idênticas indústrias no jogo político das suas chefias...
Mojtaba Khamenei. A escolha que preserva
o regime e reforça o confronto com EUA e Israel: “O mundo vai sentir
saudades da era do pai
A Assembleia de Peritos escolheu o
filho de Khamenei para Líder Supremo. Um sinal da crescente militarização do
regime, guiada pela Guarda Revolucionária, e de provável desafio a EUA e Israel.
09 mar. 2026, 21:4316
ÍNDICE
A falta de pergaminhos religiosos
de Khamenei revela que regime abdicou da “pura teologia”
A força
política de Mojtaba, “o poder por trás das vestes”
Como Khamenei
se uniu à Guarda Revolucionária para esmagar protestos no passado
“Sentimentos
crus e de vingança”? Guerra com Washington e Telavive deverá intensificar-se.
Os manifestantes gritavam “Mojtaba bemiri rahbari ro nabini”. Estávamos em 2009 e milhares de iranianos
saíam à rua, para protestar contra a reeleição do Presidente Mahmoud
Ahmadinejad, que consideravam fraudulenta. Entre as palavras de ordem,
surgia o nome de “Mojtaba”, o filho do Líder Supremo Ali Khamenei, que
estava envolvido na organização da repressão dos protestos. Por isso, os
manifestantes pediam a sua morte, para que nunca chegasse à liderança.
Menos de
20 anos depois, Mojtaba herdou mesmo o cargo do pai e lidera agora um Irão
debaixo de fogo norte-americano e israelita. Com apenas 56 anos, é uma figura que
pode revigorar o regime, mas não em direcção à modernidade. As suas parcas credenciais religiosas — não tem
formalmente o título de aiatola — não
travaram a sua ascensão. Uma das primeiras memórias de Mojtaba é a da polícia
política do regime do Xá, a SAVAK, a deter o seu pai — e, apesar disso, nem o facto de a sucessão dinástica ser
semelhante à do regime que os Khamenei derrubaram atrapalhou a sua nomeação.
▲ Mojtaba Khamenei
foi escolhido como Líder Supremo do Irão, sucedendo ao pai Middle East Images/AFP via
Getty
ÍNDICE
A falta de
pergaminhos religiosos de Khamenei revela que regime abdicou da “pura teologia”
A força
política de Mojtaba, “o poder por trás das vestes”
Como Khamenei
se uniu à Guarda Revolucionária para esmagar protestos no passado
“Sentimentos
crus e de vingança”? Guerra com Washington e Telavive deverá intensificar-se
Aquilo
que sustenta a nomeação de Khamenei filho como Líder Supremo são antes as suas
raízes profundas no sistema político e militar do regime. “Representa
a continuidade e vai ser apoiado pelo ‘deep state’ iraniano”, resumiu ao New York Times Sanam
Vakil, directora
do programa para o Médio Oriente do think tank Chatham House.
Mais do que isso, é a prova de que o
regime é agora controlado com mão de ferro pela Guarda Revolucionária, de quem
Mojtaba é muito próximo. “O sistema clerical mantém os ornamentos formais da
autoridade, mas o poder decisivo está agora noutro lado”, resume ao Observador
Ali Alfoneh, investigador especializado na crescente militarização do sistema
que governa o Irão.
“A Guarda
Revolucionária emergiu como o árbitro final do regime.”
Uma transformação que augura um
provável aumento da repressão interna e uma resistência feroz à ofensiva militar
de Estados Unidos e Israel. “A eleição de Mojtaba Khamenei assegura a
continuidade do âmago do regime, ao mesmo tempo que envia uma mensagem
desafiadora a Israel e aos EUA”, acrescenta Alfoneh.
A falta de pergaminhos religiosos de Khamenei
revela que regime abdicou da “pura teologia”
Formalmente, Mojtaba é um clérigo xiita que poderia um
dia ocupar o cargo de Líder Supremo. Mas até a sua formação religiosa revela como
a sua escolha é um sinal de radicalização do regime, dadas as suas posições.
Saber mais
Em 1999, o filho
de Ali Khamenei começou os seus estudos no seminário de Qom Shia, um dos mais
conservadores do país. Os seus orientadores foram religiosos particularmente
extremistas, como o aiatola Mohammad Taqui Mesbah-Yazdi. Este defendia que o Irão tem o direito a obter “armas
especiais” — leia-se armamento nuclear —
e que “o Islão não é compatível com a democracia”. Em 2002, emitiu uma fátua onde pedia a morte dos jovens iranianos
que promovessem comportamentos próximos da “imoralidade ocidental”.
“Ele era
um taleb [estudante de teologia] muito diligente, lia muitos
livros de teologia”, notou ao Figaro Amir Farshad Ebrahimi, antigo amigo de juventude de Mojtaba que
acabou no exílio por ter desertado das milícias populares Basij. Acabou por atingir o nível académico mais
alto do seminário e dar aulas. No entanto, até hoje não tem o título honorífico de aiatola,
o mais alto do Xiismo e essencial para se ocupar o cargo de Líder Supremo — é
apenas hojatoleslam, um título clerical intermédio.
“A escolha
da liderança no Irão nunca foi uma questão de pura teologia, constitucionalismo
ou princípio. Reflecte antes os imperativos do regime: sinalizar continuidade aos lealistas,
projectar desafio aos adversários estrangeiros e reflectir o equilíbrio de
poder interno — neste caso, a força da Guarda Revolucionária.”
Ali Alfoneh, investigador do Irão
“Tal como
aconteceu com o seu pai, as qualificações teológicas de Mojtaba Khamenei são
questionáveis”, nota Alfoneh. No caso de
Ali Khamenei, a situação foi resolvida com uma emenda constitucional:
“E, depois disso, ele foi promovido a aiatola do
dia para a noite. As credenciais religiosas de Mojtaba podem levar a um escrutínio
semelhante.”
Alguns dos 88
membros da Assembleia dos Peritos, responsável pela nomeação do Líder Supremo,
não terão gostado da ideia de nomear Mojtaba, seja pela falta de qualificações
religiosas, seja por preferirem um moderado, como Alireza Arafi (que fez parte
do conselho de transição) ou Hassan Khomeini (neto do aiatola Ruhollah
Khomeini).
▲ A
Assembleia de Peritos que escolheu Khamenei filho desvalorizou o facto de não
ter o título de aiatola AFP
via Getty Images
ÍNDICE
A falta de
pergaminhos religiosos de Khamenei revela que regime abdicou da “pura teologia”
A força
política de Mojtaba, “o poder por trás das vestes”
Como Khamenei
se uniu à Guarda Revolucionária para esmagar protestos no passado
“Sentimentos
crus e de vingança”? Guerra com Washington e Telavive deverá intensificar-se
Ao site ligado à oposição Iran International,
duas fontes garantiram que pelo menos oito membros faltaram à sessão de quinta-feira, em protesto
pelo que consideraram ser a “alta pressão” da Guarda Revolucionária para que a
escolha recaísse sobre Khamenei. Já o Instituto para o Estudo da
Guerra nota que um dos clérigos mais radicais da Assembleia, o
aiatola Mohammad Mehdi Mir Bagheri, tentou pressionar os outros membros para que
a votação fosse o mais rápida possível, de forma a impedir que se criasse uma
dinâmica anti-Khamenei.
“Isto mostra que
a escolha da liderança no Irão nunca
foi uma questão de pura teologia, constitucionalismo ou princípio”,
aponta Ali Alfoneh. “Reflecte antes os imperativos do regime: sinalizar continuidade aos
lealistas, projectar desafio aos adversários estrangeiros e reflectir o
equilíbrio de poder interno — neste caso, a força da Guarda Revolucionária.”
A força política de Mojtaba, “o poder por trás das vestes”
As ligações de Mojtaba à Guarda Revolucionária são
profundas e remontam à sua juventude, como veremos
mais à frente, mas foram trabalhadas ao
longo das últimas décadas através de um poder na sombra. Isto porque Khamenei filho se
tornou o líder de facto do Beyt, o órgão que garante a ligação do
Líder Supremo a todos os organismos do Estado e esferas da sociedade.
Manteve sempre uma presença discreta:
existem muito poucas fotografias com o seu rosto e, conta o Economist,
era conhecido por se deslocar para o seminário num velho Paykan, um antigo
modelo de carro iraniano. Mas no Beyt alargou a sua
influência: “Há muito pouca transparência
na acção do Beyt e as suas ações são muitas vezes baseadas em jogos de poder e clientelismo”, notou à France 24 Jonathan
Piron, historiador especialista no Irão.
No final dos
anos 2000, os cabos diplomáticos relevados pela Wikileaks davam conta da influência de Mojtaba Khamenei dentro do regime: descrito como uma figura “capaz e
forte”, era apelidado como sendo “o
poder por trás das vestes [religiosas]”.
▲ No
Beyt, gabinete de Ali Khamenei (na foto), Mojtaba consolidou a sua influência
política IRANIAN LEADER'S OFFICE HANDOUT/EPA
(ÍNDICE
A falta de pergaminhos religiosos de Khamenei revela
que regime abdicou da “pura teologia”
A força política de Mojtaba, “o poder por trás das
vestes”
Como Khamenei se uniu à Guarda Revolucionária para
esmagar protestos no passado. A
AAverdadeira posição em termos das facções políticas dentro do Irão é,
contudo, uma incógnita, como nota o investigador Alfoneh: “A verdade é que não
sabemos.” No entanto, o seu amigo de juventude Amir Farshad Ebrahimi garante
que Khamenei filho “sempre foi um
firme defensor da linha dura do regime”. Segundo Ebrahimi, Mojtaba
juntou-se ao coro de críticos do aiatola Ali Montazeri, um reformista,
declarando que “ele era pago pelo Ocidente” e que “deveria ser castigado com o
afastamento da sua condição clerical”.
Certo é que, nota o mesmo amigo, Mojtaba rapidamente
assumiu o papel de “embaixador” do
pai. “Quando lhe queríamos enviar uma mensagem ou quando ele queria falar
connosco, tínhamos de falar através do Mojtaba.”
Como Khamenei se uniu à Guarda Revolucionária para esmagar
protestos no passado
O que a escolha de Mojtaba Khamenei para
o cargo de Líder Supremo revela é sobretudo a sua proximidade da Guarda
Revolucionária.
Uma relação que vem de longe. Quando
tinha 17 anos, como contam os académicos Saeid Golkar e Kasra Aarabi num artigo publicado no Atlantic Council, Mojtaba juntou-se à
Guarda Revolucionária para combater na Guerra Irão-Iraque, onde fez parte da
27.ª Divisão Mohammad Rasulullah e do Batalhão Habib. O primeiro fora criado
por Ahmad Montevaselian, fundador do Hezbollah; o segundo era comandado por
Esmail Kowsari, atualmente deputado, cujo toque de espera da sua linha
telefónica, de acordo com o Wall Street Journal, é um cântico que diz
“América, morte ao teu engano, o sangue da tua juventude pinga da tua garra”.
“Mojtaba
Khamenei passou algumas semanas na frente em 1986 e pode ter forjado algumas
amizades com membros da Guarda Revolucionária”, diz ao Observador Ali Alfoneh. “Mas o
único contacto conhecido é Hossein Taeb, que mais tarde serviu como director
dos serviços de informações da Guarda Revolucionária.”
Uma relação que floresceu em 2009.
Quando milhares de iranianos saíram às ruas contra a reeleição de Ahmadinejad,
Khamenei filho e Taeb combinaram forças para esmagar os protestos. A
informação é sustentada num relatório das próprias secretas da Guarda
Revolucionária que vazou, nota o Atlantic Council, e em dados citados pelo grupo United Against Nuclear Iran, que
garantem que Mojtaba mantinha reuniões no Beyt com figuras destacadas do órgão
militarizado, “fazendo micromanagement de como a Guarda deveria
esmagar os iranianos nas ruas”.
▲ Mojtaba
Khamenei organizou a repressão dos protestos da Revolução Verde de 2009
Middle East Images/AFP via Getty
Índice
A força
política de Mojtaba, “o poder por trás das vestes”
Como Khamenei
se uniu à Guarda Revolucionária para esmagar protestos no passado
“Sentimentos
crus e de vingança”? Guerra com Washington e Telavive deverá intensificar-se
O vice-ministro da Administração
Interna, Mostafa Takzadeh, foi preso depois de classificar o resultado das
eleições como “um golpe eleitoral”. Mais tarde, declarou que
a sua prisão foi resultado “de um desejo direto de Mojtaba Khamenei”.
Estas
ligações indiciam que, com Khamenei filho no poder, o mais certo é acentuar-se
ainda mais a militarização do regime. Uma tendência que se reforçou com Ali
Khamenei e pode agora ter continuidade. “A morte de Khamenei libertou-os”, sentenciou
ao Economist um empresário iraniano no exílio, sobre os membros da
Guarda e das milícias populares como a Basij. “Estão mais militantes, nacionalistas e empoderados.”
“Sentimentos crus e de vingança”?
Guerra com Washington e Telavive deverá intensificar-se
Não é por isso de admirar que, quando a
nomeação de Mojtaba Khamenei como Líder Supremo foi anunciada, a Guarda
Revolucionária tenha sido dos primeiros organismos a reagir positivamente,
descrevendo o momento como “uma nova
alvorada” para a Revolução.
“[Khamenei filho] pode estar a ser
guiado por sentimentos crus e de vingança, que reforça a ideologia de confronto
existencial da República Islâmica com a América e Israel.”
Patrick Clawson e Farzin Nadimi, do
Washington Institute
ÍNDICE
A falta de
pergaminhos religiosos de Khamenei revela que regime abdicou da “pura teologia”
A força
política de Mojtaba, “o poder por trás das vestes”
Como Khamenei
se uniu à Guarda Revolucionária para esmagar protestos no passado
“Sentimentos crus e de vingança”? Guerra com
Washington e Telavive deverá intensificar-se
Mas
o mais certo é que, com Khamenei filho na liderança, o regime endureça ainda
mais e se foque na continuação da guerra com os Estados Unidos e
Israel. Afinal, os ataques destes países mataram não apenas o
pai de Mojtaba, como também a sua mãe e a mulher, com alguns relatos a falarem
na morte de um dos seus filhos e outros na sua irmã e cunhado. “Ele pode estar a ser guiado por
sentimentos crus e de vingança, que reforça a ideologia de confronto
existencial da República Islâmica com a América e Israel”, notam os
analistas Patrick Clawson e Farzin Nadimi num artigo publicado pelo Washington Institute.
A estratégia do Irão, acredita
Alfoneh, será agora a de focar os seus ataques nas infraestruturas de energia: “‘Tentem derrubar o regime de Teerão e lidem
com uma crise económica global’”, resume o analista. Ao mesmo tempo, o
mais certo será um endurecimento ainda maior do aparelho repressivo interno,
sobre os iranianos que ousem questionar a escolha na continuidade de Mojtaba. “O mundo vai sentir saudades da era do pai”,
desabafou à Reuters um responsável próximo do regime.
Dias antes da escolha de Mojtaba, o
Presidente Donald Trump descreveu-o como um “peso-pluma” e disse
taxativamente: “O filho de Khamenei é inaceitável para mim.” Foi exactamente
isso que o regime lhe entregou.
MÉDIO
ORIENTE MUNDO IRÃO ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA ISRAEL
COMENTÁRIOS:
MIGUEL SEABRA: Assembleia de peritos é muito bom! Deve ser como o
Observador com todos a dar notas mas neste caso para escolher o maior
tarado.
ANTÓNIO CÉZANNE: A Assembleia de Peritos escolheu o filho de Khamenei
para Líder Supremo Será preciso dizer mais alguma coisa sobre o Irão para
provar de facto que é um país que tem uma democracia de fazer inveja a todo o
planeta?
De
facto é um país em que toda a população tem o seu direito de voto, em que não
existe nenhuma ditadura. Tudo isso é invenção do ocidente.
PS:
a propósito daquela dos "3 Salazares" de Ventura, penso que não
chegavam 3, tinham que ser mais. Isto porque teria que haver coragem a sério
para obrigar mesmo, repito, obrigar mesmo todos os que apoiam aquele tipo de
regimes ditatoriais a viver lá pelo menos 3 meses. Nem que para isso o país
lhes pagasse as viagens.
Quem
vive cá e apoia o Irão - 3 meses no Irão.
Quem
vive cá e apoia a Rússia - 3 meses na Rússia.
Quem
vive cá e apoia a China - 3 meses na China.
Quem
vive cá e apoia a Coreia do Norte - 3 meses na Coreia do Norte.
Bastavam
esses 4 países nem era preciso incluir Cuba, Venezuela, etc.
Viagem
paga de ida e volta sem problemas.
Quem
gosta e apoia ditaduras, nada como os obrigar a viver no meio delas durante uns
tempos.
Quando
digo obrigar, é obrigar mesmo, nem que chorassem e implorassem.
Não apoiam ditaduras? Então?
Uiros Ueramos: Pensamento um pouco fora da caixa: talvez os velhos
aiatolás não sejam tão ingénuos como parecem. Ao escolherem o filho de Khamenei
para suceder ao pai, podem estar a resolver vários problemas de uma só vez.
Colocam no topo alguém identificado com a ala mais dura, satisfazem
momentaneamente a Guarda Revolucionária e preservam a aparência de continuidade
do regime. Num momento em que Israel e os EUA demonstram cada vez menos
paciência estratégica, colocar no cargo máximo uma figura associada à escalada
pode ser também uma forma muito conveniente de transferir o risco. Quando sair
do bunker, "leva logo com um míssil", e o regime perde o herdeiro, mas
ganha uma oportunidade política inesperada. Nessa altura, antes de a poeira
assentar, os mesmos aiatolás poderão apresentar-se como os adultos na sala,
promover uma sucessão “mais prudente” e abrir discretamente a porta a
negociações para salvar o essencial: o regime… e os seus próprios pescoços. Se
isto fosse um jogo de xadrez, seria uma jogada clássica: sacrificar uma peça
visível para preservar o rei verdadeiro.