Paga quem devia saber.
Mensagens no Telegram, pessoas
"descartáveis" e actos de vandalismo. A nova espionagem russa para
minar o apoio à Ucrânia
O
Kremlin não usa espiões, mas "agentes descartáveis"
que fazem actos de vandalismo, sabotagem e propaganda a troco de dinheiro. A
Europa ainda está a aprender a responder a esta mudança.
TEXTO
INÊS CORREIA: ILUSTRAÇÃO
OBSERVADOR, 04 abr. 2026, 23:37
10
ÍNDICE
A espionagem
como um “serviço” contratado a grupos economicamente vulneráveis
Um método
mais económico, fácil de substituir e difícil de rastrear
Minar o apoio à Ucrânia, semear ansiedade e mostrar
impunidade. Os objectivos de Moscovo
A necessidade
de uma resposta unida, de acção digital e políticas de integração
“Não
te esqueças da pátria. E partilha mais informação”. “Estamos à procura de
camaradas que peguem fogo à loja de imigrantes negros”. As mensagens chegam
através do Telegram, tanto em conversas privadas
como em grupos, e são
enviadas por agentes dos serviços secretos russos. Mas a
Guerra Fria acabou, o KGB já não existe e a espionagem russa mudou de rosto — e
de métodos. Em 2026, os
espiões de Moscovo são agora pessoas comuns contratadas para uma só acção. São “agentes descartáveis”.
É através da internet que o Serviço de Segurança Federal (FSB, na sigla em russo) e a Direcção
do Estado-Maior das Forças Armadas (GRU, na sigla em russo) recrutam pessoas comuns na Europa, em
mensagens que começam de forma “inocente” e evoluem para pedidos para que
partilhem informações ou cometam actos de vandalismo, a troco de dinheiro. Face
a esta realidade, as autoridades alemãs lançavam, no ano passado, um
aviso: “Não
responda a estas tentativas de recrutamento!”
A estratégia começou a ser
implementada em 2018, depois de Sergei Skripal (antigo agente secreto russo que tinha
trabalho como agente duplo para o Reino Unido) e a filha terem sido envenenados
com Novichok, mas tornou-se muito mais evidente a partir de 2022, depois
da invasão da Ucrânia. Os dois momentos levaram as nações ocidentais,
principalmente na Europa, a expulsar
centenas de diplomatas. Sem redes de recolha de informação no terreno, a Rússia
desenvolveu novos métodos, exequíveis à distância.
"É um jogo a longo prazo, que não é só sobre resultados imediatos,
como a disrupção da logística, também é sobre a opinião pública." Andrei Soldatov, jornalista russo no exílio e especialista nos serviços de segurança
russos
ÍNDICE
A espionagem como um “serviço” contratado a grupos
economicamente vulneráveis
Um método mais económico, fácil de substituir e
difícil de rastrear
Minar o apoio à Ucrânia, semear ansiedade e mostrar
impunidade. Os objectivos de Moscovo
A necessidade de uma resposta unida, de acção digital
e políticas de integração
“A mudança para um modelo de
espionagem assente na gig-economy foi
principalmente uma adaptação forçada e não uma escolha estratégica preferível”, aponta CHARLIE
EDWARDS, analista de estratégia e segurança nacional no Instituto Internacional
para Estudos Estratégicos (IISS na sigla original), ao Observador.
Porém,
a mudança de estratégia não tornou a espionagem russa menos eficaz na Europa.
Nos últimos quatro anos, repetiram-se
casos de sabotagem e interferência — num dos casos recentes mais
mediáticos, três
linhas de caminho-de-ferro francesas foram danificadas no dia em que começaram
os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024 — que, pela
sua própria natureza, impedem a responsabilização da Rússia, apesar das
suspeitas nesse sentido — e
que, apontam os especialistas, podem prejudicar o apoio europeu à Ucrânia. “É um jogo a longo prazo, que não é só sobre resultados
imediatos, como a disrupção da logística, é também sobre a opinião pública”, sintetiza Andrei Soldatov, jornalista russo no exílio e especialista nos serviços de segurança
russos, ao Observador.
A espionagem como um “serviço”
contratado a grupos economicamente vulneráveis
O alerta para “não esquecer a pátria e continuar a
partilhar informação” foi
enviado, em 2023, a um estudante de 21 anos de Moscovo por um agente do FSB
com quem falava há mais de um ano, numa troca de mensagens agora revelada
pelo Politico.
O jovem foi chantageado pelo FSB para colaborar com eles depois de ter sido
detido pelos agentes e pressionado, ao longo de vários meses, para se aproximar
de um grupo de activistas, o Vesna, para recolher informações sobre o seu
líder. Os dois agentes com quem contactava utilizavam uma estratégia de “polícia bom, polícia mau”, em que um agente se revelava mais
agressivo e o outro apaziguador e encorajador.
O caso noticiado pelo Politico é um
exemplo do tipo de alvos escolhidos pelas secretas russas, que são definidos
pelos especialistas como “alvos fáceis”:
jovens, imigrantes, pequenos criminosos
ou pessoas “economicamente vulneráveis“, como define Charlie Edwards. A
este perfil, podem somar-se ainda motivações ideológicas, como uma inclinação
pró-Rússia ou anti-Ucrânia. “Circunstâncias económicas precárias mais
um alinhamento ideológico é basicamente o pacote ideal”, resumiu
Hans
Jakob Schindler, responsável do Projecto Contra Extremismo, à Euronews.
▲ A maior parte do recrutamento é feito em
grupos e chats online SOPA
Images/LightRocket via Gett
ÍNDICE
A espionagem como um “serviço” contratado a grupos
economicamente vulneráveis
Um método mais económico, fácil de substituir e
difícil de rastrear
Minar o apoio à Ucrânia, semear ansiedade e mostrar
impunidade. Os objectivos de Moscovo
A necessidade de uma resposta unida, de acção digital
e políticas de integração
Por outro lado, a forma como este jovem foi contactado pelo FSB não foi
a mais comum. Normalmente, os alvos são contactados através de
mensagens colocadas em grupos, onde imigrantes procuram trabalhos pontuais ou
onde se reúnem pessoas com ideologias semelhantes — como é caso do
anteriormente referido pedido para “um camarada que pegue fogo”, enviado num
grupo de pessoas defensoras da supremacia branca. Noutros casos, as mensagens são colocadas como ofertas de trabalhos e
só depois revelado que os
trabalhos são, na verdade, crimes.
Este
modelo trata a espionagem não como uma carreira (como acontecia com o KGB), mas
como um serviço que pode ser efectuado de forma pontual, a troco de
dinheiro — integrado no conceito de uma “gig economy“, ou seja, uma economia
baseada em pequenas tarefas. E as tarefas que estes “agentes” podem efectuar
são muito variadas. No caso noticiado pelo Politico, o trabalho do jovem
estudante era aproximar-se de opositores políticos do Kremlin e recolher
informações sobre eles.
Os incêndios também são actos de sabotagem comuns e podem visar
negócios de minorias ou ter uma escala maior, como
uma loja do IKEA na Lituânia em 2024, ou um centro comercial na Polónia, que
ficou completamente destruído. Os “agentes” podem ainda ser incumbidos
de distribuir propaganda ou realizar actos de vandalismo.
Todos os pagamentos são feitos através
de criptomoeda, com preços que podem ir dos cinco euros (para colocar um
cartaz de propaganda) aos 400 (para instalar uma câmara), segundo uma
investigação do jornal The Guardian.
Contudo, Charlie
Edwards elenca alguns actos de vandalismo que podem ter um
efeito muito mais directo no apoio europeu ao esforço de guerra ucraniano:
pegar fogo a uma empresa de armamento na Alemanha,
danificar linhas de comboios na Polónia, onde circula este armamento, ou
bloquear sinais de GPS que impedem a circulação de aviões. Os
efeitos destas ações são semelhantes, aponta, aos dos navios da “frota
fantasma” russa, utilizados para danificar oleodutos e cabos de comunicação na
superfície marítima.
"Uma
grande vulnerabilidade [da Europa] é que os sistemas legais europeus foram
desenhados para tempos de paz e muitas vezes tratam estes ataques
híbridos como crimes domésticos isolados ou vandalismo, em vez de os tratarem
como guerra coordenada e dirigida por um Estado." CHARLIE
EDWARDS, analista de estratégia e segurança
nacional no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS)
ÍNDICE
A espionagem como um “serviço” contratado a grupos
economicamente vulneráveis
Um método mais económico, fácil de substituir e
difícil de rastrear
Minar o apoio à Ucrânia, semear ansiedade e mostrar
impunidade. Os objectivos de Moscovo
A necessidade de uma resposta unida, de acção digital
e políticas de integração
Um método mais económico, fácil de
substituir e difícil de rastrear
A
mensagem que procurava alguém disponível para provocar um incêndio numa loja
foi lida por Serhiy S, um refugiado ucraniano de 49 anos, que acabou por ser
detido na Polónia antes de ter cometido o crime, quando ia a caminho da
Alemanha, descreveu o The Guardian. Acabou julgado em fevereiro do ano passado e
foi condenado a oito anos de prisão. Da parte da Rússia, nunca houve qualquer esforço para defender
Serhiy ou as dezenas de outras pessoas que, ao longo dos últimos anos, foram
detidas e julgadas por acusações semelhantes.
A apatia russa tem duas explicações
evidentes. Por um
lado, é muito fácil substituir um “operacional” como Serhiy. “Põe-se uma pessoa
na prisão e outra aparece no seu lugar. Estas pessoas são descartáveis e
Moscovo não quer saber delas“, afirmou um responsável de segurança europeu ao
jornal britânico. Mas a
facilidade com que a Rússia consegue substituir estas pessoas não se explica
apenas com as características do recrutamento online. Ao Observador, Andrei
Soldatov destaca como “para este tipo de operações [de sabotagem] pessoas
recrutadas de forma pontual são mais adequadas, pelo que esta opção é mais
económica”.
Por outro lado, torna-se
muito mais difícil responsabilizar a Rússia por acções isoladas quando a
única ligação entre os detidos e os agentes secretos são mensagens no Telegram.
Numa primeira instância, os ataques
podem nem ser imediatamente associados à Rússia — afinal, casos de vandalismo
ou sabotagem ocorrem muitas vezes fora de contextos de guerra e a associação a
um conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia pode não ser imediata. Mas mesmo
quando a frequência dos ataques aponta para uma guerra híbrida de Moscovo, a acção
judicial é difícil.
“Uma grande vulnerabilidade
[da Europa] é que os sistemas
legais europeus foram desenhados para tempos de paz e muitas vezes tratam estes
ataques híbridos como crimes domésticos isolados ou vandalismo, em vez de os
tratarem como guerra coordenada e dirigida por um Estado”,
argumenta Charlie Edwards, que ressalva ainda que cada país utiliza uma definição legal diferente de sabotagem, o que
dificulta ainda mais as respostas coordenadas além fronteiras e a “utilização
de ferramentas de financiamento para conta-terrorismo”.
▲ Para
os responsáveis europeus, o combate à espionagem "clássica" era mais
fácil
https://www.nytimes.com/2018/11/12/opinion/russia-meddling-disinformation-fake-news-elections.html
ÍNDICE
A espionagem como um “serviço” contratado a grupos
economicamente vulneráveis
Um método mais económico, fácil de substituir e
difícil de rastrear
Minar o apoio à Ucrânia, semear ansiedade e mostrar
impunidade. Os objetivos de Moscovo
A necessidade de uma resposta unida, de ação digital e
políticas de integração
Já Andrei Soldatov considera
que as dificuldades europeias também advêm do facto de esta ser a primeira vez que a Rússia utiliza a guerra
híbrida contra a Europa em larga escala, pelo que o continente foi apanhado
desprevenido. “Isto não existia durante a Guerra Fria, o KGB tinha a
opção de sabotagem ao seu dispor, mas nunca a utilizou na Europa”, afirma. Na comparação entre as duas
estratégias, um responsável europeu ouvido pelo The Guardian é conclusivo: “É mais fácil lidar com espiões sob disfarces
diplomáticos ou até [infiltrados] ilegais”.
Minar o apoio à Ucrânia, semear
ansiedade e mostrar impunidade. Os objectivos de Moscovo
Em janeiro de 1963, o KGB partilhou
com os seus parceiros na Checoslováquia a doutrina que define os três
principais objectivos de operações de sabotagem. Num memorando do
ano seguinte, a agência soviética apelava a que nenhum plano ou estratégia
fosse posto no papel, por questões de segurança, mas os agentes checoslovacos
não seguiram esta directiva e mantiverem todas as anotações sobre esta
doutrina, o que serviu de base à análise de Daniela Richterova,
professora do Departamento de Estudos
de Guerra da King’s College, em Londres.
Os três objectivos incluíam explorar
e aprofundar tensões já existentes dentro da NATO, danificar a capacidade
económica e financeira e minar a unidade dentro do bloco de influência
norte-americano. Mais de 60 anos depois, as estratégias
podem já não ser as mesmas, mas Charlie Edwards salienta objectivos muito
semelhantes na acção actual da Rússia.
“A campanha de espionagem e sabotagem
está desenhada para impor custos económicos, sociais e psicológicos severos à
Europa, para esgotar a vontade política de apoiar a Ucrânia”, destaca o especialista. Em alguns dos exemplos já
mencionados, os custos são claros: quando se pega fogo a uma
fábrica, isso atrasa a produção de armamento; quando se destrói um carril, esse
armamento atrasa-se a chegar à Ucrânia; quando se interfere no GPS,
perturbam-se as comunicações entre Kiev e os aliados. Mas estas consequências
não são visíveis no caso de um incêndio no IKEA, por exemplo.
▲ O
ataque a fábricas e transportes europeus afecta directamente o apoio à Ucrânia
MARTIN DIVISEK/EPA
Índice
A espionagem como um “serviço” contratado a grupos
economicamente vulneráveis
Um método mais económico, fácil de substituir e
difícil de rastrear
Minar o apoio à Ucrânia, semear ansiedade e mostrar
impunidade. Os objectivos de Moscovo
A necessidade de uma resposta unida, de acção digital
e políticas de integração
Em todos os casos, há um outro objectivo, mais indirecto: o
de semear o caos na Europa. Estes
incidentes “interrompem a vida quotidiana e semeiam a ansiedade pública”, pondera o
analista do IISS. Este
sentimento de ansiedade é alimentado pela insegurança directamente causada pela
sucessão de incidentes, mas também pelo facto de os crimes serem cometidos por
uma enorme rede de “agentes”, criando uma desconfiança entre a população sobre
quem pode ou não fazer parte destes grupos.
Em terceiro lugar, as acções
da Rússia contra a Europa mostram ainda que, apesar das sanções e barreiras
políticas à acção no continente, Moscovo continua a agir contra os 27. “A intenção não é apenas neutralizar alvos
individuais, mas assinalar a Bruxelas e às capitais europeias o seu alcance e
impunidade”, ressalva um relatório
de análise à guerra híbrida russa, publicado esta semana pelo
Center for European Policy Analysis (CEPA).
A necessidade de uma resposta unida, de
acção digital e políticas de integração
O
dia 24 de fevereiro de 2022 marcou um ponto de viragem para a União Europeia (UE). Com a guerra às portas do bloco pela primeira vez em
mais de duas décadas, Bruxelas foi confrontada com as suas limitações e começou
a apostar, de forma inédita e acelerada, na defesa e na segurança. Porém, se
esta limitação revelava uma falta de
preparação, a incapacidade para lidar com a guerra híbrida revela antes uma
falta de experiência com esta realidade.
Tendo isto em conta, os
especialistas argumentam que a Europa “ainda está a aprender” a fazer
frente aos novos espiões russos, mas já foram feitos alguns progressos.
Entre estes, Charlie Edwards salienta, na esfera legal, a Lei de
Segurança Nacional do Reino Unido, de 2023, que endureceu as penas para uma condenação por
colaboração com serviços secretos estrangeiros, aproximando-a da pena por
terrorismo. E,
na esfera militar, o lançamento da operação “Sentinela
do Báltico”, para proteger
os cabos submarinos na região.
"Querem que [os russos] se integrem porque isso é a melhor vacina contra
actividades ilegais." Kirill Shamiev,
analista do European Council on Foreign Relations e responsável por um estudo
sobre imigrantes russos na Europa
ÍNDICE
A espionagem como um “serviço” contratado a grupos
economicamente vulneráveis
Um método mais económico, fácil de substituir e
difícil de rastrear
Minar o apoio à Ucrânia, semear ansiedade e mostrar
impunidade. Os objectivos de Moscovo
A necessidade de uma resposta unida, de acção digital
e políticas de integração
Contudo, os especialistas destacam duas vulnerabilidades na
abordagem europeia. Por um lado, a
resposta continua a ser desconjuntada, fragmentada entre os 27 e os seus
aliados. Tal como em muitas outras áreas de acção, uma resposta conjunta seria mais eficaz. Por outro lado, além de olhar
para a esfera militar e legal, a acção
europeia devia ir à raiz do problema e olhar para o processo de
recrutamento. Christopher Nehring, analista
do Cyberintelligence Institute, acusa,
num artigo
de análise, a campanha alemã do ano passado, promovida no site das
autoridades e em cartazes, de ser
insuficiente e “não chegar ao público alvo“.
Dando o exemplo da abordagem
ucraniana, Nehring sugere
que as autoridades europeias deviam criar campanhas de sensibilização directamente
nas redes sociais, em escolas e universidades, e, em geral, onde se encontram
os alvos do recrutamento russo. O especialista argumenta ainda
que a UE deveria agir com perfis falsos e chatbots de
Inteligência Artificial para criar falsos processos de recrutamento que
mantenham os agentes russos ocupados.
Kirill Shamiev, analista do European Council on Foreign Relations e responsável
por um estudo sobre imigrantes russos na Europa, propõe,
em declarações ao Politico, uma terceira possibilidade: a
aposta na integração destes imigrantes, que são muitas vezes visados como
recrutas, afastando-os da instabilidade financeira e da alienação que faz deles
alvos fáceis. “Querem que
[os russos] se integrem porque isso é a melhor vacina contra actividades
ilegais”, aponta.