terça-feira, 14 de abril de 2026

Como foi possível?


Falta de respeito pelas ordens do TRUMP! E o Mundo deixa? Tudo baralhado, segundo o nosso parecer virtuosamente confiante. Em Trump, claro, que até contra o Papa resiste, com a valentia de que tem dado tantas provas em tantas intervenções de pasmar! Ces Chinois sont fous, com tanta ousadia!

 

Navio chinês sancionado passa pelo Estreito de Ormuz

Um navio petroleiro chinês que sancionado pelos Estados Unidos por ter negociado com o Irão passou pelo Estreito de Ormuz na passada terça-feira, avançou a Reuters, citando dados

da LSEG, MarineTraffic e Kpler. Será a primeira embarcação a cruzar o bloqueio norte-americano.

SÂMIA FIATES 

OBSERVADOR, 14/4/26

 

O Rich Starry é um navio-tanque de médio porte que transporta cerca de 250 mil barris de combustível, uma carga carregada no porto de Hamriyah, nos Emirados Árabes Unidos. O navio terá tripulação chinesa a bordo.

Outra embarcação que também entrou no estreito na terça-feira, e também foi sancionada pelos EUA, é o petroleiro Murlikishan, que deve carregar óleo combustível no Iraque na próxima quinta-feira. No passado, o navio já transportou petróleo russo e iraniano.

 

PATRÍCIA

 

Pessoas como PATRÍCIA FERNANDES e tantas mais que conhecemos - de hoje, como de ontem – tornam um país grande sempre, apesar das fragilidades desse país. Defender a sua HISTÓRIA, que foi grandiosa e valente, é sempre bonito – e aquece a alma de quem bem sentiu o desmoronar dessa mesma HISTÓRIA fabulosa – especialmente porque, sendo pequeno o espaço ocupado por esse povo, esse se foi alargando em feitos de extraordinário relevo, que dantes se memorizavam, pois havia quem o impusesse. Mas hoje ainda há quem o faça, motu proprio. O nosso reconhecimento a PATRÍCIA FERNANDES, pela MEMÓRIA que nos traz, sintoma, para mais, de honestidade intelectual, além do tal amor pátrio que hoje transparece mais aquando dos feitos desportivos.

Europa

 

Um colosso com pés de barro

Se fomos assim tão brilhantes, o que aconteceu para que tivéssemos perdido esse impulso? Por que razão fomos capazes de iniciar uma revolução científica na navegação como ficámos depois para trás?

PATRÍCIA FERNANDES, Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 13 abr. 2026, 00:20

1As epopeias

Se os classicistas tendem a considerar a Ilíada como o poema homérico por excelência, a verdade é que o texto que narra as aventuras de Odisseu é muito mais popular, tendo inspirado uma longa lista de outras obras. A mais popular de todas talvez seja aquela que procurou fazer para os romanos o mesmo que Homero tinha feito para os gregos: uma epopeia capaz de dar forma a um povo.

Refiro-me à ENEIDA, que o poeta Virgílio oferece ao imperador Augusto, para contar de que modo uma cidade que nasceu da disputa entre irmãos se transformou no mais poderoso império do mundo. A Eneida junta os dois temas homéricos anteriores: narra as guerras e aventuras do troiano Eneias, de cuja descendência farão parte Remo e Rómulo, que foge de Troia na terrível noite do assalto à cidade e acaba por navegar até à costa itálica, protegido por Vénus (Afrodite), sua mãe.

Jean Baptiste Joseph Wicar, Virgil Reading the “Aeneid” to Augustus, Octavia, and Livia (1790–93)

Não deixa de ser interessante notar como os romanos seriam, assim, descendentes de um troiano vencido pelos gregos, os mesmos gregos que seriam derrotados pelos romanos vários séculos depois – numa clara consciência de que a história humana se traduz numa narrativa comum construída a partir de conflitos, derrotas e vitórias.

Quando os clássicos regressam, marcando o final da Idade Média e inaugurando a modernidade, muitos poetas tentaram replicar as epopeias clássicas, narrando a história dos seus heróis locais. Portugal teve também o seu poeta e a sua epopeia, mas com uma característica específica: ela não versa sobre a história de um herói, mas sobre a história de um povo. E é por isso que não tem um nome singular, mas plural: OS LUSÍADAS.

2Os Portugueses

Durante muito tempo pensei que se tratava de uma inovação de Camões: um rasgo poético que o fez escrever em nome de um povo e não pela criação de uma personagem mítica, qualquer que ela fosse. Até que conheci o argumento de Henrique Leitão, e que podem ouvir em conversa com José Maria Pimentel ou com Miguel Milhão.

De acordo com Henrique Leitão, esta não é uma particularidade camoniana. O que acontece é que ela reflecte uma forma de pensar daquele período (séculos XV e XVI), marcado pelos Descobrimentos que inauguravam uma fase única e verdadeiramente revolucionária no mundo. Pela primeira vez, os homens tinham à sua disposição ferramentas que permitiam a navegação longe da costa e foi essa proeza a garantir uma escala de navegação mundial nunca antes conseguida.

Citando Pedro Nunes, Henrique Leitão recorda que os “descobrimentos não se fizeram indo a acertar”, querendo com isto dizer que não foi por uma questão de sorte. O sucesso português resultou, pelo contrário, da introdução de conhecimentos técnicos e científicos na navegação, o que permitiu, como diz Pedro Nunes, “mareantes muito ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria”.

A consciência deste aspecto revolucionário, quer em Portugal quer no resto da Europa, deu origem ao que Henrique Leitão designa como “anomalia discursiva”, ou seja, um intervalo no discurso de lamentação sobre o país. Durante aquele século e meio, havia a consciência de que estávamos à frente nos avanços científicos, conseguindo fazer em algumas décadas aquilo que os antigos não tinham conseguido fazer em séculos.

Este feito incrível foi historicamente desvalorizado por uma razão que se prende com o método tradicionalmente utilizado para fazer história da ciência e que consiste em explicar a sua evolução com recurso a figuras geniais (os tais heróis). E, de facto, se procurarmos em Portugal, mesmo nesse período, génios da ciência, não os encontraremos – mas encontramos um trabalho colectivo de muitos elementos que construíram as primeiras bases da navegação científica. E, por isso, os textos da altura não falam em génios ou heróis: falam d’os portugueses.

Mas não fujamos ao problema: se fomos assim tão brilhantes, o que aconteceu para que tivéssemos perdido esse impulso? Por que razão fomos capazes de iniciar uma revolução científica na navegação e empreender um projecto nunca antes realizado, mas ficamos depois para trás?

Têm sido avançadas várias respostas a esta questão, mas para Henrique Leitão foi um problema de política educativa. À medida que a matemática e a ciência iam ficando mais complexas, era necessária uma estrutura de ensino mais sólida. Os outros países fizeram-no (em especial, Inglaterra e Holanda); nós, não, pelo que ficamos para trás.

3Um colosso com pés de barro

É difícil não sentir um calor na barriga quando ouvimos Henrique Leitão. Um calor que resulta da afeição pelo próprio país, e que devíamos cultivar, não como forma de arrogância, mas porque só é possível melhorar aquilo que amamos.

O problema é que é cada vez mais difícil amar um país e tornarmo-nos dispostos a fazer sacrifícios para o melhorar – em vez da solução de emigrar, como o discurso que medra entre os jovens estudantes –, quando o discurso público e escolar é marcado pela tentativa permanente de desvalorizar o patriotismo, o compromisso comunitário e, em particular, a história e o passado do país.

Como historiador da ciência, é natural que Henrique Leitão se deixe encantar pela revolução científica empreendida pelos navegadores portugueses. Pela minha parte, o que acho realmente espantoso é a coragem desmedida que era necessária para que aqueles homens se metessem em barcos tão pequenos e se dispusessem a ir por mares nunca antes navegados, sujeitando-se às intempéries de que já tinham ouvido falar, mas sobretudo aos medos que desconheciam e que nos aparecem à noite como sonhos pegajosos.

Pela minha parte, fico espantada com a coragem. Em particular, pela comparação com os medos que preocupam e paralisam as gerações mais novas, e que passam por recear testes, tipos de comida e… palavras. Para onde foi toda aquela coragem? Sim, já sabemos que foram cometidas atrocidades – e bem terríveis – em todo esse processo (a história está cheia delas): e, ainda assim, que coragem.

E é difícil não nos lembrarmos dessa coragem quando ouvimos falar na resolução recentemente aprovada pela ONU, que usa o estratagema de declarar que a escravatura foi o maior crime cometido contra a humanidade para fundamentar, politica e talvez juridicamente, o pagamento de reparações a certos países. O tema já foi discutido por Miguel Morgado e por João Pedro Marques, sempre incansável nesta luta, em relação às questões mais técnicas. Mas não queria deixar de fazer notar como, culturalmente, a Europa tem feito solidamente o caminho para o declínio da coragem.

O fenómeno não é novo. Vejamos as palavras de Alexandre Soljenitsin no final da década de 1970:

“É, talvez, o declínio da coragem o que mais chama a atenção dum estrangeiro no Ocidente de hoje. A coragem cívica não só desertou globalmente do mundo ocidental, mas também de cada um dos países que o compõem, de cada um dos seus governos, de cada um dos seus partidos e, bem entendido, da Organização das Nações Unidas [e] é particularmente sensível na camada dirigente e na camada intelectual dominante (…).”

A Europa, outrora um gigante intelectual, cultural e político, parece-se hoje com o colosso de pés de barro descrito no livro de Daniel:

“uma enorme estátua (…) de um brilho extraordinário, mas de um aspecto terrível. Esta estátua tinha a cabeça de ouro fino, o peito e os braços de prata, o ventre e as ancas de bronze, as pernas de ferro, os pés metade de ferro e metade de barro.” (Dn 2, 31-35)

E quando uma pedra se desprendeu da montanha e bateu naqueles pés de ferro e argila, os pés ficaram esmigalhados e tudo se transformou em pó levado pelo vento sem deixar vestígio.

A base de qualquer civilização – os seus pilares – tem de estar assente em amor próprio e coragem, sob pena de facilmente desaparecer. E é por essa razão que a complacência dos dirigentes da ONU e dos países europeus que se abstiveram na resolução se torna vergonhosa. Será preciso lembrar, como nos diz Soljenitsin,

“que o declínio da coragem foi sempre considerado como um sinal precursor do fim?”

Ocidente  Mundo  Europa

 

COMENTÁRIOS:

Carlos Chaves: É sempre um enorme prazer ler os textos da Patrícia Fernandes, muito obrigado! Já que menciona aqui o Miguel Morgado, ele liga a nossa decadência (mais recente), no ocidente (Europeu), à nossa descristianização promovida pela esquerda (socialistas e sociais democratas), depois de os democratas cristãos terem construído a Europa que conhecemos até há bem pouco tempo!        

Francisco Almeida: Mais um excelente artigo de Patrícia Fernandes. Nos Descobrimentos, vou bastante mais longe do que Henrique Leitão. A supremacia dos portugueses não foi apenas nas ciências da navegação, foi-o também na construção naval (a caravela seria o Ferrari da época e uma nau que visitou Inglaterra atraiu multidões pois era 4 vezes maior do que o que os estaleiros ingleses produziam), foi-o também no arrmamento em que os canhões de bronze tinham mais alcance e maior calibre que os de ferro de todo o resto do mundo. Foi assim uma obra colectiva, não no sentido actual da palavra mas no sentido de cooperação direccionada. A célebre Junta dos Matemáticos, de D. João II integrava um judeu e um muçulmano "espanhol". Tenho dúvidas de que tivesse já passado o tempo dos heróis e prefiro ver uma adaptação dos heróis de chefes militares a chefes de sociedade. Os Descobrimentos nunca teriam sido possíveis sem o Infante D. Pedro e depois o seu sobrinho e neto o rei D. João II.

Aceito a decadência de Portugal ligada ao ensino, sobretudo depois de Nuno Palma revelar a verdade sobre o marquês de Pombal. Mas acho perturbador que o Infante D. Pedro e o rei D. João II tenham morrido assassinados, como depois o rei D. Carlos e o presidente-rei Sidónio Pais. Parece que forças malignas - os representantes actuais dos deuses gregos - eliminam quem tenta dar grandeza ou retirar Portugal da inferioridade.

Meio Vazio: Excelente, como sempre.

Ludovicus:  Obrigado. Leio sempre.  Hoje é duro. Falta de coragem? Por mim pode ainda ser mais dura.

graça Dias: Senhora Professora Patrícia Fernandes:

Um artigo brilhante com analogias da Antiguidade Clássica aqui enquadradas e relembradas com pertinência, e o paralelismo com o nosso Grande poeta - CAMÕES -  que na sua obra magistral não exalta um herói, mas sim todo um povo. O período dos DESCOBRIMENTOS foi a nossa época de "Ouro ", que se traduziu em conhecimento técnico, científico e muita audácia por parte de um povo.  Portugal construiu um grande império marítimo, que deu origem à primeira economia global, não obstante sermos um país pequeno e pobre. Este glorioso período da nossa História, também ele revelador da nossa identidade, muitos pretendem apagar e reescrever, tendo por base dogmas inauditos e sórdidos, que estão identificados no que foi a corrupção " no ensino em que o conhecimento foi  preterido, dando lugar a programas de fantasias ideológicas!...o relativismo epistemológico que hoje grassa nas nossas escolas, nos ISCTEs e em outras universidades, baseia-se na destruição da nossa História e da nossa identidade como povo, através de conceitos de "pós-verdade" e em "factos alternativos". Precisamos de muitos  - João Pedro Marques - com o seu saber e a sua contínua investigação ..., precisaríamos igualmente de um 1º Ministro com maturidade política e cultural ( o que infelizmente se não verifica),  e que interiorizasse  as palavras de Alexandre Soljenitsin no final da década de 1970.  ps. A Europa caminha sonâmbula rumo ao obscurantismo e ao declínio ético e moral. Manifesto o meu obrigada pelo excelente artigo.

S N: Excelente análise. Advertência muito pertinente e mais actual do que nunca.

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Desvios dos poderes


Igualmente. E na sequência  da tal ignorância pretensiosa do tal pretenso “chefe”.

Ignorância e desordem global

Nada de fundamental melhorou por causa desta campanha militar ou da retórica agressiva, mas inconsequente de Trump.

BRUNO CARDOSO REIS Historiador e especialista em segurança internacional

OBSERVADOR, 11 abr. 2026, 00:23

Confirmou-se que o cenário mais provável e “mais racional para os EUA, e também para o Irão” é um cessar-fogo, mesmo frágil, que permitisse aos EUA e ao Irão declararem vitória e focarem-se em prioridades internas. Como já tinha previsto, o maior obstáculo seria o governo de Israel e a questão do estreito de Ormuz. Apesar de ser um cessar-fogo parcial e precário, Trump já declarou vitória total, como não podia deixar de ser. Isso significa também que, para já, o regime teocrático iraniano sobrevive. A ignorância afoita é infelizmente um fenómeno frequente e muito antigo, mas torna-se especialmente perigosa quando é apanágio dos poderosos.

Império da ignorância

Quem não sabe o que ignora, nem quer saber, sente-se livre para pregar e praticar muita asneira. Hoje, a ignorância é mais ousada, resultado da confusão entre o direito à liberdade de expressão e a falsa ideia de que todas as opiniões são igualmente válidas. Claro que todos têm o direito de dizer os disparates que quiserem; mas isso não os torna menos disparatados, nem vai abolir o direito dos outros de os denunciar e criticar. A ignorância afoita é hoje mais visível devido às redes sociais, mas o ignorante afoito sempre existiu. Raphael Bluteau, o estrangeiro “curioso” apaixonado pela nossa língua, escrevia com acerto, em 1727, na prefacção do suplemento do seu dicionário:

Notáveis privilégios são os da ignorância: o ignorante […] em apurar verdades não cansa o entendimento, nas academias não dá conta dos seus estudos […]. Sem frequentar as escolas, tem confiança para se insinuar nos congressos dos sábios. […] O mais besta de todos é o ignorante enfronhado em filosofias, que sonhou ter aprendido sem mestres e que, para saber, não há mister de livros.”

A descrição lembra-vos o líder de alguma grande potência actual? Não me darei ao trabalho de identificar quem melhor corresponde, hoje, a este retrato-robot. Se alguns leitores se irritarem com a identidade do suspeito ou, quiçá, se reconhecerem no retrato, poderão sempre aproveitar a caixa de comentários para exibir a sua falta de educação, de maneiras, de leituras e de entendimento – próprios do ignorante afoito.

O que fui procurar ao dicionário de Bluteau? Uma definição de império. Não a encontrei. Encontrei, sim, o verbete relativo a emperador. (Hoje escrevemos imperador, mas a ortografia tradicional – de que tanto se fala – não estava uniformizada, e a “tradição” ortográfica actual data apenas do início do século XX.) Império parecia um conceito ultrapassado na política global: o século XX foi um imenso cemitério de impérios. No entanto, com a demolição caótica e ignorante da ordem global vigente, o império arrisca-se a regressar, caso se consolide o retorno da guerra de conquista por grandes potências predatórias neoimperiais, a exemplo da Rússia na Ucrânia.

A ilegalidade da guerra de agressão 

É verdade que, até 1945 – antes da Carta das Nações Unidas – existiam menos restrições ao direito dos Estados de fazer guerra, apesar de uma tentativa falhada de o limitar em 1928. Mas a agressão gratuita nunca foi bem vista. Um exemplo famoso é o da acusação do senador Catão contra Júlio César pela conquista da Gália entre 58 a.C. e 50 a.C. Catão venceu o debate no Senado romano, embora isso não tenha bastado para travar a ascensão de César ao poder. Guerras de agressão externa e autoritarismo interno costumam andar de mãos dadas. O teste decisivo para perceber se um líder populista é ou não autoritário não é a sua derrota nas urnas, mas aquilo que faz a seguir. Poderemos testar isso com Órban, se perder este domingo, e veremos também como reagirá Trump às eleições intercalares de novembro deste ano. Em todo o caso, a ideia de que “não vale tudo na guerra” já era clara há mais de dois milénios.

Esqueçamos os princípios por um momento e perguntemos: a guerra sem regras e sem limites é eficaz? Não. Hitler conduziu uma guerra de conquista e extermínio – a mais brutal da História – entre 1938 e 1945. Resultado: resistência armada por toda a Europa ocupada e uma coligação global de 50 Estados contra o império nazi. O Terceiro Reich não chegou a durar 10 anos. A este propósito Trump exibiu recentemente a sua ignorância ao elogiar o ataque surpresa do Japão a Pearl Harbor e usá-lo como justificação para um ataque surpresa ao Irão – ignorando alegremente que o resultado final da Segunda Guerra Mundial foi a derrota total japonesa.

Mais: se a lei internacional não importa, com que argumentos podemos criticar os ataques ilegais do Irão aos países vizinhos ou à navegação civil no estreito de Ormuz? Os princípios básicos do direito internacional foram surgindo desde a Antiguidade porque é evidente que, sem regras mínimas, não existe a ordem e a segurança de que todos precisamos para viver, prosperar. Sem direito internacional, não há condições para manter as redes de comércio global. Todos estamos a ter uma pequena amostra do enorme custo que isso representaria. Nenhum Estado pode escoltar permanentemente todos os navios de que depende a sua economia: mais de 80% das mercadorias continuam a circular por via marítima, e mais de 90% dos dados da economia digital passam por cabos submarinos. O resultado seria um mundo mais conflituoso e mais pobre, com Estados cujos orçamentos seriam dominados pelos custos da defesa.

Donald Trump e Pete Hegseth não estudaram o suficiente para perceber que a guerra não é um mau filme de Hollywood. Hegseth começou por insistir em ser chamado Secretário da Guerra, porque Defesa não lhe parecia suficientemente másculo. Depois foi forçado a negar que a ofensiva contra o Irão constituísse uma guerra – seria ilegal sem aprovação do CongressoO mesmo Pete defendeu, num discurso que parece saído de um mau filme de acção, que “não haverá regras de empenhamento”, que “não se dará quartel” e “não se mostrará misericórdia”. Mais tarde, alguém lhe explicou que isso equivale a confessar um crime de guerra. Acabou por garantir que os EUA não visaram deliberadamente uma escola junto a um quartel iraniano, afirmando que os militares americanos não atacam civis. Ou seja, afinal existem regras de empenhamento, e são cruciais para preservar a reputação e a legitimidade dos EUA. Em suma, a maior potência militar do mundo é hoje liderada por ignorantes militantes e militantes ignorantes.

A vitória numa guerra é sempre política

Os EUA e Israel demonstraram superioridade tecnológica e táctica, atingindo cerca de 13 mil alvos no Irão. Eliminaram dezenas de líderes políticos e militares iranianos – inclusive o Guia Supremo Ali Khamenei e os principais chefes militares – e causaram milhares de baixas. Mesmo assim, o regime iraniano resistiu, continuou a combater e passou a reivindicar o controlo do estreito de Ormuz, ponto de estrangulamento vital da geoeconomia global. Já Teerão recorreu a tácticas irregularesdrones, minas, mísseis, grupos armados e outras formas de “nivelar poder”. Fez exatamente o que uma potência mais fraca deve fazer numa guerra assimétrica. Pequenas potências, como Portugal, deveriam aprender as lições da Ucrânia e do Irão e investir mais neste tipo de capacidades niveladoras.

Nenhum dos objectivos políticos declarados no início do conflito pelos EUA foi atingido. Por muito que Trump finja o contrário, não mudou o regime teocrático iraniano, que afirma não desistir do programa nuclear nem do apoio a grupos armados do “eixo da resistência”, como o Hizbullah. Continua a dispor de mísseis e drones suficientes para ameaçar a região e, sobretudo, a navegação segura no estreito de Ormuz – por onde, ironicamente, só tem passado petróleo iraniano, ao dobro do preço anterior e livre de sanções. Tudo isto poderá mudar com as negociações ou com a continuação do conflito, mas, por enquanto, nada de fundamental melhorou por causa desta campanha militar ou da retórica agressiva, mas inconsequente de Trump.

Quem ganha?

Este comportamento errático apenas reforça a percepção de que os EUA de Trump não são fiáveis – e de que ser seu aliado é, neste momento, um factor de risco. Ganhou sobretudo a Rússia, que vende petróleo ao dobro do preço, e a China, grande produtora de painéis solares e turbinas eólicas. Não tenhamos ilusões: ambas são grandes potências predatórias, mas, comparados com Trump, Putin e Xi parecem líderes um pouco mais previsíveis. Veremos como as potências do Golfo reagem a esta crise existencial. Se o regime iraniano sobreviver e se radicalizar – um cenário possível – é plausível que os vizinhos procurem garantias de segurança junto da China. Pequim poderá retirar daqui um incentivo para acelerar o seu programa de modernização militar e aumentar a pressão naval sobre Taiwan, aproveitando-se da distração ignorante e caótica do líder norte-americano e do enfraquecimento da lei internacional nos mares.

Não tenho certezas sobre a viabilidade deste cessar-fogo. Um dos problemas dos ignorantes afoitos é serem imprevisíveis. Não é por algo ser comprovadamente uma asneira, ou contrário aos seus próprios interesses, que deixam de cair nela. Tenho apenas uma certeza: seria um precedente desastroso permitir que o Irão continuasse a controlar e cobrar portagens num dos pontos de estrangulamento vitais da geoeconomia global. Isso seria uma enorme vitória estratégica para o regime de Teerão. Esperemos que, pelo menos isso, Trump perceba – e não se sinta tentado a alinhar no esquema em troca de alguma comissão.

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