Do texto anrterior: Conde de Gobineau: o homem que inventou o racismo
Por
João Miguel Tavares: Texto
Rui Ramos: Texto
Em 1848, há revoluções em
quase todas as capitais europeias, as monarquias são derrubadas, são
proclamadas repúblicas. Estas revoluções são interpretadas por alguns autores
como um choque entre dois princípios políticos, isto é, o princípio da
soberania dinástica, o princípio da soberania nacional, representado pelas
repúblicas, mas também é interpretado por outros autores como um choque social,
um choque entre a aristocracia, a burguesia, o povo trabalhador, isto é, um
choque entre estes grupos, um choque pelo domínio entre estes grupos. E isto,
de alguma maneira, refletia a impressão que tinha havido das batalhas de ruas,
por exemplo, em Paris, em junho, julho de 1848, em que uma parte da classe
trabalhadora tinha feito barricadas, tinha lutado contra a polícia e contra o
exército. Isto foi visto a partir do quadro que então era o quadro
interpretativo da história, que era a história da Roma Antiga, da República
Romana, da luta entre o patriciado e a plebe, portanto, uma luta social. E
Gobineau quer explicar isso, de onde é que vem essa luta.
E cuja consequência é a queda
do império, é isso? Pelo menos, se calhar, na cabeça dele. Pelo menos a queda
de uma aristocracia.
Exato. Ele quer perceber de
onde é que isso vem. E ele interpreta estes grupos que estão em conflito, não
exatamente como classes sociais, mas como raças. Esse é que é o ponto dele.
Ok. Então, se calhar,
interrompo-te aqui e nós voltamos já a seguir após um breve intervalo. Olá,
seja bem-vindo de volta a esta segunda parte. Nós estamos a falar do Conde de
Gobineau, o chamado pai do racismo, mas estamos a tentar mostrar que era um pai
bastante complexo. Nós, na primeira parte, tínhamos ficado ali por volta de
1848, e tu estavas a tentar explicar qual é que era realmente a essência
daquele conflito segundo os olhos de Gobineau.
Para Gobineau, o que estava a
acontecer em 1848 era a tomada do poder na Europa pelo povo. E isto
significava, para ele, uma mudança de raças, porque para Gobineau também há uma
divisão de raças naquilo que era a raça branca. A aristocracia descendia dos
povos germânicos, em França, dos francos, que tinham conquistado a França, e o
povo descendia dos celtas, dos gauleses. Portanto, os francos e os gauleses
eram duas raças. Os francos eram a aristocracia, os gauleses eram o povo. Os
germânicos eram uma raça superior, de guerreiros, e o seu domínio coincidia com
a grandeza da França. E a sua substituição no poder por uma massa de mestiços
em que predominavam os celtas, que era uma raça inferior, e era isso que era a
democracia para ele, para Gobineau, a democracia era precisamente o poder das
massas inferiores, a tomada do poder por estas raças inferiores, só podia
trazer precisamente a decadência. Portanto, Gobineau é um pessimista, ele diz
que a humanidade A começar por França, está a caminhar para a unidade através
da miscigenação e que isso é feito à custa da elite humana, isto é, daquilo que
ele chama os filhos dos reis, a aristocracia. Esta aristocracia guerreira está
a perder-se. Esta aristocracia era o fator principal da vitalidade, da força,
da procura da beleza, da grandeza da civilização, e estava a ser entregue a uma
camada populacional que vinha de uma raça materialista, egoísta, de gente
ligada à produção, etc.
Mas o Gobineau, estas ideias
nasceram na sua própria cabeça ou tinham influências?
Não, isto eram ideias. Na
prática, o que ele faz no ensaio, a sua originalidade está em combinar coisas
que vêm de lados diferentes, e a originalidade dele é agarrar naqueles
elementos todos. É muito lido, é um erudito, é muito imaginativo, é um escritor
criativo e agarra naquelas coisas.
Talvez um pouco mais
imaginativo demais.
Muito imaginativo. E agarra
naquelas coisas e combina-os numa teoria. A ideia de raças, ele vai buscá-la
aos antropólogos, que desde o século XVII se propõem estudar os seres humanos
do ponto de vista da história natural. Isto é, como estudam as plantas e como
estudam os animais. Ora, como é que eles estudam as plantas e estudam os
animais? É descrevendo e classificando espécies e famílias. Estes antropólogos,
estes historiadores naturais da humanidade, começam também a fazer como faziam
às plantas e aos animais, a descrever espécies e famílias a partir de critérios
físicos, às vezes geográficos, culturais também. É uma mistura de critérios
para definirem estas famílias. Por exemplo, no século XVII, um médico francês, Bernier,
foi um dos primeiros a dividir a humanidade no que ele chamou raças, usando a
cor da pele e outros traços físicos, mas também a geografia. Ele acha que há
uma raça que compreende a Europa, o Médio Oriente, a Índia e as Américas,
seriam todos a mesma raça, curiosamente. Outra a dos africanos subsaarianos e
outra a dos asiáticos do Extremo Oriente. Isto é para François Bernier. No
século XVII, ele faz esta categorização. E depois há uma série de outros
autores, o naturalista sueco Carl Linnaeus, no século XVIII, que é um dos mais
conhecidos, estabelece uma divisão semelhante ao comum naturalista francês
Cuvier. E depois, no princípio do século XIX, aparecem outros que tentam tornar
a divisão das raças mais científica através de critérios mais precisos. Por
exemplo, o médico americano Samuel George Morton tenta medir as diferenças
raciais através da capacidade do crânio. Começa a medir crânios para
estabelecer a diferença entre as raças a partir dos crânios. Claro, quanto
maior o crânio, maior seria o cérebro, maior seria a inteligência. É a ideia
dele.
Também não foi à gagantifa.
Além desta ideia da
classificação e descrição, aparece também a ideia de uma degenerescência das
raças. Isto é uma ideia que vem do século XVIII, de um naturalista francês,
Buffon. Buffon diz que inicialmente só havia brancos e as outras raças que não
são brancos, são degenerescência dos brancos. Degeneraram. Depois há um médico
americano, o Benjamin Rush, no fim do século XVIII, que acha que os negros eram
brancos com uma doença de pele. Gobineau, na década de 40, quando começa a
escrever o seu livro, vai a estes livros todos, a estas publicações todas,
começa a ler e começa a tirar aquilo que lhe interessa para combinar, para
fazer a sua teoria.
E nessa altura ainda não
estava estabelecido que supostamente foi em África que o ser humano apareceu.
Ninguém tem ideia disso. A
maior parte deles atribuem à Ásia, que teria sido na Ásia. Há várias teorias,
até porque ainda é uma época em que a Bíblia, para muitos destes autores, é
tomada como uma fonte científica, diríamos nós, isto é para estabelecer factos.
A outra ideia que está aqui é a da desigualdade e concorrência entre as raças.
Isso também é uma ideia antiga. É uma ideia que remonta a um historiador
francês do século XVII, Henri de Boulainvilliers. Henri de Boulainvilliers
concebe a história de França em termos de uma luta de raças. A ideia dele: as
raças era a raça dos gauleses e a raça dos francos. A luta teria começado
quando a Gália Romana, habitada pelos gauleses, pelos celtas, é invadida e
ocupada pelas tribos germânicas dos francos. Os francos teriam constituído uma
aristocracia militar, de que sai a nobreza, e os gauleses, os celtas, teriam
constituído o resto da sociedade, isto é, aquilo que no antigo regime se
chamava o terceiro estado, a burguesia e os trabalhadores, os plebeus. Qual era
o objetivo desta história de Boulainvilliers? Era uma crítica do absolutismo do
rei. Ele dizia que os reis estavam a desprezar a nobreza e estavam a apoiar-se
no terceiro estado. Para ele, basicamente, os reis estavam a apoiar-se na pior
parte da sociedade contra a melhor parte. Além disso, estavam a tentar conceber
a sociedade como um corpo unificado sob o rei, quando de fato a sociedade era
um conflito de raças, era um conflito entre duas raças. E claro, isso remetia
para os preconceitos nobiliárquicos da aristocracia, as suas genealogias. A maior
parte das nobrezas no sul da Europa, a portuguesa, a espanhola, etc, todos eles
se atribuíam descendência germânica, todos eles achavam que eram descendentes
dos germânicos e que o resto da população tinha uma descendência antiga. Esta
história captava preconceitos genealógicos da própria nobreza. Estas teorias
que chegam ao século XIX ainda como teorias de raças, depois têm um
desenvolvimento interessante das primeiras décadas do século XIX. Historiadores
franceses como Augustin Thierry e François Guizot Que agarram nesta história de
raças e acabam por diminuir a característica racial para se concentrarem,
sobretudo, nas características sociais. Eles resolvem traduzir esta história de
luta de raças numa história de luta de classes sociais. Eles esquecem os
francos e os gauleses, e o que lhes interessa é a aristocracia, a burguesia e o
povo. Guizot e Thierry concentram-se desta maneira. Gobineau, de alguma
maneira, vai recuperar a dimensão racial que esta historiografia francesa mais
recente tinha desprezado. Isso não quer dizer que a sua caracterização das
raças não tenha imensas características de visão social. Há um historiador,
George Mosse, que se ocupou muito das origens do racismo e das teorias racistas
na Europa do século 19. Ele nota, ele lê com atenção as 1600 páginas do
Gobineau. Devo confessar que não li com atenção as 1600 páginas do Gobineau,
mas vi resumos, ele está disponível na internet.
Estava a pensar que tinhas
passado este tempo a ler 1600 páginas.
Não, há outras coisas que é
preciso ler. Mas George Mosse nota que a maneira como Gobineau caracteriza as
supostas raças deriva muito de preconceitos sociais. Por exemplo, os asiáticos.
Os asiáticos pra ele são materialistas, são egoístas e George Mosse nota que é
exatamente da mesma maneira como Gobineau descreve a burguesia francesa. A
burguesia francesa é muito parecida com os asiáticos. Da mesma maneira, ele
descreve os negros africanos como sensuais, como violentos, e é a mesma maneira
como ele descreve a classe trabalhadora francesa. Também é sensual, também é
violenta, sobretudo os camponeses. Ou seja, a sua visão racialista de raças é,
de facto, uma visão classista. E daí a facilidade com que as teorias racistas
se tornam teorias de classe e vice-versa. Aliás, há um outro contemporâneo de
Gobineau, alemão, que está a investigar e a escrever ao mesmo tempo que
Gobineau. Também é um escritor extraordinariamente imaginativo e tem também
esta capacidade do Gobineau de ler muita coisa, juntar muitos elementos pra
fazer uma teoria. É Karl Marx. Karl Marx leu os historiadores franceses e daí
tirou a ideia da luta de classes, do Manifesto Comunista de 1848. E Karl Marx
também está a explicar as revoluções de 1848. É uma interpretação do que estava
a acontecer, mas pra Karl Marx é um conflito de classes. Mas Karl Marx, que é
muito lido, tem noção de onde é que veio a teoria de classes. E ele numa carta
ao seu amigo e colaborador Friedrich Engels, 1882, é uma carta que é citada por
Michel Foucault num livro chamado "Os Fundamentos da Sociedade", e
que é precisamente sobre a origem destas teorias raciais e a sua ligação com as
teorias de classes sociais, com as teorias sociológicas. Marx diz isto a
Engels: "A nossa luta de classes, tu bem sabes onde nós a encontrámos. Nos
historiadores franceses, quando eles contavam a luta de raças." Ele sabe
que aquilo que ele está a fazer, isto é, que a sua teoria da luta de classes é
uma adaptação da teoria da luta de raças tradicional na historiografia francesa
até ao princípio do século 19.
E eles são contemporâneos.
Marx e Gobineau são
contemporâneos, um de 1816, o outro 1818.
Nascimento.
Nascidos, datas de nascimento.
E também morrem quase na mesma
altura.
Exato, também, 1882 e 1883.
Sim, na década de 80 do século
passado.
Eles estão a escrever os dois,
um a começar a preparar aquilo que vai ser "O Capital", que vai ser
publicado em 1867, o outro a começar a preparar um ensaio sobre a desigualdade
das raças humanas. Estão a escrever na mesma altura, fim dos anos 40,
princípios dos anos 50, e estão a tentar fazer a mesma coisa, isto é,
compreender a história que eles estão a viver em 1848, sobretudo a história das
revoluções, não em termos da luta entre partidos e da concorrência entre
propostas políticas, que era assim que era analisada, mas sim de uma espécie de
um conflito fundamental, épico, entre grupos humanos. Para Marx, esses grupos
humanos são grupos que ele define de um ponto de vista econômico e social, em
função da relação dos meios de produção. Para o Gobineau, tem uma dimensão
biológica, mas a ideia é mesmo esta ideia de: "Não, o que interessa é
isto, estamos perante um conflito de grupos humanos."
E depois também cada um
aprecia coisas diferentes.
Sim, a valorização é
diferente. Gobineau estima a aristocracia, portanto vê a ascensão daquilo que
Marx vai chamar o proletariado como o princípio da decadência, e Marx é
otimista, acha que, pelo contrário, a libertação do proletariado vai manter o
progresso.
Sim, Gobineau de optimista não
tem nada.
É extraordinariamente
pessimista, Marx é otimista. Mas agora, de onde é que vem esta terceira origem,
aquilo que nos falta ainda investigar das origens destas ideias de Gobineau,
porque esta ideia sombria, esta ideia pessimista, de onde é que isto vem? Desta
ideia de decadência.
Do fim da aristocracia. Estava
tudo a dissolver à sua volta.
Não, mas por que o fim da
aristocracia é uma decadência? Esse é que é o ponto. De onde é que lhe vem essa
ideia?
Porque é onde ele está.
Não, ele atribui à
aristocracia, precisamente, ele vê na aristocracia a liberdade individual. É
onde os indivíduos são mais livres. E, portanto, a decadência da aristocracia é
a decadência da liberdade. Isto é, a vitória da igualdade é feita à custa da liberdade
individual. E isto é uma ideia que ele apanhou de várias fontes, mas apanhou de
uma fonte principal, que é o livro "A Democracia na América" do
Alexis de Tocqueville, que é um amigo dele. Aliás, eles são grandes amigos, têm
uma grande correspondência entre os dois. Tocqueville também é mais ou menos da
geração de Gobineau. É Tocqueville que diz que o sentido da evolução social,
política e cultural contemporânea no século XIX é no sentido da igualdade, e
que esse sentido da igualdade vai ser feito com base no sacrifício da liberdade
individual, e que essa liberdade individual no passado tinha sido representada
pela aristocracia, que eram dos indivíduos que eram capazes de desenvolver
características mais pessoais, até pelo conforto em que estavam, mas também
pelos códigos a que estavam sujeitos, quer dizer, os códigos de honra, de
competição entre eles, de afirmação individual. E portanto, que isso iria
perder-se numa humanidade que estava a ser homogeneizada e ao mesmo tempo
sujeita a um Estado centralizado. E isso é uma degradação. Não, e Gobineau tira
ideias dele, aliás, ele até é acusado um pouquinho de plagiar o Tocqueville,
"Democracia na América" no ensaio, tirar imensas ideias de lá, só que
para Gobineau isso traduz-se em termos de raças. Para Tocqueville ainda era em
termos de classes, como ele tinha lido em Guizot e em Thierry. Por outro lado,
Tocqueville acha Gobineau demasiado fatalista. Acha-o muito pessimista. Aliás,
na correspondência ele o acha extraordinariamente pessimista. Ele diz:
"Não, mas apesar de tudo, as pessoas ainda podem reagir, podem fazer
qualquer coisa, podem criar instituições que preservam a liberdade."
Tocqueville tem essa ideia, por isso é que ele tem admiração pelos Estados
Unidos. É uma democracia, mas onde foram criadas instituições que sem a
aristocracia, apesar de tudo, preservam a igualdade. Para Gobineau, isso não
faz sentido, aquilo é uma decadência. Isto são as várias origens, isto é, as
antropologias desde o século XVII, XVIII, estas ideias de um conflito, a
história ser explicada por um conflito, isto é, por um conflito entre grupos ou
sociais, ou raciais, e esta ideia da decadência associada, curiosamente, ao
progresso, à democracia, isto é, vir trazer a decadência, que é uma opinião
paradoxal, mas que é a opinião de Gobineau. Essas teorias em França não têm
grande sucesso.
Ele é francês, mas não é em
França que-
Não, em França isso não tem
sucesso absolutamente nenhum.
Que ele acaba de ser popular.
Em França ele é popular como
autor de contos orientais, românticos, etc., em que ele é muito estimado. E
também é conhecido por aquela erudição sobre o Irã, mas aí é atacado imenso
pelos outros especialistas que acham que ele não percebeu nada daquilo.
Então onde é que ele tem
sucesso?
Aliás, repara, por que ele não
tem sucesso em França? Ele não tem sucesso em França porque ele acha que os
arianos são os alemães. Em França é terrível. E depois ainda piora: em 1870, a
França é derrotada pela Prússia, pelos alemães. E Gobineau, para um diplomata
não é muito hábil, vem dizer: "Estão a ver? A derrota da França prova a
superioridade alemã." Portanto, isso acabou de o tornar
extraordinariamente popular, isto é, extraordinariamente estimado ou muito
pouco estimado em França, onde os livros dele sobre viagens, etc., sobretudo os
livros orientalistas, têm algum interesse. E depois ele começa a ter também
atitudes cada vez mais excêntricas. Na década de 1870, por exemplo, abandona o
cristianismo pelo paganismo nórdico, que lhe parece mais ariano. Portanto,
começa a tornar uma figura cada vez mais excêntrica, mais bizarra, com opiniões
cada vez mais estranhas. Enfim, até parece um pouquinho o contrário, vai
refinando com a idade. É na Alemanha e nos Estados Unidos que ele vai encontrar
sucesso. Na Alemanha, as razões são óbvias.
Bom, o nosso tempo chegou ao
fim. Para quem nos está a ouvir em direto, peço imensa desculpa, no sentido em
que se quiser mesmo saber por que ele foi popular na Alemanha e nos Estados
Unidos da América, vai ter que ir ao podcast. Para quem me está a ouvir em
direto, eu despeço-me até para a semana. Muito bem, então Alemanha e Estados
Unidos. Não conseguiu ser profeta na sua própria terra.
Na Alemanha é tratado como
profeta. Ele vem anunciar a superioridade da raça germânica, isto é,
identificada com os arianos, e portanto isso é bem recebido imediatamente. Mas
sobretudo o ambiente na Alemanha era um pouco diferente em termos de erudição,
é um bocado diferente da França. Em França, há um predomínio de teorias
sociológicas, digamos assim, de classes sociais, como se vê em Tocqueville e
nos outros. Na Alemanha, ainda se mantém no século XIX uma teoria da explicação
da história em termos de povos, não exatamente raças, mas "folk",
quer dizer, povos, que quase podia ser traduzido por raças como atores da
história mundial. Por exemplo, Leopold von Ranke, que é um dos grandes
historiadores do século XIX, vê a história moderna como a história da expansão
dos povos germânicos à custa dos povos latinos e eslavos. Quer dizer, é a
civilização germânica que está a expandir-se. Portanto, há na Alemanha um
ambiente mais favorável a teses como as de Gobineau. E depois Gobineau tem
algumas relações pessoais ou algumas admirações pessoais que lhe dão uma via de
influência na Alemanha. Uma, ele tem uma relação com um outro diplomata alemão
Que é o príncipe de Hoymburg, que vai ser um dos grandes conselheiros do Kaiser
Guilherme II e que se torna um grande amigo, nos anos 70, princípio da década
de 80, de Gobineau. Aliás, é discutida por alguns historiadores que tipo de
relação é que eles exatamente tinham. Parece uma relação muito íntima. Hoymburg
até destrói a correspondência com Gobineau, porque diz que quem lesse aquilo
podia interpretar mal a relação entre eles.
Ai, sim? Está picante.
Hoymburg é homossexual e não
se sabe exatamente. Podia ser uma relação de uma amizade intensa e que depois
podia ser mal interpretada por outros, ou podia ser, de facto, como outros
sugerem, uma relação mais íntima. Não se sabe. Mas depois ele tem também um
grande leitor e um grande admirador na Alemanha, numa figura que se vai tornar
extraordinariamente influente na cultura alemã na segunda metade do século XIX,
que é o músico Richard Wagner. Wagner é um grande antissemita, isto é, é um
homem de esquerda, socialista, republicano. Vê os judeus como os capitalistas,
os representantes dos capitalistas, portanto é um grande antissemita. E é um
dos grandes leitores do ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, de tal
maneira que Gobineau diz que ele é um dos poucos que percebeu os ensaios. Quer
dizer, Richard Wagner é um dos poucos que percebeu o ensaio. No círculo de
Wagner, que vai ter uma influência, repito, intelectual e cultural muito grande
na Alemanha na segunda metade do século XIX, há um culto de Gobineau, isto é, a
leitura de Gobineau. E depois o genro de Wagner, que é um inglês, mas que é um
inglês muito germanizado, que vive na Alemanha e que acha também que a Alemanha
é superior à própria Inglaterra, que é um senhor chamado Houston Stewart
Chamberlain. É alguém que vai viver até os anos 20, que ainda vai encontrar
Hitler, que ainda vai ser influente em Hitler também com os seus livros. E
Houston Stewart Chamberlain também é um grande admirador de Gobineau e adapta
Gobineau. Mas a adaptação que eles fazem de Gobineau talvez fosse um pouco
estranha para o próprio Gobineau. Por quê?
Ou seja, achas que quando nós
colocamos aquela linha entre Gobineau e que vai acabar em Adolf Hitler e no
nazismo, achas isso esticado?
Não, eu acho que é uma linha
que existe. Atenção, é uma linha que existe, mas para existir, as teorias de
Gobineau tiveram de ser adaptadas, como já vamos ver. Por quê? Porque, por
exemplo, Gobineau usa a teoria das raças para dividir a França entre a
aristocracia e a plebe. Quer dizer, para Gobineau, a nação não une. Portanto,
ele não é um nacionalista, atenção, Gobineau não é um nacionalista. Ele
funciona em termos de raças, e portanto a França está dividida. Ora bem, para
Chamberlain, a raça serve para unir a Alemanha. Ele identifica a raça germânica
com a nação alemã, toda a nação alemã.
Dentro daquela lógica do povo
que tu estavas a falar.
Do povo, Volk. E depois é uma
nação que está unida contra uma outra raça, que está presente nesse espaço, que
são os judeus. Esta é a tese de Chamberlain. Gobineau não tinha essa tese.
Gobineau não é antissemita, curiosamente. Aliás, ele até acha que os judeus
provavelmente são uma parte da raça ariana e que por acaso, no Médio Oriente,
tinham adaptado uma língua semita, mas como fizeram grandes coisas, não devem
ser bem semitas, devem ser arianos.
Ele não era antissemita porque
achava que os judeus não eram semitas.
Não eram semitas. Ora bem, no
movimento racista alemão, que é fundamentalmente antissemita, o ariano vai
designar, a partir da década de 1880, precisamente um europeu não judeu. É essa
quase a definição que vai se dar de ariano. Não era bem a ideia de Gobineau.
Repito, Gobineau inspira, estimula imaginações racialistas como a dele, mas as
outras, aquelas que vão ter impacto nos movimentos racistas do século XIX-
São extrapolações
...deturpam um pouco as suas
ideias. Mas agora, claro, Gobineau é uma fonte dessas ideias. Também se podia
falar aqui da maneira como Gobineau, tentando reduzir a história a uma ciência
natural, que é isso que ele quer fazer. O grande projeto dele é reduzir a
história à ciência natural.
Como o Marx à luta de classes.
À luta de classes. É uma
ciência natural, quer dizer, entre grupos que competem entre eles. Ora bem, a
partir dos anos 60, 70, as suas ideias vão começar a ser misturadas com ideias
que outros autores retiram da leitura de Charles Darwin, da "Origem das
Espécies" de 1859, que é a ideia da evolução através da seleção natural, a
ideia da sobrevivência dos mais aptos, que, por sua vez, é usada para enfatizar
o quê nestas teorias racialistas? A necessidade de favorecer os mais fortes
para favorecer a evolução e o progresso. É uma ideia que não está em Gobineau.
Gobineau não é um supremacista. Para Gobineau, a degenerescência através da
unidade das raças é inevitável, é uma coisa que está a acontecer. Não há nada
para fazer, acabou. Ora bem, estas teorias racistas não. É proteger aquilo que
eles acham que são grupos humanos ainda puros. Para Gobineau, já não há grupos
humanos puros. E essa ideia vê-se muito na adaptação de Gobineau nos Estados
Unidos.
Sempre que falaste da
Alemanha, nós não ficamos surpreendidos, mas nos Estados Unidos também isto tem
um grande impacto.
Nos Estados Unidos, o ensaio
de Gobineau é traduzido logo em 1856. O livro é publicado entre 1853 e 1855. No
ano seguinte é traduzido em inglês nos Estados Unidos, por Josiah Nott e Henry
Hotze Agora, eles não traduziram as 1600 páginas, um pouquinho à americana,
fizeram um digest e fizeram 400 páginas.
Também tinham mais classe.
De 1600 fizeram 400 páginas. E
o que eles aproveitaram? Eles aproveitaram, sobretudo, as partes críticas dos
negros africanos. Por quê? Porque dava jeito para estes autores, no fim da
década de 50, princípio da década de 60, quando a escravidão está a ser posta
em causa cada vez mais nos Estados Unidos, esta ideia de justificar
cientificamente a escravidão, dizendo: "Não, os negros são uma raça
inferior e que só pode ascender à civilização sob tutela de uma raça
superior."
Isto é uma publicação em
vésperas da Guerra Civil Americana.
Sim, isso dava-lhes imenso
jeito enquanto ainda havia escravidão, e depois deu-lhes ainda muito mais jeito
quando a escravidão deixou de existir depois da Guerra Civil, depois de 1865.
Por quê? Porque foi usado para justificar a segregação racial no sul dos
Estados Unidos, de que já falamos aqui. Isto é a ideia do desenvolvimento
separado das raças, há raças com níveis de civilização completamente distintos
e Gobineau era um autor interessante. Agora, isto foi o que eles aproveitaram.
Eles não aproveitaram outra parte que era fundamental. Para Gobineau, os
americanos brancos não eram uma raça branca, eram uma raça mestiça.
Não eram arianos.
Eram uma mistura de várias
raças europeias e, por isso, decadente. Ele achava que os Estados Unidos
estavam condenados à decadência, porque precisamente tinham esta mistura de
raças. Era onde eu via, tal como no Brasil, os Estados Unidos também estava. Isto
é curioso, para os tradutores de Gobineau, os brancos nos Estados Unidos são
uma raça, para Gobineau não eram, porque já era uma mistura decadente. Aqui há
mesmo uma deturpação completa da tese pessimista, deste racismo muito
pessimista de Gobineau. Ele tem uma visão de: "Isto acabou, está tudo
péssimo, vai tudo acabar mal para todas as raças", aliás, não só para a
raça branca, mas para as outras raças.
Ele depois enveredeceu mal
nestas teses.
Como é que nós fazemos aqui um
balanço de Gobineau? A origem de Gobineau é, sobretudo, ou aquilo que Gobineau
quer dar origem é este racismo pretensamente científico, cujas teses hoje
obviamente não são aceites por ninguém e mesmo na altura já eram discutidas por
imensa gente, basta ler o livro de Gobineau pra se perceber que aquilo é uma
escrita muito imaginativa. Qual é o papel de Gobineau? Para eu perceber
Gobineau, talvez se possa partir da declaração da UNESCO de 1950, quando é dito
que a raça não é um fato biológico, ao contrário do que Gobineau tinha dito,
mas é um mito social. Aquilo que Gobineau é, de fato, é um criador de mitos. É
um escritor imaginativo, extremamente adverso à modernidade, admirador de uma
antiguidade imaginária, o antigo Irã para ele é que era a época de ouro da
humanidade, e que vai contribuir com as suas teses mais ou menos loucas para um
movimento perverso, assente numa visão da história como um conflito entre
grupos humanos. Depois em formas já não previstas por ele, mas que continuam a
inspiração dele, isto é, estes grupos humanos em conflito, e que vão
justificar, no princípio do século XX, movimentos que se reivindicam das ideias
dele ou de ideias parecidas com as ideias dele e que vão cometer violências e
injustiças enormes no século XX. E nessa espécie, a sua história, a história de
Gobineau, é muito parecida com a história de Karl Marx. O mesmo escritor
imaginativo, a ideia de tentar perceber a história através do conflito, em Marx
de classes sociais, mas Marx tem noção de que foi buscar essa ideia à luta de
raças, quer dizer, que a luta de classes é uma espécie de sociologização da
luta de classes e que também vai dar origem a movimentos que no século XX vão
cometer crimes enormes em nome destas ideias, num dos casos, de defesa de uma
raça, no outro caso, de extinguir as classes, entregando através da atribuição
da vanguarda da história ao proletariado. Temos aqui dois destinos em paralelo,
dois autores que são importantes, porque Michel Foucault, que escreveu sobre os
dois, diz isso: são eles que estabelecem esta visão da história baseada no
conflito. Isto é a ideia de que a dinâmica da história é um conflito entre
grupos. No caso de Gobineau, raciais, no caso de Marx, sociais, aliás, seguindo
outros historiadores franceses que Marx leu. E
Michel Foucault diz que isto é a visão moderna da história, esta visão
da história através do conflito, que rompe com maneiras de conceber a história
anteriormente. E portanto, na prática, são dois criadores da modernidade e
talvez do lado mais sombrio que a modernidade teve, Gobineau e Marx, dois pais
do pior, independentemente daquilo que muitos dos seus comentadores depois,
quando os leem, e há muitos escritos sobre o Gobineau e muitos escritos sobre
Marx, chamam a sua atenção: "Não, mas eles não defenderam, não é
necessário que eles tenham tido essas ideias". E provavelmente não, mas
começaram a rolar a pequena bola de neve que depois se foi tornando cada vez
maior e cada vez mais sangrenta, foram eles que começaram a rolar.
Muito bem. Bom, e assim
termina esta "E o Resto é História". Nós voltamos pra semana. Até lá.
"E o Resto é História".