quarta-feira, 29 de abril de 2026

Espanto

 

Tal liberdade crítica, relativamente a uma esquerda prestigiada desde os píncaros “abrilinos” do anti-fascismo por cá …

A esquerda e a Santinha da Ladeira

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha.

NUNO GONÇALO POÇAS,  Advogado e Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 abr. 2026, 00:23

Há um padrão na história da esquerda ocidental, e na portuguesa, em particular, que temo não possuir já qualquer remédio. É verdade que errar é humano, mas não se trata aqui de um acaso, nem sequer de uma sucessão de equívocos: é um padrão estrutural que reflecte uma certa incapacidade para distinguir o sonho da realidade, e, simultaneamente, para ver em tudo o que lhes parece pouco colaborante a maior ameaça que paira sobre o mundo, talvez mesmo antes da bomba nuclear. A esquerda nunca teve grande pejo em rotular, o que, de resto, constitui prova bastante de como a esquerda é a mais humana das correntes políticas. Se lhe agrada o personagem, o rótulo nunca é comedido; se não lhe agrada, fascista” será quanto baste. É como um carro cujo pisca-pisca só opta pela esquerda ou pela extrema-direita.

Vejamos: Reagan? Fascista. Thatcher? Fascista. Bush pai? Fascista. Bush filho? Fascista. Aznar? Fascista. Chirac? Fascista. Sarkozy? Fascista. Freitas do Amaral? Fascista. Passos Coelho? O maior fascista de todos, segundo o tempo presente. Cavaco Silva? Fascista. Portas? Fascista. De Gaulle? Fascista. Churchill? Fascista. Sá Carneiro? Fascista. Merkel? Fascista – ou nazi, que os alemães nestas coisas acumulam. Vargas Llosa? Fascista. Qualquer Primeiro-ministro israelita? Fascista. Mário Soares? Fascista amiúde. Os Papas? Tudo fascista até Francisco. Corina Machado? Fascista. Henrique Capriles? Fascista. Balsemão? Fascista. Mota Pinto? Fascista. O Observador? Alfobre de fascistas.

Ao mesmo tempo, a esquerda nunca deixou de se encantar. Com Che Guevara, com Pol Pot, com Mao, com Enver Hoxha, com Estaline, com Lenine, com Trotsky, com Fidel Castro, com Hugo Chávez, com Nicolás Maduro, com Ho Chi Minh, com Mugabe, com Ceausescu, com Ortega, com Lula. Não deixa, mesmo hoje, de se embebedar de amores pelo islamismo radical ao mesmo tempo que bate com a mão no peito pelo feminismo ou pelos direitos LGBT, sem que passe pela testa do esquerdista menos empedernido uma pinga de vergonha. Caramba, a esquerda portuguesa até por José Sócrates quase inexplicavelmente se apaixonou.

Não serão casos idênticos, nem foram todos estes, e outros, amados pelas mesmas razões, nem pelas mesmas pessoas em concreto. Não se trata de uma questão de figuras, mas de uma complacência colectiva persistente com o desastre, mesmo quando ele é pré-anunciado. Não houve, por exemplo, movimento terrorista que, sendo de esquerda ou representasse, de alguma forma, um género de luta anti-ocidental ou anti-burguês, não tivesse beneficiado do amor das encantadoras elites de esquerda. A lógica é, na verdade, sempre a mesma: uma certa justificação superior que os vulgares, eventualmente fascistas, não compreendem; existe sempre por ali uma causa maior que redime o meio, uma narrativa que suspende o julgamento.

Ora, o novo amor-perfeito da esquerda intelectual portuguesa, depois de fracassada a rota da em-pa-tia de Pedro Nuno Santos, chama-se Pedro Sánchez, a versão contemporânea do poder como fim em si mesmo, legitimado por um discurso moralmente superior. É ele quem «aponta o caminho da Europa», é ele o «herói», enfim, chega mesmo a ser uma espécie de Churchill recauchutado.

Sucede que, como já várias vozes mais avisadas e conhecedoras do que a minha (vide, Diogo Noivo, nas páginas do Diário de Notícias, ou Gonçalo Dorotea Cevada, aqui no Observador) explicaram vezes sem conta, o que se passa em Espanha não é apenas um debate ideológico, mas um problema de degradação política concreta.

O chamado “caso Koldo”, envolvendo o ex-ministro José Luis Ábalos, braço-direito de Sánchez, expôs uma alegada rede de comissões ilegais em contratos públicos, pagamentos em dinheiro, adjudicações viciadas, estruturas paralelas dentro do próprio partido, e mesmo recurso a prostitutas no contexto de redes de corrupção caucionadas pelo sanchismo. São conhecidas todas as histórias do “grupo do Peugeot” (que, afinal, era um Mercedes) ou da família directa de Sánchez, como são conhecidos os recursos a meios do Estado e do poder judicial para fazer vingar uma política simples: destruir as oposições e perpetuar no poder um homem e o seu bando de apaniguados. Sánchez não hesitou mesmo em afrontar o legado histórico do PSOE, e não apenas por uma vez, colocando em risco a unidade do Estado espanhol, a sua soberania, a independência do seu poder judicial. Ao mesmo tempo, o discurso oficial continua a invocar a sua superioridade moral, o seu feminismo militante, a sua regeneração democrática, enquanto entrega Espanha aos tentáculos chineses e coloca o país que nos é mais próximo em rota de colisão com o mundo ocidental. A contradição é perfeita: uma esquerda que se julga moralmente superior, mas que fomenta e/ou tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e nas instituições; uma esquerda que se apresenta como defensora das mulheres, enquanto casos internos expõem comportamentos incompatíveis com os direitos das mulheres; uma esquerda que denuncia supostos vícios dos outros, mas que convive perfeitamente com o seu lodo; e que sobrevive, no fim de contas, acenando com o perigo do fascismo que faz frente à sua pureza.

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha, se quisermos ser mais prosaicos. Ou o seu amor maior por heróis, que prefere às ideias, como as crianças. Sánchez será um dia, como a Santa da Ladeira, repudiado. Até lá, não nos resta outro remédio que não este de aturar o seu nome elevado aos céus do esquerdismo europeu, fenómeno naturalmente suportado por gente que, não se julgando de esquerda, sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e onde se erra sem consequências.

EXTREMA ESQUERDA       POLÍTICA       FRAUDE        CRIME        SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 31)

Ricardo Ribeiro : Bom dia,  No seu excelente texto, falta só escrever sobre o papel da grande maioria da CS que, salvo honrosas excepções, está completamente alinhada com esse modus operandi esquerdoido. Portanto quando o conhecido 4°poder se alinha com a propaganda esquerdista, implica o desdobramento de " forças" do " outro lado" e não uma candura e reverência que se vê em certa direitaInfelizmente, os tempos não estão alinhados para os "moderados"...

Paulo Silva: Caro colunista Nuno Gonçalo Poças, a esquerda(lha) é a filha primogénita da Revolução. Nasceu no fervor da luta revolucionária e como tal não foi feita para o jogo democrático: não debate ideias, proclama-as (dogmas). E quem não alinhar é visto como um inimigo a eliminar, levando com anátemas em cima para começar. O ‘capitalismo’ é basicamente uma teoria da exploração para anatemizar a classe burguesa ou as classes possidentes, e o ‘antifascismo’ uma criação dos bolcheviques quando viram a revolução socialista mundial abortar, e a concorrência tomar o poder em diversos países europeus. Os primeiros foram a Itália do ex-socialista Mussolini pouco tempo após o ‘Biennio Rosso’, e a Hungria do Almirante Horthy depois do falhanço da República Soviética Húngara de Béla Kun… Vários outros estados se seguiriam. Mas a partir daí quem não alinhasse com a política dos camaradas era capciosamente rotulado de fascista pelo Komintern, tal como o autor do artigo profusamente demonstrou com exemplos mais recentes. Ao mesmo tempo a esquerda empodera todos aqueles que possam constituir a sua soldadesca de assalto ao poder… Sánchez é uma desses personagens promovidas a herói do momento para segurar o estandarte do progressismo ingénuo à frente de um exército de ‘idiotas úteis’… Mas a admiração da esquerda por ele não vem de agora com a recente actuação no palco da política internacional. O PSOE, tal como o PS, radicalizou-se e aliou-se à extrema-esquerda do ‘Podemos’ e similares com Pedro Sánchez ao leme, (todavia mais próximo dos ‘jovens turcos’ da JS que de Costa). Os casos que minam o PSOE são apenas um sintoma da mistura de corrupção com radicalismo, tal qual no PS de Sócrates e Costa. Uma esquerda que lavou o sangue dos crimes vermelhos que tinha nas mãos, surge agora de cara lavada como 'direito-humanista'… com a maior cara de pau. Mas a velha ‘superioridade moral’ com que em tempos justificou os gulags e os assassinatos políticos não desapareceu. Usa-a agora para cancelar todos aqueles que não aceitam o seu novo decálogo de pecados capitais. Quando os cancelamentos não funcionam, regressam os cocktails molotov e as balas… Só faltam os campos de re-educação e as Lubiankas. nota: acerca de intelectualidade e esquerda vide “Porque se Enganam os Intelectuais : É sempre mais fácil detectar os erros do passado do que a cegueira colectiva do presente”, Samuel Fitoussi.

Filipe Afonso: Faz lembrar aquelas seitas onde o líder é o único que sabe bem o que está a fazer e faça o que fizer, lá terá os seus seguidores e adoradores. É um case study.

Mafra FM: Curioso como o autor descreve habilmente as muitas maleitas mentais da esquerda, depois de nas presidenciais ter votado num perfeito representante desta esquerda, 'progressista', como Seguro se descreve a si próprio. Assim, tenho de concordar que o mal do intelectual português 'nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais, foi a falta de vergonha.' Até porque, como agora aprendi, 'há gente que, não se julgando de esquerda, sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e se erra sem consequências.' Obrigado pelo esclarecimento.

João Bilé Serra: Top de análise psicológica da esquerdopatia. Parabéns

Victor Goncalves: E o que faz o actual governo PS2 para sanear a cultura, a CS e a Academia deste cancro que corrompe a nossa juventude, com os programas de escolares totalmente virados à esquerda? Nada, porque são farinha do mesmo saco ! Passar nas escolas os documentários sobre o Gulag, sobre o genocídio do PolPot, no Camboja, os efeitos da " marcha em frente" e da Revolução Cultural , na China iria colocar os nossos jovens a pensar. .....em vez disso temos doutrinação constante.

Paradigmas Há Muitos! Pois. Há os ditos "idiotas úteis" que às vezes não são tão idiotas como podem parecer porque se aproveitam do seu esquerdismo de fachada nem que seja para "c o m e r   umas  g a j a s" (ver as alegadas acusações recentes ao Thiago Ávila da flopilha, mas que sendo ele um perfeito Don Juan são obviamente manobras sionistas ...).

E há os que "utilizam a idiotice" dos outros para cumprir o lema do "the issue is never the issue, the issue is always revolution". Como disse Saul Alinsky no "Rules for radicals" o que interessa em qualquer "luta" é o objectivo do "poder", tudo o resto é folclore.

Sobre os "artistas ou intelectuais progressistas" numa procura rápida no X enconrei isto de Waswo X. Waswo que é elucidativo"Se já leu "Regras para Radicais", de Saul Alinsky, entenderá muito melhor o clima político ocidental actual. Num mês é "Me Too", no seguinte "Black Lives Matter", depois "Nenhum ser humano é ilegal", depois "Palestina Livre" e agora, "ICE Out". Nenhuma dessas questões realmente importa para os organizadores, apenas o Poder. Muitos artistas seguem essas tendências com uma obediência moralista. Isso garante-lhes participação em exposições organizadas por curadores ideológicos. Mas qual é a posição do artista após a revolução? Censurado, controlado, descartado".

Já agora, sobre o Sanchez temos o pequeno grande caso da última Vuelta em 2025, uma das três grandes competições ciclistas mundiais que será seguida diariamente por milhões de espectadores. Era tempo de guerra em Gaza e participava uma equipa Israel Tech que procurava publicitar a criação de empresas de alta tecnologia em Israel. Mas o proprietário era um empresário judeu canadiano e dos ciclistas penso que só um era israelita.

Ora a "esquerda" (com as brigadas de choque dos autonomistas bascos e depois galegos) aliada a islamistas mais ou menos organizados, a pretexto da participação dessa equipa foram usando as transmissões de TV para as encherem de imagens de bandeiras da Palestina pondo até pessoas a correr com eles  ao lado de ciclistas que iam destacados para garantir efeito em primeiro plano, quer dizer tentaram transformar à força uma prova ciclista num "hapenning" político. 

E o "boicote" foi crescendo de tom, numas etapas houve cortes de estrada obrigando a interrupção momentânea da prova, noutra uns "activistas" emboscados saltaram com bandeiras para a estrada fazendo cair 2 ciclistas (que nem eram dessa equipa), numa prova de contra relógio os "activistas" tentavam impedir a passagem dos ciclistas dessa equipa. Isso tudo põe óbviamente em risco a integridade física e até a vida de atletas profissionais, para além de interferir num espectáculo perfeitamente autorizado. Mas esses casos a polícia foi resolvendo até que para a tradicional etapa final que seria a  "apoteose" em Madrid  cerca de 40 000 "activistas" invadiram as ruas das cidade, destruiram as barreiras de protecção, importunaram a Polícia e assim impediram a corrida de se realizar tendo esta sido terminada ao chegar aos subúrbios.

E isto contra a vontade de milhares de adeptos de ciclismo que quereriam ver tranquilamente a prova ao vivo e perante milhões em casa furiosos porque não podiam ver o espectáculo que queriam ver numa tarde de domingo, a ficarem ainda mais fartos de propaganda islamo-esquerdista forçada e a constatarem que em Espanha reina a anarquia quando interessa ao poder. E obviamente causando grandes prejuízos económicos pois uma prova destas envolve grandes orçamentos publicitários que não gostam de ser associados a "bagunças" e grandes investimentos, particularmente neste caso da autarquia (a região e município são do PP e por isso eram absolutamente a favor da normalidade da prova mas não podiam fazer nada).

O que fez Sanchez e ministros perante isso? Foram também subindo de tom no apoio ao boicote, já não sei os termos exactos mas se no início mostravam compreensão mas aconselhavam respeito pelas regras para o fim, num comicio do PSOE, Sanchez disse o seguinte " E queremos expressar o nosso absoluto reconhecimento e respeito pelos atletas, mas também a nossa admiração pelo povo espanhol que se mobiliza por causas justas, como a causa palestina.... “Sinto orgulho de um país que, apesar da sua diversidade, se une por uma causa justa como os direitos humanos. Viva o povo espanhol!”. Quer dizer, Sanchez não pisou o risco mas sob a capa "humanitária" deu vivas ao efectivo triunfo da anarquia e violência no seu país.

Neste artigo "Did Pedro Sánchez incite pro-Palestine protesters to stop La Vuelta cycling race?" do euronews pode ver-se os argumentos de Sanchez e da esquerda e os da oposição e o jornalista aparece "obviamente" a tomar o lado de Sanchez, ele aí também foi um "santo"!

E a tal equipa a meio da prova até mudou de equipamento para deixar de fazer alusão à bandeira de Israel mas como é evidente isso não serviu de nada, "the issue is never the issue".

O que ganharam Sanchez e os "activistas" com este boicote? Israel mudou uma virgula nos planos que tinha para Gaza ou uma bala nas que ia lá disparar? Os Gazanos beneficiaram o quê com isso? Acho que só os prejudicou, o que se viu em Espanha não foi nada de construtivo.

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Estratégias


Dos que ajudam a Terra  a girar, segundo os seus apetites.

Trump pestanejou, ou apenas adiou o ataque?

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 27 abr. 2026, 00:23

Quando toda a gente esperava bombas, Trump resolveu oferecer tempo. Em vez do fogo, avançou com o prolongamento do cessar-fogo até Teerão apresentar uma proposta e até as conversas chegarem a alguma coisa palpável que tenha frases e parágrafos. Não levantou o bloqueio, não retirou a ameaça, não desmobilizou os instrumentos de coacção. Limitou-se, para já, a trocar a moca pelo garrote. É talvez uma maneira mais polida de apertar o pescoço, mas pouco mais do que isso.

A República Islâmica declarou vitória, enfim o que qualquer tirania com pergaminhos e pretensões faz nestas ocasiõesAraghchi repetiu que o Irão não negocia sob ameaça, e outro responsável explicou que Teerão não aceita conversações conduzidas como rendição. Tudo previsível. Regimes destes vivem da fabricação contínua de aparências. Precisam de converter cada paragem alheia num triunfo próprio, nem que para isso tenham de se contorcer com a elasticidade facial que as ditaduras desenvolvem quando a realidade lhes é hostil.

Mas a propaganda é apenas a maquilhagem que a realidade usa quando tem vergonha de si. E a leitura estratégica séria raramente coincide com o teatro para consumo interno.

É muito provável que os EUA estejam simplesmente a tentar extrair concessões sem pagar o custo político, económico e militar de uma nova escalada. Se mantêm o bloqueio, conservam os meios militares prontos e avisam que a campanha pode recomeçar em breve, não estão propriamente a recuar. Estão a jogar poker para testar e engodar, vício antigo das superpotências.

É precisamente por isso que o regime, enquanto posa para a fotografia da resistência indómita, se apressa a denunciar a pressão e a insinuar armadilhas. Um conselheiro de Ghalibaf falou mesmo num possível ardil para preparar um ataque de surpresa.

Quem se sente seguro não vê ciladas em toda a parte. Quem fareja ciladas é, em regra, quem sabe que a sua posição é desconfortável.  A desafiadora exuberância verbal de Teerão não traduz portanto confiança, mas sim ansiedade.

Todavia, uma decisão racional em Washington, pode ser lida em Teerão de forma muito diferente. A pausa pode ser prudente vista do Potomac, mas também pode, aos olhos iranianos, parecer excessiva sensibilidade à dor económica. E esse é talvez o calcanhar de Aquiles da Administração Trump, o nervo mais vulnerável que a guerra expôs. O estrangulamento de Ormuz, o caos marítimo, a turbulência energética, a pressão sobre o crude, os alarmes nos mercados, compuseram a velha música que os políticos americanos mais temem ouvir quando se aproximam eleições.

No próprio dia em que Trump prolongou o cessar-fogo, forças iranianas voltaram a disparar sobre navios no Estreito e apreenderam embarcações. Teerão fez pois o favor de esclarecer o que pretende. Não apenas sobreviver, mas mostrar que continua a possuir a chave da perturbação.

Aqui a questão é mais séria. O Irão, acredite ou não que a América perdeu a vontade de combater, pode pensar, e com alguma razão, que os EUA receiam o preço de combater demasiado tempo. A diferença é subtil, mas decisiva. Uma coisa é duvidar da força do adversário; outra é confiar na sua fadiga.

Regimes como o iraniano, habituados à longa arte da chantagem, têm um faro apuradíssimo para hesitações. Farejam-nas à distância. Identificam-nas, cultivam-nas, exploram-nas. Se a Guarda Revolucionária concluir que Trump quer, acima de tudo, evitar novo choque nos combustíveis, nova pressão inflacionista,  novo desgaste interno, a tentação será endurecer posições, arrastar negociações, comprar tempo, vender fumo, e trocar a demora pela sobrevivência, porque o tempo político não corre a favor da Casa Branca. Se isso acontecer, a pausa deixa de ser um instrumento de pressão para passar a ser oxigénio administrado gratuitamente ao paciente. Uma pausa com contrapartidas visíveis pode ser inteligência estratégica. Sem resultados é apenas hesitação onerosa. E esta é, na política americana, material altamente tóxico. Corrói presidências, desmoraliza aliados, excita inimigos e produz a fatal impressão de que a força existe mas a vontade vacila.

Trump move-se, assim, entre uma vantagem táctica imediata e um risco político monumental. A vantagem é que evita, para já, uma nova vaga de bombardeamentos, preserva margem diplomática e mantém formalmente a iniciativa. O risco é parecer refém das circunstâncias. A sua actuação recente ajudou pouco a dissipar a dúvida. Primeiro anunciou que não queria prolongar o cessar-fogo; depois prolongou-o até à apresentação de uma proposta iraniana e à conclusão das conversas. Os fãs chamarão genial a esta imprevisibilidade. Os menos impressionáveis chamar-lhe-ão improviso e errância táctica.

Daí também que, entre os falcões e vários militares, cresça o argumento de que a diplomacia já rendeu o que podia render, isto é, pouco ou nada. Não faltam vozes a defender que Washington deve abandonar a fantasia de mais uma ronda de conversa civilizada com um regime que aproveita cada trégua para respirar, recompor-se e retomar a chantagem em melhores condições. A tese, reduzida ao essencial, é que a liderança iraniana está muito danificada, a cadeia de comando apresenta fracturas, a economia está debilitada, a sociedade vive sob grande tensão, logo este não é o momento de afrouxar a pressão, mas de a agravar até o regime ceder.

Do ponto de vista militar, o raciocínio é límpido. Se o adversário vacila, a pior opção é oferecer-lhe tempo para se recompor. A guerra tem uma lógica própria, que raramente recomenda pausas piedosas quando o outro lado cambaleia. Convém não sobrestimar o regime iraniano em nome da prudência. O país está com fragilidades militares, económicas e sociais severas. A guerra agrava uma situação já deteriorada, empurrando mais gente para a pobreza, aprofundando o desemprego e aproximando uma crise de sustentação. Antes desta fase já havia protestos nacionais contra a degradação económica e social, e a resposta do regime foi a resposta típica das tiranias que se agarram à vida: repressão brutal, mortos, prisões, silêncio imposto a tiro. Neste momento o regime está armado, mas não está tranquilo. Está de pé, mas menos firme do que estava. E é por isso que cada trégua lhe sabe a remédio.

A experiência americana está repleta de campanhas em que a política quis administrar a guerra em prestações, como quem compra um electrodoméstico caro, e acabou apenas por prolongar o custo sem resolver o problema. Guerras de para, arranca e recomeça, preferidas pelas democracias fatigadas, que desejam colher os benefícios da força sem pagar o preço da decisão, tendem a deixar mais ruína do que clareza.

Penso que, militarmente, o Irão fará mal em confundir pausa com impotência americana. Politicamente, Trump fará pior, se prolongar indefinidamente uma suspensão que não produza nada de tangível. Se arrancar concessões concretas, venderá esta manobra como disciplina, contenção e força. Se não conseguir nada, ficará com o pior dos mundos: uma guerra sem decisão e uma diplomacia sem frutos. E se isso acontecer, a propaganda iraniana deixará de ser mera encenação para começar a assemelhar-se a uma descrição plausível dos factos.

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no. Os eleitores americanos também. Resta saber se Trump, no meio das suas coreografias de força e hesitação, ainda percebe a diferença entre suspender o golpe e perder a mão. Irão 

MÉDIO ORIENTE        MUNDO

 

COMENTÁRIOS (de 63)

José B Dias: O aqui cronista sente a falta do "smell of napalm in the morning" ... questiono-me se também ouve Wagner enquanto escreve 🤔

Nuno Pinho > Américo Silva: Eu ajudo:
Irão
Execuções extrajudiciais de manifestantes (especialmente após os protestos de 2019 e 2022)
– Tortura sistemática de detidos políticos
– Violência sexual contra manifestantes sob custódia estatal
– Detenções arbitrárias generalizadas
– Julgamentos sem garantias mínimas de defesa
– Repressão institucionalizada contra mulheres (polícia da moralidade)
– Perseguição sistemática de minorias religiosas (Bahá’ís, cristãos convertidos, sunitas)
Qualificados por missão independente do Conselho de Direitos Humanos da ONU como possíveis crimes contra a humanidade.
Rússia
– Ataques deliberados ou indiscriminados contra civis na Ucrânia
– Bombardeamento de infraestruturas civis (energia, hospitais, habitação)
– Execuções sumárias em territórios ocupados
– Deportação forçada de crianças ucranianas
– Tortura em centros de detenção em territórios ocupados
– Uso de violência sexual como instrumento de guerra
O Tribunal Penal Internacional emitiu mandado de detenção contra Vladimir Putin pela deportação ilegal de crianças
Além disso:
– Destruição massiva de áreas civis na Chechénia (Grozny)
– Ataques contra hospitais e infraestruturas civis na Síria em apoio ao regime de Assad
Documentados por missões da ONU e organizações internacionais independentes
Coreia do Norte
– Existência de campos de prisioneiros políticos com trabalho forçado
– Execuções públicas sistemáticas
– Tortura institucionalizada
– Desaparecimentos forçados
– Perseguição religiosa total
– Escravização laboral em campos penais
– Controlo absoluto da circulação interna e externa da população
A Comissão de Inquérito da ONU concluiu que estes actos constituem crimes contra a humanidade em curso

Nuno Pinho > Américo Silva

Acrescento:
- Degolação e decapitação de civis a 7 de outubro.

Sr Leão: Além do conhecimento extenso da situação que informa a comunicação, o Coronel exprime-se de uma forma literariamente brilhante.

A informação e o prazer da leitura são as duas grandes vertentes que fazem a qualidade e o sucesso de um jornal.

Maria Tubucci: Calma Sr. Coronel, tem de dar tempo ao tempo. Segundo  consta, no Irão está instaurada uma luta de poder entre 3 ou 4 facções, o D Trump está a dar-lhes tempo para se poderem aniquilar umas às outras e uma tomar o poder, para assim ter com quem negociar mais seriamente. À facção mais sanguinária o IRGC, está a deixá-los pousar para depois levarem chumbo. Uma pausa também faz bem, por exemplo, para deixar os líderes europeus com os nervos em franja, é uma pausa estratégica, pois o D Trump tem muito mais informação que qualquer um de nós ... 

miguel cardoso: Dou-lhe os parabéns, Senhor Coronel! Alguém que diga o óbvio!

Nuno Pinho > José B Dias: Anda distraído….sempre atarefado a analisar os USA/Israel e Europa….menos presente  no que toca aos podres dos estados “irmãos” unidos como “nunca”.

João Diogo: Excelente crónica, como sempre , assertivo , lúcido e bem escrita.

João Amorim: Análise perfeita.

Jose Carmo > José B Dias: O autor sente só a falta de pãezinhos quentes pela manhã e ouve o que calhar enquanto escreve, desde a betoneira das obras ali ao lado, até ao piar das gaivotas, passando por música de todos os géneros, excluindo a Internacional e o Avante Camarada Avante.

Ana DESVIGNES > José B Dias: Que comentário mais disparatado, Sr. Dias. Se quer evocar o "Apocalypse now" arranje outro pretexto. Mas para já releia o texto do cronista e deixe-se de tretas !

Jose Carmo > Américo Silva: Um crime de guerra é uma violação grave do Direito Internacional Humanitário, cometida no contexto de um conflito armado, internacional ou interno, por pessoas que participam directa ou indirectamente nesse conflito.

Jose Carmo > José B Dias: 60% de enriquecimento não é para fins civis. É para estar a algumas semanas de uma bomba nuclear 

Kindu: O Irão pode ganhar tempo, mas também lhe vai sair caro. Há aqui um factor pouco conhecido. Impossibilitado de exportar e não havendo mais capacidade de armazenamento, será preciso fechar poços de petróleo. Acontece que um poço fechado perde-se para produção, por muito tempo ou para sempre. Este factor está com certeza a ser tido em conta nas tácticas adoptadas pelos dois lados.

David Pinheiro > José B Dias: Mais um que acredita nas "fiscalizações" da AEA

adriano ribeiro: Brilhante análise. O melhor cronista sobre este tema. Espero que Trump tenha alguém que lhe diga isto.  Como em tudo na vida é o qb do sal que determina o sucesso ou o desastre.  10 a 0 a todos os analistas 

Maria Nunes: Muito bem Sr. Coronel JAR. 

Komorebi Hi: A vitória do Irão é uma falácia propagada pelos media ocidentais e pelos canais ligados ao Islão e RPC que a propósito está numa situação de graves problemas de reservas de petróleo e derivados como muitos outros países incluindo a UE. O poder no Irão poderá estar à beira de numa situação semelhante ao que sucedeu no Iraque depois da execução de Sadham, ou na Líbia com a execução de Kadhafi. O próximo passo e não outro, será a destruição das infraestruturas no Irão, provocará pulverização do poder semelhante ao que sucedeu no Iraque, há que pensar duas vezes. As duas forças militares no Irão são a Guarda Revolucionária e o Exército, só dando força ao Exército e enfraquecendo a Guarda Revolucionária será possível alterar o panorama político no Irão que não tem estrutura de governo sólida no momento. Como dizia o outro: "penso eu de que..."

As consequências


Dos actos sentimentais humanos. sejam estes susceptíveis ou não de provocar o prazer físico e espiritual, são muitas vezes nefastas,  sobretudo para a Mulher, em virtude da sua condição de inferior qualidade física exigente de superior qualidade moral, esta criada pelo Homem para a Mulher - pesem embora algumas “Madame Bovary´s das excepções comportamentais -  naturalmente merecedoras de reparo, pela fuga aos conceitos da moral criada também pelo Homem - as Madame Curie (s) votadas que são a estudos mais de carácter científico.

Mas repito o  justo COMENTÁRIO de JOSÉ B. DIAS sobre a excelência do texto de PATRÍCIA FERNANDES:

“José B Dias: Aleluia!! Uma voz de bom senso e racionalidade num mundo cada vez mais movido a emoções básicas e desejos mágicos ...”

 

As limitações do consentimento

Se os conceitos filosóficos não considerarem as diferenças naturais entre homens e mulheres, as políticas que se baseiam neles acabarão por gerar efeitos indesejáveis

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 27 abr. 2026, 00:21

14

É por muitos considerado um dos capítulos mais bonitos da literatura ocidental. Começa com uma rainha “ferida já há muito por séria pena de amor” e que hesita perante os sentimentos que tem pelo hóspede recente. Já recusou muitos candidatos e manteve-se fiel ao marido morto, mas Eneias faz vacilar o seu espírito – o que, numa mulher, significa geralmente que bastam condições propícias para que a sua vontade ceda. Vénus e Juno, por razões diferentes, garantem que tal aconteça, mas:

“Aquele primeiro dia foi a causa da catástrofe, aquele primeiro dia a causa da desgraça, e nem Dido é demovida pelas conveniências da sua reputação nem reflecte já num amor furtivo. Chama-lhe matrimónio e com este nome encobre a culpa.”

Dido consentiu nesta entrega, mas fê-lo dizendo a si própria que se tratava de “matrimónio”. Já para Eneias, apresentado como igualmente apaixonado, os mesmos actos são entendidos de forma diferente pelo que não hesita quando o pai dos deuses o manda partir para a missão a que estava destinado. Abandona Tiro e Dido suicida-se:

“Morrerei sem vingança. Morra embora! Mesmo assim, mesmo assim me apraz descer ao reino das sombras! Que o cruel Troiano, lá do mar alto, ponha os olhos nestas chamas e consigo leve o agouro da minha morte.”

1O paradigma do consentimento

O termo liberalismo ainda não tinha sido cunhado e já John Locke fundamentava a sua teoria política na ideia de consentimento. O contexto era o da revolução gloriosa, pela qual os revolucionários afastaram o rei James II e convidaram William de Orange para governar nos termos da Bill of Rights. Locke trabalhava a partir da tradição contratualista e centrava no indivíduo e nos seus direitos naturais, de que dispunham no estado de natureza, toda a lógica política: o estado civil e político só surgiria com o consentimento dos indivíduos que concordavam submeter-se ao contrato social.

A tradição liberal subsequente trabalhou a partir deste conceito, mas terá sido Immanuel Kant, como em tantas outras coisas, a deixar a herança mais relevante, sobretudo com a ideia de dignidade humana. O respeito pela liberdade, racionalidade e dignidade exigia consentimento e é isso que vamos encontrar no século XX, em especial no domínio da Bioética a partir da segunda guerra mundial, com o amadurecimento da expressão consentimento livre e informado.

Mas talvez precisemos de um terceiro autor para fechar esta revisitação histórica: John Stuart Mill, ao consagrar o princípio do dano como princípio de legitimidade da acção política, garante que a intervenção do estado só é legítima se tiver como objectivo evitar o dano a terceiros. Resulta desta ideia que o indivíduo deve dispor do mais amplo espaço de liberdade para gozar da sua vida e dispor do seu corpo como bem entender desde que não provoque danos a outrem.

Todos estes contributos dão forma à moralidade liberal dos nossos dias: a partir de um paradigma do consentimento, as sociedades liberais tendem a organizar-se em torno da noção de que aquilo que está certo ou errado deve ser apreciado 1) em função da vontade expressa do indivíduo e 2) desde que não provoque danos a terceiro.

2As limitações do consentimento

Foi este paradigma de consentimento livre e informado que se instalou no espaço público e é recorrentemente apresentado como verdade última para determinar a moralidade e a legitimidade das nossas acções. Como se o ato de consentimento bastasse para expurgar todos os problemas.

Não é, porém, difícil de compreender que, como sempre acontece com os conceitos filosóficos e políticos, também o consentimento tem as suas limitaçõesMichael Sandel, no exercício permanente de questionar os pressupostos do liberalismo, chama a atenção para situações em que, apesar de parecer haver consentimento livre e informado, este não resiste a uma análise mais profunda.

Seria o caso das “barrigas de aluguer”, muito populares nos Estados Unidos, e que resultariam de um acordo entre as partes. Mas quando uma mulher, sobretudo jovem e numa primeira gravidez, celebra um contrato pelo qual consente em “vender” o bebé que vai carregar durante a gestação, sabe realmente no que está a consentir? É um consentimento realmente informado? Não é por acaso que algumas legislações procuram superar esta dificuldade criando como condição que a mulher já tenha sido mãe: já saberia pelo menos o que significa o processo de gestação.

Mas podemos levantar uma segunda dificuldade: quando as barrigas de aluguer são contratualizadas com mulheres mais pobres (em particular de países mais pobres), o consentimento é realmente livre? Também neste caso algumas legislações são desenhadas a pensar nesta desigualdade entre as partes.

O mesmo tipo de argumentário aplica-se à prostituição e à pornografia, mas os problemas levantam-se igualmente quanto à eutanásia (o livro mais recente de Kathleen Stock desafia-nos precisamente a pensar nestes limites, numa altura em que, no Reino Unido, o assunto está em cima da mesa): a partir do momento em que se abre a porta a este tipo de legislação, como garantimos que o consentimento é realmente livre e informado?

A eutanásia é, aliás, o melhor exemplo de como o apelo à chamada “falácia da rampa escorregadia” é apenas uma estratégia discursiva para silenciar um problema. Em alguns países que aprovaram entusiasticamente a eutanásia em situações muito determinadas, a legislação acabou por ser alterada para facilitar cada vez mais a sua utilização – num verdadeiro acto de rampa escorregadia.

E o mais grave desses deslizamentos é o que diz respeito à eutanásia infantil, com crianças que ainda não completaram o seu processo de amadurecimento cerebral a poderem requerer ser eutanasiadas. Trata-se, aliás, de uma situação paralela aos procedimentos de género que invadiram o Ocidente nos últimos anos: como podemos reconhecer como válido o consentimento de crianças e jovens para medidas tão profundas e irreversíveis?

Mas talvez o caso que desperta mais surpresa e reflexão quando o discuto nas aulas seja o do chamado “Canibal de Rotemburgo e que revela bem como, apesar do discurso histriónico que pulula no espaço público, o paradigma do consentimento tem muitas limitações.

3O feminismo reaccionário

Regressemos ao livro IV da Eneida, o poema épico que Vergílio escreveu no século I a.C. e que me parece a melhor representação do pensamento que tem vindo a ser designado, a partir de Mary Harrington, como feminismo reaccionário.

O feminismo reaccionário procura questionar os pressupostos mais importantes do feminismo liberal e, em particular, do paradigma do consentimento, destacando que este conceito não é adequado para abarcar a complexidade das relações entre homens e mulheres e todas as dimensões da vida sexual.

Afinal, e como chama a atenção Louise Perry, homens e mulheres são não só biologicamente diferentes, como também psicologicamente diferentes, tendo desenvolvido estratégias adaptativas distintas no processo de evolução (em resposta, fundamentalmente, a necessidades reprodutivas). Não seria, assim, por acaso que o livro IV da Eneida continua a ressoar entre nós: também aqui o consentimento expressa coisas diferentes para Dido e Eneias.

Quais são as consequências de aceitarmos este argumento de que homens e mulheres são fisica e psicologicamente diferentes (e é incrível como se tornou um acto de coragem dizer isto publicamente), considerando sempre a regra de distribuição normal?

A principal consequência é a recusa da “teoria da página em branco”, que formata muito dos argumentos utilizados no espaço público e defende que nascemos sem quaisquer condicionamentos físicos ou biológicos. Em sentido contrário, e para usar a expressão de Jonathan Haidt, devemos pensar-nos comopáginas rascunhadas” pelo que, apesar de não estarmos totalmente determinados, existem limites para as alterações que podemos impor socialmente. E quando forçamos demasiado esses limites, os sintomas manifestam-se em mal-estar social (qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência).

Isto significa que, se os conceitos filosóficos não considerarem estas diferenças naturais, as políticas que se baseiam neles acabarão por gerar efeitos indesejáveis, como acontece tantas vezes com o conceito de consentimento. É nesse sentido que Christine Emba, em Rethinking Sex, reflecte sobre como a cultura de “casual sex”, prevalecente nas universidades norte-americanas e centrada no paradigma do consentimento, tem deixado a maioria das mulheres jovens emocionalmente insatisfeitas.

Os anos #metoo são, aliás, uma boa imagem desta complexidade: juntamente com situações reais de assédio e abuso, foram apresentados muitos casos em que as relações sexuais simplesmente não tinham correspondido ao que as mulheres desejavam, fazendo com que se sentissem emocionalmente abusadas no dia seguinte, apesar de ter havido… consentimento.

Mas o argumento de Louise Perry vai mais longe: não só o conceito de consentimento não reflecte o modo como a maioria das mulheres olha para as relações entre os sexos, como deixa as mulheres mais desprotegidas por fazê-las acreditar que o consentimento é suficiente para travar impulsos biológicos e psicológicos. O problema não estaria, assim, no facto de vivermos num sistema patriarcal (argumento que o feminismo reaccionário recusa), mas no facto de o paradigma do consentimento nos fazer esquecer que somos seres corpóreos, pelo que alguns homens (a minoria) farão sempre valer o seu desejo e a sua maior força física.

Como não somos páginas em branco, também não somos seres puramente racionais e que agem em resposta a conceitos abstractos. E, por isso, o melhor que podemos fazer pelas nossas filhas não seria falar em “consentimento”, mas fazer notar que, dadas as diferenças biológicas entre homens e mulheres, elas não se devem colocar em situações de fragilidade.

IGUALDADE DE GÉNERO        SOCIEDADE

 

COMENTÃRIOS (de 14)

José B Dias: Aleluia!! Uma voz de bom senso e racionalidade num mundo cada vez mais movido a emoções básicas e desejos mágicos ...

Joaquim Carvalho: "... homens e mulheres são física e psicologicamente diferentes (e é incrível como se tornou um acto de coragem dizer isto publicamente)". A Patricia Fernandes é simplesmente a colunista mais sofisticada que escreve no Observador. Incrivel como continuamos a lutar com conceitos tão abstrusos como a "teoria da página em branco". Obrigado Patrícia.

Rosa Silvestre: A primeira defesa de qualquer pessoa, nomeadamente da mulher, é precisamente evitar situações que se adivinhem de risco.

Rui Lima: Artigo útil que todo o homem e mulher devia ler

Tomazz Man: Como é que a regra mais básica de todas, nao nos colocarmos em risco, se transformou em algo impossível de verbalizar?!!