terça-feira, 20 de outubro de 2026

Combinações belicistas

Ao jeito de quem sabe e pode e quer… ou a isso é obrigado, num mundo refinadamente torcido. Tortuoso também se aplica. Vaidoso, igualmente. Pedante, arrogante, importante, para quem se julga potente…  Afinal, de contrastes e ilusões, “folha que cai”, como avisou o nosso Deus, que também se chamava João, definindo a VIDA. Coisa precária, está visto, mesmo para os Trumps e Putins dos tempos.

Em directo/ Zelensky promete não atacar instalações de gasóleo russo se Washington entregar Patriots à Ucrânia

Rússia nega ter proposto reunião com Trump e Xi para discutir futuro da Ucrânia. Ataque ucraniano a São Petersburgo faz um morto e dez feridos. Netanyahu revela nova doutrina de segurança nacional.

MANUEL NOBRE MONTEIRO- Texto

Momentos-chave

Zelensky poderá encontrar-se na próxima semana com enviados especiais de Trump na Noruega

Zelensky pediu a senadores dos EUA para pressionarem Trump a remover restrições a partilha de informações e entrega de armas, avança Axios

Hegseth ainda não autorizou entrega de novo pacote de armamento à Ucrânia, avança Reuters

Enviados especiais de Trump vão esta semana à Noruega para nova ronda negocial sobre a Ucrânia

Trump diz que "talvez esteja na hora de o Zelensky ter outra pessoa para negociar" a paz

Sobe para seis o número de mortes em ataque russo a Kharkiv

Um morto e seis feridos em ataque em Obukhiv, no distrito de Kiev

Trump acredita que a Rússia não está a ajudar o Irão na guerra

Trump manifesta disponibilidade em reunir com Putin e Xi

"A Rússia, francamente, tem-se portado bem com a Ucrânia". Trump acusa Zelensky de não querer terminar a guerra

Houthis reivindicam seis operações militares na Arábia Saudita em 48 horas

Colonos israelitas atacam funcionário dos Médicos sem Fronteiras na Cisjordânia.

Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Paquistão deve visitar Irão amanhã para tentar reatar negociações entre Washington e Teerão

Ataques russos em Kharkiv matam cinco pessoas, incluindo duas crianças. Em helntsky, duas pessoas foram mortas

Zelensky e Papa Leão XIV falam sobre situação em Oleshky. Vaticano pede cooperação para a entrega de ajuda humanitária

"Temos trabalho para acabar". Netanyahu agradece apoio de Trump

Irão acusa NATO de ajudar Estados Unidos na guerra contra Teerão e diz para a Europa "abrir os olhos à realidade"

Zelensky denuncia novas falhas de acesso ao Starshield

Zelensky promete não atacar instalações de diesel russo se Washington entregar Patriots à Ucrânia

Irão acusa Estados Unidos de serem responsáveis pela insegurança em Ormuz

"Palhaçada". Lavrov critica oposição de Zelensky e da Europa a acordo de diesel entre Estados Unidos e Rússia

Rússia pede cumprimento do memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irão

Lavrov: Rússia só ataca infraestruturas civis se estiverem a ser usadas para fins militares

Ucrânia resgata pela primeira vez um soldado ferido da linha da frente com um drone

UE pode entregar 30 mil milhões de euros à Ucrânia até ao final do ano mediante reformas implementadas

Kremlin nega encontro tripartido entre Putin, Trump e Xi Jingping

Netanyahu revela nova doutrina de segurança nacional para Israel. Oposição apelida-a de “superficial”

Pelo menos 25 mortos em ataque a acampamento militar do Governo iemenita, em Shabwa

Zelensky acusa Rússia de lançar 16 mísseis balísticos contra Kiev e deixar 550 mil famílias sem electricidade

Lavrov vai apresentar ao Irão esforços russos para reduzir tensões regionais

Qatar prepara nova parceria regional de defesa para reforçar capacidades militares

Israel detém dez suspeitos de ataques a jornalista e diplomatas na Cisjordânia

Marco Rubio nega pausa na partilha de informações dos EUA com a Ucrânia

Zelensky acusa EUA de atrasarem entrega de mísseis interceptores para sistemas Patriot

 Ataque ucraniano a São Petersburgo faz pelo menos um morto e dez feridos

Putin propõe reunião com Trump e Xi Jinping para discutir futuro da Ucrânia

Irão diz que petroleiro atingiu mina e incendiou-se em Ormuz

Zelensky sugere que Trump está a tentar forçar capitulação de Kiev perante

Observador

O que se passou até agora

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acusou a administração Trump de estar a tentar forçar a capitulação da Ucrânia perante a Rússia, citando como exemplos as restrições ao fornecimento de mísseis interceptores Patriot — reduzidos para 12 por mês, um quarto do que era enviado pela administração Biden — e as limitações impostas ao uso militar do sistema de satélites Starlink em território russo. Zelensky afirmou ainda que os EUA bloquearam durante três dias a partilha de informações dos serviços secretos com Kiev, durante ataques balísticos russos, acusação que o Secretário de Estado Marco Rubio negou categoricamente.

A Rússia lançou um ataque massivo contra a região de Kiev, com 16 mísseis balísticos e mais de 200 drones, incluindo modelos Shahed, danificando infraestruturas energéticas, uma escola, uma clínica, uma estação de metro e vários edifícios, deixando mais de 550 mil famílias sem electricidade. Em resposta, forças ucranianas atacaram São Petersburgo e a região de Leninegrado com drones, causando pelo menos um morto e dez feridos, e atingindo um terminal petrolífero, um centro de dados e instalações industriais.

Vladimir Putin propôs uma reunião tripartida com Donald Trump e Xi Jinping, possivelmente à margem da cimeira da APEC em novembro, em Shenzhen, para discutir o futuro da Ucrânia, numa iniciativa que poderá permitir à Rússia negociar o fim do conflito em condições favoráveis a Moscovo. Trump ainda não aceitou formalmente a proposta, embora fontes norte-americanas indiquem que poderá estar receptivo à ideia.

Benjamin Netanyahu apresentou uma nova doutrina de segurança nacional para Israel, assente em dez princípios que incluem ataques preventivos, zonas-tampão nas fronteiras e a máxima de “evitar a contenção quando for possível atacar”, tendo a oposição, liderada por Yair Lapid, classificado o documento de “superficial e bizarro”. Entretanto, as forças de segurança israelitas detiveram dez suspeitos na sequência de ataques de colonos a diplomatas europeus, a um autarca francês e à fotojornalista do Washington Post Heidi Levine, na Cisjordânia.

Este resumo foi gerado por IA e revisto por um jornalista do Observador.

Ricardo Reis

Zelensky poderá encontrar-se na próxima semana com enviados especiais de Trump na Noruega

O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, deverá estar na próxima semana na Noruega, para uma nova ronda negocial sobre o fim da guerra da Ucrânia, e deverá encontrar-se na próxima terça ou quarta-feira com os enviados especiais de Donald Trump.

A informação é avançada pela Axios, com base numa transcrição de uma videochamada com senadores norte-americanos, fornecida por funcionários ucranianos.

Após a ronda negocial, os enviados especiais de Trump, Jared Kushner e Steve Witkoff, deverão seguir para Moscovo.

Ricardo Reis

Zelensky pediu a senadores dos EUA para pressionarem Trump a remover restrições a partilha de informações e entrega de armas, avança Axios

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, falou hoje com os senadores norte-americanos Richard Blumenthal e Thom Tillis, e ter-lhes-á pedido para pressionar a administração Trump para remover restrições à partilha de informações e entrega de armas. A informação é avançada pela Axios, com base numa transcrição da videochamada fornecida por funcionários ucranianos.

“Queremos perceber o que está a acontecer, porque está a acontecer, e onde isto tudo nos está a levar”, terá afirmado aos senadores.

Na reunião, Zelensky terá abordado as dificuldades no acesso ao Starlink e à Starshield e o atraso na entrega de armamento, como os mísseis interceptores Patriot, apesar dos Estados-membros da NATO terem pago pela entrega.

Além disso, terá reafirmado que propôs aos enviados especiais de Trump suspender os ataques a refinarias russas em troca da entrega de Patriots, mas que “não mostraram nenhuma abertura à ideia”.

Após a reunião, Blumenthal e Tillis sublinharam o apoio bipartidário “claro e inequívoco” do Congresso norte-americano à Ucrânia “que será expresso numa acção futura”.

Ricardo Reis

Hegseth ainda não autorizou entrega de novo pacote de armamento à Ucrânia, avança Reuters

A Ucrânia não recebeu um novo pacote de pacote de armamento, negociado com a NATO, porque Pete Hegseth, secretário da Defesa norte-americano, ainda não autorizou a sua entrega, avança uma fonte familiarizada com o assunto à Reuters. Não são conhecidas as razões para tal.

“O secretário de Defesa Pete Hegseth ainda não autorizou a entrega do mais recente pacote de armamento dos Estados Unidos comprado por aliados da NATO sob um programa conhecido como PURL”, refere a agência de notícias. No entanto, não se sabe se o pacote inclui os mísseis interceptores Patriot, muito pedidos pela Ucrânia para garantir a sua defesa.

O Pentágono não comentou a notícia.

Ricardo Reis

Enviados especiais de Trump vão esta semana à Noruega para nova ronda negocial sobre a Ucrânia

Os enviados especiais de Trump, Jared Kushner e Steve Witkoff, vão viajar esta semana para a Noruega para uma nova ronda negocial para terminar a guerra da Ucrânia, avançam três fontes familiarizadas com o assunto à Reuters.

Volodymyr Zelensky deverá estar presente na ronda, referem duas das fontes, sendo que o cronograma é “provisório” e pode sofrer alterações.

Ricardo Reis

Trump diz que "talvez esteja na hora de Zelensky ter outra pessoa para negociar" a paz

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a Ucrânia podia ter obtido a paz se tivesse “ouvido” o líder norte-americano e que devia ser a altura de Zelensky confiar as negociações a outra pessoa.

“Zelensky deveria ter resolvido há muito tempo esta guerra. Se ele me tivesse ouvido, teria feito um negócio muito mais lucrativo há muito tempo. E haveria milhões de pessoas do lado dele. Talvez esteja na hora de o Zelensky ter outra pessoa para negociar”, afirmou aos jornalistas, no exterior da Casa Branca.

(CONTINUA)

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Filosofices da vida

 

Viver em paz, em suma, desde que sejamos acompanhados dos meios antipacifistas, necessários para induzir a essa…

Uma Europa livre sem armas não trará a paz

A história ensina muito, mas não dá respostas simples. Uma das coisas que mostra é que pensar que se pode viver sem riscos ou defender a liberdade sem armas nunca foi realista.

BRUNO CARDOSO REIS Historiador e especialista em segurança internacional

OBSERVADOR, 19 out. 2026, 00:23

Os europeus ocidentais desabituaram-se da guerra. Em certo sentido é normal: vivemos, desde 1945, sem grandes guerras convencionais na Europa Ocidental. O problema é que nos convencemos de que a paz é natural, não tem custos, não exige meios de defesa e dissuasão de ameaças. Um texto de opinião recente ajuda a ilustrar o ponto a que chegou o nosso desarmamento intelectual e os disparates a que isso conduz.

Vão combater, malandros

Há um sofisma muito popular nas redes sociais: o de que só tem legitimidade para analisar e defender algum envolvimento num conflito armado quem estiver no terreno a combater. Lamento desapontar os muitos anónimos das redes, mas não preciso da licença deles para analisar ou opinar sobre guerras. Tirei essa licença quando me doutorei em estudos de guerra pelo King’s College. A ideia de que só um combatente pode analisar guerras apenas faz sentido para quem desconhece o básico desse tipo de estudo. Teremos de parar de escrever sobre a eficácia de desembarques anfíbios na Segunda Guerra Mundial porque não temos uma máquina do tempo para ir combater na Normandia? No presente, existem 66 conflitos armados em todo o mundo; temos de combater em todos eles, e ao lado de que beligerante? Esta espécie de machismo analítico – “não és homem para ires lá dar uns tiros” – é especialmente risível porque estes autonomeados especialistas naturalmente não praticam o que defendem. Uma variante que pode parecer mais razoável deste argumento é a ideia de que quem defende algum tipo de apoio a um país invadido devia ir lá combater. No entanto, seguindo a mesma lógica, se defendermos a ajuda ao combate aos incêndios em Espanha, às vítimas das cheias em Moçambique ou do Ébola no Quénia – situações que envolvem algum risco de vida – em vez de mandarmos bombeiros ou médicos qualificados, deveríamos ir em pessoa? Ridículo.

Os nossos filhos não

O cronista citado mostra-se muito preocupado com a falta de rigor alheio. É verdade que é preciso cuidado com a desinformação e a propaganda numa guerra. Resolve então apostar num processo de intenções abusivo, numa manipulação grosseira, ou, na demonstração superpoderes psíquicos na leitura de mentes alheias. Afirma que o verdadeiro objectivo dos analistas ou governos que defendem que a Europa tem de se rearmar e ajudar a Ucrânia a defender-se é preparar o terreno para arrancar os jovens europeus dos seus lares pacíficos – com base num serviço militar obrigatório que nem sequer existe na maioria dos países – para os forçar a ir combater na frente ucraniana.

A ideia de que enviar armas e dinheiro para a Ucrânia conduz inevitavelmente ao envio de tropas é desmentida pelos últimos cinco anos e pela história. Temos centenas de conflitos desde 1945 em que um dos lados foi armado por potências externas sem envolvimento de tropas próprias. Mais, na maioria dos casos em que forças expedicionárias foram enviadas, tratou-se de tropas profissionais, de soldados voluntários. Os EUA no Vietname e a União Soviética no Afeganistão são excepções, tal como as guerras coloniais tardias, mas tornaram-se casos exemplares do que se quer evitar.

O título da coluna citada afirma que Portugal “não deve filhos à Ucrânia”. Realmente não estamos obrigados a isso por nenhum acordo formal, ao contrário dos EUA e da Rússia que, em 1994, no memorando de Budapeste, se comprometeram a garantir a segurança e integridade territorial da Ucrânia em troca do governo de Kiev ceder a Moscovo as armas nucleares soviéticas que tinha herdado. No entanto, Portugal apoiou esse processo de desnuclearização da Ucrânia, que até se iniciou com negociações em Lisboa. É um excelente exemplo dos riscos do desarmamento unilateral. Isso significa que não devemos nenhum apoio à Ucrânia? E não se combate uma invasão sem armas e dinheiro.

Os “mecânicos” da Oficina da Liberdade acham que a liberdade foi construída e mantida sem luta? Devemos evitar qualquer risco de desagradar a uma Rússia que, dizem-nos, não é sequer uma ameaça séria? Devemos deixar uma grande potência com declarados objetivos expansionistas tentar invadir quem quiser na Europa, desde que não sejamos nós? Vamos esperar até que o alvo seja membro da NATO para fazermos alguma coisa? Já se tentou essa lógica de apaziguamento amoral, na década de 1930, e o resultado não foi grande coisa do ponto de vista da defesa da paz.

Orgulhosamente sós?

É legítimo discutir o que Portugal deve fazer num mundo cada vez mais propenso a conflitos armados, que atingiram um número recorde no ano passado. Por exemplo, devemos voltar a ter um serviço militar obrigatório? Do meu ponto de vista essa opção é cara e militarmente pouco eficaz, mas o que fazemos se deixarmos de ter voluntários suficientes? Também me parece evidente que – tal como já acontece hoje – só devem ser enviados para combater no exterior soldados profissionais e, de preferência, voluntários para essas missões. Aliás, já temos jovens portuguesas em zonas de guerra, por exemplo, na força destacada na missão da ONU na República Centro-Africana.

Num contexto em que um aliado-chave como os EUA se mostra pouco de fiar, devemos ser capazes de pensar fora da caixa estratégica habitual. O que não faz sentido é fingir que a Europa decidiu rearmar-se por capricho, ou que qualquer apoio à Ucrânia levará à Terceira Guerra Mundial, como nos dizem há cinco anos. A Ucrânia está numa situação muito difícil com uma nova aproximação de Trump a Putin. Eu não faço da Rússia uma potência imbatível – isso não existe – mas mesmo um regime muito ineficiente, quando está armado até aos dentes, pode causar grandes estragos na vizinhança. Há sinais de cansaço em sectores importantes na Europa com o apoio à Ucrânia. Não me espanta que haja quem esteja a procurar alibis para se livrar de incómodos. Podemos em breve testar a tese de que uma paz a qualquer preço na Ucrânia irá contribuir para a segurança da Europa livre.

Se não quisermos mandar armas ou tropas para lado nenhum, então estamos a defender que Portugal deve abandonar as suas alianças e adoptar uma estrita neutralidade. É legítimo, mas convém perceber que isso não nos livra dos impactos negativos de conflitos armados ou da necessidade de investimento em defesa. Grande parte do Mundo não está em guerra com o Irão, mas todos pagam o preço na bomba de gasolina. Essa opção também significa que, se formos atacados ou ameaçados, estaremos por nossa conta. É o que querem? Querem ir mais longe e defender o desarmamento unilateral? Digam-no abertamente, e expliquem onde é que isso correu bem. Na Ucrânia não foi certamente. Existem alguns exemplos bem-sucedidos de neutralidade, como a Suíça ou a Suécia, todos casos de neutralidade armada e de forte investimento na indústria de defesa nacional. Também há alguns poucos Estados que, abdicaram de ter Forças Armadas, com isso aceitam ser protectorados de outra potência, limitando as suas opções externas. É isso que defendem e quem seria o protector?

Há também muitos fracassos da aposta na neutralidade como forma de evitar envolvimento em guerras, como a Bélgica, a Dinamarca ou a Noruega na Segunda Guerra Mundial. A história ensina muito, mas não dá respostas simples. Uma das coisas que mostra é que pensar que se pode viver sem riscos ou defender a liberdade sem armas nunca foi realista. Resta-nos escolher que riscos vale a pena correr, que valores queremos defender e como, desde logo, se sozinhos, se com outros.

Europa      Mundo      Guerra      Conflitos

COMENTÁRIOS

Paulo Silva

Na guerra psicológica há uma forma de a fazer convencendo o outro que nada tem a temer de nós. Quando este se aperceber do contrário, será tarde demais... A União Soviética foi um dos grandes baluartes da propaganda anti-guerrista, (embora à guerra deva a sua existência). Quando Inglaterra e França declararam guerra ao Terceiro Reich a URSS criticou-a como uma ‘guerra imperialista’, (após ter dividido com Hitler o leste da Europa em esferas de influência), e colocou-se numa posição de falsa neutralidade, (na sombra esteve sempre a apoiar o esforço de guerra nazi). Até que em Junho de 1941, quando Hitler quebrou o pacto de não agressão, o discurso mudou 180 graus...

Espanta-me sempre a paixão ingénua e o dispêndio de energia que algumas alminhas investem na crença do “homem novo” … Um ser virtuosamente perfeito despido de qualquer defeito moral...


domingo, 18 de outubro de 2026

Cá por casa…

 

Não falta coragem…  É certo que… para inglês ver… Nos  nossos improvisos… de imitação alheia.

"É para aguentar!" Com dezenas de tendas, grupos de afinidade e vigias, acampada de Lisboa pela Habitação manteve-se madrugada adentro

Adriana Alves: Texto

Diogo Ventura: Fotografia

Quando as primeiras tendas foram montadas no Rossio ninguém arriscava dizer até quando ficava. No limite de hora legal formava-se um cordão para "aguentar" de forma "pacífica".

18 out. 2026, 04:39

Uma tenda azul, de aspecto frágil, é erguida no ar na praça D. Pedro IV, em Lisboa. Uma multidão aplaude e assobia. Às 17h30 de sábado a manifestação da CGTP ainda está a dispersar no Rossio, misturando-se com as pessoas que chegam para a “acampada” de Lisboa pelo direito à habitação. Junto à estátua da praça forma-se um círculo com os abrigos. Aos primeiros minutos do protesto ainda ninguém quer arriscar dizer se vai passar aqui a noite, mas ao longo da tarde e início da noite os sinais são claros: “É para aguentar”.

Quando o relógio marca a meia-noite e meia — o horário limite definido por lei para uma manifestação — chega o derradeiro aviso: “Pedimos que quem decida ficar na praça que o faça de forma pacífica. E pedimos que os agentes respeitem o nosso protesto”. Ninguém parece disposto a partir. É ao som de Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, e de cânticos contra o primeiro-ministro, que marcaram todo o protesto, que se forma um cordão humano à volta das tendas. Há de desfazer-se e reagrupar-se ao longo das duas horas seguintes. É só perto das 02h30 que os cânticos abrandam até cessarem quase completamente. Ao microfone sugere-se a criação de “grupos de afinidade” para passar a noite e para se criarem vigias, caso a polícia apareça.

▲ Durante a colocação das tendas foram-se ouvindo inúmeras palavras de ordem e, por várias vezes, o barulho de centenas de chaves a serem agitadas.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

As mais lidas

Centenas de acampados em Lisboa e no Porto

Dona das massas Milaneza em fusão de 1,8 mil milhões

As lealdades da seita

Como mais 2 linhas e Gare do Oriente renovada mudam Lisboa

Brincar às revoluções é tão giro, não é?

Ex-SGMAI nega despesas irregulares após auditoria da IGF

“Uma vida digna não é só pagar contas”

Às 17h30, ao mesmo tempo que terminam de ser montadas as primeiras tendas, agitam-se centenas de chaves — umas a pender de cordões, outras enfeitadas com bonecos — para lembrar o mote do protesto (e imitar Madrid): Habitação para todos.

Erguem-se por toda a praça D. Pedro IV cartazes: “A política é bela, os políticos é que dão cabo dela”, “Casa mobilada com electrodomésticos e dívidas”. Mas o principal alvo é o primeiro-ministro. “Se protesto é egoísmo, ter 55 imóveis é o quê?”, lê-se numa cartolina, uma referência às palavras de Luís Montenegro, quando apelou aos manifestantes para que não fossem egoístas. As críticas ao primeiro-ministro marcam toda a tarde e noite. “Oh Montenegro, presta atenção, a tua casa vai virar ocupação”, ouve-se ao som de tambores. Já numa versão da tradicional música “Laurindinha” cantam também: “Oh Montenegro, vai para o c******”.

“Eu acho que o primeiro-ministro, que é uma pessoa que tem 55 casas, está bastante confortável para nos chamar egoístas quando estamos a lutar pelo nosso direito, começa por dizer Adriana Lima, uma das porta-vozes da acampada de Lisboa. “E também acho muito curioso, quanto mais ele tenta diminuir a nossa luta, mas na verdade ele está a mostrar o medo que tem de nós”, afirma. Sublinha que está em causa “a luta mais importante” em todo o país.

Apesar dos abrigos que vão surgindo, que são já mais de uma dezena, ao início da tarde muitos ainda não arriscavam dizer se iriam dormir na rua. “Vamos ficar aqui enquanto nos deixarem”, vão explicando alguns manifestantes ao Observador.

Dentro do círculo de tendas, onde se torna quase impossível passar sem pisar algum canto, há vários rostos tapados, quer por máscaras cirúrgicas, quer por lenços. Aos megafones gritam-se palavras de ordem — “Habitação é um direito, sem ela nada feito” — enquanto os manifestantes se vão acomodando.

▲ As primeiras tendas começaram a ser montadas por volta das 17h30.

Sentado dentro de uma tenda, de rosto parcialmente tapado, Gabriel, de 22 anos, enumera os motivos que aqui o trouxeram. “Não consigo arrendar uma casa neste momento. Estava a dividir a casa com três pessoas, uma saiu e agora temos todos de sair”, conta. Pagavam dois mil euros pelo apartamento. Agora tem até ao final do mês para encontrar outra opção. “Não temos ideia mesmo [se vamos conseguir arranjar]. Talvez tenhamos de ir para a rua, não sei».

Não faltam exemplos. Adriana Lima tem 26 anos, um contrato efectivo como professora e não antecipa sair da casa que aluga e conseguir comprar casa num futuro próximo. “Apesar de ter feito tudo o que nos mandam fazer — ir para a faculdade, ter mestrado, arranjar trabalho na minha área — não consigo comprar casa em Lisboa. Estou a pagar 600 euros por uma casa que estou a dividir com seis pessoas”, explica.

Há muitos outros que se juntam à manifestação por solidariedade. Ana Loureiro, de 43 anos, há muito que conseguiu comprar casa e veio para se juntar aos muitos que passam dificuldades para conseguir a mesma conquista. “Aquilo que eu estou a fazer, que é um trabalho essencial — eu sou enfermeira —, o ordenado que eu ganho com este modo de vida, com este incremento do custo médio de vida, eu não sei se vou conseguir até ter uma vida digna”, admite. “E uma vida digna não é só pagar contas”.

A enfermeira veio com uma tenda e está pronta para ali ficar enquanto for possível. Quanto tempo? Não sabe dizer. “Acima de tudo estarmos aqui a marcar todos presença. Deixem os bares, deixem os cafés, tragam tudo para aqui, acho que é o lema destes dias”.

Há também quem recorde que o problema não é só em Portugal, aludindo ao país vizinho. O caso de Maricarmen, uma idosa de 87 anos despejada da casa onde vivia há 70 anos, lançou os acampamentos em Puerta del Sol, em Madrid, que já duram há três semanas. “No fundo, houve uma visibilidade maior dessa senhora, mas há montes de gente nesta situação”, diz Liliana (nome fictício), de 26 anos. “Não são só jovens, é uma questão muito etária, mas não são só jovens”, sublinha.

“Não se fala com a bófia”

Os cânticos de ordem são interrompidos a meio da tarde para um breve alerta à multidão: “Não se fala com a bófia”. “Se alguém for detido, se alguém perguntar alguma coisa não falem. Toda a gente tem o direito de fechar a boca”, diz uma mulher ao megafone. “A bófia não é nossa amiga”. “Não precisam de saber as nossas informações, como viemos aqui ter, toda a gente que aqui está veio aqui ter por mero acaso”, afirma. Explica que, se alguém for detido, a primeira coisa que deve fazer é pedir um advogado.

As palavras recordam os momentos vividos nas manifestações no Porto, nos últimos dias. Na quinta-feira houve pessoas feridas e sete precisaram de assistência hospitalar após uma operação policial na Praça D. João I. Um agente também ficou ferido.

Os manifestantes e autoridades apresentam versões diferentes do que se passou. De um lado alegou-se que não chegaram ordens claras para dispersar e desmontar o acampamento, mantendo-se por isso um “cordão pacífico” à volta das tendas. Já a PSP recordou que a lei impede manifestações a partir das 00h30 e garante que agiu porque os manifestantes resistiram e tentaram impedir a sua acção.

No Rossio olha-se com desconfiança para os agentes da PSP, das equipas de intervenção e polícia municipal que patrulham na praça. O número de carrinhas das autoridades vai aumentando durante a tarde. Adriana Lima sublinha que os manifestantes não se sentem intimidados: “Ninguém deve ter medo de sair à rua”.

“Optimista”, a enfermeira Ana Loureiro espera que não haja problemas esta noite. Mas para prevenir, e porque vê “muita raiva acumulada daquele lado, sem razão”, trouxe consigo um kit de primeiros socorros. “Como já deu para ver ali atrás, parece que vai haver uma guerra. A pressão visual é muito grande, a quantidade de carros que está aqui para a quantidade de pessoas que aqui está (…). Tenho até pena deles de uma certa forma, porque eles também vivem em casas partilhadas, vêm de aldeias, ganham muito pouco e são instrumentalizados desta maneira”, diz.

A tarde ainda é marcada pela assembleia geral da acampada, com espaço para os manifestantes interessados falarem, dentro de um limite de dez minutos. “O que é que podemos esperar de Luís Montenegro, que tem 55 casas?”, começa logo por dizer o primeiro interveniente. No final são aprovadas as seis reivindicações: a reversão da lei do arrendamento; o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional; um travão à aquisição de habitação por parte de fundos imobiliários; o aumento de habitação pública; a iniciativa pública de recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais; e a aplicação de tectos de renda acessíveis.

▲ A assembleia popular, onde participaram centenas de manifestantes, começou poucos minutos depois das 19h.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“É para aguentar”

Os cânticos e testemunhos prosseguem noite fora até serem interrompidos para um novo aviso. São 23h e ao microfone alertam que, legalmente, a manifestação não pode continuar para lá das 00h30, que nessa altura a polícia pode intervir para retirar os manifestantes. Apela-se a que, ainda assim, as pessoas não desmobilizem: “É exactamente depois dessa hora que temos de estar aqui, por isso aguenta!”. Garantem que estão preparados para, se necessário, enfrentar a polícia, mas pedem que todos o façam de forma pacífica. Indicam como organizar as tendas, em meia lua, com “espaço suficiente para passar uma pessoa, mas não o suficiente para passar a bófia”.

Às 00h30 o cordão humano está formado. Há muitos manifestantes de cara tapada, alguns com capacetes na cabeça. Durante as próximas duas horas as pessoas vão descontrair, conversando e cantando madrugada fora, retomando o cordão humano apenas quando há algum aviso dos megafones ou há sinais de movimentação das autoridades. Foi o caso quando elementos da Polícia Municipal vieram retirar algumas grades deixadas para trás durante o protesto da CGTP, que tinham sido aproveitadas na acampada para reforçar a corrente à volta das tendas.

O ritmo só abranda cerca das 02h30. Algumas manifestantes de megafone espalham-se pela praça para aconselhar a criação de grupos de afinidade (que, em protestos, servem para impedir que alguém fique sozinho) e apelar ao descanso. Sugerem também que se escolham vigias para estarem atentos às movimentações das forças policiais, mas são poucos os carros das autoridades na praça.

▲ No limite de hora legal formou-se um cordão para "aguentar" de forma "pacífica".

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Depois do anúncio, cessam os cânticos e os tambores. Alguns grupos vão abandonando o local lentamente, mas permanecem ainda algumas centenas de pessoas no Rossio. A maior parte ainda não recolheu às tendas. Para amanhã já estão previstas novas acções. Às 10h está marcado “boxe popular”, seguido de uma “corrida popular solidária” e nova assembleia. O lema mantém-se: “É para aguentar”.

Quando as primeiras tendas foram montadas no Rossio ninguém arriscava dizer até quando ficava. No limite de hora legal formava-se um cordão para "aguentar" de forma "pacífica".

18 out. 2026, 04:39