As ambições da contínua insatisfação
humana traçando o futuro. Oremus.
Enquanto
a Europa olha para Ceuta
Quem esta semana olhou para
Ceuta faria bem em olhar também para a Líbia. É lá, e não no Estreito de
Gibraltar, que se decide boa parte do que há de vir.
MANUEL CASTELLO BRANCO, Estudante de Direito
OBSERVADOR, 04 ago. 2026, 00:21
Dezenas de milhares de migrantes atravessaram nos últimos
dias de julho a fronteira de Marrocos para Ceuta e a Europa reagiu como reage
sempre que o Estreito de Gibraltar lhe traz África à porta: Pedro
Sánchez falou em violação da integridade territorial espanhola, Itália
suspendeu Schengen e Portugal, fiel a si mesmo, registou os acontecimentos com
grande preocupação. A rota ocidental do Mediterrâneo dominou, por isso, os títulos durante
esta semana. Mas
um pouco mais a leste, na Líbia, o país que mais pesa para os fluxos
migratórios para a Europa e para a diversificação energética do continente,
atravessa uma das transformações políticas mais significativas dos últimos 15
anos. Uma
guerra de blocos rígidos dá lugar a uma geometria de parcerias flexíveis que,
pela primeira vez desde a queda de Gaddafi, torna concebível a estabilização e
a reunificação do país. Isso importa não só à região, mas à própria Europa, que tem
no destino da Líbia uma das chaves da sua segurança energética e migratória, e
que faria bem em prestar atenção ao que ali se decide.
Convém recuperar o que está
em jogo, porque a divisão líbia tornou-se tão prolongada que se naturalizou.
Desde a queda de Gaddafi
que o país está partido em dois. O Governo de Unidade Nacional
(GUN), reconhecido internacionalmente e liderado por Abdul Hamid Dbeibeh, governa a partir da capital Trípoli,
mas o seu controlo não passa da parte mais ocidental do país e assenta na
cooperação com as milícias da capital que o sustentam. Dbeibeh deveria ter sido
primeiro-ministro interino apenas até às eleições de dezembro de 2021, mas
estas foram adiadas e nunca reagendadas, pelo que no cargo interino
Dbeibeh permaneceu.
No leste do país governa a Câmara
dos Representantes a partir de Tobruk, sustentada pelo Exército
Nacional Líbio (ENL) liderado por Khalifa Haftar a partir de Benghazi e cujas forças
controlam a faixa costeira oriental e boa parte do interior. Em 2019 e 2020, Haftar tentou tomar o
país inteiro numa ofensiva militar que acabou por ser travada às portas de
Trípoli pela intervenção turca, com drones, equipamento e homens que salvaram o
governo ocidental do colapso.
Esta divisão do país em dois acabou, no entanto,
por ser menos prejudicial para os envolvidos do que poderia parecer à primeira
vista. É que, na
prática, nenhum dos lados precisou de vencer efectivamente para assegurar a
manutenção do seu financiamento, uma vez que as exportações
petrolíferas dependem dos campos de petróleo situados no território de Haftar,
mas passam necessariamente por Trípoli e pela National Oil Corporation.
Tanto para Haftar como
para Dbeibeh, a manutenção do status quo é a forma que melhor permite a ambos
consolidar as suas respetivas bases de poder, sem arriscar a perda de estatuto
que um retorno à guerra aberta implicaria. Esta espécie de “partilha” tem sido
por isso um dos mais claros obstáculos à reunificação da Líbia. Um
Estado unificado traz possivelmente consigo o fim da opacidade que sustenta as
fortunas dos dois lados desde 2014, pelo que se revela pouco atractivo para os
players nacionais envolvidos.
Mas, para além desta
espécie de economia da divisão, foram também os patrocinadores externos de cada
lado que lhes garantiram as armas e o financiamento sem os quais o equilíbrio
se teria desfeito.
O Egipto e os Emirados apostaram
em Haftar, que se apresentou como o homem forte secular capaz de
suprimir as facções islamistas radicais que emergiram do vácuo deixado por Gaddafi, pelo que se tornou uma
aposta particularmente atrativa para dois regimes cuja legitimidade assenta na
contenção do Islão político. Para Abdel Fattah el-Sisi, presidente do Egipto
que chegou ao poder em 2013 num golpe contra o então presidente Mohamed Morsi (membro da
Irmandade Muçulmana), a hostilidade ao Islão político é a matéria de que a sua
própria ascensão política foi feita, pelo que o apoio a Haftar foi a aposta
lógica. Ademais, a fronteira de 1115 quilómetros que o Egipto tem
com o leste da Líbia fez com que o controlo da região fronteiriça fosse uma
prioridade para Sisi, impedindo que o caos da Líbia transbordasse para o seu
país. O
controlo do leste por um militar próximo do Cairo assegurou, por isso,
segurança na fronteira. Já para Mohammed bin Zayed (MBZ), o líder dos EAU, a
mesma aversão ao Islão político combina-se com um projecto que corre em sentido
contrário ao egípcio, o de emancipar Abu Dhabi da sombra saudita e montar uma
esfera de influência própria, na qual a Líbia funciona como uma plataforma de
financiamento e distribuição das redes de proxies dos emirados.
Do outro lado da barricada, e particularmente desde 2020
quando travou a ofensiva de Haftar sobre a capital, colocou-se a Turquia.
O interesse turco na
Líbia sempre foi, em parte, ideológico, já que o AKP de Recep Tayyip Erdogan,
que acolheu os quadros da Irmandade Muçulmana depois de 2013, se viu quase
forçado a intervir na Líbia face à iniciativa dos seus adversários,
principalmente dos EAU. Mas o interesse foi também estratégico.
A doutrina Mavi Vatan, formulada em 2006 pelo
almirante Cem Gürdeniz, à qual Erdogan tem vindo a dar cada vez mais
importância, coloca a presença turca no Mar Negro, no Egeu e no Mediterrâneo
oriental no topo da lista das prioridades geopolíticas do país. Mas coloca-a igualmente em rota de
colisão com as reivindicações concorrentes da Grécia, do Chipre e, em certa
medida, do Egipto em relação ao Mediterrâneo. O acordo assinado em 2019 entre
Ancara e o governo de Trípoli parece consistir num reflexo claro desta doutrina.
O acordo consiste
num memorando de delimitação marítima que traça entre as costas turca e líbia
uma fronteira comum de zonas económicas exclusivas,
desenhando um corredor que ignora por completo as águas que a Grécia reclama, e
que teve por efeito bloquear o gasoduto EastMed com que Grécia, Chipre e Israel
contavam para escoar o gás do Mediterrâneo oriental para a Europa. Esta
jogada turca tem ganho cada vez mais relevância à medida que o eixo
Indo-Abraâmico entre Israel, Índia, EAU, Grécia, Chipre e Marrocos ganha mais
profundidade.
O que mudou nos últimos
meses foi a dissolução desta grelha clara de apoios cruzados, e quem melhor a
ilustra é a própria Turquia, que tem procurado aproximar-se do leste que durante uma
década combateu. A inflexão costuma ser atribuída ao acordo marítimo de 2019,
que os Haftar podem agora ratificar em Tobruk e que a Grécia, Chipre, o Egipto
e mais recentemente a Itália e a Tunísia contestam nas Nações Unidas,
mas reduzir a jogada turca a essa ratificação confunde o instrumento com o
objectivo. Ao longo de 2025, Ancara foi tecendo com o leste líbio, que durante anos
tratara como território inimigo, uma teia de laços próprios, do encontro de
abril entre Saddam Haftar e o chefe do estado-maior turco Selçuk Bayraktaroglu
sobre treino militar e drones até à abertura de uma presença consular
permanente em Benghazi.
O objectivo turco parece então ter evoluído de
uma lógica fragmentária e confrontacional para uma reaproximação com ambos os
lados, tendo Ancara percebido que estar presente dos dois lados da guerra civil
vale mais do que arriscar vencer com um.
Mas este emendar de relações entre a Turquia e a família
Haftar deveria, em teoria, espoletar forte oposição da parte do Egipto. Afinal
a tal ameaça da presença turca no backyard geopolítico egípcio parece mais
premente do que nunca. Mas o silêncio que temos visto da parte do Egipto aponta noutro sentido.
Formalmente, a oposição do Cairo ao acordo de 2019 mantém-se, não
parecendo haver abertura, pelo menos no curto prazo, para uma acomodação tout
court das reivindicações turcas. O que mudou foi o lugar que esta disputa ocupa na hierarquia
de prioridades do Cairo, agora subordinada ao peso de convergências mais
urgentes com Ancara, como o apoio comum às forças armadas sudanesas (SAF)
contra as RSF, a defesa conjunta do governo somali contra o apoio de Israel e
de Abu Dhabi à independência da Somalilândia, a posição partilhada sobre Gaza,
e os lugares que ambos ocupam no Conselho de Paz presidido por Trump e que
travam as ambições de Netanyahu. Na verdade, eventuais bases
turcas no sul da Líbia, longe da fronteira egípcia, não ameaçam o Cairo e abrem
margem para coordenação de esforços no Sahel. É então a
emergência deste eixo sunita entre Turquia, Egipto, Arábia Saudita e Paquistão,
que surge em oposição ao já descrito eixo Indo-Abraâmico, que leva o Cairo a preferir
uma coordenação, ainda que publicamente tímida, com a Turquia na Líbia, abrindo
espaço a cooperação entre adversários regionais históricos.
Mas se esta convergência se pode revelar benéfica para
o projecto de reunificação da Líbia, acaba por não servir os propósitos da
Rússia e dos EAU, os dois actores cuja presença depende da fragmentação:
os Emirados, que
sem a Líbia perdem a plataforma das suas redes africanas, e a Rússia, que sem o país dividido perde a porta
de entrada no Mediterrâneo, numa altura em que a sua presença no Mediterrâneo
está já reduzida depois da queda de Bashar al-Assad na Síria. Nestes
termos, parece
abrir-se, de facto, uma janela que pode, e deve, ser aproveitada para unificar
a Líbia. Não só o panorama de dinâmicas políticas regionais
torna mais viável alcançar uma solução a longo prazo, com os vários actores
regionais que antes serviam como entraves a uma resolução para o conflito em
processo de alinhamento (no caso da Turquia e do Egipto) ou de
perda de influência (no caso dos EAU e da Rússia), como a
administração americana, essencial a qualquer esforço de paz, se tem mostrado
mais interessada no destino do país. Em grande medida, este renovado
interesse está directamente relacionado com a guerra no Irão e com a
experiência do encerramento do estreito de Ormuz pela República Islâmica, que
expôs os perigos da dependência excessiva num só chokepoint do mercado dos
hidrocarbonetos. A Líbia ganha aqui relevância, visto que, por um lado, detém as maiores
reservas de petróleo de África, com mais de 48 mil milhões de barris. Por outro
lado, as exportações líbias não estão sujeitas aos mesmos perigos que as do
Golfo, uma vez que a sua localização geográfica permite exportações fáceis sem
exposição a chokepoints como o Estreito de Hormuz ou de Bab al-Mandeb.
É essa realidade que trouxe de volta o interesse das petrolíferas
americanas, com gigantes como a ExxonMobil e a Chevron a preparar projectos
de grande exploração na região, e a ConocoPhillips a renovar até 2050 a licença
do campo de Waha.
Mas a iniciativa de Massad
Boulos, o enviado especial e conselheiro de Trump para assuntos africanos,
ameaça desperdiçar este momento. É que Boulos parece partir de um
diagnóstico oposto ao aqui exposto, tratando a divisão líbia como um mero
problema de negociação entre lideranças quando ela é um problema da própria
arquitetura dos incentivos. O plano de Boulos parece consistir num
conjunto de arranjos (transitórios?) de partilha de poder que mantêm a
família Dbeibeh, através de Abdul Hamid ou do seu sobrinho Ibrahim, e a família
Haftar como líderes do país. É por isto que chamar à iniciativa de Boulos reunificação
exige um elevado grau de generosidade semântica. Na verdade, sendo esta a sua visão
para o futuro da Líbia, Boulos limita-se a cristalizar o status quo, um
consociativismo familiar, sem mexer nos problemas de fundo que impedem a
unificação. Um acordo que preserve as redes de interesse
já instaladas, limitando-se a formalizar a cooperação entre elas, apenas dará
patrocínio legal à economia da divisão que se instalou desde 2014, permanecendo as riquezas naturais do
país ao serviço apenas das elites e das milícias que as apoiam, enquanto mais
de 40% dos líbios permanecem abaixo da linha de pobreza.
Em alternativa, em vez de ancorar o envolvimento
americano na elevação dos homens que passaram mais de uma década a destruir as
instituições por dentro, os EUA deveriam condicioná-lo a progressos palpáveis.
Isso significa
reconstruir a independência do banco central e da National Oil Corporation e
apoiar o plano das Nações Unidas para a Líbia, que prevê consultas
alargadas junto da sociedade civil, a unificação das administrações paralelas
e, por fim, eleições para um executivo único, sem que a governação seja
entregue quer aos Dbeibeh quer aos Haftar. A isto acresce a
contradição de a própria administração ter esvaziado a USAID, que sustentava na
Líbia parte das instituições locais e nacionais que qualquer estabilização a
longo prazo exige.
Durante anos, a Líbia foi vista como pouco mais do que
um Estado falhado, um território condenado a servir de teatro às rivalidades
dos outros. Mas os últimos meses aceleraram uma mudança que
pode bem reabrir o futuro do país. Quem esta semana olhou para Ceuta faria bem
em olhar também para a Líbia. É lá, e não no Estreito de Gibraltar, que se
decide boa parte do que há de vir.
LÍBIA MUNDO
COMENTÁRIOS:
GABRIEL MADEIRA
> AMÉRICO SILVA: E quem são esses? Invasores, conheço. Na
semana passada houve uma grande amostra. Mas tem havido outras mais subtis,
mesmo dentro de portas. É só olhar à volta.
DAVID PINHEIRO: Prendam o Gerhard Schröder e
a Angela Merkel. Reactivem a energia nuclear e todas as centrais termoeléctricas
entretanto desligadas. Parem a importação de energia líbia e rejeitem
qualquer pedido de asilo. Assunto resolvido. Próximo!
ANTÓNIO ALBERTO BARBOSA
PINHO: Análise bem elaborada e muito pertinente.
KOMOREBI HI: Excelentes artigos sobre o Oriente
Médio e o Islão que sempre foi expansionista e usa e usará sempre a violência
para alcançar os seus objectivos de hegemonia no mundo como religião/força
política global.
A Líbia com Kadhafi era
um Estado equilibrado nas forças relacionadas com interesses tribais, Kadhafi
ao ser assassinado por forças dos USA, provocaram situação e os erros como faz
Boulos, nunca mais a Líbia existirá como Estado "aliado" ou pelo
menos com interlocutor, tal como sucedeu com a Líbia e antes com o iraque.
Nem sempre dividir para
reinar servirá, nem a Israel e se os USA são prejudicados, podê-lo-ão sempre
ser sem grandes problemas, enquanto tiverem acesso a campos petrolíferos seus
ou de aliados de ocasião.
A Europa, ou melhor a
UE, embarcará sempre na desgraçada política da indecisão própria de um bloco
que depende de interesses de alguns dos seus Estados, cada vez mais afundados
por políticas socialistas e de substituição da independência produtiva pelo
mercado global que é uma miragem, em caso de conflito alargado que nem
necessitará ser global, para ficar sem abastecimentos e logística cada vez mais
dependentes de terceiros...
GRAÇA DIAS: Um
artigo muito interessante e complexo com tantos players e interessantes
divergentes. Como o título indica "
Enquanto a Europa olha para Ceuta...". Terá umas três semanas, li em
jornal internacional um alerta do governo grego, sobre os mais de 400 mil
imigrantes que poderão invadir os países europeus do Mediterrâneo!...mas do
Directório de Bruxelas ninguém ficou inquieto. Obrigada pelo detalhe e
informação deste excelente artigo.