Preparativos em força para a guerra. Que já começou, claro. E seremos orgulhosamente
parte activa, pois fabricaremos parte dos Gripen
E, aviões de combate de potencial como se pretende no combate. Alverca é o
lugar do fabrico honroso.
▲Os
novos Gripen E, que a Saab descreve como o "o caça mais moderno do mundo”.
Happy Wilder
"Muito potencial". Suecos
acenam com produção de novos caças em Portugal para convencer Governo a comprar
substitutos dos F-16
Portugal vai ter de substituir os
caças F-16, e a sueca Saab está de olho no contrato. Responsáveis admitem que uma parte das aeronaves pode vir a ser
produzida pela OGMA, uma "óptima empresa".
ANA SANLEZ: Texto
OBSERVADOR, 05 mar. 2026, 20:084
Não é um leilão, mas a Suécia
quer subir a parada. O Governo está prestes a dar início ao processo para a
escolha dos aviões de combate que vão substituir os quase obsoletos F-16 da
Força Aérea, e nos bastidores já se trava uma guerra de razões. À diplomacia económica dos EUA,
interessados em vender os caças F-35 a Portugal, a Suécia responde não só com a promessa de entregar o
“avião de combate mais avançado do mundo”, o novo Gripen E, como abre a porta à possibilidade de produzir parte do modelo em Portugal,
nas oficinas da OGMA. “Tem muito
potencial”, diz DANIEL
BOESTAD, vice-presidente do departamento de desenvolvimento dos Gripen.
Oficialmente, o Governo português ainda não deu início ao processo e não
há conversas a decorrer, garante o responsável. Mas a empresa, que é uma das
principais fornecedoras dos sistemas de defesa e segurança aeroespacial e naval
da Europa, vai-se posicionando. “Achamos
que [o novo Gripen] seria um produto excelente para Portugal”,
sublinhou o responsável durante uma visita com jornalistas portugueses à sede
da Saab em Estocolmo.
“Não há
nenhum processo formal em andamento, vamos esperar que o Governo português lhe
dê início, mas claro que vamos estar lá, e se nos fizerem questões vamos
colaborar”, acrescentou DANIEL BOESTAd, deixando
nas mãos do Governo e da Força Aérea a tarefa de pesar os prós e os contras.
Mas atira com aquele que espera ser um
“pró” para a Suécia. A Saab tem há anos uma parceria com a OGMA e, quando
questionado sobre se o modelo mais recente do Gripen pode vir a ter partes
fabricadas em Portugal, o responsável não hesita: “Potencialmente, claro que
sim”.
A Saab já o faz com o Brasil, o
primeiro país, depois da Suécia, ao qual vendeu o novo modelo do caça. Chegaram às forças armadas brasileiras “11
ou 12” aeronaves, das 36 encomendadas, e algumas partes do novo modelo foram
fabricadas no Brasil, onde a Saab também tem uma parceria com a Embraer, que é
accionista da OGMA. A empresa sueca comprou quatro aviões de transporte à
Embraer, os KC-390, que são também em parte produzidos nas oficinas da OGMA em
Alverca. “Trabalhámos
muitos anos com a OGMA” como subcontratada, explica o responsável. “É uma óptima empresa, fazem coisas
impressionantes”.
Além do Brasil, o Gripen E já foi
encomendado pela Colômbia e pela Tailândia. Também há um princípio de acordo para o fornecimento
de 150 caças à Ucrânia ao longo da próxima década. Boestad
não desvenda o valor que pode ter um contrato para a aquisição destes novos
caças, porque “depende” de muitas variáveis. Mas sublinha que “o importante não é a etiqueta com o
preço mas quanto custa operá-lo ao longo dos anos. E nós temos de longe a aeronave com o maior custo
benefício ao longo do tempo”. O contrato recente que a
Saab assinou com o Governo da Colômbia, por
exemplo, prevê a entrega de 17 aeronaves por 3,1 mil milhões de euros.
No processo que vai levar à
troca dos F-16, os suecos enfrentam uma concorrência
feroz. De um lado estão os EUA. A Lockheed Martin também está interessada no
contrato que o Estado português terá de fazer em breve, e tem posto a
diplomacia a funcionar. Numa entrevista recente à CNN Portugal, o
embaixador dos EUA em Lisboa, John Arrigo, destacou as vantagens da aeronave
norte-americana. “O F-35 é o melhor caça. É um caça furtivo de quinta geração,
vai levar a Força Aérea Portuguesa à Liga dos Campeões da UE”, defendeu.
Questionado sobre se a diplomacia sueca também já começou a mexer-se neste
sentido, Daniel Boestad não se alonga: “Só
Portugal é que pode decidir o que quer”.
“Os nossos engenheiros costumam dizer ‘criamos o código de manhã e à
tarde estamos a voar’. Na prática, talvez seja esticado dizer que é possível
introduzir novas funções na aeronave num dia, mas em menos de uma semana é possível.
Mais ninguém consegue fazer isso”.
. Daniel
Boestad, vice-presidente do departamento de desenvolvimento dos Gripen
Em setembro do ano passado,
segundo noticiou o Expresso, o ministro sueco da Defesa visitou Portugal e
assinou dois memorandos de entendimento para, de acordo com o jornal, “intensificar
a cooperação industrial no âmbito do desenvolvimento do caça Gripen”.
Um dos memorandos foi assinado com a OGMA, e visa a produção, manutenção e
reparação de aeronaves. O outro foi assinado com a Critical Software para
que as duas empresas avaliem projectos de software para a aviação. Também de
acordo com o Expresso, em fevereiro o vice-presidente da Saab, Johan Segertoft,
esteve em Lisboa para uma visita à tecnológica na sequência desse memorando.
Além da Lockheed Martin, os suecos também têm concorrência europeia na
corrida ao contrato para equipar a Força Aérea Portuguesa. A
divisão de defesa da Airbus, a Airbus Defence and Space, que faz parte do
consórcio Eurofighter e equipa membros da NATO como Alemanha, Espanha ou
Itália, já começou a fazer diligências nesse sentido. No final do ano passado,
assinou um memorando de
entendimento com a AED Cluster Portugal,
o Cluster Português para as Indústrias de Aeronáutica, Espaço e Defesa,
precisamente para “criar uma proposta industrial valiosa para a substituição”
dos F-16 com uma “solução verdadeiramente europeia, o programa Eurofighter”.
Tal como os suecos, a Airbus acena com uma ‘moeda
de troca’: o centro tecnológico de Coimbra e a fábrica de Santo Tirso, que
ainda este ano receberá investimento com vista à expansão, e que poderá crescer
mais caso o consórcio seja o escolhido na substituição dos F-16.
O que é que o Gripen E tem?
É, neste momento, “o caça mais moderno do mundo”,
além de ser também, a nível global, o
modelo de avião desenvolvido mais recentemente.
Mas a juventude não é o factor que os suecos destacam no Gripen. “Parece muito semelhante às versões
anteriores, mas é completamente diferente. Sobretudo por dentro. O Gripen E dá
ao piloto e à Força Aérea algo que é essencial hoje em dia em combate, que é velocidade. E não estou a falar de voar depressa, estou a falar da velocidade
com que o modelo pode ser alterado”, começa por explicar.
Com a tecnologia cada vez mais presente no campo de batalha, os
equipamentos de defesa “têm de se adaptar depressa” às condições do terreno. “É
dessa velocidade que estamos a falar. Essa foi a pedra de toque quando
estávamos a decidir desenvolver este modelo. Os sistemas informáticos do novo
Gripen podem ser alterados muito depressa”. Nos modelos anteriores, não só do
Gripen mas de qualquer caça, “se quisermos fazer alguma alteração temos de
falar com as pessoas da indústria, eles levam o avião, demora tempo e custa
muito dinheiro. O avião estará de volta talvez num ano ou dois, depende das
alterações”.
▲ Produção
dos Gripen na fábrica de Linköping, na Suécia.
Per Kustvik/ Saab
O Gripen,
detalha, deu um passo à frente. “Os
nossos engenheiros costumam dizer ‘criamos o código de manhã e à tarde estamos
a voar’. Na prática, talvez
seja esticado dizer que é possível introduzir novas funções na aeronave num
dia, mas em menos de uma semana é possível. Mais ninguém consegue fazer isso”.
E dá um exemplo. “No ano passado pegámos num avião e
introduzimos um agente de IA, que foi treinado para um tipo de batalha. Foram
precisas duas ou três semanas para fazer a integração. Depois fomos voar. Isto
foi em espaço aéreo civil, muito controlado. O Gripen voou sozinho, o piloto
afastou as mãos dos comandos, e estava a voar contra outro avião que tinha
piloto”. Ao fim de “algumas” missões, o piloto que estava a voar
manualmente “não conseguiu ganhar. Isto mostra sobretudo o quão rápido
conseguimos introduzir uma função destas na aeronave e voar no espaço aéreo
civil. Mais ninguém está a fazer isso”.
“Por vezes comparamo-lo ao iPhone”, acrescenta
Ingemar Karlsson, responsável da Saab para Portugal e Espanha. “A
plataforma é a mesma mas conseguimos fazer um upgrade do
software, ter novas aplicações… Qualquer
um pode fazer alterações no Gripen através de código, isso não afecta o voo. Os
engenheiros separaram o software crítico de missão do software crítico de voo.
É possível fazer tudo no que toca a funcionalidades e acrescentar outras novas
sem comprometer a segurança dos voos. Caso contrário, as aeronaves teriam de
receber novas certificações depois de um upgrade”, como acontece com os
restantes modelos de caças.
Na indústria “fala-se muito das
gerações de aeronaves, aqui nós podemos mudar de geração todos os dias. Como o
combate está cada vez mais tecnológico, não podemos demorar dois anos nem
sequer dois meses a adaptar-nos”, resume Daniel Boestad.
Os
novos caças não estão incluídos no pacote de 5,8 mil milhões de euros do
empréstimo que Portugal garantiu junto da UE no âmbito do mecanismo SAFE para
investimento em defesa. Mas a Saab tem outros planos para Portugal além dos
caças.
O submarino Ikea e o avião Top Gun
É com submarinos de guerra,
torpedos e camuflados que os visitantes são recebidos na sede da Saab na
capital sueca. Afinal, a Saab existe
por causa da guerra. A empresa nasceu na década de 1930 porque o governo
sueco, perante a ameaça de um conflito mundial, quis começar a produzir os seus
próprios aviões. O
primeiro assento ejectável da história da aviação militar foi inventado pelos
suecos. Da história da Saab faz ainda parte a
Bofors, especializada em material militar, e cujo dono mais célebre foi Alfred Nobel. E também os carros, que a empresa não produz
desde 2011. “Mas todas as semanas recebemos emails de pessoas a
perguntar por eles”, confessam os responsáveis.
Os modelos de armas de guerra em
exposição em Estocolmo, a mais de 200 quilómetros da fábrica da Saab em
Linköping, são à escala reduzida e exibidos num ambiente sombrio, que
contrasta com o segundo dia de sol do ano em Estocolmo. No
dia em que o Observador visitou as instalações da Saab, o conflito no Médio
Oriente escalava depois dos ataques dos EUA e de Israel ao Irão. Três caças
norte-americanos tinham sido atingidos por “fogo amigo” no Kuwait, “porque os
radares não conseguiram identificar de onde vinham” e as defesas aéreas
dispararam, explica Ingemar Karlsson junto a um dos radares fabricados pela
Saab. Estes dispositivos, “se não rodarem, conseguem ver mais longe. Se rodarem
têm uma visão 360º, mas é mais limitada”, acrescenta.
▲ Radares,
mísseis e camuflagem em exposição na sede da Saab em Estocolmo.
Happy Wilder
Este sábado passam dois anos desde que a Suécia aderiu à NATO. O banco
central da Suécia, o Riksbank, emitiu esta semana uma recomendação, “dada a
atual situação internacional”, para que os suecos tenham em casa mil coroas
suecas (pouco menos de 100 euros) por adulto, para que consigam fazer face a
“disrupções temporárias, crises e, no pior cenário, guerra”. E é de guerra que
se fala na Saab.
A ‘montra’ de artefactos da empresa sueca começa com o mais recente
modelo de submarino, o A26, capaz de permanecer debaixo de água por períodos
muito prolongados de tempo. Quanto? “É segredo”, mas “certamente algumas
semanas”, explica Ingemar Karlsson. São, por isso, mais difíceis de encontrar,
garante o responsável da Saab. Foram também concebidos para não emitirem
vibração, o que os torna mais caros que outros modelos. “Foi uma decisão que
tomámos para termos hipóteses contra o nosso ‘amigo’ do leste”, resume. É
também, acrescenta Ingemar Karlsson, um “submarino Ikea”. Ou seja, é modular e
pode ser comprado e montado com mais ou menos módulos. Para já só é utilizado
pela Suécia mas está prestes a ser adquirido pela Polónia.
▲ Produção
de submarinos nas oficinas da Saab. Saab
O responsável pela Saab em Portugal e
Espanha sabe que a Marinha portuguesa tem dois submarinos, o Tridente e o
Arpão, fabricados na Alemanha, até porque estão equipados com componentes da
empresa sueca, como sensores e radares de alerta. A compra de A26 não entrará nas contas da
Marinha, que estará actualmente “a olhar para a aquisição de mini submarinos”,
segundo os responsáveis suecos. No verão do ano passado, a Marinha assinou um memorando na Coreia
do Sul com a HD Hyundai Heavy Industries para o desenvolvimento de um pequeno
submarino.
A Portugal, a Saab vendeu ainda
radares e sistemas de sensores para equipar a fragata Vasco da Gama no processo
de modernização que está a decorrer no Alfeite. E também camuflagem para os jipes VAMTAC usados pelo exército.
Mas a empresa sueca está atenta ao Plano Nacional de Investimentos em Defesa, e
à anunciada lista de compras de Portugal de 5,8 mil milhões de euros. “Vamos ver o que vão comprar. A nova LPM (Lei
de Programação Militar) surgirá dentro de alguns meses. Creio que estão à
espera de ter dinheiro para comprar coisas novas. Esperamos que tanto a Força
Aérea como a Marinha e o Exército recebam dinheiro, mas ainda não sabemos”,
confessa o responsável da Saab para Portugal.
O que não deverá chegar a Portugal é
o “Top Gun” da Saab, um dos equipamentos mais populares que os suecos fabricam
actualmente, devido ao “custo-benefício”. O GlobalEye é um
“radar voador”, que originalmente é um avião a jacto da canadiana Bombardier,
que é “despido” na fábrica pelos suecos e transformado num radar com
equipamento e sistemas capazes de monitorizar áreas de muito grandes dimensões.
“Com este avião é possível ver o telescópio de um
submarino”, exemplifica
Daniel Boestad. “Se Portugal o comprasse, conseguiria cobrir metade do
Atlântico”.
A jornalista viajou para Estocolmo a
convite da Câmara de Comércio Luso-Sueca
DEFESA SOCIEDADE FORÇA
AÉREA INVESTIMENTO ECONOMIA SUÉCIA EUROPA MUNDO
COMENTÁRIOS
Jacinto Leite: Nenhum destes caças tem a autonomia necessária para defender as
colónias.
graça Dias: Com
este governo de Luís Montenegro, Portugal irá continuar mergulhado no marasmo económico, cultural e social. Luís
Montenegro = flope. Pertinaz: Na Suécia a corrupção é muito menor…
Uiros Ueramos: 2.º
Round das grandes decisões estratégicas de defesa. Portugal está novamente
perante uma decisão estratégica de longo prazo. Tal como aconteceu recentemente
na escolha das novas fragatas, não se trata apenas de escolher um equipamento:
trata-se de definir o posicionamento militar e tecnológico do país durante as
próximas décadas. No primeiro “round”, na escolha das fragatas, Portugal tomou
uma decisão sensata ao optar por uma plataforma oceânica robusta, próxima em
deslocamento e capacidade de um destroyer ligeiro, em vez de uma fragata
mais leve. A lógica foi simples: num país com recursos limitados, mais vale
investir em plataformas com maior capacidade e margem de evolução ao longo do
tempo do que em soluções mais baratas mas estruturalmente limitadas. Agora
chegamos ao segundo round: a substituição dos F-16. Nos últimos meses tem sido
visível uma campanha intensa de promoção do Gripen E. No entanto, quando
analisamos a questão de forma fria, a comparação com o F-35 revela-se
profundamente assimétrica.O Gripen E é um caça de 4,5 geração, concebido
com filosofia de caça ligeiro: menor peso, menor carga útil, menor alcance e
persistência em missão, dependência maior de guerra electrónica e de apoio
externo em cenários de alta ameaça.O F-35, por outro lado esta noutro nível,
pertence à 5.ª geração e foi concebido para um paradigma operacional
completamente diferente: furtividade real (Very Low Observable), fusão avançada
de sensores, guerra em rede, capacidade de penetração em ambientes altamente
contestados. Trata-se de duas gerações tecnológicas diferentes.Para um país
como Portugal, com orçamento de defesa limitado esta diferença é ainda
mais importante. Quando os números são reduzidos, a qualidade e a sobrevivência
de cada aeronave tornam-se decisivas. Uma frota pequena de aeronaves com
elevada capacidade de sobrevivência e consciência situacional pode gerar mais
poder militar efectivo do que uma frota maior de plataformas de geração
anterior. F-35 é o que a nossa FA precisa. Daniel
José: Portugal
lá tem dinheiro para os F35