segunda-feira, 6 de julho de 2026

APOLOGIA

 

APOLOGIA

De Cabo Verde. Acredito bem, pois conheço a Alice F., que desde sempre me encantou, pela sua personalidade e simpatia humana fortes, vinda lá de CV.

 

Saudades de Cabo Verde

E pensar que fui escrevendo tudo isto por causa da equipa de futebol de Cabo Verde e das suas estonteantes exibições! Sou capaz de também me ter deixado levar pelo sentimento.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do OBSERVADOR

OBSERVADOR,06 jul. 2026, 00:25

1Segui como toda a gente a admirável performance dos jogadores cabo-verdianos nos relvados do Mundial. Como toda a gente, rendi-me, suei, gritei, sofri e muito me comovi no jogo contra a Argentina. Mas – e agora talvez já não como toda a gente – vi cada jogo como se estivesse em Cabo Verde ao lado de amigos que lá deixei, das recordações que trouxe, das memórias que guardo. Tao impressivas na sua transparência, tanto tempo depois. Como se o filme dessas idas e vindas estivesse sempre a passar em pano de fundo, no decorrer de cada jogo.

Lembrei- me muito de tudo isso por estes dias.

2De abençoada situação geográfica, a meio do oceano Atlântico, não foi senão a sua natureza avara de dons que lá forjou uma forma de sobrevivência. E lá formou um povo. Lutador, determinado, mas aberto ao mundo na sua doçura musical e modos amenos. Crescido na dificuldade e amadurecido na obstinação foram sempre andando e quase sempre, com acerto e critério. Após meio século independência (ocorrida em Julho de 1975) Cabo Verde pode considerado como exemplar –- e não tenhamos medo das palavras.

Grande povo, magnificas elites.

3Pátria de gente culta e cultivada, gente de visão, dona de raciocínio bem estruturado e discurso ágil, Cabo Verde possui uma classe politica digna de exportação, como se faz com os bons vinhos. Mulheres e homens preparados, desenvoltos, civilizados, sem medo do mundo e das suas novas e impiedosas regras. É certo que o país vigora ainda a ritmo moderado, que há duas velocidades no desenvolvimento, mas basta ouvir a elite cabo-verdiana, conversar com políticos ou académicos ,homens de ciência ou gente das artes, para perceber como há entre eles e a cultura, eles e a civilização, um elo indissociável. De que as mornas são (o melhor?) exemplo. Música feita de tantas mestiçagens – e expressão maior do carácter mestiço que é a própria raiz de Cabo Verde – e que uma Cesária Évora tão bem representou.

4Percebi porém tudo isto, ainda antes da independência – esta forma de ser, o ancestral hábito dos combates desiguais – da natureza, à politica, passando pela pobreza; o português que falavam, a importância da escola, dos livros, da musica, dos poetas e da sua poesia – quando um dia, antes de Abril de 74 ,aterrei na ilha do Sal. Viajava com um pequeno grupo de mergulhadores amadores que passavam os seus dias nos fundos daquele mar turquesa enquanto cá em cima eu deambulava por uma ilha semi-deserta e ia fazendo perguntas. E de cada vez que havia um grande jogo de futebol em Portugal, um derby ou um final de taça, a ilha –todas as ilhas – paravam. A maioria era do Benfica, a mim pareceu-me sempre que eram todos, mas não: havia também do Sporting e da Académica. (Muitos anos depois, na cidade da Praia, capital do arquipélago, o então Ministro da Cultura, num domingo em que o Sporting e o Benfica se digladiavam em Alvalade, não se espantava: “Ah, o vosso futebol sempre aqui visto e apaixonadamente discutido. Mas não é só o futebol, longe disso, seguimos tudo de Portugal, até vimos os debates parlamentares e temos sempre acesa a SIC Notícias”…)

Não sei como será hoje – não vou lá há tempos – mas a vida, Deo gratias, tem destas coisas: agora foi a vez de Portugal inteiro – e o mundo aliás – se ter maravilhado com a perícia, o golpe de asa, o ritmo, a inteligência, dos jogadores cabo-verdianos. Não por acaso alguns deles jogam em óptimos clubes da Europa.

5Nesse tempo em que a bandeira era a portuguesa havia uma pousada – a inesquecível Morabezae toda a minha geração que conheceu Cabo Verde nessa época – e depois – sabe o lugar mágico de que falo. Apesar de uma natureza madrasta, a mesa não se ressentia, pelo contrário: a Morabeza hospedava o constante vaivém dos (exigentes) pilotos da então South Africa Airways e naquela acolhedora morada aberta sobre a ilha, havia quase de tudo mas só… ali.

O que havia porém em todo o lado era alguém a cantarolar e muitas vezes com uma viola, numa esquina, numa árvore, na rua, no infindável e liso areal branco. Cantavam num português de dicção perfeita, honrando a língua e sorrindo muito: a música permitia-lhes rasgões de felicidade em quotidianos menos felizes, numa criatividade que lhes era espontânea, natural, genuína, por vezes fulgurante e uma forma de ser muito sedutora. Logo após a primeira refeição que tivemos na Morabeza os três empregados que atendiam as mesas, tiraram os aventais, um agarrou numa viola e começou a cantar como se conversasse com ela; e os outros dois sentaram-se a jogar xadrez. Tomei boa nota).

6No início da década de setenta do século passado, quando lá cheguei, a ilha do Sal era um encanto… quase desamparado: paisagem marcada pelas secas sucessivas, quase não existia comércio, um mercado pobrezinho, não havia hotéis nem sombra turismo, apenas um ou outro aventureiro, alguns curiosos, tripulações aéreas que lá faziam escalas.

E no entanto… nunca encontrei um só aluno que saísse da escola sem o seu uniforme, do bibe às calças escuras e camisas claras. Segundo me informaram na altura – porque o perguntei – era raríssimo encontrar jovens sem a frequência de todo o ciclo liceal. Como então se dizia, “iam até ao sétimo ano”.

7Antes da independência, Cabo Verde averbava o maior índice de escolaridade das então chamadas “províncias ultramarinas” e, no final do século XX, o Ensino Básico cobria mais de 95% do território.

Quando lá regressei por várias vezes, mas já num arquipélago independente, voltei a encontrar uniformes, em diversas cidades, cada escola escolhendo o seu. Mérito deles, ontem como depois.

Nunca esqueci nada e aprendi muito: não são ricos, não dispõem de recursos naturais, até a água escasseia. Fizeram entretanto do turismo a principal receita mas perante uma Ilha do Sal já muito massificada souberam rever a “matéria” e meter a marcha atrás, lançando projectos turísticos assentes num triângulo que desejam auspicioso: turismo, natureza, cultura. Do que conheço, resultou.

8Até que um dia, sorte minha, a Fundação Gulbenkian na pessoa do então seu Presidente, Rui Vilar, me convidou a reportar a história, ou melhor, parte da espantosa e já longa história da feliz cooperação da Fundação com as Áfricas de expressão portuguesa, elegendo as áreas da saúde e da educação para o meu trabalho. O Presidente da Gulbenkian foi claro: como se me desse uma guia de marcha, disse-me que “fosse, e depois reportasse como costumam fazer os jornalistas”! Subentendido: e não como os técnicos ou os sábios dos relatórios que lhe enchiam as gavetas. Que fosse e contasse. E no final haveria livro com todo o conteúdo recolhido e editado. Após algumas reuniões com os administradores das áreas que me estavam entregues – Isabel Mota na Saúde e Eduardo Marçal Grilo na Educação – e de inúmeros encontros com os departamentos que na Fundação, tinham a seu cargo o acompanhamento dos vários programas em curso em Angola, Moçambique, S. Tomé, Guiné-Bissau e Cabo Verde, voei sobre o Atlântico. O que Rui Vilar acabara de fazer não era um convite de trabalho, era um presente (ainda não sei hoje se ele se apercebeu do valor do presente). Felicíssima, segui para África e… muito intencionalmente comecei por Cabo Verde !

9Seguiram-se semanas de intenso labor, num ritmo acelerado de descobertas, deambulações, conhecimentos novos, leituras, visitas, entrevistas e reportagens – a exigirem muito trabalho de casa – debates e (Deus não dorme) muita música e alguma boémia.

Tudo isto assente em dois pilares fortes como o aço: a então embaixadora de Portugal na cidade das Praia, Graça Andresen Guimarães que com uma agenda “impossível” se desmultiplicava diariamente para oferecer toda colaboração à minha actividade. E que eu via chegar a sua casa e após um preenchido dia de trabalho, trocar a pele de apenas embaixadora pela de embaixadora-dona de casa – e abrir a sua residência. Acolhendo com grande simpatia, políticos, intelectuais, economistas, escritores, numa belíssima amostragem de um tão especial arquipélago. O outro pilar foram naturalmente os próprios e tão evoluídos cabo-verdianos. E a sua qualidade pessoal e intelectual, a cultura, o uso da própria inteligência, sabendo sempre o que diziam e porquê. Do notabilíssimo José Maria Neves, então chefe do Governo (mais tarde seria eleito Presidente da República), aos dois Corsinos, ambos excelentes conversadores e ainda melhores cicerones: Corsino Fortes, o poeta, homem forjado na luta politica e primeiro embaixador do seu país em Lisboa após a independência. E Corsino Tolentino, também embaixador em Lisboa, depois Ministro da Educação, de Cabo Verde, alto funcionário da Unesco e a seguir, da Fundação Gulbenkian. Não é dizer pouco de cada um estes três cidadãos que citei porque o merecem mas com a convicção de que poderia citar muitos mais.

E sendo-me impossível retratar aqui todos lugares onde fui – incluo neste álbum de memórias avulsas, a lembrança em duas linhas de um indiscutível ex-libris entre as 10 ilhas: chama-se Mindelo e é o coração cultural de Cabo Verde. Amável Mindelo , espraiado sobre a baía e semeado de edifícios do século XIX, guardando intacto o perfume dessa época em que foi desenhada e levantada a cidade. E que se deixam ver, vivamente coloridos, por entre deliciosas praças e pracinhas, largos e jardins. Um encanto que tudo envolve e faz dele e do seu pendor cultural um lugar afectuoso onde coabitam ateliers de pintores, moradas de músicos, poetas, escritores, bibliotecas, Feiras do Livro. E plateias, ávidas de tudo isso.

10 O livro que assinei chama-.se “África Dentro”, saiu no final de Setembro de 2010 e seria meses depois, já em 2011, também apresentado no Mindelo em tarde inesquecível, honra minha. Contém lá dentro, como me competia, um substancial lote de informação sobre a extraordinária e muito atenta (e sobretudo generosa) colecção de apoios deixados pela Gulbenkian nas cinco Africas lusófonas. Mas das suas páginas resulta também e à vista desarmada, uma outra coleção, digamos, mas esta de bons sentimentos: gratidão, aplauso, reconhecimento (sempre superlativos,) de cinco povos e dos seus responsáveis à Fundação Gulbenkian: pelas possibilidades de melhor vida que deixou a milhares e milhares de africanos, capacitando-os para abrirem as portas do seu próprio futuro.

11E pensar que fui escrevendo tudo isto por causa da equipa de futebol de Cabo Verde e das suas estonteantes exibições!

Sou capaz de também me ter deixado levar pelo sentimento.

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DUAS FACES

 

Da mesma moeda – a do interesse por si e a do desprezo pelo outro. Ou antes, “Quem cá está, que se amanhe”… uma divisa de um ser que pensa e que pena, sendo que já alguém descreveu a VIDA como um “ai que mal soa” e que “o vento levou”. Mas não julgo ser esse o pensamento lá pela Casa Branca, nem que existam Quixotes em Teerão, todos nós, humanos, mais aparentados com os Sanchos fura-vidas…

 

SANCHO PANÇA NA CASA BRANCA, DOM QUIXOTE EM TEERÃO

Cada acordo com Teerão é uma aposta de alto risco. Aposta-se que o estômago vencerá a ideologia, que a inflação vencerá a escatologia, que os generais preferirão contas bancárias a funerais.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO, Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 03 jul. 2026, 00:24

(As mais lidas

1:China critica cooperação nipo-indiana em minerais críticos

2:Crianças arriscam crime por terem imagens sexuais próprias

3:Molho ranch conquista fãs no Mundial

4: Pulseira electrónica pode afastar Le Pen das presidenciais

5: UE quer propinas mais baixas para estudantes no Reino Unido

6: Selecção Nacional atrai milhares de fãs em Toronto)

A convicção “realista” de que todos os países transaccionam, num mercado comum de interesses, é uma ilusão persistente nas diplomacias ocidentais.

O típico realista imagina que todos querem aquilo que ele quereria no seu lugar, coisas como petróleo, prosperidade, segurança, dinheiro, comércio, reconhecimento, futuro. Infelizmente, a História não funciona só assim.

Nas negociações entre os EUA e o Irão, Washington comporta-se mais ou menos como Sancho Pança. Não o Sancho caricatural, mas o Sancho vital, prudente, telúrico, o homem que intui que moinhos são moinhos, a vida tem peso, o estômago reclama, o burro se cansa, a cevada custa dinheiro e que uma boa refeição vale mais do que dez discursos sobre a glória.  Sancho é o homem do pão, do pragmatismo, da aritmética elementar e da sobrevivência. É a razão prática. Mede, calcula, transige.

O Sancho Pança americano, intui que os iranianos precisam de vender petróleo, precisam de electricidade, têm inflação, jovens inquietos, elites cansadas, generais com contas bancárias e filhos no estrangeiro. Portanto acredita que acabarão por negociar, porque é do seu interesse.

É verdade que há Sanchos Pança em Teerão. É gente que não vê o regime como uma aurora metafísica, mas como uma propriedade a conservar, antes que o telhado caia. Querem poder, sim, mas com ar condicionado, dinheiro, hospitais funcionais e universidades ocidentais para a descendência.

É aí que a actual Casa Branca julga ter encontrado a chave. Se há Sanchos Pança em Teerão, pensa, então a solução é dar-lhes cenouras suficientes para conterem os Quixotes tresloucados da Guarda Revolucionária. Daí a ideia de levantar sanções aqui, desbloquear fundos ali, aceitar uma fórmula vaga sobre Ormuz, admitir ambiguidades nucleares, inventar comissões e assinar memorandos. Washington acredita que pode comprar moderação, embora se arrisque a estar apenas a financiar o intervalo, porque a realidade é que no núcleo duro da República Islâmica não manda Sancho Pança.

Manda D. Quixote. Não o cavaleiro literário que confunde moinhos de vento com gigantes e comove pela pureza da loucura, mas o D. Quixote político-religioso, fanático que prefere incendiar a estalagem a reconhecer que a Dulcineia não existe. Para a Guarda Revolucionária, se navios atravessam Ormuz sem pedir licença, são gigantes a ser atacados. Se Israel existe, é encantamento maligno, a desfazer à bomba. Se os americanos querem negociar, é porque temem a coragem do cavaleiro de triste figura. Se a economia se desfaz, que se desfaça, Alá cuidará dos seus e a fé sempre gostou de sacrifícios.

É por isso que as negociações entre o Sancho Pança americano e o D. Quixote iraniano são, em síntese, um diálogo entre o estômago e o delírio. JD Vance fala de incentivos; os pasdaran falam de destino. Washington fala de garantias; a Guarda Revolucionária fala de martírio. Os americanos discutem estabilidade regional; Teerão responde com milícias, drones, mísseis, e comunicados sobre soberania revolucionária. Sancho Pança fala do preço da cevada. Dom Quixote investe contra o moinho.

O problema é que não cavalga sozinho. É ajudado  pelo cinismo do Czar e do Mandarim, e criou uma cavalaria andante de discípulos com o Hamas, Hezbollah, Houthis e outras milícias. Cada qual tem a sua Dulcineia, os seus gigantes, a sua lança e a mesma indiferença às contas elementares da vida.

Em Gaza, Sancho Pança, perante casas destruídas, crianças mortas, hospitais arruinados e o futuro amputado, perguntaria como reconstruir. O Hamas só pensa em preservar a “resistência”.

No Líbano, país de comerciantes, poetas, cristãos, sunitas, xiitas, drusos, cafés, bancos, universidades e ruínas romanas foi convertido em plataforma de lançamento de mísseis e drones. Sancho Pança fala de moeda, turismo, electricidade e paz. O Hezbollah só se interessa por túneis, foguetes e jihad.

Os Houthis, por seu turno, encontraram no Mar Vermelho os seus moinhos de vento. Um cargueiro, Israel, uma carga de trigo, um contentor de peças automóveis, etc. Sancho Pança  pergunta o que ganha o Iémen com isso e D. Quixote responde que ganha  honra.

O erro americano consiste em confundir interesses com racionalidade. Sancho Pança não compreende certas coisas porque vive apenas no mundo das consequências. Se faltar vinho, Sancho nota. Se o burro cair, Sancho pára. Se a estalagem for má, Sancho queixa-se. Se a guerra destruir a seara, Sancho passa fome. D. Quixote vive no mundo das interpretações. Se cai, foi encantamento. Se perde, foi traição. Se destrói, foi purificação. Se a população sofre, foi preço da dignidade. Se o inimigo responde, foi agressão. Se o acordo falha, foi porque nunca houve intenção verdadeira do outro lado. O fanatismo tem sempre um breviário ao alcance da loucura.

Isto não significa que não se deva negociar. Mas é indispensável saber quem é o interlocutor.

Negociar com Sancho Pança é uma arte comercial que tem a ver com preço, prazos, garantias. Negociar com D. Quixote, se o apanharmos sentado à mesa, exige armadura, pistola na gaveta, correntes nos moinhos, guardas à porta, verificação no terreno, e a firme disposição de usar o varapau quando a cenoura não resulta.

Exige também a humildade de perceber que nem todos os homens querem a sua casinha confortável, farta e airosa. Alguns querem mesmo o moinho em chamas, a lança partida, a canção dos mártires e a glória absurda de terem perdido o mundo real para vencerem numa fantasia.

Trump, como tantos antes dele, talvez acredite que os Sanchos Pança iranianos acabarão por dominar os D. Quixotes. Pode ser, mas parece pouco provável. Nos regimes revolucionários, os moderados administram o edifício mas são os fanáticos que guardam as chaves do armeiro.

Por isso, cada acordo com Teerão é uma aposta de alto risco. Aposta-se que o estômago vencerá a ideologia, que a inflação vencerá a escatologia, que os generais preferirão contas bancárias a funerais. Pode acontecer, mas muitos desastres nasceram da convicção de que o outro lado seria sensato pelas razões que nós consideramos sensatas. Há aqui uma lição antiga que, continua de difícil apreensão para certos estadistas simplórios. Os bárbaros não se acalmam quando farejam fraqueza. Excitam-se. O apaziguamento não lhes inspira gratidão, mas apetite. A concessão não é interpretada como generosidade, mas como confirmação de que a pressão funciona. Daladier e Chamberlain aprenderam isso em 1938, com um bigode austríaco particularmente desagradável

Sancho Pança é indispensável à política, sem dúvida. Sem ele não há pão, prudência, limite, ou paz. Mas quando entra sozinho numa sala cheia de cavaleiros de triste figura, convencidos de que a História os contempla, não lhe basta a sabedoria popular e a intuição pragmática. Tem de levar força, aliados, verificação e lucidez. Porque quando D. Quixote confunde navios, cidades e povos com gigantes, não basta explicar-lhe que são meros moinhos de vento. É preciso garantir que, ao carregar contra eles, parte a lança e quebra o nariz, antes de se escaqueirar a ele e ao mundo.

 

Irão      Médio Oriente      Mundo

 

COMENTÁRIOS:

Ruço Cascais > João Floriano

21 h

A beleza de Cervantes é fazer do louco o amado e do racional o odiado.

Com Zorro e Pancho Villa acontece a mesmíssima coisa. Pancho representa a autoridade do Estado e Zorro o bandido romântico. Por quem torcemos? Pela selecção e por Zorro.

Deixemos os mexicanos e vamos até aos bretões para recordar Robin Hood e o Xerife de Nottingham. Um, o bandido romântico que vive exilado na floresta a assaltar quem por lá passar. No lado oposto a autoridade do Xerife que procura prender Robin para garantir a segurança dos viajantes. De quem gostamos? Do Xerife, da ordem e da autoridade? Não, nem pensar. O nosso ídolo é o bandido assaltante, aventurareiro, hetero e namoradeiro.

Vamos agora ter Cervantes contra Camões, Sancho contra Viriato, Ramos contra Ronaldo, João Félix contra Rafael Leão, Dom Duarte contra Dom Filipe.

COMENTÁRIOS:

Ruço Cascais: Muito bem explicado o posicionamento da Administração Trump e dos Aiatolás à mesa das negociações. Concordo em absoluto. Só não me parece muito bem colar o romântico e aventureiro D. Quixote aos Aiatolás. D. Quixote é uma personagem muito europeia. Lutar contra o vento é uma coisa nossa.

Há outras figuras e coisas na história do Cervantes que podiam ser melhor comparáveis à posição dos Aiatolás e da Administração Trump, designadamente o bburrro do Sancho, curiosamente conhecido como Ruço. Já do lado americano, o moinho assenta às mil maravilhas a Trump; conforme o vento, conforme o andamento. Além disso, as velas podem sempre ser substituídas mantendo sempre a estrutura. Já o bburrro Ruço 😀 é insubstituível.

O bburrro Ruço pode ser insubstituível, mas, isso não implica que não existam outros, designadamente o bburrro Moamed Luís Silva Allah, que não tardará muito para aqui andar para moer o juízo ao Coronel 😅

São sem dúvida os diversos bburrros comentadores, incluindo-me a mim, como é óbvio, que fazem destas crônicas de caríssimo Carmo a leitura viral dia.

João Floriano: Um texto simplesmente soberbo. Tenho de reconhecer que me rendo a uma crónica bem escrita, venha ela de onde vier e esta é particularmente uma beleza de crónica. Em relação à ideia principal, estou totalmente de acordo. Os representantes de Trump sentam-se à mesa com os da Guarda Revolucionária, que aparentemente mandam no Irão, mas com propósitos diferentes, que o coronel José do Carmo tão bem soube apontar. O grande desígnio do Irão actual é ver Israel evaporar-se do mapa. A esse desígnio cósmico tudo sacrificará. Pelo andar da carruagem, daqui a um ano José do Carmo estará a escrever uma crónica semelhante e o Sancho Pança de cabelo de palha alaranjado estará a insistir  nos mesmos argumentos, a fazer concessões, ameaças, enquanto o D. Quixote de turbante e seus outros aliados terroristas vão ganhando tempo à mesa das negociações. Sancho Pança vai sair da Casa Branca e deixará um grande problema por resolver.

Sr Leão: Em matéria de qualidade literária, o Coronel não tem rival no Observador. Muitas das suas crónicas, mesmo que os temas nunca se afastem da esfera política, são peças de arte literária.

JOSE PIRES: "Os bárbaros não se acalmam quando farejam fraqueza. Excitam-se. O apaziguamento não lhes inspira gratidão, mas apetite. A concessão não é interpretada como generosidade, mas como confirmação de que a pressão funciona. Daladier e Chamberlain aprenderam isso em 1938, com um bigode austríaco particularmente desagradável" Que maneira soberba de descrever a realidade. Parabéns uma vez mais Sr. Coronel. Pelas verdades que expõe de forma tão evidente e clara e, pela beleza da sua escrita.

S N: excelente e tão oportuna crónica

ANTÓNIO LAMAS: Ainda por cima temos em Bruxelas uma Dulcineia e um Rucio que aspira a ser Rocinante

JOSE PIRES > AMÉRICO SILVA: Nas crónicas de Cervantes você seria o burro! Aqui, é mesmo!

GRAÇA DIASKLAUS MULLER: ...eu proponho que se levante a imunidade do " traidor " do Directório em Bruxelas. Tem que ser responsabilizado pelas políticas desastrosas contra o país e os portugueses. Esta gente não pode continuar a escudar-se por detrás de uma falácia  -- imunidade política.

GRAÇA DIAS: Senhor Coronel José António do Carmo

Mas que artigo magnífico... fascinante e deliciosas analogias, ao introduzir em tão complexo cenário de múltiplos actores, e sentar na mesa das conversações   dois   personagens   como  o Sancho  Pança   e o  Dom Quixote !... eles simbolizam a dualidade em todo este contexto, em que como afirma: "  a História não funciona assim ".

Nesta  «  Novela  Washington-Teerão »  o  Sancho  Pança  americano,  intui mal, dado os D. Quixotes com ou sem turbante, só querem ganhar tempo, reconstruir capacidades e se preparar para futuros conflitos e ataques terroriiistaaass na região e em terras do Mark Taiwan, sem se ignorar o descongelamento dos milhões de US$$$, necessários à cavalaria andante dos seus discípulos: Hamas, Hezbollah, Houthis e outras milícias. O   Sancho Pança   quantas   mais   cenouras   der   aos    D. Quixotes, elas nunca os irão  saciar. Os D. Quixotes, com ou sem turbante, nunca se irão desarmar, nem tão pouco irão cumprir um qualquer Memorando ou Acordos do Sancho Pança  através da diplomacia.

Somente através da rendição total.

Senhor Coronel JAC Parabéns por tão eloquente prosa. Obrigada.

JOSÉ PAULO CASTRO: Perfeito. Só falta dizer que não é Washington, é o Ocidente. Demasiados Sancho Panças.

E que não é o Irão apenas, é a jihad islâmica e a irmandade muçulmana. O quixotismo surge como semente e não como raíz.

ANTÓNIO CÉZANNE:  BRUTAL!!! Nada mais a acrescentar.

ANTÓNIO REIS: Excelente. muito bom!!

JOÃO BILÉ SERRA: Somente o MELHOR cronista e analista político-militar no Observador e um dos poucos bons em Portugal. MAMA SUME

TOMAZZ MAN: Soberbo

RUI SOARES: Brilhante

PARADIGMAS HÁ MUITOS! > FRANCISCO ALMEIDA: E se estiver você a ser "redutor"? Porque é que a Arábia Saudita se iria antagonizar públicamente com os americanos mesmo que o seu grande objectivo seja agora aliar-se com o Paquistão e a Turquia? Estamos no Médio Oriente!

E mais ainda, não são estes dois países / dirigentes agora BFF do Trump? E acha que eles esperam comprar armas à Rússia e à China? Sendo a Árábia Saudita a pagar a conta é óbvio que vâo querer o melhor que há no mercado e até por isso não querem ser excluidos dos clientes potenciais dos EUA! Mas é claro que precisam de ter cuidado com o que dizem e fazer o seu "lobbying" nos sítios certos.

António Rocha: Superlativo

domingo, 5 de julho de 2026

CONCLUSÃO

 



Dos COMENTÁRIOS ao texto de AG.

Ruço Cascais: A Amália. IA de Portugal está para a evolução da inteligência artificial, assim como o australopiteco está para a evolução do Homem. Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado. Não obstante, havemos de lá chegar... nem que seja às cabeçadas nas paredes, com muito sacrifício e até morridos, mas, havemos de lá chegar, de chegar ao topo da evolução artificial.

Albino Mendes: Quem é que, no seu prefeito juízo, ainda acredita em algo português ou europeu? Infelizmente, chegamos a este estado de falência.

Victor Goncalves > Miguel Siqueira: E o que diz o Nuno Palma na " maldição dos fundos Europeus".

PAULO ALMEIDA: Dinheiro bem gasto para um amigo que fez o contrato

MANUEL MAGALHÃES: O tal “Amália” Pelo menos faz rir o idiota do pagador português, mas para não chorar…

SR LEÃO: Confesso que não percebo patavina de IAs, nem tampouco me interessa perceber.

E o que li sobre IA no texto do Alberto, além de me ter divertido bastante, deixou-me com a certeza de que o mundo precisa cada vez mais de bom senso.

ALEXANDRE BARREIRA: Pois. Caro AG, Gostei do "Fado-da-Amália". E o "Povo-que Lavas-no-Rio". É o "retrato fiel" da....."lavadura-cerebral"

A que estamos......condenados......!

ZÉ PAGADOR: Esta AI, paga pelo estado e PRR, deve a sua existência, das duas uma, ou à estupidez natural ou à corrupção. Desconfio que é um pouco das duas….

ANTÓNIO ROCHA Talvez o nome. Tino de Ras fosse mais adequado

JOAO CADETE Sinceramente não percebi o que defende. A Europa está atrasada e deve confiar cegamente nos EUA? Tem de se começar por algum lado...

CARLOS ALMEIDA

19 h

😂😂

m s

"Cheia de penas me deito e com mais penas me levanto"... Dizia Amália (a fadista) e só tinha a inteligência natural.

Filipe Ramos: Com um nome tão patético, outro resultado não seria de esperar.

ANTÓNIO LAMAS: Então é assim. Se é para dar nome de artista da canção portuguesa, então mudem para Maria Leal, o verdadeiro espelho musical do país. Se é para continuar a aldrabar, a trocar é martelar números e inventar factos, então mudem o nome para António Costa CARLOS FERNANDES: Surreal 😂

JOÃO FLORIANO > E gastam-se sete milhões numa verdadeira 💩💩 como esta!

VITOR BATISTA: E tudo isto é fruto do velho e danoso provincianismo português, Sócrates com o Magalhães e o Luís com a Amália.

Continuem a criticar Trump,os Estados Unidos e Israel.

JOÃO FLORIANO > JOAO CADETE: Ora aí está uma excelente pergunta para colocar à Amália. O pior é se a programação vai apenas até Ao John F. Kennedy. Parece que a Georgina Rodriguez  lidera a lista das WAGs que mais facturam neste Mundial. Aposto que se lhe colocarem um pergunta sobre a voluptuosa mulher do CR7, a maquineta responde que só pode dar informaçãoes sobre a Flora, mulher do Eusébio. Nem à Svedin consegue chegar. Está-se mesmo a ver que o governo português enfiou um barrete XXL.

MARIAPAULA SILVA: hilariante, obrigada pelas boas gargalhadas! :) o pior de tudo é que andam por aí à solta milhares de amalianos inculto-tugas que nos vão garantir a pés juntos que uma coisa qq é verdade porque viram no Amália.

VITOR BATISTA > ZÉ PAGADOR: Estão mais sofisticados, já não precisam de impressoras e motoristas, agora usam uma traquitana excelente para diluir o guito, e muito mais fácil, e chegaremos à conclusão de que a traquitana não irá funcionar como deve ser, porque abusaram das fotocópias, à boa maneira de Sócrates e do João Perna.

JOSÉ PAULO CASTRO: Se os brasileiros sabem desta, as anedotas sobre português aumentam.

FRANCISCO ALVES_ DP: Para quê tanta treta quando já se sabe que isto é uma burla bem montada e oleada por gente que escreve como o caro amigo.

FRANCISCO ALVES: Mais um Cagalhães, versão Montenegro. Mas, como pagam os imigrantes, está tudo bem e sossegado. Viva a Amélia e todas as Amélias, Viva....Um Governo que já dispõe da IA Amália e que não dá conta das provas dos alunos nem da sua correcção está tudo dito. Viva a Amélia...

MÁRIO ROCHA: O Sr. Comentador, fomentador de polémicas virtuais, estava à espera que num país onde todos concorrem pelo orçamento do Estado, do mais pobre ao mais rico, produzisse em pouco tempo uma tecnologia equiparável às produzidas nos Estados Unidos, onde existem rios de dinheiro e uma concorrência feroz pela inovação. Com certeza que não e sabe muito bem que Portugal nunca terá nenhuma capacidade de concorrer em tecnologias tão avançadas, nem a própria União Europeia que está completamente a deriva, sem rumo, obcecada com guerras compradas e na destruição da sua indústria tradicional para salvar o planeta dos zombis e alimentar a economia chinesa das energias fósseis.

KLAUS MULLER: Vou perguntar ao Amália que é que el@ hoje "amandou" para a veia.

Aposto que, neste domínio, o tip@ é um perito e até me vai recomendar vários aditivos conforme o fim que eu pretenda.

DAVID PINHEIRO > JOAO CADETE.:Pois... sete milhões foi apenas para pagar ao datacenter americano a energia eléctrica para treinar o modelo. Temos de criar o fundo soberano para investir mais uns 100 milhões.

David Pinheiro: O Luís tem razão. Claramente que precisamos de um fundo soberano para investir nestas "geringonças".