segunda-feira, 1 de junho de 2026

Saber viver

 

Pelos vistos, custa mesmo. Não para todos, todavia, julgo. Devemos ser gratos perante o dom da vida, sentindo o prazer da leitura, por exemplo, embora nem sempre o prazer da vida, mas sejamos parcos nas ambições. Ou, talvez, gratos nas conquistas. Ou apenas no dom da vida.

Os 100 anos que ninguém notou

O ponto mais interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido.

ALEXANDRE BORGES Escritor e argumentista

28 mai. 2026, 00:21

Fosse biologicamente possível e festejaria com mais propriedade o meu funeral do que o aniversário – podemos não gostar de pensar nisso, mas temos consideravelmente mais participação na forma como morremos do que naquela como chegámos a este mundo. Reconheço, porém, que não seja a corrente de pensamento mais popular. E, todavia, tenho quase a certeza de que toca o mesmo ponto fraco que nos faz comemorar umas efemérides e desviar os olhos de outras.

Em 2010, celebrámos durante um ano a implantação da República. Houve comissão para as comemorações, filmes, programas de televisão, debates, fóruns, livros, exposições. Mas hoje, que faz precisamente cem anos que essa primeira tentativa de regime republicano, liberal, democrático, caiu, não encontrarão mais do que meia dúzia de conversas em programas de tv, rádio, ou textos como este. Sim, bem sei que continuámos a viver em república depois do golpe de 28 de Maio – bem sei que vivemos em república até hoje – mas viver em república não é um bem por si mesmo, tal como viver em monarquia não é certamente um mal. O que aconteceu há 100 anos foi o epitáfio de um projecto muito concreto e faríamos melhor em dar-lhe alguma atenção.

Quando as tropas de Gomes da Costa vieram de Braga, em desfile país abaixo até à capital, não havia duas frentes em confronto, duas visões de mundo ou, ao menos, uma oposição. Havia cansaço, desilusão. Meros 16 incompletos anos depois, tinha fracassado a tentativa de implantar em Portugal um regime determinado pelos portugueses, os portugueses “reais”, que não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes trabalhadoras, sem privilégios de classe. Mas o país que também antes se tinha cansado da monarquia e, sobretudo, da corte, dos condes e dos barões, e que correra até com os padres e os frades na repetida ânsia de culpar alguém ou alguma coisa pelos males que o afligem, desembocara num estado de miséria ainda pior do que aquele em que se encontrava antes de 1910, esmagado pelas consequências da Guerra, em que se metera por vaidade dos protagonistas políticos preocupados com a afirmação do regime além-fronteiras (o clássico “para inglês ver”), pela gripe espanhola e, acima de tudo, pelo caos político e social.

Há cem anos, quando o resto do mundo ocidental celebrava os “loucos” anos 20, Portugal vivia a década em que mais divergiu economicamente dos seus parceiros de continente. Os governos sucediam-se à média de três a quatro por ano, de desilusão em desilusão, dilacerados, primeiro, pelo projecto hegemónico de poder de Afonso Costa e do Partido Republicano e, depois, pelas múltiplas correntes e dissidências. Ficou a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar, enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no ensino superior, mas sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na democracia real.

O ponto mais interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido. Pior ainda do que em 1910, quando não se ofereceram mais do que Paiva Couceiro e umas centenas de militares para defender uma monarquia de quase 800 anos e que tanto nos orgulhávamos de, de tempos a tempos, ter salvo e recuperado quase por milagre, não apareceu sequer, dessa vez, um herói mais ou menos romântico que se atravessasse no caminho da “Revolução Nacional”. Bernardino Machado, Presidente da República, e António Maria da Silva, primeiro-ministro, entregaram pacificamente o poder a Gomes da Costa quando este chegou a Lisboa, e até intelectuais como Fernando Pessoa defenderam, por um momento, a necessidade temporária de uma ditadura militar para “limpar” o país dos males causados pela I República.

Só que, atrás de Gomes da Costa, não estava qualquer projecto; estava um conjunto de gente que não podia pensar de formas mais distintas: monárquicos, republicanos, militares, maçons, católicos, quase todos desiludidos de alguma coisa. Unia-os a desilusão, o estarem fartos. Mas estar farto não é um projecto político, como se perceberia pela incapacidade de produzir um nos meses ou sequer anos seguintes. O que se sucederia não seria, portanto, propriamente, temporário, mas a mais longa ditadura da Europa Ocidental.

Em 1926, o regime caiu de podre; como em 1910; como, em boa parte, em 1974; como talvez seja a única maneira de mudar alguma coisa num país tão velho. Não por combate vigoroso ou sanguíneo, mas por desistência, por cansaço. 100 anos depois, os portugueses vivem extraordinariamente melhor do que nesse Portugal de então, mas os perigos do cansaço e da desilusão voltam a pairar por aí e a confundir-se, exactamente como há um século, com um “projecto”, uma “ideia” que, na verdade, ninguém sabe qual é, nem os próprios. Não temos ataques bombistas nem milícias a distribuir pancada pelas ruas, mas não falta, como em 1926, quem implore por “ordem”, “limpeza”, alguém que “pegue nisto”. Um descrédito das instituições, uma falta de pessoal “qualificado”, de vez em quando um ténue fantasma a espreitar: a “ingovernabilidade”. E agora, até uma geração que parece achar que um governo autocrático talvez nem seja coisa má de todo.

Poderíamos meditar um pouco nas razões destas nossas mortes recorrentes, destas quedas. Assinalar com pelo menos metade da pompa os funerais das efemérides que, tão galhardamente, nos ocupamos em celebrar. Para perceber as razões e melhor descortinar os inimigos. Afinal, em 1926, quando caiu a república livre e democrática, entregue a si mesma e à autodeterminação do seu destino, quem falhou não foram os reis, nem os padres, nem os militares, nem a extrema-esquerda, nem a extrema-direita. Fomos nós.

POLÍTICA       HISTÓRIA       CULTURA

COMENTÁRIOS:

Luis Fernandes Machado: Como sempre o Alexandre Borges é brilhante, mas há duas notas onde insiste, de certa forma, num erro de percepção institucionalizado: nem a Implantação da Republica em 1910 foi uma aspiração popular, surgida de um movimento popular consistente, nem a I República foi "livre e democrática".  O derrube da monarquia foi um projecto de alguns poucos que, simplesmente, ambicionavam ocupar a posição na política e na sociedade ocupada antes por outros. Entre alguns poucos idealistas mais ou menos genuínos, como Machado dos Santos, ou proto-ditadores como Afonso Costa e seus muitos cúmplices, ninguém "pediu" licença ao povo, ninguém "ouviu" o povo e muito menos ninguém "consultou", antes ou depois, o povo sobre isso. Tal como uma certa ideologia política hoje em dia, "actuou em nome do povo, porque não podemos deixar ao povo a decisão do que quer". O que aconteceu durante aqueles 16 anos, não foi mais liberdade, nem mais democracia que antes na Monarquia, nem sequer depois no Estado Novo. Foi antes um delírio à la revolução francesa de gente não recomendável que se serviu do país num banquete sanguinário, desde a insistência na participação idiota na Grande Guerra, contra a vontade dos próprios aliados, até à Camioneta Fantasma de 1921. Tal como o Napoleão foi a "salvação" das  loucuras da Revolução Francesa, também o Estado Novo acabou por o ser da I República. Mas há uma ideia onde o Alexandre Borges está total e irremediavelmente correcto: o paralelismo com o que vivemos hoje é absoluto. Df: Como podia a 1ª República ser "livre e democrática" se havia "milícias a distribuir pancada nas ruas" e o direito de voto era mais restrito do que na Monarquia? Algo não bate certo.                   Francisco Almeida: Chamar república livre de “democrata” à ditadura "de facto" de Afonso Costa e do Partido Democrático, apenas define o autor. E mencionar o que o povo escolheu, quando se restringiu o direito de voto e quando as "revoluçõezinhas" a começar pela de 1910 eram decididas em Lisboa e comunicadas ao país por telégrafo, mete dó. Incidentalmente, é facto que a resistência se limitou a Paiva Couceiro mas houve motivos para isso. O general comandante militar de Lisboa deu ordem para dois regimentos saírem mas o cabo telegrafista era da Carbonária e, pura e simplesmente não enviou as mensagens. Para quem gosta de comparar revoluções, algo de semelhante aconteceu com a malograda saída do Regimento das Caldas em 16.3.1974. Presos todos os oficiais spinolistas o MFA ficou aberto a comunistas infiltrados e até foi escolhido para liderar um palhaço vaidoso e manipulável.                      Ricardo Horta: Como se pode qualificar a I.ª República como uma "república livre e democrática" quando "... sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na democracia real."!!???                  José Tomás: Um artigo com contradições - porque o autor sabe a história, (brilhantemente resumida no artigo de Nogueira Pinto), mas não abdica do mito - mas que é muito útil para chamar a atenção para isto: num tempo em que (graças à Internet) "os de sempre" perderam o exclusivo da narrativa e o poder de martelar os factos sem ninguém os contrariar, só lhe resta tentar que ninguém se lembre de que hoje faz 100 anos o 28 de Maio de 1926 (uma das 3 datas-chave do séc. XX português).                       MariaPaula Silva: Excelente! Excelente análise histórica, de forma sintética e divertida. Fartei-me de rir  porque, afinal, tanto faz o tipo de governo, somos mesmo  uma nhoca ingovernável  sem governantes qualificados.  Cem anos depois, uma análise perfeita da realidade actual. Luis MonteRosa, abre os olhos, se fores capaz! Não és, está mais que provado. Este artigo é extremamente oportuno mas, infelizmente, não vai servir de nada. Daqui a 100 anos alguém escreverá algo idêntico. Sempre achei interessante esta parecença de nomes (Gomes da Costa/Costa Gomes;  Afonso Costa/António Costa nos ciclos que se repetem).

Memórias, realidades


Na casa dos meus avós maternos, de grandes portadas que davam para o quinteiro – este com horta, galinheiro e casa de coelhos e mais os terrenos em volta, com os milheiros crescidos a impedir que nos enxergássemos em pequenas distâncias, quando nós, as primas, apanhávamos amoras nos regueiros, havia na cozinha uma mesa enorme que ocupava toda uma parede ancestral, de banco corrido até quase à janela, complementado com o outro do lado de cá, mais os bancos dos extremos, os porcos em baixo, no curral, grunhindo, para onde a minha avó, sentada na varanda, invariavelmente arrastava o pesado balde de madeira com as lavagens para eles, que lançava pelo largo cano, a um canto daquela. Imagens que se fixaram, que diferiram das mesas posteriores da minha vida, de que me lembro também. Hoje, idos os filhos para as suas próprias casas, comemos na cozinha, a mesa da sala reservada para as festas de família. O certo é que a mesa da sala de jantar permanece esquecida, em frente ao aparador e mais o armário de parede, na casa encolhida e bem aproveitada, os quartos que eram dos filhos, transformados em escritórios com estantes, sofá e televisão. E muitos retratos…

O fim da mesa de jantar

Deixem a IA em paz, o PS mais as cabalas da justiça e até o facto de a Roménia não ter conseguido destruir o drone russo. Temos de tratar de um assunto igualmente sério: o fim da mesa de jantar.

HELENA MATOS Colunista do Observador

OBSERVADOR, 31 mai. 2026, 00:25

“Durante anos, a mesa de jantar no centro da divisão, pronta a receber um casal ou famílias numerosas, foi uma das prioridades em qualquer casa. Mas tudo está a mudar: o design das casas, a estética minimalista...” Aparentemente, o artigo era irritantemente igual a tantos outros que por essa imprensa fora dão conta das novas tendências, invariavelmente apresentadas como muito melhores que as imediatamente anteriores. No caso concreto dava-se conta da substituição das “mesas grandes, de madeira, robustas” por algo que está “bem mais dentro da estética mais moderna, virada para a praticidade“, ou seja as ilhas de cozinha.

Obviamente que só pondera fazer refeições numa ilha de cozinha quem não se lembra que a altura em que se cozinha não é a mesma daquela em que se come — as mesas são mais baixas — e que ignora o problema de ter no mesmo espaço os comensais, sejam eles crianças, adultos ou velhos, encarrapitados nuns bancos altos, enquanto tentam gerir pratos, copos e talheres, para mais ao lado de tudo aquilo que saiu do sítio quando se preparou a refeição na mesmíssima ilha. Tenho a certeza de que há quem tenha tido esgotamentos nervosos por menos, mas atire a primeira pedra quem, ao fazer obras, nunca optou por algo que nas fotografias parecia fabuloso, mas que na prática se revelou um fiasco.

Mas passemos à frente porque o presente declínio da mesa de refeições é muito mais que o resultado de uma moda. Pelo contrário, é o sinal de uma mudança enquanto sociedade. O que estamos a viver não se trata de uma passagem da mesa rectangular para a redonda, ou das mesas que dormiam sob naperons na chamada casa de jantar à espera dos dias de festa para aquelas outras que, numa mecânica ritual e ruidosa, se abriam e fechavam todos os dias em cozinhas e salas.

A assim chamada mesa de jantar, embora lá se fizessem as outras refeições e em muitas casas também fosse mesa de cozinha ou aquela em que muitas crianças faziam os trabalhos de casa, foi mudando de aspecto, dimensão, materiais mas estava lá enquanto centro da vida familiar. E se agora podemos prescindir dela, tal só acontece porque a vida familiar está a mudar para algo que é cada vez mais vida individual, mais atomizado: dados recentes indicam que apenas um terço das famílias inglesas faz uma refeição em comum, por dia. Sendo que também temos de questionar o que se entende por refeição em comum: por exemplo, comem ou não em família os franceses que, a fazer fé nos números, trocam crescentemente a mesa pelo sofá, cadeirão ou o que seja para poderem continuar a interagir com os seus écrans enquanto comem?

A própria comida tem acompanhado esta espécie de individualização conectada das refeições. Não é por acaso que proliferam como pratos de sucesso umas paparocas sem espinhas, ossos ou algo que exija uns segundos de atenção dos comensais: afinal os olhos dos ditos estão num video qualquer, quiçá dum chef ou influencer, cozinhando em minutos um prato invariavelmente espantoso.

A mudança que estamos a viver é aquela que vai de comer sentado a uma mesa, com garfo e faca — e comer alimentos iguais para todos que têm de se cortar e seleccionar, aprendendo a cada refeição que há momentos em que se espera pelos outros, em que se fala ou se tem de ficar calado e, sim, também se aprende, entre o passar do pão e da salada, que gritar, rir, zangar-se faz parte da vida — para uma outra forma de vida. Qual? Aquela em que, mesmo numa casa com várias pessoas há quem opte por comer sozinho, preferencialmente com uma colher para ser mais fácil, a sua refeição também ela individual porque cada um tem as suas dietas, alergias e manias, enterrado num sofá ou esticado na cama. Agora eu devia terminar com enquanto faz scroll. Mas o problema seria o mesmo se fosse com um livro. O problema talvez tenha começado precisamente aí: os écrans só ganharam essa espécie de omnipresença porque ocuparam o espaço cada vez mais em desuso e simbolicamente vazio da mesa de refeições de todos os dias.

Por isso, deixemos de culpar a IA  por tudo e mais alguma coisa, deixemos também o PS entregue às suas cabalas da justiça, esqueçamos até o facto embaraçoso de a Roménia não ter conseguido destruir o drone russo e olhemos para um assunto igualmente sério: o que simboliza o fim da mesa de jantar.

2º TEXTO:

PS. Algum dos membros da flotilha que se dirigia a Gaza já apresentou provas das torturas a que disseram ter sido sujeitos pelos militares israelitas? Foram a algum hospital quando chegaram para serem examinados e darem desse modo seguimento às queixas que obviamente se espera que apresentem?

Família Lifestyle Comportamento Sociedade

Miguel Morgado, Colunista do Observador

Coisas Novas

Talvez a AI seja muito mais do que um simples instrumento que se sujeite à remoção de umas partes consideradas perigosas. É muito mais do que um míssil que não deixa de o ser se lhe removermos a ogiva

31 mai. 2026, 00:24

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O ano dos “mega IPO”. Empresas de IA aceleram rumo à bolsa

Leão XIV não perdeu tempo a explicar por actos a razão de ter escolhido o seu nome apostólico em sucessão numérica a Leão XIII. Já o sabíamos, claro, mas com a publicação de Magnifica Humanitas a intenção ficou consumada: seguir o grande fundador da chamada Doutrina Social da Igreja e também ele conceder à comunidade cristã e ao mundo uma reflexão de extensão dos princípios tradicionalmente estabelecidos sobre matérias sociais e políticas.

A Igreja tem 2000 anos de reflexão social, económica e política, desde logo nas palavras e actos do seu fundador, Jesus de Nazaré, ou nas cartas às comunidades cristãs espalhadas pelo Mediterrâneo do seu grande Apóstolo, Paulo de Tarso. Mas foi com Leão XIII, e a propósito das transformações sociais geradas no mundo Ocidental por revoluções tecnológicas sucessivas ao longo do século XIX, que se iniciou a tradição de os Papas partilharem a sua visão dos temas da vida concreta colectiva dos povos à luz da revisão, muitas vezes crítica, das ideologias e idolatrias alternativas, como o fascismo, o comunismo, o liberalismo ou o nacionalismo.

Para Leão XIV, a “questão social” permanece no nosso tempo. Isto é, os riscos e tragédias da exploração e opressão de classes de pessoas às mãos de poderosos inclementes. Já não protagonizados pelo operariado industrial sujeito aos rigores do desenvolvimento económico oitocentista. Agora somos todos aqueles que estão expostos aos perigos e malefícios em vários planos trazidos por uma outra revolução tecnológica que naturalmente se está a converter em revolução industrial e social: a da inteligência artificial (IA) e da construção dos mundos digitais.

É, sem qualquer dúvida, o tema do nosso tempo e que carecia já de uma resposta consolidada da Igreja, assim como de todas as fontes de autoridade ética do nosso mundo. Se o mundo ainda escuta o Papa e a Igreja é outra questão, mas o Papa tem o dever de falar mesmo quando a Igreja ficar reduzida a grupos exíguos de fiéis. Também não restam dúvidas de que o tema da IA pode ser colocado nos termos tradicionais da Rerum Novarum e de outras encíclicas papais: o dever de protecção dos mais fracos, dos mais pobres, aparece revigorado; e a questão da inclusão aplicada a um desenvolvimento tecnológico e económico digno desse nome tem importância renovada.

Com efeito, e mobilizando os conceitos e princípios estabelecidos pela tradição da Doutrina Social da Igrejaa subsidiariedade, a solidariedade, o destino universal dos bens e, presidindo a estes todos, a dignidade infinita da pessoa humana –, Leão XIV investe uma parte muito considerável do texto apelando à inclusividade no acesso às novas tecnologias; à participação da sua disseminação e intrusividade; ao controlo do tráfico de dados ou ao escrutínio dos mecanismos invisíveis de funcionamento das tecnologias e até das pessoas que os controlam.

Há muitas e boas razões para o fazer. Por um lado, a dependência do mundo e de cada um de nós relativamente a estas tecnologias, e, por outro, a constituição de um punhado de impérios empresariais nos EUA e na China que produzem e fornecem estas tecnologias, fazem com que o mundo pareça caminhar para o pesadelo imaginado pela ficção científica dos anos 70, em que o mundo é radicalmente despolitizado porque passa a ser, para todos os efeitos, governado por empresas monopolistas da tecnologia vital. Essa é a mensagem do Papa em favor dos descamisados e em repreensão dos corações esfriados dos grandes magnatas tecnológicos.

Além do conflito social, há também uma oportuna meditação sobre questões mais subtis, como a ameaça do desemprego massivo, por via da substituição, ou das investidas agressivas sobre a liberdade humana e sobre a civilização do amor. Para a Igreja, não há substituto para o acesso ao trabalho compatível com a dignidade humana, o que vale por dizer que no Cristianismo do século XXI permanece a tese de que o trabalho é uma actividade insubstituivelmente humanizadora. Nem sempre foi assim para a Igreja, num tempo em que o trabalho aparecia mais frequentemente com a sua faceta desumanizadora, por ser duro, estéril e estupidificante, mas, sobretudo desde Leão XIII, o trabalho emergiu como esta actividade fundamental da experiência humana. Neste contexto, ao Papa não atrai a utopia pensada por tantos milenarismos actuais e remotos de um mundo em que o trabalho humano se torne obsoleto, passando integralmente a cargo de computadores e robots.

Também não atrai, e pelo contrário, repugna as promessas contemporâneas de alguns intérpretes e fautores da actual revolução tecnológicaas promessas do transhumanismo e, pior ainda, do pós-humanismo. Essas promessas são simples e poderosas como todas as promessas políticas mobilizadoras. No fundo, reduzem-se a transcendermos os limites da nossa mera humanidade a escassez, a dor, o sofrimento, a deterioração e, finalmente, a mortalidade.

O Papa assinala as graves ameaças desses novos profetas e prega uma ética fundada na dignidade dos “limites – isto é, de que as nossas limitações são o enquadramento da humanidade infinitamente digna porque não deixam de ser objecto do amor de Deus. Porém, o Papa não quer recusar os dons das novas tecnologias em todos esses domíniosna remoção da dor física, na cura das doenças, na produção da abundância dos bens cuja escassez provoca tanto sofrimento no mundo, em particular nos pobres e descamisados, em nome dos quais a Igreja fala. Além disso, a Igreja está ciente de que existe uma fronteira entre os benefícios inauditos e a transcendência dos limites. Mas quem mais quer escutar que o valor da nossa vida está na sua finitude? O Papa quer “desarmar” a IA para torná-la apenas generosa e inofensiva. O problema é que talvez a AI seja muito mais do que um simples instrumento que se sujeite à remoção de umas partes consideradas perigosas. Afinal de contas, a IA é muito mais do que um míssil que não deixa de o ser se lhe removermos a ogiva nuclear.

Todas estas formas religiosas secularizadas de promessa de abundância e imortalidade arriscam-se a conquistar multidões e a produzir novos infernos. Mas o que são elas senão a reencenação da grande promessa trazida pelo Cristianismo? Como religião, o Cristianismo também nasce de uma promessa de transcender a mortalidadenuma vida sobrenatural depois da morte natural. E cuja ressurreição incluía os próprios corpos. O que seria a vida eterna para os escolhidos? A vida de abundância – no Paraíso não se trabalha; e a vida de realização infinita na visão beatífica de Deus – uma forma sublime e incomensurável de prazer que negaria toda e qualquer forma de dor ou de escassez. As promessas do transhumanismo e do pós-humanismo reconstituem as promessas do Cristianismo, mas afirmando apenas a vida material como a única sede de transcendência dos limites, e substituindo Deus por um algoritmo. Passando essa fronteira, seria a morte da Magnifica humanitas celebrada por Leão XIV como a mais magnífica criação de um Pai infinitamente amoroso. Nas muitas corridas em curso nesta revolução tecnológica, também esta se desenrola diante dos nossos olhos: a criação de novos ídolos em detrimento dos antigos.

Finalmente, uma ausência que me espantou na encíclica. Uma das grandes ameaças da AI é tornar cada um de nós supérfluo. Não falo de desemprego tecnológico, cuja compensação por um rendimento universal é rejeitada por Leão XIV. Falo da nossa superfluidade em cada instante da nossa vida – mesmo dos momentos mais íntimos do lazer que viéssemos a obter nesse novo mundo de abundância. Essa superfluidade viria da consciência permanente e melancólica de que nada do que pudéssemos fazer não seria superiormente feita pela IA – e em décimos de segundo. Todas as conversas, todos os poemas, todas as descrições de memórias, para nada dizer de todos os problemas científicos, todos os problemas políticos – tudo seria supérfluo nas mãos e no cérebro de um humano. E a partir dessa consciência o abismo mais horrível da história da Humanidade se abriria.

Haveria algum antídoto para esse abismo? Sim. O amor. Seria necessário propor uma civilização do amor – isto é, uma civilização humana inteiramente dependente e construída com base no amor. Até porque nada mais restaria num mundo hiper-abundante. Tratar-se-ia de mais uma utopia. Uma que provavelmente é impensável sem Deus, mas que nem por isso o Papa deixa de propor.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL      TECNOLOGIA      PAPA LEÃO XIV      IGREJA CATÓLICA     RELIGIÃO      SOCIEDADE

 

Manuel Lisboa: Reflexão interessante de Miguel Morgado. Nos tempos que correm, reconheça-se ainda a sua coragem intelectual em utilizar o conceito "amor" no sentido universal. De facto, a Encíclica Humanidade Magnífica está fazendo o seu percurso e a motivar a devida consideração. Face aos lugares comuns e teses que predominam acerca da tecnologia e da chamada (inadequadamente) "inteligência artificial", importa ponderar sobre a visão humanista da mensagem do Papa Leão XIV. E é evidente a sua oportunidade. Os falsos deuses sempre se revelaram de muitas e variadas formas ao longo da História da Humanidade. Dessa forma, a tecnologia não deverá constituir refúgio de idólatras alienados, mas sim procurar servir sempre as pessoas, todas as pessoas.                          Rui Martinho: Muito bom, Miguel, explicativo, objectivo e necessário para compreender claramente do que estamos a falar quando abordamos estes temas.

domingo, 31 de maio de 2026

Às pinguinhas


Pareceres vários do tal “roseau humain” a respeito deste Mundo Humano, imperfeito, é claro, tantas vezes trágico, mas, afinal, extraordinário sempre!

Entre o recolher dos estilhaços da reforma laboral e os avanços e recuos sobre a hipótese de paz no Golfo, o grande tema da semana esteve em Espanha.

CARLOS MARIA BOBONE: Pontos de Vista

Fotografia de CARLOS MARIA BOBONE

Nuno Gonçalo Poças bem explicou a Fabian de Figueiredo que nem toda a riqueza vem da espoliação dos outros, mas a explicação não parece ter convencido os socialistas dos dois lados da Península Ibérica.

Na semana passada, perguntámos nesta newsletter ao Jorge Fernandes quais eram as semelhanças entre o caso de Sócrates e o de Zapatero; esta semana, José Manuel Fernandes explica-as bem, e mostra porque é que o caso espanhol pode ser ainda pior do que o português.

Rui Ramos também escreveu sobre o assunto, num texto que mostra que a corrupção nunca pode ser um acto isolado. Só é possível num contexto que a incentiva ou, pelo menos, não desencoraja. No meio do texto, há uma passagem que nos chamou a atenção. Rui Ramos diz que os Partidos são meios competitivos, com várias pessoas em disputa pelo poder. Faz sentido, sobretudo dentro de uma lógica que olha para a competição como um modo próprio da natureza do homem. Isto, no entanto, levou-nos a perguntar: o que é que há de especial nos partidos para que neles essa competição não funcione como um meio para prevenir contra a corrupção? De onde vem o beneplácito e a indiferença, quando as acusações de corrupção seriam armas fáceis que os inimigos internos podiam arremessar contra quem está no poder?

Rui Ramos respondeu que “A tolerância da corrupção nos meios partidários talvez se possa explicar pela percepção de que “facilitar” negócios é, independentemente das contrapartidas pessoais, uma forma de alargar influência e exercer poder. É esse o perigo maior: quando a corrupção se torna parte natural da política. De qualquer modo, também é provável que algumas investigações criminais tenham começado a partir de pistas dadas por rivais dos visados”.

Fizemos também uma pergunta a José António Rodrigues do Carmo, que dissecou o acordo de Obama com o Irão e fez dele uma leitura muito crítica. Fizemos-lhe a pergunta clássica para casos destes: se o acordo é tão mau como ele o pinta, o que é que levou a que fosse feito. Incompetência? Ignorância? Ingenuidade no trato com os iranianos? Cegueira ideológica?

José António Rodrigues do Carmo respondeu: “Não creio que tenha sido medo, inépcia ou intenção. Foi sobretudo uma escolha estratégica de controlo temporário de danos em vez de uma solução final.

No fundo, uma preferência para gerir o risco, em vez de o eliminar, adiar a crise em vez de a enfrentar. Um acordo imperfeito, em vez de uma confrontação sem garantia de sucesso.

Há alguma racionalidade nisso, mas também uma mistura de realismo, ilusão, cálculo político e aversão à guerra.

Contudo, em política internacional, comprar tempo só é uma boa estratégia quando se sabe o que fazer com ele. Caso contrário, é apenas pagar juros ao problema até ele regressar maior, mais rico e mais insolente”.

Por fim, fizemos ainda uma pergunta a Patrícia Fernandes, que a propósito dos recentes furtos em grandes cadeias explicou, a partir da História contemporânea e dos exemplos internacionais análogos, o alcance e os problemas deste tipo de protesto, a que habitualmente se chama “micro-looting”. A pergunta (e a resposta) foram um pouco mais filosóficas, porque têm que ver com a natureza da crítica de Patrícia Fernandes ao fenómeno. Perguntámos-lhe:

Um dos pontos importantes no texto é a questão do plano inclinadoé difícil aceitar que podemos roubar algumas coisas por razões políticas, sem cair depois numa justificação do roubo de coisas maiores, por exemplo. O problema com este argumento é que nega a importância do “micro” como categoria, como se a quantidade não fosse um valor político. Ou seja, a política não se faz apenas de princípiosisso é a ideia abstracta da esquerda; o princípio em matar uma mosca e matar uma manada de elefantes pode ser o mesmo, mas não é a mesma coisa. Dessa forma, o microlooting não pode ser defensável?

Patrícia Fernandes respondeu: “De acordo com as Filosofias da Razão, os seres humanos agiriam sempre segundo princípios éticos, mas essa visão parece-me longe da realidade: nós não funcionamos assim e tendemos a violar constantemente regras pequenas que nos parecem injustas. São aqueles exemplos iniciais que a jornalista dá: quem nunca partilhou a pass da netflix? E quem é que nunca usou aqueles sites que desbloqueiam os artigos de jornal para não pagar uma subscrição de 40e? Ou quem é que nunca registou nas caixas de continente um pão que pesa o mesmo mas custa metade do preço? Somos bastante flexíveis, sobretudo se tivermos a certeza que ninguém está a ver ou que que as pessoas não vão julgar. Por isso, acredito que a maioria das pessoas acha o microlooting aceitável em certas condições – não tenho ilusões quanto à natureza humana. O que sobra é chamar a atenção para o plano inclinado e tentar convencer as pessoas dos possíveis efeitos negativos (é a disputa filosofia pragmatista vs. filosofias da razão)”.

A Figura

Podia, claro, ser Sánchez, podia até ser António José Seguro, sobre quem Helena Garrido escreveu, mas desta vez apanhámos um pouco as ideias. Foi a semana em que saiu a primeira encíclica do Papa Leão XIV, e a opinião do Observador desdobrou-se em textos sobre o assunto. PEDRO LOMBA, ANDRÉ AZEVEDO ALVES, BRUNO CARDOSO REIS, O PADRE JOÃO BASTO – todos escreveram sobre a encíclica, numa colecção notável de perspectivas.

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O 28 de Maio de há um século

Indiferentes à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de Maio.

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Helena Matos

O activismo de bordo

Portugal tem uma política diferente da espanhola em relação às Lajes e a Israel pela mesma razão que teve uma política diferente da francesa em relação à ETA. A razão chama-se interesse nacional.

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Miguel Morgado

Zapatero:

Um cínico manipulador das partes sensíveis da alma da esquerda política que operou para, sem qualquer escrúpulo, e arrastando consigo para o fundo as instituições e o Estado de Direito, enriquecer.

Fotografia do Colunista

CARLOS MARIA BOBONE

ISABEL MOREIRA, a censurada

A quantidade de gente que prefere achar que não é publicada porque incomoda alguém poderoso, ou é demasiado acutilante, é extraordinária.

Papa Leão XIV

"Mais do que a promessa de capacidades extraordinárias ou mesmo de novos estádios da evolução humana, arrisco dizer que para o imaginário colectivo das sociedades contemporâneas é a possibilidade colocada no horizonte de remover todo o sofrimento e perda que gera efectivamente um apelo mais tentador. "

André Azevedo Alves

sobre o problema fundamental da encíclica, que justifica que um Papa se debruce sobre a Inteligência Artificial

"Leão XIV coloca a irrepetibilidade da pessoa – na sua identidade, fragilidade, imperfectibilidade – no centro da sua resposta à inteligência artificial. Para o Papa, há domínios da vida humana em que a delegação às máquinas é simplesmente inadmissível, qualquer que seja o nível de precisão do sistema. Magnífica humanidade, perfeita desumanidade. "

Pedro Lomba

a explicar de que modo Leão XIV tenta, pela via teológica, recuperar a ideia da consciência como fundamento da dignidade humana

"Para o Cristianismo a fragilidade não é um erro que deve ser corrigido; a plenitude coexiste com a falha. “Para suprimir totalmente a dor, seria necessário, no fundo, extinguir também o amor e o desejo”, diz o Papa. "

PE. JOÃO BASTO

a propósito das relações entre o Cristianismo e a Civilização Ocidental, e sobre o papel que o Cristianismo pode ter na sua salvação

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