domingo, 14 de junho de 2026

A construção do poder


E os seus limites.

FRANCISCO DE VITORIA, um nome a fixar.


Leão XIV e os limites morais do poder

Perante o Congreso de los Diputados, Leão XIV – o primeiro Papa a discursar na sede do poder legislativo de Espanha – voltou a Salamanca. E fê-lo de propósito.

GONÇALO DOROTEA CEVADA: Jurista

Haverá limites às maiorias conjunturais de cada tempo? Haverá legitimidades não adjectivas que ultrapassem a dureza das matemáticas parlamentares? Bastará ter votos para se ter razão? A resposta a estas inquietações não é nova – tal como as próprias inquietações de quem, desavergonhadamente, coloca estas dúvidas – mas, à boleia do discurso de Leão XIV desta semana no Congreso de los Diputados, vale a pena retomar este debate.

Há quinhentos anos, na Universidade de Salamanca, um frade dominicano respondeu-as. E, ao respondê-las, lançou algumas das raízes morais e intelectuais do Ocidente que somos. Chamava-se Francisco de Vitoria.

Das lições que ditou a orillas del Tormes, na expressão de Leão XIV, nasceu uma das ideias mais nobres que o Ocidente produziu: a de que existe uma Humanidade universal, dotada de uma dignidade que precede o poder, e que nenhum Príncipe, nenhum imperador, nenhuma maioria parlamentar pode legitimamente violar. Francisco de Vitoria negou ao Imperador, e ao próprio Papa, o domínio do mundo; reconheceu aos índios das Américas domínio pleno sobre as suas terras e os seus bens; e fundou, na própria natureza social do Homem, um direito dos povos a comunicarem entre si. E, tudo isto, no auge do poder espanhol, com uma liberdade de pensamento que falava acima das conveniências políticas da época.

Essa coragem não morreu com ele. Fez escola. Domingo de Soto, Francisco Suárez, Luis de Molina e Juan de Mariana prolongaram-na num programa comum: o de submeter o poder à dignidade da pessoa humana. Onde a modernidade que se seguiria havia de concentrar tudo na soberania, os mestres de Salamanca fizeram o movimento inverso. Sustentaram que a autoridade política não desce do céu sobre a cabeça do Príncipe, mas nasce da comunidade e a ela se ordena; que o Rei está sujeito à Lei e não acima dela; que o poder existe para o bem comum e perde legitimidade quando o trai – ao ponto de Juan de Mariana chegar a discutir, com uma corajosa e inquietante audácia, os limites para lá dos quais a tirania deixa de merecer obediência. Construíram, em suma, aquilo a que poderíamos chamar um código dos limites morais do poder. Ou, dito de outra maneira, um conjunto articulado de tesesa dignidade da pessoa humana, o justo preço e a moeda que o soberano não pode adulterar, o carácter derivado e condicionado da soberania, entre outras – que funcionava como fronteira intransponível para qualquer governante, por mais legítima que fosse a sua origem.

Ora, nada disto se limitou a ser um catálogo de boas intenções. Foi doutrina. Dura e arguta, talhada para enfrentar o poder em concreto. E é essa a herança que importa reter: Salamanca não proclamou apenas a dignidade da pessoa. Fez mais: defendeu que existe uma linha que nem as Coroas, nem as maiorias, nem a razão de Estado podem pisar sem deixar de ser justas.

Esta tese teve, esta semana, um verdadeiro comeback. Perante o Congreso de los Diputados, Leão XIVo primeiro Papa a discursar na sede do poder legislativo de Espanha – voltou a Salamanca. E fê-lo de propósito. Não como adorno de erudito, mas como tese central do seu pensamento. Devo aliás dizer que o momento mais alto do discurso papal não foi nenhuma das passagens sobre imigração, que já correram os jornais do mundo, mas o de se atrever a falar do necessário limite do poder político na própria sede do poder político: “Una ley no alcanza su verdadera grandeza por el mero hecho de haber sido formalmente aprobada; la alcanza cuando, además de ser válida en su forma, puede comparecer ante la dignidad de la persona y salir de ese examen sin avergonzarse.”

A frase é, certamente, mais subversiva do que o aplauso cortês deixou transparecer. E distingue duas coisas que a cultura jurídica dominante há muito confunde: a validade formal de uma lei e a sua justiça. Ou seja, uma norma pode ter percorrido, sem falhas nem vícios, todo o circuito formal e ser, ainda assim, profundamente injusta. Ora, isto é Vitoria em estado puro.

E o que está na raiz desta afirmação é, no fundo, uma objecção a séculos de positivismo jurídico, e à doutrina segundo a qual o Direito é apenas aquilo que o legislador competente aprova, deixando a Justiça de fora da equação normativa. Ora, a História do século XX, que conheceu legalidades imaculadas ao serviço da barbárie, expôs as fragilidades e as ilusões desta doutrina. E foi precisamente contra ela que Salamanca, séculos antes, ancorou o Direito numa natureza humana comum. Dizê-lo num hemiciclo, a quem detém o voto e vive da sua legitimidade, é recordar aos legisladores que a sua autoridade é evidente, e grande, mas não ilimitada. No fundo, que há um limiar abaixo do qual nenhuma lei, por mais votos que tenha, pode descer. Ou não deveria.

Mas Leão XIV não foi o primeiro Papa a regressar a Salamanca. Em 2011, no Bundestag, Bento XVI afirmou que a vontade da maioria pode bastar para regular muita coisa, mas alertou que em matéria de dignidade do Homem essa vontade não basta, porque há um Direito que a precede e que ela, a maioria, por mais sólida e alargada que seja, não fabrica.

Sob pena de Vos perder, volto a 2026. Pouco tempo antes da visita do Papa Leão XIV, Espanha despediu-se de Noelia Castillo – a jovem de 25 anos que morreu ao abrigo de um artigo da Lei da eutanásia. Ora, o Papa não a nomeou. Mas como não pensar nela ao ouvi-lo defender a vida dos mais frágeis perante o mesmo país que a deixou partir? A convivência, advertiu, pode ser ameaçada pela “cultura do descarte”. Mais, se a vida deixa de ser reconhecida como valor fundamental, perguntou diante do hemiciclo, “¿qué futuro pueden tener nuestras sociedades? ¿Puede llamarse plenamente justa una comunidad que deja en la sombra al niño aún no nacido, al anciano, al enfermo, a quien sufre en silencio o a quien depende enteramente del cuidado de los demás? La defensa de la vida humana no es una cuestión parcial ni un interés confesional: es una meta de civilización. Toda vida humana debe ser reconocida y custodiada desde su concepción hasta su ocaso natural, en cada circunstancia de su existencia”. E as Cortes aplaudiram-no, numa rara trégua entre capuletos e montéquios. Fica o ensinamento, que é também uma esperança.

Em suma, Vitoria teve a coragem de fundar a dignidade na razão e de a opor, em pleno século XVI, aos poderes do seu tempo. Que cinco séculos depois um Papa a venha repetir no Parlamento espanhol, e que essa instituição o escute e o aplauda de pé, não é sinal de que tenhamos desaprendido a lição. É antes um sinal de que ela continua viva, de que ainda comove, e de que há em nós, apesar de todo o ruído, uma memória que reconhece a Verdade quando a ouve. Salamanca deu-nos a lição; Madrid lembrou-nos que ainda a sabemos ouvir. Talvez seja por aí que tudo recomeça. E Espanha precisa desse reset.

TRIBUNA ABERTA      PAPA LEÃO XIV      IGREJA CATÓLICA      RELIGIÃO      SOCIEDADE      ESPANHA      EUROPA      MUNDO      OPINIÃO      OBSERVADOR

COMENTÁRIOS (de 7):

Jorge Barbosa: Excelente artigo que deveria estar nas mesinhas de cabeceira para ser lido de tempos a tempos por todos os cidadãos, designadamente os eleitos para a liderança político partidária . Por mim, só tenho a agradecer ao autor, e também ao Observador pela qualidade dos seus autores

Sr Leão: A notável plêiade de colaboradores do Observador justifica -- indirectamente, é bom que se diga -- a qualidade muito discutível da maioria dos profissionais de jornalismo que se ocupa da redacção das notícias e a ausência de quem se ocupe da revisão final dos textos. O autor do presente artigo enquadra-se nessa plêiade. Este artigo acumula com as suas virtudes essenciais a oportunidade e a excelência.

sábado, 13 de junho de 2026

Preocupações

  

Certamente justificáveis, mas esperemos que não sirvam para chamar a atenção dos predadores mundanais.

A geopolítica dos Açores no 10 de junho

Os Açores ganham relevância em períodos de maior conflitualidade entre grandes potências, sobretudo, se o Atlântico Norte for um palco importante dessa disputa.

O 10 de junho, o Dia de Portugal, escolhido em homenagem a Camões – para resolver a polarização entre o 1 de dezembro e o 5 de outubro – infelizmente raramente honra o imortal na qualidade da retórica. João Miguel Tavares tem razão, que este é um mal geral na política portuguesa das últimas décadas. Ainda menos, se possível, se destaca pela atenção à política externa, excepto na ritual promoção da diáspora portuguesa (onde podíamos aprender alguma coisa com a Irlanda em como apoiar e apoiar-se nessa rede global). Este ano foi diferente, se não na retórica, pelo menos na evidente centralidade da dimensão externa.

Os Açores ganham relevância num mundo conflituoso

Os Açores ganham relevância em períodos de maior conflitualidade entre grandes potências, sobretudo, se o Atlântico Norte for um palco importante dessa disputa. E se é verdade que a China continua pouco presente neste espaço, a Rússia está mais activa. Sobretudo, o Atlântico e os Açores continuam a ser fundamentais para a defesa avançada e a projecção global de poder dos EUA, como o caso recente do Irão mais uma vez mostrou – como na crise de Berlim, em 1948-49, ou na guerra do Yom Kippur, em 1973.

Neste cenário, os Açores também se tornam num alvo potencial de grandes potências em conflito. O primeiro grande exemplo disso surge no final do século XVI, quando a hegemonia naval ibérica no Atlântico começa a ser seriamente contestada, com o notório ataque de corsários ingleses à Horta, em 1589, parte da guerra naval irregular de Londres contra os Habsburgo de Madrid. Na Primeira Guerra Mundial foi Ponta Delgada a ser alvo de bombardeamento por submarinos alemães (bem como o Funchal, na Madeira). Aliados ameaçados também podem ser um problema. Na Segunda Guerra Mundial, quer a Grã-Bretanha, quer os EUA temiam um golpe de mão nazi sobre os Açores – como os alemães fizeram, com sucesso, na Noruega ou em Creta. E planearam para essa eventualidade uma ocupação militar das ilhas açorianas.

No caso britânico, a Operação Alacrity envolvia as duas únicas divisões que saíram mais ou menos equipadas e operacionais da queda de França. Churchill sabia que perder a Batalha do Atlântico significava o colapso da economia e da máquina de guerra britânica. No caso norte-americano, o Plano Cinzento – ordenado por Roosevelt, que visitara os Açores na Primeira Guerra e conhecia a sua importância geoestratégica – envolvia 28.000 soldados e fuzileiros. Em 27 de maio de 1941, Roosevelt chegou a ameaçar publicamente, num discurso, com a ocupação. E os norte-americanos ocuparam, efectivamente, nesses meses, a Gronelândia e a Islândia, territórios da Dinamarca, invadida pelos nazis, embora tivessem garantido a cooperação voluntária das autoridades locais. Uma combinação de factores evitou essa acção norte-americana: pressão diplomática britânica e até vaticana, brasileira; o reforço da presença militar portuguesa; informações que mostravam que a ocupação nazi da Península, para não falar dos Açores, era cada vez mais improvável, a partir da invasão da Rússia, no verão de 1941; e, em 1943, a cedência do uso de bases aos Aliados.

Vale a pena notar que apesar dessas ameaças, os Açores nunca foram ocupados por uma potência hostil. Mesmo na união dinástica com Espanha, formalmente, o arquipélago continuou a fazer parte do reino de Portugal. Na verdade, a Terceira só caiu três anos depois do continente, em 1583. Durante esses anos provou o seu valor como rectaguarda estratégica, permitindo ao pretendente D. António, Prior do Crato, continuar a contestar a coroa portuguesa. Desde que Portugal deixou de ser uma potência naval dominante no Atlântico, com dificuldades para garantir, por si só, a segurança do arquipélago, ou seja, desde que recuperou a sua independência em meados do século XVII, tem apostado numa aliança sólida com a potência naval dominante no Atlântico. O problema é que hoje em dia a ameaça potencial à soberania portuguesa nos Açores parece vir, sobretudo, precisamente da maior potência do Atlântico, do nosso aliado mais poderoso, os EUA. As ameaças absurdas de Trump relativamente à região autónoma dinamarquesa da Gronelândia (tão absurdas e injustificáveis que mesmo políticos europeus da mesma linha ideológica e com boas relações com o presidente dos EUA, como Meloni, Le Pen, ou a AfD as criticaram) são o pano de fundo evidente da opção do Presidente Seguro por organizar o seu primeiro 10 de junho nos Açores, em Angra, na Terceira, a ilha onde está a base portuguesa das Lajes. Embora, por razões diplomáticas compreensíveis, isso não tenha sido publicamente declarado.

O que fazer?

Desse ponto de vista o meu amigo MIGUEL MONJARDINO disse as palavras justas – unidos somos mais fortes, nos Açores, em Portugal, na Europa. Precisamos de palavras claras por exemplo, sobre as Lajes sempre terem sido uma base portuguesa cujo uso é cedido em certas condiçõesmas precisamos ainda mais de acções e investimentos claros. O Presidente Seguro fez bem em usar esta ocasião para reafirmar no seu discurso a importância de Portugal investir na sua soberania nos Açores e mostrar o seu interesse nos portugueses açorianos. É certo que cabe ao governo, e não ao presidente, definir a política externa, a política de defesa, a política interna. Ainda assim teria gostado de ver mais da magistratura de influência presidencial do que uma referência vaga à importância das Forças Armadas.

Seria uma boa ideia procurar proactivamente uma presença militar frequente, ou até permanente, dos nossos parceiros europeus, nas ilhas, como foi o caso da França nas Flores, entre 1964-1994. É, sobretudo, fundamental reforçar a presença militar portuguesa nos Açores, como a Dinamarca tem feito na Gronelândia, e como Portugal fez durante a Segunda Guerra Mundial. Embora hoje seja mais uma questão de milhares de drones do que de milhares de soldados (que não temos). É fundamental investir num rearmamento que aposte numa segurança marítima virada para a nossa realidade de país arquipelágico e a realidade da guerra no século XXI. Como temos visto na Ucrânia e no Irão os drones pesam mais do que as fragatas como niveladores de poder e fatores de dissuasão e defesa. Como bem sublinhou Miguel Monjardino uma grande potência pode muito, mas não pode tudo. A história é um cemitério de grandes potências que confundiram ter muito poder com ser omnipotentes.

No momento actual, a tecnologia militar parece favorecer um certo nivelamento de poder. Embora convenha ser prudente, a evolução tecnológica é tão rápida que deixar de inovar em defesa é um risco maior do que nunca, e uma área em que a Europa em geral e Portugal têm enormes deficiências. Em tudo isto o papel fundamental caberá ao governo, mas o Presidente pode e deve promover a visibilidade destes temas. E, antes que os trumpistas do costume se alarmem, noto que nada disto pode ser visto como hostilidade para com os EUA (a não ser, claro, que a actual administração venha a mostrar intenções hostis sobre os Açores como as que manifestou relativamente à Gronelândia). Pelo contrário, tendo em conta a insistência acertada de Trump em que os aliados europeus devem fazer mais pela sua defesa, Washington só poderá elogiar Portugal e outros países europeus que estejam militarmente mais presentes no Atlântico.

AÇORES PAÍS SOCIEDADE GEOPOLÍTICA MUNDO

COMENTÃRIOS (de 18)

Paulo Silva: Após a abrilada, sempre que dos states paira uma ameaça sobre as ilhas atlânticas, real ou imaginária, Lisboa entra em sobressalto… É agora com Trump, foi assim na altura da descolonização ‘exemplar’ e das autonomias. Podíamos perder todas as colónias em África para a órbita de russos e chineses, inclusive o arquipélago de Cabo Verde, só não podíamos perder para os capitalistas americanos...  Temo que se em 74 os states se chamassem União das Repúblicas Socialistas Soviéticas da América, (URSSA), os açorianos há muito que seriam o 51 Estado com o aval da comuna de Lisboa...

Tim do A: Cuidado! Diz bem. Os Açores nunca foram ocupados por uma potência. Porque será? Olhe que os açorianos estão desejosos de serem americanos. Salazar sábio, sabia muito bem que para manter os Açores em Portugal tinha de ceder as Lajes aos EUA. Sem cobrar nada! E  éramos um império. E Salazar nem gostava dos americanos. Agora que somos apenas um protectorado da UE, sem soberania, vendidos por um prato de lentilhas que a UE nos paga anualmente e que mesmo assim estamos cada vez mais pobres por causa da corrupção, só faltava que os abrileiros se armassem agora em soberanos dos Açores e causassem dificuldades aos EUA. É que aos abrileiros só falta perderem os Açores e a Madeira.

Carlos Carvalho: Não consegue fugir do Trump. Só Obama fez o mesmo, isso já não interessa nada…limitações dum historiador…





Os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não é a falta de sonhos: é nunca acordar.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 13 jun. 2026, 00:24

Primeira parte: política

Vejo muita gente preocupada com a circunstância de o Mundial se realizar sobretudo nos EUA. Trata-se de um receio pertinente. É sabido que na América actual as autoridades fascistas começam por deter e deportar metade dos visitantes logo no aeroporto. Depois perseguem a outra metade pelas ruas, na maioria das vezes a tiro. E se por acaso no processo sobrar um turista incauto, os agentes do ICE são meninos para segui-lo até o restaurante, sentarem-se na mesa ao lado e passarem a refeição a comer com a boca aberta só para suscitar irritação. Não são as condições ideais para a realização da prova-rainha do desporto-rei. Principalmente numa altura em que a FIFA nos habituara a designar anfitriões com provas dadas de hospitalidade e decência democrática. Houve a África do Sul do sr. Zuma em 2010. Houve o Brasil da dona Dilma em 2014. Houve a Rússia do sr. Putin em 2018. E houve o Qatar dos senhores que mandam no Qatar em 2022. Descer destes regimes exemplares para a autocracia do sr. Trump é um risco escusado e um sinal de que, contra todas as expectativas, as altas instâncias do futebol afinal não são absolutamente impolutas. O que é uma surpresa e um desgosto.

Intervalo capilar

Apesar da natural apreensão sobre as condições políticas, o fundamental é concentrarmo-nos durante 39 dias no que conta: os penteados dos jogadores. Parece impossível, mas na pré-história do futebol os futebolistas possuíam um aspecto similar ao dos restantes mortais. Depois vieram as guedelhas dos anos 1970, as permanentes dos anos 1980 e o estilo mopa/esfregão celebrizado por Figo nos anos 1990. E hoje os jogadores voltaram a ter um aspecto similar ao dos restantes mortais: os mortais que habitam as favelas de Recife, os “barrios” de Ciudad Juarez e as escolas secundárias de Portugal em peso. Embora as tatuagens, a bijuteria e o vestuário sejam importantes, o penteado é determinante. O dito consiste em rapar o cabelo oito centímetros acima da orelha, de maneira a que não se insinue sequer o vestígio de uma patilha. À frente, procede-se a uma risca desenhada a betume ou, preferencialmente, uns caracóis pendurados na testa. Atrás, é aconselhável aparar os pelos da nuca em forma de triângulo, a fim de completar o visual de quem teve alta hospitalar após severa lobotomia. Lavrar traços alegóricos no meio dos folículos é facultativo, enquanto o bigodinho e um arremedo de barbicha na ponta do queixo são acrescento de categoria. Para os autênticos estetas, a cereja no topo do bolo é a tinta amarela no topo da cabeça, adereço que torna o Brasil a selecção com mais loiros em actividade e consagra a expressão “escrete canarinho”.

Segunda parte: inclusão

Óbvia é a ironia de um país com profundas lacunas democráticas acolher o Mundial mais democrático de sempre. Antigamente, a tradição mandava que após apuramento prévio apenas uma ou duas dúzias das melhores selecções se apurassem para a fase final. Felizmente a tradição faleceu. Agora há um apuramento prévio em que, como no ensino inclusivo, quase nenhuma equipa reprova. Por mim, estou ansioso por ver os 104 (cento e quatro) desafios, mas mentiria se não confessasse particular expectativa face aos jogos Alemanha vs. Curaçau, Áustria vs. Jordânia, Uzbequistão vs. Colômbia, Iraque vs. Noruega e Papua-Nova Guiné vs. Turquemenistão. E quero ver com atenção redobrada o desempenho das selecções de Tuvalu, do Panamá e da Eritreia, nações cujos torneios internos não tenho acompanhado regular e devidamente. Em contrapartida, lamento a desqualificação precoce e injusta da Ilha da Páscoa.

Prolongamento: táctica

Nos maus tempos, o futebol permitia a distinção de futebolistas com talento para aquilo. Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico, Beckenbauer ou Maradona jogavam muito bem, ou o que os leigos achavam que era jogar muito bem. Porém, como nos esclarecem 682 comentadores e especialistas na modalidade, o objectivo da modalidade não é entreter o pagode com jogadas “bonitas”. O objectivo é vencer as partidas através da aplicação de tácticas complexas e que o leigo tende a confundir com uma correria desenfreada e sem tino. Fintar o adversário é rigorosamente proibido. Jogar “bem”, idem. No futebol “moderno” e cientificamente entediante, graças a Deus, a única finalidade é fazer com que 11 sujeitos dotados de excelente preparação física e criatividade reduzida enfiem colectivamente a bola na baliza e, após esperarem 15 minutos de modo a que as “novas tecnologias” (o registo de imagens, divulgado pelos Lumière em 1895) confirmem o golo, com que o golo se festeje com pantomimas ensaiadas e o ar misteriosamente furioso do seu autor. Sem falha, sob pena de despedimento, o relatador de serviço vai proclamar com os gritos de um possesso: “É isto a magia do futebol!” Mas a essa hora o espectador, leigo e bruto, já adormeceu no sofá.

Penáltis: patriotismo

E a selecção portuguesa? Está bem lançada. O presidente Seguro visitou-a e esgotou os clichés disponíveis: “O país acredita em vós. Façam-nos sonhar e tragam para Portugal a taça que nos falta. Vamos todos torcer por vocês. Acredito que, com o vosso entusiasmo, força, fibra, talento e trabalho, isso é possível. (…) Num torneio desta dimensão, também se passa por muitas dificuldades e muitas exigências, mas é aí que se mostra a fibra e a alma de ser português. Nessa altura, estarão milhões de pessoas em todos os cantos do mundo a torcer por vós e a dar-vos o máximo apoio.” O primeiro-ministro manteve os clichés e reforçou o delírio: “Assumimos, sem rodeios, que somos candidatos a poder ganhar o Campeonato do Mundo. Temos muitos desportistas que são os melhores do mundo. Este é um alento à nossa capacidade enquanto país, de podermos pensar que, em todas as áreas de actividade, com espírito de equipa, superação e vitória, conseguimos fazer coisas que os outros ainda não fizeram.” Somos, portanto, espectaculares. Temos força, fibra, talento, trabalho, mais fibra, alma, espírito de equipa, superação e vitória. Com tudo isto é um enigma que entremos no Mundial com um pib per capita inferior ao de 54 países sem dúvida com menos fibra e alma e etc. E é garantido que sairemos do Mundial na mesma. Entre ambos os momentos, o bom povo debaterá as competências de “Rónaldo” e louvará os méritos da “transição ofensiva” e protestará as arbitragens e pendurará bandeirinhas e insultará os presunçosos que teimam em recordar que o futebol era só um divertimento e hoje aborrece um santo. Em suma, os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não é a falta de sonhos: é nunca acordar.

FUTEBOL      DESPORTO      PAÍS      SOCIEDADE      SONHOS      SONO      BELEZA E BEM ESTAR      LIFESTYLE      POBREZA

COMENTÁRIOS De 21)

SDC Cruz: Caro Alberto Gonçalves, excelente o seu comediar! Só faltou acrescentar na frase "Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico, Beckenbauer ou Maradona...", o Eusébio. Obrigado e até para a semana.

MIGUEL SANCHES: Eu comparo algumas crónicas do Alberto Gonçalves aos irmãos Marx, no que toca a fazer-nos rir à farta. Delicioso.

Jorge Espinha; Concordo com isso das 48 equipas e desconfio que não fique por aqui…E não sei se vou ver muitos jogos , a FIFA portou-se como de costume de maneira miserável. Não tão miserável como no Qatar com a dança encima da campas de 6000 cadáveres mas miserável mesmo assim. Não há limite no esmiframento de todo o cêntimo do bolso do adepto. Mas há bom remédio para si e para mim , não ver ! E Portugal não é assim tão excepcional , a Alemanha é louca por futebol e não é por isso que não é desenvolvida. Os nossos problemas são outros

Tim do A: É por isto que os portugueses são pobres. É que só pensam em futebol e são mais exigentes com as equipas de futebol do que com os governos e governantes. E os governantes sabem disso e estimulam isso. A comunicação social também. Faz um papel péssimo e tem responsabilidade. É um Portugal adormecido que só pensa no futebol enquanto os políticos roubam os portugueses à tripa forra. Veja-se agora o caso das obras megalómanas que todos vamos pagar: aeroporto, ferrovia, pontes. Tudo isso podia ser financiado pela UE com a bitola europeia, mas Montenegro e o ministro Pinto Luz, vão fazer com que sejam os portugueses a pagar com impostos tremendos o erro da bitola ibérica que a UE não paga. Tudo isso só para enriquecer a maçonaria,  os bancos, as construtoras do regime e eliminar a concorrência prejudicando os utilizadores desses serviços. Tudo a continuação do PS de Costa e do ex ministro Pedro Nuno Santos. Todos vendidos a quem lhes paga mais e a quem lhes dará os tachos no futuro. Acordai Portugal de uma vez por todas! Sair de casa dos pais tornou-se um luxo. No tempo de Salazar todos conseguiam fazer vida. O centrão corrupto tira o dinheiro aos portugueses e serve os políticos em vez de servir o pais. Foi para isso que eles fizeram o 25 de Abril que comemoram todos os anos com muita propaganda e desgraçados cravos vermelhos ao peito às  custas do povo. Os abrileiros comem tudo e não deixam nada. Ficam todos ricos com o poder. Servem-se em vez de servir.  Volta Salazar!

Novo Assinante: Exmo. senhor colunista Alberto Gonçalves, Dirijo-lhe este comentário sem prejuízo do respeito que me merece. Diz-me o Windows Office que V.Exa escreveu oitocentas e nove palavras, que resultaram num conjunto de vacuidades sem qualquer sentido. Como é possível, em pleno século 21, que um mero opinador de um jornal, o senhor Alberto Gonçalves neste caso, que nem jornalista é, consiga escrever meia dúzia de vacuidades e assim pagar as despesas ao fim do mês? Como é possível que os leitores do nosso jornal Observador e principalmente os contribuintes portugueses, que passam por enormes dificuldades económicas como todos sabemos na sequência destas guerras insanas e ilegais desencadeadas pelo novo Hitler e pe dó fi lo Donald Trump e que já nem dinheiro têm para pagar os bens alimentares de que precisam e se estejam a endividar e a recorrer ao Banco Alimentar Contra a Fome para não morrerem à fome, estejam a financiar o pagamento da avença mensal do senhor Alberto Gonçalves? Qual é o retorno desse investimento para todos nós? Ler estes conjuntos de vacuidades que o senhor Alberto Gonçalves por aqui deixa? Tenha muita paciência, senhor Alberto Gonçalves. Este seu "trabalho" tem um nome: parasitagem do dinheiro dos contribuintes. Ponto!

CARLOS F. MARQUES : Novo AssinanteCom tantas dores, só podes ser jornaleiro do OBS.

JOSÉ PAULO CASTROCARLOS F. MARQUES: Dos despedidos ?

CARLOS F. MARQUES: Muito Bom.

TRISTÃO: Lá vem a crítica ao futebol e ao Mundial por parte do intelectual de serviço. É um clássico que nunca falha.  Será que as pessoas não podem, de vez em quando, entreter-se com algo mais leve? Terão de viver permanentemente preocupadas com todos os dramas do mundo, sem espaço para o lazer, para o convívio ou para a simples diversão? O texto do Alberto tem, como habitualmente, algumas tiradas engraçadas. Mas, no essencial, cumpre o seu propósito: mais um texto anti-futebol, anti-Mundial e, já agora, anti-euforia colectiva. Parece que os portugueses só terão autorização para se divertir quando forem o país mais rico do mundo… Até lá, resta-lhes trabalhar, preocupar-se e sentir culpa por gostarem de futebol. Felizmente, a maioria das pessoas percebe que uma coisa não impede a outra. É perfeitamente possível interessarmo-nos pelos problemas do país e do mundo e ao mesmo tempo, desfrutar de um Mundial de futebol. É isso que vou tentar fazer…sem sentimento de culpa. 😅

ANA RITA: Caro Alberto, os portugueses não querem mesmo acordar, o terem eleito Seguro é mais uma prova disso. É deixá-los sonhar.

FERNANDO CE: Infelizmente , uma grande conclusão.

RUÇO CASCAIS

Muito bom.

Quais serão as frases feitas que vão sair do armário se voltarmos para casa precocemente?

Eu digo:

Jornalistas: o selecionador não soube aproveitar o enorme talento dos jogadores portugueses.

Povo: com Ronaldo a titular jogámos com menos um. Enquanto Ronaldo e Jorge Mendes mandarem na federação não ganhamos nada!

Presidente da República: não nos deram a oportunidade de mostrarmos ao mundo o enorme talento português. Vamos continuar a acreditar e a lutar pela excelência da alma portuguesa para que numa próxima oportunidade possamos finalmente nos revelarmos como os melhores do mundo. Não obstante, pelo grande feito de representarem com enorme orgulho o povo português, todos sem exceção, serão homenageados com a grande medalha da Ordem do Infante.

PEDRA NUSSAPATO: Este artigo de AG inaugura oficialmente a silly season 😒...

ANTONIO MARQUES MENDES: Cáustico e certeiro. Se vivesse na era dos Romanos, criticava os leões, os gladiadores, o povo, ou Caligula?

SDC CRUZ: Caro Alberto Gonçalves, excelente o seu comediar! Só faltou acrescentar na frase "Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico, Beckenbauer ou Maradona...", o Eusébio. Obrigado e até para a semana.

JOSÉ B DIAS: Subscrevo sem hesitar!

ALEXANDRE BARREIRA: Pois. Caro AG. Bela jogada. Mas só pelo facto de podermos ver. o CR7 a......"comer-o-relvado". Vai valer a pena......!

ANTÓNIO LAMAS: Que maravilha logo para abrir o fim de semana.  Obrigado Alberto. Só uma correção : Não são 682 comentadores são 683. Esqueceu-se do professor Marcelo

MIGUEL SANCHES:Eu comparo algumas crónicas do Alberto Gonçalves aos irmãos Marx, no que toca a fazer-nos rir à farta. Delicioso.

AMÉRICO SILVA: Chegou o tempo, as ovelhinhas estão festivamente preparadas para a tosquia, de onde regressarão com a satisfação própria de videntes e miraculados, disponíveis para contar aos incautos a sua maravilhosa experiência.

ALCIDES LONGRAS: 3  Será que o Alberto tem alguma coisa contra a "futebolite"? Como bom português, não pode!

A dimensão humana

 

Medida no pretensiosismo das chefias mundanais, enquanto o mundo vai girando, atento ou indiferente

Guerra no Irão acabou? Os detalhes do memorando que já está escrito, mas ainda não foi assinado

Memorando prevê reabertura de Ormuz e retirada de urânio enriquecido de solo iraniano. Deverá ser assinado em breve. EUA e Irão vão continuar negociações para acordo final — e à revelia de Israel.

JOSÉ CARLOS DUARTE

12 jun. 2026, 22:04

ÍNDICE

OS 14 PONTOS: AS MUITAS DÚVIDAS EM REDOR DO QUE O IRÃO DIVULGOU

AS EXIGÊNCIAS NORTE-AMERICANAS E OS AVISOS DE ISRAEL QUE QUER CONTINUAR A DESMONTAR O EIXO DE RESISTÊNCIA

GUERRA NO IRÃO ACABOU? OS DETALHES DO MEMORANDO QUE JÁ ESTÁ ESCRITO, MAS AINDA NÃO FOI ASSINADO

TEXTO

JOSÉ CARLOS DUARTE

MEMORANDO PREVÊ REABERTURA DE ORMUZ E RETIRADA DE URÂNIO ENRIQUECIDO DE SOLO IRANIANO. DEVERÁ SER ASSINADO EM BREVE. EUA E IRÃO VÃO CONTINUAR NEGOCIAÇÕES PARA ACORDO FINAL — E À REVELIA DE ISRAEL.

12 jun. 2026, 22:04

Num conflito em que se repetem os volte-faces e em que existe uma constante guerra para dominar a narrativa, certo é que Donald Trump cancelou os ataques que tinha inicialmente anunciado esta quinta-feira à noite e deixou cair as ameaças de controlar a ilha de Kharg. O Presidente norte-americano assegurou também que os altos dirigentes do regime iraniano deram luz verde ao memorando. Todas as partes concordaram”, assinalou o líder dos Estados Unidos, frisando que outros países no Médio Oriente — como Israel, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar ou a Turquia — também estão de acordo com a solução.

Em resultado deste aparente consenso, dirigentes iranianos e norte-americanos deverão encontrar-se na Europa nos próximos dias para assinar o memorando de entendimento. A Bloomberg avança que a assinatura terá lugar em Genebra, na Suíça, no domingo, devendo ser o vice-presidente norte-americano JD Vance a assumir essa responsabilidade. Quatro aviões da Força Aérea dos Estados Unidos já foram transferidos para a Europa para preparar a visita do número dois da Casa Branca a território suíço.

JD Vance deverá ser o principal responsável norte-americano da assinatura do memorando de entendimento

AARON SCHWARTZ / POOL/EPA

ÍNDICE

O lado iraniano revelou publicamente os 14 pontos do memorando de entendimento. Contudo, Donald Trump já veio contestá-lo publicamente e garantiu que não era verdadeiro. Numa publicação na Truth Social, o líder norte-americano assegurou que os termos que o Irão divulgou “não têm nada a ver” com o que ficou definido. “O que eles dizem não tem qualquer relação com a verdade. São pessoas muito desonestas. Com eles não há nada que seja de boa fé”, atacou, lançando um aviso: “É melhor que eles se organizem, e rapidamente”.

As mensagens públicas revelam que os dois lados têm um objectivo claro em mente com todo este processo negocial: declarar vitória para consumo interno. Donald Trump quer apresentar-se como aquele que impediu o Irão “de ter uma arma nuclear”, reabrindo pelo meio o Estreito de Ormuz. Em simultâneo, o regime iraniano sabe que um futuro acordo favorável será fundamental para a sua legitimação após a morte de Ali Khamenei — a narrativa será que os novos líderes conseguiram novamente derrotar tanto as intenções dos EUA, como Israel na região, vergando-os à sua vontade.

Os 14 pontos: as muitas dúvidas em redor do que o Irão divulgou

A agência de notícias iraniana Mehr avançou quais serão os 14 pontos do memorando do entendimento. Os Estados Unidos nunca o confirmaram — como Donald Trump deixou bem claro — e é certo que não serão aqueles que foram divulgados pelo Irão. Segundo avançou o jornal Axios, os tópicos de discórdia foram muitos durante as negociações, como a reabertura do Estreito de Ormuz, o levantamento de sanções, os fundos atribuídos a Teerão para reconstrução de infraestruturas e o enriquecimento de urânio.

Estreito de Ormuz deve reabrir com base no memorando de entendimento

Índice

Caso o Irão avançasse com o plano que difundiu nos meios de comunicação social próprios, o regime obteria uma vitória em toda a linha. As hostilidades cessavam com a sensação de triunfo para Mojtaba Khamanei, que manteria o aliado Hezbollah no Líbano, país em que também havia um “fim permanente das hostilidades” — o que frustraria os objectivos de Israel. O memorando previa que os Estados Unidos prometeriam que não haveria uma “nova interferência dos assuntos internos do Irão”, assim como a “retirada de todas as suas forças dos arredores” do país.

A versão iraniana filtrada à agência Mehr implicaria uma retirada significativa de tropas norte-americanas no Médio Oriente. “Durante as negociações, os EUA comprometeram-se a não aumentar as suas forças na região e a não impor novas sanções” — é igualmente um dos pontos deste memorando de entendimento, que também levaria ao “levantamento completo do bloqueio naval em 30 dias”.

Na mesma medida, os Estados Unidos teriam aceitado suspender as “sanções à venda de petróleo e produtos petroquímicos”, dando o “acesso irrestrito” de Teerão “aos recursos financeiros” a que considera ter direito. Mais: a Casa Branca libertaria 24 mil milhões de dólares (cerca de 21 mil milhões de euros) “em fundos iranianos bloqueados” nos próximos 60 dias. “Metade deste montante deveria ser disponibilizado ao Irão antes do início das negociações.”

Versão iraniana sugere que EUA diminuiria a presença militar no Médio Oriente

VALDA KALNINA/EPA

ÍNDICE: Os 14 pontos: as muitas dúvidas em redor do que o Irão divulgou As exigências norte-americanas e os avisos de Israel que quer continuar a desmontar o eixo de resistência

O ponto que talvez seria uma concessão significativa dos Estados Unidos seria a possibilidade de os Estados Unidos terem concordado em apresentar um “plano de reconstrução para o Irão”, juntamente com os aliados na região, no valor de 300 mil milhões de dólares (cerca de 259 mil milhões de euros). “As negociações finais não terão início antes da libertação de metade dos fundos congelados do Irão, da suspensão das sanções ao petróleo iraniano e do levantamento do bloqueio naval”, lia-se ainda na versão iraniana.

Por sua vez, o Irão apenas cederia, nesta versão, na reabertura do Estreito de Ormuz nos próximos 30 dias. O país aceitava que, nos próximos 60 dias, se chegaria a um “acordo final baseado em questões nucleares e na completa suspensão das sanções primárias e secundárias dos EUA, bem como das resoluções do Conselho de Segurança da ONU e do Conselho da Agência Internacional de Energia Atómica”. Teerão também reiteraria a premissa de que não “produziria armas nucleares” e permitiria um “mecanismo de monitorização para implementar o acordo”.

Com base nestes 14 pontos, o Irão poderia declarar vitória, saindo desta guerra numa posição relativamente privilegiada. Porém, tal como Donald Trump já confirmou, esta versão não será a final. Os Estados Unidos dificilmente fariam concessões deste género, principalmente no que toca aos fundos de recuperação de 300 mil milhões de dólares. Mesmo assim, a estratégia de Teerão pode ter tido duas finalidades: obter um maior número de cedências dos norte-americanos na recta final das negociações e apresentar este memorando aos iranianos como o definitivo — ditando, desta forma, qual será o tom da discussão dentro de fronteiras.

Chefe da diplomacia iraniana tem sido o responsável pelas negociações

DMITRI LOVETSKY / POOL/EPA

ÍNDICE

Segundo adiantou o Axios, que ouviu fontes de países mediadores como o Qatar ou o Paquistão, o Irão terá feito cedências em relação ao programa nuclear, incluindo no enriquecimento de urânio. Sobre este ponto, Teerão ter-se-á mostrado disponível para “reduzir a concentração de urânio altamente enriquecido dentro do país, sob a supervisão de inspetores das Nações Unidas”. Desta forma, as concessões iranianas “teriam satisfeito todas as exigências norte-americanas”.

Sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, os dois países não estiveram logo de acordo. Os EUA querem a abertura imediata sem qualquer tipo de portagens — o regresso àquilo que acontecia antes do conflito —, ao passo que o Irão apenas se compromete a fazê-lo daqui a 30 dias. Em troca, os norte-americanos aliviariam as sanções à venda de petróleo iraniano, algo que poderia estender-se a outros sectores da economia do Irão se o país continuasse a mostrar “boa-fé” nas negociações. Um diplomata contou ao jornal que “ainda não há data para o alívio das sanções, que estará ligado à implementação do acordo”.

No que diz respeito aos fundos congelados, os Estados Unidos concordariam em libertar algumas verbas — mas apenas em tranches. Não existe nenhuma confirmação dos 24 mil milhões de dólares a que a versão iraniana alude. O Axios refere que o Irão teria acesso a alguns fundos congelados no Qatar para adquirir bens humanitários. Aliás, a diplomacia qatari, juntamente com a paquistanesa, está bastante empenhada em que seja assinado um memorando de entendimento.

Alívio de sanções ao petróleo iraniano seria por fases

GUILLAUME HORCAJUELO/EPA

ÍNDICE

Por agora, indica o Axios, muitos dos contactos terão sido feitos entre o diplomata qatari Ali Al-Thawadi e o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, com o conhecimento dos enviados especiais norte-americanos, Jared Kushner e Steve Witkoff. No entanto, o memorando de entendimento deverá ter o nome de Islamabad — a capital do Paquistão, país que está a desempenhar um papel fulcral nas negociações entre Teerão e Washington.

O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, realçou precisamente esta sexta-feira os “esforços de mediação intensos feitos pelo Paquistão”, deixando a acusação de que está em curso uma “campanha de desinformação levada a cabo por aqueles que querem sabotar o acordo de paz”. “Colocando de parte o barulho, podemos confirmar que o texto do acordo final foi alcançado e o Paquistão está a trabalhar com os dois lados para finalizar os próximos passos”, disse o chefe do executivo, declarando: “A paz nunca esteve tão próxima”.

Da parte do regime iraniano, é o ministro dos Negócios Estrangeiros quem está a desempenhar um papel fundamental. No X, Abbas Araghchi escreveu esta sexta-feira à tarde que o “memorando de entendimento de Islamabad” nunca esteve tão perto de concretizar-se. “Até à sua finalização”, o governante pediu que não se “especulasse”, prometendo partilhar todos os “detalhes” durante as próximas horas.

As exigências norte-americanas e os avisos de Israel que quer continuar a desmontar o eixo de resistência

O Irão avançou com a versão iraniana, mas a imprensa norte-americana também divulgou alguns detalhes do que a Casa Branca terá exigido. Segundo apurou a CNN Internacional junto a fontes familiarizadas com o assunto, os Estados Unidos apresentam uma versão bastante diferente, algo que foi corroborado também pelo vice-presidente norte-americano. No X, JD Vance respondeu esta sexta-feira à tarde às “informações falsas” que têm circulado sobre o acordo.

Os iranianos não vão receber qualquer dinheiro nem fundos apenas por assinarem um acordo ou irem a um encontro”, avisou JD Vance, que destacou, tal como já tinha indicado o Axios, que o regime iraniano apenas terá direito a essas verbas quando “cumprir as suas obrigações”. “O Presidente vai dar-nos um bom desfecho de uma maneira ou de outra”, sublinhou o vice-presidente.

A CNN assinala também que este memorando de entendimento apenas se materializará conforme a “performance” do Irão — o país só receberá fundos quando cumprir as exigências dos Estados Unidos. Além disso, o canal de televisão informa que os norte-americanos conseguiram que no memorando estivesse a promessa da destruição ou remoção do material nuclear do Irão, assim como o desmantelamento do programa nuclear.

"Os iranianos não vão receber qualquer dinheiro ou fundos apenas por assinarem um acordo ou irem a um encontro."

JD Vance, vice-presidente norte-americano

Índice

Os 14 pontos: as muitas dúvidas em redor do que o Irão divulgou

As exigências norte-americanas e os avisos de Israel que quer continuar a desmontar o eixo de resistência

Outro pormenor que ainda não tinha sido abordado e que está a ser avançado pela CNN consiste no fim do financiamento do Irão a “grupos terroristas”. Teerão teria feito um compromisso para deixar de dar dinheiro a grupos como o Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iémen, entre outros. Esta exigência, no entanto, compromete a estratégia do Irão no Médio Oriente, tornando-se um trunfo para Israel, o seu rival geopolítico na região — existindo algumas dúvidas sobre se será ou não verdadeira.

Em relação a Israel, alguns membros do Governo também se pronunciaram sobre o acordo. Um possível memorando terá implicações geopolíticas e políticas — e o país liderado por Benjamin Netanyahu também deseja sair com algum tipo de vitória deste processo, mesmo que não esteja diretamente envolvido nas negociações. Para o primeiro-ministro israelita, o melhor cenário seria que os Estados Unidos continuassem a alinhar-se em operações militares para enfraquecer o regime iraniano. Mas isso está muito longe de se concretizar — e essa percepção já é evidente em Telavive.

No X, Benjamin Netanyahu escreveu uma publicação esta sexta-feira em que parece ter-se resignado a uma das poucas vitórias que Israel poderá obter deste memorando de entendimento que poderá dar origem a um acordo mais amplo:O Irão não terá armas nucleares”. “Existe um acordo completo que fiz com o Presidente Trump sobre este assunto. Durante os últimos 30 anos, estive na liderança na campanha internacional contra o programa nuclear no Irão”. O chefe do executivo lembrou também que, não tivesse feito esses esforços, o Irão teria “há muito tempo bombas atómicas para destruir Israel”.

Primeiro-ministro israelita lembrou esforços para que Irão não desenvolvesse armas nucleares

Índice

Os 14 pontos: as muitas dúvidas em redor do que o Irão divulgou

As exigências norte-americanas e os avisos de Israel que quer continuar a desmontar o eixo de resistência

A poucos meses das eleições legislativas israelitas, o primeiro-ministro de Israel sabe que um acordo entre EUA e Irão que abone a favor do regime iraniano será um activo tóxico para a campanha. Daí Benjamin Netanyahu ter recordado que “dedicou toda a sua vida a prevenir” o Irão de ter uma bomba atómica. “Enquanto for primeiro-ministro de Israel, isso não vai acontecer”, prometeu.

Na mesma linha, o ministro da Defesa israelita e aliado político de Benjamin Netanyahu, Israel Katz, revelou mais detalhes sobre a posição de Israel durante as negociações entre Teerão e Washington. O governante recordou que este memorando tem em consideração os “interesses norte-americanos, incluindo os interesses partilhados com Israel — para impedir o Irão de adquirir armas nucleares”. “Esperamos que ele [Donald Trump] siga este princípio.”

Israel Katz recordou que Telavive e Washington infligiram “duros golpes no Irãoe que isso prejudicou as capacidades de o regime iraniano atacar Israel durante “muitos anos”. No futuro, “Israel deve garantir que, no futuro, terá a capacidade de agir de forma independente para evitar que o Irão tenha armas nucleares. O primeiro-ministro e eu instruímos as Forças de Defesa de Israel [IDF, sigla em inglês] para se prepararem para isso”, anunciou.

"Israel deve garantir que, no futuro, terá a capacidade de agir de forma independente para evitar que o Irão tenha armas nucleares. O primeiro-ministro e eu instruímos as Forças de Defesa de Israel [IDF, sigla em inglês] para se prepararem para isso."

Israel Katz, ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel

ÍNDICE

Os 14 pontos: as muitas dúvidas em redor do que o Irão divulgou

As exigências norte-americanas e os avisos de Israel que quer continuar a desmontar o eixo de resistência

Independentemente do memorando, Israel Katz assegurou que as IDF vão continuar a “defender as fronteiras e os cidadãos” no norte de Israel e perto da fronteira de Gaza. “A nossa doutrina de segurança é clara: vamos agir contra as ameaças distantes e próximas, almejando desfechos decisivos em vez de compromissos e concessões”. O ministro reconhece que muito “está em jogo” e que Israel não vai abdicar das suas capacidades para “lutar contra o eixo de resistência liderado pelo Irão e a Irmandade Muçulmana”.

Nas entrelinhas, o ministro deixou bem claro que, por muitas cedências que os Estados Unidos até possam fazer ao Irão, o Governo de Israel não as vai aceitar na íntegra. Por agora, o objectivo de Telavive continua a ser desmembrar o eixo de resistência — por muito que um possível acordo entre EUA e Irão coloque isso em causa. A grande dúvida — e possível ponto de fricção entre os norte-americanos e israelitas — surgirá se o memorando de entendimento implicar o fim das hostilidades no Líbano. Vai Israel simplesmente obedecer às ordens de Donald Trump sem as contestar?

De qualquer forma, a administração norte-americana está cada vez mais a desvincular-se do apoio irrestrito a Israel e ao Governo do país. Por exemplo, Donald Trump já questionou por que motivo Benjamin Netanyahu se vai candidatar a umas novas eleições legislativas: “Ele teve uma carreira incrível. Ele quer continuar? Porque ele é um primeiro-ministro em tempos de guerra. Vamos ganhar a guerra de uma maneira ou outra, mas ele é um primeiro-ministro em tempos de guerra”.

GettyImages-2253210266

Primeiro-ministro israelita e Presidente norte-americano estão a distanciar-s

Anadolu via Getty Images

Índice

Os 14 pontos: as muitas dúvidas em redor do que o Irão divulgou

As exigências norte-americanas e os avisos de Israel que quer continuar a desmontar o eixo de resistência

Esta distância entre Telavive e Washington torna-se cada vez mais pública e é reconhecida por vários dirigentes do Governo israelita. Como disse Israel Katz numa publicação no X, o país sabe que tem de agir “de forma independente” e que os Estados Unidos dificilmente se envolverão, a breve prazo, numa acção militar contra o Irão ou os seus aliados no Médio Oriente. O canal 12 israelita avançou que Donald Trump apenas informou Benjamin Netanyahu do memorando de entendimento — e que o primeiro-ministro nem o tentou dissuadir.

O vice-presidente norte-americano esclareceu numa entrevista que, apesar de Israel ser um “parceiro muito próximo” dos Estados Unidos, há ocasiões em que os interesses não são os mesmos. “O que vi com o primeiro-ministro é que ele defende agressivamente os interesses do seu país. Às vezes, isso significa que estamos na mesma página, outras vezes não”, afirmou JD Vance, que apontou que Benjamin Netanyahu cometeu “alguns erros” ao longo dos últimos tempos.

Nos cálculos políticos da Casa Branca, um acordo com o Irão parece ser a solução natural. JD Vance defendeu que “os interesses norte-americanos” devem ser aqueles que guiam a acção dos Estados Unidos, e Israel já admite que irá agir de forma mais autónoma nos próximos tempos. Os Estados Unidos esperam agora chegar a acordo com o regime iraniano, sendo o primeiro passo este memorando de entendimento finalizado, mas ainda não assinado e susceptível de alterações de última hora.

MÉDIO ORIENTE      MUNDO      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA      IRÃO      DONALD TRUMP      ISRAEL