Religiões, dogmatismos,
racismos - específicos de um ser nem sempre racional.
Esquerda e islamismo
Islamistas e
esquerdistas são mesmo companheiros de estrada? Por que razão o deputado
comunista Miguel Urbano Rodrigues escreveu que o Hamas e o Hezbollah eram
movimentos revolucionários?
JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO
CARMO Coronel "Comando"
OBSERVADOR, 21 ago. 2026,
00:25
O 11 de Setembro de 2001
apanhou-me de férias numa praia, perto de Tavira. Havia sol, mar,
tranquilidade e optimismo num mundo que eu julgava decente. Era um tempo
ingénuo, levava-se para a praia a toalha e o protector solar, não um manual da
jihad para perceber as notícias.
Recordo-me bem desse dia e das
discussões que se seguiram. Até então, o Islão não estava sequer no meu
horizonte de interesse ou preocupação. Mas nesse dia entrou pelos olhos dentro,
com aviões civis transformados em mísseis, arranha-céus reduzidos a poeira e
milhares de pessoas imoladas por causa de um argumento teológico apresentado de
forma aterradora.
Surpreendeu-me que dezanove
homens “normais” tivessem decidido suicidar-se para matar
desconhecidos. Não por impulso, loucura, desespero, ganância ou ciúme, mas por
convicção numa ideia. Ora quando uma ideia convence homens a derrubar os
instintos de sobrevivência e os tabus éticos da civilização, para morrer e
assassinar pessoas que nunca viram, convém investigá-la, em vez de chamar
«contexto» ao fanatismo.
Comecei então a ler o
Corão, hadiths, comentários, exegeses, estudos históricos, apologias, críticas
e acusações inflamadas. Li autores de vários quadrantes, com diferentes
simpatias, intenções opostas e graus variados de honestidade intelectual.
O resultado foi a pouco
tranquilizadora impressão de que, nos seus fundamentos, enquanto projecto
político, o Islão
é muito mais do que uma religião no sentido ocidental. É doutrina de poder e visão
totalitária da sociedade. Pretende
regular a lei, a moral, a família, a educação, a liberdade, a guerra e a
submissão. Não se contenta em salvar almas, quer governar corpos, e colide com a
civilização liberal por fundamental incompatibilidade, não por falhas de
tradução.
Mas a descoberta mais
perturbadora estava aqui mesmo, no Ocidente.
Sempre que se sinalizavam as características
intolerantes do fundamentalismo islâmico e dos seus textos, acorriam logo em
sua defesa sectores significativos da esquerda ocidental. Não toda,
mas uma parte, ruidosa, cínica e
moralmente arrogante, surgia invariavelmente a explicar que tudo era
complicado, que era preciso compreender, que o Ocidente, Israel, a América, o
colonialismo, e o capitalismo tinham
culpas e, no limite, que era “bem feito”, que as coisas não surgiam no
vácuo, e que as vítimas tinham tido o mau gosto de morrer no lugar errado à
hora errada, sem consultarem as teoria pós-coloniais.
O espectáculo continua a ser inacreditável. “Progressistas”,
feministas, laicos, libertários e defensores de todos os direitos humanos,
incluindo os inventados anteontem, revelam infinita compreensão por regimes,
pessoas e doutrinas que subordinam a mulher, perseguem o apóstata e o “infiel”,
enforcam o homossexual, odeiam o judeu, calam o dissidente e encaram a
liberdade como decadência. É um enviesamento que exige tudo às democracias e
nada aos carrascos, desde que estes insultem com boa dicção os americanos e
judeus, e os matem com galhardia.
O mesmo estudante do
CES/Universidade de Coimbra, da NOVA/FSCH, ou do ISCTE, que detecta fascismo
num pronome, numa piada mal calibrada ou numa bacorada do Sr Ben Gvir, descobre «resistência» no terrorismo puro
e duro, e pitoresco cultural na intolerância teocrática.
A pergunta impõe-se:
islamistas e esquerdistas são mesmo companheiros de estrada?
Por que razão o
comunista francês Roger Garaudy, se converteu ao Islão?
Por que razão o deputado
comunista Miguel Urbano Rodrigues, chefe de redacção do Avante, escreveu que o
Hamas e o Hezbollah eram movimentos revolucionários e “representantes de princípios universais”?
Por que razão o
“socialismo bolivariano” encontrou
aliados naturais nos teocratas iranianos?
Por que razão Miguel
Portas vindo do Partido Comunista para o Bloco de Esquerda, prestava homenagem
a Hassan Nasrallah, chefe terrorista às ordens dos aiatolas?
Por que razão o poeta
anarquista Barahona da Fonseca, se
converteu ao Islão e adoptou o nome de Muhammad Abdur Rashid?
Por que razão Nova
Iorque elegeu Zohran Mamdani, um muçulmano antissemita, que se diz socialista?
A resposta é menos misteriosa do que parece. A esquerda
folclórica e o Islão político encaram o Ocidente liberal como o inimigo comum.
Uns odeiam-no por ser capitalista, imperialista,
burguês, americano e opressor. Outros por ser decadente, infiel, permissivo, de influência
judaico-cristã, secular e livre. Ambos olham para a civilização
liberal, com as suas imperfeições, parlamentos, jornais, mulheres livres,
minorias protegidas, liberdade de expressão, tribunais independentes e o
irritante hábito de permitir que os seus inimigos a insultem, como uma monstruosidade
a destruir. Não têm o mesmo destino final, mas viajam alegremente na mesma
flotilha.
Esta aliança é a peça central da crise do nosso tempo.
Não porque todos os muçulmanos sejam islamistas ou toda a esquerda seja
cúmplice da barbárie, mas porque uma parte da esquerda decidiu que o ódio ao
Ocidente e à sua própria pertença, é mais importante do que a liberdade.
Quando a ocasião
se propicia, a máscara cai e fica exposta a preferência real, não pelos fracos,
oprimidos, mulheres ou minorias, mas por qualquer força, incluindo terroristas
e genocidas, que lhe pareça capaz de atacar a civilização ocidental.
O verdadeiro problema do Ocidente não é apenas a
agitação, a violência e a intolerância dos que o querem destruir mas,
sobretudo, a bovinidade colaborante com que alguns dos seus filhos, idiotas
úteis dotados de ignorância e telemóvel, lhes abrem a porta, carregam as malas
e ainda pedem desculpa por existirem.
O caso de Jamey Carney,
ocorrido no mês passado, oferece uma imagem
tristemente ilustrativa.
A americana conheceu Ahmad
Al-Saqar, jordano e “refugiado”, numa manifestação “pró-palestiniana” na Irlanda, o país mais antissemita da Europa
(a par da Espanha), e levou-o para casa. Carney foi assassinada em casa e Ahmad fugiu para a Jordânia.
Este caso não demonstra uma
teoria sobre milhões de pessoas, obviamente. Mas é o que é:
-Uma activista
“antissionista” ( vocábulo que hoje se usa para dizer o indizível), de esquerda, abriu a sua porta a um islamista
que conheceu na “causa” emblemática da amálgama do nosso tempo. A realidade
respondeu da forma mais brutal, sem consultar o manifesto ideológico, como vem
acontecendo sistematicamente na Europa, cujos cidadãos são atacados à bomba, a
tiro e à facada por fundamentalistas islâmicos, acolhidos por razões
humanitárias. Os companheiros de estrada sobreviventes, encolherão os ombros,
procurarão o contexto, culparão a civilização que lhes dá o chão, e talvez acabem, como de costume, a
fustigarem-se a si mesmos, em penitência por serem ocidentais.
ISLÃO RELIGIÃO SOCIEDADE
COMENTÁRIOS:
graça Dias: O subtítulo questiona:" Islamistas
e esquerdistas são mesmo companheiros de estrada? "
Eu direi que, esta Nova Esquerda Woke em
cumplicidades múltiplas com o islamismo simboliza uma nova ordem mundial brutal
,calculada e programada em padrões industriais, em que esta gente é dotada de
uma "escolástica fanática" -- " Ódio e maldade ", que nos
remete a outras épocas sombrias da historia. Eis a verdade sobre os inimigos
que o Ocidente enfrenta hoje, tanto internos quanto externos. Eles são movidos
por uma sede demoníaca ( uso esta palavra intencionalmente e literalmente )
pelo caos , um ódio pela ordem civilizacional, pela beleza e pela verdade.
O objectivo:
a) destruição desenfreada e jubilosa da única
civilização verdadeira que o mundo já conheceu;
b) miséria e morte em
massa; e uma paisagem de pesadelo, de terror e tormenta, que poderá rivalizar
com qualquer visão infernal de Hieronymus Bosch.
Ao Senhor Coronel JAC o meu obrigada pelo excelente
artigo.
Eduardo Lourenço: Excelente crónica. Parabéns.
João Mauricio Abreu Dos Santos: Mais um
excelente artigo da sua parte Senhor Coronel,assertivo muito actual e expõe
um dos grandes perigos da nossa civilização ocidental. Obrigado e um grande bem-haja.
Maximino Moreno: Excelente artigo.
Uiros Ueramos: Artigo de elevadíssimo
nível, sobretudo porque expõe, uma das mais grotescas contradições da
esquerda ocidental, a sua disponibilidade para romantizar o islão que representa a negação
frontal de todos os valores de esquerda que proclama defender. Acrescentaria
apenas um capítulo a esta anatomia da incoerência, o de uma parte significativa
do ambientalismo político contemporâneo. Numerosas organizações que nasceram
para defender ecossistemas, biodiversidade ou qualidade ambiental foram
progressivamente convertendo a causa ecológica numa plataforma ideológica muito
mais vasta, onde o combate à poluição foi sendo substituído pelo combate ao
capitalismo, à indústria, à propriedade privada, ao crescimento económico e,
não raras vezes, ao próprio modelo civilizacional ocidental. É
precisamente nesse ponto que certas franjas do ambientalismo radical, da
esquerda revolucionária e do islamismo político acabam por se encontrar numa
curiosa convergência de hostilidades. Porque identificam no modo de vida ocidental e no
capitalismo, um inimigo comum.É uma aliança de conveniência intelectualmente
paradoxal: movimentos que proclamam defender mulheres, minorias sexuais, liberdade
individual e secularismo marcham, literalmente, ao lado de islamitas que
rejeitam esses mesmos princípios. Talvez seja essa a grande ironia do
nosso tempo, uma parte do Ocidente tornou-se tão sofisticado na crítica à sua
própria civilização que acabou incapaz de distinguir entre corrigir os seus
defeitos e colaborar intelectualmente com aqueles que desejam suprimi-la.
(CONTINUA)