Pela via política.
O cativo que nos tem cativos: as aventuras políticas de
Camões
Perante o génio de Camões,
a tentação de encontrar no poeta um herói politicamente útil nunca deixou de
ser transversal à direita e à esquerda
JAIME NOGUEIRA PINTO
Colunista do Observador
OBSERVADOR, 18 jun. 2026, 00:25
Desde que o mundo é mundo
que o poder tenta “orientar” os poetas vivos e cativar os poetas mortos,
procurando nos grandes artistas, músicos, cineastas, pintores, escritores,
legitimidade histórica e ideológica. CAMÕES, como o maior poeta português, sem rival até ao
aparecimento, descoberta e reconhecimento de Pessoa, não escapou a estas
tentativas de captura.
O uso e abuso da História
Perante o génio de Camões,
a tentação de encontrar no poeta um herói útil nunca deixou de ser
transversal à direita e à esquerda, mesmo que essa utilidade pudesse vir a ser a de o elevar
como suprema vítima ou supremo culpado de uma História vergonhosa, ou a de o
calar como voz do privilégio branco e masculino.
O uso político da
História e da cultura está, de resto, generalizado na modernidade europeia,
sendo (quase) sempre possível torcer factos e comprimir génios, de modo a
acomodá-los na lamparina pretendida para depois os libertar convenientemente.
Assim, escrevendo sobre as ideias políticas
de Shakespeare, Noah Berlatsky, por exemplo, pôde sustentar que o Bardo
era “conservador” por defender o statu quo da monarquia inglesa da primeira
modernidade e a hierarquia estabelecida. Esta defesa da legitimidade
monárquica e consequente condenação dos que tentavam combatê-la, como os
puritanos, seria clara em Macbeth, mas também em Hamlet e em The Tempest. Por isso
também Iago
era o “mau” da peça, em Othello, e Lear, com o seu abandono prematuro do poder, o
portador do caos. Nada disto impediria que críticos como Andrew Venning advogassem um Shakespeare de esquerda,
ou “liberal”, na terminologia anglo-saxónica, pela sua crítica a figuras
tirânicas ou iliberais, como Júlio César e Ricardo III. Qualquer
das hipóteses é defensável, até porque,
como todos os grandes criadores, Shakespeare não foi um teórico político mas,
acima de tudo, um espelho da natureza humana e das sociedades onde ela se
revelava, ou talvez até mesmo um “inventor do humano”, como queria Harold Bloom.
Mas se os grandes
textos permitem múltiplos usos e interpretações nem todos os usos e abusos são
legítimos.
Em Ideas Have Consequences (1948),
Richard Weaver fixou o princípio da decadência do Ocidente no
nominalismo de Guilherme de Ockham, um franciscano inglês, teólogo e filósofo
que, pela primeira vez, pôs em causa a existência de verdades absolutas. Defendendo que a
realidade era, sobretudo, uma percepção dos sentidos e não da inteligência,
Occam teria aberto caminho à transformação do “homem moderno” num “moral idiot”.
Assim, por idiotice moral, por paixão
ideológica ou por uma combinação das duas, não faltaram nem
faltam tentativas políticas de monopolizar textos, poetas e artistas, ou até de
os cancelar. Tal
como os Evangelhos, o Dante da Commedia ou o Cervantes do Quijote, o Camões
d’Os Lusíadas ou da lírica é passível de ser calado ou manipulado em prol de
gregos e troianos, progressistas e conservadores.
Luís de Camões, que era um português, mas também
um ocidental da modernidade renascentista, estava consciente de que a liberdade
de se contradizer ou de integrar a contradição fazia parte dos valores europeus.
Com o “Velho do Restelo”
(queira Deus que o não venham a transformar em “Idoso do Restelo”),
o poeta não poupou o
lado negro do império: o abuso, a corrupção e a cobiça dos poderosos e a inveja
inerte dos tacanhos. Também por isso Antero e Oliveira Martins usaram
Os Lusíadas na sua crítica amarga ao Portugal oitocentista: o poema, além de
cantar a glória e o génio dos portugueses, ficava “gravado na alma nacional
como o epitáfio da nação”.
Este pessimismo nacional, muito Geração de Setenta,
convertia-se, para os republicanos do tempo, num argumento contra a monarquia
dos Bragança, culpados de se afastarem da glória do século de ouro, em que
controlávamos o comércio do Índico, tínhamos fortalezas e feitorias nas costas
oriental e ocidental africanas, estávamos em Marrocos e começávamos a
colonização do Brasil. Assim, no centenário de 1880 e a seguir ao
Ultimato, a República pegaria no Camões da exaltação colonial para o arremessar
contra a Monarquia.
Camões e os republicanos
Em 1880, no terceiro centenário da morte do poeta, é
uma comissão executiva maioritariamente republicana que exalta o tempo épico do
Portugal de Os Lusíadas, para o contrastar com a decadência oitocentista,
culpando os Braganças e a monarquia pelo declínio da Nação. Na
documentação comemorativa e na História das Ideias Republicanas (1880), Teófilo Braga vai
mesmo apelar para que o “10 de junho de 1880”, o terceiro centenário da morte
do grande poeta, seja “o começo de uma nova era de grandeza da Pátria”.
Dez anos depois, a humilhação do Ultimato serviria aos
republicanos para explorar a “traição da Coroa” que cedera a uma outra coroa –
a inglesa – o património ultramarino. E, ironia do destino,
atendendo ao futuro da esquerda democrática do século XX, seria em nome da
“revivescência da nacionalidade” e com referência à épica camoniana como
símbolo da “idade heróica da Nação” (idade a que os seus herdeiros se
iriam referir como “de escravatura e colonialismo”) que os republicanos
obteriam a sua
primeira votação popular significativa. Nesses finais do século XIX,
a estátua de Camões na Baixa de Lisboa, erguida em 1867, seria, depois do
Ultimato, devidamente enlutada com crepes negros e transformada em lugar de
romagem. Isto apesar das ideias de “federalismo ibérico” que
alguns destes republicanos perfilhavam.
É à volta desses “lugares
da memória” que Teófilo unifica “as três revoluções” – a de 1640, a de 1820 e a de 1910
– num mesmo
nacionalismo popular, em que o culto da pátria e dos heróis se revelam
essenciais para “acordar a consciência de solidariedade da civilização
ocidental”.
Como parte da sua
sobreprodução bibliográfica ao serviço de ideais políticos, Teófilo Braga publica Camões e o
Sentimento Nacional (1891), glorificando o poeta e a Idade de
Ouro dos Descobrimentos e das Conquistas. Ajudam-no nesta empresa dois
grandes da Geração de Setenta, Oliveira Martins e Antero de Quental. Em divergência com Herculano, o historiador
apaixonado pelo Portugal medieval e municipal pré-expansão, Oliveira
Martins e Antero veem n’Os Lusíadas, além da exaltação do povo português, um
manifesto da Europa moderna, a Europa de Quinhentos e dos Estados soberanos
como forma superior de comunidade política, contra as antigas fórmulas
trans-estatais da Respublica Christiana papal e do Sacro Império
Romano-Germânico.
Mal sabiam os republicanos,
patriotas e grandes defensores do império colonial – mas ao tempo,
identificados com a esquerda progressista – que estariam condenados a
retorcer-se nos túmulos, ante a obra dos seus pretensos descendentes ideológicos, motores, por
acção ou inércia, da descolonização. Ou perante a esquerda actual e a
revisão histórica a que se dedica.
Camões, o Estado Novo e o 25 de Abril
Depois do 28 de Maio e da Ditadura Militar de 1926-1933, o Estado
Novo – que, graças a António Ferro, se abriu à
modernidade estética europeia, casando-a com o nacionalismo português –
viu n’Os
Lusíadas uma mina de ouro para a consagração e defesa dos seus valores
de orientação – Deus,
Pátria e Família.
É curioso que alguns oposicionistas acusassem o Estado
Novo de policiar a Literatura, do Canto IX dos Lusíadas a algumas obras de
ficção e de História da Geração de Setenta, como se semelhante controle fosse
sequer remotamente comparável ao então exercido nas suas admiradas “democracias
populares”. O certo é que a censura que de facto existia
nos permitia, ainda assim, estudar uma cadeira eminentemente ideológica, como
era a Literatura Portuguesa do 6º e 7º ano do liceu, pelo compêndio, aliás
excelente, de dois membros do Partido Comunista: a História da
Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes.
Claro está que, frente à ofensiva anticolonial das
Nações Unidas, o Estado Novo usou Camões e Os Lusíadas para
exaltar o patriotismo ultramarino dos militares e das novas gerações, sem que
os poetas e os cantores da oposição repudiassem o poeta ou deixassem de o usar,
se não na épica, na lírica. Era então considerado grande demais e rico demais para ser
ignorado.
Já depois de 1974, Jorge de
Sena falava num “Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do
nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da revolução de Abril”.
Ao “espírito” das
poéticas intenções revolucionárias ainda vamos, ajudados por algum engenho e
arte interpretativos; aos feitos, às “obras valerosas” e ao “novo reino”,
entretanto edificado, é que já não.
Mas enfim, antes a manipulação que o cativeiro da
ignorância e do silenciamento.
COMENTÁRIOS:
HENRIQUE MOTA: Que
magnífica lição - porque não dizê-lo - de história, perdoem HISTÓRIA ( em
maiúsculas) . Como é agradável ler este senhor.
JOÃO FLORIANOANTÓNIO ROCHA: Teria a sua graça: a Ilha dos Amores ser
transformada num manifesto LGBTI em que os marinheiros fossem exemplos de
masculinidade tóxica violando ninfas, ninfos e ninfes. O Vasco da Gama poderia
muito bem falar de multiculturalidade ao Rei de Melinde.
JOÃO FLORIANO: qualquer
grande figura da literatura em particular e da arte em geral pode ser
aproveitada tanto à esquerda como à direita tal a riqueza das ideias
exploradas. mas esquecem-se que figuras como camões e shakespeare também tinham
contas para pagar, sobretudo o inglês viveu sempre na corda bamba porque para
além da genialidade das suas obras, havia os ordenados dos actores, a
conservação do teatro em madeira que podia arder como um fósforo e o humor dos
patronos poderosos. ainda sou do tempo em que
a ilha dos amores (canto ix) tinha sido expurgada das edições pelo menos
as escolares. quando mais tarde li o que aconteceu nessa ilha entre as ninfas e
os marinheiros do gama, achei aquilo de uma sensaboria tamanha , sobretudo
porque o grande filme de 1975 era o erótico «emanuelle» .
ANTÓNIO ROCHA: Ainda vamos
ver Camões reescrito pelas novas tendências
JOSÉ MIRANDA: O Jaime Nogueira Pinto desmistifica as
ideologias e os seus fanáticos.