domingo, 26 de abril de 2026

Espírito bem crítico


O certo é que nem todos se agradam dos programas oferecidos na televisão. Como, de resto, dos livros que escritores escrevem, dos quadros que pintores pintam, ou mesmo das esculturas… Mas julgo que a Televisão presta bons serviços, como todos os meios de comunicação, e ao ser criticável, dá origem a comentários chistosos ou sérios, que ajudam à nossa própria percepção, e assim admirarmos os que tão expressivamente comentam, condenando os de fraco entendimento.

Son of a bitch: um sarau cultural

É escusado acrescentar que, como os idiotas que os frequentam e consomem, os PLAY podem e devem prosseguir. A RTP é que não.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 25 abr. 2026, 00:24

Pelos vistos, e à semelhança do que acontece no “estrangeiro”, agora há uns prémios anuais da música portuguesa. São, conforme o acrónimo sugere, os PLAY. Também para imitar “o que se faz lá fora”, os PLAY consagram-se mediante cerimónia, na qual se distribuem pechisbeques por dezenas ou centenas de “vencedores” e todos ficam muito orgulhosos.

Infelizmente a cópia caseira dos Emmy americanos e de outro embaraço qualquer que os ingleses têm de certeza não se restringe à existência, não senhor. O plágio vai à minúcia e inclui os momentos que uma parte substancial dos alegados artistas aproveita para expelir “sentimentos” acerca da “actualidade”. Antigamente, neste género de pândegas, a sumidade recebia o pechisbeque, agradecia a duzentos familiares, amigos e colegas e sumia de cena. Hoje, ou para aí desde 2017, é rara a sumidade, anónima que seja, que não ande convencida de que possui coisas relevantíssimas a comunicar aos mortais. E os mortais, os mortais e pacóvios que assistem a tais infortúnios, ouvem.

Aliás, quer nos Óscares, quer nos PLAY, quer no Festival de Cinema de Carcassonne, o real objectivo de cada “evento” é justamente o de apurar quem profere a maior quantidade de barbaridades ao gosto do tempo. E provocar aquilo que os “media”, um pouco desesperados, designam por “polémica”. Sem a “polémica”, ninguém notaria que o “evento” se realizou. Com a “polémica”, quase ninguém nota que o “evento” se realizou.

Eu notei os PLAY através de artigo no Observador. Confesso que ignorei a informação alusiva aos galardões convencionais, mesmo ao prémio para a Melhor Co-Participação Vocal em Disco de Fusão Lusófona Alternativa, e, saltitando pelo texto na diagonal, fui directamente às interpretações em que os artistas dão tudo o que têm: o discurso de protesto.

Na categoria Indignação, o primeiro pechisbeque de relevo foi conquistado por Jorge Palma, que após agradecer misteriosamenteaos profissionais do SNS”, redobrou o tom críptico para exigir uma “reforma eficaz” da cultura, “para que as nossas forças não se gastem em vão” (?). A terminar, e já que vinha com um cravo na lapela, o sr. Palma recordou Abril, o espírito de Abril, a liberdade de Abril, os valores de Abril, Abril sempre, etc. De seguida, a cerimónia regressou a 2026.

O segundo pechisbeque indignado coube ao vocalista dos Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal, que a despropósito desatou numa cantilena sobre “a pulsão de morte que domina a miserável época em que vivemos, com as suas manifestações de ódio e de intolerância. Terminou a pedir que se impeça “o alastrar da peste dos fascismos, essa ratazana nojenta.” Sem dúvida. Eu próprio odeio do fundo das entranhas essas larvas pustulentas que apenas sabem verter ódio. E lembro os versos de apelo à fraternidade que o sr. Canibal assinou: “Ultrapassado o limite do ultraje/Toda a violência/É legítima autodefesa/Também pelo meu relógio são/Horas de matar”. Bonito e sublime, praticamente o Larkin de “An Arundel Tomb” (“O que restará de nós é o amor.”)

Porém, o apogeu do serão ficou a cargo do afamado cançonetista Toy, que ultrapassou pela esquerda baixa os parceiros ao proferir estas palavras movidas a sobriedade: “Nunca digam que a cultura e a política não se misturam, porque a cultura é a melhor arma contra alguns sistemas políticos, como o assassino de crianças Netanyahu e o ‘son of a bitch’, filho da p*** em português, Donald Trump”. Enquanto demonstrava que, além da política, a cultura se mistura perfeitamente com uma sandes de couratos, a Festa do “Avante!” e a iliteracia funcional, o sr. Toy arrecadou três prémios fundamentais de uma só vez: o prémio Cliché para a mais apoplética intervenção anti-Trump; o prémio Anti-Sionismo para a mais escancarada declaração anti-semita a fingir que não é uma declaração anti-semita; e o prémio Calado Como Um Rato (Mas Não Uma Ratazana Nojenta E Fascista), pelo corajoso silêncio que dedicou ao Hamas, ao Hezbollah, à Rússia, ao Irão, à China e, afinal, a todos os terrorismos e ditaduras do planeta. O público presente na sala, gente das artes e do refinamento estético, aplaudiu o sr. Toy em êxtase.

A terminar, houve ainda espaço para que actores lessem, cito o Observador, “um texto a alertar para a propagação ‘online’ do discurso de ódio contra as mulheres”, que curiosamente não mencionou o Islão.

Resta esclarecer que os prémios PLAY foram transmitidos pela RTP, que a RTP é uma estação televisiva que vive da extorsão dos contribuintes, e que é capaz de haver contribuintes que não apreciam ver os respectivos rendimentos delapidados em ajuntamentos auto-congratulatórios, onde idiotas repetem toleimas que tomam por iluminações. É escusado acrescentar que, como os idiotas que os frequentam e consomem, os PLAY podem e devem prosseguir. A RTP é que não.

MÚSICA       CULTURA

 

COMENTÁRIOS:

Novo Assinante: Não sabia da existência deste programa pois não sou grande consumidor de TV, mas tudo o que senhor Alberto Gonçalves expressou que o cançonetista Toy terá dito sobre Nethanyau e Trump, e que abaixo transcrevo, não é verdade? Onde está a mentira? Escreveu o senhor Alberto Gonçalves:

"Nunca digam que a cultura e a política não se misturam, porque a cultura é a melhor arma contra alguns sistemas políticos, como o assassino de crianças Netanyahu e o ‘son of a bitch’, filho da p*** em português, Donald Trump”." 

Jose Marques: Os kamaradas Palma, RAP, Mãos-Mortas ou Mãos-de-Tesoura, os Toy da vida airada - e todos os outros sócios e sócias da vagabundagem cultural - são os verdadeiros megaclones, digo megafones, dos maiores bandidos e assassinos cá do burgo que é o planeta Terra. E são tão burros, tão burros, que nem disso eles têm consciência!

observador censurado: Provavelmente, o grupo RTP é o maior agente de difusão de narrativas de "extrema esquerda" com o dinheiro dos contribuintes. Na Antena 1, é quase impossível ouvir uma conversa que não seja aproveitada para difundir narrativas de "extrema esquerda" e apelar à luta contra o "populismo", a "extrema-direita", o "discurso de ódio", Donald Trump (antes era Bolsonaro), etc.  Tudo efectuado com as "melhores" práticas jornalísticas: sem contraditório. Quando é que os contribuintes vão acordar?

Ricardo Ribeiro: A única coisa que me indigna nisto tudo é ainda ter de contribuir com os meus impostos para essa "palhaçada"...de resto, já não vejo circo há muitos anos...

André Fernandes: Grande motivação para ler e dar audiência ao Observador é mesmo ler e ouvir o Alberto! Não dá para discordar em nada…! Quanto ao azeite de Setúbal… só é de lamentar termos q financiar esse antro de escumalha quer queiramos quer não. Rtp era já privatizada… pra ontem!

Ana Luis da Silva: Proponho que a RTP seja sustentada segundo o princípio utilizador-pagador. Estou certa de que estas parvoíces pacóvias e da esquerda “cultural” desapareceriam num ápice. A malta que nasceu após o 25 de abril e não levou com uma lavagem cerebral na escola pública sente o cheiro de propaganda a milhas. Por isso, nem sequer liga a televisão a não ser para ver jogos de futebol. Só ficariam a assistir as carcaças saudosas do indefectível Cunhal, dos tempos do PREC e das FP 25 de Abril. 

Novo Assinante: Não sabia da existência deste programa pois não sou grande consumidor de TV, mas tudo o que senhor Alberto Gonçalves expressou que o cançonetista Toy terá dito sobre Nethanyau e Trump, e que abaixo transcrevo, não é verdade? Onde está a mentira? Escreveu o senhor Alberto Gonçalves:

"Nunca digam que a cultura e a política não se misturam, porque a cultura é a melhor arma contra alguns sistemas políticos, como o assassino de crianças Netanyahu e o ‘son of a bitch’, filho da p*** em português, Donald Trump”." 

Jose Marques: Os kamaradas Palma, RAP, Mãos-Mortas ou Mãos-de-Tesoura, os Toy da vida airada - e todos os outros sócios e sócias da vagabundagem cultural - são os verdadeiros megaclones, digo megafones, dos maiores bandidos e assassinos cá do burgo que é o planeta Terra. E são tão burros, tão burros, que nem disso eles têm consciência!

observador censurado: Provavelmente, o grupo RTP é o maior agente de difusão de narrativas de "extrema esquerda" com o dinheiro dos contribuintes. Na Antena 1, é quase impossível ouvir uma conversa que não seja aproveitada para difundir narrativas de "extrema-esquerda" e apelar à luta contra o "populismo", a "extrema-direita", o "discurso de ódio", Donald Trump (antes era Bolsonaro), etc.  Tudo efectuado com as "melhores" práticas jornalísticas: sem contraditório. Quando é que os contribuintes vão acordar?

Ricardo Ribeiro: A única coisa que me indigna nisto tudo é ainda ter de contribuir com os meus impostos para essa "palhaçada"...de resto, já não vejo circo há muitos anos...

André Fernandes: Grande motivação para ler e dar audiência ao Observador é mesmo ler e ouvir o Alberto! Não dá para discordar em nada…! Quanto ao azeite de Setúbal… só é de lamentar termos q financiar esse antro de escumalha quer queiramos quer não. Rtp era já privatizada… pra ontem!

Ana Luis da Silva: Proponho que a RTP seja sustentada segundo o princípio utilizador-pagador. Estou certa que estas parvoíces pacóvias e da esquerda “cultural” desapareceriam num ápice. A malta que nasceu após o 25 de abril e não levou com uma lavagem cerebral na escola pública sente o cheiro de propaganda a milhas. Por isso, nem sequer liga a televisão a não ser para ver jogos de futebol. Só ficariam a assistir as carcaças saudosas do indefetível Cunhal, dos tempos do PREC e das FP 25 de Abril.  Estou certa que a programação televisiva levaria uma volta de 180 graus e talvez se voltasse a valorizar a cultura que nos dá identidade civilizacional e que nos orgulha, em vez de dar voz e palco aos papagaios da extrema-esquerda, lacaios do “ódio do bem”.

Antonio Marques Mendes: Parecia surreal e burlesco Demonstração sem espaço para duvidas porque Portugal está a passar pela pior fase de sempre no seu panorama musical. E notem que o padrão já era muito baixo.

Paul C. Rosado: Aquilo a que assisti, durante uns breves minutos, foi o costume: Uma série de inúteis, que só conseguem viver do dinheiro dos contribuintes em concertos pagos pelas câmaras municipais, a fazerem propaganda ao sistema socialista que os engorda. E é melhor nem falarmos dos desordenados sexuais e mentais e as suas figurinhas tristes... Obviamente que a RTP é para privatizar.

Maria Tubucci: Muito bem Observado Sr. AG, hoje apanhou-me desprevenida! Não fazia a mínima ideia do que eram os PLAY, tive de me ir informar. Na minha casa há muito que a TV só faz parte da decoração da sala, provavelmente já oxidou os circuitos, só “vejo” TV quando vou para a casa dos meus pais. Pelo que pode constatar, os PLAY são uma fogueira de vaidades, um poço de virtudes, da virtuosa hipocrisia e demência intelectual do politicamente correcto. E pior, já vão na 8ª edição, cada uma a 2 milhões, já foram queimados 16 milhões do nosso dinheiro. 

Hoje é o dia da gaivota! Uma gaivota voava, voava, asas de vento, coração de mar. Como ela, somos livres, somos livres de voar... Os espécimes decadentes que se babam e arrastam e se premeiam mutuamente nos PLAY, são livres de o fazer, contudo que o façam com seu o dinheiro, não metam as unhas no meu, pois não estou disposta a pagar as baboseiras de pedantes armados aos cucos a pensarem que são gaivotas...  

José Paulo Castro: Há a Guarda Revolucionária, sustentada pelo petróleo do Irão, e há a 'guarda' da revolução, que dá sempre a mesma volta para o mesmo pote de onde sai o mel dos contribuintes. É uma revolução, de facto, embora não por minuto. É um mistério a razão por que a segunda não critica a primeira. Haverá mel extra pago com o mesmo petróleo ?

Ruço Cascais: Receber um premio artístico sem dizer uma coisa de esquerda é o mesmo que ir ao Maine e não comer uma sandes de lagosta.  A ideia parte de uma premissa simples mas ligeiramente errada na minha opinião, que consiste em acreditar que todo o público que promove a cultura é de esquerda.  Pensar que os telespectadores que assistem à sátira do RAP na SIC votam do PS para a esquerda, assim como os desgraçados que vão assistir a um espectáculo do Toy são todos associados da UGT e só comem carne halal é um erro. Na realidade a coisa não anda muito longe, tendo em conta que nos prémios aos melhores cantores de ópera não há referências às causas de esquerda porque a ópera é uma coisa muito conservadora e de gente rica. Frank Sinatra também nunca disse uma coisa de esquerda quando recebia os seus prêmios de carreira.  Portanto, a coisa não é assim tão literal. O público de direita também,  que gosta de cultura e algum público de esquerda também gosta de ópera, música clássica e da Maria Vieira.  Em Portugal o risco de dizer uma coisa de direita pode ser um suicídio. Que o diga a já mencionada Maria Vieira e o Quim Barreiros que teve a lata de actuar num evento do CH.  Mas, se o Quim Barreiros diz que o bacalhau quer alho e os críticos que vão para o c... e acaba por passar entre os pingos da chuva na perseguição política, já a pobre Vieira só lhe resta ser eleita pelo CH para um cargo político, merecia. Também pode optar por ser cantora de opera. 

Entretanto o CH chegou aos órgãos de opinião da RTP e a coisa promete. De um lado o Nicolau Santos a querer promover a ideologia de gênero em desenhos animados do outro o Pedro Pinto a querer correr com as Carmo's Afonso da estação. Vai dar faísca. Ainda bem, está na altura de pôr um travão na ideologia comunista que grassa pela RTP.

Nota: ando com água na boca por uma sandes de lagosta desde que o Sr. Alberto as mencionou na semana passada. Ainda vou ter que ir aos Estados Unidos, não para ver o Trump, mas para comer o raio da sandes de lagosta. 

´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´

 


 Ricardo Reis o dissera:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
      Teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
      No mínimo que fazes. 
Assim em cada lago a lua toda 
      Brilha, porque alta vive.”

UM SOCIALISTA EXEMPLAR

Colhido em lides domésticas, Pedro Sánchez tem vindo a tentar a sorte na arena internacional. Em Barcelona, frente aos progressistas de todo o mundo unidos que enchiam a praça, foi o triunfo.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 24/4/26

Colhido em lides domésticas, Pedro Sánchez, chefe de um dos raros governos socialistas na Europaum governo em coligação difícil, com forças de extrema-esquerda, como o Sumar, a Izquierda Unida e o Podemos, e forças separatistas, como o Junts, o ERC e o EH Bildu que, em Novembro de 2023, lhe asseguraram a investidura por 179 votos contra 171 –, tem vindo a tentar a sorte na arena internacional, citando com galhardia o “fascismo” norte-americanoEm Barcelona, frente aos progressistas de todo o mundo unidos que enchiam a praça, foi o triunfo.

“Um exemplo para todos os socialistas democráticos”

Também por cá os aficcionados o levaram em ombros. Para o secretário-geral do PS, Sánchez é um “exemplo para todos os socialistas democráticos”, um líder corajoso com “uma agenda progressista que se preocupa com a prosperidade e o bem-estar”.

A “prosperidade e o bem-estar” parecem de facto ter vindo a ocupar grande parte da agenda interna de Sanchez, família e correlegionários:

A mulher, Begoña Goméz, está acusada de tráfico de influências, corrupção e apropriação indevida de fundos públicos numa investigação iniciada pelo Juiz Carlos Peinado, em Abril de 2024; investigação que procede, apesar das tentativas de bloqueio e das ameaças aos instrutores, vindas do próprio ministro da Justiça de Sanches, Félix Bolaños, coadjuvado, mais recentemente, pelo ministro dos Transportes, Oscar Puente.

O irmão, o músico David Sánchez, está indiciado por tráfico de influências, tendo recebido, entre Julho de 2017 e Maio de 2025, 340.000 Euros da Deputação de Badajoz, não se sabe bem porquê nem para quê.

Koldo García, o ex-assessor do ministro José Luis Ábalos, e o próprio Ábalos, ex-secretário-geral dos socialistas espanhóis e mão direita do chefe do Governo, são também réus de um processo a correr no Supremo Tribunal em Madrid, o “processo das mascarilhas”, em que respondem por vários actos de corrupção, entre os quais o fornecimento de oito milhões de máscaras durante a epidemia da Covid 19, contra recebimento de comissões.

O centro de todas estas tramas judiciais é, evidentemente, Pedro Sanchez, marido de Begoña, irmão de David, chefe de Ábalos e líder dos socialistas espanhóis.

Que fazer?  Talvez tentar a arena internacional, enfrentar o animal da ultradireita reaccionária, animar uma “mobilização global progressista” para a “prosperidade e o bem-estar” do mundo. Por que não? Não tinha Emmanuel Macron vindo a desdobrar-se em iniciativas internacionais, à direita e à esquerda, para trazer a paz ao universo e, de caminho, afastar os olhares mediáticos da sua incapacidade de formar um governo estável em França contra os extremos maioritários? Não podia ele, Pedro Sánchez, fazer melhor do que o Presidente francês?  Tanto mais que a sua motivação era mais urgente, ou pelo menos mais pessoal e judicial.

E eis que, no fim da semana passada, se uniram em Barcelona os progressistas de todo o mundo “en defensa de la Democracia”.

O grande flirt

O facto de, na jornada de luta, as esquerdas unidas em Barcelona terem entoado com entusiasmo e emoção o velho “no pasarán” quer dizer muito pouco ou quase nada. Os tempos são outros e não vale a pena lembrar aqui que a última vez que as esquerdas globalmente mobilizadas se juntaram em Espanha, na Primavera-Verão de 1936, na então Frente Popular, mataram umas dezenas de milhares de espanhóis (entre eles, mais de sete mil eclesiásticos católicos, entre freiras, monges, sacerdotes e bispos), desencadeando uma guerra civil em que os militares de Franco também não foram meigos.

Longe vão esses tempos. As esquerdas podem agora ter voltado a juntar-se em Espanha, mas só para flirtar com o frentismo, a resistência e o activismo num animado fim-de-semana comemorativo da chegada do “fim do tempo da ultradireita reaccionária”. A boa-nova, anunciada por Sánchez, arrastará, supomos, o termo das alterações climáticas causadas pela “onda reaccionária internacional que alimenta discursos de ódio, sexismo, guerra e divisão” e desencadeará o raiar da paz perpétua, da justiça redistributiva, da fraternidade, da igualdade, enfim, do progressismo internacional.

Talvez por isso, esta Global Progressive Mobilization de Barcelona, presidida por Pedro Sánchez e co-presidida por Lula da Silva, tenha sido descrita como “um marco histórico”.

A iniciativa inscreveu-se no programa da Internacional Progressista, fundada em 2020 pelo grego Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças do Syrizae pelo senador norte-americano Bernie Sanders. A Internacional conta com pensadores como Noam Chomsky, o amigo e consultor de Epstein com obra importante no campo da Linguística e do pensamento pós-marxista, o auto-denominado “marxista conservador” Slavoj Zizek e a canadiana Naomi Klein.

Para o encontro de Barcelona, o anfitrião Sánchez e os seus colaboradores foram audazes na encenação e na mobilização. Além do tout esquerda socialista europeia e do tout sul global os presidentes da África do Sul, do Brasil, do México e da Colômbia – marcou presença, representando a América do Norte, Tim Walz, o inesquecível co-equiper de Kamala Harris na dream-team de 2024.

Walz, que fez do seu Minnesota um paraíso woke, não desiludiu ao revelar a verdadeira natureza da acção daquele cujo nome quase todos se abstiveram ali de pronunciar – “We need to call that what it is: that’s fascism.” Porém, foi o que Waltz acrescentou como ressalva – “Or at least it flirts with fascism – que definiu o encontro e este novo tempo.

Além de Bernie Sanders, outros progressistas americanos de peso, entre eles o mayor de Nova Iorque, Mamdani, e Hillary Clinton (para aquele toque old liberal chic que todo o flirt com a igualdade, a fraternidade e a justiça social exige), brindaram os antifascistas reunidos em Barcelona com inspiradoras mensagens de vídeo.

A jornada de luta, que teve o patrocínio do pequeno e médio multibilionário Alexander Soros, através da sua Open Society Foundation, e o apoio mais velado da paritária Fundação Bill e Melinda Gates, juntou cerca de 3000 participantes inscritos, representando 100 partidos ou movimentos políticos. Foi nesta exclusiva e inclusiva estância de flirt que Sánchez triunfou.

A “cabala” e “a justiça a funcionar”

Sánchez e Lula não têm vida fácil nos seus países: com um governo minoritário, refém da extrema-esquerda e dos separatistas, Sánchez vê-se agora “vítima de uma cabala” ou de uma “vergonhosa manipulação política da justiça”; e   Lula, solidária ex-vítima de uma dessas “cabalas”, prepara-se para enfrentar uma eleição em Outubro em que a sua permanência no cargo poderá, eventualmente, estar em risco.

Nada a temer, porque o polícia político judicial da República do Brasil, o juiz Alexandre de Moraes, já “pôs a justiça a funcionar” para que a democracia continue. Como? Abrindo um processo que, a ser aceite, pode levar à perda de direitos políticos de Flávio Bolsonaro, que, neste momento, lidera por pouco as intenções de voto, com 42% contra os 40% de Lula.

A abertura do processo no Supremo Tribunal Federal deu-se em 15 de Abril. Moraes segue aqui, em defesa da democracia, não o método romeno (actuar correctivamente, anulando uma eleição com resultados “maus”) mas o método francês (actuar preventivamente, interditando uma candidata “má”, dada como favorita, de concorrer a uma eleição futura).

Já com Sánchez, parece que “a justiça a funcionar” não está a funcionar tão bem como isso, dando antes lugar a uma “cabala” de tribunais politicamente manipulados que descredibilizam as instituições e ameaçam a democracia.  A democracia e uma série de impolutos dirigentes socialistas e familiares próximos do primeiro-ministro.

De qualquer forma, o importante parece agora ser a mobilização dos progressistas de todo o mundo contra os grandes manipuladores da ultradireita reaccionária. Ora tal atiraria nacionalistas, conservadores e populares para um exercício para o qual nem sempre estão preparados: a constituição de uma internacional de nacionalismos para enfrentar os globalistas unidos. Isto se “o tempo da ultradireita reaccionária” não tivesse já chegado ao fim.

Felizmente, garante Sánchez, chegouResta saber o que vai ser de Sánchez, do flirt da esquerda com o frentismo e da mobilização progressista sem a cortina fumo do fascismo, dos fascistas e das cabalas.

PEDRO SÁNCHEZ        ESPANHA        EUROPA        MUNDO   31

 

COMENTÁRIOS:

Ana Lucas > Carlos Chaves: Concordo completamente com o que escreve. Este Sanchez é do pior que a esquerda pariu!

Alberico Lopes > Carlos Chaves: Carlos, obrigado por este também excelente comentário que complementa o excelente artigo de Jaime Nogueira Pinto. Note que eu, ainda sem ter vindo ler estes comentários, num dos artigos hoje publicados pela Acção Socialista II a louvar o carneiro, tinha-lhe sugerido que lesse este artigo. Erro meu, porque o Carlos já se tinha antecipado! Boa tarde e, já agora, bom fim de semana! Não lhe vou desejar bom 25 de abril, porque eu gosto mesmo muito pouco de dias comemorativos. Faço questão de nem sequer abrir os televisores para não ter de ouvir disparates e plumitivos penteadinhos!

Carlos Chaves: Caríssimo Jaime Nogueira Pinto, obrigado por mais esta magnifica crónica como tantas outras a que já nos habituou! Obrigado por denunciar esta gentalha da esquerda! A última que vem da terra do “nuestros hermanos” é que o governo de Sanchez vai pôr a aliança em tribunal (que eles controlam claro), que o PP e o VOX aparente e finalmente decidiram fazer (por motivos patrióticos e defesa da Espanha), após estes anos de verdadeiro descalabro da responsabilidade do PSOE! O que este déspota não faz para se manter no poder, a Espanha e os Espanhóis que se lixem!      

P.S. Sánchez já chegou ao cúmulo de chamar em público a Catalunha de país! E para o Carneiro este Sanchez é um exemplo, pelo menos informou-nos do seu pensamento, quer o PS = PSOE!

Miguel Seabra: Em Barcelona faltaram o Maduro e o Aiatola para a quadrilha ficar completa. Mas foi por motivos de força maior que não puderam estar presentes….

Hugo Silva: E por cá, a comunicação social, nem uma nota de rodapé.... Credibilidade, zero. 

João Floriano: Tudo o que Jaime Nogueira Pinto escreve é a mais pura das verdades tanto em relação a Sánchez como a Lula. No entanto eles lá se vão aguentando no poleiro aplicando estratégias bem duvidosas. Sinto vergonha alheia por quem se presta a apoiar com a sua comparência figuras como Sánchez e Lula, ambos dois exemplos de como a corrupção corrompe e destrói a democracia da qual esta gente se serve. E para além da democracia servem-se também do voto de quem é ignorante e não enxerga o que está  a acontecer ou de quem tira vantagens e come da mesma mesa, mesmo que sejam apenas as migalhas do banquete. Carneiro anda a escolher muito mal os lugares onde é visto e com quem é visto. Foi à Venezuela fazer não se sabe bem o quê, porque ficou tudo mal explicado e agora a Barcelona mas não para ver as obras de Gaudi. O «artista» é socialista, por supuesto!

Antonio Madureira: Excelente análise!

Miguel Seabra > José B Dias: Não estou a esquecer nada. O bando que se reuniu em Barcelona não é um bando de comunistas ou socialistas, é um bando de ladrões!

Filipe Perfeito: Excelente artigo. Lufada de ar fresco.

António Duarte: E chegará o tempo em que a impoluta esquerda adoptará o “método” Putin para as eleições: só concorre quem se comprometer a ter menos votos que ele mesmo, tipo Partido Comunista da Rússia ou o partido daquele tipo que fez campanha e disse ter votado no próprio Putin… e nas eleições contaram muitas mesas com mais votos expressos do que eleitores inscritos! Sim, também em Espanha o passado será a coisa mais imprevisível no mundo, como contou o Milhazes a propósito da Rússia…

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Foi assim



Que o texto saiu publicado. Como achei muita graça à brincadeira, assim o publico, considerando o seu sentido de humor  - de desconstrução apalermada - do mais espirituoso que se tem publicado por cá. Fico feliz e grata ao seu autor que se diz Luis Soares e localiza no dia 23 de abril a sua histórica entrevista.

 

Feliz de estar em Portugal e com raízes portuguesas, Maria Corina Machado passou pelo  nosso país depois de ter estado em Itália e em Espanha. Em Itália, encontrou-se com a chefe de governo, Giorgia Meloni, mas em Espanha não se encontrou com Pedro Sanchez. Em Portugal, a Prêmio Nobel da Paz esteve reunida com o primeiro-ministro e também com o ministro dos Negócios Estrangeiros. Pelo meio, ainda deu uma entrevista conjunta a vários jornalistas portugueses. Vou conversar com José Carlos Duarte. É jornalista da secção de internacional do Observador e entrevistou Maria Corina Machado. Eu  sou Luis Soares e esta é a história do dia de quinta-feira, 23 de abril. Bem-vindo, José Carlos.

Olá.

José Carlos,  vamos ao conteúdo desta entrevista, mas antes conta-nos um pouco de como foi conseguir esta entrevista à Prêmio Nobel da Paz.

 

Foi um processo até que foi bastante rápido. Nós soubemos aqui no Observador que Maria Corina estaria em Portugal na terçafeira, e daí começaram alguns contactos para perceber até que ponto a poderíamos entrevistar, porque ela estaria com o primeiro-ministro Luís Montenegro, ainda que tivesse uma agenda muito apertada aqui em Portugal, portanto, ela estaria aqui poucas horas. E foi um processo um pouco complexo, apesar de rápido, não soubemos muito bem até que ponto é que ia mesmo haver a entrevista, como é que se ia processar. Ainda assim, na terça-feira obtivemos quase um sim, mas  fui mesmo informado durante a manhã de que haveria efetivamente a entrevista. Houve aqui alguns problemas com a logística, porque a equipa da Maria Corina Machado é muito grande, tem assessores de várias partes, assessores pessoais, assessores que trabalham em Espanha e em Portugal. Portanto, a comunicação não foi muito fluida e também é uma pessoa com grande interesse jornalístico e que muitas pessoas querem entrevistá-la. E portanto, havia muito pouco tempo para fazer a entrevista. Aliás, até houve a informação inicial de que seria 10 minutos pra cada jornalista, mas isso depois acabou por mudar e teve que ser uma entrevista coletiva. E depois, quanto à Maria Corina Machado, a impressão que fiquei é que era uma pessoa muito acessível, muito simpática, foi bastante colaborante. Ela chegou e cumprimentou todos os jornalistas e acho que sim, era uma pessoa que, do meu ponto de vista, eu  tinha mais ou menos uma perspectiva de que ela seria assim, porque eu  escrevi coisas sobre ela.

Mas você não tinha estado com ela ainda, nunca.

Não, nunca tinha visto. E, portanto,  tinha mais ou menos a percepção, porque nos vídeos  pra ver mais ou menos a sua personalidade. Ela também grava muitas coisas pras redes sociais e eu acho que realmente se concretizou. Ela é realmente uma pessoa que foi, pra mim, simpática. Não sei noutros âmbitos, mas aqui foi.

Claro. Por exemplo, ao nível da segurança, portanto, a entrevista foi num hotel, não é, em Lisboa. Foi visível alguma segurança, algum reforço de segurança? Como é que podes descrever também essa parte, José Carlos?

Eu nem achei que houvesse assim tanta segurança. O dispositivo, havia alguns guarda-costas, via-se, mas  está, a Maria Corina Machado não é uma primeira-ministra, não é uma presidente, ou seja, eu diria que o protocolo também não é o mesmo do que receberam os chefes de Estado em Portugal. E, portanto, eu senti que havia efetivamente alguma segurança, mas que não era um controle, não era uma malha muito apertada. Tanto assim foi que antes da entrevista ter acontecido, ela reuniu-se à porta fechada numa sala, também no hotel onde decorreu a entrevista, com vários apoiantes dela, membros da oposição venezuelana e luso-venezuelana. E, portanto, ela esteve mesmo muito tempo reunida. A entrevista foi depois desse encontro com os apoiantes, que durou cerca de 50 minutos, e depois foi efetivamente a entrevista.

Nesta entrevista, falando então dela, José Carlos,  naturalmente um apoio à atuação norte-americana na Venezuela para depor Nicolás Maduro, mas a pergunta é se Maria Corina Machado confia que todo o plano dos Estados Unidos vai até o fim, que o regime vai mudar, mesmo estando Delcy Rodríguez no poder.

Eu diria que sim, daquilo que fiquei mesmo com a percepção na entrevista é que sim. Ela é uma pessoa muito expressiva, ela é uma pessoa que gesticula muito, que tem realmente uma forma de falar muito, diria quase, tem uma boa retórica e tem uma forma de falar convincente, mas não senti nenhum pingo de mentira ou desilusão quanto ao processo de transição e ao papel dos Estados Unidos. E acho que isso tem muito a ver, e ela também falou sobre isso na entrevista, com a relação que ela tem com Marco Rubio, que é o secretário de Estado norte-americano, e eles têm uma muito boa relação pessoal, têm uma excelente relação também profissional. Aliás, foi Marco Rubio que nomeia Maria Corina Machado pro Prêmio Nobel, que ela depois viria a receber. Portanto, aqui  mesmo uma boa relação e eu acho que ela confia precisamente em Marco Rubio na administração Trump. Confia nele para que a Venezuela se torne efetivamente num regime democrático. Eu acho que também Rubio é tão fácil confiar pra Maria Corina Machado porque os dois têm mais ou menos o mesmo contexto, ou seja, Marco Rubio é descendente de cubanos, tem família ainda em Cuba, e o regime cubano, que é comunista, e o venezuelano, que não era muito longe disso,  aqui paralelismos. Eu acho que ele também se revê nela, percebe a luta de Maria Corina Machado.

E  uma identificação.

Exato,  uma identificação aí. Os dois também falam espanhol, isso também ajuda. Portanto,  aqui uma identificação com Marco Rubio que pode ser muito fundamental pra Maria Corina Machado levar a cabo o seu projeto político. E também Marco Rubio acaba por identificar-se com ela. Agora, Marco Rubio é apenas secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional. Tem estes dois cargos que são realmente elevados e tem capacidade pra influenciar as decisões de Donald Trump, mas não pode fazer mais do que isto. Marco Rubio não é presidente.O que eu acho é que a decisão final vai sempre ser de Donald Trump. Por muito que Rubio tente convencer, persuadir o presidente, a decisão final é do chefe de Estado e será ele que vai decidir se Delcy Rodríguez continua à frente ou não da Venezuela ou se é tempo pra eleições.

E também por isso, José Carlos, Corina Machado não se arrepende, de certa forma, de ter partilhado aquela medalha de Prêmio Nobel da Paz com Donald Trump, mesmo com aquilo que se tem passado, por exemplo, nas últimas semanas no Irã.

Não, de todo. Eu acho que a Maria Corina Machado tem aqui uma grande dívida de gratidão para o presidente dos Estados Unidos e ela própria reconheceu mais ou menos isso na entrevista. Ela sente que efetivamente foi Donald Trump quem derrubou Nicolás Maduro, quem derrubou o regime do qual ela sempre contestou, do regime que sempre a destratou, do regime que sempre a viu como uma pária. E, portanto, é uma vitória pra ela. Mesmo que os limites legais e todo o processo de captura estejam aqui envoltos em alguma polêmica, não sejam bem claros qual é o limite da ação norte-americana, o que é fato é que ela sente esta gratidão. Ou seja, o Nicolás Maduro caiu. Mesmo que o regime venezuelano não tenha todo caído e Delcy Rodríguez tenha sido um produto do chavismo, ainda continua à frente da Venezuela, eu sinto que é o concretizar de um sonho da sua vida política. Ou seja, o chavismo finalmente está a dar sinais de que pode quebrar, sendo que ela  tinha criado uma plataforma política em 2024. Ela tentou se candidatar à presidência nesse ano, sendo que o candidato foi Édmund González, que foi o único que o regime permitiu concorrer. E, portanto, ela tinha realmente este sonho de derrubar, foi a mensagem política dela nas eleições presidenciais de 2024 e sente que esse momento está a aproximar graças a Donald Trump. Daí ela dar esta medalha, daí ela ser tão desapegada, diria eu, porque é realmente um grande feito pra ela, o feito que ela tanto lutou foi concretizado. Tudo bem que não foi pelos meios que ela se calhar previa, mas realizou-se. E também eu acho que  aqui uma coisa que na Europa as pessoas não entendem muito bem, mas na América Latina é diferente. Ou seja, Corina Machado posiciona-se como liberal e contra, eu vou dizer, o comunismo ou o socialismo latino-americano, e nesse campo ideológico encontra ali algum conforto com Donald Trump. Ou seja, ela sabe que com Trump vai haver sempre uma oposição ao regime de Nicolás Maduro, ao regime cubano, e acho que a entrega do Prêmio Nobel da Paz também simboliza esta unidade, pelo menos neste ponto ideológico.

 regressamos à conversa com o José Carlos Duarte. Fazemos agora uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com o José Carlos Duarte. José Carlos, quanto aos presos políticos portugueses na Venezuela, é algo que iria passar pela reunião que aconteceria depois dessa entrevista com o chefe do governo português,  a confiança de que seja possível encontrar uma solução para os três luso-venezuelanos que permanecem detidos?

Sim, daquilo que me apercebi, Corina Machado tem esperança disso. Aliás, ela encontrou-se antes da entrevista com apoiantes da oposição, entre os quais estavam duas famílias de dois detidos luso-venezuelanos. E, portanto, ela está muito em contato com essa realidade e ela veio também a Portugal tentar que a diplomacia portuguesa também tenha algum tipo de flexibilidade e que também  apoio nessa missão. Isso também surge numa altura em que Delcy Rodríguez está a ser pressionada pelos Estados Unidos pra libertar mais prisioneiros políticos e, portanto, acho que aqui a pressão, neste momento, pode acabar por funcionar.

 um contexto favorável.

 um contexto favorável, Delcy Rodríguez está muito nas mãos dos norte-americanos e vai fazer o que os norte-americanos basicamente querem e acho que esse esforço pode realmente dar frutos. Aliás, na terça-feira foi libertado Héctor Ferreira Dominguez, que estava detido desde setembro de 2022. O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros, ao anunciar a libertação, também prometeu continuar a incitar esforços para que isso aconteça.

Esta visita de Maria Corina Machado a Portugal acontece depois dela ter passado por Espanha, também por Itália. Em Espanha, ela não se quis encontrar com o chefe do governo espanhol. Em Itália, encontrou-se com Giorgia Meloni. Em Portugal, encontrou-se com Luís Montenegro. Por que estas diferenças, José Carlos?

Eu acho que isso tem muito a ver com política interna espanhola. Não tem tanto a ver com cargos, tem mesmo a ver com o mosaico político de Espanha. Acho que, neste momento, Pedro Sánchez optou por criticar diretamente Donald Trump, é o seu posicionamento na política externa, e ele pretende com isso ganhar apoios da esquerda. Aliás, apoios esses que fazem parte da mesma coligação que governa a Espanha. Ele tem uma megacoligação e, portanto, ele tem também sempre agradar aos seus parceiros de governo e de coligação. Portanto, ele nunca pode elogiar Donald Trump, porque os partidos que o apoiam são mais à esquerda e veem com muito maus olhos o presidente norte-americano. E também Pedro Sánchez  está aqui numa pré-campanha, as eleições são pra o ano em Espanha, e esta associação à Corina Machado, que deu tantos elogios a Donald Trump e lhe deu a medalha do Nobel, pode ser bastante negativa em termos de imagem pública. Portanto,  aqui realmente uma discordância. E depois,  também a questão de haver aqui um historial muito complexo com o PSOE, o partido de Pedro Sánchez, os socialistas espanhóis, com a Venezuela. No PSOE  duas correntes, eu diria, em relação à Venezuela. A primeira é a liderada pelo antigo chefe de governo Felipe González, que se encontrou com Corina Machado em Madri. Portanto, ele é socialista, mas esteve com a líder da oposição venezuelana, e é chefiada por José Luís Zapatero, de quem Pedro Sánchez é muito próximo. E Zapatero sempre foi muito próximo do regime chavista, nunca escondeu esta relação relativamente próxima, quer com o Chávez, quer com o Nicolás MaduroIsso nunca caiu bem junto à oposição venezuelana. Nunca caiu bem que o ex-chefe de governo espanhol tivesse sido um pouco complacente com os direitos humanos na Venezuela. E Maria Corina Machado acho que ainda leva um pouco dessas mágoas e Pedro Sánchez é próximo de Zapatero. Portanto,  aqui uma lógica quase de política tribal que leva a que o PSOE veja Maria Corina Machado com muita desconfiança. E Maria Corina Machado, por outro lado, também tem procurado apoios na direita espanhola, ou seja, o Partido Popular, até seja mesmo o Vox. E ela em Madri foi recebida por Isabel Díaz Ayuso, recebeu uma medalha das mãos da presidente da Comunidade de Madri, recebeu o líder da oposição espanhola e presidente do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo. Portanto, ela nunca escondeu que se liga mais aos populares, ao mesmo tempo que os socialistas não é que sejam contra ela, mas nunca também a apoiaram de forma enfática.

 ali uma distância maior.

 um distanciamento. Para Pedro Sánchez não é útil apoiar diretamente Maria Corina Machado por motivos eleitorais e para manter a coligação unida e para Corina Machado também não existe esse interesse em encontrar-se com Pedro Sánchez por todo o passado e por vários desentendimentos que  houve.

O certo é que Maria Corina  fez saber que regressa em breve à Venezuela. Regressar depois destes contactos que tem feito na Europa dá-lhe mais força enquanto líder da oposição ao regime?

Eu diria que talvez sim. Eu acho que Maria Corina Machado sai da Europa com um trunfo, que é: não são apenas os Estados Unidos que a apoiam. Ela pode dizer que tem o apoio de várias capitais europeias, tem o apoio de Itália, de França, de Portugal, e isso dá-lhe alguma legitimidade. Ou seja, que o apoio norte-americano, tendo em conta a guerra no Irão, tendo em conta o estilo de Donald Trump, até pode ser contestado internacionalmente, e mesmo os venezuelanos até podem não gostar da forma como Donald Trump se exprime ou da forma como fala do setor petrolífero. Mas agora, a Europa é um pouco diferente. A Europa é um pouco aquele baluarte da democracia, dos direitos humanos, e Maria Corina Machado, ao reunir-se com tantos líderes europeus, mostra que realmente a plataforma é mais ampla. Ela tem apoio de muita gente no Ocidente. E ela, aliás, coloca isso na entrevista. Ela diz que a causa venezuelana pode ajudar o Ocidente, faz parte de uma luta do Ocidente contra autocracias e, portanto, ela tenta fazer esse jogo de mostrar que tem mais apoios além de Donald Trump. E acho que também a Europa tem interesse em que Maria Corina Machado esteja à frente da Venezuela e que seja ela mais ou menos a liderar a transição. Aliás, ela recebeu o Prêmio Sakharov em 2024 pelo Parlamento Europeu. Portanto, houve sempre também um grande apoio à Europa à causa de Maria Corina Machado.  aqui sensações positivas em relação à plataforma política que ela lidera e Maria Corina Machado quer mostrar isso aos venezuelanos, que tem realmente vários apoios e que não é apenas suportada pelos Estados Unidos.  aqui também esta demarcação que ela quer fazer a Washington.