E a consciência intemerata
dos valores nacionais em crise.
O MAL português
O MAL preparava
meticulosamente os atentados, operações cuidadosamente planeadas desde 2018.
Entretanto, nem um único cocktail Molotov numa qualquer manifestação lançou.
Nada.
JAIME
NOGUEIRA PINTO, colunista do observador
OBSERVADOR,
02 jul. 2026, 00:25
Em Portugal, a violência política à esquerda não se
discute. Até porque não existe nem nunca existiu. Embora a
extrema paranoia e a extrema agressividade possam estar bem distribuídas, a única violência que ressalta, que
arrepia, que preocupa, que urge denunciar, noticiar e estancar é “a violência
de extrema-direita”. Na prática ou nas intenções. A violência
de extrema-direita não conhece casos isolados, é sempre fruto de uma grande
conspiração e tem sempre a cumplicidade de toda a Direita – que, ao contrário
da Esquerda, é intrinsecamente má, canalha e violenta; e, ainda que grunha,
estranhamente sofisticada quando toca à prática do mal.
Não quero com isto dizer
que o Movimento
Armilar Lusitano (MAL) não exista, que não tenha extensas e criativas
listas de vítimas a eliminar, que não pratique paint-ball ao fim-de-semana, que
não tenha sinistros propósitos, nem que não deva ser investigado, travado e
combatido. A
paranoia anda por aí à solta e todos sabemos que o mal existe.
As
origens do Mal
De qualquer forma, vou seguir
o conselho de Marc Bloch em Apologie de l’Histoire, e recuar um pouco no
tempo.
Lenine começou logo por dar
o devido crédito ao terror jacobino de 1793-1794, pioneiro do “genocídio de
classe” em nome do povo, dos grandes princípios e das melhores intenções: a
aristocracia teria de perder a cabeça bem como os aldeões da Vendeia, adeptos
do “obscurantismo católico” e inimigos da Liberdade, da Igualdade e da
Fraternidade. Era a tábua rasa e a
razia. Grande fonte de inspiração para
os bolcheviques, dizia Vladimir Ilyich.
De resto, os pais do marxismo, Marx e Engels, tinham
sido claros na legitimação da violência e na justificação da revolução como
“parteira da História.” Isto quando ainda não havia fascismo nem nazismo,
só capitalismo
selvagem, burguesia e “reacção”.
Embora se possa
identificar um proto-fascismo na França do final do século XIX, com Barrès, Maurras, Drummont e o general
Boulanger, ou melhor, um nacionalismo popular, desencadeado por
escândalos da oligarquia financeira, como o “affaire de Panama”, o verdadeiro fascismo, o italiano,
só nasceu nos anos 20 do século XX. E é indissociável do socialismo e do
comunismo. Os desmandos dos comunistas, instalados na Rússia a
partir de Outubro de 1917, durante e depois da guerra civil, foram também
decisivos para criar
o anti-comunismo militante, reactivo e defensivo que
esteve na base do sucesso do fascismo, do nazismo e de regimes iliberais
autoritários nacional-conservadores, como o Estado Novo.
Não quero com isto dizer
que os comunistas comessem criancinhas – mas as fomes que causaram, na Ucrânia
dos anos trinta e na China maoista do Grande Salto em Frente, levaram a que
alguns dos esfaimados, em desespero, comessem as crianças já mortas pela fome,
muitas vezes os próprios filhos. Também, no tempo das grandes purgas, o Estado Socialista não
hesitou em pegar nos “filhos dos inimigos do povo” para os corrigir, lhes mudar
o nome e os alojar em lugares remotos da Rússia, longe do rasto dos familiares
“desaparecidos” ou internados nos campos do Gulag. Depois dos
15 anos, eram condenados a trabalhos forçados. Há muita literatura sobre isto,
mas vale a
pena ler um ensaio de Elaine Mac Kinnon, The Forgotten Victims, Childhood and
the Soviet Gulag – 1929-1953 (disponível online)
Isto para dizer que muitos
dos excessos violentos à direita, que os houve – incluindo os do nazismo,
cujo eugenismo
identitário levaria a um sistema concentracionário muito semelhante ao
soviético –, não podendo ser desculpados, não podem também ser
desligados da radicalidade e da violência da ameaça à esquerda a que reagiam.
O mal
português
Em Portugal a esquerda radical
ou extrema também soube matar quando foi preciso, e com pontaria política ao
inimigo principal: João
Franco Castelo Branco, que tentou criar uma direita nacional
moderna com as classes médias das cidades, foi neutralizado pelos carbonários Buíça e Costa, que mataram o rei Dom Carlos e o príncipe
herdeiro Dom Luís Filipe, causando a queda de Franco e preparando o
advento da
Primeira República.
Essa primeira República,
dominada pelo Dr.
Afonso Costa, reprimiu à direita e à esquerda os seus inimigos,
monárquicos, católicos e sindicalistas.
Como bom jacobino, Costa
tratou bastante mal os católicos (embora
não se saiba ao certo se pronunciou a famosa frase sobre “acabar com o
catolicismo em duas gerações”): logo no 5 de Outubro, o “povo republicano”
assassinou dois padres; veio depois a Lei da Separação do Estado das Igrejas
(20 de Abril, 1911), foram expulsas as ordens religiosas, muitas das quais
desempenhavam funções assistenciais importantes, e os padres e religiosos foram
proibidos de usar as vestes da sua condição em público.
Perante esta acção
persecutória, o papa Pio X emitiu uma encíclica, Jamdudum in Lusitania, a denunciar “o
ódio implacável para com a religião católica” da nova República portuguesa.
Padres assassinados, ordens religiosas expulsas,
bispos exilados, jornais católicos assaltados, foi assim que a esquerda e “democrática” tratou, em democracia, os
católicos. E fez o mesmo aos monárquicos e, à sua esquerda, aos sindicalistas.
Em Dezembro de 1917, no ano em
que as aparições de Fátima vieram renovar a fé do povo, Sidónio Pais tomou o poder,
reatou as relações com a Santa Sé e parou as perseguições religiosas. Em
Dezembro do ano seguinte, a Esquerda assassinou Sidónio, através de um doente mental a
quem convenceram que estava a salvar o país de um tirano.
E no 19 de Outubro de
1921 foi outra vez a Esquerda – aí “a rua”, os guardas republicanos e os
marinheiros descomandados – que assassinou os políticos republicanos que tinham
colaborado com Sidónio, entre eles o próprio fundador da República, Machado Santos.
Alfredo da Silva,
símbolo do capitalismo industrial português, chegou a ser dado
como morto, mas acabou por escapar à purga.
O 28 de Maio teve o apoio da grande maioria do povo,
farto de um regime em que os governos – que duravam, em média quatro meses –
faziam ou permitiam que se fizessem semelhantes brutalidades. Depois, contra a
repressão autoritária do Estado Novo, houve também várias tentativas de
assassinar Salazar.
Com a revolução de Abril e as “redes bombistas”
atribuídas ao ELP e ao MDLP, morreram meia dúzia de pessoas, entre bombistas e
vítimas das bombas. Mas terrorismo a sério, que materializasse a frio os
fuzilamentos simulados de “fascistas” nas prisões do PREC, só, anos depois e já
longe do calor revolucionário, o das Forças Populares 25 de Abril, que mataram
mais de dezena e meia de pessoas, entre inimigos políticos, agentes de
autoridade e até crianças. Porém, acabaram amnistiados – afinal, eram
antifascistas e a intenção era boa –, e agora até tiveram direito a fita
celebrativa.
Hoje, por essa Europa fora e na América, o que se vê
são assassinatos praticados ou tentados pela Esquerda e distúrbios violentos
dos Antifa. Sempre acontecimentos isolados e “inconsequentes”.
A
banalidade do mal
Acontecimentos esses que empalidecem, deixando mesmo
de existir, perante a lista de vítimas e as intenções de um grupo conspiratório
de extrema-direita – os neo-nazis do Movimento Armilar Lusitano (MAL).
Desmantelado em 2025
(segundo as autoridades), o Movimento dedicava-se a recolher informações sobre
políticos de todas as facções, dos professores Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de
Sousa, às irmãs Mortágua, bem como personalidades das artes e do espectáculo,
algumas já falecidas, como o cantor Marco Paulo, tendo já listado mais de
centena e meia de alvos. Reunindo dados, traçando itinerários, vigiando, o MAL
preparava morosa e meticulosamente os atentados. Operações cuidadosamente planeadas desde 2018. Entretanto, nem um único cocktail Molotov
numa qualquer manifestação. Nada. Um dos
seus alvos colectivos seria o Parlamento, que o Movimento ocuparia, talvez para
matar todos os deputados; um dos seus alvos individuais, o primeiro-ministro,
para quem o MAL tinha já uma granada reservada.
Na posse de armas fabricadas por tecnologia 3D, os
nazis armilares projectavam “golpes de Estado e tomadas de poder”. Claramente não ambicionavam apenas perturbar
a democracia em Portugal, mas também noutros países. De onde lhes viria o
financiamento?
Os neo-nazis do Movimento Armilar Lusitano podem
emitir e disseminar ódio e ser agentes do MAL, podem até planear matar e
atentar, mas têm pelo menos uma vantagem: reunindo até à caricatura os
requisitos necessários para constituírem a prova cabal de que toda a maldade,
toda a violência, toda a canalhice e toda a ameaça nos chegam pela direita e só
pela direita, prestam um inestimável serviço à pátria e à “democracia”.
EXTREMISMO SOCIEDADE
COMENTÁRIOS
ANTÓNIO COSTA E SILVA: Por
toda a Europa, o sistema parece estar a entrar em desespero. Perdido o
monopólio da propaganda com a descentralização da informação na net,
mobilizam-se as polícias e os tribunais como expediente de recurso para impedir
a derrota, que sentem próxima e os assusta; não vá o povo lembrar-se de fazer
justiça. Pelos casos do motorista de autocarro queimado vivo e do militante
socialista que lançou um cocktail molotov sobre mulheres e crianças, que são os
únicos atentados terroristas recentes em Portugal, sabemos que os racializados,
os excluídos, os socialistas e outros activistas podem incendiar pessoas
livremente, já que todos foram mandados em liberdade pelo tribunal e o
socialista, também imediatamente libertado, apenas foi preso passado um mês
porque a versão da comunicação social, de que "provocou um incidente",
(sustentada por polícias, Ministério Público e pelo Tribunal), foi desmentida
pela circulação da informação nas redes e canais alternativos e independentes. Estes
perigosos terroristas fascistas, de muita conversa e nenhuma acção, vão acabar
condenados exemplarmente para sustentar uma narrativa, como os outros fascistas
do 1143, que continuam presos pela posse de duas pressões de ar, três canivetes
e um saca-rolhas, ou o Mário Machado, que também está preso, condenado por
muitas violações literárias.
SDC Cruz:
Mais uma interessante aula de história explanada num excelente artigo. Obrigado, JNP e até para a semana.