes” nas respectivas “localidades”. Muito bonito, escusado acrescentar.

Quarta-feira, 11 de Março (regresso, julgo que apenas virtual, a Guimarães)

“Ao ser reconhecida como Capital Verde Europeia 2026, Guimarães afirma algo profundamente português. A capacidade de honrar o passado sem deixar de construir o amanhã.”

Estou sem palavras. Infelizmente, o dr. Seguro não está.

Quarta-feira, 11 de Março (talvez em Guimarães, a cronologia desta página de FB é caótica)

“As alterações climáticas, que infelizmente têm devastado Portugal, precisam de ser combatidas. E uma das necessidades que temos é que cada um perceba que tem uma responsabilidade individual, para além de assumir essa responsabilidade colectiva.”

O que devastou algumas regiões de Portugal foram os ventos e a chuva, ou seja o clima. Não foram as “alterações climáticas”. A influência do eng. Guterres, mentor do dr. Seguro, prepara-se para marcar (ia escrever “manchar”) a presidência, caramba, a Presidência do homem. Na obsessão com a meteorologia e na propensão para o vácuo, donde afinal é viável nascer. Não tarda, dedica-se a discorrer acerca de Gaza.

Quarta-feira, 11 de Março (outra vez na câmara do Porto: uma página tão novinha e já tão desorientada)

“O Porto é uma afirmação de carácter, uma forma de estar na história e no mundo. Neste nosso Porto, permitam-me assim, nosso Porto, cidade de pedra firme e coração aberto, cruzam-se tempos, povos e vontades.”

Há mais banalidades sem sentido neste “post” do que letras. Não é fácil produzir um parágrafo assim. Mas comprova-se que não é impossível. O dr. Seguro pertence à vasta escola de políticos que, na escassez de substância, trocam as ideias que não possuem por vocábulos soltos e clichés desavergonhados. A habilidade funciona para quem dispuser de idêntico, digamos, quadro mental. O que Sua Excelência diz sobre o Porto poderia ser dito sem prejuízo ou abalo sobre qualquer cidade de Portugal, quiçá do mundo. E este é o melhor teste à nulidade de um discurso.

A julgar pela amostra, há pelo menos uma promessa que o dr. Seguro vai “concretizar”: um mandato repleto de palavreado oco. Ou dois mandatos, pois tudo indica que, apesar de não prometer despir-se em público, será um presidente popular. Desculpem: um Presidente Popular.

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Alertas activos

ANTÓNIO JOSÉ SEGURO      PS      POLÍTICA

 

COMENTÁRIOS (de 140)

Ricardo Gonçalves: Este cronista é só o melhor cronista português. Vale a assinatura. Por vezes, parece que me rouba os pensamentos. Quem me dera ter um por cento do talento deste escriba. Por outro lado, fiquei a saber que o Seguro tem Tique-toque. Que infantil. Ridículo.                     Miguel Sanches: Já faltava uma crónica para começar o sábado a soltar gargalhadas. Muito bom. O senhor de Belém é mesmo a vacuidade que se previa.             ana rita: É sempre bom não esquecer que 66% dos portugueses votaram e se identificam com esta parolice. Afinal os "portugueses" (a grande maioria) são isto.              Albino Mendes: Elogio a coragem do Alberto Gonçalves, ao ir consultar a previsível "conversa para boi dormir" do dr. Seguro, no fb. Confesso que eu não tenho tamanha coragem. Mais um grande trabalho do Alberto Gonçalves 👍                     José Paulo Castro: A única questão é se o Dr. Seguro combina bem com as cortinas do Palácio de Belém. Combina ? Então, os discursos também. Ninguém esperava mais: é um adereço do regime.                   Tim do A: A via larga que a geração de Seguro via era o governo de Cavaco. A via estreita que a actual geração vê, foi o produto dos governos socialistas de Costa. 

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sábado, 14 de março de 2026

Alerta

 

Um susto, estes tempos nossos, de gozo e apatia relativamente ao mundo a que se sujeita. Por quanto tempo mais?

 

Não é o fim, mas pode ser o princípio do fim

No Reino Unido, criticar o Islão pode agora ser crime. Voltaire teve esta semana a sua maior derrota num país ocidental. Talvez só Trump o possa salvar

RUI RAMOS Colunista do Observador

OBSERVADOR, 13 mar. 2026, 00:25112

Para muita gente, o que está em causa no Irão é apenas a presidência de Donald Trump num ano de eleições legislativas intercalares nos EUA. Os inimigos de Trump, com esperança, mas também alguns dos seus partidários, com apreensão, encaram a guerra como um erro fatal. Por isso, só conseguem ver como os mullahs podem vencer. Por exemplo, prolongando e alargando a guerra, de maneira a provocar uma crise económica que os eleitores de Trump não lhe perdoarão.

É possível que isto aconteça? É. O Irão vive sob uma ditadura apocalíptica que, como o Hamas em Gaza, não terá problemas em sujeitar o país a todas as destruições, à espera que Trump se inquiete com os custos da guerra e desista, ou que os Democratas, vitoriosos nas eleições de Novembro, o obriguem a desistir. Mas tem de ser assim? Não tem. O objectivo dos EUA e de Israel é acabar com o Irão como fonte de ataques de mísseis e de terroristas. Isso pode ser obtido mudando o regime, ou privando-o de meios. Não é impossível. A população iraniana, como se viu em Janeiro, ressente a ditadura de um clero que vê como arabizado. O Irão está sem defesa aérea, o que tem permitido a americanos e israelitas destruir os seus recursos militares sistematicamente. Isolou-se, ao atacar os países vizinhos e bloquear o estreito de Ormuz. Nem a China e a Rússia impediram que fosse condenado no conselho de segurança da ONU.

Trump pode perder, mas também pode ganhar. Porque é que tão pouca gente admite isso? Por duas razões. Primeiro, porque os críticos da economia de mercado e da democracia liberal criaram no Ocidente uma cultura de derrotismo que contrabalança a sua superioridade tecnológica e financeira. Assenta na ideia de que, por mais recursos que o Ocidente tenha, falta-lhe força moral, por exercer uma “opressão” capitalista sobre o mundo. Os “oprimidos” estariam destinados a vencer. Segundo, porque os políticos ocidentais estão habituados a permitir-se tudo, inclusive usar derrotas no exterior para marcarem pontos uns contra os outros nas suas lutas domésticas. Como neste caso: o que interessa é que Trump vá abaixo, e por isso não importa que os mullahs ganhem.

Importa, sim. Essa nonchalance fazia sentido quando o Ocidente era tão predominante que nenhum revés podia abalar esse domínio. Já não é assim. Há outras potências a emergir no mundo. O Ocidente acolheu muitas populações vindas do exterior, e a sua assimilação depende também da força que for capaz de demonstrar. Uma vitória do Irão seria aproveitada pelos radicais islâmicos para assinalar aos muçulmanos no Ocidente que não têm de se integrar em sociedades afinal decadentes, mas subvertê-las. Foi o que já começaram a conseguir no Reino Unido, ao obterem, a pretexto da “islamofobia” e portanto só a favor do Islão, uma potencial proibição da blasfémia. Voltaire teve esta semana a sua maior derrota num país ocidental. Talvez só Trump o possa salvar.

A guerra com o Irão vai definir o resto do século XXI. Uma vitória dos EUA e de Israel confirmará a supremacia do Ocidente e dos seus valores, e uma vitória da ditadura clerical iraniana o seu declínio. Pode não ser o fim, mas talvez seja o princípio do fim. Terá o Ocidente força moral e histórica para lutar e vencer?  É verdade que a civilização ocidental é apenas uma entre outras civilizações. Não quer dizer que não devamos defendê-la como aquilo que valorizamos e nos define. Também é verdade que nenhuma civilização durou sempre, e a das democracias ocidentais talvez acabe um dia. Não quer dizer que não devamos fazer todos os esforços para prolongar o que tem sido e ainda é um dos grandes momentos da humanidade. Temos esse direito – e esse dever.

IRÃO      MÉDIO ORIENTE      MUNDO      DONALD TRUMP      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA      OCIDENTE

 

Historiando

 

Sobre um passado bem pensado, de glórias nacionais causando admiração.

O domínio de Ormuz: a lição estratégica que Portugal deu ao Mundo

A história portuguesa em Ormuz não foi apenas um episódio de expansão marítima. Foi uma demonstração precoce de pensamento estratégico global.

NUNO NABAIS FREIRE Jurista

OBSERVADOR, 12 mar. 2026, 00:032

 

Há mais de quinhentos anos, os portugueses compreenderam algo que a geopolítica contemporânea continua a confirmar, quem controla os estreitos controla o comércio, e quem controla o comércio molda o poder global.

Muito antes de o petróleo transformar o Golfo Pérsico num dos centros nervosos da economia mundial, o Estreito de Ormuz já era um ponto de passagem vital. Por ali transitava um comércio vibrante de cavalos árabes, pérolas do Golfo e mercadorias vindas da Índia e da Pérsia. Era uma porta marítima que ligava o oceano Índico ao coração do Médio Oriente.

AFONSO DE ALBUQUERQUE percebeu isso com uma clareza estratégica extraordinária para o seu tempo. Na arquitectura do império português na Ásia, Ormuz não era apenas mais uma cidade. Era aquilo que o próprio chamou de a “terceira chave” “do sistema imperial”, ao lado de Goa e Malaca.

Se Goa garantia o domínio político e militar na Índia e Malaca controlava a passagem para o sudeste asiático, Ormuz fechava o triângulo que permitia vigiar o Golfo Pérsico e as rotas comerciais que ligavam a Índia à Pérsia e ao mundo árabe.

A primeira tentativa portuguesa de controlar Ormuz ocorreu em 1507. Albuquerque surgiu diante da cidade com uma frota surpreendentemente pequena, apenas sete navios e cerca de quinhentos homens. Mesmo assim, conseguiu impor ao soberano local um tratado que o obrigava a pagar tributo anual ao rei de Portugal.

Pouco depois iniciou a construção de uma fortaleza, Nossa Senhora da Vitória, destinada a consolidar a presença portuguesa.

Mas a história raramente se faz sem turbulência.

Nesse mesmo ano ocorreu o chamado “Motim dos Capitães”, um episódio de insubordinação em que três capitães abandonaram Albuquerque, interrompendo o projecto e obrigando os portugueses a retirar temporariamente da cidade.

A derrota foi apenas momentânea.

Em março de 1515, Albuquerque regressou com uma força muito maior, vinte e sete navios, cerca de mil e quinhentos soldados portugueses e setecentos auxiliares malabares. A 1 de abril retomou o controlo da cidade e reiniciou a construção da fortaleza, desta vez dedicada a “Nossa Senhora da Conceição”.

Com esse gesto consolidou-se o domínio português sobre um dos pontos mais estratégicos do comércio global.

COMENTÁRIOS:

João Floriano: Um passado glorioso, um presente cinzento e macambúzio. E ainda por cima, muitos esforçam-se para reescrever o passado glorioso e não é certamente para o tornar ainda mais brilhante, mas para nos lançar culpas imaginárias nos ombros. Lembro no entanto que apesar de a estratégia ser brilhante por parte dos portugueses, já muito antes, 480 anos antes de Cristo, os espartanos tinham aplicado o mesmo modus operandi na batalha das Termópilas contra os persas. E Esparta teria vencido  se não tivessem sido atraiçoados.

 

Manuel Matos: Este texto devia ser lido nas escolas a propósito da actualidade....

 

Durante décadas, Ormuz funcionaria como uma verdadeira válvula de controlo das rotas do Golfo Pérsico.

O que impressiona hoje não é apenas o feito militar, mas a visão estratégica que o sustentava.

Sem satélites, sem mapas modernos, sem teorias geopolíticas formais, os portugueses do século XVI compreenderam intuitivamente aquilo que estrategas contemporâneos continuam a repetir, o poder marítimo depende do controlo de “pontos de estrangulamento”.

Ormuz era um desses pontos.

Tal como hoje o são o estreito de Malaca, o canal de Suez ou o estreito de Bab el-Mandeb.

Se olharmos para o mapa atual da energia mundial, percebemos que o Estreito de Ormuz continua a ser uma das artérias mais sensíveis do planeta. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa por aquele corredor marítimo.

Ou seja, aquilo que para Albuquerque era uma chave do comércio asiático continua a ser, cinco séculos depois, uma chave da economia global.

A história portuguesa em Ormuz não foi apenas um episódio de expansão marítima. Foi uma demonstração precoce de pensamento estratégico global.

Portugal, um pequeno reino europeu na periferia do continente, percebeu antes de muitos outros que o mundo moderno seria definido pelo domínio das rotas marítimas.

Não se tratava apenas de explorar mares desconhecidos.

Tratava-se de compreender o mapa do poder.

E nesse mapa, Ormuz era uma peça central.

Cinco séculos depois, o mundo continua a girar em torno das mesmas passagens estreitas que ligam oceanos, economias e civilizações.

Talvez a verdadeira lição de Ormuz seja esta, a geografia muda pouco, mas quem a compreende primeiro costuma escrever a história.

HISTÓRIA      CULTURA      GEOPOLÍTICA      MUNDO

COMENTÁRIOS:

João Floriano: Um passado glorioso, um presente cinzento e macambúzio. E ainda por cima , muitos esforçam-se para reescrever o passado glorioso e não é certamente para o tornar ainda mais brilhante, mas para nos lançar culpas imaginárias nos ombros. Lembro no entanto que apesar de a estratégia ser brilhante por parte dos portugueses, já muito antes, 480 anos antes de Cristo, os espartanos tinham aplicado o mesmo modus operandi na batalha das Termópilas contra os persas. E Esparta teria vencido  se não tivessem sido atraiçoados.

Manuel Matos: Este texto devia ser lido nas escolas a propósito da actualidade....