sexta-feira, 27 de março de 2026

Ai quem me dera

 

Entender um quarto destes dados fornecidos a uma inteligência habituada aos números… Mas limito-me, hélas!, a escancarar os olhos de estupefacção, perante tão avisado artigo, o meu negócio sendo mais de letras, que até há quem lhes chame de tretas… Mas, obrigada, contudo, pela tentativa do Dr. Salles, de nos elucidar a respeito destes dados económicos que deviam ser estudados já na escola primária, para o Bem da Nação.

PELO BEM-COMUM

EX -"A bem da Nação"

ECONOMIA PARALELA

março 26, 2026

O texto seguinte foi escrito e publicado no "A bem da Nação" em 2016 quando o IVA ainda era a 21%.

Contudo, a essência da questão mantém-se actual.

***

 Os Governos são os grandes fomentadores da economia paralela”, eis o que alguns propalam por aí.

 

Pela minha parte, tenho a quantificação da economia paralela como um caso de Polícia. E daí a culpabilizar este Governo ou qualquer outro, vai uma galáxia de distância. Já quanto aos fiscalistas...

 

Nada sabendo acerca da componente criminosa e fazendo apenas uma grosseira definição das parcelas não dolosas, encontro-me numa situação que presumo comum à generalidade das pessoas que não se dedicam ao crime nem à investigação criminal. Não me dedico, pois, à sua quantificação.

 

Dentre as actividades que saíram da economia oficial por motivos não ligados ao crime enquadro as «maquisardes», ou seja, as que tiveram que passar à clandestinidade por não conseguirem suportar as obrigações legais quer no que respeita ao enquadramento regulamentar quer sobretudo à fiscalidade.

 

Se para as que se baseiam nas actividades criminosas só vislumbro soluções de cariz policial, para as do segundo grupo só vejo como solução a redução da carga fiscal.

 

Contudo, há um grupo de actividades que não são ilegais e que estão fiscalmente referenciadas mas que pura e simplesmente não emitem facturas para além do estritamente necessário à prova de que estão activas ou à não aplicação do artigo 35º do Código das Sociedades. Não me refiro à economia simplesmente biscateira desenvolvida à sombra de baixas fraudulentas da Segurança Social e do Subsídio de Desemprego mas sim a algo de mais substancial, nomeadamente a algum trabalho independente e até de “porta aberta para a rua”. A todas estas chamo translúcidas uma vez que não são opacas (criminosas) nem transparentes (porque fiscalmente evadidas).

 

E por que é que essas actividades assim procedem? Porque pretendem manter-se em níveis de rendimentos oficiais tão baixos quanto a decência permita e porque os clientes não têm qualquer interesse fiscal em possuírem um documento relativo à despesa que tenham feito. E, no entanto, bastaria motivar fiscalmente a clientela para que essas actividades tivessem que passar a emitir a documentação apropriada enquadrando-se ipso factu por completo na economia oficial.

 

Se não se pode descontar no IRS a despesa que se faz com determinado tipo de “confortos”, então mais vale poupar no IVA... Bastaria que se pudesse descontar esse tipo de despesas no IRS (e já nem sequer me refiro ao desconto integral das despesas realizadas mas a uma percentagem de algo como o 50%, p. ex.) para que os recibos passassem a existir, o IVA a ser cobrado e o volume de negócios sectorial declarado a aproximar-se da dimensão real.

 

Afinal, até parece que é verdade: são os Governos que, com estas proibições, promovem a evasão fiscal e enviam inteiros sectores de actividade para fora da economia oficial. Fazem-no apenas por nabice, claro está, porque nas Escolas aprenderam doutrinas da Fiscalidade que já não existe.

 

É com base nestas realidades que nasce a tese que diz que se todos pudermos descontar todas as despesas no IRS, as receitas públicas aumentam. E como não poderia deixar de ser, também existe a antítese que afirma que os novos descontos no IRS ultrapassariam o aumento das receitas pelo que o encaixe público seria menor.

 

Sim?

 

O actual método de cálculo da matéria colectável – tanto para efeitos de IRS como de IRC – apenas permite o desconto de algumas despesas.

 

Imaginemos o seguinte cenário:

 

Matéria tributável no IRS  = 100

Despesas dedutíveis (30%) = 30

Matéria colectável              = 70

Taxa aplicável                   = 30%

COLECTA                         = 21

 

Admitamos agora que sobre metade das despesas não dedutíveis (35), o Contribuinte, ao não pedir recibo, permite que nessas transacções o lado da oferta se evada fiscalmente. Ou seja, no nosso modelo, evasão fiscal assume a dimensão de 35 pelo que só 65 se enquadram na economia oficial: os 30 já “agarrados” pela dedutibilidade das despesas no lado da procura mais os 35 do lado da oferta que não passaram à clandestinidade apesar de corresponderem a despesas não dedutíveis.

 

Nestas circunstâncias, do lado da oferta, o mesmo modelo será como segue:

 

Matéria tributável no IRC    = 65

Despesas dedutíveis (30%) = 19,5

Matéria colectável              = 45,5

Taxa aplicável                    = 30%

COLECTA                          13,65

 

 COLECTA TOTAL (IRS + IRC)         = 34,65

IVA, à taxa de 21% (sobre 65)          = 13,65

IVA s/ 100 do lado da procura a 21% = 21

RECEITA PÚBLICA TOTAL               = 69,3

 

Imaginemos agora que o Governo fazia aprovar um novo método de cálculo do IRS permitindo o desconto de mais despesas, agora para 50% em vez dos 30% do exemplo anterior. Introduzindo apenas essa variação no modelo do lado da procura, sucederá o que segue:

 

Matéria tributável no IRS  = 100

Despesas dedutíveis (50%) = 50

Matéria colectável              = 50

Taxa aplicável                   = 30%

COLECTA                        = 15

 

Continuemos a admitir que sobre metade das despesas não dedutíveis (25) pela procura, o lado da oferta nessas transacções se evada fiscalmente. Assim sendo, a evasão fiscal assume a dimensão de 25 e ao universo tributável inicial (65), há agora que juntar aqueles que abandonaram a clandestinidade (25) para constituírem um novo universo tributável do lado da oferta já com a dimensão de 90 num total de 100.

 

Matéria tributável no IRC    = 90

Despesas dedutíveis (30%) = 27

Matéria colectável               = 63

Taxa aplicável                    = 30%

COLECTA                          18,9

 

COLECTA TOTAL (IRS + IRC)         = 33,9

IVA, à taxa de 21% (sobre 90)         = 18,9

IVA s/ 100 do lado da procura a 21% = 21

RECEITA PÚBLICA TOTAL               = 73,8

 

RESUMO

 

Descontos no IRS

 

 

Colecta

30

50

Δ%

IRS

21

15

-28,6

IRC

13,65

18,9

38,5

IVA

34,65

39,9

15,15

TOTAL

69,3

73,8

25,05

 

 

E assim sucessivamente até à exaustão da economia translúcida para o que bastará os Governos, à semelhança do que parece suceder nos EUA, permitirem que a procura – apenas os singulares para efeitos de simplificação do modelo – deduzam todas as despesas na declaração anual de rendimentos para efeitos de cálculo da matéria colectável.

 

Neste exemplo apenas permiti que os singulares deduzissem mais despesas aos seus rendimentos declarados e nada fiz quanto aos colectivos. Se procedermos de igual modo quanto a estes, poderemos trazer de volta à economia oficial as tais empresas «maquisardes» que não suportam a actual carga fiscal. E se revíssemos alguns critérios de ilegalização de certas actividades (prostituição, p. ex.), fazendo algumas delas passarem do campo opaco para o translúcido, o Fisco passaria a obter receitas de fontes em que actualmente não mete o bedelho.

 

Votos de que os fiscalistas passem a pensar pelas suas próprias cabeças em vez de continuarem formatados por arcaicas sebentas.

 

Henrique Salles da Fonseca

“Não caia nessa!” “

 

Foi JOÃO DE DEUS que o escreveu, mas de brincadeira, a respeito do dia de anos, O pedido de hoje, contido no excelente texto de PATRÍCIA FERNANDES, é sério, porque sobre o flagelo do nosso tempo: “drogas”, trazido impunemente para a sociedade. Horror e tristeza, tal evolução social negativa a que os governos parecem indiferentes, assim como a imprensa…! E dos tribunais nem se fala!

Como será no futuro, se não se puser cobro a tais desmandos?!


Já podemos falar sobre o problema das drogas?

Não vale a pena despejar dinheiro para o problema se a questão cultural não for combatida e se não recuperarmos a capacidade de distinguir o certo do errado.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 23 mar. 2026, 00:2225

1Pensar a metapolítica

Já que temos vindo a falar de responsabilidade pelos mais novos, será que podemos, finalmente, falar sobre o problema das drogas? Durante muitos anos em Portugal isso não foi possível. Em virtude do sucesso da política de drogas que o país adoptou no início do novo milénio, e que tem sido referido como exemplo para o resto do mundo, tornou-se praticamente impossível chamar a atenção para o perigo de relaxarmos a nossa atitude em relação às substâncias psicoactivas e de importar a moda progressista de banalização do seu consumo.

Afinal, Portugal tinha encontrado a solução final – perfeita – e, por isso, era descabido ter interpretações diferentes sobre a solução ou introduzir preocupações sobre o tema.

O problema das drogas permite-nos, aliás, compreender como a análise política pode ser realizada a partir de perspectivas distintas. Por um lado, podemos concentrar-nos na dimensão económica de alocação de recursos e financiamento para os objectivos pretendidos e avaliar se as nossas medidas estão a produzir os efeitos desejados. Por outro lado, podemos alargar a nossa análise e fazer um exercício de “metapolítica”, colocando-nos ao nível do enquadramento cultural em que essas medidas são aplicadas – o que, em língua inglesa, se designa como “cultural politics”.

A maioria das análises é feita a partir daquela primeira perspectiva e é apropriada quando as condições sociais e culturais não se alteram de forma significativa. Porém, quando essa mudança acontece, a capacidade de análise fica afectada e, apesar de o problema dever ser agora analisado a partir de uma perspectiva metapolítica, o analista continua a usar as mesmas ferramentas e essas ferramentas levam-no sempre à mesma conclusão: trata-se de uma questão de recursos pelo que o estado devia aumentar o financiamento e “despejar dinheiro em cima do problema”.

Na verdade, e em momentos de aceleração como os que vivemos hoje, o facto de algumas políticas terem deixado de funcionar pode resultar de uma alteração do quadro social ou cultural que deu forma às políticas iniciais. E muitos dos temas atuais devem ser vistos a partir desta alteração estrutural: seria, então, uma questão de repensar as políticas a partir do novo contexto social ou cultural e não uma questão de deitar mais dinheiro para cima do problema.

É este esforço de metapolítica que procuramos fazer todas as semanas e que consiste em tentar responder às seguintes perguntas: por que razão pensamos como pensamos e em que medida esse pensar determina as medidas políticas que adoptamos?

2Para lá do dinheiro do Estado

A maioria dos temas políticos mais difíceis dos nossos dias são difíceis precisamente porque uma mera análise das condições materiais não é suficiente: exigem uma análise metapolítica. É o que acontece com imigração, sem-abrigos, habitação e a maioria dos temas de bioética, como o aborto e a eutanásia. E é especialmente evidente no tema da saúde.

A crise na prestação estatal de cuidados de saúde é um tema, naturalmente, complexo e que que tem recebido muitas propostas de solução no patamar dos recursos. Mas a análise metapolítica pode contribuir para esta discussão, e para os futuros pactos para a saúde, recolocando o problema numa perspetiva mais ampla.

É que a alteração cultural que se verificou nas últimas décadas impossibilita que o problema possa ser resolvido simplesmente pedindo mais dinheiros públicos. A verdade é que vivemos hoje num paradigma de ânsia generalizada por vivermos mais tempo e, preferencialmente, sem dor nem doençaum paradigma gerado pelos incríveis avanços científicos que foram conseguidos nesta área.

Mas ter uma “saúde perfeita” exige e exigirá sempre cada vez mais recursos (o podcast Consulta Aberta é disso um excelente exemplo). Assim, de que resolverá despejar mais dinheiro no Serviço Nacional de Saúde se queremos cada vez mais serviços e mais complexos, desde procriação medicamente assistida a bebés de três pessoas, medicamentos devidamente comparticipados para resolver todos os problemas e disponibilização de todo o tipo de novas tecnologias para toda a gente?

Não é só um problema de financiamentoé também porque vivemos numa cultura de “biofelicidade”, como diz Cathy Bernheim, que nos faz querer sempre mais. E neste novo paradigma, as políticas públicas de saúde criadas na década de 1970 já não resultam.

Com as drogas passa-se algo de semelhante. Num determinado contexto social e cultural, criou-se uma política pública que deu bons resultados. Hoje essa política parece estar a falhar, como assinala João Goulão, e repetidamente ouvimos o mantra da falta de recursos e financiamento. Mas será que é apenas um problema de recursos?

3Uma cultura de excessos

Tive a felicidade de nascer na década de 1980, o que significa que conhecia, como toda a gente, casos de toxicodependência. Casos terríveis de jovens que se tinham tornado dependentes de drogas pesadas e que, antes de se dedicarem a roubar, a furtar ou a pedir, já tinham usado todos os recursos dos pais, esvaziado o conteúdo das suas casas, destruído as suas famílias. Era um problema social e não só pessoal: preocupava a comunidade e, por isso, se sentia mais compaixão do que desprezo por aqueles que tinham caído no vício, como se dizia então.

E quem cresceu nesses tempos, beneficiou de uma vacina natural: sabíamos que as drogas eram perigosas, continham a possibilidade de vidas destruídas e isso funcionou para uma geração como uma espécie de antídoto natural. Não queríamos ser nós a passar por aquilo, não queríamos ser nós a provocar aquela dor e destruir a nossa família e, por isso, não era normal consumir drogas, nem sequer as mais leves… Para além disso, e como Maria Flor Pedroso recordou, num episódio recente do Radicais Livres, éramos recordados frequentemente de tudo isto por campanhas antidroga.

As medidas que foram aprovadas no final do século em Portugal reflectiam essa reflexão social e a sua dimensão comunitária – e é por isso que dificilmente conseguem ser replicadas noutros países (basta ver como a recente despenalização em Oregon teve de ser rapidamente revertida em resultado do caos que gerou). A importância da família e a existência de comunidades fortes permitiram que estas normas funcionassem entre nós: Portugal, ao contrário de muitos outros países, dispunha então dessa estrutura social.

Contudo, ao longo das últimas duas décadas, tudo isso desapareceu. Não só o efeito de antídoto natural se esvaziou com as novas gerações (como sempre acontece), como o discurso público se foi infiltrando pela ideia muito liberal e progressista de que o consumo de drogas é natural e bom: permite-nos relaxar, divertir e até ser mais inventivos e originais (embora, como disse Álvaro de Campos, “Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, / E a história não marcará, quem sabe?, nem um”). Para quê reprimir, para quê julgar, para quê dizer não, se a vida deve ser divertida?

O resultado está à vista, e agravado pela popularização das drogas sintéticas. Entre nós, o consumo de drogas para fins recreativos encontra-se normalizado na geração que nasceu no final do século e em várias classes profissionais e sociais (embora nenhuma me escandalize tanto como o consumo frequente por jovens médicos). Mas, contra aquilo que um professor de criminologia nos ensinou no último ano de um longínquo curso de Direito, as drogas leves não são leves, são drogas e os impactos do consumo de canábis estão hoje muito estudados, como notam os psiquiatras Henrique Prata Ribeiro e Gustavo Jesus. Defender que se trata de uma droga leve prejudica aqueles que deviam receber dos mais velhos orientação.

Quem analisa as razões que têm conduzido ao actual fracasso das políticas do início do século não deve esquecer, portanto, a dimensão metapolítica: não vale a pena despejar dinheiro para o problema se a questão cultural não for combatida e se não recuperarmos a capacidade de distinguir o certo do errado. E isso significa sermos responsáveis pelos mais novos e claros quanto ao que é aceitável no espaço público.

DROGAS       SOCIEDADE

COMENTÁRIOS

Novo Assinante: Muito bom. Lembro-me muito bem da Cathy Bernheim. Andei com ela na tropa era muito boa pessoa e muito bem comportada. Pelo contrário, o João Goulão era um trafulha quando estávamos a jogar copas, mas também me lembro que a companheira Fernanda fazia uns pastéis de bacalhau com arroz do mesmo muito saborosos. O fenómeno do Oregon State Law Case aprendi no terceiro ano de escolaridade quando tinha nove anos, não foi durante a tropa.                 João Floriano: Se despejar dinheiro sobre a praga das drogas fosse a solução, então as famílias com recursos estariam livres do flagelo e da destruição que provoca porque bastaria resolver o problema com dinheiro. Mas o problema coloca-se sobretudo ao nível dos valores, do facilitismo e da destruição da família e do que está à sua volta. Os jovens e aqueles que não o sendo se eternizam numa adolescência irritante, sem fim , onde o amadurecimento não chega, adoram o facilitismo, o prazer imediato e resistir a drogas e outros vícios requer sacrifícios, muita disciplina, força de vontade, tudo coisas que eles não praticam ou não praticaram dado o facilitismo que sempre os acompanhou, o desprezo pela disciplina, pelos pais caretas que lhes pregam sermões sobre os charros que até são inocentes. Geralmente começa-se pelo cigarro, pelo charro e daí se faz o percurso para as outras drogas até chegar ao inferno das sintéticas. Pensemos em Amsterdão, uma cidade tradicionalmente amiga e permissiva de drogas leves em particular a cannabis. Um amanhecer na Praça Dam mostrava um cenário desolador de lixo, imundicie, dejectos, urina. Estive em Amsterdão em 2024 e estava em curso uma campanha para recuperar a cidade da cannabis. Anos atrás Zurique, vá-se lá saber os motivos, mas talvez devido a algum político iluminado, resolveu ser condescendente com as drogas. A experiência foi sol de pouca dura porque as principais ruas de Zurique ficaram praticamente destruidas, lojas fechadas e  com gente de toda a espécie, jovens e não só, deitados nos passeios. De um modo geral a Europa, Portugal incluido, é muito tolerante com o consumidor e com o pequeno traficante. E a droga é muito lucrativa para quem vende e destrutiva para quem consome. E não é apenas a estrutura familiar que fica abalada e muitas vezes desfeita pelo vício de um dos seus membros. Todos conhecemos vários casos. Em última instância é a própria Europa que fica abalada, fragilizada, desmoralizada                     Paulo Cardoso: Tenho para comigo, admitindo poder encontrar-me errado, que o combate à situação instalada e ao seu antecipavel agravamento, terá obrigatoriamente de retomar a penalização e criminalização do consumo. A pena, numa primeira detenção, passaria por uma desintoxicação ou, caso não fosse necessária, uma ação de formação preventiva, com a mesma duração e no mesmo regime dos programas de desintoxicação. À primeira reincidência, pena de prisão efetiva, sem mordomias, e prestação de serviço obrigatório à comunidade, sem qualquer remuneração. Quanto mais não fora, acabava com o artifício do traficante, na posse da quantidade que tão bem sabe qual é, poder alegar que é para consumo próprio. O combate ao narco tráfico, de tão enraizado que está, já só lá vai com o regresso à penalização do consumo. Agir a montante apenas, já não dá conta do recado. Há que atuar também a jusante.               Francisco Almeida: O filme "Os Incorruptíveis Contra a Droga" ilustra bem o problema da "guerra" contra a droga. Encarada apenas pelo lado da oferta os meios necessários para a sua erradicação seriam incompatíveis com um Estado de direito e democrático. Trump está a repetir esse erro a nível internacional, combater a oferta sem limitar a procura. Há muito que estou convencido que, sendo a droga impossível de eliminar totalmente, o combate para a conter em níveis reduzidos, tem de ser dirigido também à procura, ilegalizando sempre e criminalizando por vezes. Como titula a profª Patrícia Fernandes, já se poderá falar sobre o problema das drogas mas, em Portugal, estamos ainda longe de o poder combater com eficácia, sequer, de mudar o paradigma. Salas de chuto para que a sociedade não tenha de se sentir incomodada com a visão da degradação e substituição de seringas, pelo mesmo motivo.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Construindo o Futuro

 

Com optimismo. Apesar da guerra que a preclara Rússia concretizou, por aí, e que avança por quem a isso se adapta, para glória dos nossos tempos, numa Terra sempre fortalecida por gente  corajosa e orgulhosa para marcar a História do seu século e do seu país, nos manuais que os meninos memorizam, desbobinando as batalhas da glória histórica.

40 anos depois, precisamos de mais Portugal na Europa

A História tem demonstrado que é nos momentos de crise que a Europa encontra a janela de oportunidade para os maiores avanços.

CARLOS COELHO Vice-Presidente do PSD. Presidente da Direcção da Plataforma de Cidadania Nossa Europa/Comissário Nacional das Comemorações dos 40 anos de Portugal na UE

OBSERVADOR, 25 mar. 2026, 00:13

A Europa vive uma crise múltipla e complexa, 71 anos depois da assinatura do Tratado de Roma. A União e o projecto de integração enfrentam, de facto, uma espécie de “policrise”, mas a História tem demonstrado que, nestes momentos, em lugar de recuos no aprofundamento, demos passos – se não saltos – em frente. Foi assim na crise da cadeira vazia e o Compromisso do Luxemburgo, com a “Eurosclerose” e os Pacotes Delors, com as reticências face ao Mercado Único, ao Euro ou aos alargamentos, que, entretanto, se tornaram realidade e, mais recentemente, com a resposta à crise financeira e à pandemia como mais à frente me permito sublinhar.

A guerra está nas nossas fronteiras, com a insistência de Putin na invasão ilegal, injustificada e ilegítima da Ucrânia; a confiança mútua na Aliança Atlântica está longe do melhor momento, com a guerra no Irão a afastar ainda mais o posicionamento norte-americano e europeu face ao Direito e às Relações Internacionais; a transição dupla (verde e digital) obriga-nos a repensar a forma como trabalhamos e produzimos, sobretudo com a ascensão de soluções de inteligência artificial; a pressão migratória traz desafios demográficos, mas sobretudo políticos, com o discurso extremista do ódio a ganhar espaço em várias latitudes; a nossa economia demora a relançar a sua competitividade, com um mercado interno que demora a estar plenamente integrado; e, finalmente, a ascensão de movimentos populistas anti-europeus obrigam-nos, a todos, de Bruxelas a cada uma das capitais, a comunicar e explicar melhor a Europa.

Por outro lado, a História tem demonstrado que é nos momentos de crise que a Europa encontra a janela de oportunidade para os maiores avanços. Respondemos à crise financeira do final da primeira década com um quadro de governação económica e de salvaguarda de sectores estratégicos que nos garantiu estabilidade financeira. Ainda assim, precisamos completar a União Bancária e fazer da União das Poupanças e do Investimento uma realidade. Respondemos à pandemia com solidariedade efectiva, particularmente relevante na distribuição de vacinas, mas também na emissão de dívida pública europeia para financiar os esforços de relançamento da economia e apoiar quem ficou sem trabalho. Agora, temos o desafio de cumprir prazos e reflectir sobre a mais-valia de tornar alguns mecanismos permanentes. E temos a guerra e a nova dinâmica das relações transatlânticas (que segundo a estratégia nacional de segurança dos EUA, não estão a viver o melhor momento), que nos obriga a olhar para a União da Defesa como mais que um slogan. Felizmente, estamos a dar passos concretos, mas ainda temos de fazer muito para garantir a nossa autonomia estratégica.

Que desafios enfrentamos e que respostas temos para dar? Em primeiro lugar, temos o desafio da Segurança e Defesa, que ultrapassa a guerra perto das nossas fronteiras, num país que é nosso vizinho, mas que queremos como parceiro e aliado: a Ucrânia. A crise do multilateralismo (e da relação transatlântica) exige uma União da Defesa efectiva, que continue a ter a NATO no centro, mas que crie uma capacidade instalada europeia (através da cooperação dos Estados-Membros) que só conseguimos alcançar com um Mercado Único da Defesa integrado e menos fragmentação. Em segundo lugar, precisamos de relançar a competitividade da nossa economia e há muito trabalho a fazer cá dentro: simplificação regulatória, combate à burocracia, integração plena do mercado interno, mais harmonização onde faz sentido e menos obrigações redundantes. E também precisamos saber que o Mundo de 2026 é um Mundo de imprevisibilidade, onde a Europa tem de se diferenciar pelo diálogo contra a agressividade, pela cooperação contra o isolacionismo, pela confiança contra a instabilidade. A celebração de acordos com outros grandes espaços económicos é central, como é o controlo efectivo dos serviços que são prestados na Europa, sobretudo na área digital e das plataformas. Em terceiro lugar, temos a dupla transição verde e digital, que não é só um slogan: é uma megatendência que está a desenhar o nosso presente (tanto ou mais que a moldar o nosso futuro). A Europa não tem falta de talento, mas tem obstáculos à sua fixação e à atracção de quem possa investir nesse talento. É nesse esforço que devemos estar empenhados todos, de Bruxelas a cada uma das capitais europeias.

Ora, se em cada crise que enfrentámos escolhemos mais Europa; se os europeus respondem sistematicamente que querem mais Europa; e se a ascensão de alguns dos movimentos populistas revela a desilusão com uma Europa que se devia fazer mais presente; a solução afigura-se relativamente simples de identificar: mais Europa!

Portugal, ao assinalar 40 anos de adesão, é exemplo paradigmático de como a integração europeia pode transformar um país: consolidou a Democracia, modernizou infraestruturas, abriu horizontes às novas gerações. Mas a Europa não pode ser apenas um projecto institucional, reservado a Cimeiras e regulamentos. Tem de ser um projecto de cidadania, vivido nas escolas, nas empresas, nas autarquias, nas nossas escolhas quotidianas. Renovar o compromisso europeu é reconhecer que a nossa soberania é hoje partilhada para ser mais eficaz. Na verdade, para ser verdadeira soberania.

O Mundo em que vivemos e os desafios de 2026 não permitem hesitações prolongadas. Temos de ter a coragem de 1957, com o Tratado de Roma. A mesma coragem do alargamento a Portugal, trinta anos depois. A Europa já demonstrou que sabe avançar quando pressionada. A questão é se o fará por convicção estratégica ou apenas por reacção. Portugal pode e deve estar no pelotão da frente na exigência de mais Europa.  Acredito que quer o Presidente Seguro, quer o Primeiro-Ministro Montenegro partilham idêntica União Europeia 

EUROPA       MUNDO