quarta-feira, 8 de julho de 2026

MAQUIAVELISMOS

 

Da actualidade, talvez  provenientes de exibicionismos indiscretos…

 

VÁRIOS TIPOS DE FUNDAMENTALISMO

Penso em Bonnie Blue, a estrela da Only Fans que agora está grávida e decidiu organizar uma baby shower sexual. assustadores são os fundamentalismos que romantizam o presente.

PATRÍCIA FERNANDES PROFESSORA NA ESCOLA DE ECONOMIA E GESTÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

OBSERVADOR, 29 JUN. 2026, 00:22

De acordo com Caro Claire Burke, Yesteryear tem como objectivo fazer uma crítica ao papel desempenhado pela religião no movimento das tradwives, e que é habitualmente considerado como fundamentalista. Optou até por não identificar a variante específica de Cristianismo de Natalie, a protagonista do livro:

“Fiquei obcecada com a ideia de que o fundamentalismo é bastante consistente para as mulheres, não só em todas as vertentes do Cristianismo, mas em todas as religiões. Há muito mais pontos em comum entre os fundamentalistas do que aquilo que os separa.”

O propósito de Burke não é, porém, conseguido. Natalie não tem uma relação pensada e profunda com a religião e relaciona-se com ela, sobretudo, em termos transaccionais. Quase tudo o que faz ao longo do livro não decorre do facto de ter uma convicção religiosa profunda (ou fundamentalista), mas do facto de ser uma pessoa incrivelmente competitiva e desagradável.

Ainda assim, percebemos, no final do livro, a que tipo de fundamentalismo Caro Burke se queria referir. É que a autora não se inspirou apenas em Hannah Neeleman. Burke tinha igualmente em vista Ruby Franke, uma mãe influencer que foi condenada por maus-tratos dos filhos mais novos em 2024 e que já motivou múltiplos documentários. Tanto Ruby como Hannah são membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e parece ser este o fundamentalismo que Burke quer visar: é que, apesar de representarem apenas 2% da população dos Estados Unidos, os mórmons têm um peso desproporcional no algoritmo das redes sociais. E A RAZÃO É O PROSELITISMO.

2 PROSELITISMO VIA INTERNET

OS MÓRMONS SÃO RECONHECIDOS PELO CUMPRIMENTO FIEL DA OBRIGAÇÃO DE PROSELITISMO, COM OS SEUS JOVENS MEMBROS A REALIZAR MISSÕES POR TODO O MUNDO. Mas a revolução digital permitiu reenquadrar esta obrigação religiosa e foi rapidamente apropriada como estratégia de missionação: SERIA POSSÍVEL USAR AS REDES SOCIAIS PARA DIVULGAR, DE FORMA EFICAZ, A PALAVRA DE CRISTO E A MISSÃO DA IGREJA.

Foi com este objectivo que várias mulheres mórmons se tornaram influencers na última década, criando canais para divulgar a vida doméstica e a dedicação à família e inspirar outras mulheres para uma vida perfeita e mais próxima de Cristo. Foi isto que Ruby Franke fez quando criou uma conta no Youtube em 2015, onde partilhou, ao longo dos anos seguintes, a sua vida familiar. Com milhões de visualizações, o canal tornou-se uma enorme fonte de rendimento, mas o marido diz que nunca foi o dinheiro a motivar Ruby: foi sempre a vontade de mostrar que era capaz de ser uma mãe perfeita e, simultaneamente, inspirar religiosamente a sua audiência. A popularidade de Ruby Franke continuou a crescer e talvez tenha sido a pressão provocada pela vida digital que conduziu ao descarrilamento da sua saúde mental.

De facto, saber se é a internet que deixa as pessoas malucas ou se é o fundamentalismo que abre essa porta não é fácil de responder. A verdade é que Franke acabou por se aproximar de Jodi Hildebrandt, que acreditava ter sido escolhida por Deus para desempenhar uma missão especial no fim dos tempos que estavam próximos (estávamos na pandemia) e as coisas descarrilaram muito rapidamente para algo próximo do que habitualmente se designa como fundamentalismo religioso.

3 OUTROS FUNDAMENTALISMOS

A questão do fundamentalismo religioso é sempre levantada a propósito das tradwives e das influencers que são tradwives, em particular pela dedicação ao marido, o que colocaria, supostamente, as mulheres numa posição de submissão. A polémica em torno de Hannah Neeleman começou precisamente depois de uma entrevista ao The Sunday Times, com a jornalista a sugerir essa subjugação feminina e a falta de liberdade de Hannah. (Curiosamente, o exemplo de Rudy Franke revela o contrário, pois aqui o fundamentalismo era usado por Jodi Hildebrandt para que as mulheres exercessem o seu poder sobre os homens.)

Para muitos, o fundamentalismo torna-se, assim, alvo de crítica por ser entendido como a razão que leva as mulheres a subjugarem-se a regras que realmente não desejam. No entanto, se aceitarmos esse entendimento, vemo-nos obrigados a abandonar a obsessão com as TRADWIVES e a estar atentos a outros tipos de fundamentalismo que têm animado o espaço público nos últimos anos.

Pensemos no exemplo da cantora inglesa Lilly Allen, que esteve casada com o ator David Harbour durante 5 anos e, a pedido dele, aceitou uma relação não-monogâmica. No magnífico álbum que lançou após o fim da relação, Lilly reconhece não desejava estar com outras pessoas, mas não queria que ele a abandonasse e, como diz em “Nonmonogamummy”, convenceu-se a “estar aberta”. AS MÚSICAS DE WEST END GIRL CONTAM A HISTÓRIA DO FIM DO SEU CASAMENTO: LILLY ALLEN DESCOBRIU QUE, APESAR DE O ACORDO SER BASTANTE FAVORÁVEL A DAVID, AINDA ASSIM ELE NÃO O CUMPRIU E LILLY PEDIU O DIVÓRCIO.

Também a escritora feminista Lindy West foi convencida pelo marido a aceitar uma relação não-monogâmica. Conhecida por defender o movimento “Body positivity(que promove uma visão positiva de todos os corpos, independentemente do tamanho, da forma, da cor da pele, do género e das capacidades físicas), West escreve, de forma divertida, sobre ser uma pessoa gorda e orgulhava-se de como, ainda assim, conseguiu casar com um homem bem-parecido. MAS NO SEU LIVRO MAIS RECENTE, PUBLICADO EM MARÇO DESTE ANO (MAS AINDA SEM TRADUÇÃO ENTRE NÓS), CONTA COMO O MARIDO, APESAR DE A TER FORÇADO A UM ACORDO QUE LHE ERA BASTANTE FAVORÁVEL, AINDA ASSIM NÃO O CUMPRIU. Apaixonou-se por outra pessoa e Lindy West, ao contrário de Lilly Allen, foi de novo convencida, desta vez, a tornar o seu casamento numa relação poli-amorosa.

É, assim, curioso que haja tanta preocupação com o fundamentalismo das tradwives que romantizam o passado. Pela minha parte, penso em Bonnie Blue, a estrela da OnlyFans que agora está grávida e decidiu organizar uma baby shower sexual. Assustadores são os fundamentalismos que romantizam o presente.

EXTREMISMO      SOCIEDADE

terça-feira, 7 de julho de 2026

Razões

Válidas.

Cruzeiro LGBTQ+ impedido de atracar em porto na Turquia devido a "padrões morais" e "valores familiares"

As autoridades turcas impediram um cruzeiro LGBTQ+ de atracar no porto de Kuşadası, na costa do mar Egeu. Turquia argumenta que cruzeiro não corresponde ao "padrões morais" do país.

CÁTIA ROCHA: Texto

OBSERVADOR, 06 jul. 2026, 11:47

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A Virgin Voyages, do multimilionário Richard Branson, é a responsável pelo navio Scarlet Lady

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A Turquia impediu um cruzeiro LGBTQ+ de atracar no porto local de Kuşadası, alegando que o navio não está de acordo com “os padrões morais” e os “valores familiares” do país.

A viagem é organizada pela Atlantis Events, que usa a embarcação Scarlet Lady, que pertence à Virgin Voyages, escrevem a CNN internacional e o The Guardian. A Atlantis Events é uma empresa norte-americana especializada em viagens para a comunidade LGBTQ+.

A viagem de Atenas a Veneza arrancou a 5 de julho e terminará a 15 de julho. No site da empresa, é detalhado que a Scarlet Lady terá paragens em pontos da Grécia como Mykonos e Santorini, na Turquia e na Croácia.

Estava previsto que o cruzeiro atracasse em portos turcos entre 7 e 9 de julho. Numa publicação no X, as autoridades da província de Aydin argumentam que o navio foi alugado “por grupos conhecidos pelos seus comportamentos incompatíveis com a estrutura da sociedade” e “com os valores morais” turcos.

As autoridades dizem ainda que o cruzeiro “causou grande mal-estar em vários setores da sociedade”.

Não está, de forma alguma, prevista a vinda desse grupo à nossa província para realizar um evento deste tipo.”

Foi ainda especificado que a viagem cancelada “é um evento isolado” e que “não tem qualquer relação com as outras viagens organizadas para o porto da cidade”.

A proibição das autoridades turcas obrigou a empresa a uma mudança de itinerário. “Infelizmente, fomos informados pelas autoridades turcas de que a Atlantis não poderá atracar em Kuşadası ou Istambul durante a viagem”, é possível ler no site da empresa.O nosso novo itinerário mantém as paragens nos outros portos e acrescentámos um dia completo em Alexandria, no Egito (…)”, diz a empresa. A mudança também acrescenta uma paragem na ilha grega de Creta.

À CNN internacional, Rich Campbell, presidente e CEO da Atlantis Events, mostrou-se surpreendido com a decisão. O responsável afirmou que foi a primeira vez em 36 anos em que a empresa foi “activamente impedida” de atracar num porto por ser um cruzeiro gay.É muito preocupante para mim que um país decida poder escolher que turistas são permitidos ou não.”

O The Guardian refere que a empresa já atracou 13 vezes no porto turco ao longo dos últimos 25 anos. “Quando atracamos no porto, o navio parece-se com qualquer outro navio”, disse o responsável da Atlantis. “Não é como se fôssemos uma parada do orgulho gay, não somos uma marcha, não somos uma organização, não somos, de forma alguma, uma declaração política”, disse à USA Today.

Estrela da Broadway Patti LuPone chocada com proibição

O cruzeiro da Atlantis tem entretenimento a bordo, como é habitual neste tipo de embarcações. Um dos pontos de destaque é a estrela da Broadway Patti LuPone, de 77 anos.

Numa publicação no Instagram, a vencedora de três prémios Tony mostrou-se chocada com a proibição das autoridades turcas. “O cruzeiro da Atlantis em que vou actuar na próxima semana foi banido de entrar na Turquia”, disse. “Um navio — magnífico — cheio de homens gay. E eu. Foi impedida a entrada na Turquia simplesmente por causa de quem está a bordo.”

A artista mostrou-se “furiosa, mas a navegar, tal como o navio que irá passar por outros portos”.

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

APOLOGIA

 

APOLOGIA

De Cabo Verde. Acredito bem, pois conheço a Alice F., que desde sempre me encantou, pela sua personalidade e simpatia humana fortes, vinda lá de CV.

 

Saudades de Cabo Verde

E pensar que fui escrevendo tudo isto por causa da equipa de futebol de Cabo Verde e das suas estonteantes exibições! Sou capaz de também me ter deixado levar pelo sentimento.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do OBSERVADOR

OBSERVADOR,06 jul. 2026, 00:25

1Segui como toda a gente a admirável performance dos jogadores cabo-verdianos nos relvados do Mundial. Como toda a gente, rendi-me, suei, gritei, sofri e muito me comovi no jogo contra a Argentina. Mas – e agora talvez já não como toda a gente – vi cada jogo como se estivesse em Cabo Verde ao lado de amigos que lá deixei, das recordações que trouxe, das memórias que guardo. Tao impressivas na sua transparência, tanto tempo depois. Como se o filme dessas idas e vindas estivesse sempre a passar em pano de fundo, no decorrer de cada jogo.

Lembrei- me muito de tudo isso por estes dias.

2De abençoada situação geográfica, a meio do oceano Atlântico, não foi senão a sua natureza avara de dons que lá forjou uma forma de sobrevivência. E lá formou um povo. Lutador, determinado, mas aberto ao mundo na sua doçura musical e modos amenos. Crescido na dificuldade e amadurecido na obstinação foram sempre andando e quase sempre, com acerto e critério. Após meio século independência (ocorrida em Julho de 1975) Cabo Verde pode considerado como exemplar –- e não tenhamos medo das palavras.

Grande povo, magnificas elites.

3Pátria de gente culta e cultivada, gente de visão, dona de raciocínio bem estruturado e discurso ágil, Cabo Verde possui uma classe politica digna de exportação, como se faz com os bons vinhos. Mulheres e homens preparados, desenvoltos, civilizados, sem medo do mundo e das suas novas e impiedosas regras. É certo que o país vigora ainda a ritmo moderado, que há duas velocidades no desenvolvimento, mas basta ouvir a elite cabo-verdiana, conversar com políticos ou académicos ,homens de ciência ou gente das artes, para perceber como há entre eles e a cultura, eles e a civilização, um elo indissociável. De que as mornas são (o melhor?) exemplo. Música feita de tantas mestiçagens – e expressão maior do carácter mestiço que é a própria raiz de Cabo Verde – e que uma Cesária Évora tão bem representou.

4Percebi porém tudo isto, ainda antes da independência – esta forma de ser, o ancestral hábito dos combates desiguais – da natureza, à politica, passando pela pobreza; o português que falavam, a importância da escola, dos livros, da musica, dos poetas e da sua poesia – quando um dia, antes de Abril de 74 ,aterrei na ilha do Sal. Viajava com um pequeno grupo de mergulhadores amadores que passavam os seus dias nos fundos daquele mar turquesa enquanto cá em cima eu deambulava por uma ilha semi-deserta e ia fazendo perguntas. E de cada vez que havia um grande jogo de futebol em Portugal, um derby ou um final de taça, a ilha –todas as ilhas – paravam. A maioria era do Benfica, a mim pareceu-me sempre que eram todos, mas não: havia também do Sporting e da Académica. (Muitos anos depois, na cidade da Praia, capital do arquipélago, o então Ministro da Cultura, num domingo em que o Sporting e o Benfica se digladiavam em Alvalade, não se espantava: “Ah, o vosso futebol sempre aqui visto e apaixonadamente discutido. Mas não é só o futebol, longe disso, seguimos tudo de Portugal, até vimos os debates parlamentares e temos sempre acesa a SIC Notícias”…)

Não sei como será hoje – não vou lá há tempos – mas a vida, Deo gratias, tem destas coisas: agora foi a vez de Portugal inteiro – e o mundo aliás – se ter maravilhado com a perícia, o golpe de asa, o ritmo, a inteligência, dos jogadores cabo-verdianos. Não por acaso alguns deles jogam em óptimos clubes da Europa.

5Nesse tempo em que a bandeira era a portuguesa havia uma pousada – a inesquecível Morabezae toda a minha geração que conheceu Cabo Verde nessa época – e depois – sabe o lugar mágico de que falo. Apesar de uma natureza madrasta, a mesa não se ressentia, pelo contrário: a Morabeza hospedava o constante vaivém dos (exigentes) pilotos da então South Africa Airways e naquela acolhedora morada aberta sobre a ilha, havia quase de tudo mas só… ali.

O que havia porém em todo o lado era alguém a cantarolar e muitas vezes com uma viola, numa esquina, numa árvore, na rua, no infindável e liso areal branco. Cantavam num português de dicção perfeita, honrando a língua e sorrindo muito: a música permitia-lhes rasgões de felicidade em quotidianos menos felizes, numa criatividade que lhes era espontânea, natural, genuína, por vezes fulgurante e uma forma de ser muito sedutora. Logo após a primeira refeição que tivemos na Morabeza os três empregados que atendiam as mesas, tiraram os aventais, um agarrou numa viola e começou a cantar como se conversasse com ela; e os outros dois sentaram-se a jogar xadrez. Tomei boa nota).

6No início da década de setenta do século passado, quando lá cheguei, a ilha do Sal era um encanto… quase desamparado: paisagem marcada pelas secas sucessivas, quase não existia comércio, um mercado pobrezinho, não havia hotéis nem sombra turismo, apenas um ou outro aventureiro, alguns curiosos, tripulações aéreas que lá faziam escalas.

E no entanto… nunca encontrei um só aluno que saísse da escola sem o seu uniforme, do bibe às calças escuras e camisas claras. Segundo me informaram na altura – porque o perguntei – era raríssimo encontrar jovens sem a frequência de todo o ciclo liceal. Como então se dizia, “iam até ao sétimo ano”.

7Antes da independência, Cabo Verde averbava o maior índice de escolaridade das então chamadas “províncias ultramarinas” e, no final do século XX, o Ensino Básico cobria mais de 95% do território.

Quando lá regressei por várias vezes, mas já num arquipélago independente, voltei a encontrar uniformes, em diversas cidades, cada escola escolhendo o seu. Mérito deles, ontem como depois.

Nunca esqueci nada e aprendi muito: não são ricos, não dispõem de recursos naturais, até a água escasseia. Fizeram entretanto do turismo a principal receita mas perante uma Ilha do Sal já muito massificada souberam rever a “matéria” e meter a marcha atrás, lançando projectos turísticos assentes num triângulo que desejam auspicioso: turismo, natureza, cultura. Do que conheço, resultou.

8Até que um dia, sorte minha, a Fundação Gulbenkian na pessoa do então seu Presidente, Rui Vilar, me convidou a reportar a história, ou melhor, parte da espantosa e já longa história da feliz cooperação da Fundação com as Áfricas de expressão portuguesa, elegendo as áreas da saúde e da educação para o meu trabalho. O Presidente da Gulbenkian foi claro: como se me desse uma guia de marcha, disse-me que “fosse, e depois reportasse como costumam fazer os jornalistas”! Subentendido: e não como os técnicos ou os sábios dos relatórios que lhe enchiam as gavetas. Que fosse e contasse. E no final haveria livro com todo o conteúdo recolhido e editado. Após algumas reuniões com os administradores das áreas que me estavam entregues – Isabel Mota na Saúde e Eduardo Marçal Grilo na Educação – e de inúmeros encontros com os departamentos que na Fundação, tinham a seu cargo o acompanhamento dos vários programas em curso em Angola, Moçambique, S. Tomé, Guiné-Bissau e Cabo Verde, voei sobre o Atlântico. O que Rui Vilar acabara de fazer não era um convite de trabalho, era um presente (ainda não sei hoje se ele se apercebeu do valor do presente). Felicíssima, segui para África e… muito intencionalmente comecei por Cabo Verde !

9Seguiram-se semanas de intenso labor, num ritmo acelerado de descobertas, deambulações, conhecimentos novos, leituras, visitas, entrevistas e reportagens – a exigirem muito trabalho de casa – debates e (Deus não dorme) muita música e alguma boémia.

Tudo isto assente em dois pilares fortes como o aço: a então embaixadora de Portugal na cidade das Praia, Graça Andresen Guimarães que com uma agenda “impossível” se desmultiplicava diariamente para oferecer toda colaboração à minha actividade. E que eu via chegar a sua casa e após um preenchido dia de trabalho, trocar a pele de apenas embaixadora pela de embaixadora-dona de casa – e abrir a sua residência. Acolhendo com grande simpatia, políticos, intelectuais, economistas, escritores, numa belíssima amostragem de um tão especial arquipélago. O outro pilar foram naturalmente os próprios e tão evoluídos cabo-verdianos. E a sua qualidade pessoal e intelectual, a cultura, o uso da própria inteligência, sabendo sempre o que diziam e porquê. Do notabilíssimo José Maria Neves, então chefe do Governo (mais tarde seria eleito Presidente da República), aos dois Corsinos, ambos excelentes conversadores e ainda melhores cicerones: Corsino Fortes, o poeta, homem forjado na luta politica e primeiro embaixador do seu país em Lisboa após a independência. E Corsino Tolentino, também embaixador em Lisboa, depois Ministro da Educação, de Cabo Verde, alto funcionário da Unesco e a seguir, da Fundação Gulbenkian. Não é dizer pouco de cada um estes três cidadãos que citei porque o merecem mas com a convicção de que poderia citar muitos mais.

E sendo-me impossível retratar aqui todos lugares onde fui – incluo neste álbum de memórias avulsas, a lembrança em duas linhas de um indiscutível ex-libris entre as 10 ilhas: chama-se Mindelo e é o coração cultural de Cabo Verde. Amável Mindelo , espraiado sobre a baía e semeado de edifícios do século XIX, guardando intacto o perfume dessa época em que foi desenhada e levantada a cidade. E que se deixam ver, vivamente coloridos, por entre deliciosas praças e pracinhas, largos e jardins. Um encanto que tudo envolve e faz dele e do seu pendor cultural um lugar afectuoso onde coabitam ateliers de pintores, moradas de músicos, poetas, escritores, bibliotecas, Feiras do Livro. E plateias, ávidas de tudo isso.

10 O livro que assinei chama-.se “África Dentro”, saiu no final de Setembro de 2010 e seria meses depois, já em 2011, também apresentado no Mindelo em tarde inesquecível, honra minha. Contém lá dentro, como me competia, um substancial lote de informação sobre a extraordinária e muito atenta (e sobretudo generosa) colecção de apoios deixados pela Gulbenkian nas cinco Africas lusófonas. Mas das suas páginas resulta também e à vista desarmada, uma outra coleção, digamos, mas esta de bons sentimentos: gratidão, aplauso, reconhecimento (sempre superlativos,) de cinco povos e dos seus responsáveis à Fundação Gulbenkian: pelas possibilidades de melhor vida que deixou a milhares e milhares de africanos, capacitando-os para abrirem as portas do seu próprio futuro.

11E pensar que fui escrevendo tudo isto por causa da equipa de futebol de Cabo Verde e das suas estonteantes exibições!

Sou capaz de também me ter deixado levar pelo sentimento.

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