Talvez por pura saliência pessoal. Talvez para apenas contradizer. Talvez por se ser poupadinho, sobrevalorizando o “metal vil” mais valioso se em papel ensebado. Talvez…
Quando o ruído vale mais do
que a obra
Questionem-se os 175 mil
euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a
capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de
Cascais.
Sandra Damas, Especialista
em Conformidade e Regulamentação, Câmara Municipal de Cascais
OBSERVADOR, 26 set. 2026,
00:19
Há uma dificuldade cada vez
maior em encontrar seriedade naquilo que se publica, comenta e partilha. Não
necessariamente porque os factos sejam falsos, mas porque, demasiadas vezes,
são apresentados pela metade — e uma verdade pela metade pode ser uma extraordinária
ferramenta de manipulação.
Curiosamente, entre tudo o
que poderia ser notícia, foram os 175 mil euros associados à
inauguração da nova Escola Secundária de Cascais que conquistaram títulos,
indignação e partilhas. Afinal, é sempre mais simples fazer manchete
com um número isolado do que perder tempo com esse incómodo chamado contexto.
E o contexto, aparentemente
menos interessante, é este: mais de 32 milhões de euros de
investimento, com cofinanciamento do PRR; o fim de 50 anos de uma escola
provisória; e um novo equipamento com capacidade para 1.320 alunos.
Mas, entre 32 milhões,
50 anos e 1.320 alunos, o número verdadeiramente irresistível para alguns foi
mesmo o dos 175 mil euros.
O PRR exige, para
investimentos desta dimensão, uma comunicação com relevante impacto mediático.
E, nisso, convenhamos, o objectivo foi largamente cumprido — talvez até
para lá das expectativas. Só há um pequeno detalhe: esse
impacto deveria dar visibilidade ao investimento e à escola. Mas
conseguiu-se algo bastante mais criativo: 32 milhões transformaram-se em
175 mil, uma escola transformou-se numa festa e 1.320 alunos praticamente
desapareceram da notícia.
Impacto mediático? Missão
cumprida.
O escrutínio do dinheiro
público não está em causa — é indispensável, sobretudo na Capital
Europeia da Democracia. Seria, aliás, uma contradição curiosa defender o
contrário. O problema começa quando escrutinar deixa de significar
esclarecer e passa a significar escolher números, retirar-lhes o contexto e
esperar que as letras gordas façam o resto. Fiscalizar é democracia;
transformar informação em conveniência política é apenas ruído disfarçado de
escrutínio.
É legítimo questionar
custos, prioridades e opções. Aliás, é desejável. Mas questionar exige de quem
pergunta a mesma seriedade que se exige de quem responde. Reduzir dois
momentos de comunicação associados a um investimento desta dimensão à expressão
“175 mil euros gastos numa festa” é escolher o que se conta, o que
se omite e, sobretudo, aquilo que se espera que o leitor não tenha tempo — ou
vontade — de ir descobrir.
Por isso, talvez a pergunta
seja muito simples: qual deveria ser, afinal, a notícia?
Que Cascais concretizou um
investimento superior a 32 milhões de euros e pôs fim a 50 anos de uma escola
provisória? Ou que, na inauguração dessa escola, havia um DJ, ecrãs e uma
passadeira?
Realmente, escolhas
difíceis.
A crítica política é legítima
e a oposição é indispensável à democracia. Nenhuma delas deveria dispensar
seriedade, contexto ou bom senso — embora, pelos vistos, estes três tenham
menos capacidade de gerar cliques.
Porque havia uma alternativa: não
aproveitar o financiamento, não construir a escola e deixar mais uma geração
estudar numa solução “provisória” há meio século.
Provavelmente, daria menos
títulos.
Questionem-se os 175 mil
euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a
capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de
Cascais.
E custa acreditar que quem se
apresenta como culto, informado e conhecedor da realidade pública não consiga
reconhecer a importância deste feito. Talvez fosse mais útil desejar que
esta capacidade de investimento e este compromisso com a educação se
multiplicassem pelo país, para que melhores condições de ensino deixassem de
ser notícia e passassem, simplesmente, a ser a regra.
Porque, retirado todo o ruído
político, é apenas disto que estamos a falar: de uma escola, de educação e
de dignidade.
Mas admito: “dignidade”,
“educação” e “sucesso” são palavras terrivelmente pouco convenientes quando há
175 mil euros para pôr no título – e uns cliques para obter.
Cascais Lisboa País Sociedade
COMENTÁRIOS:
Meio Vazio: Bolas! Se no fungagá da coisa havia
um "DJ" (raispartam!), então está justificado o balbúrdio, seus
filisteus! Discutir
porque sim
Talvez por pura
saliência pessoal. Talvez para apenas contradizer. Talvez por se ser
poupadinho, sobrevalorizando o “vil metal” ou o papel ensebado das notas.
Talvez por
Quando o ruído vale mais
do que a obra
Questionem-se os 175 mil
euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a
capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de
Cascais.
Sandra Damas,
Especialista em Conformidade e Regulamentação, Câmara Municipal de Cascais
OBSERVADOR, 26 set.
2026, 00:19
Há uma dificuldade cada
vez maior em encontrar seriedade naquilo que se publica, comenta e partilha.
Não necessariamente porque os factos sejam falsos, mas porque, demasiadas
vezes, são apresentados pela metade — e uma verdade pela metade pode ser uma extraordinária
ferramenta de manipulação.
Curiosamente, entre tudo
o que poderia ser notícia, foram os 175 mil euros associados à inauguração da
nova Escola Secundária de Cascais que conquistaram títulos, indignação e
partilhas. Afinal, é sempre mais simples fazer manchete com um número isolado do
que perder tempo com esse incómodo chamado contexto.
E o contexto,
aparentemente menos interessante, é este: mais de 32 milhões de euros de
investimento, com cofinanciamento do PRR; o fim de 50 anos de uma escola
provisória; e um novo equipamento com capacidade para 1.320 alunos.
Mas, entre 32 milhões,
50 anos e 1.320 alunos, o número verdadeiramente irresistível para alguns foi
mesmo o dos 175 mil euros.
O PRR exige, para
investimentos desta dimensão, uma comunicação com relevante impacto mediático.
E, nisso, convenhamos, o objectivo foi largamente cumprido — talvez até para lá
das expectativas. Só há um pequeno detalhe: esse impacto deveria dar
visibilidade ao investimento e à escola. Mas conseguiu-se algo bastante mais
criativo: 32 milhões transformaram-se em 175 mil, uma escola transformou-se
numa festa e 1.320 alunos praticamente desapareceram da notícia.
Impacto mediático?
Missão cumprida.
O escrutínio do dinheiro
público não está em causa — é indispensável, sobretudo na Capital Europeia da
Democracia. Seria, aliás, uma contradição curiosa defender o contrário. O
problema começa quando escrutinar deixa de significar esclarecer e passa a significar
escolher números, retirar-lhes o contexto e esperar que as letras gordas façam
o resto. Fiscalizar é democracia; transformar informação em conveniência
política é apenas ruído disfarçado de escrutínio.
É legítimo questionar
custos, prioridades e opções. Aliás, é desejável. Mas questionar exige de quem
pergunta a mesma seriedade que se exige de quem responde. Reduzir dois momentos
de comunicação associados a um investimento desta dimensão à expressão “175 mil
euros gastos numa festa” é escolher o que se conta, o que se omite e,
sobretudo, aquilo que se espera que o leitor não tenha tempo — ou vontade — de
ir descobrir.
Por isso, talvez a
pergunta seja muito simples: qual deveria ser, afinal, a notícia?
Que Cascais concretizou
um investimento superior a 32 milhões de euros e pôs fim a 50 anos de uma
escola provisória? Ou que, na inauguração dessa escola, havia um DJ, ecrãs e
uma passadeira?
Realmente, escolhas
difíceis.
A crítica política é
legítima e a oposição é indispensável à democracia. Nenhuma delas deveria
dispensar seriedade, contexto ou bom senso — embora, pelos vistos, estes três
tenham menos capacidade de gerar cliques.
Porque havia uma
alternativa: não aproveitar o financiamento, não construir a escola e deixar
mais uma geração estudar numa solução “provisória” há meio século.
Provavelmente, daria
menos títulos.
Questionem-se os 175 mil
euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a
capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de
Cascais.
E custa acreditar que
quem se apresenta como culto, informado e conhecedor da realidade pública não
consiga reconhecer a importância deste feito. Talvez fosse mais útil desejar
que esta capacidade de investimento e este compromisso com a educação se multiplicassem
pelo país, para que melhores condições de ensino deixassem de ser notícia e
passassem, simplesmente, a ser a regra.
Porque, retirado todo o
ruído político, é apenas disto que estamos a falar: de uma escola, de educação
e de dignidade.
Mas admito: “dignidade”,
“educação” e “sucesso” são palavras terrivelmente pouco convenientes qhá 175
mil euros para pôr no título – e uns cliques para obter.
Cascais Lisboa País Sociedade
COMENTÁRIOS:
Meio Vazio: Bolas! Se no fungagá da coisa havia um
"DJ" (raispartam!), então está justificado o balbúrdio, seus
filisteus!