quinta-feira, 14 de maio de 2026

É mais fácil condenar

 

Contudo PPC não quis candidatar-se a um novo Governo, conforme tanto se lhe pediu. Temos muita pena.

Passos volta a lamentar rumo escolhido por Montenegro. "Já não tenho mesmo paciência para histórias da Carochinha"

Numa intervenção à porta fechada, ex-primeiro-ministro reforçou as críticas à falta de reformismo do actual Governo, censurou fim de visto prévio, o bónus nas pensões e a recusa em encarar a realidade.

MIGUEL SANTOS CARRAPATOSO: Texto

OBSERVADOR, 12 mai. 2026, 18:31

PEDRO PASSOS COELHO voltou esta terça-feira a criticar o rumo escolhido por Luís Montenegro, lamentando que o actual primeiro-ministro, tal como António Costa, se recuse a compreender a grande lição da crise que obrigou à intervenção da troika em Portugal. Sem reformas estruturais, sem um aumento da produtividade, sem uma diversificação da economia, sem coragem para explicar às pessoas o que é preciso mudar e porquê, o país está condenado a ficar ainda mais para trás e enfrentará, ciclicamente, choques de ajustamento.

O antigo primeiro-ministro participou no colóquio “GOVERNAÇÃO EM CONTEXTO DE CRISE“, organizado pela Associação Académica da Universidade Lusíada. O encontro era de entrada livre, mas foi vedado à comunicação social, contando com a presença de mais de 70 pessoas. Segundo apurou o Observador, PEDRO PASSOS COELHO fez uma longa exposição sobre os desafios que Portugal enfrenta, falando a partir da sua experiência muito própria como primeiro-ministro de um país intervencionado pela troika, para concluir que os líderes políticos actuais se recusam a tratar os portugueses como adultos, procurando sobreviver no poder à boleia de medidas populares.

O antigo primeiro-ministro lamentou, assim, que ANTÓNIO COSTA tivesse demonstrado “aversão” a reformas estruturais, desperdiçando oito valiosos anos que deveriam ter servido para aproximar Portugal dos países mais produtivos da Europa. Para Passos, o socialista intuiu que os portugueses estavam cansados da designação “reformas estruturaise, como tal, limitou-se a navegar à vista, mascarando os problemas. “Tenho muitas dúvidas que António Costa seja avesso a transformações. O que não esteve foi para as promover, porque isso podia custar-lhe o lugar.”

PASSOS COELHO falou depois sobre LUÍS MONTENEGRO, concedendo que o actual primeiro-ministro até tivesse alguma vontade de fazer reformas. O problema, lamentou o ex-chefe de Governo neste colóquio da Lusíada, é que o esteja a fazer sem grande “profundidade, velocidade ou consequência”. “É mesmo preciso saber como é que se faz [reformas estruturais] e convencer as pessoas de que é preciso mudar”, apontou PEDRO PASSOS COELHO. “A maior parte dos políticos são populistas. Fazem sondagens, vêem do que é que as pessoas gostam e alinham-se por aí. Dizem o contrário, mesmo que pensem diferente.”

Essa crítica, aliás, seria uma das notas dominantes da intervenção do antigo primeiro-ministro. PEDRO PASSOS COELHO lamentou que os políticos estejam demasiado reféns da ideia de que têm de “agradar às pessoas” a curto prazo, sem cuidar do futuro e sem explicar que a factura de não se fazer nada será sempre muito mais pesada. “O tempo vai passando e o futuro sempre acaba por chegar. “Liderança é respeitar quando não se é seguido, mas não aceitar ir atrás de qualquer coisa. Liderança é dizer o que se tem de fazer”, disse Passos.

"É por isso que supostamente são líderes e têm essas responsabilidades. Não é para nos contarem histórias da Carochinha. A gente já devia ter aprendido com isto e parece que não aprendeu. Portanto, é deixar de contar histórias da Carochinha, falar das coisas, falar dos problemas que temos. Não é ser pessimista, é querer resolvê-los. Só podemos mobilizar o apoio das pessoas para mudar alguma coisa se lhes dissermos que alguma coisa precisa de mudar. E explicar porquê"

Passos revela ter rendimento líquido mensal de cerca de 2 mil euros

De resto, o ex-chefe de Governo apontou, pelo menos, três pecados capitais a LUÍS MONTENEGRO: a forma como está a voltar a velhas práticas de aumento da despesa pública, a falta de empenho na redução de impostos sobre o rendimento e o que vai sendo feito em matéria de pensões. No primeiro caso, o antigo primeiro-ministro disse mesmo sentir-se “muito triste” com o facto de o Governo do seu partido estar a aligeirar as regras no uso dos recursos do Estado, nomeadamente através do fim do visto prévio do Tribunal de Contas para contratos públicos até aos 10 milhões de euros.

Ao mesmo tempo, PASSOS COELHO criticou o esforço fiscal a que os portugueses estão obrigados, “uma coisa avassaladora“. “É por essa razão que os mais novos vão embora. O Estado trata qualquer pessoa com rendimentos medianíssimos como se fosse riquíssimo”, lamentou o antigo primeiro-ministro, que chegou ao ponto de revelar que tem como rendimento líquido mensal cerca de dois mil euros, com uma taxa de imposto de 42% mais os 11% que paga para a Segurança Social. “O que se entrega ao Estado é uma brutalidade.”

Como se não bastasse, continuou Pedro Passos Coelho, fruto da incapacidade estratégica do Estado, os serviços públicos, do Serviço Nacional de Saúde à Escola Pública, são cada vez mais deficitários, o que afasta os profissionais que neles queiram trabalhar e os portugueses que os procuram e que, perante a falência dos serviços, perdem confiança no Estado e no modelo de funcionamento da sociedade. Um dia as pessoas que pagam a Saúde do seu bolso e que pagam a Educação do seu bolso vão começar a perguntar: “Mas eu estou a pagar impostos para quê?“, provocou o antigo primeiro-ministro.

Ora, para Passos, esta realidade só será transformada se houver o reconhecimento dos problemas que o país tem pela frente e lideranças políticas fortes, que digam a verdade aos portugueses e que os consigam mobilizar para as reformas estruturais que são necessárias. “O impulso tem de vir da liderança política. É isso que fará a diferença. Se a liderança política quiser fazer de conta que faz, o impulso perde-se. Nada resiste à prova do tempo. As pessoas que acham que mudam o mundo com conversa, com anúncios, a anunciar programas e intenções, estão completamente erradas. Isso não muda nada”, criticou o antigo primeiro-ministro.

Para Passos, fruto da incapacidade estratégica do Estado, os serviços públicos, do Serviço Nacional de Saúde à Escola Pública, são cada vez mais deficitários, o que afasta os profissionais que neles queiram trabalhar e os portugueses, que perdem confiança no Estado e no modelo de funcionamento da sociedade. "Um dia as pessoas que pagam a Saúde do seu bolso e que pagam a Educação do seu bolso, vão começar a perguntar: 'Mas eu estou a pagar impostos para quê?", provocou o antigo primeiro-ministro.

“JÁ NÃO TENHO MESMO PACIÊNCIA PARA HISTÓRIAS DA CAROCHINHA”

PEDRO PASSOS COELHO deu ainda como exemplo “caricato” dessa recusa dos líderes políticos em falar a verdade aos portugueses os bónus que o governo de António Costa e de Luís Montenegro têm entregado todos os anos aos pensionistas — um apoio extraordinário que se vem repetindo ano após ano. “Sinto-me sempre completamente gozado”, atirou, acusando este e o anterior governos de ignorarem o problema de sustentabilidade do sistema de Segurança Social. “Porque é que estão a distribuir dinheiro se dentro de 10 anos a gente não sabe se tem lá dinheiro para pagar as pensões?”, interrogou.

Quando andamos a mascarar a situação, não tratamos as outras pessoas como se fossem inteligentes, adultas e merecedoras da nossa confiança. Se de Belém a São Bento, passando por Bruxelas, todos dissermos ‘não há nenhum problema com as pensões, nem com a sustentabilidade das pensões’, que é o que se diz, fica difícil que as pessoas percebam o que é preciso fazer, não é?”

Partindo deste diagnóstico, Pedro Passos Coelho voltou a falar do exemplo da troika para exigir aos actuais governantes que falem a verdade aos portugueses. “Não podemos permitir que sejam as pessoas a saber das más notícias pelas piores razões. Termos chegado àquela situação em 2010 e 2011 foi um clamoroso falhanço da liderança política. E há responsáveis por isso. O país não precisava de passar por aquilo porque houve com muito muita antecedência quem chamasse a atenção de que aquilo ia acontecer. E ninguém quis saber. As pessoas esperam que aqueles que têm a responsabilidade e a liderança desses processos chamem a atenção.”

É por isso que supostamente são líderes e têm essas responsabilidades. Não é para nos contarem histórias da Carochinha. Já não tenho mesmo paciência para histórias da Carochinha. Primeiro, porque vou fazer 62 anos daqui a dois meses; e segundo porque já passei por muita coisa. A gente já devia ter aprendido com isto e parece que não aprendeu. Portanto, é deixar de contar histórias da Carochinha, falar das coisas, falar dos problemas que temos. Não é ser pessimista, é querer resolvê-los. Só podemos mobilizar o apoio das pessoas para mudar alguma coisa se lhes dissermos que alguma coisa precisa de mudar. E explicar porquê”, rematou Passos Coelho.

GOVERNO      POLÍTICA      PEDRO PASSOS COELHO      PSD      LUÍS MONTENEGRO

COMENTÁRIOS (de 81)

MARIA OLIVEIRA: Passos Coelho disse tudo o que há para dizer sem eufemismos. Subscrevo na íntegra.                 LUÍS OLIVEIRA > NUNO FILIPE: Diga lá aí o que são reformas estruturais! Quer que eu diga ? Número um: funcionalismo público Número dois: sistema de pensões , Número três : burocracia , Número quatro: justiça , número cinco: estímulo ao aparelho produtivo . Diga lá onde é que Passos não mexeu nestes pilares ? Ou você não viveu cá entre 2011 e 2015?                   EDUARDO MÃOS DE TESOURA: Portugal não tem grande futuro porque a maioria das pessoas não quer qualquer mudança nas suas vidinhas medíocres, e continua a esperar do Estado, isto é,  dos contribuintes, toda a espécie de benefícios, sem fazer grande esforço individual para os obter por mérito próprio. Como contribuinte, não estou disposto a continuar a alimentar este parasitismo.               MANUEL FERREIRA21: Parece que Passos anda a ler-me. Vou mais à frente: Montenegro com  a sua governação à Costa, vai levar-nos a novo resgate.                     JOÃO FLORIANO: As críticas vão subindo de tom. O país está à espera de Pedro Passos Coelho. Montenegro está bloqueado como dá para ver no recuo de aspectos da Lei da Nacionalidade e com o folhetim da Lei Laboral. Assim não saímos da cepa torta.                    ANTÓNIO FERNANDES: Negro monte !!! Arrepie caminho! Faça reformas e deixe-se de doutor para cá doutor para lá!! Um governo Costa.2 do deixa andar, do folclore, da propaganda!!! Tem toda a razão o transmontano Passos Coelho!!              IGOR MONTEIRO > NUNO FILIPE: Se não conseguiu fazer tudo foi porque não o deixaram. Fez mais do que todos numa fase crítica em que lhe deixaram um país falido e intervencionado. Se o senhor conseguir desenvolver melhor sem recursos do que com recursos, dou-lhe os parabéns porque deve ser um génio. Seja sensato a analisar as coisas.                      ALFAIATE TUGA1: Que o PASSOS está coberto de razão, qualquer um com dois neurônios que funcionem sabe. O que eu não sei é como é que se leva o PPP novamente para Primeiro Ministro… No PSD têm medo dele, muitos incompetentes que por lá andam tem receio de perder o tacho e ou as negociatas que fazem com o estado, no PS rezam para ele não voltar, e há até quem tenha pesadelos só com a hipótese, metade do eleitorado do Chega é de esquerda, incapaz de votar em PPP. Não ão sou muito bom em futurologia, mas espero que alguém esteja a pensar na forma de levar novamente o homem ao MANUEL F: Depois das últimas críticas feitas pelo ppc ao governo, já repetidas, espera-se que avance para a luta pelo poder, como não sei mas espero que ele tenha uma estratégia. Terá o meu voto como teve em 2011 e 2015 e acredito que será capaz de conquistar a maioria necessária para governar.                  LUIS OLIVEIRA: Pedro Passos Coelho acabou de carimbar a certidão de óbito da "direita moderada" de Montenegro. Ele percebeu que o actual Governo é apenas uma extensão da era Costa com um logótipo diferente. A "grande lição" de 2011 foi esquecida em nome da sobrevivência política a curto prazo. Montenegro é aquele médico que o paciente de direita chamou para curar uma pneumonia (o estatismo). O médico chega, olha para o doente e diz: "Não se preocupe, não vamos curar a pneumonia, mas vou dar-lhe um pijama novo e um xarope que sabe a morango". O doente continua sem conseguir respirar, mas agora o pijama tem o logótipo do PSD e o xarope foi pago pelo PRR. O problema é que o pijama custou 660 mil euros (preço habitação a boleia das garantias estatais) e é "moderado".

(CONTINUA)

terça-feira, 12 de maio de 2026

Não se sabe mesmo


Se serão vencidos - daninhos e espertos que são. Salazar sabia-o.

A parada dos vencidos

A parada da vitória devia mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma Rússia encolhida. Devia celebrar poder. Celebrou medo

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 11 mai. 2026, 00:22

Durante anos, o desfile do Dia da Vitória foi a maquilhagem de gala do putinismo. Na Praça Vermelha, entre carros de combate, mísseis, generais emproados e convidados estrangeiros em pose impressionada, Moscovo encenou a velha ilusão imperial: a Rússia eterna, invencível, temida, indispensável. Uma sessão anual de ilusionismo político, com banda militar, bandeiras vermelhas e saudades de Estaline travestidas de comemoração histórica.

Este ano, porém, a maquilhagem falhou.

Houve desfile, houve soldados, houve discurso, houve a habitual prosódia soviética aquecida no microondas. Mas faltou a convicção. E quando a convicção desaparece, o espectáculo passa a ser apenas confissão. Putin apareceu para proclamar, como sempre, que a Rússia vencerá. O problema é que já ninguém consegue perceber exactamente onde, como, quando ou em quê. Chamou heróis aos homens enviados para morrer na Ucrânia, acusou a NATO de agressão e repetiu o catálogo inteiro da vitimização imperial. O costume. Invade-se um país, arrasam-se cidades, deportam-se crianças, anexam-se territórios e, no fim, protesta-se contra a hostilidade do mundo. É a velha escola russa de partir a janela do vizinho e queixar-se das correntes de ar.

Desta vez a encenação decorreu sob a sombra da Ucrânia. A internet foi restringida, a segurança multiplicada, o aparato reduzido ao mínimo que permitisse fugir depressa da Praca. A Rússia que prometeu tomar Kyev em três dias mobilizou-se para impedir que drones ucranianos estragassem a liturgia sagrada da Praça Vermelha. O país que, segundo a propaganda do Kremlin, nem sequer existe, tornou-se suficientemente real para condicionar a festa maior do regime. Há ironias que dispensam comentário, embora o Kremlin continue a fornecê-lo em excesso.

Putin não podia cancelar o desfile. Seria admitir fraqueza. Mas realizá-lo assim, com o favor de Trump, foi admitir que a fraqueza já não se consegue disfarçar. Um império que esconde os blindados no dia em que os queria exibir já explicou mais do que pretendia. Um poder que teme ataques na capital durante a sua celebração fundadora já não projecta força, apenas gere sobressaltos. A Rússia longe de aparecer como superpotência ofendida, apareceu como regime nervoso. E regimes nervosos são perigosos, mas raramente são grandes.

A tragédia estratégica de Putin é quase perfeita na sua simetria. Quis impedir a Ucrânia de se tornar uma nação ocidental e transformou-a numa das sociedades militares mais inovadoras do mundo. Quis dividir a Europa e conseguiu acordá-la do seu pacifismo sonolento. Quis afastar a NATO das fronteiras russas e ofereceu-lhe novos membros, nova razão de ser e nova urgência. Quis restaurar o império e acabou por entregar a Rússia, com desconto e recibo, à China. É uma lista de sucessos que faria corar de vergonha um sabotador mediano.

Naturalmente, a Rússia continua perigosa. Tem armas nucleares, profundidade territorial, serviços secretos, recursos naturais, capacidade de destruição e uma espantosa tolerância histórica ao sofrimento dos seus próprios cidadãos. Mas isso não é grandeza, é apenas patologia com mísseis. O país que Putin vende como alternativa civilizacional é, apenas uma potência extractiva, repressiva e envelhecida. Tem petróleo, polícia, oligarcas, propaganda, medo e cemitérios em expansão.

A economia russa não colapsa como nos filmes, com música dramática e uma explosão final. Colapsa à maneira russa: lentamente, entre comunicados optimistas, estatísticas marteladas, regiões abandonadas, inflação maquilhada, empresas estranguladas, reservas gastas e mães a receber filhos em caixões. O regime pode prender manifestantes, calar jornalistas, manipular tribunais e falsificar eleições. Não pode, porém, prender a aritmética, a única forma de oposição que não se rala com autocratas.

No campo de batalha, Moscovo paga quilómetros com homens. Avança por saturação, perde por desgaste, conquista ruínas e reivindica vitórias. O Kremlin mede sucesso em metros; a Ucrânia mede sobrevivência em adaptação. A guerra tornou-se um laboratório brutal de drones, sensores, guerra electrónica, robótica e comando distribuído. Enquanto Moscovo recicla mitos imperiais, Kyiv transforma tecnologia civil em capacidade militar. De um lado, monumentos. Do outro, inovação. De um lado, generais que ainda sonham com Kursk. Do outro, operadores de drones que mudam a guerra com peças compradas online ou feitas em impressoras.

E depois há a dependência chinesa, talvez a mais humilhante das derrotas de Putin. O homem que prometeu devolver à Rússia a grandeza histórica está a colocá-la numa posição de kowtow perante Pequim. Vende energia mais barata, compra produtos mais caros, aceita condições piores e chama a isso parceria estratégica. A China não precisa de conquistar a Rússia. Basta esperar. Moscovo encarrega-se de entregar, contrato a contrato, factura a factura, aquilo que já não consegue sustentar sozinha.

Os russos sabem menos do que deveriam, mas sentem mais do que o Kremlin gostaria. Sentem a guerra nos mortos, nos feridos, nos salários corroídos, nos filhos mobilizados, nas transferências bloqueadas, nas empresas fechadas, nos boatos que substituem as notícias. A propaganda funciona enquanto a realidade bate à porta dos outros. Quando começa a bater à nossa, perde forças. E há sempre um momento em que a televisão estatal deixa de conseguir explicar o frigorífico vazio.

A História russa tem, além disso, uma premonição desagradável para os seus czares: as derrotas militares raramente ficam no estrangeiro. Regressam a casa. Regressaram depois da guerra russo-japonesa. Regressaram em 1917. Regressaram do Afeganistão e foram necessários novos czares. Uma guerra lançada para provar grandeza transforma-se, de em prova de incompetência. E, nessa altura, os mesmos que batiam palmas na tribuna descobrem que sempre tiveram reservas. A cobardia política também tem excelente memória retrospectiva.

Putin ainda pode prolongar a guerra. Pode matar mais ucranianos e mais russos. Pode destruir mais cidades, ameaçar com armas nucleares, prender opositores, inventar inimigos, convocar mais desfiles e mandar Dmitri Medvedev abrir outra garrafa de vodka antes de anunciar o Apocalipse no Telegram pela enésima vez. Pode fazer tudo isso. O que já não consegue é convencer de que está a vencer.

A parada da vitória devia mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma Rússia encolhida. Devia celebrar poder. Celebrou medo. Devia projectar império. Projectou isolamento. No fim, Putin ficou na Praça Vermelha rodeado de bandeiras, soldados norte-coreanos, câmaras e mentiras, cada vez mais só perante a única força que nunca conseguiu bombardear: a realidade.

E a realidade, ao contrário dos generais russos, não desfila. Avança. Não pede licença, não presta continência, não aparece em uniforme de gala. Chega sem música, sem coreografia e sem autorização do Kremlin. Este ano, chegou ao ponto de obrigar o czar, que tantas vezes caminhou a pé para depositar flores no monumento ao soldado desconhecido, a recolher-se atrás da blindagem de um carro. Há imagens que valem por epitáfios políticos. Esta é uma delas.

RÚSSIA         MUNDO

COMENTÁRIOS

Jorge Barbosa: Excelente artigo (aliás como sempre). Num ambiente tão conspurcado pelo sectarismo político partidário como é o do comentário da guerra na Europa, é extremamente agradável "ouvir" uma análise inteligente e racional da situação da guerra na Ucrânia , e no caso em apreço da real situação do país invasor sob o tirânico e assassino regime putinesco agora na tentativa de recuperação da velha hegemonia perdida. Muito obrigado ao Senhor Coronel por manter esta sua voz quase solitária neste nosso infeliz país ainda sob o domínio do politicamente correcto.

José Paulo: O que impressiona em termos comentariado  sempre pronto é desde sempre o tapar Sol com peneira. E não percebo por que nas TVs temos de ser alvejados com tiros ao nosso bom discernimento. Um tal Agostinho militar é o exemplo entre outros... dá vómitos ouvir aquela criatura...

Fátima Januário: Uma apresentação da realidade muito bem identificada e fundamentada. O seu colega militar, Agostinho Costa, deveria ser obrigado a ler o seu artigo. Muito grata pela sua contribuição e que a mesma seja estudada pelos loucos e pelos cegos que em loop apostaram em destruir a paz, por recurso ao medo atómico, que estava enraizada na nossa memória colectiva.

João Floriano: Excelente, como é hábito. Rússia e Irão, duas verdadeiras ameaças para o mundo.

Vitor Batista: Excelente crónica como sempre, mas esta é demasiado certeira a retratar a realidade que se viveu na praça vermelha. Há quatro anos, quando a escória russa disse que iria tomar Kiev em três dias, nunca teriam pensado que a Ucrãnia mais tarde, teria capacidade para os atacar nessa mesma praça. E além disso, as refinarias russas, a arder, são a mostra do colapso evidente e da fanfarronice de Putin, e é isso que o torna perigoso, porque o uso de meios altamente destrutivos pode acontecer a qualquer momento, fazem parte da perversidade deste regime comandado por este personagem do diabo, traidor do seu próprio povo. 

A FJ: "E há sempre um momento em que a televisão estatal deixa de conseguir explicar o frigorífico vazio." 👌

Zita Silva: O coronel que poderia ser escritor bem-sucedido. Divirto-me a imaginar a azia do General Agostinho Silva, o fervoroso admirador da grande Rússia, ao ler esse artigo tão inspirado. Os últimos acontecimentos e notícias dão-nos esperança de chegarmos a ver pelo menos esse híper narcisista, megalómano, cruel e patético Putin, derrotado e desprezado por seu povo. Com o outro Narciso, Trump, que se baba pelo strong man russo, a assistir. Aterrador como há sempre multidões infantilizadas e alienadas a eleger, apoiar e reverenciar tais figuras. E toda a humanidade paga.

António Duarte  > Zita Silva: Eu deixei de ouvir há anos!

Maria Tubucci: Muito bem Sr. Coronel. Não há ninguém com coragem para dizer ao Putin que ele já perdeu a guerra, perdão, a operação especial na Ucrânia. Observando nas imagens as caras das pessoas que assistiram a esta comemoração, rostos fechados  e sem expressão, que revelavam uma alegria gélida e glacial. Foi uma comemoração que mais parecia o funeral da Rússia …

 S N: Análise excepcional e certeira sobre Putin e a Rússia: uma lástima, mas perigosa.

Fátima Januário > Josel Paulo : Não entendo é como a CNN mantém semelhante viés a entrar pelo ecrã dentro a tentar “vender” o que todos já vimos, estar podre. AS é, sem dúvida, um activo pró-Putin. Este senhor  é um cego conduzido por um louco (Putin).

Antonio Almeida: O problema é que demora em cair, ainda vai matar muitos ucranianos inocentes. Os russos também vão morrer mas não são inocentes, sempre apoiaram o tirano e ainda o defendem🫣

Ruço Cascais > Vitor Batista: Num mundo digital, a tecnologia tende a superar a força bruta. Os ucranianos, com ajuda, obviamente, dispensaram os tão desejados F-16 e começaram eles próprios a fabricar drones  que, provavelmente, são mais úteis para combater os russos e incomparavelmente mais baratos que os caças. 

Ruço Cascais: 5 estrelas. Aqui vai mais uma estrela para fazer 6 estrelas; os atentados. Poderá um dia Putin ver a sanita ir pelos ares quando estiver a arrear o calhau? Sim, e a sanita tanto pode ser armadilhada pelos ucranianos como pelos próprios russos já cansados de Putin.  É esta a razão por que Putin está a obrar agora num penico, num penico de ouro. Os esgotos podem estar armadilhados com a última tecnologia ucraniana. A ideia de um micro-drone ser introduzido numa caixa de esgoto exterior e ser conduzido pelas tubagens até ao trono onde se senta Putin com as calças baixadas começa a ser real.  A nanotecnologia na robótica de guerra é cada vez menos ficção. Uma abelha pode ser um robot à espera de apanhar Putin distraído de boca aberta. É também por isso que Putin dorme agora protegido por uma rede mosquiteira.  Brincadeiras à parte, a nanotecnologia é uma realidade e não tardará muito para estar ao serviço da indústria militar. A energia para uma libelinha robótica voar é mínima e as nano baterias solares já são uma realidade. Uma libelinha robótica pode espiar mas também pode matar se vier carregada com uma dose de cianeto. Dentro de alguns anos, todo o exército de uma nação caberá dentro de um armazém não contando com os operadores. Um ataque a uma cidade já não será feito com o bombardeamento dos F-35, mas sim por um enxame de milhões de micro drones carregados de vírus. A parada militar de Putin no Dia da Vitória é a maior demonstração do atraso tecnológico russo em equipamento de guerra. Os grandes mísseis que mostra ao mundo não são nada mais do que o equivalente às grande mocas que os homens pré-históricos carregavam habitualmente às costas para intimidaram inimigos e mulheres para o coito. A grande aposta para o rearmamento da Europa não está em produzir porta-aviões mas sim em tecnologia de ponta, designadamente em robótica e nanotecnologia. Putin será vencido pelo atraso na economia e no desenvolvimento científico da Rússia provocado pelo próprio. 

helder carvalho: Mais uma vez excelente análise da situação em que a Rússia se encontra. Antes, no 9 de Maio, a Rússia tentava iludir-nos, convencer-nos que era um elefante de porcelana, de grande qualidade. Este ano caiu-lhes a máscara, não passa de um elefante de barro de fraca qualidade.  

Zita Silva > Josél Paulo: Nem consigo ouvi-lo até o final o ridículos comentários daquele homem. Mudo de canal para não vomitar. Ha mais de 4 anos a anunciar a iminente vitoria total da Russia. Um dos que deve ter em seu quarto aquela fotografia do Putin a cavalo, em tronco nu. Trump deve tê-la num álbum de recortes dos nice strong men que admira.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Um texto


Que me traz à memória o tempo em que viemos para cá, de regresso do Ultramar e o Vitorino e eu fazíamos o nosso percurso com o nosso Nick até ao café, falando dessas figuras que contribuíram para a machadada das descolonizações. Hoje também o Vitorino está doente, e o texto é uma lembrança de lágrimas. Por ele.

 

PCP dedica 28 palavras a antigo braço-direito de Cunhal. E a "pedido da comunicação social"

Carlos Brito morreu esta semana aos 93 anos. Era uma figura maior do partido até romper com Cunhal. PCP escreveu uma curta nota no site do partido "a pedido de vários orgãos de comunicação social".

09 mai. 2026, 12:28

Foi militante do PCP durante 48 anos. Passou dez na clandestinidade e oito na prisão. Serviu o partido como funcionário, membro do Comité Central, deputado, director do jornal “Avante!”, líder parlamentar (durante 15 anos) e candidato à Presidência da República. Durante muito tempo, foi o braço direito de Álvaro Cunhal. Acabaria por romper com ele e por se assumir como um dos protagonistas da chamada ala renovadora. Morreu esta semana aos 93 anos. Em comunicado, o PCP dedicou-lhe apenas 28 palavras e 199 caracteres.

“A pedido de vários Órgãos de Comunicação Social, sobre o falecimento de Carlos Brito.” Assim começa a nota divulgada no site do PCP. A seguir, pode ler-se: “Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar”. Sem mais.

Lisboa

Tóquio

Carlos Brito morreu na quarta-feira, em casa, no concelho de Alcoutim, depois de ter estado internado no Hospital de Faro devido a uma infecção respiratória. Foi líder parlamentar durante 15 anos, candidato apoiado pelos comunistas à Presidência da República, diretor do jornal “Avante!” e membro do Comité Central durante 45 anos. No final dos anos 90 e na viragem do século, foi-se afirmando com uma voz crítica do rumo que o partido estava a seguir, o que lhe valeu o fim da amizade com Álvaro Cunhal.

Anos mais tarde, em entrevista à RTP, acabaria por revelar que a “zanga” com Álvaro Cunhal lhe causou mais sofrimento do que os oito anos encarcerado. “Gostaria que não tivesse acontecido, que tivéssemos chegado a um acordo. Não que eu teria abdicado da minha opinião, não podia.” O momento da ruptura com o líder histórico do PCP deu-se durante a preparação do XIV Congresso, em 2000. Numa conversa privada com Cunhal, Brito defendeu que o partido devia “deixar o marxismo-leninismo”, lembrando “as várias experiências de insucesso no Mundo” de regimes com esta ideologia.

Apesar de já não ser secretário-geral do PCP, Cunhal mantinha influência no partido e, em reunião do Comité Central, expôs a existência de membros que defendiam renovação do partido. Depois do encontro, Carlos Brito regressou a Alcoutim, onde tinha crescido, e enviou ao secretariado comunista aquela que ficou conhecida comocarta-bomba”. Nela apelava ao abandono do leninismo e defendia um “regresso a Marx”, exigindo uma “profunda democratização” do partido. A partir desse momento, passou a ser tratado como um inimigo da direção. Meses mais tarde, demitiu-se do Comité Central.

Em 2002, em conjunto com Carlos Luís Figueira e Edgar Correia, foi alvo de uma sanção disciplinar pelo PCP. Mas enquanto estes dois foram expulsos, Carlos Brito foi suspenso por 10 meses. Terminado esse período autosuspendeu-se como militante e assim ficou até ao fim da sua vida. Criou oficialmente um movimento dos renovadores comunistas, em que assumiu o cargo de presidente do Conselho Nacional. Também regressou ao Algarve, onde foi autarca e se dedicou à escrita, tendo publicado livros de ficção, poesia e memórias. Foi agraciado pelo amigo Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 1997, e com a Ordem da Liberdade, grau de Grande-Oficial, em 2004.

António José Seguro, José Luís Carneiro e José Manuel Pureza lamentaram o desaparecimento de Carlos Brito. Os bloquistas vão, de resto, propor um voto de pesar no Parlamento. No Observador, Arménio Carlos, ex-dirigente do PCP e antigo líder da CGTP, recordou Brito como um “homem que lutou pela liberdade, pela democracia”, elogiando-o como alguém que “nunca deixou de afirmar publicamente as suas posições pela liberdade e democracia”.

Também no Observador, e mesmo assumindo que houve um afastamento entre os dois, José Jorge Letria referiu-se a Brito como “um guerreiro resistente à ditadura e à mediocridade que depois se foi apoderando de muitos aspectos e áreas fundamentais da nossa democracia”.

PCP       Política       Álvaro Cunhal

COMENTÁRIOS (de 36)

Pedro Abreu: Um PCP que se revê no gorducho da Coreia do Norte. Um partido anacrónico, déspota, que se arvora dono de Abril (deixa-me rir...) e cujo único objectivo se chegasse ao poder, era instaurar uma ditadura, tal como tentou durante o PREC.

"Olhe que não, olhe que não" Famosa frase de Cunhal, com sorriso cínico quando confrontado por Mário Soares em que lhe diz na cara; " Os senhores querem instaurar uma ditadura!". Nazismo e comunismo, duas faces da mesma moeda.

António Duarte: Carlos Brito arrependeu-se tarde, mas deixou o barco antes de afundar e saiu com dignidade, há que reconhecer.

Paula Barbosa: Inacreditável esta despedida dos comunistas a um homem, que eu aprendi a ouvir com atenção. pois tinha ideias claras, apesar de serem totalmente da minha identificação social democrata. Agora têm um dirigente que não passava nos testes de admissão para condutor na Administração Pública !

Carlos Costa: Partido horrível, amigo de criminosos, assassinos, ditadores e fascistas.  Como é possível o "Observador" dar voz activa a esse monte de es***me. 

Paul C. Rosado: E já vai com sorte se não o apagarem nas fotografias. PCP a ser PCP. Paz à sua alma! 

António Afonso: Estes comunas  nada aprendem com o passar dos tempos. Evolução zero!

Na sua maioria, são desprovidos de sentimentos e anti-família, como deseja o partido. Felizmente estão em vias de extinção!

Manuel Magalhaes: Carlos Brito foi uma pessoa que tentou ser decente no meio da barbárie que é o PCP… RIP!

Paulo Silva: Uma vez pêcêpista, sempre pêcêpista... não há concessões na velha escola leninista. É como na Mafia... Por puro tacticismo político o PCP abandonou a retórica belicosa da "luta armada" ou da "ditadura do proletariado", mas continua firme na doutrina marxista-leninista criminosa. Ouvir o secretário-geral dizer que para condenar a Coreia do Norte como uma ditadura abjecta, (que é), era necessário saber antes o que era a Democracia... é deveras espantoso. Não sei o que mais é necessário para que abram os olhos para a verdadeira natureza deste partido...   

David Pinheiro: Aquilo não é um partido. Aquilo é uma religião. Centralista. Dominada pelo Comité Central. 28 palavras, a pedido da comunicação xuxial, é muito texto para aquela seita. 

Simão Guedes > Carlos Costa: Este artigo do Observador, e o modo como está escrito, até me parece implicitamente bastante crítico do modo como o PCP lidou com a morte de Carlos Brito. Destacar que foram usadas apenas 28 palavras, e que o comunicado surge «a pedido da comunicação social», com um lacónico «Sem mais» após a citação do curto comunicado, parecem-me formas inteligentes de denunciar a displicência com que o PCP tratou um homem que, apesar de ter lutado e militado por muito tempo no partido, se afastou por divergências de opinião. Acho que o artigo evidencia este sinal de pouco respeito democrático do PCP para com as diferenças de opinião, deixando o partido mal na fotografia. Como tal, não compreendo a sua crítica.

Vasco Matias: Comunismo = doença mental

Pertinaz: A escumalha será sempre escumalha…!!!

B D > Carlos Costa: É bom não esquecer. Ignorar é que não. E o observador é um jornal, não o avante

paulo mariano: Avante camaradas, rumo ao cemitério!

Jose Marques: Filhos da putin

Paulo Barreto: Qual é o espanto? O Pcp é assim, quem discorda deles, é simplesmente apagado da história, nao me espanta

Joao Goncalves: Só por isso, já passei a gostar mais dele...

Joao Cadete: Como será o chega daqui a uns tempos.... comunas de direita.

Daniel José: o Carlos Brito como outros acordaram a tempo do que seria um regime comunista, só mesmo os parvos do cravo acham normal ainda haver festa avante

Paulo Silva > Pedro Abreu: O PCP nasceu em 1921 para instaurar uma ditadura vermelha em Portugal, à semelhança de muitos congéneres inspirados no Outubro vermelho e na Rússia dos bolcheviques. O PCP revia-se em todas as ditaduras comunistas, mesmo quando existiam querelas entre capitais vermelhas pela disputa na direcção da locomotiva da História.

Joao Goncalves > Pedro Abreu: Instaurar uma ditadura um milhão de vezes pior do que aquela que havia...

Luís Fernandes: Saiu da seita...

Cisca Impllit: O pcp já  não  sabe o que fazer para a sopa... Têm uma coerência mt própria...

Hugo Fraga: um partido asqueroso... uma ditadura dentro de uma democracia... e muitos preocupados com partidos populistas.... horror

Anastácio Jorge: O PCP , pouco a pouco , vai descendo devagar devagarinho .. hoje já ninguém usa cassettes

David Pinheiro > helder carvalho: Muito... pouco.