De um estar permanentemente assediado por caprichos. E ambições,
obviamente. Por contradições também, como “roseau pensant” que se preza, o
sujeito mandador do momento, no sítio do costume.
Um novo Orbán?
Bulgária vai a votos e deve eleger
primeiro-ministro pró-russo que já acusou a Ucrânia de prolongar
a guerra
Índice
Rússia
e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia
e a entrada na UE
GERB.
O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia
Rumen Radev.
O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita
As
incógnitas do que defende Rumen
Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia
da Rússia na Europa?
Radev promete acabar com a instabilidade. Mas
é improvável que o faça
A candidatura foi bem‑sucedida: o ex‑comandante que
abandonou a Força Aérea venceu a primeira e a segunda volta das presidenciais,
sendo reeleito em 2021. Já na presidência, passou a
ser um contrapeso ao domínio do GERB na
política búlgara. Não raras vezes tornou a vida difícil a Boyko
Borisov,
com quem manteve sempre uma relação
profissional e pessoal tensa e marcada por escândalos e confrontos públicos.
Nos últimos meses, após testar o terreno
e ter chegado à conclusão de que não
havia mais nenhuma “alternativa” na política búlgara, Rumen Radev
anunciou que abandonaria
a presidência da Bulgária para se candidatar às legislativas. Fundou o Bulgária Progressista, reuniu o apoio de outros partidos e tornou-se — desde
que entrou na corrida — o preferido nas sondagens para ser primeiro-ministro.
Numa
altura em que o domínio de Boyko
Borisov é cada vez mais contestado dentro da Bulgária, a candidatura de Rumen
Radev apresenta‑se como uma ruptura com o passado recente
de compadrio e desgaste associado ao GERB. O antigo
Presidente tem, afinal, credenciais para isso: desde que entrou na vida política, posicionou-se como adversário do partido de centro‑direita, é tradicionalmente conotado com o campo socialista e traz consigo um historial de
confrontos abertos com os governos do GERB.
▲ Comício
do Bulgária Progressista com Rumen Radev - NurPhoto via Getty Images
ÍNDICE
Enquanto
ex‑Presidente e antigo comandante da Força Aérea, Rumen
Radev nunca definiu de forma clara a sua ideologia. Usa um discurso nacionalista e defende um equilíbrio
entre os compromissos
com Bruxelas e Moscovo. Está
associado também ao campo socialista e à defesa de políticas de bem‑estar
social, mas combina essa agenda com posições socialmente conservadoras e uma
linha dura no controlo de fronteiras e da imigração.
Essa será mesmo uma táctica
deliberada. Ao jornal Político,
Boriana Dimitrova, analista
que trabalha para a empresa de
sondagens Alpha Research, explica
que “a sua estratégia é manter as
suas declarações o mais vagas possíveis para permitir
que os eleitores ouçam o que querem ouvir
dele”. “Ele está a
angariar uma rede política ampla e tentar ganhar o apoio de eleitores de
esquerda e de direita no espectro político. Está a tentar jogar com toda a gente.”
Em todo o caso, o antigo comandante sempre defendeu uma aproximação a Moscovo, criticando as sanções do Ocidente e condenando o envio de armas para a
guerra na Ucrânia, alimentando o papão de uma possível guerra entre a Rússia e
a União Europeia. Entre todos os assuntos que
podem fragilizar a candidatura de Rumen Radev, o seu discurso pró-russo é provavelmente o mais controverso
e o activo mais tóxico. Mas nem isso
está a preocupar os búlgaros.
"A estratégia é manter as suas declarações o mais vagas possíveis
para permitir que os eleitores ouçam o que querem ouvir dele. Ele está a
angariar uma rede política ampla e tentar ganhar o apoio de eleitores de
esquerda e de direita no espectro político. Está a tentar jogar com toda
a gente." Boriana Dimitrova, analista que trabalha para a
empresa de sondagens Alpha Research
Radev
promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça
Cansados
de anos de instabilidade política e das redes de clientelismo associadas ao GERB,
muitos búlgaros estão a focar-se, nestas legislativas, em temas como a corrupção
e o elevado custo de vida, relegando a política externa para um segundo plano.
Ao mesmo tempo, o peso dos antecedentes históricos faz
com que uma parte significativa da população não veja a Rússia como uma
potência expansionista na Europa, mas antes como um país culturalmente próximo,
que ajudou à libertação da Bulgária do domínio turco.
Mesmo na relação com Bruxelas, muitos
búlgaros encaram a União Europeia com desconfiança. A percepção
da UE continua a ser positiva, mas a adesão ao euro em janeiro
deste ano abalou essa imagem: a
introdução da moeda única foi acompanhada de preocupações com o aumento do
custo de vida e de protestos.
Muitos na Búlgara consideram que o país — um dos
mais pobres na Europa — não estava preparado para dar esse passo.
Neste sentido, Rumen Radev tem feito campanha em volta desse
tema nos comícios por todo o país, acusando os governos do GERB de terem
“introduzido o euro” sem convocarem um referendo. “Agora, quando pagam as contas,
lembrem-se dos políticos que vos prometeram que pertenceriam ao clube dos ricos”, disse o
candidato da Bulgária Progressista, citado pela
Reuters.
▲ Protesto
contra a adesão ao euro em Sófia NurPhoto via Getty Images
ÍNDICE
A Bulgária pode ser o novo cavalo de
Tróia da Rússia na Europa?
A derrota de um líder eurocéptico em
Budapeste fez os dirigentes comunitários suspirarem de alívio. É
provável que a Hungria chefiada por Péter Magyar — que será o novo primeiro-ministro —,
levante o veto ao empréstimo de 90 mil milhões de euros prometido à Ucrânia,
assim como é previsível que o Governo húngaro dê luz verde a novos pacotes de
sanções contra a Rússia.
O
estado de optimismo poderá durar pouco com a vitória de Rumen Radev. Poderá o antigo Presidente da Bulgária funcionar como uma nova força de
bloqueio em Bruxelas no que toca ao apoio à Ucrânia? Os sinais são contraditórios. Por
um lado, o antigo comandante nunca
referiu que quer retirar a Bulgária da União Europeia ou da NATO, tendo
condenado as acções militares russas na Ucrânia. Por
outro, já deixou
várias críticas ao envio de armas ocidentais e não esconde que quer reaproximar
Sófia de Moscovo.
“Somos
o único Estado‑membro da União Europeia que é simultaneamente eslavo e ortodoxo
oriental”, justificou, numa entrevista, Rumen Radev, antevendo
que a
Bulgária “poderia
ser um canal importante” para a Europa “restaurar as relações com a Rússia”. Esta
mensagem —
no quarto ano de guerra na Ucrânia — colide
com a postura defendida por Bruxelas, que não dá sinais de ceder no apoio
político e militar a Kiev, nem de levantar as sanções impostas contra Moscovo.
“Somos
o único Estado‑membro da União Europeia que é simultaneamente eslavo e
ortodoxo oriental."
Rumen Radev,
antigo Presidente e principal candidato do Bulgária Progressista
ÍNDICE
As semelhanças com o discurso pró‑russo
de Viktor Orbán são bastantes. E não se
ficam por aqui. Rumen Radev tem
defendido que o país deve
comprar gás natural e petróleo da Rússia,
argumentando que essa é a opção que defende melhor os interesses
soberanos da Bulgária. O ex‑Presidente também deixou claro que se opõe ao
envio directo de armas para Kiev; aliás,
enquanto chefe de Estado, vetou iniciativas que concediam apoio militar à
Ucrânia.
Sobre o que vai fazer na UE
quando chegar muito provavelmente a primeiro-ministro,
Rumen Radev ainda não aclarou se vai seguir a mesma linha de
confronto com as instituições europeias como fez Viktor Orbán. Mas a
Bulgária não é a Hungria. Como lembra o Telegraph, o país é o
mais pobre na União Europeia e depende fortemente de fundos europeus. Um eventual congelamento de verbas, como o que atingiu
Budapeste nos últimos anos, seria potencialmente devastador para a frágil
economia búlgara.
Radev promete acabar com a
instabilidade. Mas é improvável que o faça
A
dependência búlgara face às instituições europeias poderá levar Rumen Radev a
evitar bloquear iniciativas comunitárias de apoio à Ucrânia. E existem
outros factores de política interna que podem funcionar como travão ao pendor
pró‑russo do ex‑Presidente. A
principal? O facto de
existir uma grande probabilidade de
ser obrigado a fazer uma coligação ou entendimentos pós-eleitorais com forças
pró-europeias.
▲ Primeiro-ministro
húngaro em funções e Rumen Radev AFP via Getty Images
ÍNDICE
Neste momento,
as sondagens indicam que o Bulgária Progressista deverá vencer as legislativas, com um resultado na
ordem dos 35% das intenções de voto com cerca de 100 mandatos, longe da maioria
absoluta de 121 deputados. Em segundo lugar deverá ficar o GERB com cerca de 20%. Ainda assim, é improvável que o partido de Rumen
Radev se coligue com a força política que tanto criticou no passado e cujo legado garante querer terminar.
Num sistema eleitoral em
que é preciso obter pelo menos 4% dos votos para entrar no Parlamento, os estudos de opinião apontam que entrará
o PP-DB, um
partido liberal pró-europeu anticorrupção, que deverá reunir 12% dos votos. Segue-se, com 10% o DPS-NN, uma força política centrista pró-europeia
que defende os interesses da minoria turca na Bulgária.
Com cerca de 7% deverá ficar o Renascimento, a
força de extrema-direita pró-russa.
Uma coligação de partidos de esquerda (BSP)
deverá ficar perto dos 4%.
Os analistas sugerem que o parceiro de coligação mais provável do
Bulgária Progressista é o PP-DB, se bem que Rumen Radev tenha para já evitado
fazer compromissos com o partido centrista. Ambos os partidos têm a bandeira da luta contra a corrupção e o fim
da “oligarquia” que tem governado o país. De fora de eventuais coligações para
o ex-Presidente, ficam o GERB e o DPS-NN, cujos líderes são associados por
Radev ao sistema de compadrio e de corrupção.
▲ Cartaz
do PP-DB AFP via Getty Images
ÍNDICE
Para aceitar uma coligação com o
Bulgária Progressista, o PP-DB exige
que Rumen Radev abandone as suas posições pró-russas e
colabore activamente com Bruxelas. Num país em que existe uma instabilidade política crónica, esta
poderá ser a solução mais consensual — que
faria o antigo Presidente não comprar nenhuma guerra com a União Europeia. Uma
aliança com o
Renascimento, que aproximaria totalmente Sófia de Moscovo,
também é bastante improvável; os
dois partidos juntos não deverão atingir a maioria absoluta.
Boriana Dimitrova assinala ao Politico que o antigo Presidente pode ainda tentar governar sem
formar uma maioria. “Ele
pode tentar construir um governo minoritário e tentar forjar diferentes
alianças em tópicos distintos”,
acredita a especialista, que ressalva que essa missão exige “um considerável talento político”,
principalmente num país em que a
estabilidade política parece ser uma miragem.
O
antigo piloto de caças soviéticos que comprou várias guerras com o partido
dominante da Bulgária deverá ser eleito primeiro-ministro no domingo. As expectativas dos búlgaros são elevadas: Rumen
Radev surge como o rosto da mudança
política há muito ansiada e o nome associado do fim da instabilidade. Assumidamente pró-russo e desejando
aproximar-se de Moscovo, reúne alguns ingredientes que alimentam o receio de
que possa transformar‑se num novo Viktor
Orbán, ainda que enfrente importantes condicionantes internas
e externas. A partir de domingo, terá de tomar uma
posição e escolher para que rumo quer levar a Bulgária.
BULGÁRIA
EUROPA MUNDO RÚSSIA
UNIÃO EUROPEIA
COMENTÁRIOS (de 9)
AdOB > João
Pimentel Ferreira: Mas
o último a mandar dados confidenciais para o Putin, não foi o Medina? E antes
disso não era o PCP? Já não percebo nada… Eduardo
Mãos de Tesoura: A Bulgária deveria
olhar para o caso Húngaro. Se o novo Governo Búlgaro trilhar o mesmo caminho
de Victor Orban, já sabe que Fundos Europeus destinados à Bulgária
ficarão congelados em Bruxelas.