De trazer por casa. O heroísmo, como sinónimo de lealdade. Hoje.
Ontem era mais uma demonstração corpo a corpo, ou espada contra espada. Mas a
lealdade perante o poder torna-se mais visível e apreciada, e certamente
carinhosamente retribuída e vivida, como demonstra Trump, hoje. Cá na casa portuguesa
o Amor domina, puro e fresco, segundo o exemplo de Gonzaga, à sua Marília bela, que não resisto a reviver,
graças a uma Internet providencial, impeditiva do nosso erguer da cadeira em
busca do livro próprio para a escrita morosa.
Quem é Natalie Harp? Reacção acesa da Casa Branca a
comentário de senador democrata coloca assessora de Trump sob escrutínio
Comentário de senador
atirou assessora discreta para os holofotes e motivou insultos da Casa Branca
ao democrata e aos jornalistas. Natalie Harp é considerada uma das pessoas
"mais leais" a Trump.
MADALENA MOREIRA: Texto
OBSERVADOR, ,19 ago. 2026, 18:36
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▲Harp
credita Trump por ter salvado a sua vida depois de ter sido diagnosticada com
um cancro nos ossos
“Ele não quer trabalhar.
Ele quer construir o seu salão de baile e viajar com a Natalie no seu palácio
voador presenteado pelo emir do Qatar”. A frase do senador democrata Jon
Ossof, durante um comício da sua campanha de reeleição no passado domingo,
poderia ter passado despercebida na longa lista de críticas e acusações
deixadas pelos candidatos democratas a Donald Trump. Mas a menção a
“Natalie” — um nome pouco conhecido na entourage do Presidente — valeu uma
resposta acesa da Casa Branca.
Natalie é Natalie Harp, de 35 anos, uma
das assistentes executivas do Presidente norte-americano. Apesar
do cargo discreto que ocupa, Harp ter-se-á tornado um dos membros mais
indispensáveis da equipa de Trump. A sua entrada no “mundo MAGA”
fez-se em 2018, quando, depois de ter sido diagnosticada com um cancro nos
ossos, criticou os cuidados de saúde do seu “estado controlado pelos
democratas” — a Califórnia — e promoveu a recandidatura de Trump à Casa Branca
por este representar o “Partido dos Cuidados de Saúde”. Em 2020, Harp tornou-se apresentadora
no canal de direita conservadora One America News Network (OANN) e, em 2022,
chegou à equipa de Trump.
Os primeiros relatos
noticiosos sobre Harp descrevem-na como “uma impressora humana“, cujo trabalho
é apresentar a Trump diariamente recortes de notícias elogiosas e, mais
recentemente, colabora na redação das publicações de Donald Trump na Truth
Social. Harp
insiste em responder apenas perante Trump e também faz a ligação entre
congressistas e dirigentes republicanos e a Casa Branca. O
comentário de Ossof visa directamente o facto de Harp ter sido um dos poucos
membros da administração que seguiu com o Presidente num avião militar depois
da descoberta do alegado plano iraniano para matar Trump durante a sua
deslocação à Turquia no mês passado.
A admiração por Trump — que credita por ter salvado a sua
vida durante o diagnóstico de cancro — traduz-se em cartas que terá
enviado ao Presidente, citadas pelo New York Times. “Eu quero que as coisas
estejam bem entre nós. Eu sei que tenho estado distraída esta semana
(esqueço-me de comer, até de dormir e só durmo umas horas de cada vez)”,
lê-se na carta enviada ainda antes de Trump ter regressado à Casa Branca e que
termina com: “Com todo o meu amor, Natalie“.
Mas todas estas informações
sobre Natalie Harp não inundaram as redes sociais e a comunicação social
imediatamente depois do comentário de Ossof. A primeira reacção surgiu na
página do director
de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung. “John
Jackoff [trocadilho insultuoso com o nome do senador] deve ser o
maior falhado e corno da política. Em vez de denegrir as pessoas
trabalhadoras que servem o seu país, o Jon devia olhar bem para dentro da sua
alma e perguntar-se por que razão é uma pessoa miserável que odeia este país”,
criticou numa publicação.
O escrutínio intensificou-se
depois da reacção da Casa Branca a questões da imprensa sobre o tema. Na
segunda-feira, questionado na Sala Oval pela jornalista da CNN Kristen Holmes sobre as
declarações de Ossocf,
Donald Trump recusou responder, repetindo apenas: “Está calada“. Não
é a primeira vez que Trump ataca uma das jornalistas destacadas na Casa Branca,
mas fontes oficiais da presidência partiram imediatamente ao ataque. “Kristen
Holmes é uma vergonha humilhante para a sua suposta profissão (…) Estes
canalhas são o pior do pior”, “Um dia, os teus filhos vão ver esta pergunta
nojenta e desumana. Eles vão ficar enojados e envergonhados por terem uma mãe
tão insensível e vingativa”, pode ler-se em duas publicações de uma das contas
oficiais da Casa Branca na rede social X.
À imprensa, os porta-vozes
da Casa Branca caracterizaram Harp como “uma das mais leais e trabalhadoras assessoras na
equipa do Presidente Trump”. “Ninguém quer saber do que esse falhado
insignificante tem para dizer”, afirmou o porta-voz Davis Ingle, utilizando a
expressão em inglês “nobody gives a shit“.
A reacção agressiva de
Trump e da sua equipa é justificada por uma fonte próxima da administração ao
The Telegraph com o facto de tanto o Presidente como a primeira-dama não
gostarem de rumores sobre a sua vida privada. Outras fontes ouvidas pela CNN acusam
Ossof de ter utilizado um nome desconhecido dos eleitores para fazer
insinuações sobre o Presidente na entrada para a corrida das intercalares. E
sublinham: Trump e Harp têm uma relação de “pai e filha”, marcada pela lealdade
extrema da assessora ao Presidente.
Eis a história singela dos
amores de Gonzaga, nada a ver com a de Trump, naturalmente, mas que agrada
reviver, graças à nossa estrela igualmente singela:
Tomás
António Gonzaga
LIRA I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília
bela,
Graças à
minha Estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília
bela,
Graças à
minha Estrela!
Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afecto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.
Graças, Marília
bela,
Graças à
minha Estrela!
Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Marília
bela,
Graças à
minha Estrela!
Leve-me a sementeira muito embora
O rio sobre os campos levantado:
Acabe, acabe a peste matadora,
Sem deixar uma rês, o nédio gado.
Já destes bens, Marília, não preciso:
Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;
Para viver feliz, Marília, basta
Que os olhos movas, e me dês um riso.
Graças, Marília
bela,
Graças à
minha Estrela!
Irás a divertir-te na floresta,
Sustentada, Marília, no meu braço;
Ali descansarei a quente sesta,
Dormindo um leve sono em teu regaço:
Enquanto a luta jogam os Pastores,
E emparelhados correm nas campinas,
Toucarei teus cabelos de boninas,
Nos troncos gravarei os teus louvores.
Graças, Marília
bela,
Graças à
minha Estrela!
Depois de nos ferir a mão da morte,
Ou seja neste monte, ou noutra serra,
Nossos corpos terão, terão a sorte
De consumir os dois a mesma terra.
Na campa, rodeada de ciprestes,
Lerão estas palavras os Pastores:
“Quem quiser ser feliz nos seus amores,
Siga os exemplos, que nos deram estes.”
Graças, Marília
bela,
Graças à
minha Estrela!