Dos grandes poderes e das
grandes complexidades, hoje. Os textos dos grandes prazeres literários, ou das
realidades sombrias.
O TEXTO clássico:
Do Padre António Vieira sobre a guerra (1668)
“É a guerra aquele monstro que se sustenta das
fazendas, do sangue, das vidas, e, quanto mais come e consome, tanto menos se
farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as
vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e
monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as
calamidades em que não há mal nenhum que ou se não padeça, ou se não tema, nem
bem que seja próprio e seguro: - o pai não tem seguro o filho; o rico não tem
segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a
honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a
sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.” P. António Vieira (1668)
UMA DEFINIÇÃO NA ACTUALIDADE:
Este compromisso acolhe uma série de pretensões
iranianas, reduz os meios de pressão dos EUA, e deixa cair praticamente todos
os principais objectivos declarados por Trump.
BRUNO CARDOSO REIS, Historiador e especialista em segurança
internacional
OBSERVADOR, 20 jun. 2026, 00:23
Para que serve uma guerra? War! What
is it good for? Cantavam os The Temptation e depois os Jam.
E respondiam: Absolutely
nothing! Absolutamente nada! Não é assim tão simples. Grandes inovações da triagem
na medicina até à internet surgiram num contexto de conflito.
Apesar disso, ninguém
– pelo menos, ninguém no seu perfeito juízo, como escrevia Clausewitz – inicia
uma guerra sem saber quais são os seus objectivos políticos, e sem se
certificar de que não os consegue alcançar por meios mais pacíficos, menos
custosos, menos incertos. Uma guerra pode ser um mal necessário: não creio, por exemplo, que Hitler
fosse susceptível a argumentos diplomáticos. Um dos grandes
problemas de uma guerra, no entanto, é ser muito difícil saber como irá acabar.
O inimigo tem um voto
que torna a sua evolução, custo e desfecho difíceis de prever. Trump cometeu em relação ao inimigo
iraniano um erro frequente e sempre muito custoso – subestimar o inimigo e a sua vontade
de continuar a combater. Este acordo de cessar-fogo reflecte esse
erro. O mínimo que podemos fazer é tentar aprender alguma coisa com o sucedido.
O grande escritor e humorista Mark Twain gostava de dizer que a guerra era a forma de Deus obrigar
os seus compatriotas norte-americanos a aprenderem geografia, a conhecerem
melhor o resto do Mundo. Um dos autores mais conhecidos da
escola geoestratégica francesa, Yves Lacoste, deu como título ao seu livro
clássico de 1976: A
Geografia serve sobretudo para fazer a guerra. Efectivamente,
sem um bom conhecimento de geografia não é possível compreender ou conduzir
operações militares com sucesso. Por muito que os meios tecnológicos e as suas
aplicações militares possam ter mudado, o controlo do estreito de Ormuz, um dos
pontos de estrangulamento da navegação global e ponto de passagem obrigatório
de rotas comerciais vitais ligando oriente e ocidente, continua a ser tão
importante hoje como era no tempo de Afonso de Albuquerque. E
em Ormuz
a
geografia apertada do estreito que reduz o tempo de reacção das defesas,
combinada com tecnologia como drones, mísseis e novos tipos de minas, favorecia
o Irão. Trump optou por ignorar que estamos num mundo onde nivelar o poder é mais
fácil, e garantir a liberdade de navegação é mais difícil.
A centralidade de novas tecnologias disruptivas é clara na Terceira Guerra do
Golfo, e também na Guerra de agressão russa contra a Ucrânia. O governo de Kiev transformou o seu
país, sob bombardeamento constante e indiscriminado, numa superpotência de
drones. A Ucrânia está a produzir perto de 800.000 drones por mês
dos mais variados tipos, aéreos, navais e terrestres! Isso não garante a
vitória, tendo em conta a enorme assimetria de poder militar favorável à
Rússia, mas devolveu alguma iniciativa à Ucrânia, e aumentou muito o custo
económico e em baixas da guerra para a Rússia.
A inovação não fica por aí. Teremos de lidar com o
peso crescente da robótica militar, no mínimo semiautónoma. Teremos
de lidar com o uso crescente da inteligência artificial. Isso cria grandes
oportunidades, mas também cria grandes problemas, inclusive éticos.
Um dos mais importantes para a Europa é que os europeus se habituaram nos últimos
séculos a uma forma de fazer a guerra com base numa enorme assimetria tecnológica que
lhes é favorável. A sua perda seria uma enorme revolução estratégica. Zelensky
tem razão quando insistiu esta semana, no encontro do G7 e no Conselho Europeu,
que a Europa não pode ficar para trás.
A proibição imposta pelo governo de Trump ao uso, fora
dos EUA, dos modelos mais avançados de inteligência artificial da
Anthropic deixa isso bem claro. Estamos cada vez mais numa Guerra Fria tecnológica e
em torno de outros recursos estratégicos entre os EUA e a China, em que a Europa
está a ficar para trás, marginalizada. A Europa corre o
risco, se ficar a regular sem inovar, de acabar por não ter o que regular.
Precisamos de mudar de paradigma, não nas palavras, mas nas acções.
Temos de investir numa escala massiva. Isso implica criar um mercado de
capitais realmente integrado. Implica também uma cultura de risco e recompensa
que parece
cada vez mais ausente da Europa – com exceções como a Ucrânia,
forçada a isso pela guerra. Talvez precisemos de aprender alguma coisa com o sucesso da
China e criar zonas económicas especiais, com menos regulação e menos impostos,
para promover com a rapidez necessária quer a inovação tecnológica, quer a
produção massiva de meios militares, por exemplo drones. Se
isso não for feito ao nível da União Europeia – por inércia e bloqueios vários
– corremos o risco de que não seja feito de todo, ou que acabe por ser feito
por alguns países mais relevantes e dinâmicos, ou seja, sem Portugal.
Lições de paz
Trump sempre achou que podia acabar com uma guerra com
a facilidade com que fecha acordos imobiliários à custa da força da sua marca
personalizada. A política externa é mais complicada, e terminar uma guerra é
especialmente complicado. Na passada semana estive numa
conferência internacional de história militar. Um dos temas mais discutidos foi
precisamente este, que na língua franca académica global é etiquetado como war termination. Quais
são alguns dos seus problemas clássicos? Numa guerra a dimensão emocional
muitas vezes sobrepõe-se ao simples cálculo racional de perdas e ganhos.
Muitas vezes o inimigo não aceita a derrota, e opta por prolongar o
conflito mesmo que por meios não-convencionais, como a guerrilha espanhola e
portuguesa contra as tropas do invencível Napoleão. O acumular de baixas, de mortos, de
custos, torna politicamente mais díficil de vender ao público o
fim do conflito com um compromisso que formaliza cedências, do que prolongar ou
congelar o conflito no limbo, num cessar-fogo que se vai prolongando. Como aqui
escrevi várias vezes esse era o cenário mais provável para o desfecho deste
conflito.
Vimos todas essas dinâmicas em jogo na Guerra russa contra a Ucrânia e na
Terceira Guerra do Golfo. Este memorando de entendimento reflecte
um padrão fundamental dos conflitos armados de tipo assimétrico desde o final
da Segunda Guerra Mundial (1939-1945): favorece o lado aparentemente mais
fraco, mas que joga no próprio terreno, face a uma potência mais bem armada, mas que está a assumir os custos de
projectar forças a milhares de quilómetros da sua pátria. Este padrão é claro do Vietname às
guerras coloniais tardias até ao Afeganistão. E com um presidente tão impaciente
por resultados rápidos, tão preocupado com o mercado bolsista como Donald Trump, a limitada vontade política dos EUA
para se envolver num conflito prolongado no Médio Oriente ainda se acentuou
mais. O Irão parece ciente de que os EUA querem terminar rapidamente o
conflito e precisam da reabertura do estreito de Ormuz para evitar os custos da
estagflação e de uma crise económica global mais séria. Efectivamente, Trump
deixou claro que uma das razões por que chegou agora a este acordo frágil com o
regime dos aiatolas é que não quer ser um novo Hoover, o presidente dos EUA que foi
responsabilizado pela Grande Depressão.
O resultado é que este compromisso acolhe uma série de
pretensões iranianas, reduz os meios de pressão dos EUA, e deixa cair
praticamente todos os principais objectivos declarados por Trump:
mudança de
regime, fim do programa de mísseis, fim do apoio a grupos armados pela região,
fim do programa de enriquecimento nuclear. De todos estes pontos apenas o nuclear é mencionado, mas em termos de um
compromisso de continuar a negociar. E o Irão sempre disse que não queria
ter armas nucleares. O problema nunca foi que o dissessem, mas sim, ter garantias
concretas que impedissem que fizessem uma bomba atómica. Os
principais problemas e ameaças criados pelo regime iraniano ficam por resolver,
e podem agravar-se com a promessa do fim das sanções e de um fundo de 300 mil
milhões de dólares para ajudar o Irão a reconstruir-se. Não custa imaginar que o regime dos
aiatolas dará prioridade à reconstrução da sua máquina de guerra. Este
memorando será no máximo um mal menor, se garantir a reabertura segura e sem
restrições ou taxas do estreito de Ormuz. Mas mesmo isso não está garantido, e
não era um problema antes do início desta guerra. Os EUA viram a sua credibilidade como
aliado e o seu papel de máximo garante da ordem global mais uma vez minados
pela Administração Trump. A Trump isso não importa, só lhe interessa o seu
protagonismo, os seus ganhos económicos e políticos pessoais, mas os
verdadeiros amigos dos EUA sabem que isto é um grande problema, e não apenas
para os norte-americanos.
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