sábado, 26 de setembro de 2026

Discutir, porque sim


Talvez por pura saliência pessoal. Talvez para apenas contradizer. Talvez por se ser poupadinho, sobrevalorizando o “metal vil” mais valioso se em papel ensebado.  Talvez…

 

Quando o ruído vale mais do que a obra

Questionem-se os 175 mil euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de Cascais.

Sandra Damas, Especialista em Conformidade e Regulamentação, Câmara Municipal de Cascais

OBSERVADOR, 26 set. 2026, 00:19

Há uma dificuldade cada vez maior em encontrar seriedade naquilo que se publica, comenta e partilha. Não necessariamente porque os factos sejam falsos, mas porque, demasiadas vezes, são apresentados pela metade — e uma verdade pela metade pode ser uma extraordinária ferramenta de manipulação.

Curiosamente, entre tudo o que poderia ser notícia, foram os 175 mil euros associados à inauguração da nova Escola Secundária de Cascais que conquistaram títulos, indignação e partilhas. Afinal, é sempre mais simples fazer manchete com um número isolado do que perder tempo com esse incómodo chamado contexto.

E o contexto, aparentemente menos interessante, é este: mais de 32 milhões de euros de investimento, com cofinanciamento do PRR; o fim de 50 anos de uma escola provisória; e um novo equipamento com capacidade para 1.320 alunos.

Mas, entre 32 milhões, 50 anos e 1.320 alunos, o número verdadeiramente irresistível para alguns foi mesmo o dos 175 mil euros.

O PRR exige, para investimentos desta dimensão, uma comunicação com relevante impacto mediático. E, nisso, convenhamos, o objectivo foi largamente cumprido — talvez até para lá das expectativas. Só há um pequeno detalhe: esse impacto deveria dar visibilidade ao investimento e à escola. Mas conseguiu-se algo bastante mais criativo: 32 milhões transformaram-se em 175 mil, uma escola transformou-se numa festa e 1.320 alunos praticamente desapareceram da notícia.

Impacto mediático? Missão cumprida.

O escrutínio do dinheiro público não está em causa — é indispensável, sobretudo na Capital Europeia da Democracia. Seria, aliás, uma contradição curiosa defender o contrário. O problema começa quando escrutinar deixa de significar esclarecer e passa a significar escolher números, retirar-lhes o contexto e esperar que as letras gordas façam o resto. Fiscalizar é democracia; transformar informação em conveniência política é apenas ruído disfarçado de escrutínio.

É legítimo questionar custos, prioridades e opções. Aliás, é desejável. Mas questionar exige de quem pergunta a mesma seriedade que se exige de quem responde. Reduzir dois momentos de comunicação associados a um investimento desta dimensão à expressão “175 mil euros gastos numa festa” é escolher o que se conta, o que se omite e, sobretudo, aquilo que se espera que o leitor não tenha tempo — ou vontade — de ir descobrir.

Por isso, talvez a pergunta seja muito simples: qual deveria ser, afinal, a notícia?

Que Cascais concretizou um investimento superior a 32 milhões de euros e pôs fim a 50 anos de uma escola provisória? Ou que, na inauguração dessa escola, havia um DJ, ecrãs e uma passadeira?

Realmente, escolhas difíceis.

A crítica política é legítima e a oposição é indispensável à democracia. Nenhuma delas deveria dispensar seriedade, contexto ou bom senso — embora, pelos vistos, estes três tenham menos capacidade de gerar cliques.

Porque havia uma alternativa: não aproveitar o financiamento, não construir a escola e deixar mais uma geração estudar numa solução “provisória” há meio século.

Provavelmente, daria menos títulos.

Questionem-se os 175 mil euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de Cascais.

E custa acreditar que quem se apresenta como culto, informado e conhecedor da realidade pública não consiga reconhecer a importância deste feito. Talvez fosse mais útil desejar que esta capacidade de investimento e este compromisso com a educação se multiplicassem pelo país, para que melhores condições de ensino deixassem de ser notícia e passassem, simplesmente, a ser a regra.

Porque, retirado todo o ruído político, é apenas disto que estamos a falar: de uma escola, de educação e de dignidade.

Mas admito: “dignidade”, “educação” e “sucesso” são palavras terrivelmente pouco convenientes quando há 175 mil euros para pôr no título – e uns cliques para obter.

Cascais     Lisboa       País       Sociedade

COMENTÁRIOS:

Meio Vazio:  Bolas! Se no fungagá da coisa havia um "DJ" (raispartam!), então está justificado o balbúrdio, seus filisteus! Discutir  porque sim

Talvez por pura saliência pessoal. Talvez para apenas contradizer. Talvez por se ser poupadinho, sobrevalorizando o “vil metal” ou o papel ensebado das notas. Talvez por 

Quando o ruído vale mais do que a obra

Questionem-se os 175 mil euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de Cascais.

Sandra Damas, Especialista em Conformidade e Regulamentação, Câmara Municipal de Cascais

OBSERVADOR, 26 set. 2026, 00:19

Há uma dificuldade cada vez maior em encontrar seriedade naquilo que se publica, comenta e partilha. Não necessariamente porque os factos sejam falsos, mas porque, demasiadas vezes, são apresentados pela metade — e uma verdade pela metade pode ser uma extraordinária ferramenta de manipulação.

Curiosamente, entre tudo o que poderia ser notícia, foram os 175 mil euros associados à inauguração da nova Escola Secundária de Cascais que conquistaram títulos, indignação e partilhas. Afinal, é sempre mais simples fazer manchete com um número isolado do que perder tempo com esse incómodo chamado contexto.

E o contexto, aparentemente menos interessante, é este: mais de 32 milhões de euros de investimento, com cofinanciamento do PRR; o fim de 50 anos de uma escola provisória; e um novo equipamento com capacidade para 1.320 alunos.

Mas, entre 32 milhões, 50 anos e 1.320 alunos, o número verdadeiramente irresistível para alguns foi mesmo o dos 175 mil euros.

O PRR exige, para investimentos desta dimensão, uma comunicação com relevante impacto mediático. E, nisso, convenhamos, o objectivo foi largamente cumprido — talvez até para lá das expectativas. Só há um pequeno detalhe: esse impacto deveria dar visibilidade ao investimento e à escola. Mas conseguiu-se algo bastante mais criativo: 32 milhões transformaram-se em 175 mil, uma escola transformou-se numa festa e 1.320 alunos praticamente desapareceram da notícia.

Impacto mediático? Missão cumprida.

O escrutínio do dinheiro público não está em causa — é indispensável, sobretudo na Capital Europeia da Democracia. Seria, aliás, uma contradição curiosa defender o contrário. O problema começa quando escrutinar deixa de significar esclarecer e passa a significar escolher números, retirar-lhes o contexto e esperar que as letras gordas façam o resto. Fiscalizar é democracia; transformar informação em conveniência política é apenas ruído disfarçado de escrutínio.

É legítimo questionar custos, prioridades e opções. Aliás, é desejável. Mas questionar exige de quem pergunta a mesma seriedade que se exige de quem responde. Reduzir dois momentos de comunicação associados a um investimento desta dimensão à expressão “175 mil euros gastos numa festa” é escolher o que se conta, o que se omite e, sobretudo, aquilo que se espera que o leitor não tenha tempo — ou vontade — de ir descobrir.

Por isso, talvez a pergunta seja muito simples: qual deveria ser, afinal, a notícia?

Que Cascais concretizou um investimento superior a 32 milhões de euros e pôs fim a 50 anos de uma escola provisória? Ou que, na inauguração dessa escola, havia um DJ, ecrãs e uma passadeira?

Realmente, escolhas difíceis.

A crítica política é legítima e a oposição é indispensável à democracia. Nenhuma delas deveria dispensar seriedade, contexto ou bom senso — embora, pelos vistos, estes três tenham menos capacidade de gerar cliques.

Porque havia uma alternativa: não aproveitar o financiamento, não construir a escola e deixar mais uma geração estudar numa solução “provisória” há meio século.

Provavelmente, daria menos títulos.

Questionem-se os 175 mil euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de Cascais.

E custa acreditar que quem se apresenta como culto, informado e conhecedor da realidade pública não consiga reconhecer a importância deste feito. Talvez fosse mais útil desejar que esta capacidade de investimento e este compromisso com a educação se multiplicassem pelo país, para que melhores condições de ensino deixassem de ser notícia e passassem, simplesmente, a ser a regra.

Porque, retirado todo o ruído político, é apenas disto que estamos a falar: de uma escola, de educação e de dignidade.

Mas admito: “dignidade”, “educação” e “sucesso” são palavras terrivelmente pouco convenientes quando há 175 mil euros para pôr no título – e uns cliques para obter.

Cascais       Lisboa       País       Sociedade

 

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Meio Vazio:  Bolas! Se no fungagá da coisa havia um "DJ" (raispartam!), então está justificado o balbúrdio, seus filisteus!

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Atamancando sempre


As histórias da nossa História, em jeito de salvaguarda do orgulho nacional.

Os 100 anos que ninguém notou

O ponto mais interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido.

Alexandre Borges, Escritor e Argumentista

OBSERVADOR, 28 mai. 2026, 00:21

Fosse biologicamente possível e festejaria com mais propriedade o meu funeral do que o aniversário – podemos não gostar de pensar nisso, mas temos consideravelmente mais participação na forma como morremos do que naquela como chegámos a este mundo. Reconheço, porém, que não seja a corrente de pensamento mais popular. E, todavia, tenho quase a certeza de que toca o mesmo ponto fraco que nos faz comemorar umas efemérides e desviar os olhos de outras.

Em 2010, celebrámos durante um ano a implantação da República. Houve comissão para as comemorações, filmes, programas de televisão, debates, fóruns, livros, exposições. Mas hoje, que faz precisamente cem anos que essa primeira tentativa de regime republicano, liberal, democrático, caiu, não encontrarão mais do que meia dúzia de conversas em programas de tv, rádio, ou textos como este. Sim, bem sei que continuámos a viver em república depois do golpe de 28 de Maio – bem sei que vivemos em república até hoje – mas viver em república não é um bem por si mesmo, tal como viver em monarquia não é certamente um mal. O que aconteceu há 100 anos foi o epitáfio de um projecto muito concreto e faríamos melhor em dar-lhe alguma atenção.

Quando as tropas de Gomes da Costa vieram de Braga, em desfile,  país abaixo até à capital, não havia duas frentes em confronto, duas visões de mundo ou, ao menos, uma oposição. Havia cansaço, desilusão. Meros 16 incompletos anos depois, tinha fracassado a tentativa de implantar em Portugal um regime determinado pelos portugueses, os portugueses “reais”, que não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes trabalhadoras, sem privilégios de classe. Mas o país que também antes se tinha cansado da monarquia e, sobretudo, da corte, dos condes e dos barões, e que correra até com os padres e os frades na repetida ânsia de culpar alguém ou alguma coisa pelos males que o afligem, desembocara num estado de miséria ainda pior do que aquele em que se encontrava antes de 1910, esmagado pelas consequências da Guerra, em que se metera por vaidade dos protagonistas políticos preocupados com a afirmação do regime além-fronteiras (o clássico “para inglês ver”), pela gripe espanhola e, acima de tudo, pelo caos político e social.

Há cem anos, quando o resto do mundo ocidental celebrava os “loucos” anos 20, Portugal vivia a década em que mais divergiu economicamente dos seus parceiros de continente. Os governos sucediam-se à média de três a quatro por ano, de desilusão em desilusão, dilacerados, primeiro, pelo projecto hegemónico de poder de Afonso Costa e do Partido Republicano e, depois, pelas múltiplas correntes e dissidências. Ficou a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar, enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no ensino superior, mas sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na democracia real.

O ponto mais interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido. Pior ainda do que em 1910, quando não se ofereceram mais do que Paiva Couceiro e umas centenas de militares para defender uma monarquia de quase 800 anos e que tanto nos orgulhávamos de, de tempos a tempos, ter salvo e recuperado quase por milagre, não apareceu sequer, dessa vez, um herói mais ou menos romântico que se atravessasse no caminho da “Revolução Nacional”. Bernardino Machado, Presidente da República, e António Maria da Silva, primeiro-ministro, entregaram pacificamente o poder a Gomes da Costa quando este chegou a Lisboa, e até intelectuais como Fernando Pessoa defenderam, por um momento, a necessidade temporária de uma ditadura militar para “limpar” o país dos males causados pela I República.

Só que, atrás de Gomes da Costa, não estava qualquer projecto; estava um conjunto de gente que não podia pensar de formas mais distintas: monárquicos, republicanos, militares, maçons, católicos, quase todos desiludidos de alguma coisa. Unia-os a desilusão, o estarem fartos. Mas estar farto não é um projecto político, como se perceberia pela incapacidade de produzir um nos meses ou sequer anos seguintes. O que se sucederia não seria, portanto, propriamente, temporário, mas a mais longa ditadura da Europa Ocidental.

Em 1926, o regime caiu de podre; como em 1910; como, em boa parte, em 1974; como talvez seja a única maneira de mudar alguma coisa num país tão velho. Não por combate vigoroso ou sanguíneo, mas por desistência, por cansaço. 100 anos depois, os portugueses vivem extraordinariamente melhor do que nesse Portugal de então, mas os perigos do cansaço e da desilusão voltam a pairar por aí e a confundir-se, exactamente como há um século, com um “projecto”, uma “ideia” que, na verdade, ninguém sabe qual é, nem os próprios. Não temos ataques bombistas nem milícias a distribuir pancada pelas ruas, mas não falta, como em 1926, quem implore por “ordem”, “limpeza”, alguém que “pegue nisto”. Um descrédito das instituições, uma falta de pessoal “qualificado”, de vez em quando um ténue fantasma a espreitar: a “ingovernabilidade”. E agora, até uma geração que parece achar que um governo autocrático talvez nem seja coisa má de todo.

Poderíamos meditar um pouco nas razões destas nossas mortes recorrentes, destas quedas. Assinalar com pelo menos metade da pompa os funerais das efemérides que, tão galhardamente, nos ocupamos em celebrar. Para perceber as razões e melhor descortinar os inimigos. Afinal, em 1926, quando caiu a república livre e democrática, entregue a si mesma e à autodeterminação do seu destino, quem falhou não foram os reis, nem os padres, nem os militares, nem a extrema-esquerda, nem a extrema-direita. Fomos nós.

Política       História       Cultura

COMENTÁRIOS

Luís Fernandes Machado

28/05/2026

Como sempre o Alexandre Borges é brilhante, mas há duas notas onde insiste, de certa forma, num erro de percepção institucionalizado: nem a Implantação da República em 1910 foi uma aspiração popular, surgida de um movimento popular consistente, nem a I República foi "livre e democrática".

O derrube da monarquia foi um projecto de alguns poucos que, simplesmente, ambicionavam ocupar a posição na política e na sociedade ocupada antes por outros. Entre alguns poucos idealistas mais ou menos genuínos, como Machado dos Santos, ou proto ditadores como Afonso Costa e seus muitos cúmplices, ninguém "pediu" licença ao povo, ninguém "ouviu" o povo e muito menos ninguém "consultou", antes ou depois, o povo sobre isso. Tal como uma certa ideologia política hoje-em-dia, "actuou em nome do povo, porque não podemos deixar ao povo a decisão do que quer".

O que aconteceu durante aqueles 16 anos, não foi mais liberdade, nem mais democracia que antes na Monarquia, nem sequer depois no Estado Novo. Foi antes um delírio à la revolução francesa de gente não recomendável que se serviu do país num banquete sanguinário, desde a insistência na participação idiota na Grande Guerra, contra a vontade dos próprios aliados, até à Camioneta Fantasma de 1921. Tal como o Napoleão foi a "salvação" das  loucuras da Revolução Francesa, também o Estado Novo acabou por o ser da I República.

Mas há uma ideia onde o Alexandre Borges está total e irremediavelmente correcto: o paralelismo com o que vivemos hoje é absoluto.

28/05/2026

Como podia a 1ª República ser "livre e democrática" se havia "milícias a distribuir pancada nas ruas" e o direito de voto era mais restrito do que na Monarquia? Algo não bate certo.

Francisco Almeida (28/05/2026)

Chamar república livre de democrata à ditadura "de facto" de Afonso Costa e do Partido Democrático, apenas define o autor. E mencionar o que o povo escolheu, quando se restringiu o direito de voto e quando as "revoluçõezinhas" a começar pela de 1910 eram decididas em Lisboa e comunicadas ao país por telégrafo, mete dó.

Incidentalmente, é facto que a resistência se limitou a Paiva Couceiro, mas houve motivos para isso. O general comandante militar de Lisboa deu ordem para dois regimentos saírem mas o cabo telegrafista era da Carbonária e, pura e simplesmente não enviou as mensagens. Para quem gosta de comparar revoluções, algo de semelhante aconteceu com a malograda saída do Regimento das Caldas em 16.3.1974. Presos todos os oficiais spinolistas o MFA ficou aberto a comunistas iinfiltrados e até foi escolhido para liderar um palhaço vaidoso e manipulável.

Ricardo Horta

28/05/2026

Como se pode qualificar a Iª República como uma "república livre e democrática" quando "... sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na democracia real."!!???

José Tomás:

28/05/2026

Um artigo com contradições - porque o autor sabe a história, (brilhantemente resumida no artigo de Nogueira Pinto), mas não abdica do mito - mas que é muito útil para chamar a atenção para isto: num tempo em que (graças à Internet) "os de sempre" perderam o exclusivo da narrativa e o poder de martelar os factos sem ninguém os contrariar, só lhe resta tentar que ninguém se lembre de que hoje faz 100 anos o 28 de Maio de 1926 (uma das 3 datas-chave do séc. XX português).

Maria Paula Silva

28/05/2026

Excelente!

Excelente análise histórica, de forma sintética e divertida. Fartei-me de rir, porque, afinal, tanto faz o tipo de governo, somos, mesmo,  uma nhoca ingovernável  sem governantes qualificados.  Cem anos depois, uma análise perfeita da realidade actual.

Luis Monte Rosa, abre os olhos, se fores capaz!

Não és, está mais que provado.

Este artigo é extremamente oportuno, mas, infelizmente, não vai servir de nada. Daqui a 100 anos alguém escreverá algo idêntico.

Sempre achei interessante esta parecença de nomes (Gomes da Costa/Costa Gomes;  Afonso Costa/António Costa nos ciclos que se repetem).

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Chapéus

 

Há muitos.

O mefistófeles tropical

O que se passa no Brasil excede qualquer comparação. Pela escala e pela exibição de decadência do Supremo Tribunal Federal, o terceiro poder, que devia ser o garante e o árbitro dos outros dois.

JAIME NOGUEIRA PINTO,  Colunista do Observador

OBSERVADOR, 24 set. 2026, 00:25

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A história pareceria normal numa daquelas cleptocracias ditatoriais centro-americanas ou africanas de há um século ou meio século; mas trata-se, apesar de tudo, do Brasil.

Não que o tráfico de influências em Portugal não seja uma praga histórica consagrada pela Terceira República, e que também não assistamos aqui ao triste espectáculo da promiscuidade entre política e negócios; ou à geral impunidade dos poderosos, hábeis em iludir com artifícios processuais e formais a substância das coisas perante uma justiça cara e tardia; mas o que se passou e passa no Brasil excede qualquer comparação. A escala é outra, os contornos infinitamente mais rocambolescos e as cenas no Supremo Tribunal particularmente degradantes.

O Juiz e o Banqueiro

Recapitulemos: um dos juízes do Supremo Tribunal, André Mendonça, um cristão de confissão evangélica que, com zelo religioso, tem feito da luta contra a corrupção um artigo de fé, descobriu que um seu colega de instituição, o juiz Alexandre de Moraes, aparecia como interlocutor próximo, conselheiro e amigo de grande confiança do banqueiro Daniel Vorcaro, autor da maior burla financeira da História do Brasil. Do telefone de Vorcaro, apreendido pela Polícia, tinham saltado mais de cinquenta mensagens de Vorcaro para Moraes, entre as quais uma, pedindo-lhe para influenciar o Procurador-Geral da República e o Director da Polícia Federal a seu favor; e outra, na véspera de ser detido, perguntando-lhe se o aconselhava a sair do país.

Já se sabia desde Março deste ano, através do jornal O Globo, que o escritório da mulher de Moraes tinha um contrato com o Banco Master, de Vorcaro, no valor de 129 milhões de Reais (cerca de 22 milhões de Euros), pagos em prestações mensais de 3 646 529,77 reais (cerca de 620.000 Euros). Quando o Banco do Brasil fechou o Master por fraude, já tinham sido pagos mais de 80 milhões de Reais ao escritório da mulher de Moraes. O contrato foi depois revisto e teve a sua versão final

Alexandre Garcia, um respeitável e respeitado comentador brasileiro, evocou Mefistófeles a propósito deste escândalo, na revista Oeste. Para Garcia, o génio do mal do Fausto de Goethe e do Doutor Fausto de Thomas Mann era Vorcaro e andava à solta no Supremo, onde comprara parte dos magistrados.

Tendo André Mendonça tornado pública a troca de mensagens entre Vorcaro, o Mefistófeles, e Moraes, um dos Doutores Faustos desta história, ficou então decidido que o Supremo Tribunal Federal se reuniria a 15 de Setembro para decidir se Moraes iria ou não ser investigado. Mas antes disso, já o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, tinha tentado anular a pretensão de Mendonça, argumentando que “sem pedido do Ministério Público” a pretensão era nula.

Não faltam documentos sobre outros juízes do Supremo que também terão vendido a alma a Vorcaro. Uma fotografia do procurador-geral Gonet – tão apressado em anular o requisito de Mendonça – mostra-o em Londres, bebendo e fumando um charuto com Daniel Vorcaro com grande intimidade no dia 25 de Abril de 2024 (e não consta que estivessem a celebrar o meio século da Revolução dos Cravos na antiga metrópole).

Moraes e Vorcaro tiveram oito encontros pessoais, além das mais de cinquenta mensagens trocadas, algumas bastante elucidativas:  “Estamos juntos desde sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda a minha família, funcionários, parceiros e amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser.”

Todo este enredo vem agora à luz do dia, precisamente nos 70 anos da mudança da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília.

Mefistófeles no Supremo

Talvez tenha razão Alexandre Garcia: tal como o Mefistófeles de Goethe e de Thomas Mann, também Daniel Vorcaro comprava as almas que lhe interessavam, a troco dos prazeres terrestres.

Na festa que promoveu em São Paulo na boîte Madame Club (conhecida por Madame Satã) o mote era o poder: o poder dos 20 homens convidados e o poder de sedução das 120  mulheres presentes. O anfitrião tinha proibido os telemóveis. Ana Raquel Santos Ribeiro, uma influencer ligada ao mundo da música electrónica que, no dia 1 de Novembro de 2023, publicou um vídeo da festa (onde não tinha estado, mas de que obtivera imagens pelo técnico de som, seu conhecido), viu o seu perfil erradicado do ciberespaço por Vorcaro, incomodado com a divulgação daquela “festa privada”.

O que se passou na sessão do dia 15 de Setembro do Supremo Tribunal Federal também foi uma “festa”, mas não foi privada.  Para a esmagadora maioria dos cronistas e editorialistas brasileiros, foi uma farsa vergonhosa, imprópria para um tribunal normal e inqualificável para um Supremo Tribunal.

O “investigado” Moraes votou em causa própria. Gilmar Mendes (cujo cunhado tinha um contrato de 500.000 Euros mensais também com Vorcaro) concentrou-se na desconstrução da investigação de Mendonça; Flávio Dino, antigo membro do Partido Comunista do Brasil e ministro da Justiça de Lula (aquele que, deixando oportunamente o Congresso desprotegido, permitiu o assalto dos bolsonaristas  que depois Moraes perseguiu e enjaulou), fez um discurso circular para ganhar tempo e conseguir um adiamento.

As eleições – presidenciais, legislativas, estaduais – estão à porta, com a primeira volta a 4 de Outubro.

Depois de estar à frente nas sondagens durante muitos meses, Lula está agora tecnicamente empatado para a segunda volta com Flávio Bolsonaro, o filho do ex-presidente que Moraes meteu na cadeia e depois condenou a prisão domiciliária.

Mas esta reviravolta nas sondagens tem-se revelado, para alguns leitores, espectadores e comentadores portugueses, incompreensível.  Aparentemente, a única coisa que lhes chegou sobre o Brasil e sobre este escândalo foi o generoso e também pouco edificante donativo de Vorcaro a Flávio Bolsonaro para o filme sobre o pai, Jair Bolsonaro, e o facto de o juiz André Mendonça, o juiz denunciante, ser evangélico, bolsonarista, oportunista e intrometido.  Nada sobre o lulista Alexandre de Moraes, íntimo amigo e consultor estipendiado do banqueiro fraudulento, autor do maior buraco financeiro de que há memória no Brasil. E sobre a decadência do terceiro poder, que devia ser o garante e o árbitro dos outros dois, só a ingerência de Mendonça num processo em investigação.

Receba um alerta sempre que Jaime Nogueira Pinto publique um novo artigo.

Brasil        Mundo

COMENTÁRIOS

Graça Dias:

Caríssimo Jaime Nogueira Pinto

Um artigo magnífico, a começar pela bem escolhida metáfora para o título desta brilhante e funesta crónica " O mefistófeles tropical" . Eu que tenho acompanhado em "diagonal" o exotismo peculiar do que tem sido a exibição de decadência do Supremo Tribunal Federal, no imediato lembrei o livro rocambolesco de Franz Kafka - O Processo. Mas, o que esperar como resultado de uma governação em style maquiavélico do Mr. Lulinha, manipulador, exímio em promessas e fanfarronice ideológica, e onde a corrupção me remete para o fascinante livro de George Orwell - 1984.

Parabéns e o meu obrigada a JNP por este texto tão "didáctico ", e onde fiquei bem informada sobre o "clima cultural" vigente no Brasil de hoje.

Bernardo Gonçalves

Fantástico resumo da podridão que parece não ter fim no estado falhado que é o Brasil...

Quando o Luladrão e quejandos do "Sul Global" vão à AG da ONU falar em reformar aquilo, está-se mesmo a ver o que querem...

Há muito que deixei de ver noticiários, a falta de isenção é escandalosa. Basta ler uns artigos como este e fica-se a entender muito mais que horas de tv.

Henrique Mota

O que o povo gosta é de malhar no Trump - alguém disse malhar na direita. No Lula ou no Sanchez as notícias são raras. A esquerda desonesta sabe defender se. (Nota - também existe esquerda honesta )