Presentes também.
Conde de Gobineau: o homem que inventou o racismo
O francês Arthur de
Gobineau, nascido há 210 anos, é o autor de “Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças
Humanas”, a obra que lançou as bases para a hierarquização
das raças e inventou o mito ariano
João Miguel Tavares: Texto
Rui Ramos: Texto
27 out. 2026, 06:04
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(Esta transcrição foi
gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou
imprecisões).
E o resto é história. É a pera esburrada. Do Vicente e
Toalha, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura.
Entende? Não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais um
episódio de "E o
Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Ao
longo dos anos, nós temos recebido algumas questões a propósito do racismo, como
por exemplo, a do ouvinte Gonçalo Saraiva Mendes, que nos pediu para falar da história do racismo e da origem do fenómeno.
Ora, dá-se o caso de este ano passarem 210 anos do nascimento, a 14 de
julho de 1816, do francês Arthur de Gobineau, mais conhecido como Conde de Gobineau,
autor de "Ensaio
sobre a Desigualdade das Raças Humanas", que começou a
ser publicado em 1853. E esta foi a obra que inventou o mitariano e
defendeu a divisão
da humanidade em raças devidamente hierarquizadas. A
teoria racial de Gobineau argumentava que uma suposta decadência civilizacional
se devia à miscigenação de raças, em que as raças inferiores se misturavam com
as raças superiores, o que conduzia a que a raça branca perdesse a sua, e isto
é uma citação, vitalidade. Esta teoria não tendo nada de científico,
era apresentada no século XIX como ciência e viria a servir de base para a emergência de movimentos
supremacistas e antissemitas, inspirando também a própria ideologia nazi.
É por tudo isso
que o Conde de Gobineau é considerado o pai do racismo. Rui,
certamente que já existiam preconceitos raciais antes de ser publicado este
ensaio sobre a desigualdade das raças humanas. Porquê o Conde de Gobineau é
diferente dos racistas que o precederam?
Ou não é, mas vamos ver. Vamos primeiro ver
quem é que era o
Conde de Gobineau e o que ele disse. O Arthur de Gobineau foi um diplomata francês. Ele serviu
em embaixadas francesas em variadíssimos países. Esteve na Suécia, esteve na
Grécia, esteve no Brasil, esteve no Irão, isto tudo nas décadas de 1850, 1860,
1870. Ele era de uma família da antiga nobreza, e daí o
título de Conde, mas a família era também uma família legitimista, como se
dizia em França no século XIX, isto é, fiel à dinastia dos
Bourbons, dos
reis de França até Luís XVI e depois da Restauração, Luís XVIII e Carlos X, e,
portanto, uma família que via os regimes políticos em França depois de 1830,
isto é, depois dos Bourbons terem sido afastados da chefia do Estado, como
ilegítimos. Mas isso não impediu Gobineau de fazer carreira
na diplomacia desses vários regimes, a começar pela Segunda República, de 1848,
em grande medida graças ao seu amigo Alexis de Tocqueville, que era
ministro de Negócios Estrangeiros e que o nomeou pra vários cargos. E
depois também serviu, como diplomata, o Segundo Império de Napoleão III, a partir de 1852.
Até lhe agradou mais, era uma autocracia imperial,
portanto, agradou-lhe mais, mas depois também continuou ao serviço da
Terceira República Francesa a partir de 1870. Isto é, com essas
opiniões, ele apesar de tudo, esteve a serviço destes três regimes. Mas
era diplomata, e aparentemente o serviço diplomático deixava-lhe bastante tempo
livre, sendo autor também de muitos livros. Autor de contos, é autor
de novelas, de livros de viagens, obviamente associados às suas viagens
diplomáticas. E agora, depois, o que mais nos vai interessar, também de obras
de erudição nos
domínios da filologia e da antropologia. Antropologia não tinha
exactamente no século XIX o sentido que tem hoje. Antropologia remetia para uma
espécie de história natural do homem. Também era antropologia de cultura, de
costumes, mas era também muito antropologia física, digamos assim.
E foi por isso que ele ficou famoso e não pelo seu talento
como romancista.
Na altura, ele é muito mais
famoso pelo talento como homem de letras, como autor de contos e de novelas.
Mas o tempo depois associou-lhe uma obra que ele escreveu na Suíça, em Berna,
quando estava na alegação francesa, chamado "Ensaio sobre a Desigualdade das Raças
Humanas." Ele escreve entre 1849 e 1854, começa a publicar em
1853, tem quatro volumes, tem 1600 páginas.
Tinha mesmo muito tempo.
Não é um pequeno volume. Tu já
referiste as teses, mas vou só lembrar as teses principais muito
esquematicamente e depois até chamar a atenção para que o livro, até pelo seu
tamanho, é muito mais complexo do que essas teses que geralmente nós temos
presentes. Gobineau
começa por distinguir grupos humanos, a que ele chama raças, na humanidade,
portanto, a dividir a humanidade a partir de características físicas, cor da
pele, mas também mistura com geografia e depois o nível de civilização,
portanto os critérios não são extraordinariamente coerentes. Mas ele
estabelece três grandes grupos, os europeus, os brancos, os asiáticos, os
amarelos e os africanos, os negros. Portanto, esses três grandes grupos.
Eu acho que tu vais explicar
isso mais à frente, mas só pra adiantar aqui, a ideia de raça, tu explicas mais
à frente. Mas essa
não foi inventada pelo Gobineau, não é?
Não, isto não é nada. Quer
dizer, ele faz isso.
É só porque como estamos a
falar que é o pai do racismo, só para deixar explícito.
Nada disto é original. Até
agora não tem originalidade nenhuma, isso era o que toda gente dizia O que
muita gente dizia. Gobineau
admite que todos estes grupos humanos descendem dos mesmos antepassados,
portanto, não perfilha a tese de alguns autores do seu tempo que acham que as
raças tinham sido criadas já separadamente, isto é, que não tinham nada a ver
uns com os outros. Ele acha que não, descendem todos de uma origem comum, mas
que se distingue por haver grupos que continuaram a desenvolver-se e outros
não, outros estacionaram. Ou uns desenvolveram
características que ele acha mais nobres, mais interessantes, e outros que
desenvolveram características que ele considera menos nobres, menos
interessantes. Há uma valorização moral desta desigualdade que ele vê entre as raças.
Os europeus teriam continuado a desenvolver a sua civilização. A
civilização moderna deve-se aos europeus, segundo Gobineau, e os asiáticos e os
africanos, não. Aliás, Gobineau para afirmar que as diferenças
não se devem a outros factores que não aquilo que nós hoje diríamos as origens
genéticas, isto é, a raça propriamente dita, ele nega ou desvaloriza a
influência do meio ambiente, que no século XVIII tinha sido um factor bastante
utilizado para explicar as diferenças de civilização, as diferenças não apenas
em termos hierárquicos, mas em termos de características diferentes. Ele acha que o ambiente não tem
grande influência, é mesmo a raça. Mas mesmo entre os europeus, ele
distingue raças. Já se está a perceber que isto é uma coisa mais complicada.
Raças com uns com desenvolvimento superior aos outros e identifica as raças
germânicas como as mais nobres e chama-lhes arianos. Arianos era um termo
que se estava tornando comum entre os filólogos da época, que tinham estudado
os textos da Índia escritos em sânscrito. Já falámos aqui, ariano era a palavra que designava na
antiga Índia aqueles que precisamente falavam sânscrito e que seguiam a
tradição dos Vedas e que os eruditos alemães e ingleses desta altura estavam a
traduzir ariano por nobre, é a nobreza. Gobineau identifica os alemães, os
germânicos, como os nobres na Europa, os mais nobres.
O que está a dizer é que
Gobineau era um homem modesto então, porque ele não era ariano, não é?
Não, ele depois escreve em
um terceiro volume.
Pensava que ele era
francês.
Ele escreve a dizer que vem
do Norte. Não, ele acautelou.
Ele modestamente
colocava-se fora.
Não, ele tem algumas
dúvidas, como já vamos falar.
Muito bem.
Gobineau, apesar de atribuir a
grandeza da civilização a esta raça ariana, argumenta que todas as raças têm
características que são valiosas. Por exemplo, mesmo aquela raça que ele mais
desvaloriza, que são os negros, os africanos subsaarianos, ele atribui-lhes
qualidades artísticas. Ele acha que são aqueles que têm mais qualidades artísticas.
E atribui-lhes mesmo a origem da arte. A arte viria deles. Ele
atribui características diferentes e depois também diz que está a falar dos grupos e não está a dizer que não há
indivíduos talentosos em todos os grupos. Ele diz que há
indivíduos talentosos e até em um grupo pode haver indivíduos mais talentosos
que a média de um outro grupo que ele considera superior. Por exemplo, ele
diz que os chefes das tribos africanas são naturalmente gente muito mais
inteligente do que os trabalhadores brancos europeus. São gente muito superior aos
trabalhadores brancos europeus. Há uma aristocracia mesmo entre um grupo que
ele considera inferior. E depois a outra tese principal dele, que é a tese da
obra das 1600 páginas, é que estas raças estão todas a caminhar para a
igualdade, para a unidade.
Porque se misturam.
Porque estão se misturando e
ele não considera que isso é uma coisa boa. Porquê? Porque está a fazer todas
as raças na mistura a perder as suas características.
A tal vitalidade.
E os negros estão a
perder as suas características, os amarelos estão a perder as suas
características e os brancos também estão a perder as suas características, o
que é mais grave, segundo Gobineau, porque os brancos são o principal factor da
civilização no mundo. Ele, por exemplo, quando está no Brasil, é onde
ele encontra, dos países
que visita, a maior miscigenação. Acha que no Brasil praticamente toda gente se mistura com
toda gente e diz: "Isto é terrível, é um país que daqui a 200 anos não vai
existir. Isto vai perder tanta vitalidade que daqui a 200 anos..."
Não é que esteja espectacular,
mas podemos dizer que aí ele se enganou, não é?
Digamos que é uma das profecias dele que a história
não parece ir confirmar. A partir daqui, Gobineau chega a
posições que podem parecer contraditórias, mas que fazem sentido. Por exemplo, ele é extraordinariamente hostil à
escravidão.
É?
Opõe-se imenso à escravidão.
No Brasil, quando ele está entre 1869 e 1870, faz pressão junto a Dom Pedro II,
o imperador do Brasil, a favor da abolição da escravidão. Mas porquê?
Então qual era a tese?
É porque a escravidão leva à mestiçagem. Porque os senhores
de escravos geralmente tendiam a dormir com as escravas.
É um facto.
Era uma preocupação
dele. E era também uma preocupação pessoal. É que a mãe dele era do Haiti,
tinha vindo do Haiti.
A mãe do próprio
Gobineau.
A própria do Gobineau. E a
mulher com quem ele casou vinha da Martinique. E ele teve sempre suspeitas
sobre sua própria pureza, embora depois tenha escrito um livro a dizer que é
nórdico, aparentemente ele teve alguma angústia sobre as suas verdadeiras origens.
Isto é, ele pensa que talvez ele também fosse um mestiço. Parte da
decadência da essência.
E os seus próprios filhos,
imagino eu.
Claro, e suas filhas. As
filhas ainda mais, porque se a mãe deles já era, mas a mulher dele também já
era, então ainda era pior. Segundo, ele não é eurocêntrico, ele não é a favor
dos europeus.
Como não?
Ele não afirma a supremacia
europeia. Porquê? Porque ele vive no Irão entre 1855 e 1858, mais uma vez ao
serviço da diplomacia francesa, e depois outra vez na década de 1860, entre
1861 e 64. E no Irão, o que acontece? Encontra mais uma vez uma população miscigenada,
portanto, que ele despreza imenso, os arianos actuais, mas encontra o
Irão antigo, os restos arqueológicos, as tradições do Irão antigo. E ele considera o Irão antigo, o Irão
dos Aqueménidas, do século VI antes de Cristo, como a maior civilização que
alguma vez existiu na história da humanidade. É a grande civilização para ele,
e ele acha que a Europa é apenas o resultado de uma migração iraniana.
Aliás, planeada,
segundo ele, por Ciro, o Grande, o xá do século VI antes de Cristo, que ele
considera uma espécie de pai da Europa, portanto, foi ele que criou a Europa,
Ciro, o Grande. Gobineau vai escrever uma história dos
persas, em 1869, que ele considera que é a continuação do ensaio sobre a
desigualdade das raças humanas e que ele diz que o Irão é o vértice, é o topo
da civilização, é a grande civilização, este Irão dos Aqueménidas.
Portanto, seriam eles
que estavam na base dos germanos que se sobrepuseram aos arianos.
E dos arianos, porque
ele acha que os arianos vêm do Irão, que o Irão quer dizer a terra dos arianos.
É a origem desta raça ariana e que está nos Aqueménidas, no império aqueménida
iraniano, que pra ele é supremo. A Europa já é uma espécie de um transplante
iraniano.
Isto é um pai do racismo
muito sofisticado.
É muito complexo, é um
literato. Agora, para percebermos onde é que ele quer chegar, acho que vale a
pena perceber a época em que ele está a escrever. Isto é, fim dos anos 40,
princípio dos anos 50 do século XIX. O que é esta época? Esta época é marcada pelas
revoluções de
1848. Aliás, ele na dedicatória aos ensaios, diz que o objectivo dos
ensaios é perceber, diz ele, as causas ocultas das revoluções, das guerras e
das desordens actuais. Portanto, ele quer dar uma explicação do que se está a passar
na Europa.
Uma época muito turbulenta.
(CONTINUA)