Imediata, provando a nossa visão crítica -
essa também uma constante no nosso “modus
faciendi”, comprovativo da nossa vivacidade intelectual, extremamente atenta.
Estes dias (e uma nota
de rodapé)
Desde que me conheço que testemunho um Portugal que parece assente
num fino espelho. Quando a natureza dá de si, há um espelho em fúria que nos
devolve a espantosa fragilidade de que o país é feito.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 04 fev. 2026, 00:221
1Nunca nos habituaremos, é da
natureza humana. Mesmo diante do pré-anunciado, a surpresa e a aflição
fazem a sua obrigação e superam-se. Ninguém
se habitua ao pior e a violência destes dias foi inaudita. Sucede
porém que entre nós há dois “piores”: a ocorrência em si e o que costuma
seguir-se.
Por aqui, plantados à beira mar e afogados em pré-avisos, é quase como se ficássemos apenas à
espera da devastação anunciada. É verdade: desde que me conheço que
testemunho um Portugal que parece assente num fino espelho. Quando a natureza dá de si, há sempre um espelho em
fúria que nos devolve a espantosa fragilidade de que o país é feito.
Quase dez anos após os dantescos
fogos de Pedrógão e dos erros fatais lá praticados; uma década depois dos
abraços do Presidente da República, das intenções do governo socialista de
então – não confundir com “acções” – e das verbas libertadas, há ainda
promessas por cumprir e muita coisa por refazer. Ainda.
2Temos os olhos mais que cheios
de várias geografias muito pior
feridas – incêndios de proporções inimagináveis, tsunamis
brutais, cheias que em meia hora arrasam cidades sob a lama, mas… Mas
há qualquer coisa de activamente persistente na nossa fragilidade que faz com
que em intempéries de maior ou menor violência, o que de imediato se constata – porque se observa – é algo de muito parecido com uma desprevenida,
tolhida, capacidade de resposta. Uma declinação do atordoamento.
Nunca duvidei que a resposta evidentemente chegaria mas… outro mas: que se
passa no fundo mais fundo de autoridades, responsáveis, decisores, que não se
articulam entre si, ou demoram mais do que o tempo exigido – que era nenhum – a
reagir, intervir, actuar?
Há uma hostilidade subterrânea
entre os vários “intervenientes”, forças de segurança, bombeiros, autarcas,
políticos, ministros, protecção civil, enumero a eito)? É gente a
mais, gente a menos ou a gente errada? A burocracia sempre paralisante de tão inutilmente excessiva, um
Estado ferrugento? Falhas no processo de decisão e no exercício da autoridade?
E o inoperante SIRESP – para o qual o leitor e eu já
pagamos quanto, alguém nos diz?
3Não sei como explicar esta
inexplicável – de tão continua no tempo – incapacidade de decidir e orientar
em tempo o caminho de vidas e estragos. Deus me livre de atirar o exclusivo
da responsabilidade para o governo, como ouvi de quase todos os lados. Tomei boa nota do atraso da sua entrada
em cena, da mesmíssima forma que não excluo que a surpresa face à dimensão e
violência da tragédia aliada à quase total ausência de comunicações tenha
perturbado uma mais pronta reacção local.
Em contrapartida ouviram-se bem as comunicações governamentais e mais valia não se terem ouvido todas…
e mesmo dando de barato a aflição do “querer chegar” a todo lado. Sempre
me pareceu que quando este governo erra ou se engana, uma enormíssima parte
dessa responsabilidade releva da ausência de aconselhamento político: à roda de Luís
Montenegro – um
experimentado e hábil profissional da política – faltam dotados
generais que saibam pensar, elaborar e depois comunicar politicamente. Ninguém faz política ao mais alto nível
sozinho. Ficou à vista: o desfile de personagens quase todos protagonistas de
primeiro plano foi quase sempre duvidoso: no verbo, no gesto e na oportunidade
(onde é que o Presidente da República tinha a cabeça?)
Uma coisa é certa, se a media pode muitas vezes, ampliar ou enviesar,
esta desgraça estava nos nossos écrans: tanta gente a pedir socorro, tantas
horas depois? E o tal SIRESP, em
quantos milhões já vai? Houve
dezenas e dezenas de localidades onde as “autoridades” chegavam agarradas a um
mapa, porque não havia outro modo, nem outro meio de comunicação. Faz
muita aflição.
4Em contrapartida, nesse mesmo
Portugal profundíssimo, poucas vezes se terá visto tão imediata e altíssima
onda de anónima solidariedade. Sei do que falo, a minha segunda
morada fica no distrito de Leiria, vou lá permanentemente, além de que tenho
uma filha que vive num dos seus concelhos.
Um distrito que, como recordou há dias Armindo Monteiro, presidente da
CIP, numa televisão, tem de ser levado a sério na sua revitalização. É
importante demais no mapa do país e determinante na nossa economia: todos as
sincronizadas e estruturantes ajudas são obrigatórias.
O plano do governo é bem constituído como se diz de uma criança
quando nasce com saúde. É sim. Mas
o dinheiro e as boas intenções só interessam se – obviamente para além das
primeiríssimas necessidades – se conseguir que o seu fim valha muito a pena:
que ambos – dinheiro e intenções – sejam decisiva e inteligentemente bem
aplicados. Estou farta de ver o contrário.
5Pequena nota de rodapé: pode
ter sido a tempestade, pode ser a certeza de que Kristin não nos abandonou,
saiu mas deixa Leonardo; pode ser o desinteresse, a monotonia, o cansaço de
tanta eleição. Sim, pode: mas quem diria que a campanha presidencial
desapareceria em combate, reduzida a episódicos picos de atenção mediática?
Que a media – e nós – nos deslocaríamos
assim, do altar presidencial para o inferno da devastação e da aflição?
Talvez exagere mas quase não me “lembro” dos candidatos (a menos que por dever
de ofício tenha falar deles). Não são porém só estas tempestades, há outras:
as eleições ocorrerão num país mais fragmentado,
polarizado e ressentido que nunca. Apetece dizer calma! Não é
preciso que as pessoas se detestem, invectivem, dividam; exijam atestados de
democracia, sejam insultadas e insultem, inventem céus que nunca haverá e
infernos que nunca esteve para haver. Fica-se atónito. Calma. É que um dia
haverá uma tempestade. Mesmo que sem nome próprio.
MAU
TEMPO METEOROLOGIA CIÊNCIA
COMENTÁRIOS
Jorge Barbosa: Caríssima Maria João
Avilez, o mal no nosso país, é mesmo, como o outro diz, o "sistema" .
Lembra-se com certeza daquilo que já os romanos diziam dos lusos? Pois.
Da INTERNET:
Frase de Júlio César: “Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa
governar.”