quarta-feira, 22 de julho de 2026

Estranho clima

 

Num estranho mundo, é certo.

 

O fumo dos incêndios do Canadá já atravessou o Atlântico. Como consegue viajar milhares de quilómetros e esconder o Sol?

Filomena Martins: Texto

Impulsionadas pelos ventos em altitude, as nuvens de fumo já começaram a atravessar o Atlântico e podem percorrer milhares de quilómetros até chegarem à Europa. Nos EUA deixaram cidades sem Sol.

OBSERVADOR, 20 jul. 2026, 21:19

ÍNDICE

O que está a arder no Canadá?

Como é que o fumo deixa cidades sem Sol?

Porque é perigoso o fumo?

Como entra no Atlântico?

Porque ainda não chegou a Portugal?

Durante vários dias, os arranha-céus de Nova Iorque desapareceram parcialmente atrás de uma cortina cinzenta. Em Washington, monumentos habitualmente visíveis a quilómetros de distância ficaram reduzidos a silhuetas. Chicago, Detroit, Minneapolis, Filadélfia e Toronto acordaram sob um céu esbranquiçado ou alaranjado, com o Sol reduzido a um círculo vermelho e baço. A origem estava a centenas ou mesmo a milhares de quilómetros: nas florestas em chamas do Canadá.

O fumo chegou à região de Nova Iorque poucos dias antes da final do Mundial de futebol, disputada no domingo no estádio de East Rutherford, em Nova Jérsia. Na quinta-feira, 16 de julho, as imagens da cidade mostravam a linha de edifícios de Manhattan quase apagada por uma espessa névoa alaranjada. A concentração de partículas atingiu níveis classificados como muito prejudiciais à saúde, e as autoridades distribuíram máscaras KN95.

Este domingo, porém, o pior já tinha passado. A chuva e a alteração da circulação atmosférica ajudaram a limpar parte do fumo sobre Nova Iorque e Nova Jérsia, permitindo que a final se realizasse sem problemas significativos de visibilidade. O ar não estava completamente limpo, mas dizer que Nova Iorque ficou sem ver o Sol durante o jogo seria excessivo. As imagens mais dramáticas são dos dias anteriores.

O que está a arder no Canadá?

O principal foco desta vaga de fumo encontra-se no norte e noroeste do Ontário, uma enorme região de floresta boreal, com pinheiros, abetos, lagos e extensas áreas de solo orgânico. Esta segunda-feira, 20 de julho, Ontário tinha cerca de 190 incêndios activos e a área ardida na província aproximava-se de 735 mil hectares, mais do que sete vezes a área do distrito de Lisboa: cerca de 1.800 pessoas tinham sido retiradas das suas comunidades.

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Ardem árvores, arbustos, folhas, madeira morta e, em algumas zonas, camadas de matéria orgânica acumulada no solo

Anadolu via Getty Images

Índice (O que está a arder no Canadá? Como é que o fumo deixa cidades sem Sol? Porque é perigoso o fumo? Como entra no Atlântico? Porque ainda não chegou a Portugal?)

Um dos maiores incêndios queimava nas proximidades do Parque Provincial de Wabakimi, no noroeste do Ontário, e já se estendia por mais de 300 mil hectares. Muitos destes fogos encontram-se em regiões remotas, sem estradas e com acesso difícil, onde o combate depende sobretudo de aviões, helicópteros e equipas transportadas por via aérea.

Não ardem apenas árvores; o fogo consome arbustos, folhas, madeira morta e, em algumas zonas, camadas de matéria orgânica acumulada no solo. Esses materiais podem arder lentamente durante muito tempo, produzindo grandes quantidades de fumo mesmo quando as chamas não são particularmente altas.

A situação não se limita a Ontário. Há incêndios activos noutras partes do Canadá e também no norte do estado norte-americano do Minnesota. Por isso, algumas das nuvens de fumo sobre os Estados Unidos resultam da mistura de fumo canadiano com emissões de incêndios norte-americanos.

Como é que o fumo deixa cidades sem Sol?

Uma grande coluna de fumo contém milhões de milhões de partículas microscópicas: algumas absorvem a luz; outras desviam-na em diferentes direcções. Quando a concentração é muito elevada, o resultado é uma espécie de filtro colocado entre o Sol e a cidade.

A luz azul é dispersada com maior facilidade, mas as tonalidades vermelhas e alaranjadas conseguem atravessar melhor a atmosfera carregada de partículas, razão pela qual o Sol pode surgir como um disco cor de laranja, mesmo a meio do dia.

O efeito não é igual em todo o lado e em algumas cidades, o fumo permaneceu sobretudo a vários quilómetros de altitude e apenas tornou o céu leitoso. Noutras, desceu até à superfície, reduziu fortemente a visibilidade e transformou-se num problema grave de qualidade do ar. Foi o que aconteceu em Chicago, Detroit, Washington, Nova Iorque e noutras cidades do Midwest e da costa leste. Mais de 100 milhões de pessoas estiveram abrangidas por alertas ou condições perigosas de poluição atmosférica durante a passagem das sucessivas ‘plumas’.

GettyImages- O céu em Nova Iorque, Washington e Chigago

Anadolu via Getty

(Índice: O que está a arder no Canadá? Como é que o fumo deixa cidades sem Sol? Porque é perigoso o fumo? Como entra no Atlântico? Porque ainda não chegou a Portugal?)

Porque é perigoso o fumo?

O principal risco vem das chamadas PM2.5, partículas com menos de 2,5 micrómetros de diâmetro — dezenas de vezes mais pequenas do que a espessura de um cabelo humano. Por serem tão pequenas, conseguem penetrar profundamente nos pulmões e algumas podem entrar na circulação sanguínea.

A exposição pode provocar irritação dos olhos e da garganta, tosse, dores de cabeça e falta de ar. Também pode agravar asma e doenças respiratórias ou cardiovasculares. Nos episódios mais severos, está associada a ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais e mortes prematuras. Crianças, idosos, grávidas, pessoas com doenças crónicas e trabalhadores ao ar livre estão entre os grupos mais vulneráveis.

E há um detalhe enganador: o ar pode continuar poluído mesmo quando já não se vê nem se cheira claramente o fumo.

Como entra no Atlântico?

O fumo não atravessa o oceano como uma única nuvem compacta: vai sendo dividido, esticado e transportado por diferentes correntes de ar. O calor dos incêndios faz subir o ar. Nos fogos mais intensos, as colunas podem transportar partículas até vários quilómetros de altitude; algumas colunas atingem 8, 10 ou mais quilómetros. A essa altura, o fumo é apanhado pelos ventos dominantes de oeste, que atravessam a América do Norte e seguem em direcção ao Atlântico: a famosa corrente de jacto, ou jet stream.  É uma viagem comparável à de uma extensa faixa de tinta colocada numa corrente de água: começa concentrada, mas vai sendo esticada, diluída e deformada à medida que avança. Os modelos atmosféricos indicaram que parte do fumo continuaria para leste sobre o Atlântico Norte e poderia aproximar-se da Europa.

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A nuvem de fumo espalha-se e é empurrada pelas correntes, depressões e anticiclones pelo Atlântico

AFP via Getty Images

Índice: O que está a arder no Canadá? Como é que o fumo deixa cidades sem Sol? Porque é perigoso o fumo? Como entra no Atlântico? Porque ainda não chegou a Portugal?

Porque ainda não chegou a Portugal?

Porque estar sobre o Atlântico não é o mesmo que estar a caminho directo de Portugal e a trajectória depende da posição das depressões, dos anticiclones e da corrente de jacto. Nesta fase, a maior parte da nuvem foi conduzida para latitudes mais a norte ou permaneceu sobre a América do Norte e o Atlântico ocidental. O fumo pode dirigir-se para a Gronelândia, Islândia, Ilhas Britânicas ou norte da Europa, sem passar sobre Portugal continental. Em 2023 e 2025 chegou à Escandinávia.

Além disso, durante a travessia, as partículas mais pesadas caem; parte do fumo é removida pela chuva; a nuvem espalha-se por uma área enorme; e diferentes camadas de ar podem conduzi-la em direcções distintas. É possível que partículas muito diluídas acabem por chegar à Europa em altitude mas, nesse caso, o efeito mais provável em Portugal seria um céu ligeiramente esbranquiçado ou pores do Sol mais avermelhados — não necessariamente uma degradação importante da qualidade do ar à superfície.8.

Para provocar em Lisboa ou no Porto um cenário semelhante ao de Nova Iorque, seria necessário que uma nuvem ainda muito concentrada chegasse à Península e, sobretudo, que o fumo descesse das camadas altas da atmosfera até ao ar que respiramos. Neste momento, não há indicação segura de que isso vá acontecer.

O fumo já percorreu uma distância enorme. Mas a atmosfera não é uma estrada em linha recta: é um emaranhado de correntes de ventos, tempestades e zonas de alta pressão que podem levá-lo para norte, empurrá-lo para sul, fazê-lo subir ou simplesmente dispersá-lo antes de chegar à Europa.

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Coisas que por cá

se passam.

PS e AD empatam com com 29% das intenções de voto e Chega desce com 21%. Eleições antecipadas são descartadas pela maioria.

PS continua à frente na sondagem da Intercampus, mas empata com a AD no inquérito da Católica. Chega regista queda em ambas.

Madalena Moreira: Texto

Larissa Faria: Texto

16 jul. 2026, 21:22

3 min

Partidos à direita continuam a ter maioria, apesar da liderança dos socialistas

DIOGO VENTURA/ OBSERVADOR

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O PS e a coligação PSD/CDS-PP (AD) estão empatados nas intenções de voto dos portugueses: 29% escolheriam um dos partidos.

 É o que revela a sondagem da Universidade Católica para o Público, RTP e Antena 1 divulgada na noite de quinta-feira.

Com mais seis pontos do que em dezembro, o PS equipara-se à AD, que se manteve com o mesmo resultado anterior. O Chega, no entanto, desceu três pontos, fixando-se em 21%. IL e Livre estão em empate técnico, com 6%, enquanto a CDU (coligação pré-eleitoral entre PCP e PEV) e o Bloco de Esquerda (BE) mantêm os 3% e 2% analisados na sondagem anterior, realizada em dezembro. O PAN não pontuou o mínimo necessário para integrar o Parlamento, enquanto no caso do Juntos Pelo Povo, o “voto muito concentrado na Madeira” poderia assegurar a presença na Assembleia. A percentagem de indecisos subiu cinco pontos, com 18% a admitir não saber em quem votar.

Apesar da subida do PS, 48% dos inquiridos consideram que este e qualquer outro partido da oposição não actuariam melhor no Governo do que o executivo de Luís Montenegro, que tencionam que permaneça até ao fim do mandato. Um empate também ocorreu entre José Luís Carneiro e Montenegro, que receberam uma nota dez em vinte dos entrevistados. O inquérito do Cesop – Universidade Católica Portuguesa teve a participação de 996 pessoas entre os dias 6 e 10 de julho, com uma margem de erro de 3,1%.

Na sondagem da Intercampus para o Correio da Manhã, Negócios e NOW, publicada também na quinta-feira, o PS mantém a liderança nas intenções de voto dos portugueses, mas a coligação PSD/CDS-PP (AD) está a recuperar terreno e aproxima-se dos socialistas.

Se as eleições legislativas se realizassem este mês de julho, 23,3% dos portugueses votariam no partido liderado por José Luís Carneiro, uma descida de um ponto percentual em relação aos números relativos ao mês de junho. No sentido inverso, 20% dos portugueses votariam na coligação de Governo, um aumento de 0,5 pontos percentuais.

Esta ligeira subida permite à força liderada por Luís Montenegro regressar ao segundo lugar das intenções de voto, que, no mês passado, era ocupado pelo Chega. Ainda assim, os dois mantêm-se em empate técnico. O partido de André Ventura reúne agora 19,4% das intenções de voto, continuando a liderar o voto dos mais jovens e a ter os seus resultados mais fracos na faixa dos maiores de 55 anos.

O primeiro lugar fora do pódio continua a ser ocupado pela Iniciativa Liberal, seguida de perto pelo Livre (menos de um ponto percentual entre os 7,6% da IL e os 6,8% do Livre). Entre os restantes partidos com assento parlamentar, a CDU reúne 4,1% das intenções de voto, o PAN, 2,5% e o Bloco de Esquerda, 1,8%. A sondagem da Intercampus resulta de inquéritos a 604 pessoas realizados entre os dias 9 e 14 de julho, com uma margem de erro de 4,0%.

Notícia actualizada às 8h38 de 17/07/2026 a incluir a sondagem da Universidade Católica.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Fragmentação da Europa (I)

 


Os nacionalismos recolocam uma questão: que configuração teria a Europa se os nacionalismos, as identidades etnolinguísticas e as memórias territoriais históricas recuperassem centralidade política?

VICENTE FERREIRA DA SILVA, Investigador do Centro de Investigação em Ciência Política da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 13 jul. 2026, 00:20

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NOTA PRÉVIA: o mapa “Fragmentação da Europa (nacionalismos e identidades etnolinguísticas)” não pretende antecipar o futuro do continente nem propor qualquer agenda política.

Participei no Contra-corrente sobre imigração. As perguntas do José Manuel Fernandes, Helena Garrido e João Miguel Santos foram interessantíssimas e durante a conversa referi que os nacionalismos e as identidades etnolinguísticas facilmente poderiam fragmentar a Europa em mais de 200 Estados.

Este artigo é a primeira parte de uma reflexão sobre o tema. O mapa tem como critério a máxima fragmentação historicamente justificável, ou seja, cada povo etnolinguístico, cada antigo reino, ducado, principado, marca, cantão ou região histórica com identidade própria.

1 Como foi construído o mapa

Ao longo dos séculos, a Europa conheceu sucessivas vagas de afirmação nacional, regional e cultural. Muitas das fronteiras actuais são recentes, resultando de processos de centralização, unificação ou redefinição territorial ocorridos sobretudo entre os séculos XVII e XX. Contudo, sob a superfície dos Estados contemporâneos subsistem comunidades que preservam línguas próprias, tradições seculares e identidades anteriores à consolidação dos Estados-nação modernos.

É precisamente a partir dessa realidade que o mapa se constrói. Ilustra um cenário hipotético em que essas identidades recuperam protagonismo e reivindicam formas de soberania ou autodeterminação. O resultado é uma Europa profundamente fragmentada: de cerca de cinquenta Estados reconhecidos internacionalmente para um mosaico com mais de trezentas entidades políticas.

A primeira observação é óbvia: isto é um regresso ao passado. Uma transformação desta magnitude representa uma ruptura com o modelo do Estado-nação, consolidado entre os séculos XVII e XIX, aproximando-se da complexidade política da Europa medieval e moderna, quando o poder se distribuía por reinos, ducados, principados, cidades livres, bispados e múltiplos territórios autónomos. Nessa época, as fronteiras políticas raramente coincidiam com fronteiras linguísticas ou culturais. Identidades sobrepunham-se e a soberania era frequentemente negociada, partilhada ou fragmentada. O Sacro Império Romano-Germânico poderá ser o exemplo paradigmático, mas a Península Itálica, os Países Baixos, os Balcãs e grande parte da Europa Central e Oriental exibiram modelos semelhantes.

Este mapa hipotético estende o princípio a todo o continente europeu, articulandoo com a compreensão moderna das identidades nacionais e etnolinguísticas. Antigos reinos Castela, Leão, Navarra, Borgonha coexistem com identidades contemporâneas como Catalunha, Flandres, Tirol do Sul, Silésia ou Gagaúzia. Paralelamente, povos menos numerosos frísios, sórbios, arromenos, ladinos, sámis, cassubianos, russinos, pomaks, entre muitos outros surgem reconhecidos como comunidades políticas distintas.

2 O princípio da autodeterminação

Ora, uma organização desta natureza corresponderia, de forma mais rigorosa do que o actual mapa político europeu, ao princípio da autodeterminação dos povos. Comunidades que preservaram a sua língua, tradições e memória histórica disporiam de instituições próprias e exerceriam soberania plena. A preservação cultural seria reforçada, as línguas minoritárias ganhariam protecção e muitas identidades regionais adquiririam uma visibilidade política inédita.

3 As consequências da fragmentação

Mas uma fragmentação desta escala teria consequências profundas. Sucintamente, faço quatro referências:

Desafios políticos – A existência de centenas de Estados soberanos exigiria uma rede diplomática vastíssima, com tratados, acordos fronteiriços e mecanismos permanentes de cooperação. Cada nova fronteira seria um potencial foco de disputa, sobretudo em regiões onde diferentes comunidades reivindicam os mesmos territórios ou coexistem de forma entrelaçada.

Desafios económicos – Sistemas aduaneiros, regimes fiscais, moedas, infraestruturas, redes energéticas e corredores de transporte tornarseiam mais complexos. Muitos destes novos Estados teriam populações reduzidas e recursos limitados, tornandose dependentes de cooperação regional para garantir viabilidade económica. A livre circulação de pessoas e bens seria mais difícil, mesmo que estruturas supranacionais como uma União Europeia ampliada tentassem mitigar parte desses obstáculos.

Desafios de segurançaEstados pequenos possuem capacidades militares limitadas e dependeriam de alianças defensivas. Disputas territoriais, tensões entre minorias e maior competição por recursos estratégicos poderiam intensificarse, sobretudo onde fronteiras históricas, étnicas e linguísticas não coincidem.

A questão da identidadeO mapa evidencia que a identidade europeia é múltipla, sobreposta e dinâmica. Em muitas regiões coexistem identidades locais, regionais, nacionais e europeias. Transformar cada uma delas num Estado soberano implicaria simplificar uma realidade intrinsecamente complexa. A Europa sempre foi um espaço onde línguas se distribuem em contínuos dialectais, culturas atravessam fronteiras e lealdades históricas se transformam. A busca de Estados etnolinguisticamente homogéneos confrontarseia inevitavelmente com ambiguidades difíceis, e até impossíveis, de resolver.

Paradoxalmente, o mapa revela simultaneamente a riqueza e os limites do princípio nacionalista: mostra a extraordinária diversidade cultural da Europa, mas também os desafios de organizar a vida política exclusivamente em torno da identidade etnolinguística. Um ressurgimento simultâneo de nacionalismos e identidades territoriais produziria uma Europa mais fragmentada, mais complexa e mais difícil de governar – sobretudo sem mecanismos eficazes de cooperação supranacional.

4 Porque é que esta reflexão importa hoje?

Neste ponto, reafirmando que o mapa é apenas um convite à reflexão histórica e geopolítica e que não pretende prever o futuro, mas explorar as consequências de uma intensificação das reivindicações nacionalistas num continente cuja diversidade sempre foi estrutural, recordando o delicado equilíbrio entre diversidade cultural, autodeterminação, estabilidade política e integração europeia, reitero as ideias que expressei neste artigo: Sobre o valor da reciprocidade.

Uma das tensões centrais da Europa contemporânea – e que se tornaria ainda mais visível numa Europa fragmentada em múltiplos Estados etnolinguísticos – resulta da promoção dos valores fundamentais da UE sem a explicação adequada do seu significado e do contexto histórico que lhes dá forma. Esta realidade tem contribuído para convulsões culturais, polarização social e crescimento de populismos identitários, tanto à esquerda como à direita. Estes movimentos exploram receios difusos, radicalizam o discurso e procuram ganhos eleitorais através da amplificação das ansiedades culturais.

5 Reciprocidade, integração e Estado de Direito

A diversidade cultural não elimina a necessidade de respeitar as leis e a cultura dos países anfitriões. Quem procura refúgio ou imigra para um país europeu tem a responsabilidade de se integrar tanto quanto possível: aprender a língua, escolarizar os filhos localmente, procurar emprego e respeitar as comunidades que o acolhem. Isto não implica abandonar a cultura ou a religião de origem, mas exige reciprocidade, i.e., o mesmo respeito que é dado deve ser retribuído.

A reciprocidade é, aliás, um dos pilares invisíveis da convivência europeia. Ela reforça o respeito mútuo entre povos e culturas e sustenta a confiança entre Estados e Governos. Quando este princípio é ignorado, surgem percepções de desequilíbrio que não devem ser negligenciadas, antes discutidas abertamente pelas instituições europeias. Especialmente pela Comissão Europeia, que tem a responsabilidade de liderar o debate e promover esclarecimento público.

E a separação entre Estado e religião, um dos fundamentos da cultura ocidental, tem de ser referida. A Europa é tolerante e respeita todas as religiões, mas exige o mesmo respeito pelos seus valores e pelo seu modo de vida. Qualquer prática, religiosa ou secular, que viole a lei deve ser proibida no espaço público. Este princípio não é hostilidade nem intolerância; é a defesa da ordem democrática, numa linha próxima do paradoxo da tolerância de Popper.

Os líderes políticos europeus devem ser lembrados da importância da reciprocidade, tanto nas relações internacionais como na convivência cultural interna. Ajudar quem chega é um imperativo moral, mas essa ajuda não dispensa o cumprimento das leis do país anfitrião. Respeito implica retribuição. Quem não estiver disposto a respeitar o modo de vida europeu é livre de regressar ao seu país de origem.

6Conclusão

Integradas no quadro mais amplo da diversidade europeia e, por maioria de razão, no cenário hipotético de fragmentação etnolinguística, penso que estas ideias revelam um ponto essencial: a Europa só conseguirá preservar a sua identidade plural se conseguir equilibrar acolhimento, integração e reciprocidade.

Desse modo, evitará tanto o fechamento identitário como o relativismo e reconstrucionismo cultural que ignora as bases da sua própria civilização.

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