quarta-feira, 25 de março de 2026

Tanta energia


E sem travão, a humana


Médio Oriente

Activar alertas

Taiwan pondera retomar energia nuclear face a conflito no Médio Oriente

Em 2025 um terço do gás natural importado veio do Qatar e cerca de 70% do petróleo vem também do Médio Oriente, aumentando a vulnerabilidade a eventuais interrupções no fornecimento devido à guerra.

AGÊNCIA LUSA: Texto

OBSERVADOR, 24 mar. 2026, 09:19  

A empresa estatal Taipower está a trabalhar para obter as autorizações necessárias para reactivar as centrais de Kuosheng, no norte do país, e de Maanshan, no sul

RITCHIE B. TONGO/EPA

Taiwan iniciou os procedimentos para reactivar duas centrais nucleares, cerca de um ano após o encerramento do último reactor em funcionamento, devido à elevada procura energética associada à inteligência artificial e às tensões no Médio Oriente.

A empresa estatal Taipower está a trabalhar para obter as autorizações necessárias para reactivar as centrais de Kuosheng, no norte do país, e de Maanshan, no sul, indicou no sábado o líder taiwanês, William Lai.

Segundo Lai, a empresa deverá apresentar um plano à Comissão de Segurança Nuclear até ao final deste mês, sublinhando que a segurança nuclear, a gestão de resíduos e o consenso social são os “três factores-chave” a considerar.

A iniciativa surge após o encerramento do último reactor da central de Maanshan, em maio de 2025, que marcou o fim da era nuclear em Taiwan, na sequência do desmantelamento progressivo das centrais de Chinshan e Kuosheng entre 2018 e 2023.

A decisão anterior concretizou um dos principais objectivos do Partido Democrático Progressista, que defendia uma “pátria livre de energia nuclear”, especialmente após o acidente de Fukushima.

O “forte desenvolvimento económico” da ilha, a necessidade de electricidade com baixas emissões e o crescente consumo energético da indústria da inteligência artificial, a par de alterações legislativas recentes, levaram, porém, o Governo a reconsiderar a sua posição, reconheceu Lai.

O dirigente referia-se a uma lei aprovada no ano passado pelo parlamento, de maioria opositora, que passou a permitir a continuação das operações das centrais nucleares mesmo após entrarem em fase de desmantelamento.

O eventual regresso à energia nuclear é também explicado por factores geopolíticos. Em 2025, o gás natural liquefeito representou mais de 47% da produção eléctrica de Taiwan, sendo cerca de um terço importado do Qatar, segundo dados oficiais.

Cerca de 70% do petróleo bruto importado pela ilha provém igualmente do Médio Oriente, com destaque para Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, o que aumenta a vulnerabilidade a eventuais interrupções no fornecimento devido ao actual conflito na região.

Num comunicado, o ministério dos Assuntos Económicos indicou que o abastecimento de gás natural deverá manter-se estável até ao final de maio e que as importações já estão diversificadas por 14 países, reduzindo a dependência do Médio Oriente.

A dependência de combustíveis importados por via marítima expõe ainda Taiwan a um eventual bloqueio por parte da China, que considera a ilha parte do seu território e não exclui o uso da força.

Nas recentes manobras militares chinesas em torno de Taiwan, designadasMissão Justiça-2025”, o exército simulou cenários de bloqueio e tomada de portos e outras infraestruturas estratégicas.

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Há quem se divirta

 

A dizer “piadas”, ou a escutá-las, pois que também se diz que «Le rire est le propre de l'homme». Les larmes, aussi, hélas! - o ser humano possuindo capacidades em grau bem superior às dos demais espécimes animais, entre as quais também a fala, nas línguas várias deste mundo racional. Miguel Tamen assim se diverte, perscrutando tais horizontes da espiritualidade humana. Tudo isso admirável, de facto.

 

O riso e a graça

Para os engraçados a graça é um investimento sério, como no mercado de acções. O riso de terceiros é o lucro desse investimento.

MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

Alguém diz uma graça e outra pessoa ri-se; concluímos que se riu dessa graça, embora se possa ter rido de outra coisa que coincidiu no tempo com a graça, ou de quem disse a graça, em especial porque raramente imagina que alguém se possa rir dele.   É, não obstante, razoável concluir que na maior parte dos casos se riu por causa dessa graça, e também imaginar que existe uma relação entre uma coisa que foi dita (a graça) e uma coisa que aconteceu (alguém por perto rir-se): concluir que havia uma coisa especial, uma propriedade, naquilo que foi dito, que fez rir alguém.

Falar sobre propriedades é parecido com falar sobre substâncias activas. Talvez uma boa graça tenha uma substância activa que causa o riso. O óxido nitroso é um gás usado às vezes pelos dentistas como analgésico, mas que também causa o riso. Não é contudo nesse sentido que achamos que a graça tem propriedades que causam o riso. Com efeito, no dentista sorrimos irresistivelmente ao óxido nitroso; pelo contrário, gostamos de pensar que, apesar de nos rirmos imediatamente das boas graças, temos a escolha de não nos rir delas irresistivelmente, isto é, de não achar graça a uma graça. Quem se ri de uma graça gosta de pensar que poderia não lhe ter achado graça.

Quem diz a graça espera, regra geral, que quem a oiça se ria. Não espera porém como quem espera que as pessoas se riam irresistivelmente com o óxido nitroso. A diferença é como a diferença entre esperar que um gás cause riso e esperar por um autocarro. Mas há várias maneiras de esperar por um autocarro: esperar que as pessoas se riam das nossas graças não é como esperar que o autocarro chegue; ou sequer como esperar que o autocarro chegue nos próximos quatro minutos; é mais parecido com apostar com alguém que o autocarro vai chegar nos próximos quatro minutos. As esperanças do engraçado são como as esperanças de um apostador.  E para um apostador as propriedades daquilo que o fará ganhar a aposta não são o mais importante.

Para a maior parte das pessoas a vida não depende de esperarem que as suas graças tenham sucesso; e por isso não depende de fazerem apostas sobre se alguém se irá rir do que dizem. Mas o modo de vida dos engraçados depende de ganharem apostas dessasPara eles, a graça é um investimento sério, como no mercado de acções. O riso de terceiros é o lucro desse investimento: uma coisa que se passa no mundo, como numa assembleia de accionistas de uma companhia, e que prolonga a sua vida engraçadaSabemos que a vida de um engraçado corre bem quando o público começa a rir-se ainda antes da sua primeira graça; quando o público passa a apostar que o engraçado vai ganhar a sua aposta.

ERRO EXTREMO       OBSERVADOR

COMENTÁRIOS (de 29)
Novo Assinante: Muito bom. Lembro-me muito bem da Cathy Bernheim. Andei com ela na tropa era muito boa pessoa e muito bem comportada. Pelo contrário, o João Goulão era um trafulha quando estávamos a jogar copas, mas também me lembro que a companheira Fernanda fazia uns pastéis de bacalhau com arroz do mesmo muito saborosos. O fenómeno do Oregon State Law Case aprendi no terceiro ano de escolaridade quando tinha nove anos, não foi durante a tropa.

João Floriano: Se despejar dinheiro sobre a praga das drogas fosse a solução, então as famílias com recursos estariam livres do flagelo e da destruição que provoca porque bastaria resolver o problema com dinheiro. Mas o problema coloca-se sobretudo ao nível dos valores, do facilitismo e da destruição da família e do que está à sua volta. Os jovens e aqueles que não o sendo se eternizam numa adolescência irritante, sem fim , onde o amadurecimento não chega, adoram o facilitismo, o prazer imediato e resistir a drogas e outros vícios requer sacrifícios, muita disciplina, força de vontade, tudo coisas que eles não praticam ou não praticaram dado o facilitismo que sempre os acompanhou, o desprezo pela disciplina, pelos pais caretas que lhes pregam sermões sobre os charros que até são inocentes. Geralmente começa-se pelo cigarro, pelo charro e daí se faz o percurso para as outras drogas até chegar ao inferno das sintéticas. Pensemos em Amsterdão, uma cidade tradicionalmente amiga e permissiva de drogas leves em particular a cannabis. Um amanhecer na Praça Dam mostrava um cenário desolador de lixo, imundicie, dejectos, urina. Estive em Amsterdão em 2024 e estava em curso uma campanha para recuperar a cidade da cannabis. Anos atrás Zurique, vá-se lá saber os motivos, mas talvez devido a algum político iluminado, resolveu ser condescendente com as drogas. A experiência foi sol de pouca dura porque as principais ruas de Zurique ficaram praticamente destruidas, lojas fechadas e  com gente de toda a espécie, jovens e não só, deitados nos passeios. De um modo geral a Europa, Portugal incluido, é muito tolerante com o consumidor e com o pequeno traficante. E a droga é muito lucrativa para quem vende e destrutiva para quem consome. E não é apenas a estrutura familiar que fica abalada e muitas vezes desfeita pelo vício de um dos seus membros. Todos conhecemos vários casos. Em última instância é a própria Europa que fica abalada, fragilizada, desmoralizada

Paulo Cardoso: Tenho para comigo, admitindo poder encontrar-me errado, que o combate à situação instalada e ao seu antecipável agravamento, terá obrigatoriamente de retomar a penalização e criminalização do consumo. A pena, numa primeira detenção, passaria por uma desintoxicação ou, caso não fosse necessária, uma acção de formação preventiva, com a mesma duração e no mesmo regime dos programas de desintoxicação. À primeira reincidência, pena de prisão efectiva, sem mordomias, e prestação de serviço obrigatório à comunidade, sem qualquer remuneração. Quanto mais não fora, acabava com o artifício do traficante, na posse da quantidade que tão bem sabe qual é, poder alegar que é para consumo próprio. O combate ao narco tráfico, de tão enraizado que está, já só lá vai com o regresso à penalização do consumo. Agir a montante apenas, já não dá conta do recado. Há que actuar também a jusante.

Francisco Almeida: O filme "Os Incorruptíveis Contra a Droga" ilustra bem o problema da "guerra" contra a droga. Encarada apenas pelo lado da oferta, os meios necessários para a sua erradicação seriam incompatíveis com um Estado de direito e democrático. Trump está a repetir esse erro a nível internacional, combater a oferta sem limitar a procura. Há muito que estou convencido que, sendo a droga impossível de eliminar totalmente, o combate para a conter em níveis reduzidos, tem de ser dirigido também à procura, ilegalizando sempre e criminalizando por vezes. Como titula a profª Patrícia Fernandes, já se poderá falar sobre o problema das drogas mas, em Portugal, estamos ainda longe de o poder combater com eficácia, sequer, de mudar o paradigma. Salas de chuto para que a sociedade não tenha de se sentir incomodada com a visão da degradação e substituição de seringas, pelo mesmo motivo.

 

terça-feira, 24 de março de 2026

Saber distinguir


Entre o Bem e o Mal. É imprescindível, numa sociedade que se preze. Mas porquê tal permissividade a respeito desse flagelo?


Já podemos falar sobre o problema das drogas?

Não vale a pena despejar dinheiro para o problema se a questão cultural não for combatida e se não recuperarmos a capacidade de distinguir o certo do errado.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 23 mar. 2026, 00:2225Configurar

1Pensar a metapolítica

Já que temos vindo a falar de responsabilidade pelos mais novos, será que podemos, finalmente, falar sobre o problema das drogas? Durante muitos anos em Portugal isso não foi possível. Em virtude do sucesso da política de drogas que o país adoptou no início do novo milénio, e que tem sido referido como exemplo para o resto do mundo, tornou-se praticamente impossível chamar a atenção para o perigo de relaxarmos a nossa atitude em relação às substâncias psicoactivas e de importar a moda progressista de banalização do seu consumo.

Afinal, Portugal tinha encontrado a solução final – perfeita – e, por isso, era descabido ter interpretações diferentes sobre a solução ou introduzir preocupações sobre o tema.

O problema das drogas permite-nos, aliás, compreender como a análise política pode ser realizada a partir de perspetivas distintas. Por um lado, podemos concentrar-nos na dimensão económica de alocação de recursos e financiamento para os objectivos pretendidos e avaliar se as nossas medidas estão a produzir os efeitos desejados. Por outro lado, podemos alargar a nossa análise e fazer um exercício de “metapolítica”, colocando-nos ao nível do enquadramento cultural em que essas medidas são aplicadas – o que, em língua inglesa, se designa como “cultural politics”.

A maioria das análises é feita a partir daquela primeira perspectiva e é apropriada quando as condições sociais e culturais não se alteram de forma significativa. Porém, quando essa mudança acontece, a capacidade de análise fica afectada e, apesar de o problema dever ser agora analisado a partir de uma perspectiva metapolítica, o analista continua a usar as mesmas ferramentas e essas ferramentas levam-no sempre à mesma conclusão: trata-se de uma questão de recursos pelo que o Estado devia aumentar o financiamento e “despejar dinheiro em cima do problema”.

Na verdade, e em momentos de aceleração como os que vivemos hoje, o facto de algumas políticas terem deixado de funcionar pode resultar de uma alteração do quadro social ou cultural que deu forma às políticas iniciais. E muitos dos temas actuais devem ser vistos a partir desta alteração estrutural: seria, então, uma questão de repensar as políticas a partir do novo contexto social ou cultural e não uma questão de deitar mais dinheiro para cima do problema.

É este esforço de metapolítica que procuramos fazer todas as semanas e que consiste em tentar responder às seguintes perguntas: por que razão pensamos como pensamos e em que medida esse pensar determina as medidas políticas que adoptamos?

2Para lá do dinheiro do Estado

A maioria dos temas políticos mais difíceis dos nossos dias são difíceis precisamente porque uma mera análise das condições materiais não é suficiente: exigem uma análise metapolítica. É o que acontece com imigração, sem-abrigos, habitação e a maioria dos temas de bioética, como o aborto e a eutanásia. E é especialmente evidente no tema da saúde.

A crise na prestação estatal de cuidados de saúde é um tema, naturalmente, complexo e que que tem recebido muitas propostas de solução no patamar dos recursos. Mas a análise metapolítica pode contribuir para esta discussão, e para os futuros pactos para a saúde, recolocando o problema numa perspectiva mais ampla.

É que a alteração cultural que se verificou nas últimas décadas impossibilita que o problema possa ser resolvido simplesmente pedindo mais dinheiros públicos. A verdade é que vivemos hoje num paradigma de ânsia generalizada por vivermos mais tempo e, preferencialmente, sem dor nem doençaum paradigma gerado pelos incríveis avanços científicos que foram conseguidos nesta área.

Mas ter uma “saúde perfeita” exige e exigirá sempre cada vez mais recursos (o podcast Consulta Aberta é disso um excelente exemplo). Assim, de que resolverá despejar mais dinheiro no Serviço Nacional de Saúde se queremos cada vez mais serviços e mais complexos, desde procriação medicamente assistida a bebés de três pessoas, medicamentos devidamente comparticipados para resolver todos os problemas e disponibilização de todo o tipo de novas tecnologias para toda a gente?

Não é só um problema de financiamento – é também porque vivemos numa cultura de “biofelicidade”, como diz Cathy Bernheim, que nos faz querer sempre mais. E neste novo paradigma, as políticas públicas de saúde criadas na década de 1970 já não resultam.

Com as drogas passa-se algo de semelhante. Num determinado contexto social e cultural, criou-se uma política pública que deu bons resultados. Hoje essa política parece estar a falhar, como assinala João Goulão, e repetidamente ouvimos o mantra da falta de recursos e financiamento. Mas será que é apenas um problema de recursos?

3Uma cultura de excessos

Tive a felicidade de nascer na década de 1980, o que significa que conhecia, como toda a gente, casos de toxicodependência. Casos terríveis de jovens que se tinham tornado dependentes de drogas pesadas e que, antes de se dedicarem a roubar, a furtar ou a pedir, já tinham usado todos os recursos dos pais, esvaziado o conteúdo das suas casas, destruído as suas famílias. Era um problema social e não só pessoal: preocupava a comunidade e, por isso, se sentia mais compaixão do que desprezo por aqueles que tinham caído no vício, como se dizia então.

E quem cresceu nesses tempos, beneficiou de uma vacina natural: sabíamos que as drogas eram perigosas, continham a possibilidade de vidas destruídas e isso funcionou para uma geração como uma espécie de antídoto natural. Não queríamos ser nós a passar por aquilo, não queríamos ser nós a provocar aquela dor e destruir a nossa família e, por isso, não era normal consumir drogas, nem sequer as mais levesPara além disso, e como Maria Flor Pedroso recordou, num episódio recente do Radicais Livres, éramos recordados frequentemente de tudo isto por campanhas antidroga.

As medidas que foram aprovadas no final do século em Portugal reflectiam essa reflexão social e a sua dimensão comunitária – e é por isso que dificilmente conseguem ser replicadas noutros países (basta ver como a recente despenalização em Oregon teve de ser rapidamente revertida em resultado do caos que gerou). A importância da família e a existência de comunidades fortes permitiram que estas normas funcionassem entre nós: Portugal, ao contrário de muitos outros países, dispunha então dessa estrutura social.

Contudo, ao longo das últimas duas décadas, tudo isso desapareceu. Não só o efeito de antídoto natural se esvaziou com as novas gerações (como sempre acontece), como o discurso público se foi infiltrando pela ideia muito liberal e progressista de que o consumo de drogas é natural e bom: permite-nos relaxar, divertir e até ser mais inventivos e originais (embora, como disse Álvaro de Campos, “Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, / E a história não marcará, quem sabe?, nem um”). Para quê reprimir, para quê julgar, para quê dizer não, se a vida deve ser divertida?

O resultado está à vista, e agravado pela popularização das drogas sintéticas. Entre nós, o consumo de drogas para fins recreativos encontra-se normalizado na geração que nasceu no final do século e em várias classes profissionais e sociais (embora nenhuma me escandalize tanto como o consumo frequente por jovens médicos). Mas, contra aquilo que um professor de criminologia nos ensinou no último ano de um longínquo curso de Direito, as drogas leves não são leves, são drogas e os impactos do consumo de canábis estão hoje muito estudados, como notam os psiquiatras Henrique Prata Ribeiro e Gustavo Jesus. Defender que se trata de uma droga leve prejudica aqueles que deviam receber dos mais velhos orientação.

Quem analisa as razões que têm conduzido ao actual fracasso das políticas do início do século não deve esquecer, portanto, a dimensão metapolítica: não vale a pena despejar dinheiro para o problema se a questão cultural não for combatida e se não recuperarmos a capacidade de distinguir o certo do errado. E isso significa sermos responsáveis pelos mais novos e, claro, quanto ao que é aceitável no espaço público.

DROGAS            SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 25)

NOVO ASSINANTE: Muito bom. Lembro-me muito bem da Cathy Bernheim. Andei com ela na tropa era muito boa pessoa e muito bem comportada. Pelo contrário, o João Goulão era um trafulha quando estávamos a jogar copas, mas também me lembro que a companheira Fernanda fazia uns pastéis de bacalhau com arroz do mesmo muito saborosos. O fenómeno do Oregon State Law Case aprendi no terceiro ano de escolaridade quando tinha nove anos, não foi durante a tropa.                       JOÃO FLORIANO: Se despejar dinheiro sobre a praga das drogas fosse a solução, então as famílias com recursos estariam livres do flagelo e da destruição que provoca porque bastaria resolver o problema com dinheiro. Mas o problema coloca-se sobretudo ao nível dos valores, do facilitismo e da destruição da família e do que está à sua volta. Os jovens e aqueles que não o sendo se eternizam numa adolescência irritante, sem fim, onde o amadurecimento não chega, adoram o facilitismo, o prazer imediato e resistir a drogas e outros vícios requere sacrifícios, muita disciplina, força de vontade, tudo coisas que eles não praticam ou não praticaram dado o facilitismo que sempre os acompanhou, o desprezo pela disciplina, pelos pais caretas que lhes pregam sermões sobre os charros que até são inocentes. Geralmente começa-se pelo cigarro, pelo charro e daí se faz o percurso para as outras drogas até chegar ao inferno das sintéticas. Pensemos em Amsterdão, uma cidade tradicionalmente amiga e permissiva de drogas leves em particular a cannabis. Um amanhecer na Praça Dam mostrava um cenário desolador de lixo, imundície, dejectos, urina. Estive em Amsterdão em 2024 e estava em curso uma campanha para recuperar a cidade da cannabis. Anos atrás Zurique, vá-se lá saber os motivos, mas talvez devido a algum político iluminado, resolveu ser condescendente com as drogas. A experiência foi sol de pouca dura porque as principais ruas de Zurique ficaram praticamente destruidas, lojas fechadas e  com gente de toda a espécie, jovens e não só, deitados nos passeios. De um modo geral a Europa, Portugal incluido, é muito tolerante com o consumidor e com o pequeno traficante. E a droga é muito lucrativa para quem vende e destrutiva para quem consome. E não é apenas a estrutura familiar que fica abalada e muitas vezes desfeita pelo vício de um dos seus membros. Todos conhecemos vários casos. Em última instância é a própria Europa que fica abalada, fragilizada, desmoralizada.                       PAULO CARDOSO: Tenho para comigo, admitindo poder encontrar-me errado, que o combate à situação instalada e ao seu antecipável agravamento, terá obrigatoriamente de retomar a penalização e criminalização do consumo. A pena, numa primeira detenção, passaria por uma desintoxicação ou, caso não fosse necessária, uma acção de formação preventiva, com a mesma duração e no mesmo regime dos programas de desintoxicação. À primeira reincidência, pena de prisão efectiva, sem mordomias, e prestação de serviço obrigatório à comunidade, sem qualquer remuneração. Quanto mais não fora, acabava com o artifício do traficante, na posse da quantidade que tão bem sabe qual é, poder alegar que é para consumo próprio. O combate ao narcotráfico, de tão enraizado que está, já só lá vai com o regresso à penalização do consumo. Agir a montante apenas, já não dá conta do recado. Há que actuar também a jusante.                     FRANCISCO ALMEIDA: O filme "Os Incorruptíveis Contra a Droga" ilustra bem o problema da "guerra" contra a droga. Encarada apenas pelo lado da oferta os meios necessários para a sua erradicação seriam incompatíveis com um Estado de direito e democrático. Trump está a repetir esse erro a nível internacional, combater a oferta sem limitar a procura. Há muito que estou convencido que, sendo a droga impossível de eliminar totalmente, o combate para a conter em níveis reduzidos, tem de ser dirigido também à procura, ilegalizando sempre e criminalizando por vezes. Como titula a profª Patrícia Fernandes, já se poderá falar sobre o problema das drogas mas, em Portugal, estamos ainda longe de o poder combater com eficácia, sequer, de mudar o paradigma. Salas de chuto para que a sociedade não tenha de se sentir incomodada com a visão da degradação e substituição de seringas, pelo mesmo motivo.