sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quem te avisa

 

Teu amigo é. Talvez haja um certo exibicionismo na reprodução noticiosa dos acontecimentos, mas… e se não houvesse notícias deles? Cairia igualmente o Carmo e a Trindade…

Criticar tudo e todos é sintoma de que damos pelo mundo… E o IPMA só não é importante, sobretudo para quem fica em casa, a escutar e a ver à distância, embora receie pelos que têm que arrostar com os deslizes do tempo…

Se o sibilar da ventania é aterrador para quem dela está resguardado, como não será a ventania para os que a sofrem na pele? Quanto mais as tempestades reais!

 

A grande questão do nosso “tempo”

O problema do IPMA não é a escassez de avisos: é o excesso. O IPMA produz centenas e centenas de avisos por ano, dezenas e dezenas por mês, às vezes uma data deles num único dia.

ALBERTO GONÇALVES , Colunista do OBSERVADOR

OBSERVADOR, 07 fev. 2026, 00:0012

Tem-se discutido imenso o que se fez, ou não se fez, após a tempestade Kristin. Discutiu-se menos o que se fez antes. No máximo, soltaram-se por aí uns queixumes acerca da falta de informação preventiva. Os queixumes são pouco informados: no dia anterior à calamidade, com cerca de 12 horas de avanço, o Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) publicou um comunicado a prever ventos de 160 km/h “ou mesmo de 180km/h”, nas declarações de uma meteorologista do Instituto. A mesma senhora, Maria João Frada, referiu à RTP a possibilidade de um “impacto catastrófico” e recomendou às pessoas “para se manterem em casa, com as persianas bem fechadas, e protegerem estruturas”. Ou seja, embora as zonas de alcance da tempestade permanecessem vagas (“algures entre Leiria e Braga”), a sua dimensão e consequências plausíveis estavam bem definidas. Haveria uma grande diferença caso as pessoas tivessem prestado atenção e agido em conformidade? Provavelmente, nem por isso. Alguém prestou atenção? Não.

O problema do IPMA não é a escassez de avisos: é o excesso. O IPMA produz centenas e centenas de avisos por ano, dezenas e dezenas por mês, às vezes uma data deles num único dia. No momento em que escrevo, o distrito de Lisboa está sujeito a seis avisos, três amarelos e três laranjas. O do Porto a cinco. O de Setúbal a sete. São demasiados avisos, demasiados alertas, demasiados esforços para apavorar a população, frequentemente com a ameaça de ventos triviais ou chuvas ordinárias, de manhãs geladas no Inverno e tardes abafadas no Verão. Para cúmulo, cada aviso é acompanhado dos indispensáveis “conselhos” da Protecção Civil, que do alto da sua proficiência técnica informa os leigos de que devem usar roupa fresca em Agosto e um agasalho em Janeiro.

A história de Pedro e do lobo é excessivamente óbvia. Prefiro comparar a análise dos fenómenos naturais aos péssimos filmes de terror: a abundância de sustos, na vasta maioria não fundamentados, consegue a proeza de não assustar vivalma. Contaram-me – fonte seguríssima – que os presentes num café de Óbidos receberam em simultâneo a SMS sobre a aproximação da “depressão Kristin”: seguiram-se minutos de risinhos, de resto a reacção expectável em quem passa a vida a ser inquietado com calamidades que raramente acontecem. E é difícil culpar os galhofeiros quando não são eles a banalizar (agora diz-se “normalizar”, mas eu não digo) as travessuras do clima.

Há uma explicação superficial, simplória e essencialmente correcta para o desmesurado zelo das “autoridades” meteorológicas. Acima de tudo, à semelhança dos laboratórios que enfiam nas bulas improváveis e irrelevantes efeitos secundários (“Há relatos contraditórios de que o consumo moderado de paracetamol possa ter causado ligeira morrinha a um contabilista da Lituânia em 1983”), as “autoridades” receiam falhar por omissão. Vai daí, adoptam o pressuposto de que, se avisarem a população a pretexto do que calha, incluindo de uma brisa incapaz de tombar um balde de plástico, a população não pode acusar as “autoridades” de não terem avisado. Sucede que, conforme se verificou na Kristin, a população ri-se dos avisos e de seguida reclama da inexistência dos avisos. E a culpa é menos da população que do frenesim apocalíptico das “autoridades”, repetido pelo eco das televisões desesperadas ante a fuga de audiências.

Porém, a explicação “profunda” é outra. O IPMA e a Protecção Civil são entidades públicas, e por isso tendem a reproduzir os procedimentos de um Estado que crescentemente trata os cidadãos como crianças para se ilibar a si próprio. Não admira que adopte um estilo de pedagogia assente no medo. Para não sairmos do tema da conversa, alguns recordarão a época em que o quadro de pessoal do falecido Instituto de Meteorologia dava a ideia, necessariamente errada,  de ser composto apenas pela sensata e credível figura de Anthímio de Azevedo. Durante as décadas em que apresentou diariamente o “tempo”, aquele saudoso homem jamais exibiu um esboço de histeria ou sequer um fugaz abalo na calma com que descrevia as atribulações do anti-ciclone dos Açores. Nas suas intervenções, os quadros eram rigorosos e sem cores evocativas do Juízo Final. Não havia “rios atmosféricos” ou “comboios de tempestades”. As avarias climatéricas não tinham nome nem indiciavam o fim do mundo. Os espectadores eram adultos conscientes, ou o dr. Anthímio assim os imaginava. E o respeito era recíproco.

Esse “tempo”, em dois dos sentidos da palavra, morreu. A progressiva, e progressista, infantilização dos “súbditos” no clima e no resto não deve à preocupação com eles. Ou deve: à preocupação em manter os “súbditos” dependentes e submissos e permeáveis aos desvarios de uma classe política tão dissimulada quanto incompetente. Além de mandar “mais”, o objectivo dos actuais poderes é mandar “pior” – e sob o menor escrutínio possível. A segurança de líderes fracos passa por eleitores abúlicos, pelo que suspeito que o Estado não usa as sugestões de pânico exactamente para nos aterrorizar: é para nos anestesiar.

E anestesiados andamos, à mercê de ventos e tempestades, incêndios e epidemias, alarmes falsos e autênticos, “planos” e “apoios”, corruptos e corruptelas do “bem comum”. Depois rimos sem vontade até que o céu, ou prosaicamente o telhado, nos caia em cima. E por fim estendemos a mão aos senhores que nos guiam, a ver o que cai. Sinais dos tempos.

IPMA         PAÍS        SOCIEDADE

 

COMENTÁRIOS:
António Lamas: Pois é Alberto, mas no tempo do Antimio não havia 8 canais de televisão com 500 pés de microfone analfabetos a bolsar disparates como chamar praia-mar à preia-mar, ou que o Tejo galgou as margens de Coruche ou que há avisos laranja para os distritos de Viseu e Guarda. Não admira que os SMS da Protecção (?) Civil sejam considerados anedotas, 

Alexandre Barreira: Pois. Caro AG, Não havia necessidade de tanta....."conversa". Bastava dizer que ISTE TÁ MESME TUDE FEDIDE.....!

Jose Ferreira: Produção fordiana em Carnaxide. "Ocorrências"  Há ocorrências, logo existo. Um tufão em vista, o 8 F. 

Cupid Stunt: AMÉM!! Excelente, as usual. 👍🏻👏🏻👏🏻

José Paulo Castro: A grande sugestão do nosso tempo é a de que, diminuindo as nossas emissões, conseguimos controlar o tempo. Isto é dito à descarada pelos políticos, essencialmente os de esquerda. Suponho que o passo seguinte é colocar limites constitucionais ao clima.

Carlos Chaves: Volto a repetir para dar trabalho aos censores..... É com directores como esse Miguel Pinheiro, que este Pasquim chegou a este nível... Não esquecer que este MP é o mesmo que mantém uma conversa semanal com o @n@rmal e @tras&d€ ment@l do Sérgio Sousa Pinto. Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és! Excelente comentário este seu Maria Paula. Desejo-lhe um bom sábado.

Pedro Athayde Cordeiro: Estamos demasiado habituados a ouvir "mau tempo". É mau tempo para tudo. Quando chove é mau tempo. Quando há vento é mau tempo. A chuva e o vento são normais e, às vezes, até desejados. Os agricultores querem chuva no inverno. Querem chuva no Outono e até na primavera. E se chover no verão também não se chateiam nada mesmo. Agora ligar a tv e ouvir e ler constantemente "mau tempo" é sensacionalismo, no mínimo. Estas semanas houve mesmo mau tempo. Isto não é normal nem mesmo para os agricultores. Sugiro que deixem de usar o termo "mau" para uma chuvinha. Quando ouço "mau tempo" penso sempre que é bom. "Estou a regar" - costumo dizer. Guardem o "mau tempo" para quando é mesmo mau, como estes dias. Lá porque todos os anos há inundações em sete-rios não quer dizer "mau tempo". Mau tempo é, a maior parte das vezes, mau planeamento urbano. Há cheias em sete-rios e cai ouro líquido dos céus, dizemos nós agricultores. 

Carlos Chaves: Os imperdíveis textos de Alberto Gonçalves, são de leitura obrigatória mas neste basta apenas ele ter lembrado o sr. Anthímio de Azevedo, para o tornar de leitura obrigatória! Obrigado Alberto.

MariaPaula Silva: E x c e l e n t e ! Talvez uma das suas melhores crónicas. Ou talvez eu tenha vindo, desiludida e irritada de ter lido a "estapafúrdia croniqueta" do Miguel Pinheiro antes desta e, por isso, esta pareceu-me sublime. É mesmo isso, como é que de governos fracos se pode esperar força e proactividade? As pessoas competentes fogem da política, de há umas décadas a esta parte, e portanto encontramos na política apenas aqueles que não sabem fazer mais nada. Antigamente as cadeiras eram ocupadas por pessoas competentes em cada área. Hoje, os  "ilustres politecos" rodam por todas as cadeiras. Como é que se  pode querer esperar mais de um governo e de um PM que nunca souberam dar mais?  Uma lesma será sempre uma lesma, um arrogante piroso será sempre um arrogante piroso. Um pa-lerma sem coluna vertebral que se auto proclamou herança de Sá Carneiro (que Deus o perdoe), nem o conheceu, ele sabe lá quem era, quem foi Sá Carneiro..., que se recusa a pôr as cartas na mesa sobre a sua querida Espirraviva, que sem vergonha nenhuma e às claras apoia o partido mãe amantizado, enfim... uma lesma será sempre uma lesma. Não se pode exigir mais. O que poderíamos e deveríamos exigir é que esta corja que nos desgoverna desandasse daqui para fora de vez. Porque, como muito bem diz AG, este tipo de gente caracteriza, em cadeia, toda a hierarquia  institucional. Por isso, o IPMA acha que é competente por enviar muitas sms. Mas todo esse comportamento faz também parte das tácticas a que o big big business das "alterações climáticas" obriga (AG esqueceu-se desta).

O João Adrião publicou há dias uma lista das tempestades desde 1600 e troca o passo. Vou ver se a coloco aqui.  Tal como uma notícia do jornal "O Século" sobre um  ciclone que assolou Lisboa em 16 fev. 1941. Nada disto é novo, as alterações climáticas sempre existiram, pois no planeta nada é estático. Mas bom, big business à parte, quem é que enfrenta, evita, diminui uma tempestade desta natureza com ventos de 200km/h?  A mãe natureza é quem manda e ninguém a controla.   Os grandes homens podem então revelar-se no após desgraça. Vamos ver o que o sr. Montenegro, perdão MonteRosa, será capaz de fazer. Eu leio  as sms e todos os avisos e sinto-me impotente perante eles.  Obrigada pela excelente crónica, AG.

MariaPaula Silva MariaPaula Silva:  aqui fica a lista do João Adrião (sim, porque não sou como a Rita Matias, indico sempre as fontes):

DIAS DE TEMPESTADE: A depressão Kristin devastou nos últimos dias sobretudo a região de Leiria. As ocorrências passam as 12 mil. 5 mortes directas e algumas em consequências indirectas. Um milhão de pessoas sem electricidade. Ventos que podem ter superado os 200 km/h. Não obstante tratar-se de um fenómeno raro, está longe de ser inédito. Fica uma lista que reúne alguns dos episódios tempestuosos que nos têm atingido ao longo da história:

1600 (xx/12); 1639 (xx/12);

1724 (19/11);

1732 (15/10): fortes ventos, volumosos prejuízos;

1665 (13/01): “(...) ventando, por espaço de 24 h, com tal fúria a espaços, se duram mais tempo e com maior continuação, nenhuma cousa ficara em pé. O estrago nos olivais e em todo o género de árvores foi enormíssimo (...) umas arrancadas de todo, outras quebradas” (Coimbra);

1739 (6/12): “O temporal de 3 a 6 de Dezembro de 1739 em Portugal – reconstituição a partir de fontes documentais descritivas” – poema: “Cada vez mais os ventos desabridos/ Universaes ruinas vaõ causando/ De huma para outra parte compellidos/ Edificios, e cazas devastando”

1842 “Furacão de Espanha”;

1870 (17/04): “levantou-se um tufão no Tejo. Atravessando todo o estuário as formidáveis ventanias destruíram embarcadouros, molhes, paliçadas de protecção e embarcações, tanto na barra como no porto de Lisboa, e as aldeias piscatórias da margem sul até à Caparica”;

1895 (10/03): “o barógrafo registou 722mm (962hPa) de pressão, acompanhada de um temporal, que também atingiu extraordinária violência, mas que não se compara com este (1941)”;

1910 (10/01): “Portugal devastado pelas águas 2 (Ilustração Portuguesa) – inundações em Lisboa e Porto, derrocada de habitações, descarrilamento de um comboio (Póvoa de S Iria);

1929 (07/10): “Um violento ciclone devastou Sines, Santiago do Cacém e região próxima, havendo prejuízos muito importantes” (O Século) – desmantelou casas, arrancou muros e árvores, semeou a morte e deixou dezenas de feridos;

1931 (26/10): “O temporal” (O Século) – abatimento de terreno na Linha do norte, Furacão no Algarve, inundações em muitos locais;

1937 (xx/01): violento temporal atinge o país;

1941 (15/02): “o dia do ciclone” – mais de 100 mortes;

1947 (02/12): naufrágio de 4 traineiras na Fig. Foz com a perda de 151 vidas humanas;

1953 Furacão “Dolly”;

1954 (13/11): “Vento ciclónico” (O Século Ilustrado) – chuvas e vento fortes fizeram ruir casas e voar milhares de telhados, além de derrubar enormes árvores;

1959 (14/03): “Mau tempo sobre o país” (O Século Ilustrado) – no Porto desmoronou-se a Muralha Fernandina, inundações em Lisboa e noutras regiões;

1967 Furacão “Chloe”

1968 (13/12): “Temporal” (Vida Mundial) – temporal no Algarve com ventos a atingir 120 km/h; cargueiro holandês arrastado para a praia (Fig. Foz);

1969 (21/03): “Chuvas, Mau tempo, Cheias” (Vida Mundial) – várias pessoas desalojadas (Abrantes), inundações no Porto, vento de 115 km/h, prejuízos agrícolas (todo o país);

1970 (17/01): “A tempestade veio do mar” (O Século Ilustrado) – ameaçada a zona balnear da Caparica, outras zonas afetadas: Póvoa de Varzim, Quarteira;

1970 (23/05): “Vento ciclónico – Destruição em vastas áreas do país” (O Século Ilustrado) – vários mortos, casas e fábricas sem telhados, chaminés afetadas, muitas árvores caídas;

1978 (11/12): ventos de 120km/h, em Leça da Palmeira o mar invadiu a marginal, Pedras Rubras acabou o mês de Dezembro com 559mm;

1981 Furacão “Irene”;

1981 (31/12): “Do Minho ao Algarve, chuvadas de grande intensidade e rajadas de vento ciclónico – que chegaram a atingir 120 quilómetros horários – causaram prejuízos de valor ainda incalculado e perturbaram a normalidade de todas as actividades […] as comunicações ferroviárias estão interrompidas em vários locais do País […] Há centenas de árvores e postes telefónicos e condutores de energia derrubados pela ventania, quase todos os portos do País estão fechados à navegação” (Diário de Notícias);

1987 Furacão “Arlene”;

1989 (08/12): “Algarve é zona de calamidade pública” (Expresso) – 5 mortes e avultados prejuízos na agricultura e habitações;

1991 Furacão “Bob”;

1992 Furacão “Francis”;

1997 (05/11): ciclogénese explosiva, ventos de 123km/h (Sagres), chuva forte (111mm/24h em Beja), 11 mortes e 40 feridos;

1998 Furacão “Jeane”;

2000 (08/12): “E quase tudo o vento levou” (Expresso) – fortes chuvas e ventanias, 4 mortes (Arcos de Valdevez), 273 desalojados (todo o país);2000 (30/12): “Chuva atinge máximo da década”/“Automóveis soterrados” (Expresso) – forte nevão na S.Estrela, aluimento de terras corta a linha da Beira Alta e soterrou 30 carros (Coimbra);

2003 (31/10): “Temporal causa morte e um desaparecido” (Correio da Manhã) – mau tempo causa uma morte (Aveiro), um desaparecido e um ferido, e morreram 7 vacas;

2005 Furacão “Vince”;

2006 Furacão “Gordon”;

2013 (19/01): Depressão Gong – ciclogénese explosiva varreu Portugal com ventos na ordem dos 130 km/h;

2017 Furacão “Ophelia” – associado aos incêndios de 15/Outubro que provocaram meia centena de mortes;

2018 (23/09): Furacão “Leslie” vento de 176 km/h (Fig. Foz); dezenas de feridos e desalojados, milhares sem electricidade, prejuízos materiais de mais de 120 milhões €;

2020 (18/09): Furacão “Alpha” – primeiro landfall confirmado na PI. Ventos fortes, chuva intensa, fortes rajadas, centenas de ocorrências, mais de 20 milhões em prejuízos;

2025 (20/03): “autêntico terror” – mais de 8000 ocorrências, rajadas de vento que chegaram aos 169 km/h (Cabo da Roca).

José Paulo Castro > MariaPaula Silva: São as oscilações climáticas. Eles é que insistem em chamar-lhes alterações.

Nuno Abreu: Hoje não desgostei do artigo do Aberto Gonçalves. Falou do tempo e sugeriu moderação. A moderação que muitas vezes não tem quando escreve sobre os políticos de que não gosta. Boa meditação. E boa votação!

José Paulo CastroNuno Abreu: Quer que ele fique calmo com autênticos desastres?

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Um livro

 

Que também li, em tempos, que me impressionou, sim, por me fazer viver vidas distantes do meu viver banal de trabalhos e emoções sem história, e que a crónica do Sacerdote JOÃO BASTO veio relembrar, com os dados do seu saber e sensibilidade. São um prazer, estas breves sínteses analíticas, que nos fazem recordar leituras passadas no prazer delas, e dessas visualizações de mundos trazidos de outras distâncias que permitem a proximidade, mesmo imaginária, desses espaços e gentes. Daí, a importância do verbo “visualizar”, pela recriação dos escritores.

Complicar a Europa

Falar numa língua “estrangeira” permite dizer o que, noutra, soaria excessivo, pesado ou comprometido. O amor, parece sugerir Mann, precisa de distância para poder existir.

P. JOÃO BASTO, Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR, 06 fev. 2026, 00:17

Há momentos na literatura em que uma simples troca de palavras faz mais pela compreensão da Europa do que tratados inteiros. Um desses momentos encontra-se em A Montanha Mágica, de THOMAS MANN, no célebre diálogo entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat, iniciado de forma quase banal – um pedido de lápis — e transformado num dos encontros amorosos mais singulares do século XX. Duas semanas após o Fórum Económico Internacional, decorrido em Davos, vale a pena revistar outras paisagens que a mesma Davos já consentiu, ainda que no plano da literatura.

Ora, em A Montanha Mágica, o que está em jogo não é apenas o nascimento de um amor tardio, hesitante e imperfeito. Mann usa o diálogo como laboratório cultural. Quando Hans e Clawdia abandonam progressivamente o alemão e passam a falar francês, algo mais profundo acontece: a língua da identidade, da disciplina e da introspecção cede lugar à língua do desvio, da ironia e da sedução. Falar numa língua “estrangeira” permite dizer o que, noutra, soaria excessivo, pesado ou comprometido. O amor, parece sugerir Mann, precisa de distância para poder existir.

Este gesto formal, que leva o próprio autor a escrever numa língua que não domina plenamente, é tudo menos decorativo. Ao deslocar o diálogo amoroso para um território linguístico instável, Mann suspende certezas culturais e psicológicas. O resultado é um discurso amoroso que não se fecha, que oscila entre o sonho, o jogo e a reflexão. Um parler sans parler, como o próprio Hans o define, onde a intimidade nasce precisamente da imperfeição.

Mas o eros, em Mann, nunca é apenas privado. O diálogo, em francês, entre um jovem alemão e uma mulher russa funciona também como ironia política. As identidades nacionais — tão rígidas, tão carregadas de destino no início do século XX — tornam-se móveis, quase caricaturais. O desejo introduz um “sadio desarranjo” nos esquemas culturais e geopolíticos, incluindo naqueles que o próprio Mann havia defendido anos antes. O amor, aqui, corrói fronteiras.

Esta lógica atravessa toda a obra tardia do escritor. Muitas vezes acusado de trabalhar mais por “recorte e colagem” do que por invenção, Mann revela nesses romances uma modernidade subtil: a consciência de que toda a narrativa é construção, artifício, diálogo com textos anteriores. (Que seria, afinal, de Shakespeare ou Camões sem tudo isso?).

No caso de A Montanha Mágica, no fim, Clawdia parte. O amor não se cumpre. Fica apenas o lembrete:Não se esqueça de me devolver o lápis.” Mas esse objecto mínimo encerra tudo: a escrita, o desejo, a distância, a ironia. Em Thomas Mann, o amor não resolve — complica. E é nessa complicação, elegante e inquieta, que reside a sua duradoura modernidade.

LITERATURA       CULTURA       EUROPA       MUNDO       LÍNGUA

 

 

DA INTERNET:

Síntese de A MONTANHA MÁGICA:

«Tal como em A Morte em Veneza, o protagonista de A Montanha Mágica empreende uma viagem que acaba por o levar para fora do espaço e do tempo da existência burguesa. Não por acaso, contrariando planos anteriores em que o romance abria com a explanação da biografia de Hans, depois remetida para o segundo capítulo, o primeiro capítulo centra-se na viagem e no primeiro momento de confronto com o mundo fechado do sanatório, o início do longo percurso de iniciação que irá constituir o fulcro da narrativa. O herói do romance, como surge repetidamente sublinhado, nada tem de excepcional, pelo contrário, a própria mediania da personagem constitui uma forma de acentuar de que modo ela representa paradigmaticamente a normalidade social. O fulcro do romance, está, justamente, no facto de essa normalidade ser totalmente posta à prova e problematizada nos seus fundamentos pelo confronto com o microcosmo do sanatório

 

Já Camões o descrevera:


Um daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando  - aplicável, de facto, hoje, a outros receptores, mas nos tempos actuais, de críticos bem instalados e conhecedores dos vícios – das virtudes também – genéricos, um desses com serventia para uma chefia da nação também se pode incluir entre os tais, pese embora  os diversos tipos de escrúpulos em o aceitar. Defeitos e qualidades, eis o que não falta a ninguém. Houvera outros concorrentes e outros dados surgiriam. Que sabemos nós? Dos dois candidatos – um, dos estardalhaços provocantes, outro, da seriedade – intencional? – qual interessa escolher? Que Deus nos valha, sempre, pobrezinhos que somos! Mas há mais quem nos possa valer… Por essa Europa fora, habituados que estamos, Virgem Santíssima!…

Virtudes ou regras?

Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem a democracia um passeio de virtudes; é um sistema de regras.

MARGARIDA BENTES PENEDO Arquitecta e deputada municipal

05 fev. 2026, 00:1620

Se, em lugar de eleitores e votos, o Presidente da República fosse escolhido pelos analistas dos jornais e televisões, ganhava “a decência” – contra a indecência, claro; ganhava “a democracia” – contra o risco de brutalidade e ditadura; ganhava “o coração” e “o humanismo” – contra o gelo da ambição racional. Tais proclamações fazem lembrar os romancistas de baixa qualidade que descrevem “a noite escura”, ou “o Inverno frio”, sem perceberem que não é notícia. A luz da noite só tem interesse literário se for clara, e o dia de Inverno se for quente. Dispensamos que os próceres do mundo mediático declarem a preferência deles pela virtude e a rejeição do vício. Proponho o seguinte: partamos do princípio de que todos queremos o melhor para o país, somos adultos e os candidatos à chefia do Estado devem ser escolhidos por critérios políticos. Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem a democracia um passeio de virtudes; é um sistema de regras.

Da mesma maneira, o Estado não é um tutor moral; é uma garantia de condições para a vida comum. E se não escolhemos um candidato pelas virtudes proclamadas, temos liberdade para escolher o critério político; a função presidencial assenta em limites constitucionais, em tradições e numa visão pessoal, que não tem de caber num fato exclusivamente protocolar. Cada Presidente pode escolher, como orientação geral do mandato ou em cada circunstância, o grau e o modo de intervir na vida pública. Essa intervenção não é arbitrária; ela depende da interpretação política do mandato constitucional. O Presidente da República não é um pai da nação. Ninguém espera que a eduque.

Se não é para educar a nação e se rejeitarmos olhar para os cidadãos como menores tutelados, qual é o propósito dos juízos morais? Se “a decência” de um país depende de um único indivíduo, então o próprio acto eleitoral perde sentido. Eis uma parte da irracionalidade que leva os analistas a diminuir os cidadãos e a desviar o debate do que verdadeiramente importa: o exercício do cargo. Dos limites constitucionais à tradição democrática, o tempo tornou legítimo o entendimento interventivo da Presidência. Como, de resto, confirmam as práticas dos anteriores titulares: todos os presidentes influenciaram a governação; basta ler as memórias deles ou os jornais da época.

André Ventura anunciou e explicou, durante a campanha, a maneira como entende o cargo. A intervenção que ele propõe tem a força desse compromisso prévio: não é dissimulada, escondida do público, praticada entre as intrigas dos corredores; é uma intervenção franca e aberta ao país. Tem a direcção política própria de quem olhou, interpretou, compreendeu e concluiu. Um pacto de responsabilidade que uma eleição pessoal e directa reforça com a claridade dos números. Aparentemente, André Ventura confia no escrutínio democrático ao ponto de submeter à aprovação do país as intenções mais discutíveis. É mais do que estamos habituados a esperar de um Presidente da República.

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COMENTÁRIOS (de 24):

José B Dias: Proponho o seguinte: partamos do princípio de que todos queremos o melhor para o país, somos adultos e os candidatos à chefia do Estado devem ser escolhidos por critérios políticos. Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem a democracia um passeio de virtudes; é um sistema de regras. E eu secundo esta proposta!               ana rita: O mais perigoso não é o assumido, mas o dissimulado que veste a máscara da moderação enquanto corrói a sociedade por dentro. Proponho o seguinte: partamos do princípio de que todos queremos o melhor para o país, somos adultos e os candidatos à chefia do Estado devem ser escolhidos por critérios políticos. Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem, a democracia,  um passeio de virtudes; é um sistema de regras. E eu secundo esta proposta!                     ana rita: O mais perigoso não é o assumido, mas o dissimulado que veste a máscara da moderação enquanto corrói a sociedade por dentro.   SDC Cruz: Cara Margarida Bentes Penedo, a sua crónica esta excepcional! Gostei particularmente da crítica à infantilização da democracia. Ao rejeitar a ideia do Presidente como “pai da nação” ou educador moral, defende uma concepção adulta do regime democrático: cidadãos responsáveis, escolhas políticas claras e escrutináveis, e um Estado que garante regras, não almas puras e singelas. Essa abordagem é refrescante num espaço público saturado de slogans edificantes e alarmismos vazios.  Mas a sua crónica ganha ainda mais força ao sublinhar que a intervenção presidencial não é um desvio, mas uma tradição legitimada pela prática democrática. Ao recordar que todos os Presidentes influenciaram a governação, desmonta-se a hipocrisia selectiva com que se condena hoje aquilo que ontem foi aceite — ou mesmo celebrado.  Por fim, o seu último parágrafo devia ser afixado à entrada de todas as redacções, a começar, aqui, no Observador. Reconhecer a clareza política de André Ventura, independentemente do juízo que se faça sobre ela, é um exercício de honestidade intelectual pouco comum. Valorizar a frontalidade, o compromisso assumido perante os eleitores e a submissão explícita ao escrutínio democrático é defender a democracia como ela deve ser: um confronto aberto de visões, não um concurso de boas intenções proclamadas.                      Maria Cordes: AV foi diabolizado até à quinta casa pelo sistema, pela comunicação social, amparada pelo sistema, e pelos decanos do sistema. Nada que não fosse esperado, embora a romaria dos últimos dias, possa ser encarada para um futuro study case. O seu programa é disruptivo. Os privilégios de uma casta, ou bolha seriam desmantelados. Verdade. Mas na base do fracasso está a incompetência. Quando surge um cv, abismamos, universidades de vão de escada, e cursos de papel e lápis, madrassas, isto não vai a lado nenhum. É o que temos e não há milagres. A faceta histriónica, também não lhe facilita a vida. Mas que razão, não lhe falta, é verdade. O rei vai nu, para mal dos nossos pecados.                   victor guerra: Mas a nova União Nacional, de interesses e confortos instalados, prefere a continuidade ...instalada                   Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!                      Joana S. Cardoso > Américo Silva: Atenção, que ninguém se engane : a eutanásia não é uma "morte assistida", é uma morte  PROVOCADA.                    Rosa Graça: Muito bem.                  Mario Figueiredo: Pois. Conversa da treta. Moralismos há dos dois lados. Deixe-se de lamúrias! O Chega não gosta de frouxos. Não fosse o André Ventura o campeão dos coitados contra as elites maldosas, o representante dos portugueses de bem, a vítima das más intenções dos outros e o grande paladino da decência.                       graça Dias: Caríssima Margarida Bentes Penedo:   Um artigo de excelência.  O subtítulo deste texto  com um pensamento analítico atento e bem estruturado, diz tudo sobre as muitas fragilidades e vícios instituídos na nossa democracia. Obrigada                   Paulo Almeida: Excelente texto a tocar no íntimo do acto eleitoral. Infelizmente muitos não reflectem sobre isto e preferem juntar-se à tribo dos "democratas" e dos "decentes". Ninguém quer ficar rotulado como mauzinho, mas a sociedade está cheia deles.                 Sandra Almeida > SDC Cruz: Se me permite, excelente comentário!       TM C: Certíssima. Vamos ver o Presidente que o povo vai escolher no domingo.                José Costa-Deitado: Texto certíssimo, lúcido, adulto e, sobretudo, politicamente honesto. Margarida Bentes Penedo desmonta com elegância essa velha tentação paternalista do comentariado: tratar a democracia como um internato moral e os eleitores como menores a precisar de lições de “decência”. A ideia é simples e profundamente democrática: o Estado não é um tutor moral, o Presidente não é um pai da Nação e as eleições não são concursos de boas maneiras. Escolhem-se projectos, leituras constitucionais e modos de exercer o cargo — não virtudes proclamadas em horário nobre. Gostando-se ou não dele, André Ventura teve o mérito raro de dizer ao que vinha e de submeter as suas intenções ao escrutínio directo dos cidadãos. Isso chama-se política. O resto é moralismo confortável — e profundamente antidemocrático. Proponho o seguinte: partamos do princípio de que todos queremos o melhor para o país, somos adultos e os candidatos à chefia do Estado devem ser escolhidos por critérios políticos. Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem a democracia um passeio de virtudes; é um sistema de regras. E eu secundo esta proposta                   ana rita: O mais perigoso não é o assumido, mas o dissimulado que veste a máscara da moderação enquanto corrói a sociedade por dentro.        Maria Cordes: AV foi diabolizado até à quinta casa pelo sistema, pela comunicação social, amparada pelo sistema, e pelos decanos do sistema. Nada que não fosse esperado, embora a romaria dos últimos dias, possa ser encarada para um futuro study case. O seu programa é disruptivo. Os privilégios de uma casta, ou bolha seriam desmantelados. Verdade. Mas na base do fracasso está a incompetência. Quando surge um cv, abismamos, universidades de vão de escada, e cursos de papel e lápis, madrassas, isto não vai a lado nenhum. É o que temos e não há milagres. A faceta histriónica, também não lhe facilita a vida. Mas que razão, não lhe falta, é verdade. O rei vai nu, para mal dos nossos pecados. ...  SDC Cruz: Cara Margarida Bentes Penedo, a sua crónica está excepcional! Gostei particularmente da crítica à infantilização da democracia. Ao rejeitar a ideia do Presidente como “pai da nação” ou educador moral, defende uma concepção adulta do regime democrático: cidadãos responsáveis, escolhas políticas claras e escrutináveis, e um Estado que garante regras, não almas puras e singelas. Essa abordagem é refrescante num espaço público saturado de slogans edificantes e alarmismos vMas a sua crónica ganha ainda mais força ao sublinhar que a intervenção presidencial não é um desvio, mas uma tradição legitimada pela prática democrática. Ao recordar que todos os Presidentes influenciaram a governação, desmonta-se a hipocrisia selectiva com que se condena hoje aquilo que ontem foi aceite — ou mesmo celebrado.  Por fim, o seu último parágrafo devia ser afixado à entrada de todas as redacções, a começar, aqui, no Observador. Reconhecer a clareza política de André Ventura, independentemente do juízo que se faça sobre ela, é um exercício de honestidade intelectual pouco comum. Valorizar a frontalidade, o compromisso assumido perante os eleitores e a submissão explícita ao escrutínio democrático é defender a democracia como ela deve ser: um confronto aberto de visões, não um concurso de boas intenções proclamadas….                      victor guerra: Mas a nova União Nacional, de interesses e confortos instalados, prefere a continuidade ...instalada                     Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!                 Rosa Graça: Muito bem.                     Mario Figueiredo: Pois. Conversa da treta. Moralismos há dos dois lados. Deixe-se de lamúrias! O Chega não gosta de frouxos. Não fosse o André Ventura o campeão dos coitados contra as elites maldosas, o representante dos portugueses de bem, a vitima das más intenções dos outros e o grande paladino da decência.                        Joana S. Cardoso > Américo Silva: Atenção, que ninguém se engane : a eutanásia não é uma "morte assistida", é uma morte  PROVOCADA.         TM C: Certíssima. Vamos ver que o povo vai escolher Presidente no domingo.