quinta-feira, 23 de abril de 2026

As razões das sem-razões


Desconfiança dos europeus nos negócios com os chineses, que, ao que parece, vendem mais barato, o que não é positivo para os fabricantes europeus, naturalmente do contra, atidos ao conceito de que o barato sai caro, como sinónimo de menos bom.

A expansão do Metropolitano de Lisboa passa para os concelhos de Odivelas e Loures, através da Linha Violeta

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Metro de Lisboa. Porque não quis Bruxelas um fornecedor chinês e as implicações para outros concursos públicos

Regulamento que controla subvenções de Estados estrangeiros a empresas que concorrem a projectos na Europa tem visado investidores chineses e pode ter impacto em outros concursos de obras públicas.

ANA SUSPIRO: Texto

OBSERVADOR, 21 abr. 2026, 20:49

3 min4

Índice

O que esteve na origem da investigação europeia?

Porque é que o consórcio da Mota-Engil entrou no radar?

Quais eram as suspeitas da Comissão Europeia?

Como foi resolvido o problema?

Substituído o fornecedor, o concurso pode avançar?

Porque foi inédita a decisão de Bruxelas?

Quais têm sido os principais alvos da Comissão?

A Mota-Engil tem capital chinês. Isso é um problema?

O que esperar da aplicação deste regulamento?

Uma investigação da Comissão Europeia acabou por determinar a substituição de um fornecedor de material circulante no concurso lançado pelo Metro de Lisboa em 2025. A empresa chinesa CRRC não foi concorrente directa, mas estava subcontratada pelo consórcio liderado pela portuguesa MOTA-ENGIL para fornecer as 12 unidades de metro ligeiro de superfície que vão estar em operação na Linha Violeta, a expansão do Metropolitano para os concelhos de Odivelas e Loures.

decisão conhecida esta terça-feira pode vir a ter um impacto muito mais abrangente do que o concurso em Portugal e está a ser seguida com atenção. Não apenas na Europa, mas também na Ásia e com especial foco na China cujas empresas estatais estão a enfrentar mais obstáculos para fazerem negócios na União Europeia.

A deliberação sobre o concurso da Linha Violeta foi inédita a vários níveis e mostrou como o regulamento das subvenções que se assuma distorcerem o mercado interno pode ter implicações nos concorrentes a outros grandes concursos para obras públicas em Portugal, defende Margarida Fonseca, advogada especialista em direito europeu e da concorrência.

Por um lado, é a outra face da moeda do regime de auxílios de Estado aplicado há muito tempo às empresas da União Europeia que procura controlar os auxílios dados por estados terceiros a empresas não europeias e evitar a concorrência desleal que resulta dessas subvenções (que são proibidas ou limitadas na União Europeia). Mas, sublinha a mesma especialista, “não pode ser visto isoladamente. Faz parte de um pacote de diplomas de política comercial e de concorrência da União Europeia” que tem procurado aprofundar a autonomia estratégica e o conceito do “buy european” (comprar europeu) nos sectores considerados estratégicos que envolvem não só a energia e indústria, mas também a defesa.

O que esteve na origem da investigação europeia?

Em causa está a aplicação de um regulamento de 2023 que dá à Comissão Europeia o poder de escrutinar os subsídios de Estado atribuídos a empresas não europeias que concorram a contratos públicos no mercado interno. Este regulamento também se aplica a concentrações, que são aliás o maior número de operações notificadas. Mas é na contratação pública que o tema da distorção da concorrência, por via de subvenções a empresas, ganha maior relevância. Isto porque, destaca Margarida Fonseca, nestes processos o preço (mais baixo) é quase sempre o principal critério.

Este regulamento foi criado no rescaldo da pandemia quando cresceu a preocupação dentro da União Europeia de as empresas subsidiadas por estados estrangeiros poderem estar a ter vantagens indevidas no mercado europeu quando concorrem com companhias europeias que não podem receber ajudas de Estado. Foi depois do travão económico imposto pela Covid-19 que os países lançaram programas de relançamento económico com investimentos alavancados em fundos europeus. Em Portugal, a Linha Violeta do Metro fez parte do PRR, mas, tal como a expansão da linha vermelha, foi retirada do Plano de Recuperação e Resiliência português por atraso na execução.

Porque é que o consórcio da Mota-Engil entrou no radar?

Apesar do consórcio liderado pela Mota-Engil ser composto apenas por empresas europeiasalém da construtora portuguesa participam a Zagope e a Spie Batignolles — a proposta inclui, como fornecedor de material circulante, a empresa chinesa CRRC Tangshan Rolling Stock. O peso deste contrato para fornecer 12 veículos tipo LRV (Light Rail Vehicle) em todo o projecto era suficientemente relevante para a Comissão Europeia iniciar a investigação. Ainda mais porque o fornecedor em causa, uma empresa estatal chinesa, já tinha estado sob investigação em outros processos ao abrigo do mesmo regulamento. Num dos casos, a CRRC era a contratada e não subcontratada e desistiu do concurso para o fornecimento de comboios lançado pelo Governo búlgaro quando em 2024 foi aberta uma investigação pela Comissão Europeia que foi, aliás, a primeira ao abrigo do regulamento.

Quais eram as suspeitas da Comissão Europeia?

Dada a relevância do fornecimento do material circulante na encomenda total ganha pelo consórcio da Mota-Engil, no valor de 598,8 milhões de euros, a Comissão considerou, depois de uma avaliação preliminar, que a subsidiária portuguesa da CRRC poderia ter recebido subsídios estrangeiros que distorceram o resultado do concurso ao habilitar o consórcio que a contratou a apresentar uma proposta com uma vantagem indevida. A investigação aprofundada veio a confirmar esta suspeita, tendo identificado a atribuição de subsídios ou contrapartidas no valor de “milhares de milhões”, segundo indicou fonte da Comissão ouvida pelo Observador, seja em dinheiro, seja em contratos adjudicados sem concorrência.

Como foi resolvido o problema?

A própria CRRC mostrou abertura para abandonar o contrato com o consórcio liderado pela Mota-Engil, mas isso não foi suficiente para ultrapassar as dúvidas da Comissão Europeia. Caso a investigação fosse encerrada, a empresa chinesa não ficava impedida de voltar a participar como subcontratada deste ou outro consórcio para o mesmo concurso. A solução passou por substituir este fornecedor por um fabricante europeu — neste caso a empresa polaca PESA (Pojazdy Szynowe PESA Bydgoszcz Spółka Akcyjna) — que passou no teste de Bruxelas aos subsídios estrangeiros.

 Cristina Vaz Tomé entrou para a presidência do Metro de Lisboa este ano.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Índice

O que esteve na origem da investigação europeia?

Porque é que o consórcio da Mota-Engil entrou no radar?

Quais eram as suspeitas da Comissão Europeia?

Como foi resolvido o problema?

Substituído o fornecedor, o concurso pode avançar?

Porque foi inédita a decisão de Bruxelas?

Quais têm sido os principais alvos da Comissão?

A Mota-Engil tem capital chinês. Isso é um problema?

O que esperar da aplicação deste regulamento?

Substituído o fornecedor, o concurso pode avançar?

Ao aceitar esta substituição, a Comissão Europeia teve em consideração o interesse público em Portugal, querendo evitar mais atrasos no investimento da Linha Violeta. O concurso foi decidido em 2025, mas a sua adjudicação ficou suspensa à espera das conclusões da investigação europeia que durou cerca de 130 dias. Mas agora cabe ao Metropolitano de Lisboa tomar a decisão sobre se a proposta do consórcio da Mota-Engil cumpre os requisitos do concurso, técnicos e financeiros, que lhe deram a vitória. Essa avaliação jurídica terá de ser feita pelo júri do concurso, tendo por base o caderno de encargos e as regras da contratação pública. Mesmo que o contrato possa avançar de acordo com estas avaliações, há o risco da substituição do fornecedor de material circulante motivar litigância e impugnações por parte de outros concorrentes.

Porque foi inédita a decisão de Bruxelas?

Esta é a primeira decisão tomada ao abrigo do regulamento de subvenções estrangeiras que terminou com uma autorização na sequência de um compromisso assumido pelo consórcio investigado. Cabe à Mota-Engil e aos seus parceiros de consórcio assegurarem agora o cumprimento deste compromisso que será monitorizado pelos serviços europeus. Esta foi também uma das primeiras decisões favoráveis tomadas em relação a um contrato público depois do início de uma investigação aprofundada no quadro deste regime. Até agora, a abertura de uma investigação levou os visados a desistirem.

Quais têm sido os principais alvos da Comissão?

Apesar do regulamento europeu se aplicar a todas as empresas de países terceiros que concorram com empresas europeias no mercado da União Europeia, Margarida Fonseca indica que os casos de investigações incidem mais sobre empresas chinesas e do Médio Oriente e não americanas.

No final de 2025, a Comissão Europeia abriu uma investigação à Nuctech, empresa chinesa fornecedora de scanners de controlo de segurança para aeroportos e portos, que já ganhou vários contratos. A suspeita é a mesma: a preocupação de que a Nuctech recebeu subsídios estrangeiros que podem distorcer a concorrência no mercado interno da UE. Também a plataforma de compras online Temu está a ser investigada.

O escrutínio visou também uma operação de compra de uma empresa química alemã pela companhia petrolífera do Abu Dhabi, a ADNOC, mas esta operação foi aprovada com compromissos.

 A Mota-Engil, liderada por Carlos Mota dos Santos, propôs mudança de fornecedor.

Índice

O que esteve na origem da investigação europeia?

Porque é que o consórcio da Mota-Engil entrou no radar?

Quais eram as suspeitas da Comissão Europeia?

Como foi resolvido o problema?

Substituído o fornecedor, o concurso pode avançar?

Porque foi inédita a decisão de Bruxelas?

Quais têm sido os principais alvos da Comissão?

A Mota-Engil tem capital chinês. Isso é um problema?

O que esperar da aplicação deste regulamento?

A Mota-Engil tem capital chinês. Isso é um problema?

Não, porque a Comissão Europeia apesar de reconhecer essa participação que é de 32,4% não considera que seja uma posição de controlo da empresa onde a família Mota é a maior accionista com cerca de 40%. E como tal o tema não releva para a investigação, refere a jurista ouvida pelo Observador.

O que esperar da aplicação deste regulamento?

Apesar do regulamento prever que o escrutínio de subsídios estrangeiros pode chegar a subcontratadas, até agora as investigações têm-se focado mais nos concorrentes e na composição dos consórcios concorrentes. Por outro lado, o foco geográfico tem apontado a países como a China o que tem alimentado críticas e dúvidas por parte das empresas visadas. Surgiram suspeitas de que a “Comissão estava a usar de forma arbitrária a sua margem de discricionariedade” e a usar este regulamento para fins políticos.

Por outro lado, o número de operações notificadas tem sido muito superior ao inicialmente previsto.

Para clarificar os critérios, a Comissão Europeia publicou no início do ano orientações sobre a aplicação do regulamento, clarificando factores-chave para determinar o que é distorção da concorrência, a avaliação de uma distorção em contratos públicos, a aplicação de testes, e o mecanismo que permite investigar operações que não atingem os limites mínimos para notificação — de 250 milhões de euros por concurso. Estas orientações, diz Margarida Fonseca, vão permitir às empresas saberem com maior precisão que propostas, concursos e parceiros podem suscitar dúvidas da Comissão e fazer uma avaliação prévia das suas opções. A jurista admite que este regulamento vai ter impacto em Portugal porque vamos ter um conjunto de obras de grande dimensão — alta velocidade, aeroporto, travessias — que ultrapassam o limite de notificação.

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COMENTÁRIOS
Isabel Gomes: Não é difícil imaginar. Que tal esta hipótese? Os noruegueses importaram uma frota de autocarros eléctricos e após vistoria descobriram um chip (escondido) de controlo remoto. Os chineses são lixados 🤣

Humilde Servo: Os chineses fartam-se de subsidiar as indústrias todas. Por exemplo, há duas décadas liquidaram a produção de painéis solares na Europa à custa de subsídios. Embora eles hoje sejam baratos, não é claro se seriam ainda mais baratos havendo mais 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

TAL QUAL

 

 

Publicado no OBSERVADOR.

«««««Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo, boa tarde.

E hoje queres ir à visita de Lula da Silva.

Salve seja. É, mas ele hoje está por cá. O senhor Lula é como aqueles cantores da MPB, da Música Popular Brasileira, que por acaso o apoiam quase todos, ou praticamente todos, seja por convicção ideológica ou interesse nos subsídios da famosa Lei Rouanet. Mas ele vem a Portugal. É como os cantores vêm a Portugal tantas vezes, ou pelo menos ao longo dos anos aparece por  tantas vezes que uma pessoa  quase nem repara. Sei lá, o Caetano Veloso é capaz de estar  a dar uns concertos, e acho que sim, e uma pessoa  não faz disso grande assunto. E com o senhor Lula acontece o mesmo. O Chega reparou, por acaso, que ele estava por cá, o senhor Lula, não os cantores. E parece que organizou uma manifestação à qual se juntou André Ventura e na qual André Ventura chamou ao presidente do Brasil corrupto e ladrão, que eu acho que no que toca a Portugal, são duas características particularmente irrelevantes. E de qualquer maneira, é um resumo algo diminuto do currículo do homem. O senhor Lula é muito mais do que isso. É, desde logo, um crítico do Ocidente, com a originalidade de não esgotar as críticas, como é costume noutros críticos do Ocidente, não esgotar as críticas nos Estados Unidos e em Israel, claro. O senhor Lula também estende as críticas a Portugal, não apenas no que respeita a uma alegada xenofobia contra os brasileiros, que segundo ele, nós expressamos. Mas, e  por diversas vezes, a última das quais ainda  pouco tempo, porque segundo ele, Portugal é culpado pelo atraso e a pobreza do Brasil. Ele falou da questão do facto de a primeira universidade no Brasil ter sido  inaugurada  no século XX, e comparou com outros países da América do Sul. Independentemente das opiniões de cada um, o facto de o senhor Lula presidir ao Brasil é de facto um indício muito forte de que os portugueses não terão feito um trabalho excecional na colonização do Brasil. E se calhar, também é por causa do péssimo colonialismo que o senhor Lula, além de falar português como fala, mostra igualmente alguma confusão com o conceito de democracia no discurso. Ele acha a democracia uma coisa linda na prática, mas passa-se exatamente o oposto, porque por um lado, o senhor Lula, como toda a gente sabe, é um entusiasta aliado e simpatizante e amigo de ditaduras como a russa, como a iraniana, de todas as ditaduras da América Latina e de mais algumas que ele consiga encontrar. É  pôr no mapa à frente que ele  descobrirá qualquer coisa. E por outro lado, tem-se empenhado como nenhum outro chefe de Estado desde o general Figueiredo, para transformar o próprio Brasil numa ditadura em que o poder judicial, escudado no poder executivo, persegue e silencia cidadãos por delito de opinião, a que o senhor Lula chama desinformação, ou fake news, ou discurso de extrema-direita e, claro, discurso de ódio.  os processos e as prisões decretados pelo juiz, é um senhor Alexandre de Moraes, no Brasil é bastante mais conhecido do que cá, a isso o senhor Lula chama defesa da democracia. E é possível que muitos não saibam, mas no Brasil atual são milhares os casos de contas nas redes sociais fechadas por criticarem o governo.  pessoas perseguidas judicial e profissionalmente,  pessoas presas e  pessoas que para não serem perseguidas ou presas fugiram do país. Eu não conheço um  caso de um brasileiro tratado oficialmente assim por motivos políticos em Portugal. Vai-se a ver e o senhor Lula trata pior os brasileiros do que estes são tratados pelos portugueses mais xenófobos e mais racistas. E a propósito de racismo, até foi o senhor Lula que assumidamente impediu que uma campanha que pretendia divulgar o Brasil, acho que numa feira agrícola alemã ou coisa que o valha,  uns 20 e poucos anos, portanto durante a sua primeira passagem pela presidência, ele impediu que essa campanha incluísse a fotografia de um homem negro, porque disse que isso não representava o Brasil, que era preconceituoso. E é este senhor Lula que passou hoje por Portugal e que foi hoje recebido pelo nosso Presidente da República e pelo nosso Primeiro-Ministro. O doutor Montenegro declarou-se muito honrado e embora eu não tenha tido notícias sobre o almoço em Belém, tenho a certeza de que o doutor Seguro também terá carregado nos salamaleques. E tenho uma certeza ainda maior: nenhum deles, nem o doutor Seguro, nem o doutor Montenegro, terá ousado retorquir as críticas do senhor Lula ou beliscar a suscetibilidade do senhor Lula. E para acabar, é bom percebermos que os nossos representantes têm prioridades e percebermos em simultâneo que a defesa de Portugal face a enxovalhos não é uma dessas prioridades.

Obrigado, Alberto. E até amanhã. Um abraço.

Até amanhã. Um grande abraço, Ricardo.»»»»»»»