Sobre uma História Pátria – ou
Africana - de travessia africana. Ao que parece, ignorada, modestos que somos.
A travessia que nunca ninguém fizera
A primeira travessia da África Austral da história
euroafricana e a única missão transcontinental documentada de ida-e-volta é uma
proeza em linha com os Descobrimentos.
JOSÉ RIBEIRO E CASTRO Advogado
e cidadão
OBSERVADOR, 06 ago. 2026,
00:15
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A história portuguesa
guarda maravilhas por descobrir que custa entender como foram desvalorizadas e,
durante séculos, geralmente desconhecidas. O caso é a travessia da
África Austral, de costa a costa, de Angola a Moçambique, essa grande epopeia
do final do nosso século XIX. Sempre
pensei – como quase todos – que os primeiros grandes feitos deste desígnio pertenceram
a Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, nas décadas 1870 e 1880; e,
olhando aos ingleses, a David Livingstone, na década 1850. Também pensei que
este propósito surgira apenas na segunda metade do século XIX, no quadro das
ideias que desaguaram na Conferência de Berlim, de 1884/85. Não foi assim.
Em Outubro de 2025, participei
no lançamento do livro “A PRIMEIRA TRAVESSIA DA ÁFRICA AUSTRAL”, de José Bento Duarte (ed.
Perfil Criativo – Edições, 2025) autor que me revelou um facto
extraordinário e surpreendente: os heróis da primeira travessia de Angola a Moçambique, e
volta, foram dois pombeiros portugueses, angolanos, escravos por sinal, Pedro
João Baptista e Anastácio Francisco, que realizaram essa proeza ao serviço de
Portugal, entre 1802 e 1814: nove anos à ida (1802-1811) e três anos à volta
(1811-1814). Formidável! Meio século antes de Livingstone e 70 anos antes de Serpa
Pinto, Capelo e Ivens, já aquela missão portuguesa se iniciara para ser
concluída, com êxito total. Foram os luso-angolanos Pedro João Baptista e
Anastácio Francisco que realizaram, pela primeira vez, a travessia que nunca
ninguém fizera.
Confirmei, depois, que MARIA
EMÍLIA MADEIRA SANTOS, historiadora que é uma autoridade na área, relatara
também estes factos (embora discretamente), no artigo “Os países africanos de língua
portuguesa na África do século XIX”, que publicou, em 2008, NO
VOLUME VI DA “HISTÓRIA DA HUMANIDADE” (DA UNESCO, PUBLICADA EM PORTUGAL PELA
VERBO): «A partir dos
finais do século XVIII, a exploração científica ultramarina gozou do apoio
oficial da Universidade e da Real Academia de Ciências. Em 1797, o matemático
Lacerda e Almeida foi o primeiro cientista português a tentar atravessar
África, mas, não possuindo quinino, morreu de febre no Cazembe. Nos finais do
século XVIII, os portugueses haviam reunido as condições materiais necessárias
para empreender a travessia de África com o envolvimento de homens práticos.
Perante as dificuldades dos cientistas, recorreu-se à colaboração de dois
pombeiros negros do Cassanje, assimilados pela sociedade luso-africana, ambos
com grande experiência de viagens a pé e capazes de manter um diário de
percurso. Esta travessia de África foi possível graças aos chefes
africanos que abriram os caminhos aos seus irmãos negros, que pediam passagem
em nome do Muene Puto, rei de Portugal (1802-1814). O diário dos
pombeiros, que viu a luz do dia em 1843, permitiu aos geógrafos europeus
preencher espaços em branco até à altura desconhecidos no mapa de África. O
governo preocupou-se, então, com a proteção da exploração geográfica, deixada à
iniciativa privada durante quase três décadas.» A historiadora
apresentara já este feito, de modo mais desenvolvido, na sua obra de 1978,
“Viagens de
Exploração Terrestre dos Portugueses em África”.
No seu livro, JOSÉ BENTO DUARTE relata
desenvolvidamente, desde o século XV, a chegada dos portugueses a África e como
se estabeleceram em vários pontos da costa ocidental e, depois, na contracosta
oriental no Índico, instalando-se onde viriam a formar-se Angola e Moçambique.
O interessantíssimo livro de José Bento Duarte.
Também confirma que o
desígnio português de fazer a travessia da África Austral já era, em Portugal,
um objectivo científico, académico e político na segunda metade do século XVIII.
Relata a viagem
preparatória em 1755-56 de Manuel Correia Leitão, sargento-mor dos distritos do
Dande, em Angola. Correia Leitão, acompanhado pelo piloto António Grizante,
fora mandado pelo novo governador de Angola, António Álvares da Cunha,
desbravar as terras para leste da feira do Cassanje, na região de Malanje,
então o ponto mais oriental conhecido a partir de Luanda, para reunir
informações sobre as terras a atravessar na rota para Moçambique.
A seguir, ainda no
século XVIII, o livro narra, desde a preparação com envolvimento político
directo do governo em Lisboa, a expedição de Francisco José de Lacerda e Almeida,
cientista credenciado e cartógrafo, formado em Matemática pela Universidade de
Coimbra. Lacerda e Almeida foi enviado pela Coroa para estabelecer a ligação
terrestre entre Rios de Sena (Moçambique) e Angola. Era uma
expedição com boa organização e propósito ambicioso. Partindo de
Tete, em Julho de 1798, atravessou o interior africano até ao Cazembe (na
actual Zâmbia), onde esperava prosseguir para Angola, a oeste. Venceu todas as
peripécias até conseguir partir e venceu as dificuldades da viagem; mas o
desgaste físico e as doenças impediram-no de cumprir a missão. Em Novembro,
morreu no Cazembe, tornando-se símbolo dos limites da exploração científica
europeia em África.
JOSÉ BENTO DUARTE encerra o livro com a apaixonante
narrativa da primeira travessia terrestre de Angola para Moçambique, por PEDRO
JOÃO BAPTISTA e ANASTÁCIO FRANCISCO entre 1802 e 1811 – e regresso a Angola
em 1814. Eram pombeiros luso-angolanos, na condição de
escravos, pertencentes ao tenente-coronel Francisco Honorato da Costa,
governador da feira de Cassanje, experientes nas rotas comerciais do interior
africano. Apenas quatro anos depois de Lacerda e Almeida morrer no
Cazembe, os pombeiros partiram do lado angolano, no sentido inverso, de
Cassanje com destino a Rios de Sena, em Novembro de 1802, enfrentando uma
viagem de nove anos, marcada por longas permanências intercalares em
territórios africanos, complexas negociações com chefes locais e dificuldades
de toda a ordem. Estiveram logo dois anos parados nas terras do rei Bumba (actual leste do Moxico,
Angola), de onde seriam resgatados por HONORATO DA COSTA.
E o momento decisivo
ocorreu, já perto de Moçambique, no Cazembe, onde tiveram de permanecer quatro
anos antes de obter autorização para prosseguir. Chegaram a Tete, em
2 de Fevereiro de 1811, demonstrando pela primeira vez a viabilidade da ligação
terrestre entre as duas possessões portuguesas. Regressaram a Angola em 1814,
assim concluindo uma expedição de cerca de doze anos, no total.
A rota da travessia de Pedro João Baptista e
Anastácio Francisco, no percurso de Cassanje (Angola) a Rios de Sena
(Moçambique) – 1802-1811. Fonte: Portal da História.
Pedro João Baptista e Anastácio Francisco
eram pombeiros experientes, muito habituados ao trato com as populações
africanas. Pombeiros
eram comerciantes no interior de África, que faziam longas viagens, em que
consolidavam valiosas competências de relacionamento: negociar preços, resolver
conflitos, conhecer costumes, dominar várias línguas africanas, interpretar
protocolos, saber quando oferecer presentes, pedir audiências, reconhecer
hierarquias locais. Por isso, PEDRO JOÃO BAPTISTA, homem de confiança de HONORATO DA COSTA (ele mesmo
rotinado no trato com chefes africanos), tornara-se num “diplomata
comercial”, com qualidades pessoais que explicam o êxito alcançado. O
chefe da longa missão não era um cientista, nem um militar, nem um político,
nem um embaixador, mas um agente intercultural. Sobreviveu a doze anos de
negociações contínuas com chefes locais e soberanos africanos. E, no final, a saída diplomática
achada para se libertar da última paragem de quatro anos no Cazembe confirma-o
como líder dotado de enorme paciência, respeito pelo protocolo local,
capacidade e sensibilidade para compreender interesses políticos e total autocontrolo.
Por outro lado, a esta
distância e desconhecendo a cultura do tempo e do lugar, não deixa de
impressionar que estes dois escravos não fugissem e, pelo contrário,
mantivessem, ao longo de todas as contingências e peripécias, a fidelidade e a
determinação no cumprimento da missão que lhes fora confiada ao serviço da
Coroa (no dizer do tempo e do lugar, o Muene Puto): fazer a travessia que nunca
ninguém fizera. Extraordinário!
BENTO DUARTE relata o remate desta história
formidável: o
reconhecimento oficial da missão pela Coroa. Depois de
regressado a Cassanje, Pedro João Baptista viaja para Luanda, onde é recebido
pelo governador como herói. E daqui, em 1815, na fragata “Príncipe Dom Pedro”,
foi até ao Rio de Janeiro, onde apresentou os roteiros e documentos da sua
formidável viagem. O príncipe regente D. João (pouco depois, rei D. João VI) determinou a criação de uma
Companhia de Pedestres, destinada a assegurar a comunicação terrestre entre
Angola e Moçambique, nomeando Pedro João Baptista seu Capitão e concedendo-lhe
um soldo relevante. Francisco Honorato da Costa foi também recompensado pelos
serviços prestados na organização da expedição.
OS FEITOS E ENSINAMENTOS DA
VIAGEM DE PEDRO JOÃO BAPTISTA, COMO ANTERIORMENTE DE LACERDA E ALMEIDA (ESTA,
NÃO CONCLUÍDA), INFLUENCIARAM DE MODO INSOFISMÁVEL OS FUTUROS EXPLORADORES
EUROPEUS, 50 ANOS DEPOIS. Os documentos relativos à missão de Pedro João
Baptista foram publicados nos Annaes Marítimos e Coloniaes, publicação mensal da
Associação Marítima e Colonial, em 1843 – surge dentro do título geral «Explorações dos Portugueses no
Interior da África Meridional», que incluía os «Documentos
relativos à viagem de Angola para Rios de Sena». E a documentação da
missão incompleta de
Francisco Lacerda e Almeida foi publicada nos mesmos Annaes
Marítimos e Colonias, em 1844 e 1845. Em Inglaterra, ambas as
missões estão publicadas pela Royal Geographical Society, desde 1873, na obra
«The Lands of Cazembe. Lacerda’s Journey to Cazembe in 1798… Also Journey of
the Pombeiros (…) across Africa from Angola to Tette on the Zambese». Uma atenção
internacional que bem merece respeito e comprova a prioridade.
O Portal da História, que
publica na internet vários documentos e relatos da viagem dos pombeiros,
escreve: «Este relato, traduzido para inglês no ano seguinte à sua
publicação, serviu para Livingstone, o missionário escocês que explorou o
território entre Angola e Moçambique, preparar as suas viagens.»
Por isso, nesta nossa
celebração dos 900 anos de Portugal, não posso deixar de registar e destacar a
extraordinária viagem dos luso-angolanos Pedro João Baptista e Anastácio
Francisco, entre 1802 e 1814, como a primeira travessia da África Austral da
história euroafricana. É também, ao que hoje sabemos, nessa época, a única missão
transcontinental documentada de ida-e-volta realizada por uma mesma expedição
no interior da África Austral – todas as outras foram só num sentido.
É, na verdade, uma
grande proeza da História de Portugal – e da História de Angola também.
Uma proeza em linha com os Descobrimentos, “por mares
nunca dantes navegados”: eles próprios travessias que nunca ninguém fizera.
[Os artigos da série
Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da
Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias
posições.]
Portugal 900 anos História
Cultura
COMENTÁRIOS:
M: m b
Do que aqui se relata é ou
não possível inferir que instituições e regimes de escravidão podem ser social
e politicamente funcionais e desempenharem um papel positivo?
E que é historicamente
factual que tais instituições foram efectivamente social e politicamente
funcionais e contribuíram positivamente para o desenvolvimento da espécie
humana? E que só isso pode explicar o facto de tais instituições e regimes cedo
terem surgido na história da humanidade e persistido universalmente até épocas
recentes?
Meio Vazio: Do (para mim) enigmático
José Bento Duarte nada soube até 2018 quando uma filha, sabendo-me
fascinado pela Idade Média na Ibéria, me
fez chegar às mãos o soberbo "Peregrinos da Eternidade" (Lisboa, Ed.
Estampa, 2003) - que releio repetidamente com acrescido proveito e prazer - e
de quem não mais tinha tido referência até hoje. Obrigado, José Ribeiro e
Castro, pela oportunidade do reencontro.
Francisco Almeida: É mais um triste sintoma do
que se passa no ensino em Portugal que esta primeira travessia de África, seja
universalmente desconhecida. Para mim foi uma surpresa total e, em
conhecimentos históricos do passado português, considero-me um pouco acima da
média.
Sr Leão: Muito esclarecedor e oportuno. Ignorava que
tivesse havido tentativas anteriores a Serpa Pinto, Capelo e Ivens.
Américo Silva: Bem lembrado, sobretudo num tempo em
que ser portuguès, ou francês, ou inglês, e mais, é só circunstância e
conveniência.