Viver em paz, em suma, desde
que sejamos acompanhados dos meios antipacifistas, necessários para induzir a
essa…
Uma Europa livre sem armas não trará a paz
A história ensina muito,
mas não dá respostas simples. Uma das coisas que mostra é que pensar que se
pode viver sem riscos ou defender a liberdade sem armas nunca foi realista.
BRUNO CARDOSO REIS Historiador e especialista em segurança internacional
OBSERVADOR, 19 out. 2026, 00:23
Os europeus ocidentais
desabituaram-se da guerra. Em certo sentido é normal: vivemos, desde 1945, sem
grandes guerras convencionais na Europa Ocidental. O problema é que nos
convencemos de que a paz é natural, não tem custos, não exige meios de defesa e
dissuasão de ameaças. Um texto de opinião recente ajuda a ilustrar o ponto a
que chegou o nosso desarmamento intelectual e os disparates a que isso conduz.
Vão combater, malandros
Há um sofisma muito popular
nas redes sociais: o de que só tem legitimidade para analisar e defender algum
envolvimento num conflito armado quem estiver no terreno a combater. Lamento
desapontar os muitos anónimos das redes, mas não preciso da licença deles para
analisar ou opinar sobre guerras. Tirei essa licença quando me doutorei em
estudos de guerra pelo King’s College. A ideia de que só um combatente pode
analisar guerras apenas faz sentido para quem desconhece o básico desse tipo de
estudo. Teremos de parar de escrever sobre a eficácia de desembarques anfíbios
na Segunda Guerra Mundial porque não temos uma máquina do tempo para ir
combater na Normandia? No presente, existem 66 conflitos armados em todo o
mundo; temos de combater em todos eles, e ao lado de que beligerante? Esta
espécie de machismo analítico – “não és homem para ires lá dar uns tiros” – é
especialmente risível porque estes autonomeados especialistas naturalmente não
praticam o que defendem. Uma variante que pode parecer mais razoável deste
argumento é a ideia de que quem defende algum tipo de apoio a um país invadido
devia ir lá combater. No entanto, seguindo a mesma lógica, se defendermos a
ajuda ao combate aos incêndios em Espanha, às vítimas das cheias em Moçambique
ou do Ébola no Quénia – situações que envolvem algum risco de vida – em vez de
mandarmos bombeiros ou médicos qualificados, deveríamos ir em pessoa? Ridículo.
Os nossos filhos não
O cronista citado mostra-se
muito preocupado com a falta de rigor alheio. É verdade que é preciso cuidado
com a desinformação e a propaganda numa guerra. Resolve então apostar num
processo de intenções abusivo, numa manipulação grosseira, ou, na demonstração
superpoderes psíquicos na leitura de mentes alheias. Afirma que o verdadeiro
objectivo dos analistas ou governos que defendem que a Europa tem de se rearmar
e ajudar a Ucrânia a defender-se é preparar o terreno para arrancar os jovens
europeus dos seus lares pacíficos – com base num serviço militar obrigatório
que nem sequer existe na maioria dos países – para os forçar a ir combater na
frente ucraniana.
A ideia de que enviar armas e
dinheiro para a Ucrânia conduz inevitavelmente ao envio de tropas é desmentida
pelos últimos cinco anos e pela história. Temos centenas de conflitos desde
1945 em que um dos lados foi armado por potências externas sem envolvimento de
tropas próprias. Mais, na maioria dos casos em que forças expedicionárias foram
enviadas, tratou-se de tropas profissionais, de soldados voluntários. Os EUA no
Vietname e a União Soviética no Afeganistão são excepções, tal como as guerras
coloniais tardias, mas tornaram-se casos exemplares do que se quer evitar.
O título da coluna citada
afirma que Portugal “não deve filhos à Ucrânia”. Realmente não estamos
obrigados a isso por nenhum acordo formal, ao contrário dos EUA e da Rússia
que, em 1994, no memorando de Budapeste, se comprometeram a garantir a
segurança e integridade territorial da Ucrânia em troca do governo de Kiev
ceder a Moscovo as armas nucleares soviéticas que tinha herdado. No entanto,
Portugal apoiou esse processo de desnuclearização da Ucrânia, que até se
iniciou com negociações em Lisboa. É um excelente exemplo dos riscos do
desarmamento unilateral. Isso significa que não devemos nenhum apoio à Ucrânia?
E não se combate uma invasão sem armas e dinheiro.
Os “mecânicos” da Oficina da
Liberdade acham que a liberdade foi construída e mantida sem luta? Devemos
evitar qualquer risco de desagradar a uma Rússia que, dizem-nos, não é sequer
uma ameaça séria? Devemos deixar uma grande potência com declarados objetivos
expansionistas tentar invadir quem quiser na Europa, desde que não sejamos nós?
Vamos esperar até que o alvo seja membro da NATO para fazermos alguma coisa? Já
se tentou essa lógica de apaziguamento amoral, na década de 1930, e o resultado
não foi grande coisa do ponto de vista da defesa da paz.
Orgulhosamente sós?
É legítimo discutir o que
Portugal deve fazer num mundo cada vez mais propenso a conflitos armados, que
atingiram um número recorde no ano passado. Por exemplo, devemos voltar a ter
um serviço militar obrigatório? Do meu ponto de vista essa opção é cara e
militarmente pouco eficaz, mas o que fazemos se deixarmos de ter voluntários
suficientes? Também me parece evidente que – tal como já acontece hoje – só
devem ser enviados para combater no exterior soldados profissionais e, de
preferência, voluntários para essas missões. Aliás, já temos jovens portuguesas
em zonas de guerra, por exemplo, na força destacada na missão da ONU na
República Centro-Africana.
Num contexto em que um
aliado-chave como os EUA se mostra pouco de fiar, devemos ser capazes de pensar
fora da caixa estratégica habitual. O que não faz sentido é fingir que a Europa
decidiu rearmar-se por capricho, ou que qualquer apoio à Ucrânia levará à
Terceira Guerra Mundial, como nos dizem há cinco anos. A Ucrânia está numa
situação muito difícil com uma nova aproximação de Trump a Putin. Eu não faço
da Rússia uma potência imbatível – isso não existe – mas mesmo um regime muito
ineficiente, quando está armado até aos dentes, pode causar grandes estragos na
vizinhança. Há sinais de cansaço em sectores importantes na Europa com o apoio
à Ucrânia. Não me espanta que haja quem esteja a procurar alibis para se livrar
de incómodos. Podemos em breve testar a tese de que uma paz a qualquer preço na
Ucrânia irá contribuir para a segurança da Europa livre.
Se não quisermos mandar armas
ou tropas para lado nenhum, então estamos a defender que Portugal deve
abandonar as suas alianças e adoptar uma estrita neutralidade. É legítimo, mas
convém perceber que isso não nos livra dos impactos negativos de conflitos armados
ou da necessidade de investimento em defesa. Grande parte do Mundo não está em
guerra com o Irão, mas todos pagam o preço na bomba de gasolina. Essa opção
também significa que, se formos atacados ou ameaçados, estaremos por nossa
conta. É o que querem? Querem ir mais longe e defender o desarmamento
unilateral? Digam-no abertamente, e expliquem onde é que isso correu bem. Na
Ucrânia não foi certamente. Existem alguns exemplos bem-sucedidos de
neutralidade, como a Suíça ou a Suécia, todos casos de neutralidade armada e de
forte investimento na indústria de defesa nacional. Também há alguns poucos
Estados que, abdicaram de ter Forças Armadas, com isso aceitam ser
protectorados de outra potência, limitando as suas opções externas. É isso que
defendem e quem seria o protector?
Há também muitos fracassos da
aposta na neutralidade como forma de evitar envolvimento em guerras, como a
Bélgica, a Dinamarca ou a Noruega na Segunda Guerra Mundial. A história ensina
muito, mas não dá respostas simples. Uma das coisas que mostra é que pensar que
se pode viver sem riscos ou defender a liberdade sem armas nunca foi realista.
Resta-nos escolher que riscos vale a pena correr, que valores queremos defender
e como, desde logo, se sozinhos, se com outros.
Europa Mundo Guerra Conflitos
COMENTÁRIOS
Paulo Silva
Na guerra psicológica há uma
forma de a fazer convencendo o outro que nada tem a temer de nós. Quando este
se aperceber do contrário, será tarde demais... A União Soviética foi um dos
grandes baluartes da propaganda anti-guerrista, (embora à guerra deva a sua
existência). Quando Inglaterra e França declararam guerra ao Terceiro Reich a
URSS criticou-a como uma ‘guerra imperialista’, (após ter dividido com Hitler o
leste da Europa em esferas de influência), e colocou-se numa posição de falsa
neutralidade, (na sombra esteve sempre a apoiar o esforço de guerra nazi). Até
que em Junho de 1941, quando Hitler quebrou o pacto de não agressão, o discurso
mudou 180 graus...
Espanta-me sempre a paixão
ingénua e o dispêndio de energia que algumas alminhas investem na crença do
“homem novo” … Um ser virtuosamente perfeito despido de qualquer defeito
moral...