sexta-feira, 5 de junho de 2026

Expectativas, sempre

 

Um mundo próximo…  Do apocalipse? Por aqui vamos indo, cada um com os seus problemas. Por lá também… Mas,,,

Leiamos Torga, para disfarçar. Ou contemplar como ele. E ponderar também, se for possível:

Bucólica

A vida é feita de nadas;

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

De casas de moradia

Caiadas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;

De poeira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga  TORGA, M., Diário, 1941.

 

Os EUA do lado do Hezbollah?

Se os EUA já não protegem os aliados quando os aliados enfrentam os inimigos dos EUA, então quem, exactamente, ainda deve apostar a própria sobrevivência na palavra americana?

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 05 jun. 2026, 00:24

Na passada segunda-feira, o Irão esticou a corda. Não com a delicadeza habitual dos aiatolas, feita de ameaças, chantagens e promessas de apocalipse. Esticou-a de modo ostensivo, suspendendo os contactos indirectos com os EUA, ameaçando alargar a guerra, acenando com estreitos, frentes, mísseis e desgraças variadas, e dizendo que qualquer ataque israelita aos subúrbios de Beirute onde o Hezbollah acoita a direcção política, a musculatura militar e os zeladores iranianos da empresa, seria tratado como violação da trégua em todos os teatros. Em português corrente, se Israel tocar no nosso braço libanês, nós fazemos birra mundial e expelimos mísseis.

Foi um momento definidor porque obrigou os EUA a fazer escolhas e mostrar em que pé estão as coisas.

A situação era clara: ou os EUA aceitavam a chantagem iraniana e pressionavam Israel a suspender a ofensiva contra o Hezbollah, ou ignoravam a ameaça e colocavam Teerão perante a alternativa de recolher as garras ou avançar para a guerra que dizia querer.

A jogada iraniana é, em si, reveladora. Teerão não arriscaria tanto por um ornamento. Se a Guarda Revolucionária decidiu que valia a pena travar as negociações, e ameaçar americanos e israelitas, para  salvar o Hezbollah de uma pancada israelita em Beirute, é porque o grupo terrorista não é um acessório da sua política externa. É uma das suas artérias. É o punhal colocado no pescoço de Israel, a base avançada no Mediterrâneo, um seguro de vida estratégico do regime e a prova material de que o Líbano deixou há muito de ser um Estado soberano para se transformar numa sala arrendada pela “teocracia” militar iraniana.

Perante isto, os EUA cederam.

Segundo os relatos disponíveis, Trump falou com Netanyahu, anunciou contactos indirectos com o Hezbollah por intermediários, e obrigou Israel a suspender uma operação prevista contra Beirute. Traduzido da língua diplomática para a língua dos adultos, a organização terrorista disparou, ameaçou, escondeu-se atrás de civis, invocou o patrão iraniano e recebeu como prémio a protecção americana contra os  israelitas.

É possível que isto seja apenas uma leitura injusta. É possível que Trump tenha na manga um acordo de uma dureza tal que torne tudo compreensível. Um acordo que liquide a questão nuclear, desmonte os mísseis balísticos, seque os proxies, abra Ormuz, reduza o Irão a uma potência regional domesticada e deixe os aiatolas a assinar, com lágrimas nos olhos, uma rendição que nem o general Grant recusaria. Tudo é possível. Também é possível que o monstro do Loch Ness tenha carreira no direito marítimo. O problema é que, até prova em contrário, a hipótese fantástica continua a ser fantástica.

A outra possibilidade, mais prosaica, mais feia e, por isso mesmo, mais provável, é que Trump Allways Chicken Out e quer desesperadamente um acordo. Não necessariamente um bom acordo, mas um acordo. Um objecto político vendável em conferência de imprensa. Um troféu para exibir como “melhor do que o de Obama, o que, convém reconhecer, não é uma fasquia propriamente alpina. O acordo de Obama era um queijo suíço de buracos, ingenuidades e calendários feitos para agradar aos optimistas profissionais. Mas um mau acordo não se corrige com outro mau acordo acompanhado de foguetes, hipérboles tremendas, bonés MAGA e insultos telefónicos.

É que se esta segunda hipótese for verdadeira, as consequências são devastadoras.

Para o Irão, será uma vitória estratégica de enormes dimensões, apesar dos danos sofridos. Teerão aprenderá a lição de que suportar destruição, atacar terceiros, manter objectivos máximos, nunca aceitar exigências verdadeiramente irrevogáveis e arrastar negociações até que o outro lado prefira chamar paz à fadiga, compensa. Logo, será repetida. A Guarda Revolucionária precisa apenas de convencer Washington de que a continuação da batalha é mais incómoda do que a cedência. Foi assim que muitos impérios começaram a morrer, não por falta de legiões ou porta-aviões, mas por excesso de vontade de não os usar.

Para Israel, a lição é brutal. O seu inimigo existencial continuará a existir como tal. Os seus mísseis continuarão a ser fabricados. Os seus proxies continuarão a ser alimentados. O Hezbollah continuará a ser reconstruído no Líbano, como o bolor regressa às paredes quando se pinta por cima da humidade. E Israel descobrirá, mais uma vez, que a dependência estratégica de terceiros tem um preço. Um país que nasceu porque os judeus perceberam, tarde e com sangue, que ninguém os salvaria, não pode transformar-se num protectorado sentimental dos EUA. Pode ter aliados. Deve ter aliados. Mas não pode entregar a sua sobrevivência ao calendário emocional de Washington.

Há qualquer coisa de obsceno em ver um aliado que lutou ao lado dos EUA, que suportou ataques iranianos, que absorveu mísseis, drones e pressão diplomática, ser apunhalado pelas costas no momento em que se prepara para atingir o centro de comando do inimigo. Mais obsceno ainda se os relatos da chamada entre Trump e Netanyahu forem exactos no tom e na substância. Os grandes aliados não precisam de ser tratados com luvas brancas; a política internacional não é um chá de beneficência, mas há uma diferença entre pressão estratégica e humilhação pública, entre conselho duro e a sobranceria de quem confunde liderança com berro.

Para os EUA, o dano pode ser ainda mais profundo. A América não perde a sua posição no mundo apenas quando abandona Cabul em caos, quando deixa aliados pendurados, quando ameaça parceiros europeus, quando trata a Coreia do Sul como inquilina atrasada ou quando transforma Israel em subordinado descartável. Perde-a quando os outros concluem que a garantia americana é uma moeda que se desvaloriza exactamente nos momentos em que devia valer mais. A confiança internacional é feita de memória. E a memória raramente se deixa subornar por adjectivos.

O problema central não é Trump. Seria confortável reduzir isto ao temperamento de um homem, às suas vaidades, às suas cóleras e à sua necessidade de anunciar vitórias antes de as possuir. Mas o problema é maior. A América parece oscilar entre a tentação imperial e a de abandonar o mundo inteiro sem compreender as consequências. Entre o excesso imperial e a deserção, falta-lhe a velha gravitas, a capacidade de definir fins, escolher meios, sustentar aliados e fazer os adversários perceberem que certas linhas existem para não serem pisadas.

Para o Ocidente, a mensagem é gelada. Entramos em tempos de Hobbes com elites de salão. Os lobos estão a regressar: Irão, Rússia, China, proxies, milícias, piratas ideológicos, Estados falhados, Estados predadores, organizações terroristas com departamentos de comunicação e embaixadas oficiosas. E nós respondemos com cimeiras, fórmulas, pedidos de reuniões do Conselho de Segurança, prudências, “desescalada” e o medo de chamar inimigo ao inimigo. O apaziguamento é cobardia mas vem sempre vestido de sabedoria. Explica que evitou o pior, que ganhou tempo, que salvou vidas, que preservou canais. Depois, mais tarde, quando o pior regressa maior, mais armado e mais insolente, os mesmos explicadores garantem que ninguém podia prever.

Podia. Pode-se quase sempre prever. Quando se recompensa a chantagem, há mais chantagem. Quando se salva um proxy, há mais proxies. Quando se apunhala um aliado no momento em que ele ameaça vencer, há menos aliados confiantes e mais inimigos atentos. Quando a maior potência do mundo se deixa chantagear por uma teocracia que comunica por mísseis e milícias, está a pagar a primeira prestação da próxima guerra.

Eu preferia acreditar que Trump sabe exactamente o que faz. Preferia acreditar que existe um plano secreto, uma armadilha brilhante, uma arquitectura estratégica tão subtil que os seus críticos parecem apenas impacientes. Preferia acreditar que, no fim, aparecerá um acordo magnífico, leonino, verificável, definitivo, capaz de desmontar o nuclear, os mísseis, o Hezbollah, os Houthis, Ormuz e a arrogância iraniana de uma assentada.

Preferia. Mas o cepticismo é a higiene mínima de quem observa a política internacional sem incenso na mão.

O que se viu, até agora, foi que o Irão ameaçou, o Hezbollah ganhou tempo, Israel foi rasteirado e Washington cedeu. Talvez seja génio. Talvez seja cálculo. Em qualquer dos casos, a pergunta que fica não é agradável, mas é inevitável: se os EUA já não protegem os aliados quando os aliados enfrentam os inimigos dos EUA, então quem, exactamente, ainda deve apostar a própria sobrevivência na palavra americana?

A resposta a essa pergunta interessa a todos os que vivem do lado errado dos lobos e ainda acreditam que uma civilização se conserva com promessas.

Não se conserva. Conserva-se com força, vontade, lealdade e memória. Quando faltam as três, a história costuma voltar. E raramente volta para pedir licença.

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA       AMÉRICA       MUNDO

COMENTÁRIOS:

Rui Pedro Matos: E o Tribunal de Haia, o que diz da situação? E o passivo Guterres, da ONU, o que diz da situação? Enfim..... Coitados dos Ucranianos!          N A: Ficará na História pelas piores razões. Ao lado de Estaline, Mao, Hitler e outros                       Antonio Almeida: Putin é um verdadeiro assassino ao nível de Hitler e Estaline. Está a destruir a Ucrânia e também a Rússia por ambição pessoal, maldade e vontade de matar inocentes ☠️                 Jose Pires > Liberal do Costume: Vai ler o Avante....                      Eduardo Russo: Putin vai ser apeado do poder mais dia menos dia...                      Alberico Lopes > Eduardo Russo: Oxalá e que seja já amanhã                     Carlos Jerónimo: Fuga para frente!…                    Gabriel Madeira > Rui Pedro Matos: Não diz nada. Está caladinho. Só abre a boca se for para falar do clima. Ou sobre Israel.           Cisca Impllit: É... à bruta,  estertor putinesco, a estourar o paiol russo            Eduardo Mãos de Tesoura > Luis Silva: És um defensor de genocidas. mais um O PCP apoia e vai comemorar a dança Putinica na festa do avante livre de impostos.              Eduardo Mãos de Tesoura: A Ucrânia tem que redobrar os ataques contra alvos russos, quaisquer que sejam os alvos, lançando centenas de drones todos os dias, 7 dias por semana.        Eduardo Mãos de Tesoura > Luis Silva: Não seja ridículo. As suas mentiras vão directas para o caixote do lixo, tal como a propaganda mentirosa do Kremlin para justificar a sua invasão genocida de um país soberano e independente. E se o Kremlin está muito preocupado com regimes que assassinam o seu próprio povo, como fez o regime estalinista, então deveria era invadir o Sudão....ou invadir-se a si próprio!!                      Eduardo Mãos de Tesoura > JAP: Serão mais. Serão uns 500 mil soldados russos mortos na Ucrânia.                            JAP > Rui Pedro Matos: guterres de putin? Que lhe paga muito bem: JAP: 300.000 russos mortos por este louco                      Lily Lu > Luis Silva: É propaganda da História, seguramente. Está documentado e há escritos sobre o Holodomor.               Alcochete4@ Portugal ParaSempre: Confesso que sou independente e não defendo nem Ucrânia nem a Rússia. O que é verdadeiramente ATERRADOR é constatar que, em 4 anos, foram mortos uns 500.000 jovens e adultos em ambos os países.  Pensem bem !! 500.000 vidas perdidas, milhões de crianças órfãs traumatizadas, em choque, e sem um único sorriso ou sonho para nos transmitir. Com centenas de milhares de famílias destruídas e quase todas as infra - estruturas públicas e privadas destruídas do lado Ucraniano, receio que teremos uns 20 a 25 anos para ajudar a reconstruir um país ou quem sabe mais alguns países próximos da Ucrânia…. Nós não estamos assim tão longe de Kiev ou de Moscovo, e muitos dos países Europeus da UE querem resolver esta guerra com reuniões, congressos, sanções, viagens, etc etc.  Sejamos práticos e realistas. Só a China em conjunto com os EUA podem pôr fim a esta guerra.           Nuno PinhoAlcochete4@ > Portugal ParaSempre: E a Rússia. Um agressor deve sempre ser colocado na posição de terminar a chacina. A Rússia deve cair Vasco Matias > Liberal do Costume: Os camaradas do PCP não se alistam para combater o fascismo ao lados dos Russos? Preferem fazer greves gerais no conforto capitalista!                          Lily Lu: Não mete Israel, não interessa condenar nem sancionar. Que vergonha.             Lily Lu > Luis Silva: 1932 na Ucrânia. Isso foi um genocídio.                    Pedro Correia > Rui Pedro Matos: Não mete Gaza nem Palestina. Para o Guterres não conta... além disso, está no bolso do Putin.                  Luis Silva > Eduardo Mãos de Tesoura: És uma anedota.           Luis Silva: A única escalada é a propaganda acéfala anti-Rússia. Para isso é que existe a imprensa e a televisão.                Miguel Cabral: Falta coerência ao artigo. E não dá confiança nenhuma que as fontes tenham sido verificadas.

Um conceito

 

Com muita saída, ainda que por vezes perturbador da paz, pelas limitações, talvez, do nosso ego, ambicioso de projecção: “POLARIZAÇÃO”.

DEFINIÇÕES PRÉVIAS: (VIA INTERNET): A polarização é uma séria ameaça às bases da democracia que assentam no diálogo, no respeito pelas instituições, na tolerância, na abertura à diferença e no reconhecimento da legitimidade dos outros. “A polarização é um fenómeno comum da vida social, que se refere ao afastamento das opiniões no sentido dos extremos, aumentando os níveis de confronto entre posições opostas. 26/09/2023”

Nós e os outros. A sociedade polarizada

Católica-Lisbon SBE

Terça, Setembro 26, 2023 - 16:15

TEXTO: «Podemos parar a polarização?»

De facto, só há uma verdade. A verdade não é igual à opinião. Mas a verdade não está separada da mundividência de quem a expressa.

P. JOÃO BASTO, Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR, 05 jun. 2026, 00:23

Numa semana: confrontos em Paris, após a vitória do PSG na final da Liga dos Campeões; tensão em Espanha, com deputados a anunciar a ausência na sessão do congresso onde tomará a palavra o Papa; choque no Reino Unido, com o bárbaro assassinato de HENRY NOWAK; violência junto à Assembleia da República, no contexto da recente greve geral. Tudo isto parece confirmar o diagnóstico de um mundo em crescente tensão, a que costumamos chamar polarização. Na recente Encíclica, Leão XIV fala, inclusivamente, de narrativas simplistas e da lógica belicista que pretende dividir a realidade entre amigos e inimigos, numa espécie de combate existencial pela sobrevivência. Chamem-me ingénuo, inocente, naïf, mas procuro não ceder a isso. Pouco me importa que o que digo não seja apelativo. Temos de procurar uma saída. Temos dificuldade em encontrar modelos.

A meu ver, uma proposta deverá passar por Hilário de Poitiers. Filósofo e teólogo da Idade Antiga, sofreu na pele a crise intelectual do mundo em que viveu. Mesmo exilado em 356, marcou a diferença face aos seus contemporâneos, não insistindo nos erros dos seus adversários, mas procurando o entendimento entre tradições distintas. Mas como?

Antes de tudo, Hilário explicou que devemos atender ao contexto das formulações: aos seus propósitos e pontos de partida. De facto, só há uma verdade. A verdade não é igual à opinião. Mas a verdade não está separada da mundividência de quem a expressa. Aquilo que hoje denominamos como “lotaria genética e socialnão pode ser terraplanado, porque a verdade pode revelar-se através de silhuetas e não por via de um corpo inteiro e imediato.

Isto leva-o a outra dimensão: é necessário distinguir entre a formulação do discurso e o conteúdo do discurso. Entre uma coisa e outra existe uma desproporção, de tal maneira que não é suficiente “dizer a fórmula certa”. Não raro, os ressentimentos não radicam no conteúdo, mas na sua formulação. É preciso rejeitar quem se julga ortodoxo apenas por comunicar, letra a letra, o politicamente correcto. Como é preciso agir contra formulações que, por si só, favorecem o desentendimento e a tensão. No entanto, discutir palavras, e não o conteúdo, continua a ser cair numa armadilha. Como escreveu TOMÁS DE AQUINO, a nossa compreensão não se deve deter no enunciado, mas na realidade enunciada (ST, II-II, q.1, a.2, ad 2).

Não por acaso, Hilário, a certo momento, confessou que “não tinha medo” dos seus interlocutores em si mesmos, “mas de alguns que se têm por demasiado sensatos e prudentes. E, hoje, este excesso de sensatez e prudência tornou-se numa nova forma de censura. “Não se diz cor-de-pele”. “Não se diz maria-rapaz”. “Não se diz chinesices”. “Não se diz trabalhador”. No entanto, as palavras exigem uma leitura integral. Quem usa estas formulações não é uma besta. Quem as recusa não é um anjo. E se algo é equívocoboa sorte a encontrar uma forma de linguagem que não o seja –, a solução não deveria ser a supressão, mas a compreensão adequada.

É verdade, os ambientes polémicos tendem à polarização e à intransigência. Porém, é necessário evitar unilateralidades. Aquilo que de mais verdadeiro há na vida existe em tensão, em luta, em ferida. Por isso, a integridade não é directamente proporcional ao fechamento. Só existe integridade quando há ampliação do mundo. Ora, a polarização é precisamente o inverso: o triunfo da frase isolada, da meia-verdade empunhada como bandeira, da obsessão.

Sempre nos rimos das crianças que acham que o leite nasce nos supermercados. A polarização está a tornar-nos tão infantis como elas. Só vemos o nosso condomínio. Eu sei que seria mais popular passar seis parágrafos a espicaçar o touro no meio da praça para, em seguida, perseguir, num glorioso linchamento popular, os hereges. Há, no entanto, um pormenor que poucos referem: podemos colocar em frente do touro a cara do nosso inimigo, mas quando o saltarmos ele não terá problema em atirar-se a nós, mesmo que sinalizemos a nossa virtude. Deixemos de denunciar impotências. Paremos de estar confortavelmente a enunciar fracassos. Procuremos corajosamente uma solução.

VIOLÊNCIA       CRIME       SOCIEDADE

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

As verdades

 

Que gostamos de encobrir e que JNP desmascara com a sua integridade sapiente e intemerata.

"O Fascismo nunca existiu"

Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.

JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador

OBSERVADOR, 04 jun. 2026, 00:24

On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.

O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novoque, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.

Depois de 1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960, os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso, a prestar um grande serviço à pátria.

A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto decomunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional. Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.

A guerra civil europeia

Ao criar, em Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de “inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.

Foi também para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus “camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do comunismo, é o Partido. Nos Estados ideológicos, o PARTIDO comanda a Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”. A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava também integrada numa cultura futurista que via a violência como força transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano “viver perigosamente”.

O 28 de Maio, a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o fascismoo nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –, eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República. Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamentede Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o viver habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar, sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da República.

O Exército e Salazar

O partido único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.

A verdade é que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista, nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção de um Estado paratotalitário e social.

O que há em Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras, Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourgete é inseparável do catolicismo social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os princípios proclamados e a política praticada.

Foi esta democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).

A cabala

Alguns dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede, santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E que tinha o Partido que ver com isso?

Não, a Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?

E quanta pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na Venezuela?

Aqui, onde os verdadeiros fascistas acabaram na oposição

Há cem anos, a maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características autoritárias e nacional-conservadoras.  Mas não foram “fascistas”, como tantas vezes são qualificados.

Esta desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.

Além de um certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes, azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no anti-comunismo, não foi fascista.

Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição.