No mundo das inteligências. Das ambições, também. Com retaliações, por vezes. Com petróleo, para aquecer mais.
O mundo de olhos postos em Bisqueque. O que está em causa na
cimeira que vai reunir Putin, Xi, Modi, Pezeshkian e até Guterres?
No ano em que completa
25 anos, a SCO reúne no Quirguistão com conflitos na Ucrânia e no Médio
Oriente, sanções ao Irão e gasodutos russos em cima da mesa.
António Moura dos Santos - Texto
OBERVADOR, 31 ago. 2026, 00:32
Esta terça-feira tem início a 26.ª cimeira da Organização
de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), no mesmo ano em que o
grupo informal atinge os 25 anos de existência. Os encontros realizam-se
em Bisqueque, a capital do Quirgistão,
um dos 10 membros deste bloco que tem assumido o objectivo de constituir uma
força contrária à influência dos países ocidentais.
Nos dias que antecederam
o início da cimeira, foi confirmada a presença de alguns dos líderes mais
poderosos da Eurásia, como o presidente chinês Xi Jinping — que chegou este
domingo — o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e o presidente
russo Vladimir
Putin.
Além disso, o encontro será
também marcado pela comparência do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, num
contexto de pressão económica crescente por parte dos EUA e no rescaldo dos
primeiros ataques norte-americanos ao território em mais de um mês.
Segundo confirmou a agência de
notícias turca Anadolu junto do secretariado da SCO, a agenda desta
cimeira será marcada pelos principais desafios de segurança regionais e
internacionais em curso, como os conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia.
Foi já anunciado que Putin vai ter encontros
bilaterais com Pezeshkian e Xi, tendo este triângulo especial significância no
contexto das tentativas de Donald Trump de bloquear apoios financeiros e
militares a Teerão, particularmente por parte da China e da Rússia.
A 25 de agosto, a
administração Trump iniciou a “Operação Exclusão Económica”, uma campanha
de pressão
económica consistindo na imposição de sanções secundárias aos parceiros
comerciais do Irão nos sectores do ouro, da tecnologia, dos ativos digitais, da
aviação e do transporte marítimo. Além disso, Washington ameaçou
também os aliados do Irão com sanções directas. A China — que é um dos principais
importadores de petróleo iraniano a nível mundial — já reagiu a estas acções,
afirmando que irá “defender firmemente” os seus interesses.
Estas reuniões
bilaterais em Bisqueque decorrem também dias depois de o director da CIA, John Ratcliffe, ter
visitado Moscovo, com esta viagem a ser alvo de elevada especulação
quanto ao que terá sido discutido no que toca aos conflitos no Médio Oriente e
na Ucrânia.
Além dos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente,
outros pontos de interesse desta cimeira residem na tentativa de
descongelamento das relações diplomáticas entre a China e a Índia depois
de anos de tensões fronteiriças, e na forma como a Índia e o
Paquistão vão lidar com as consequências das escaramuças de maio do ano passado
na região de Caxemira.
A interdependência e a
conectividade económica também vão tomar um destaque importante, a começar pelo
sector dos transportes. Um dos projectos na agenda é o corredor logístico [ferroviário e
marítimo] promovido pela Rússia: projecctado para ter 7.200
quilómetros, deverá ligar São Petersburgo a Mumbai, passando pelo Irão e por
portos do Golfo Pérsico.
Outro dos temas
económicos na agenda é o projecto do gasoduto Siberian Force-2, infraestrutura
planeada para transportar gás natural dos campos da Sibéria ocidental para o
mercado chinês, atravessando o território da Mongólia. O acordo
sobre este gasoduto não pôde ser concluído, como era desejo de Moscovo, durante
a visita do chefe do Kremlin ao gigante asiático em maio passado.
Está ainda planeado retomar as
discussões quanto à potencial criação de um Banco de Desenvolvimento da SCO,
que tem sido alvo de sucessivas negociações quanto à sua estrutura e
modalidades de funcionamento.
A Organização de Cooperação de Xangai
centra grande parte da sua actividade na cooperação política, económica e
de segurança, incluindo o combate ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo.
Ao contrário da NATO,
não dispõe de uma cláusula de defesa mútua e toma as suas decisões por
consenso, mas tem assumido um importante papel geopolítico, principalmente pela
forma como a China e a Rússia têm usado esta organização como força de pressão
contra os adversários do Ocidente.
A reunião do ano passado em
Tianjin, por exemplo, foi marcada por declarações de defesa pela criação de um
“mundo multipolar”
e por críticas mais ou menos veladas: se Putin acusou os países ocidentais de provocarem a guerra
na Ucrânia, Xi denunciou “actos de intimidação” por parte dos EUA.
As origens deste grupo remetem
para os “Cinco de Xangai”,
formação precursora criada em 1996 pela China, a Rússia, o Cazaquistão, o
Quirguistão e o Tajiquistão para mitigar tensões militares e resolver disputas
fronteiriças na sequência do colapso da União Soviética. Quando o
Uzbequistão aderiu, em 2001, este bloco tornou-se na Organização de Cooperação de Xangai.
Hoje, a SCO é composta por 10 países, com as
entradas da Índia e do Paquistão como membros de pleno direito em 2017,
seguindo-se o Irão em 2023 e a Bielorrússia em 2024. Além dos membros
oficiais, juntam-se ainda o Afeganistão e a Mongólia como observadores e cerca de 15 parceiros de diálogo onde constam
a Turquia, o Azerbaijão e a Arábia Saudita.
É no contexto deste grupo mais
alargado que o secretário-geral
das Nações Unidas, António Guterres, também vai marcar presença na
cimeira em Bisqueque, tendo previsto discursar na reunião da Organização de
Cooperação de Xangai Plus, um formato alargado que reúne os membros da SCO e
convidados, observadores e outros parceiros.
“Neste discurso, espera-se
que o secretário-geral enfatize o valor da cooperação entre a ONU e a
Organização de Cooperação de Xangai. Abordará também outros temas, incluindo os
recentes acontecimentos no Médio Oriente”, confirmou o seu porta-voz,
Stéphane Dujarric.
*com Lusa
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