sábado, 14 de fevereiro de 2026

Refúgio

 

Por timidez na questão dos erotismos, que tanto nos apraz focar, em livros alheios, que nos desresponsabilizam relativamente às nossas motivações, assim expressas por conta alheia. A literatura portuguesa, inserida num contexto de pudicícia ditada por uma educação que se pretende de bom formato moral – pelo menos às claras - e mais atida às questões do sentimento, relega nobremente as questões sexuais ou mesmo racistas, pelo menos por conta própria. Donde a manipulação alheia, mesmo desvirtuada, aqui referida.

João Pedro George e a esquerda que treslê

O afã anticolonialista de João Pedro George leva-o a encontrar negras estereotipadas em personagens que nem negras são: o romance que acusa de ter um olhar colonialista nem sequer fala de África.

JOÃO PEDRO MARQUES 13 fev Historiador e romancista

OBSERVADOR, . 2026, 00:1841

Por curiosidade, interesse e dever de ofício leio muitos livros de autores portugueses sobre temas coloniais e um dos últimos que li foi  “O Cemitério do Elefante Branco”. Retornados e Ficções do Império Português”, de João Pedro George.

O que me traz aqui não é fazer a recensão desse livro, mas corrigir e interpretar uma passagem do seu capítulo 5 na qual o autor lança mão de uma obra minha  para tentar alicerçar as suas teses. De facto, ao abordar a forma como certa literatura fala da líbido e da sexualidade dos negros, João Pedro George afirma que há uma “apreciação generalizada dos negros como hiper-sexuais (leia-se: em estado de perpétua excitação), entregues à febre da luxúria, com um desejo insaciável de sexo, em que a necessidade erótica se manifesta como uma reacção explosiva”. O autor considera que “o exemplo mais decadente, ou mais degradante” dessa hiper-sexualização e luxúria se encontra “nas descrições do corpo das negras e da sua poderosa sexualidade, que convida os homens a regressarem às deliciosas sensações primárias do sexo animal, a cuja tentação não conseguem resistir”. George está convencido de que “essas descrições não surgem do nada, inscrevem-se na história da literatura portuguesa” e afirma que “nos nossos dias, vários romances descendem desta tradição, como O Estranho Caso de Sebastião Moncada (2014), de João Pedro Marques, que descreve a negra Poleciana a fazer amor com o tenente Mateus ‘como um animal insaciável’ e aparentando ‘uma expressão excitante, quase demoníaca’; Maria, a criada negra de Sátiro da Costa, contorce o ‘corpo como uma cobra’; e Luísa ama Mateus ‘de uma forma selvagem’, com uma ‘expressão devoradora’ (pp. 295-6).

Ou seja, João Pedro George usa o meu romance O Estranho Caso de Sebastião Moncada para dar aos seus leitores exemplos daquilo que designa por “olhar colonialista sobre os corpos colonizados”. Sucede que, no que diz respeito ao meu livro, nada disso é verdade, como quem o tiver lido, ou for ler, sabe ou poderá vir a saber, e é verdadeiramente extraordinário que George tenha extraído essas conclusões de uma obra que nada tem a ver com África nem com africanos. De facto, O Estranho Caso de Sebastião Moncada é uma história de natureza passional, militar e policial, passada exclusivamente em Portugal, sobretudo no norte do país, e no contexto das Guerras Liberais de 1832-34. As personagens que João Pedro George refere como sendo negras são todas elas alvas como a neve. Aliás, e com a irrelevantíssima excepção de uma cozinheira negra a que se alude uma única vez, sem a identificar, no início do romance, e que não tem nele qualquer peso ou intervenção, todas as personagens que interagem no desenrolar da trama são brancas. Muitas vezes isso é explicitado nas descrições físicas das personagens. Outras vezes está implícito, como é natural. Seria redundante e absurdo ter de explicar caso a caso, acerca de cada personagem, que se tratava de pessoa de raça caucasiana e pele branca. Não se especificando coisa diferente, qualquer leitor pressuporá que num romance passado há cerca de 200 anos no Porto, em Penafiel e noutras povoações do norte, assim seria já que o número de negros existentes nessas terras era, nessa época, ínfimo ou nulo. Importa, não obstante, sublinhar que mesmo nos casos em que a pertença étnica está implícita ela subentende-se ou deduz-se com facilidade. Alguns exemplos concretos sobre as três personagens que João Pedro George referiu: a criada Maria, que se contorce como uma cobra (para escapar aos abraços e carícias do azeiteiro de Vilar) tem a cara corada (p. 116); Poleciana, ou melhor, D. Poleciana Alves da Cunha,  é uma senhora da fidalguia rural com criados e gente de lavoura ao seu serviço (pp. 90-1), que vive numa casa senhorial em Barcelos, em cujas paredes há quadros de austeros antepassados (p. 93) e que, à noite, pronta para dormir, deixa que os cabelos soltos lhe caiam sobre os ombros (p. 97); Luísa é mulher do juiz Etelvino de Vasconcelos e filha de um rico lavrador da região de Avintes (p. 43). Ou seja, nada no texto permite ao leitor supor que as personagens que o habitam não são brancas, muito pelo contrário.

Aqui chegado a pergunta que coloco é a seguinte: como foi então possível que João Pedro George tivesse confundido e subvertido a este ponto o que leu e o que eu escrevi? Estou em crer que não se tratou de uma confusão entre dois romances meus, pois os nomes das personagens batem certo e as citações também. Parece-me igualmente seguro que ao contrário de Margarida Rendeiro que, por razões políticas e ideológicas, leu e criticou dois dos meus romances com manifesta má-fé, neste caso não se trata de um mal-entendido maldoso ou propositado. Julgo, isso sim, que este grande engano resulta da conjugação de duas coisas diferentes e ambas negativas. Vejamo-las uma a uma:

Em primeiro lugar esta confusão de George parece resultar de uma investigação algo descuidada e apressada, o que não abona a qualidade do seu trabalho. Aliás, George confessou em tempos, numa entrevista ao jornal Sol, que pode não ler os livros “da primeira à última página”, mas ficar-se apenas por “nacos significativos”. Não é de excluir que nem isso tenha acontecido na leitura deste meu livro e que os tais “nacos significativos” tenham sido, nesse caso, apenas esparsas migalhas.

Notem, porém, em segundo lugar, que não se trata de um lapso causado por uma desatenção momentânea, mas sim de três enganos em diferentes passagens do livro, três alucinações em torno de três mulheres diferentes — Maria, Poleciana e Luísa —, mas todas no mesmo sentido, e isso pode também ter um significado mais profundo do que um simples descuido e uma leitura superficial. Julgo que João Pedro George leu O Estranho Caso de Sebastião Moncada e converteu aquelas três mulheres brancas em mulheres negras por causa das passagens eróticas e das cenas de sexo. Maria, a criada com a cara afogueada, mas que serpenteia como uma cobra para escapar às carícias do azeiteiro, passou, por causa desse seu serpentear, a ser, no entendimento de George, africana. Poleciana Alves da Cunha, poderosa senhora de Barcelos que faz amor com a boca entreaberta e a ponta da língua a percorrer eroticamente os lábios, passou igualmente, por demasiado excitante, a ser negra. E Luísa também porque, na intimidade com o tenente Mateus, a mulher do juiz Etelvino de Vasconcelos se mostra selvagem e devoradora.

Ou seja, não sou eu, como autor, que vejo os negros como “hiper-sexuais” ou “em estado de perpétua excitação”, “entregues à febre da luxúria (e) com um desejo insaciável de sexo”. Não existem nos meus romances diferenças assinaláveis entre mulheres brancas e negras no que toca à líbido ou à forma de viver e exprimir a sua sexualidade. As práticas e atitudes amorosas e libidinais das personagens negras heterossexuais dos meus romances — Tangi, em Os Dias da Febre (2010); Sara, em Do Outro Lado do Mar (2015); etc.em nada se distinguem das de Maria, Poleciana e Luísa em O Estranho Caso de Sebastião Moncada. Não sou eu, repito, que vejo os negros como “entregues à febre da luxúria”, é João Pedro George que, ao que parece, tem esse estereótipo na cabeça e que associa um certo tipo de libidinosidade, ou de formas mais soltas de vivência do corpo, a figuras negras. E é precisamente porque o faz que, de forma automática, enegreceu ou africanizou as minhas personagens femininas brancas. É irónico que o livro de João Pedro George, que tem no título a expressão “Ficções do Império Português”, inclua nas suas páginas uma tão grande ficção nos planos da análise e da crítica, mas o trabalho feito à pressa associado aos preconceitos e às fantasias erótico-literárias pregam destas partidas às pessoas.

De todo o modo essa é uma questão menor porque o que mais interessa neste caso não são os tropeções, erros e fantasias de João Pedro George, mas o facto de eles serem sintomáticos e ilustrativos da forma como não toda, claro, mas muita gente de esquerda está no espaço público e tende a envolver-se nas questões do foro cultural, intelectual, histórico e político. Nos meus já largos anos de debates na esfera pública deparei-me e confrontei-me muitas vezes com interlocutores e contraditores de esquerda que praticavam, impantes, esta metodologia da leitura parcial, do estudo de relance, das conclusões precipitadas e das acusações disparatadas. Vendo bem este estranho caso de João Pedro George, que inventa mulheres negras onde só existem brancas, e vê olhares colonialistas onde não há sombra de colónias, colonizadores e colonizados, não é assim tão estranho no contexto dessa esquerda. É até, arrisco-me a dizê-lo, a típica forma desse sector da opinião pegar nas coisas, projectando os seus fantasmas sobre os outros. E é por isso que debater com gente que treslê a este ponto é quase como jogar futebol num campo de minas. Exige técnicas e paciência de soldado sapador.

LITERATURA       CULTURA

COMENTÁRIOS:

Carlos Ferreira14 h: Arrasador. Se fosse ao J. P. George, pintava a cara de preto (sem segundas intenções) :-)                 graça Dias: Senhor Professor João Pedro Marques . Mas que artigo fascinante. Todo um relato admirável sobre a ignorância das esquerdas Woke. Resumindo, este personagem anticolonialista de nome João Pedro George, não passa de um activista de cultura marxista Woke, que apresentou um conjunto de folhas, que são uns rascunhos com a habitual  corrupção de linguagem e de factos históricos, que caracteriza a ignorância da seita Woke, rumo ao obscurantismo. Este é um artigo brilhante e escrito com elegância por quem tem grande autoridade na matéria. Só poderei agradecer e dar os parabéns ao Senhor Professor João Pedro Marques. Simplesmente delicioso e... também hilariante.                     Mário Gouveia: Não é ignorância, é má-fé. Inenarrável

Paulo Silva: Lolada! A desconstrução de mais uma burla woke… Grato, JPM. O efeito Sokal em versão light chega para dar cabo da aureola 'científica' dos seminaristas dos estudos pos-coloniais. Pobres coitados.               Paul C. Rosado: Muito bom texto. O ocorrido neste caso é só mais um exemplo da ignorância da esquerdalha intelectualóide.                 Rita Salgado: É o que dá “ler” livros pelas badanas… Gostava de ver a reacção dos alunos do Sr George quando este lhes recomendar leituras!                 Maria Nunes: O Sr. George devia pedir desculpa ao Sr. Professor JPM..                 ana rita: Juro que até sinto pena desse João Pedro George.                  Manuel Lourenço: Dia negro para João Pedro George.                      José Roque: Quem diz apreciar obras literárias através de "nacos significativos" está sobejamente apresentado...               Israel Sousa: Parabéns pela explicação da "ficção" apresentada pelo sr. dr. João Pedro George, que está ao nível de um "documentário" da Netflix! De facto a pesquisa que suportou a tese apresentada no livro do dr. George, é completamente absurda, fantasiosa e falsa. Ou foi o resultado de preguiça e fanatismo ideológico, ou de uma "alucinação" de alguma ferramenta de IA!                  Rui Lima: Noto que alguns autores portugueses parecem desfasados relativamente ao tema actual. O debate contemporâneo centra-se mais na colonização da Europa, um fenómeno que se desenvolve a uma velocidade impressionante. Quando olhamos para a história, vemos que Portugal, em 400 anos em Angola, não passou da costa . Actualmente, há obras que explicam bem o futuro que poderá aguardar a Europa. Entre elas, Ferghane Azihari pode ser considerado o “Voltaire do século XXI”. No seu livro L’islam contre la modernité, Azihari oferece uma perspectiva do que poderá acontecer à Europa nas próximas décadas.                   Paradigmas Há Muitos!:  Parece-me que a única saída digna para esse João Pedro George será fazer harakiri, não? Atenção, isto é só uma metáfora! No campo do anti-racismo woke, tenho verificado muito o que o JMM aqui revela sobre o João Pedro George. O afã de sinalizarem virtude é tanto que as suas acusações precipitadas aos outros acabam por ser a reflexão da sua própria imagem no espelho. Eles ao verem racismo onde ele não existe estão a projectar os seus próprios preconceitos e, infelizmente para eles, a denunciarem-se como fraudes intelectuais e morais.             António Sabbo: Brilhante.               Carlos Chaves: Como sempre típico da esquerda, não consegues vencê-los com a razão, arrasa-os com a mentira! Obrigado, caro João Pedro Marques, por esta sua incansável luta pela verdade (histórica).                  GateKeeper: Top 10.                antonyo antonyo: Custa a acreditar que tenha acontecido ,tal a enormidade da descrição . A esquerda e os wokes alteram tudo mas aqui atingem o limite . Aguardemos o pedido de desculpas do sr George .                  José Paulo Castro: Se só fosse tresler... pior é aquela contorção dos conceitos e da realidade para a adequar aos fins. Chamam-lhe interseccionalidade.                  Cisca Impllit: A ignorância é atrevida.  É bom repor as coisas como elas são , até é  uma obra de misericórdia.  Há  sempre oportunidades de superarmos um engano e emendar a mão .

joao lemos: e afinal quem é este sr George? vive de quê? quem lhe paga o ordenado?                        José Pedro Correia: Mais uma pérola de João Pedro George: da gloriosa era do ‘quase-plágio’ a Zenith à nova temporada de deturpações da obra de João Pedro Marques.                 Maria Augusta Martins: O ver tanta água faz mesmo muita sede e ela é tanta (a água) que a estou a abominar. Penso professor que estamos muitos de acordo com isto.  Vai um, ou dois, ou três copos de verde de Barcelos á saúde e ao bom tempo!                     José B Dias: Claramente uma das tais ficções que constam do título ... 😂 Quantas mais existirão?       Manuel Matos: Genial, devia ser a primeira página de todos os diários              L do Campo: Se este senhor George faz estas "citações/interpretações" de uma coisa que não existe como é que se poderá acreditar nas biografias que escreveu?                joao lemos: mais uma vez vem tentar meter alguma luz na ignorância e só por isso muito obrigado reconheço-lhe a enorme paciência para permanentemente desmontar a desonestidade intelectual desta "turba" de analfabetos. Fossem os MIDIA correctos e sérios e toda esta gente poderia ser desmistificada nas televisões. Infelizmente convidam três woke para debater temas woke                  Manuel Lisboa: Nem mais. Não tinha qualquer vontade de comprar o livro do tal Pedro George. Agora, fica bem fundamentada essa minha rejeição. Como sempre palavras sensatas e conclusões claras e muito acertadas de João Pedro Marques.            Beta Martins: Muito bem!

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 

Podemos desejar a continuação deste JORNAL independente.

 

A afirmação do OBSERVADOR: agora também com resultados operacionais positivos

Em 2025, o Observador alcançou, pela primeira vez, de acordo com as suas contas provisórias, resultados operacionais positivos, algo a destacar num sector estruturalmente tão desafiante.

ANTÓNIO CARRAPATOSO Empreendedor, Presidente do Conselho de Administração Executivo e fundador do OBSERVADOR

OBSERVADOR, 12 fev. 2026, 13:4448

 

O OBSERVADOR tornou-se, neste século XXI, numa das referências do jornalismo de informação em Portugal. Afirma-se e diferencia-se por ser nativo digital e, fundamentalmente, pela sua independência editorial, pela sua qualidade, inovação, profissionalismo e contemporaneidade, bem como pela sua orientação para os leitores e ouvintes e para o interesse público.

Tal como acontece em muitos dos países democráticos mais desenvolvidos, o Observador assume editorialmente, um ponto de vista, exercido com transparência e responsabilidade e como parte integrante, diferenciadora e central da sua identidade. Em vez de se ancorar numa neutralidade forçada ou dissimulada, o OBSERVADOR optou por uma transparência editorial que considera mais honesta e intelectualmente exigente.

Mesmo operando num mercado de reduzida dimensão, marcado por promiscuidades entre o poder político, económico, corporativo e mediático, por deficiências estruturais de regulação e pela existência de posições dominantes, o OBSERVADOR posicionou-se, em relativamente pouco tempo, entre os grupos de comunicação social com maior impacto e influência. Fê-lo sem dispor, até ao momento, de um canal de televisão, com base numa plataforma multimédia digital, com um orçamento anual que hoje é de cerca de 9 milhões de euros e com uma equipa total de apenas 160 colaboradores, ou seja, com recursos muito mais limitados face aos de outros grupos concorrentes.

A origem

A origem do OBSERVADOR remonta ao final de 2011, quando António Carrapatoso e Rui Ramos, na sequência de outras iniciativas de cidadania, começaram a ponderar a criação de um novo órgão de comunicação social em Portugal, de base digital e focado na informação. Neste contexto, tomaram conhecimento de que José Manuel Fernandes teria uma ideia semelhante e, conhecedores do seu percurso, promoveram com ele um encontro que revelou uma elevada sintonia quanto às linhas essenciais de um projeto a lançar.

Foi assim que surgiu o Observador, inicialmente com três promotores e fundadores, aos quais se juntou, alguns meses depois, um quarto fundador, Duarte Schmidt Lino. Após um período de maturação conceptual, definição do modelo operativo, contactos institucionais e escolha da equipa de arranque, os fundadores estabeleceram o modelo de governação, o perfil e a lista de potenciais investidores a desafiar, bem como o momento adequado para o lançamento do projeto.

O OBSERVADOR nasceu para o público em maio de 2014, no Bairro Alto, em Lisboa (estando hoje sedeado em Alvalade), com uma equipa de cerca de 40 colaboradores, em instalações que num passado já longínquo foram ocupadas pelo Diário Popular.

Factores-chave da afirmação do Observador

A forte afirmação do Observador em Portugal resulta de um conjunto de cinco principais fatores estruturais e estratégicos, que se reforçam mutuamente.

1. Um ponto de vista assumido, claro e transparente

Desde a sua fundação, o OBSERVADOR assumiu explicitamente um ponto de vista enquadrado em determinados princípios e valores, expressos no seu Estatuto Editorial (ver texto completo). Não perfilha qualquer programa político, mas sim um olhar próprio sobre o país e o mundo, debate que pretende promover de forma aberta, ultrapassando mitos, tabus e receios que têm prevalecido na nossa sociedade.

Esse ponto de vista assenta na valorização da liberdade, da iniciativa, da independência, da autonomia e da qualificação, educacional e cultural, dos cidadãos e das suas organizações; na promoção da participação activa da cidadania para o reforço da democracia; na defesa de uma sociedade aberta, flexível e plural, assente na igualdade de oportunidades; num Estado responsável e credível, focado nos seus atributos essenciais, eficiente, ao serviço dos cidadãos, libertando-os e não os explorando, e não capturado por interesses políticos ou corporativos, capaz de assegurar serviços públicos abrangentes de qualidade, não necessariamente por ele prestados; num modelo social solidário, sustentável e justo, nomeadamente entre gerações, com proteção dos mais desprotegidos e incapacitados, não desincentivando o trabalho nem facilitando fraudes e  aproveitamentos indevidos; em mercados abertos, concorrenciais, bem regulados e livres de abusos de posição dominante que não inibam a inovação e o surgimento de novos actores; na defesa da identidade e comunidade nacionais; e no compromisso com a sustentabilidade ambiental, numa convivência salutar com a natureza.

Este ponto de vista manifesta-se e é aplicado de forma diferente nas áreas de Opinião e de Informação, que se encontram claramente distintas e com responsáveis próprios. Na Opinião, a maioria dos colunistas regulares insere-se, no essencial, com pontuais excepções, dentro do ponto de vista do OBSERVADOR, sem prejuízo de uma grande variedade de olhares e posições, da responsabilidade de cada autor, decorrentes da abrangência do ponto de vista adoptado. O OBSERVADOR não pretende, na Opinião, ser como que uma pequena Assembleia da República, sendo que o conjunto do mercado assegura a pluralidade dos pontos de vista.

Já na INFORMAÇÃO, seja no jornal ou na rádio, os jornalistas cobrem todos os temas relevantes que entendem cobrir, considerando em especial os que decorrem das preocupações do OBSERVADOR, e, em qualquer caso, procurando introduzir novas e enriquecedoras abordagens, perspetivas e questões. Interagem e escrutinam proactivamente todos os actores e poderes existentes, independentemente da sua orientação política, ideológica ou institucional e da função que desempenham; o mesmo sucede nas entrevistas, comentários e programas de debate político. O compromisso é com a verdade factual, o contraditório, o interesse público e os padrões profissionais do jornalismo de qualidade.

2. Visão, estratégia clara e gestão profissional

A visão do OBSERVADOR foi, desde o início, criar um órgão de comunicação social de referência em Portugal, com a diferenciação já referida. A estratégia passou por desenvolver, de forma gradual e integrada, uma plataforma multimédia: primeiro um jornal digital, depois uma rádio, áudio e podcasts, eventos, revistas e, progressivamente, vídeo, explorando sinergias e reforçando a presença junto do público.

Existe uma grande continuidade e consistência na visão e na estratégia do OBSERVADOR, e a gestão do projecto sempre assentou em princípios de profissionalismo, planeamento, controlo financeiro, transparência e envolvimento das equipas, criando uma base sólida para a sustentabilidade.

3. Um modelo de governação claro e responsável

O modelo de governação do OBSERVADOR foi definido pelos fundadores desde o início e separa propriedade, supervisão e gestão. Existe uma Assembleia Geral de acionistas, que elege um Conselho Geral e de Supervisão (onde estão representados os maiores acionistas e que dá parecer obrigatório sobre o orçamento e acompanha a execução da estratégia) e um Conselho de Administração Executivo, composto pelos quatro fundadores.

Este último é responsável pela estratégia, e pela gestão operacional e editorial do OBSERVADOR, designando todos os directores de topo, desde logo o director-geral.. Este modelo exige um elevado grau de responsabilidade e de ética por parte dos fundadores, que actuam como guardiães da independência, do ponto de vista, da visão e dos valores do projecto, da linha editorial prosseguida e da vontade de inovar.

4. Estrutura acionista estável e alinhada no essencial

A estrutura accionista do OBSERVADOR foi desenhada para ser robusta, para se identificar com a independência editorial do projecto e é composta por um accionista maioritário e um conjunto alargado de outros accionistas, num total de 21, 20 dos quais presentes desde o início do projecto (ver ficha técnica). Os accionistas distinguem-se pelo seu alinhamento com os valores do OBSERVADOR, forte sentido de responsabilidade social e compromisso com a verdade e a transparência.

A estabilidade dos accionistas e o seu contributo e apoio resiliente foram essenciais para o arranque e para a consolidação do projecto.

5. Organização, equipa e cultura

O OBSERVADOR nasceu como uma start-up e manteve uma cultura organizacional flexível, colaborativa, motivadora, desburocratizada, pouco hierárquica e sem “quintas”. Todas as áreas — editorial, comercial, tecnológica, financeira e administrativa — são importantes e estão alinhadas em torno dos seus objectivos comuns: construir um jornal e uma rádio de referência em termos de independência e jornalismo de qualidade. Em momentos de intensa actividade informativa, seja numa tragédia, numa crise ou simplesmente num acto político mais relevante, todos se mobilizam rapidamente e de forma voluntária.

O recrutamento da equipa sempre procurou equilibrar a experiência trazida com a atitude e o potencial dos candidatos, muitos deles no seu primeiro emprego, promovendo a formação contínua, a polivalência e dando oportunidades de crescimento. A qualidade demonstrada pela equipa tem sido determinante para a afirmação do OBSERVADOR.

Sustentabilidade económica e resultados

Ficou claro para os fundadores e foi acordado desde o início com os investidores e futuros accionistas que o projecto, para além da sua natureza ética e de responsabilidade social, deveria ambicionar alcançar a sua sustentabilidade económico-financeira. Só assim deixaria de ser necessário recorrer regularmente aos accionistas. Estes, por sua vez, sempre foram exigentes, encontrando eco na disciplina orçamental da gestão, sendo também criteriosos nos contributos de capital que foram prestando. No seu conjunto, os contributos prestados durante doze anos ascendem a cerca de 12,2 milhões de euros, acrescidos de 2,2 milhões em prestações suplementares, permitindo investimentos significativos na aquisição de frequências, e deter uma dívida bancária praticamente nula.

As receitas do OBSERVADOR assentam numa base diversificada e crescente de anunciantes e num crescimento consistente do número de assinantes, que hoje já são mais de 35 mil.

O OBSERVADOR tem registado nos últimos anos um crescimento das receitas perto dos 20% muito acima do mercado que se encontra quase estagnado.

Em Portugal, alcançar a sustentabilidade económico-financeira é um objectivo especialmente difícil para um órgão de comunicação social focado na informação (e de qualidade) e sem as receitas do entretenimento.

Em 2025, o OBSERVADOR alcançou, pela primeira vez, de acordo com as suas contas provisórias, resultados operacionais positivos, algo a destacar num sector estruturalmente tão desafiante.

Evolução dos resultados operacionais do OBSERVADOR desde a sua fundação

(......)

Conclusão

O OBSERVADOR nasceu da sociedade civil, não de interesses políticos ou empresariais, e não promove projectos ocultos. O alcance de resultados operacionais positivos em 2025 constitui um marco raro e muito relevante – e o desafio futuro será manter e reforçar essa sustentabilidade, mantendo e reforçando a qualidade e a relevância do jornalismo praticado.

Num mundo marcado pela proliferação de plataformas digitais, redes sociais e pelo desenvolvimento da inteligência artificial, o OBSERVADOR, que tem vindo a investir nas competências tecnológicas necessárias, acredita que o jornalismo independente, rigoroso, verdadeiro e com curadoria responsável será cada vez mais valorizado. O que essencialmente nos anima é o interesse público e a convicção de que o jornalismo que praticamos é indispensável para termos uma sociedade, e um país, mais informada, mais exigente e mais livre, ambicionando e trabalhando para um futuro melhor.

COMUNICAÇÃO SOCIAL     MEDIA     SOCIEDADE    OBSERVADOR


 

Um estratega eficiente


Trump. Até, também, também aliado nosso.

Venezuela: o pós-Maduro e o interesse português

A reconstrução está em marcha. Infraestruturas, energia, serviços básicos e indústria exigem investimento e capacidade técnica. Portugal deve posicionar as suas empresas na linha da frente.

RUI VILAR Candidato a Vice-Presidente do Sport Lisboa e Benfica na lista B de Martim Mayer; Sócio do Benfica; Deputado à AR na XV Legislatura

OBSERVADOR, 11 fev. 2026, 00:181

 

No dia 3 de janeiro acordamos surpreendidos por uma operação militar cirúrgica em Caracas. Bombardeamentos estratégicos antecederam o anúncio de Donald Trump sobre a captura de Nicolás Maduro, confirmado pouco depois, pela sempre necessária nestes momentos, imagem do ex-presidente a bordo de um helicóptero americano. Nas primeiras horas a população manteve-se em casa, receosa de uma guerra civil. Surgiram algumas pequenas manifestações pró-Maduro, mas tudo permaneceu em suspenso à espera da conferência de imprensa anunciada por Trump para a tarde. Nesse discurso, o Presidente americano classificou a operação como “extraordinária” e anunciou que os Estados-Unidos assumiriam temporariamente o controlo da Venezuela para garantir uma transição “justa, correcta e equilibrada”. Falou ainda da entrada de empresas petrolíferas norte-americanas para reconstruir o sector e deixou claro que um segundo ataque não estava excluído. Sobre Delcy Rodríguez, foi directo: a sua permanência garantiria continuidade institucional e evitaria um vazio de poder, e que, caso esta não seguisse o rumo esperado, pagaria um preço elevado. Trump falou num segundo ataque preparado. Por outro lado, María Corina Machado foi afastada por “falta de apoio interno”. A mensagem era clara, Delcy Rodríguez assumia-se como a testa-de-ferro de Trump na Venezuela. As medidas tomadas nos dias seguintes, desde os acordos petrolíferos, à libertação de presos políticos, como a reabertura da embaixada americana em Caracas, provaram que estava a cumprir rigorosamente o “caderno de encargos” escrito por Washington.

Nos dias seguintes, assistimos a uma profusão de notícias e de análises, onde muitos ficaram com a impressão de que o objectivo principal dos americanos seria simplesmente “roubar” o petróleo venezuelano. Importa sublinhar que a realidade é diferente, os Estados Unidos procuram comprá-lo, através das empresas petrolíferas, e controlar o processo, garantindo que os recursos energéticos do país entram num quadro de gestão e investimento alinhado com os seus interesses estratégicos. No fundo, os americanos vão controlar o dinheiro do petróleo, sendo que as primeiras receitas não vão para Caracas, mas sim para contas nos Estados Unidos. O dinheiro será libertado apenas para os fins aprovados (pagamento de dívida, importação de alimentos/medicamentos e custos operacionais e de segurança da operação). É isso o “vamos ficar com o petróleo” de Trump, que serviu para sinalizar aos mercados que a intervenção era fundamentalmente para ficar com a maior reserva de petróleo do Mundo.

Para o leitor ter uma ideia, nos tempos de Chávez, a Venezuela produzia mais de 3,5 milhões de barris por dia, comprados em grande parte pelos Estados Unidos. Com Maduro, a produção caiu para cerca de 1 milhão de barris, grande parte vendida à China. É aqui que reside o interesse principal da actual manobra americana. O objectivo não é apenas controlar e comprar a produção venezuelana, afastando Pequim, mas também permitir que o país invista na recuperação e modernização do seu sector petrolífero, com vista a voltar aos níveis de produção dos tempos de Chávez e, se possível, superá-los. Os EUA mantêm assim uma base de operações na América do Sul, a “custo zero” para o tesouro americano, afastando rivais – China, Rússia – e ganhando uma moeda de troca para negociar com países como a Turquia e a Índia. Não se trata propriamente de um roubo, mas de controlo através da compra. Esse dinheiro servirá também para melhorar as condições de vida, reconstruir infraestruturas e permitir ao Estado venezuelano começar a pagar dívidas a empresas estrangeiras, muitas delas europeias, muitas delas portuguesas

E Portugal?

A comunidade portuguesa reagiu com a cautela exigida pelo momento. Da parte do Estado, a resposta foi positiva: o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Secretário de Estado das Comunidades asseguraram desde a primeira hora contactos permanentes e acompanhamento da segurança dos milhares de portugueses no país. Exemplo disso é que já existem presos políticos portugueses libertados. Esse trabalho continua a ser feito e merece reconhecimento. Mas a pergunta que se deve seguir é a seguinte: o que pode Portugal fazer mais? A resposta passa por explorar a oportunidade criada por esta nova fase. Até porque existem empresas portuguesas com dívidas avultadas por receber do Estado venezuelano. É essencial interceder junto das autoridades venezuelanas e dos interlocutores americanos para que parte das receitas do petróleo seja canalizada para o pagamento dessas verbas, injectando milhões de euros directamente na economia portuguesa.

Paralelamente, a reconstrução do país já está em marcha. Infraestruturas, energia, serviços básicos e indústria exigirão investimento e capacidade técnica. Portugal deve posicionar as suas empresas para estarem na linha da frente desse processo. Algumas já o estão a fazer, assinando acordos com os governos venezuelano e americano, com aprovação da OFAC, para participarem nesses projectos. A acrescentar, importa lembrar que existem contractos vigentes, mas que se encontram parados, que urgem ser restabelecidos.

Num contexto internacional cada vez mais instável, isto não é apenas uma questão de política externa ou de solidariedade com a comunidade emigrante. É também uma questão de interesse nacional. Saber proteger os nossos, mas também agir com pragmatismo quando surgem oportunidades. A Venezuela entrou numa nova fase. Cabe a Portugal decidir se a observa à distância ou se nela participa de forma activa e estratégica.

VENEZUELA       MUNDO       EMPRESAS       ECONOMIA

COMENTÁRIO:

Ricardo Ferreira: Gosto especialmente da descrição do autor do artigo "sócio do Benfica". Isto realmente tornou-se um café...