De UM HERÓI
OBSERVADOR, 18/4/26
Um novo Orbán?
Bulgária
vai a votos e deve eleger primeiro-ministro pró-russo que já acusou a Ucrânia
de prolongar a guerra.
Índice
Rússia
e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB.
O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia
Rumen Radev.
O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita
As
incógnitas do que defende Rumen
Radev
A
Bulgária
pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?
Radev promete
acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça
A candidatura foi bem‑sucedida: o ex‑comandante que abandonou a Força
Aérea venceu a primeira e a segunda volta das presidenciais, sendo reeleito em
2021. Já na presidência, passou a ser um contrapeso ao domínio
do GERB na
política búlgara. Não raras vezes tornou a vida difícil a Boyko Borisov, com quem manteve sempre uma relação
profissional e pessoal tensa e marcada por escândalos e confrontos públicos.
Nos últimos meses, após testar o
terreno e ter chegado à conclusão de
que não havia mais nenhuma “alternativa” na política búlgara, Rumen Radev
anunciou que abandonaria a presidência
da Bulgária para se candidatar às legislativas. Fundou o Bulgária Progressista,
reuniu o apoio de outros partidos e tornou-se
— desde que entrou na corrida — o preferido nas sondagens para ser primeiro-ministro.
Numa altura em que o domínio de Boyko
Borisov é
cada vez mais contestado dentro da Bulgária, a candidatura de Rumen Radev apresenta‑se como uma ruptura com o passado recente de compadrio e desgaste
associado ao GERB. O antigo Presidente tem,
afinal, credenciais para isso: desde
que entrou na vida política, posicionou-se como adversário do partido de centro‑direita,
é tradicionalmente conotado com o campo socialista e traz consigo um historial
de confrontos abertos com os governos do GERB.
▲ Comício
do Bulgária Progressista com Rumen Radev - NurPhoto via Getty Images
Índice
Rússia e Bulgária. A independência, o
bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O partido que liderou a
Bulgária após a entrada na União Europeia
Rumen Radev. O antigo piloto que
sempre se opôs ao centro-direita
As incógnitas do que defende Rumen
Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de
Tróia da Rússia na Europa?
Radev promete acabar com a
instabilidade. Mas é improvável que o faça
As
incógnitas do que defende Rumen Radev
Enquanto ex‑Presidente e antigo comandante da Força Aérea, Rumen Radev nunca definiu de forma clara a sua ideologia. Usa um
discurso nacionalista e defende um equilíbrio entre os compromissos com Bruxelas
e Moscovo. Está associado também ao campo
socialista e à defesa de políticas de bem‑estar social, mas combina essa agenda
com posições socialmente conservadoras e uma linha dura no controlo de
fronteiras e da imigração.
Essa será mesmo uma táctica deliberada. Ao jornal Politico, Boriana Dimitrova, analista que trabalha para a empresa de sondagens Alpha Research, explica que “a sua estratégia é manter as suas
declarações o mais vagas possíveis para permitir que os eleitores ouçam o
que querem ouvir dele”. “Ele
está a angariar uma rede política ampla e tentar ganhar o apoio de eleitores de
esquerda e de direita no espectro político. Está a tentar jogar com toda a
gente.”
Em todo o caso, o antigo comandante sempre defendeu uma aproximação a Moscovo, criticando as sanções do Ocidente e
condenando o envio de armas para a guerra na Ucrânia, alimentando o papão de
uma possível guerra entre a Rússia e a União Europeia. Entre todos os
assuntos que podem fragilizar a candidatura de Rumen Radev, o seu discurso pró-russo é provavelmente o
mais controverso e o activo mais tóxico. Mas nem isso está a preocupar os
búlgaros.
"A estratégia é manter as suas declarações o mais vagas possíveis para
permitir que os eleitores ouçam o que querem ouvir dele. Ele está a angariar
uma rede política ampla e tentar ganhar o apoio de eleitores de esquerda e de
direita no espectro político. Está a tentar jogar com toda a gente."
Boriana Dimitrova, analista que trabalha
para a empresa de sondagens Alpha Research
Índice
Rússia
e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB.
O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia
Rumen
Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita
As
incógnitas do que defende Rumen Radev
A
Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?
Radev
promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça
Cansados de anos de instabilidade
política e das redes de clientelismo associadas ao GERB,
muitos búlgaros estão a focar-se, nestas legislativas, em temas como a corrupção e o elevado custo de vida, relegando a
política externa para um segundo plano. Ao mesmo tempo, o peso dos
antecedentes históricos faz com que uma parte significativa da população não
veja a Rússia como uma potência expansionista na Europa, mas antes como um país
culturalmente próximo, que ajudou à libertação da Bulgária do domínio turco.
Mesmo
na relação com Bruxelas, muitos búlgaros encaram a União Europeia com
desconfiança. A percepção da UE continua a ser positiva, mas
a adesão ao euro em janeiro deste ano abalou essa imagem: a introdução da moeda única foi acompanhada
de preocupações com o aumento do custo de vida e de protestos. Muitos na
Búlgara consideram que o país — um dos mais pobres na Europa — não estava
preparado para dar esse passo.
Neste sentido, Rumen Radev tem feito campanha em volta desse
tema nos comícios por todo o país, acusando os governos do GERB de terem “introduzido o euro” sem
convocarem um referendo. “Agora, quando pagam as contas, lembrem-se dos
políticos que vos prometeram que pertenceriam ao clube dos ricos”, disse o
candidato da Bulgária Progressista, citado pela
Reuters.
▲ Protesto
contra a adesão ao euro em Sófia NurPhoto via Getty Images
Índice
Rússia
e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB.
O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia
Rumen
Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita
As
incógnitas do que defende Rumen Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?
Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é
improvável que o faça
A Bulgária pode ser o novo cavalo de
Tróia da Rússia na Europa?
A derrota de um líder eurocéptico em
Budapeste fez os dirigentes comunitários suspirarem de alívio. É provável que a Hungria chefiada por Péter Magyar —
que será o novo primeiro-ministro —, levante o
veto ao empréstimo de 90 mil milhões de euros prometido à Ucrânia, assim como é
previsível que o Governo húngaro dê luz verde a novos pacotes de sanções contra
a Rússia.
O
estado de optimismo poderá durar pouco com a vitória de Rumen Radev. Poderá o antigo Presidente da
Bulgária funcionar como uma nova força de bloqueio em Bruxelas no que toca ao
apoio à Ucrânia? Os sinais
são contraditórios. Por um lado, o antigo comandante nunca referiu que
quer retirar a Bulgária da União Europeia ou da NATO, tendo condenado as acções
militares russas na Ucrânia. Por outro, já deixou várias críticas ao envio de armas
ocidentais e não esconde que quer reaproximar Sófia de Moscovo.
“Somos
o único Estado‑membro da União Europeia que é simultaneamente eslavo e ortodoxo
oriental”,
justificou, numa entrevista, Rumen Radev, antevendo que a
Bulgária “poderia
ser um canal importante” para a Europa “restaurar as relações com a Rússia”.
Esta mensagem — no quarto ano de guerra na Ucrânia — colide com a postura defendida por
Bruxelas, que não dá sinais de ceder no apoio político e militar a Kiev, nem de
levantar as sanções impostas contra Moscovo.
“Somos
o único Estado‑membro da União Europeia que é simultaneamente eslavo e
ortodoxo oriental." Rumen Radev, antigo Presidente e principal candidato do Bulgária Progressista
Índice
Rússia e Bulgária. A independência, o
bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O partido que liderou a
Bulgária após a entrada na União Europeia
Rumen Radev. O antigo piloto que
sempre se opôs ao centro-direita
As incógnitas do que defende Rumen
Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de
Tróia da Rússia na Europa?
Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça
As semelhanças com o discurso pró‑russo de Viktor
Orbán são bastantes. E não se ficam por aqui. Rumen Radev
tem defendido que o país deve comprar gás natural e
petróleo da Rússia, argumentando
que essa é a opção que defende melhor os interesses soberanos da Bulgária.
O
ex‑Presidente também deixou claro que se opõe ao envio directo de armas para
Kiev; aliás, enquanto chefe de Estado, vetou iniciativas que concediam apoio
militar à Ucrânia.
Sobre o que vai fazer na UE
quando chegar muito provavelmente a primeiro-ministro, Rumen Radev ainda não aclarou se vai seguir a
mesma linha de confronto com as instituições europeias como fez Viktor
Orbán. Mas a Bulgária não é a Hungria. Como lembra o Telegraph, o país é o
mais pobre na União Europeia e depende fortemente de fundos europeus. Um
eventual congelamento de verbas, como o que atingiu Budapeste nos últimos anos,
seria potencialmente devastador para a frágil economia búlgara.
Radev promete acabar com a
instabilidade. Mas é improvável que o faça
A dependência búlgara face às
instituições europeias poderá levar Rumen Radev a evitar bloquear iniciativas
comunitárias de apoio à Ucrânia. E existem outros factores de política
interna que podem funcionar como travão ao pendor pró‑russo do ex‑Presidente.
A principal? O
facto de existir uma grande probabilidade de ser obrigado a fazer uma coligação
ou entendimentos pós-eleitorais com forças pró-europeias.
▲ Primeiro-ministro
húngaro em funções e Rumen Radev AFP via Getty Images
Índice
Rússia e
Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O
partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia
Rumen Radev.
O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita
As
incógnitas do que defende Rumen Radev
A Bulgária
pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?
Radev
promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça
Neste momento, as sondagens
indicam que o Bulgária Progressista deverá vencer as legislativas, com um
resultado na ordem dos 35% das intenções de voto com cerca de 100 mandatos,
longe da maioria absoluta de 121 deputados. Em
segundo lugar deverá
ficar o GERB com cerca de 20%. Ainda assim, é improvável que o partido
de Rumen Radev se coligue com a força política que tanto
criticou no passado e cujo legado garante querer terminar.
Num sistema eleitoral em que é preciso obter pelo menos 4% dos votos para entrar no Parlamento, os estudos de opinião apontam que
entrará o PP-DB, um partido liberal
pró-europeu anticorrupção, que deverá reunir 12% dos votos. Segue-se, com 10% o DPS-NN,
uma força política centrista pró-europeia que defende os interesses da minoria
turca na Bulgária. Com cerca de 7% deverá ficar o Renascimento, a
força de extrema-direita pró-russa. Uma coligação de partidos de esquerda (BSP)
deverá ficar perto dos 4%.
Os analistas sugerem que o
parceiro de coligação mais provável do Bulgária Progressista é o PP-DB, se
bem que Rumen Radev tenha para já evitado fazer compromissos com o partido
centrista. Ambos os partidos têm a bandeira da luta contra a corrupção e o fim
da “oligarquia” que tem governado o país. De fora de eventuais coligações para
o ex-Presidente, ficam o GERB e o DPS-NN, cujos líderes são associados por
Radev ao sistema de compadrio e de corrupção.
▲ Cartaz
do PP-DB AFP via Getty Images
Índice
Rússia e Bulgária. A independência, o
bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O partido que liderou a
Bulgária após a entrada na União Europeia
Rumen Radev. O antigo piloto que
sempre se opôs ao centro-direita
As incógnitas do que defende Rumen
Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de
Tróia da Rússia na Europa?
Radev promete acabar com a
instabilidade. Mas é improvável que o faça
Para aceitar uma coligação com o
Bulgária Progressista, o PP-DB exige
que Rumen Radev abandone as suas posições pró-russas e
colabore activamente com Bruxelas. Num país em que existe uma instabilidade política crónica, esta
poderá ser a solução mais consensual — que
faria o antigo Presidente não comprar nenhuma guerra com a União Europeia. Uma
aliança com o
Renascimento, que aproximaria totalmente Sófia de Moscovo,
também é bastante improvável; os dois partidos juntos não deverão atingir a
maioria absoluta.
Boriana Dimitrova assinala ao Politico que o antigo
Presidente pode ainda tentar governar sem formar uma maioria. “Ele pode tentar construir um governo
minoritário e tentar forjar diferentes alianças em tópicos distintos”, acredita a especialista, que ressalva
que essa missão exige “um considerável
talento político”, principalmente num país em que a estabilidade política
parece ser uma miragem.
O antigo piloto de caças soviéticos
que comprou várias guerras com o partido dominante da Bulgária deverá ser eleito
primeiro-ministro no domingo. As
expectativas dos búlgaros são elevadas: Rumen Radev surge
como o rosto da mudança política há muito ansiada e o nome associado do fim da
instabilidade. Assumidamente
pró-russo e desejando aproximar-se de Moscovo, reúne alguns ingredientes que
alimentam o receio de que possa transformar‑se num novo Viktor Orbán, ainda que enfrente importantes condicionantes internas e externas. A partir de
domingo, terá de tomar uma posição e escolher para que rumo quer levar a Bulgária.
BULGÁRIA
EUROPA MUNDO RÚSSIA
UNIÃO EUROPEIA
COMENTÁRIOS (de 9)
AdOB > João
Pimentel Ferreira: Mas o
último a mandar dados confidenciais para o Putin, não foi o Medina? E antes
disso não era o PCP? Já não percebo nada… Eduardo
Mãos de Tesoura: A Bulgária
deveria olhar para o caso Húngaro. Se o novo Governo Búlgaro trilhar o mesmo
caminho de Victor Orban, já sabe que Fundos Europeus
destinados à Bulgária ficarão congelados em Bruxelas.