Pessoas como PATRÍCIA FERNANDES e tantas
mais que conhecemos - de hoje, como de ontem – tornam um país grande sempre,
apesar das fragilidades desse país. Defender a sua HISTÓRIA, que foi grandiosa
e valente, é sempre bonito – e aquece a alma de quem bem sentiu o desmoronar
dessa mesma HISTÓRIA fabulosa – especialmente porque, sendo pequeno o espaço
ocupado por esse povo, esse se foi alargando em feitos de extraordinário
relevo, que dantes se memorizavam, pois havia quem o impusesse. Mas hoje ainda
há quem o faça, motu proprio. O nosso
reconhecimento a PATRÍCIA FERNANDES, pela MEMÓRIA que nos traz, sintoma, para
mais, de honestidade intelectual, além do tal amor pátrio que hoje transparece mais
aquando dos feitos desportivos.
Europa
Um colosso com pés de barro
Se fomos assim tão brilhantes, o que aconteceu para que tivéssemos
perdido esse impulso? Por que razão fomos capazes de iniciar uma revolução
científica na navegação como ficámos depois para trás?
PATRÍCIA FERNANDES, Professora na Escola de Economia e Gestão da
Universidade do Minho
OBSERVADOR, 13 abr. 2026, 00:20
1As epopeias
Se os classicistas tendem a considerar a Ilíada como o poema homérico por excelência, a
verdade é que o texto que narra as aventuras de Odisseu é muito mais popular,
tendo inspirado uma longa lista de outras obras. A mais popular de todas talvez
seja aquela que procurou fazer para os romanos o mesmo que Homero tinha feito
para os gregos: uma epopeia capaz de dar forma a um povo.
Refiro-me à ENEIDA, que o poeta
Virgílio oferece ao imperador Augusto, para contar de que modo uma cidade que
nasceu da disputa entre irmãos se transformou no mais poderoso império do
mundo. A Eneida junta os dois temas homéricos anteriores:
narra as guerras e aventuras do troiano Eneias, de cuja descendência farão
parte Remo e Rómulo, que foge de Troia na terrível noite do assalto à cidade e
acaba por navegar até à costa itálica, protegido por Vénus (Afrodite), sua mãe.
Jean Baptiste Joseph Wicar, Virgil
Reading the “Aeneid” to Augustus, Octavia, and Livia (1790–93)
Não deixa de ser interessante notar como os romanos seriam, assim,
descendentes de um troiano vencido pelos gregos, os mesmos gregos que seriam
derrotados pelos romanos vários séculos depois – numa clara consciência de que
a história humana se traduz numa narrativa comum construída a partir de
conflitos, derrotas e vitórias.
Quando os clássicos
regressam, marcando o final da Idade Média e inaugurando a modernidade, muitos
poetas tentaram replicar as epopeias clássicas, narrando a história dos seus
heróis locais. Portugal teve também o seu poeta e a sua epopeia, mas com uma
característica específica: ela não versa sobre a história de um herói, mas
sobre a história de um povo. E é por isso que não tem um
nome singular, mas plural: OS LUSÍADAS.
2Os Portugueses
Durante muito tempo pensei que
se tratava de uma inovação de Camões: um rasgo poético que o fez escrever em
nome de um povo e não pela criação de uma personagem mítica, qualquer que ela
fosse. Até que conheci o argumento de
Henrique Leitão, e que podem ouvir em conversa com José Maria Pimentel ou com Miguel Milhão.
De acordo com Henrique Leitão, esta não é uma
particularidade camoniana. O
que acontece é que ela reflecte uma forma de pensar daquele período (séculos XV
e XVI), marcado pelos Descobrimentos que inauguravam uma fase única e
verdadeiramente revolucionária no mundo. Pela
primeira vez, os homens tinham à sua disposição ferramentas que permitiam a
navegação longe da costa e foi essa proeza a garantir uma escala de navegação
mundial nunca antes conseguida.
Citando Pedro Nunes, Henrique Leitão recorda que os “descobrimentos não se
fizeram indo a acertar”, querendo com isto dizer que não foi por uma questão de
sorte. O sucesso português
resultou, pelo contrário, da introdução de conhecimentos técnicos e científicos
na navegação, o que permitiu, como diz Pedro Nunes, “mareantes muito ensinados e
providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria”.
A consciência deste aspecto
revolucionário, quer em Portugal quer no resto da Europa, deu origem ao que
Henrique Leitão designa como “anomalia
discursiva”, ou seja, um intervalo no discurso de lamentação sobre o país.
Durante aquele século e meio, havia a consciência de que estávamos à frente nos
avanços científicos, conseguindo fazer em algumas décadas aquilo que os antigos
não tinham conseguido fazer em séculos.
Este feito incrível foi historicamente desvalorizado por uma razão que
se prende com o método tradicionalmente utilizado para fazer história da
ciência e que consiste em explicar a sua evolução com recurso a figuras geniais
(os tais heróis). E, de facto, se procurarmos em Portugal,
mesmo nesse período, génios da ciência, não os encontraremos – mas encontramos
um trabalho colectivo de muitos elementos que construíram as primeiras bases da
navegação científica. E, por isso, os textos da altura não falam em
génios ou heróis: falam d’os portugueses.
Mas não fujamos ao problema: se fomos assim tão brilhantes, o que
aconteceu para que tivéssemos perdido esse impulso? Por que razão fomos capazes
de iniciar uma revolução científica na navegação e empreender um projecto nunca
antes realizado, mas ficamos depois para trás?
Têm
sido avançadas várias respostas a esta questão, mas para Henrique Leitão foi um
problema de política educativa. À medida que a matemática e
a ciência iam ficando mais complexas, era necessária uma estrutura de ensino
mais sólida. Os outros países fizeram-no (em especial, Inglaterra e Holanda);
nós, não, pelo que ficamos para trás.
3Um colosso com pés de barro
É difícil não sentir um calor
na barriga quando ouvimos Henrique Leitão. Um calor que resulta da afeição pelo próprio país, e
que devíamos cultivar, não como forma de arrogância, mas porque só é possível
melhorar aquilo que amamos.
O problema é que é cada vez mais
difícil amar um país e tornarmo-nos dispostos a fazer sacrifícios para o
melhorar – em vez da solução de emigrar, como o discurso que medra entre os
jovens estudantes –, quando o discurso público e escolar é marcado pela
tentativa permanente de desvalorizar o patriotismo, o compromisso comunitário
e, em particular, a história e o passado do país.
Como historiador da ciência, é natural
que Henrique Leitão se deixe encantar pela revolução científica empreendida
pelos navegadores portugueses. Pela
minha parte, o que acho realmente espantoso é a coragem desmedida que era
necessária para que aqueles homens se metessem em barcos tão pequenos e se
dispusessem a ir por mares nunca antes navegados, sujeitando-se às intempéries
de que já tinham ouvido falar, mas sobretudo aos medos que desconheciam e que
nos aparecem à noite como sonhos pegajosos.
Pela minha parte, fico espantada com
a coragem. Em
particular, pela comparação com os medos que preocupam e paralisam as gerações
mais novas, e que passam por recear testes, tipos de comida e… palavras. Para onde
foi toda aquela coragem? Sim, já sabemos que foram cometidas atrocidades – e
bem terríveis – em todo esse processo (a história está cheia delas): e, ainda
assim, que coragem.
E é difícil não nos lembrarmos dessa
coragem quando ouvimos falar na resolução recentemente aprovada pela ONU, que
usa o estratagema de declarar que a escravatura foi o maior crime cometido
contra a humanidade para fundamentar, politica e talvez juridicamente, o
pagamento de reparações a certos países. O tema já foi discutido por Miguel Morgado e por João Pedro Marques, sempre incansável
nesta luta, em relação às questões mais técnicas. Mas não queria deixar de
fazer notar como, culturalmente, a Europa tem feito solidamente o caminho para
o declínio da coragem.
O fenómeno não é novo. Vejamos as palavras de Alexandre Soljenitsin no final da década de 1970:
“É,
talvez, o declínio da coragem o que mais chama a atenção dum estrangeiro
no Ocidente de hoje. A coragem cívica não só desertou globalmente do mundo
ocidental, mas também de cada um dos países que o compõem, de cada um dos seus
governos, de cada um dos seus partidos e, bem entendido, da Organização das
Nações Unidas [e] é particularmente sensível na camada dirigente e na camada
intelectual dominante (…).”
A Europa, outrora um gigante
intelectual, cultural e político, parece-se hoje com o colosso de pés de barro
descrito no livro de Daniel:
“uma enorme estátua (…) de um brilho extraordinário, mas de um aspecto
terrível. Esta estátua tinha a cabeça de ouro fino, o peito e os braços de
prata, o ventre e as ancas de bronze, as pernas de ferro, os pés metade de
ferro e metade de barro.” (Dn 2, 31-35)
E quando uma pedra se desprendeu da montanha e bateu naqueles pés de
ferro e argila, os pés ficaram esmigalhados e tudo se transformou em pó levado
pelo vento sem deixar vestígio.
A base de qualquer civilização – os
seus pilares – tem de estar assente em amor próprio e coragem, sob pena de
facilmente desaparecer. E é por essa razão que a complacência dos dirigentes da
ONU e dos países europeus que se abstiveram na resolução se torna vergonhosa.
Será preciso lembrar, como nos diz Soljenitsin,
“que o declínio da coragem foi sempre
considerado como um sinal precursor do fim?”
Ocidente
Mundo Europa
COMENTÁRIOS:
Carlos Chaves: É sempre um enorme
prazer ler os textos da Patrícia Fernandes, muito obrigado! Já que menciona
aqui o Miguel Morgado, ele liga a nossa decadência (mais recente), no ocidente
(Europeu), à nossa descristianização promovida pela esquerda (socialistas e sociais
democratas), depois de os democratas cristãos terem construído a Europa que
conhecemos até há bem pouco tempo!
Francisco Almeida: Mais um excelente
artigo de Patrícia Fernandes. Nos Descobrimentos, vou bastante mais longe do que
Henrique Leitão. A supremacia dos portugueses não foi apenas nas ciências da
navegação, foi-o também na construção naval (a caravela seria o Ferrari da
época e uma nau que visitou Inglaterra atraiu multidões pois era 4 vezes maior
do que o que os estaleiros ingleses produziam), foi-o também no arrmamento em
que os canhões de bronze tinham mais alcance e maior calibre que os de ferro de
todo o resto do mundo. Foi assim uma obra colectiva, não no sentido actual da
palavra mas no sentido de cooperação direccionada. A célebre Junta dos
Matemáticos, de D. João II integrava um judeu e um muçulmano
"espanhol". Tenho dúvidas de que tivesse já passado o tempo dos
heróis e prefiro ver uma adaptação dos heróis de chefes militares a chefes de
sociedade. Os Descobrimentos nunca teriam sido possíveis sem o Infante D.
Pedro e depois o seu sobrinho e neto o rei D. João II.
Aceito a decadência de Portugal ligada ao
ensino, sobretudo depois de Nuno Palma revelar a verdade sobre o marquês de
Pombal. Mas acho perturbador que o Infante D. Pedro e o rei D. João II tenham
morrido assassinados, como depois o rei D. Carlos e o presidente-rei Sidónio
Pais. Parece que forças malignas - os representantes actuais dos deuses gregos
- eliminam quem tenta dar grandeza ou retirar Portugal da inferioridade.
Meio Vazio: Excelente, como sempre.
Ludovicus: Obrigado. Leio sempre. Hoje é duro. Falta
de coragem? Por mim pode ainda ser mais dura.
graça Dias: Senhora Professora Patrícia Fernandes:
Um artigo brilhante com analogias da Antiguidade
Clássica aqui enquadradas e relembradas com pertinência, e o paralelismo com o
nosso Grande poeta - CAMÕES - que
na sua obra magistral não exalta um herói, mas sim todo um povo. O período dos DESCOBRIMENTOS foi a nossa
época de "Ouro ", que se traduziu em conhecimento técnico,
científico e muita audácia por parte de um povo. Portugal construiu um
grande império marítimo, que deu origem à primeira economia global, não
obstante sermos um país pequeno e pobre. Este glorioso período da
nossa História, também ele revelador da nossa identidade, muitos pretendem apagar e
reescrever, tendo por base dogmas inauditos e sórdidos, que estão identificados
no que foi a " corrupção " no ensino em que o conhecimento foi
preterido, dando lugar a programas de fantasias ideológicas!...o relativismo
epistemológico que hoje grassa nas nossas escolas, nos ISCTEs e em outras
universidades, baseia-se na destruição da nossa História e da nossa identidade
como povo, através de conceitos de "pós-verdade" e em "factos
alternativos". Precisamos de muitos - João Pedro Marques - com o
seu saber e a sua contínua investigação ..., precisaríamos igualmente de um 1º
Ministro com maturidade política e cultural ( o que infelizmente se não
verifica), e que interiorizasse as palavras
de Alexandre Soljenitsin no final da década de 1970. ps.
A Europa caminha sonâmbula rumo ao obscurantismo e ao declínio ético
e moral. Manifesto o meu obrigada pelo excelente artigo.
S N: Excelente análise. Advertência muito pertinente e mais actual do
que nunca.