terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cada um

 

Que se governe.

Trump recusa-se a confirmar apoio a Netanyahu: “Acho mais apropriado que me mantenha afastado das eleições israelitas”

O líder da Casa Branca diz ser "mais apropriado" manter-se afastado das legislativas israelitas. As sondagens favorecem o centrista Eisenkot do partido Yashar.

AGÊNCIA LUSA: Texto

OBSERVADOR, 17 ago. 2026, 22:52

"Acho mais apropriado que me mantenha afastado das eleições israelitas", afirmou o líder da Casa Branca

Samuel Corum / POOL/EPA

O Presidente norte-americano, Donald Trump, continuou esta segunda-feira a recusar o seu apoio ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, nas legislativas previstas para 27 de outubro, nas quais as sondagens colocam em risco a sua reeleição.

Acho mais apropriado que me mantenha afastado das eleições israelitas”, afirmou o líder da Casa Branca em declarações à estação Fox News reproduzidas pela imprensa de Israel, embora deixe em aberto a possibilidade de “apoiar alguém”.

As palavras de Trump surgem no dia em que o Likud, partido de Netanyahu e maioritário no Governo de coligação com a extrema-direita, realizou primárias para a escolha das listas para o Knesset (Parlamento), vistas como um teste ao líder israelita quando enfrenta contestação dentro da sua própria força política, nomeadamente dos partidários de uma linha mais centrista.

De acordo com o portal norte-americano Axios, as perspetivas de reeleição de Netanyahu foram discutidas com Trump, no encontro que ambos mantiveram no mês passado na Casa Branca em Washington, numa altura em que o primeiro-ministro israelita lida com sondagens desfavoráveis.

Anteriormente muito próximos, a reunião dos dois líderes ocorreu num momento de tensão pública entre ambos sobre a condução das várias frentes de conflito no Médio Oriente.

Trump procura uma saída para a guerra que lançou com Netanyahu em 28 de fevereiro contra o Irão, que merece reservas do primeiro-ministro israelita, que por sua vez mantém tropas no sul do Líbano, na guerra contra o grupo xiita Hezbollah, aliado de Teerão, ameaçando os esforços de paz de Washington.

O chefe do Governo de Israel recusou entretanto o plano do Conselho da Paz para a Faixa de Gaza, apoiado pelos Estados Unidos e que tinha sido aceite pelo grupo islamita Hamas, que previa o desarmamento das milícias palestinianas e a retirada do exército israelita do território.

Já esta segunda-feira, Netanyahu disse ter acordado com o Conselho da Paz a criação de um grupo de trabalho para supervisionar a desmilitarização da Faixa de Gaza, mas reiterou que só abandonará o enclave palestiniano quando esse processo estiver concluído.

O envolvimento de Israel nos esforços de diálogo dos Estados Unidos tem merecido a oposição dos grupos de extrema-direita aliados do Likud no Governo.

A maioria das sondagens em Israel coloca a força política do primeiro-ministro empatada ou logo atrás do seu principal adversário, o partido centrista Yashar, fundado em 2025 e presidido pelo antigo chefe das forças armadas Gadi Eisenkot.

Os estudos de opinião indicam porém que nenhum dos dois líderes, nem dos blocos pró-governo ou de oposição, consegue uma maioria dos 120 lugares em disputa no Knesset, embora o Yashar surja em melhores condições para formar governo.

A coligação B’Yachad (Juntos), criada este ano pelos antigos primeiros-ministros Naftali Bennett e Yair Lapid, atual líder da oposição, aparece em terceiro lugar e no quarto figura o Yisrael Beytenu (Israel é a Nossa Casa), partido nacionalista, de direita e secular, liderado pelo deputado Avigdor Liberman, mas ambos seguem longe do Likud e do Yashar.

Os Democratas, partido social-democrata sionista dirigido pelo antigo general Yair Golan, estão colocados no quinto lugar nas sondagens e só depois surgem os partidos que têm estado próximos de Netanyahu.

Esta lista inclui os ultraortodoxos Shas e o Judaísmo Unido da Tora, bem como o Otzma Yehudit (Poder Judaico), do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o Sionismo Religioso, do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, dois controversos ultranacionalistas em representação da extrema-direita no Governo.

Os partidos árabes obtêm cerca de uma dúzia de lugares nas intenções de voto, divididos entre o Ra’am (Lista Árabe Unida) e o Hadash-Ta’al.

Apesar das sondagens desfavoráveis para os partidos próximos do executivo, as principais forças de oposição têm demonstrado divergências sobre um eventual acordo que permita a formação de um governo maioritário.

O Likud é um dos poucos partidos israelitas que realizam primárias para escolher a lista de candidatos ao parlamento, juntamente com nove candidatos previamente selecionados por Netanyahu.

“Amanhã votarei nas primárias do Likud para uma lista vencedora que garanta que Eisenkot e Yair Golan não formarão um pequeno governo com os partidos árabes, como prometeram. Confio em vós, membros do Likud, para escolherem os vossos representantes corretamente, de acordo com o vosso julgamento”, comentou Netanyahu no domingo à noite na rede social X.

Segundo o jornal Haaretz, esperava-se que votassem cerca de 140 mil membros do Likud, embora a participação nas anteriores primárias do partido, realizadas em 2022, tenha sido inferior a 60%.

Segundo os primeiros relatos não oficiais na imprensa israelita após o fecho das urnas, a participação neste ano foi ainda mais baixa.

Os membros do Likud escolhem 12 candidatos para a lista nacional e um para a lista distrital.

Os lugares distritais começam no número 27, tornando improvável a entrada destes candidatos no Knesset, dado que as sondagens preveem que o Likud fique abaixo desta fasquia.

À luz das projeções, cerca de uma dezena de candidatos podem não ser eleitos, em comparação com as legislativas de 2022, quando o partido colocou 32 deputados.

A posição de Netanyahu não está contudo em risco durante estas primárias, dado que o líder do partido é escolhido num processo separado.

O atual primeiro-ministro israelita reserva-se ainda o direito de escolher quem ocupará outros oito cargos nas listas do partido Likud (3.º, 5.º, 9.º, 11.º, 15.º, 18.º, 26.º e 29.º), graças a uma decisão do Comité Central do partido que lhe concedeu maior influência.

Destes oito cargos, Netanyahu já designou quatro figuras que lhe são próximas: o atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, o ministro da Defesa, Israel Katz, o presidente do Comité Central do Likud, Haim Katz, e o empresário (e estreante na política) Oren Dobronsky.

Ao longo dos anos, Netanyahu aumentou o número de posições nas listas reservadas a seu critério: de duas em 2015 para cinco em 2022 e agora oito em 2026, segundo o Instituto da Democracia de Israel.

ISRAEL      MÉDIO ORIENTE      MUNDO      BENJAMIN NETANYAHU      DONALD TRUMP      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA

 

Águas passadas

 

Na História de um país, afinal tão prostituído assim, talvez por ter sido grande, com Descobrimentos que bem alargaram a visão da   Terra      e do Mundo, claro. Não, “não havia necessidade” … de tanto rebaixamento, numa História de alargamento territorial que começava assim, nos manuais da História Pátria: “Em 1418 João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobriram a Ilha de Porto Santo. No ano seguinte, os mesmos e Bartolomeu Perestrelo descobriram a Madeira”. O Brasil foi em 1500. Mas chegámos mesmo a Timor…, percorrendo em naus o mar salgado das lágrimas dos familiares que ficaram, segundo tradução em verso ilustre …  Dá para espantar. Sempre. Embora também a Grécia, mais outrora ainda …  É certo que teve os seus grandes clássicos.  Mas não podemos contestar o valor dos nossos … Pessoa e C . ia. …  Clássicos para sempre.

Agosto de 1808: Portugal não assinou

Costuma dizer-se que o Portugal do império acabou em 1974 e que o princípio do fim foi o ouro do Brasil. A minha opinião, que vale o que vale,  é outra.

JOÃO A. B. DA SILVA Economista e investidor

OBSERVADOR, 17 ago. 2026, 00:20

O Jardim de Kalahari: o conjunto de joias da noiva Georgina

Um amigo inglês, jornalista de profissão, embora não de diploma, tornou-se conhecido pelas longas entrevistas que faz a figuras de grande notoriedade. Foi aceite em História na LSE, mas decidiu não seguir os estudos universitários, por considerar a academia demasiado woke para valer o seu tempo. E alimenta há anos a mania de me recomendar livros sobre a história de Portugal. A mania nasceu no Museu Marítimo de Greenwich, numa tarde em que, a braços com uma cerveja quente e sem gás, como só os ingleses sabem fazer, discordámos com alguma energia sobre a forma como certas notas históricas ali estão escritas. Não sobre datas, porque as datas ninguém contesta. Sobre a arrumação. Quem começou, quem ensinou quem, quem estava a proteger quem e a troco de quê. Ditas do lado de lá da mesa, aquelas frases têm o inconveniente de contradizer, com cinismo britânico, precisamente aquilo que em Portugal se ensina como facto assente e se repete em discursos do Dez de Junho. Não que eu aprecie particularmente debates. Tenho a tendência de ouvir o outro lado para confirmar que tenho razão.

O livro que ele acabou por me impingir chama-se Britannia Sickens: Sir Arthur Wellesley and the Convention of Cintra, é de Michael Glover, saiu em Londres em 1970, tem poucas páginas e o título é um verso de Byron. Tarda uma tarde de praia a ser lido, o que já é meio caminho andado para uma recomendação decente. E trata do que aconteceu a partir de 17 de Agosto de 1808, data que hoje faz duzentos e dezoito anos.

Quanto mais avançava na leitura, mais clara me parecia a provocação por detrás do livro. A tese de fundo é mais ou menos esta: por essa altura, Portugal já não era verdadeiramente independente. Havíamos entregue a nossa independência aos bárbaros das tribos do arquipélago no norte da Europa. A partir de 1808, a primeira pessoa do plural, quando aplicada às decisões sobre Portugal, deixou de incluir os portugueses. A invasão francesa não transferiu apenas território, que aliás acabaria por voltar. Transferiu a competência para decidir. Essa, porém, ficou por lá. O território regressou. A autonomia, não. Ficou em Londres, onde haveria de criar raízes mais profundas do que qualquer exército francês. A rainha havia muito que não estava em condições de reinar, o príncipe regente saíra para o Brasil em Novembro de 1807, as Cortes não se reuniam havia mais de um século e o que restava do Estado era uma junta, pequena assembleia de homens a pedir instruções por carta a duas capitais estrangeiras ao mesmo tempo. A soberania tinha-se tornado uma espécie de administração por correspondência. Hoje está em Bruxelas.

Glover conta a história do lado britânico e conta-a com detalhe e parcimónia. A 17 de Agosto, na Roliça, Wellesley bate Delaborde. A 21, no Vimeiro, bate Junot. Nesse intervalo é ultrapassado na cadeia de comando por Burrard e depois por Dalrymple, dois homens prudentes que preferiram negociar a perseguir. Em Portugal, defendemos uma versão cómoda: a do velho general britânico que chegou tarde, não percebeu o que tinha na mão e deitou fora uma vitória. Se a culpa foi de um homem distraído, Portugal foi vítima de um azar e não de uma condição. Os documentos históricos, esses, mostram outra coisa. O armistício de 22 de Agosto foi assinado pelo próprio Wellesley, e o texto afirma que ele tinha poderes para o fazer. Os seus defensores garantiram depois que não o escreveu, não o negociou e não o aprovou, e que Kellermann exigiu a assinatura dele para dar autenticidade ao papel. Pode ser tudo verdade. O ponto é que assinou na mesma. Quanto à Convenção definitiva, não foi obra de Dalrymple sozinho. Foi negociada e assinada por George Murray, por parte britânica, e por Kellermann, por parte francesa, e só depois ratificada pelas chefias correspondentes. A caricatura do burocrata teimoso ou do general idoso que atirou fora uma vitória alheia é retoricamente poderosa, mas analiticamente medíocre.

O que a Convenção permitiu, isso sim, resiste a qualquer revisão. Foram transportados para França 25 747 franceses, dos quais 20 900 sob armas, ou seja praticamente o exército de Junot inteiro, em navios britânicos, com armamento, artilharia, cavalos, bagagens, caixa militar e propriedade privada. O texto especifica que a propriedade particular seguiria sem excepção. Em lado nenhum se obriga os franceses a devolver aquilo que tinham saqueado em Portugal, e foi isso, mais do que a retirada, que fixou entre nós a percepção de afronta. Entre a bagagem seguiu, por exemplo, a Bíblia dos Jerónimos, que não era propriedade particular de ninguém. Um exército derrotado saiu do país mais rico do que tinha entrado, escoltado e alojado por quem o derrotara.

Dizer que Portugal foi vendido é falso. A Convenção não entregou um metro quadrado de território a França. Fez exactamente o contrário. Expulsou de Portugal a totalidade da presença militar francesa, entregou Lisboa e o Tejo aos britânicos e poupou-lhes uma campanha contra um exército ainda numeroso, com o Inverno à porta e uma esquadra por resolver. Militarmente, os britânicos conseguiram tudo aquilo a que tinham vindo, e conseguiram-no em duas semanas. O preço foi deixar Junot ir embora praticamente intacto. Foi um preço que os britânicos consideraram “justo”.

O pormenor que me interessa é que Portugal não foi parte contratante. Não negociou, não assinou e não ratificou coisa nenhuma. A pergunta que se costuma fazer é porque é que os ingleses não nos chamaram. A pergunta certa é quem é que teria ido. O príncipe regente estava no Rio, para onde a corte partira no ano anterior, as Cortes não se reuniam desde o século XVII, havia uma junta em Lisboa debaixo de ocupação francesa e outra no Porto sem autoridade sobre a primeira, e nenhuma delas dispunha de exército, de comando ou de mandato para falar em nome do reino. Não fomos excluídos de uma negociação. Não tínhamos com que comparecer. E quem tirou daí a conclusão fomos nós. Seis meses e uns trocos depois, a 7 de Março de 1809, o comando do exército português foi entregue ao marechal Beresford com plenos poderes para nomear e demitir os oficiais que entendesse. A escolha do nome foi de Londres. O pedido foi de Lisboa. Beresford fez daquele exército uma força de primeira linha, e essa é a parte da história que nos convém contar. Um país que precisa de mandar vir de fora quem lhe faça o exército e quem assine por ele já não é bem um país. É um teatro de operações com bandeira.

Coube no documento uma esquadra russa. Os artigos adicionais trataram da neutralidade dos navios de Senyavin fundeados no Tejo, estando a Grã-Bretanha em guerra com a Rússia, e o destino da esquadra acabaria fixado dias depois, num acordo à parte com o almirante Cotton. Havia espaço para uma potência terceira. Não havia para o dono da casa.

Até o nome que damos ao escândalo é emprestado. O documento foi assinado a 30 de Agosto e nem sobre o local há acordo, porque Lisboa, Queluz e Torres Vedras disputam a honra. A designação de Sintra fixou-se depois, em boa parte por causa do despacho que Dalrymple escreveu do quartel-general instalado ali. Chamamos-lhe Convenção de Sintra porque um general britânico datou uma carta.

Glover é abertamente favorável a Wellesley, e a sua narrativa encaixa como uma luva na construção posterior do grande Wellington, o general brilhante que vence, os superiores que chegam tarde e estragam tudo, o inquérito que corrige a injustiça. É uma boa historieta. Não é, porém, a única possível. Convém desconfiar sempre das versões em que os factos se organizam demasiado bem em torno de um herói. A formulação mais honesta é outra. A Convenção foi, ao mesmo tempo, um extraordinário êxito estratégico britânico, um desastre político britânico e uma humilhação legítima para Portugal. As três coisas são verdadeiras pela mesma razão: Portugal não participou na escolha do seu próprio futuro. Quando um país abdica de negociar os seus próprios interesses, quem parte e reparte fica naturalmente com a melhor parte.

Costuma dizer-se que o Portugal do império acabou em 1974 e que o princípio do fim foi o ouro do Brasil. A minha opinião, que vale o que vale, é outra. O ponto de inflexão que marca o fim da autonomia portuguesa está algures entre a chegada de Junot e a sua partida. O que veio depois foi administração, por vezes competente, quase sempre alheia. Beresford comandou o Exército, os ingleses comandaram Beresford, a corte ficou no Rio e o país habituou-se a uma condição que nunca mais perdeu: a de assunto tratado por terceiros. Hoje decide-se em Bruxelas o que é regra, em Washington o que é aliança e em Pequim quem fica com a rede eléctrica, e em Lisboa a Lusa prepara o comunicado. É uma condição confortável. Poupa deliberações e poupa culpas. Talvez seja por isso que ainda discutimos se fomos traídos, quando a pergunta certa é outra. Não fomos traídos. Fomos promovidos a colónia.

 

 

 

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

HISTÓRIA PÁTRIA


Impecavelmente traduzida por BERNARDO RIBEIRO DA CUNHA, a quem agradecemos   a seriedade racional. Nacional também.

ALJUBARROTA: QUANDO PORTUGAL DECIDIU EXISTIR

É por isso que Aljubarrota não pertence apenas à história militar. Pertence à história da soberania. Foi o momento em que Portugal disse que a geografia não bastava para o definir.

BERNARDO RIBEIRO DA CUNHA

OBSERVADOR, 15 ago. 2026, 00:21

Há batalhas que ganham territórios. Outras ganham tempo. Aljubarrota ganhou uma coisa mais rara: a possibilidade de Portugal continuar a ser Portugal.

Em 14 de Agosto de 1385, há 641 anos, no campo de São Jorge, perto de Aljubarrota, não se enfrentaram apenas dois exércitos. Enfrentaram-se duas ideias de legitimidade. De um lado, Castela, com a força do número, da sucessão dinástica e da ambição peninsular. Do outro, um reino pequeno, politicamente ferido, socialmente dividido, mas ainda capaz de reconhecer que a legalidade sem liberdade pode tornar-se apenas a gramática elegante da submissão.

A crise começara com a morte de D. Fernando, em 1383. A sua filha, D. Beatriz, casada com o rei de Castela, abria a porta a uma solução dinástica aparentemente impecável e politicamente fatal: Portugal podia deixar de ser reino independente sem que ninguém precisasse de o conquistar formalmente. Bastava respeitar as regras até elas deixarem de proteger a casa comum. É uma lição antiga, mas sempre nova: há momentos em que a forma da lei pode ser usada contra o espírito da liberdade.

Foi então que emergiu D. João, Mestre de Avis. Não como figura romântica inventada depois pelos cronistas, mas como resposta política a uma necessidade histórica. As Cortes de Coimbra deram-lhe a coroa; João das Regras deu-lhe o argumento; Nuno Álvares Pereira deu-lhe a espada e, mais do que a espada, a disciplina.

Aljubarrota foi uma vitória da inteligência sobre a massa. O exército castelhano era superior em número. Portugal não tinha o luxo da imprudência. Escolheu o terreno, preparou obstáculos, estreitou o espaço, obrigou a cavalaria inimiga a lutar onde a sua força se convertia em embaraço. A grandeza castelhana entrou no campo como quem entra numa avenida; descobriu tarde de mais que estava num corredor.

Nuno Álvares não venceu por entusiasmo. Venceu por ordem. A coragem portuguesa, nesse dia, não foi grito: foi formação. Não foi impulso: foi obediência. Cada homem no seu lugar; cada lança apontada; cada passo calculado. A desproporção, que em teoria anunciava a derrota, tornou-se argumento a favor da prudência. A pequena nação só podia sobreviver se pensasse melhor do que o império que vinha esmagá-la.

Convém, porém, evitar a simplificação patriótica. Aljubarrota não prova que os portugueses sejam invencíveis. Prova coisa mais séria: que uma comunidade política só resiste quando sabe o que quer preservar. A independência não é um ornamento sentimental. É uma responsabilidade. Exige elites que não vendam o país por conveniência, povo que não confunda paz com rendição, e chefes que saibam que a autoridade existe para servir uma continuidade superior ao próprio interesse.

A presença de D. Nuno Álvares Pereira dá ainda à batalha uma dimensão que Portugal moderno raramente sabe ler sem embaraço: a dimensão espiritual. O Condestável não foi canonizado por ter sido bom general, mas é impossível separar nele a disciplina militar da ascese cristã. A sua grandeza não está apenas na vitória; está na forma como a vitória não o devorou. Num tempo em que tantos confundem poder com destino pessoal, Nuno Álvares lembra que a verdadeira autoridade começa no domínio de si.

Depois de Aljubarrota veio a dinastia de Avis, o Mosteiro da Batalha, a aliança inglesa consolidada pelo Tratado de Windsor, e a abertura de um ciclo que levaria Portugal ao mar. Mas nada disso estava garantido naquela tarde de Agosto. A história gosta de parecer inevitável depois de acontecer. Antes, é sempre risco, fadiga, pó, medo e decisão.

Portugal não nasceu em Aljubarrota. Já existia. Mas confirmou ali que queria continuar a existir. E talvez seja essa a lição mais actual da batalha: as nações não morrem apenas quando são vencidas por fora. Morrem antes quando deixam de acreditar, por dentro, que vale a pena defendê-las.

ALJUBARROTA FOI, POR ISSO, MAIS DO QUE UMA VITÓRIA MILITAR. FOI UMA DECLARAÇÃO DE PERMANÊNCIA. Uma pequena clareira aberta na História por homens que não tinham garantias, mas tinham dever. E quando um povo ainda sabe distinguir o dever da conveniência, até a inferioridade numérica pode tornar-se uma forma de soberania.

É por isso que Aljubarrota não pertence apenas à história militar. Pertence à história da soberania. Foi o momento em que Portugal disse que a geografia não bastava para o definir, mas que sem independência política a geografia se tornaria propriedade alheia.

Os grandes reinos gostam de chamar inevitável ao que lhes convém. Os pequenos, quando ainda têm alma, respondem que a inevitabilidade também pode cair numa vala.

Em Aljubarrota, caiu.

COMENTÁRIOS:

JORGE CARVALHO: Muito obrigado pelo seu excecional artigo que me trouxe a alegria e a responsabilidade de ser português até à morte

ALEXANDRE BARREIRA: Pois. Caro Bernardo: Também conheço outra história: 25 de Abril de 1974: quando Portugal decidiu....desistir.....!

FILIPE BATISTA: Excelente texto. E muito actual. Hoje, as nossas "elites" servem-se a si próprias e destroem Portugal. Políticos, juízes, intelectuais, artistas...

TIM DO A: E o 25 de Abril foi o momento em que Portugal perdeu o império, a soberania, está (ou já foi) a ser invadido e desistiu de existir como nação. A não ser para o futebol (em que a selecção também tem cada vez menos portugueses)...

MANUEL MAGALHAES: É bom relembrar o que temos vindo a perder, a falta de dignidade daquilo a que chamamos as nossas “elites” que nos têm levado a esquecer a razão de ser de Aljubarrota, temos agora na Europa um bom exemplo de dignidade, a Ucrânia que nos deveria fazer repensar e que muitos tratam de disfarçar… sinal dos tempos!!!

TOMAZZ MAN: Impecavelmente sintetizado.

ROSA RIBEIRO: É um orgulho, uma honra e uma responsabilidade imensa ser português! Temos séculos de História magnífica e épica! Tenhamos nas gerações futuras a continuidade e o deslumbramento de nos ultrapassarmos em Cultura, Justiça e Ciência para o bem da Humanidade!

TIM DO A > ALEXANDRE BARREIRA: Exactamente