quarta-feira, 29 de abril de 2026

Tudo tão…


Vergonhoso assim? Desconfianças, a descambar sempre para deficiências morais, alheias ou nossas…  Já não há lugar para valores de nobreza, nestas questões monetárias… ou é pessimismo excessivo?

 

Transparência. Estamos a fazer o mesmo que a UE ou criámos um reality show?

Discurso do Presidente da Assembleia da República no 25 de Abril traçou um retrato de escrutínio excessivo. Mas a legislação diz outra coisa — e alguns especialistas falam em agenda de "retrocesso".

28 abr. 2026, 21:33

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Índice

Legislação nacional além das práticas europeias?

Como é feito o escrutínio na Comissão Europeia.

As dificuldades de operacionalização das instituições.

Uma agenda para o recuo dos mecanismo de controlo da transparência?

 

Afinal, há um escrutínio regular da democracia e dos políticos em Portugal, em nome da transparência, ou, também em nome da transparência, já se foi demasiado longe e esse escrutínio derivou numa espécie de “reality show”, como defendeu José Pedro Aguiar-Branco? O discurso do Presidente da Assembleia da República (PAR) na cerimónia solene do 25 de Abril, no último sábado, criou ondas de choque na política portuguesa, cujas águas já andavam algo agitadas desde a recente proibição da consulta pública dos nomes dos doadores dos partidos.

Aguiar-Branco salientou que, actualmente, os políticos são “culpados até prova em contrário” e que se aceitou “a ideia de que os políticos estão sempre a esconder qualquer coisa”. Num discurso que visaria desmistificar a ideia de uma “casta” política distante do “país real”, o Presidente do Parlamento acabou por considerar que se cedeu a “chavões”, comocombater os conflitos de interesse” ou “acabar com as portas giratórias”. O resultado do trabalho dos últimos anos nesta área da transparência, de acordo com a segunda figura política do país, levou ao encerramento da política em si mesma.

Em Portugal, o exercício individual da actividade política é fundamentalmente regulada pelo Regime do Exercício de Funções por Titulares de Cargos Políticos e Altos Cargos Públicos, aprovado em 2019, secundado ainda pelo Estatuto dos Deputados, no estrito âmbito do Parlamento. A fiscalização a nível institucional recai na Entidade para a Transparência — que resultou das alterações legislativas de 2019, mas só viria a entrar efectivamente em funcionamento em março de 2024 — e, de forma mais secundária, na Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados.

Muito daquilo que se encontra na legislação nacional sobre a transparência, a fiscalização de conflitos de interesses ou impedimentos e o combate às portas giratórias surge em linha com o que se encontra definido a nível comunitário, tanto para o Parlamento Europeu, como para a Comissão Europeia. Por isso, os especialistas ouvidos pelo Observador sobre esta matéria colocam em causa a ideia de excessos em nome da transparência alegada por Aguiar-Branco. E mesmo que se assuma que possam existir aspectos a corrigir em termos de fiscalização ou até aproveitamentos populistas, os especialistas alertam para uma agenda de retrocesso da transparência.

Legislação nacional além das práticas europeias?

“Não bastava declararmos rendimentos. Era preciso declarar publicamente se a mulher ou marido é rico, se o primo é pobre, se o enteado é empresário. Se a casa tem elevador, quantas casas de banho, se tem empréstimo, se o empréstimo é com taxa fixa, se é bonificado. Se o filho anda no colégio, se é o sogro que paga o colégio, se vai ao hospital privado ou ao público e, indo ao hospital, que tipo de pulseira lhe dão. Tornámos, tantas vezes, a vida política num reality show.”

As palavras de Aguiar-Branco no discurso de sábado expressaram supostas obrigações que não são exigidas aos titulares de cargos políticos. Para verificar isso, basta voltar à legislação de 2019, que impôs o novo modelo de apresentação da declaração única de rendimentos, património, interesses, incompatibilidades e impedimentos.

 Aguiar-Branco foi o penúltimo a discursar na cerimónia do 25 de Abril

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Refere o artigo 13.º que os titulares de cargos políticos e altos cargos públicos devem indicar na respetiva declaração (a submeter no prazo de 60 dias a partir do início de funções) o total de rendimentos brutos com indicação da sua fonte, a “descrição dos elementos do seu activo patrimonial, de que sejam titulares ou cotitulares”, a descrição do seu passivo, eventuais promessas de vantagem patrimonial, cargos sociais nos três anos anteriores e filiação em entidades associativas. Em relação a impedimentos e interesses, o documento deve igualmente conter menção a cargos, funções ou actividades em entidades públicas e privadas e sobre eventuais interesses financeiros relevantes que possam gerar pagamentos directos ou indiretos.

Por último, só estão contemplados dois aspectos em que os visados têm de identificar aspectos que possam envolver pais ou filhos:

Nos impedimentos que possam envolver empresas em que os titulares de cargos estejam presentes mediante esses vínculos familiares (e apenas com participação superior a 10% ou cujo valor seja superior a 50.000 euros);

E na identificação em contratos públicos de empresas nas quais os titulares de cargos detenham uma relação familiar por via do ascendente, descendente ou cônjuge.

Ou seja, não há qualquer obrigatoriedade de indicar a escola dos filhos, as condições de um empréstimo bancário ou o hospital usado.

O Presidente da Assembleia da República fala das cedências ao populismo. Imagine-se a janela de oportunidade para levantar suspeições ou teorias de conspiração ou notícias falsas se não tivéssemos acesso de facto às informações deles… ficaria tudo sujeito à suspeição”, afirma a politóloga e investigadora Susana Coroado.

Para a ex-presidente da organização Transparência e Integridade não existe um excesso de transparência e o acesso às declarações dos titulares de cargos políticos é até mais difícil actualmente.Até há pouco tempo Portugal era o país que menos cumpria as recomendações do GRECO [Grupo de Estados contra a Corrupção]. Já aí podemos estabelecer o excesso de transparência ou alinhamento com as boas práticas internacionais”:

"Até há pouco tempo Portugal era o país que menos cumpria as recomendações do GRECO [Grupo de Estados contra a Corrupção]. Já aí podemos estabelecer o excesso de transparência ou alinhamento com as boas práticas internacionais”

Susana Coroado, politóloga e investigadora

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Como é feito o escrutínio na Comissão Europeia

E estarão as disposições nacionais além daquilo que é praticado a nível europeu? Veja-se, por exemplo, o Código de Conduta da Comissão Europeia. “Os membros da Comissão devem declarar quaisquer interesses ou activos, de natureza financeira ou outra, susceptíveis de originar um conflito de interesses no exercício das suas funções ou afetar de qualquer outro modo o exercício dessas funções. Para efeitos do presente artigo, os interesses de um membro da Comissão podem incluir os interesses dos seus cônjuges, parceiros e filhos menores”, lê-se no artigo 3.º.

O mesmo artigo dispõe ainda que a declaração deve indicar os “interesses financeiros, incluindo os activos e passivos que possam dar origem a um conflito de interesses ou, em qualquer caso, que representem investimentos de valor superior a 10.000 euros”, e que essa obrigação se aplica também aos interesses “de cônjuges, parceiros e filhos menores, sempre que possam ser considerados susceptíveis de dar origem a um conflito de interesses”.

João Paulo Batalha, vice-presidente da associação Frente Cívica e especialista em políticas de transparência, vai mais longe nas críticas ao líder do Parlamento. “É um discurso falacioso, para não dizer mentiroso, porque deturpa os mecanismos de controlo. O que é perigoso. Quem ouvia Aguiar-Branco pensaria que Portugal tem regimes de controlo de interesses estratosféricos ou além das boas práticas internacionais, que somos o pináculo da transparência. E não somos. Portugal não tem um problema de excesso de transparência”, enfatiza.

Outro ponto de comparação, desta feita com o Parlamento Europeu. O Código de Conduta dos eurodeputados estabelece que estes têm de submeter “uma declaração de interesses privados ao Presidente até ao fim do primeiro período de sessões subsequente às eleições para o Parlamento Europeu (ou, no decurso da legislatura, no prazo de 30 dias de calendário após a sua entrada em funções)”. Estes interesses devem ser discriminados de “forma pormenorizada e precisa”, agregando todas as informações sobre atividades profissionais exercidas nos três anos anteriores, bem como a participação em empresas, organizações não-governamentais ou associações e hipotéticos apoios financeiros.

 Sessão do Parlamento Europeu

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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 “Existe conflito de interesses quando o exercício do mandato de um deputado ao Parlamento Europeu no interesse público pode ser indevidamente influenciado por motivos relacionados com a sua família, vida afetiva ou interesse económico, ou qualquer outro interesse privado, direto ou indireto”, explicita ainda o documento anexo ao Regimento dos Deputados do Parlamento Europeu.

Perante a comparação de normas nacionais e europeias, o advogado Diogo Santana Lopes considera ser “equilibrado aquilo que se exige” aos titulares de cargos políticos. “Outra questão é a operacionalização, a excessiva burocratização. Isso poderia ser automatizado. A questão do voyeurismo tem a ver com a forma como é tratada essa informação”, sublinha o advogado, que é também membro da divisão anticorrupção da OCDE e especialista em ‘compliance’. “Esta obrigação da declaração de interesses serve muito mais para o cruzamento de informação e não para o voyeurismo”, complementa.

As dificuldades de operacionalização das instituições

Conforme mencionado anteriormente, a Entidade para a Transparência demorou quase quatro anos para sair do papel e entrar em pleno funcionamento com a respetiva plataforma informática, autonomizando-se do que antes era realizado junto do Tribunal Constitucional. Esse atraso terá sido o prenúncio das dificuldades e das dores de crescimento que enfrenta, sem meios suficientes para a fiscalização de tantas declarações. Mas também a transparência das informações e, sobretudo, o seu acesso trouxeram novos desafios.

O regime em geral é alinhado com o que é feito na União Europeia e muita da pressão tem vindo da legislação europeia. Se algum problema tem é que circunscreve as leis à prática regulatória e não age na dimensão institucional”, sustenta João Paulo Batalha. Sem deixar de fora as questões éticas e aludindo até ao caso Spinumviva como “motivação” para o discurso de Aguiar-Branco, o especialista em integridade e políticas anticorrupção realça a necessidade de algumas correções na fiscalização, mas não no sentido preconizado pelo PAR.

“Os próprios políticos estão entregues a si próprios. As instituições de controlo só verificam legalidades, não propõem remédios. E temos um universo grande de elementos e não há recursos suficientes para verificar todas. Devia começar-se por fiscalizar por padrões de risco, porque nunca será possível verificar tudo. Há um problema no desenho das instituições. Os problemas que se levantam nunca se resolvem, porque se discute a ética numa questão de legalidade ou ilegalidade”, acrescenta.

"O regime em geral é alinhado com o que é feito na União Europeia e muita da pressão tem vindo da legislação europeia. Se algum problema tem é que circunscreve as leis à prática regulatória e não age na dimensão institucional"

João Paulo Batalha, vice-presidente da Frente Cívica

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Já Susana Coroado destaca as limitações impostas ao escrutínio com a reserva sobre determinado tipo de informações que antes se encontravam nas declarações dos titulares de cargos políticos. “É muito mais difícil aceder às declarações. Há várias coisas que não se sabem. Por exemplo, não se pode saber em que sociedade de advogados é que o PAR trabalhava, embora essa mesma sociedade não tenha problema em fazer publicidade de que o seu fundador é Presidente do Parlamento. Temos mais transparência na sociedade de advogados de Aguiar-Branco do que na Entidade para a Transparência”, ironiza.

Por outro lado, critica a arquitectura de sanções desenhadas para as falhas, omissões ou incumprimento de obrigação de declaraçãoque são genericamente mais duras do que a nível comunitário —, considerando-as “gravíssimas” por poderem levar à perda de mandato ou até à prisão.Não temos sanções menores para violações menos graves. E como são tão graves, não há coragem para implementar. Se tivéssemos cumprido a lei, se calhar o António Damásio, que se recusou a entregar a declaração no TC, teria ido preso. Queremos isso?”, questiona.

Diogo Santana Lopes subscreve algumas das críticas que têm sido feitas ao actual modelo de fiscalização, ao notar que o Estado já detém muita da informação solicitada aos titulares de cargos políticos na respectiva declaração única. Por isso, defende que “o exagero não decorre da lei”, mas, por vezes, da forma como é aplicada na prática, apelando a uma reflexão.

“É um procedimento pesado em que se tem de compatibilizar a transparência e o escrutínio saudável de potenciais diferenças de património e aquilo que é uma burocratização excessiva. Existe uma necessidade de reflexão sobre o cruzamento dos dados e se deve ser automático ou depender de um pedido da Entidade para a Transparência”, observa. O advogado manifesta ainda a expectativa de que a Entidade para a Transparência “tenha efectivamente meios para fiscalizar em vez de procurar só erros formais”, apontando a um cruzamento da informação sem que desapareça a obrigatoriedade da sua apresentação.

"Existe uma necessidade de reflexão sobre o cruzamento dos dados e se deve ser automático ou depender de um pedido da Entidade para a Transparência"

Diogo Santana Lopes, advogado e especialista em 'compliance'

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Uma agenda para o recuo dos mecanismo de controlo da transparência?

Uma das críticas mais vincadas do discurso de sábado do Presidente da Assembleia da República visou um suposto voyeurismo e a ideia de uma transparência assente em medidas de cariz populista. E essa é, precisamente, uma das maiores críticas que os especialistas ouvidos pelo Observador dirigem a Aguiar-Branco. Embora se reconheça que possam registar-se usos mais sensacionalistas ou voyeuristas das informações declaradas pelos titulares de cargos políticos nos meios de comunicação social, o populismo, sustentam, não está nas declarações impostas aos políticos.

“A instrumentalização populista do tema existe, mas não a partir das obrigações de transparência. Existe porque os problemas são levantados e não são resolvidos. Há duas maneiras de resolver: ou levantamos e resolvemos os problemas, ou deixamos de levantar problemas, como aponta Aguiar-Branco. É aí que o populismo se aproveita de forma oportunista”, refere João Paulo Batalha.

Sobre o populismo nesta matéria, Susana Coroado tem uma visão diversa daquela que Aguiar-Branco apresentou, lançando um apelo a um maior respeito pela consciência crítica dos cidadãos. “Por vezes, há muito este queixume de que os cidadãos estão sempre com suspeição dos políticos, mas dá também a ideia de que o poder político vive com suspeição sobre os cidadãos… O Presidente da Assembleia da República não quer que haja diferenças entre governantes e governados, mas depois trata as pessoas como tontinhas, que caem todas no populismo”, frisa.

Quanto à invocação de dados pessoais como argumento para limitar a divulgação de determinadas informações, Diogo Santana Lopes salienta a importância de compatibilizar as regras do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) e as necessidades de transparência. “Tudo aquilo que seja restringido pelo RGPD terá de ser salvaguardado, mas é verdade que às vezes (o RGPD) serve como fundamento confortável para não disponibilizar determinada informação. Mesmo agora com o financiamento dos partidos, esta interpretação da proteção dos dados vai além da legislação, porque a ideia não era impedir o escrutínio democrático”, resume.

 Hugo Soares e José Pedro Aguiar-Branco

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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As palavras de Aguiar-Branco não são uma completa novidade. Já no passado o Presidente do Parlamento demonstrou uma visão crítica do controlo dos políticos. Porém, parecem também enquadrar-se numa visão mais abrangente sobre esta matéria da transparência, com as recentes críticas do líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, a defender em entrevista ao Expresso a necessidade de reformular a legislação ou o recente parecer na Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) que veio limitar a identificação dos doadores dos partidos.

“Temo que estejamos num caminho de retrocesso da transparência. Acho que já estamos, na prática”, analisa Susana Coroado. A ex-presidente da organização Transparência e Integridade realça que “o PSD está claramente com vontade” de mudar as normas nesta área e deixa um aviso: “Já sabemos menos hoje do que sabíamos em 2019 acerca do património financeiro dos titulares de cargos políticos”.

Para João Paulo Batalha, “há uma agenda por parte do Governo” e que, no seu entender, começa já a ganhar respaldo em certas entidades públicas para “gerar um consenso no recuo da transparência” sobre as obrigações declarativas. “E isso é muito alarmante. Achar que o país aceita este retrocesso só vai servir para aprofundar a desconfiança dos portugueses em relação aos políticos”.

Em sentido distinto, Diogo Santana Lopes reconhece “preocupações genuínas” sobre esta matéria e que apontam uma conjugação de “devassa e burocracia”, considerando serem um prenúncio de alterações legislativos num futuro próximo. “Sou menos céptico ou menos cínico. Não existe necessariamente uma agenda contra a transparência, porque, por exemplo, finalmente se conseguiu avançar na legislação do lóbi, mas existe a ideia de um reequilíbrio do sistema, em que se entende que se foi longe de mais. Não acho que seja uma cruzada mascarada contra a transparência“.

POLÍTICA        JUSTIÇA        TRANSPARÊNCIA        ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA        ESTADO

COMENTÁRIOS:

Nuno Filipe: actualmente, os políticos são “culpados até prova em contrário” ”claro que sim, puseram-se a jeito, Excesso de políticos desde autarcas a deputados e comissoes de coordenação e afins. É e tem sido notório o enriquecimento dos que entram na política enquanto que o “povo” leva migalhas (quando as há). Não sou comuna mas o que é verdade é que eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada. se não fossem para a política para se encherem tinham de trabalhar e muitos dos políticos trabalhar só sabem trabalhar com a boca (e não estou a referir à profissão mais velha do mundo). Viva Portugal 🇵�� (às vezes é NOT)

Paulo Valente: Não existem políticos, inteligentes e honestos. Se for político e honesto, não é inteligente (leia-se astuto) Se for político e inteligente, não é honesto certamente. Se for honesto e inteligente, não se mete na política. E depois de ler o artigo pergunto: e onde metemos o presidente vida república? Seguro é, no mínimo, abastado, e temos seus negócios. Alguém o escrutinou?

Pedro Pinto: Analisar o discurso do PAR à luz da lei é um exercício estéril, porque tenho para mim que não foi esse de todo o propósito do discurso do PAR. O que ouvi no discurso do PAR foi o fito de expor o discurso populista, político e mediático, à volta da transparência. E os efeitos perniciosos que isso cria. De suspeição permanente, de culpado até prova em contrário, de que são todos farinha do mesmo saco. E nesse discurso, não foi o quadro legal que esteve em causa, foi o ruido à volta dele e uma chamada à reflexão de quem contribui para esse ruido.

Concedam lá que Aguiar Branco (que por acaso até é jurista) sabe que não é preciso declarar o hospital onde se vai, mas todos temos memória do recente episódio de saúde do ministro das finanças, em que o importante era saber que tipo de pulseira teve quando entrou nas urgências, para perceber se teve ou não tratamento de favor … haja paciência.

João A: Coitadinho do Aguiar Branco que quer ser político, figura pública, gerir os negócios do país e fazer-se pagar pelos seus serviços. Mas não quer ser escrutinado, não quer dizer quanto ganha, quais os bens que tem, com quem faz negócios, o tipo de vida leva, quem lhe dá regalias, e por aí vai... Não quer ser incomodado, quer privacidade. È preciso ter lata.

jose ferreira: Na vida publica do designado mundo ocidental, o grande problema está no poder judicial e nos midia. Não são regulados, controlados nem fisclizados, não sao minimamente escurtinados, e se avalizarmos com frieza e racionalidade estes dois, judicial e midia bem, são piores que os políticos.

Alcochete4@ > Portugal ParaSempre: Sinceramente, considero que nos últimos 3 anos o nível de assertividade e credibilidade da Política subiu consideravelmente em Portugal. O Governo actual com o PSD/CDS demonstra mais determinação, efectividade, resiliência e bom senso do que o anterior governo do PS e GERINGONÇA.  Nem vale a pena comparar os desafios do actual Governo e Primeiro Ministro Montenegro com os problemas que António Costa enfrentou. 

 

Espanto

 

Tal liberdade crítica, relativamente a uma esquerda prestigiada desde os píncaros “abrilinos” do anti-fascismo por cá …

A esquerda e a Santinha da Ladeira

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha.

NUNO GONÇALO POÇAS,  Advogado e Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 abr. 2026, 00:23

Há um padrão na história da esquerda ocidental, e na portuguesa, em particular, que temo não possuir já qualquer remédio. É verdade que errar é humano, mas não se trata aqui de um acaso, nem sequer de uma sucessão de equívocos: é um padrão estrutural que reflecte uma certa incapacidade para distinguir o sonho da realidade, e, simultaneamente, para ver em tudo o que lhes parece pouco colaborante a maior ameaça que paira sobre o mundo, talvez mesmo antes da bomba nuclear. A esquerda nunca teve grande pejo em rotular, o que, de resto, constitui prova bastante de como a esquerda é a mais humana das correntes políticas. Se lhe agrada o personagem, o rótulo nunca é comedido; se não lhe agrada, fascista” será quanto baste. É como um carro cujo pisca-pisca só opta pela esquerda ou pela extrema-direita.

Vejamos: Reagan? Fascista. Thatcher? Fascista. Bush pai? Fascista. Bush filho? Fascista. Aznar? Fascista. Chirac? Fascista. Sarkozy? Fascista. Freitas do Amaral? Fascista. Passos Coelho? O maior fascista de todos, segundo o tempo presente. Cavaco Silva? Fascista. Portas? Fascista. De Gaulle? Fascista. Churchill? Fascista. Sá Carneiro? Fascista. Merkel? Fascista – ou nazi, que os alemães nestas coisas acumulam. Vargas Llosa? Fascista. Qualquer Primeiro-ministro israelita? Fascista. Mário Soares? Fascista amiúde. Os Papas? Tudo fascista até Francisco. Corina Machado? Fascista. Henrique Capriles? Fascista. Balsemão? Fascista. Mota Pinto? Fascista. O Observador? Alfobre de fascistas.

Ao mesmo tempo, a esquerda nunca deixou de se encantar. Com Che Guevara, com Pol Pot, com Mao, com Enver Hoxha, com Estaline, com Lenine, com Trotsky, com Fidel Castro, com Hugo Chávez, com Nicolás Maduro, com Ho Chi Minh, com Mugabe, com Ceausescu, com Ortega, com Lula. Não deixa, mesmo hoje, de se embebedar de amores pelo islamismo radical ao mesmo tempo que bate com a mão no peito pelo feminismo ou pelos direitos LGBT, sem que passe pela testa do esquerdista menos empedernido uma pinga de vergonha. Caramba, a esquerda portuguesa até por José Sócrates quase inexplicavelmente se apaixonou.

Não serão casos idênticos, nem foram todos estes, e outros, amados pelas mesmas razões, nem pelas mesmas pessoas em concreto. Não se trata de uma questão de figuras, mas de uma complacência colectiva persistente com o desastre, mesmo quando ele é pré-anunciado. Não houve, por exemplo, movimento terrorista que, sendo de esquerda ou representasse, de alguma forma, um género de luta anti-ocidental ou anti-burguês, não tivesse beneficiado do amor das encantadoras elites de esquerda. A lógica é, na verdade, sempre a mesma: uma certa justificação superior que os vulgares, eventualmente fascistas, não compreendem; existe sempre por ali uma causa maior que redime o meio, uma narrativa que suspende o julgamento.

Ora, o novo amor-perfeito da esquerda intelectual portuguesa, depois de fracassada a rota da em-pa-tia de Pedro Nuno Santos, chama-se Pedro Sánchez, a versão contemporânea do poder como fim em si mesmo, legitimado por um discurso moralmente superior. É ele quem «aponta o caminho da Europa», é ele o «herói», enfim, chega mesmo a ser uma espécie de Churchill recauchutado.

Sucede que, como já várias vozes mais avisadas e conhecedoras do que a minha (vide, Diogo Noivo, nas páginas do Diário de Notícias, ou Gonçalo Dorotea Cevada, aqui no Observador) explicaram vezes sem conta, o que se passa em Espanha não é apenas um debate ideológico, mas um problema de degradação política concreta.

O chamado “caso Koldo”, envolvendo o ex-ministro José Luis Ábalos, braço-direito de Sánchez, expôs uma alegada rede de comissões ilegais em contratos públicos, pagamentos em dinheiro, adjudicações viciadas, estruturas paralelas dentro do próprio partido, e mesmo recurso a prostitutas no contexto de redes de corrupção caucionadas pelo sanchismo. São conhecidas todas as histórias do “grupo do Peugeot” (que, afinal, era um Mercedes) ou da família directa de Sánchez, como são conhecidos os recursos a meios do Estado e do poder judicial para fazer vingar uma política simples: destruir as oposições e perpetuar no poder um homem e o seu bando de apaniguados. Sánchez não hesitou mesmo em afrontar o legado histórico do PSOE, e não apenas por uma vez, colocando em risco a unidade do Estado espanhol, a sua soberania, a independência do seu poder judicial. Ao mesmo tempo, o discurso oficial continua a invocar a sua superioridade moral, o seu feminismo militante, a sua regeneração democrática, enquanto entrega Espanha aos tentáculos chineses e coloca o país que nos é mais próximo em rota de colisão com o mundo ocidental. A contradição é perfeita: uma esquerda que se julga moralmente superior, mas que fomenta e/ou tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e nas instituições; uma esquerda que se apresenta como defensora das mulheres, enquanto casos internos expõem comportamentos incompatíveis com os direitos das mulheres; uma esquerda que denuncia supostos vícios dos outros, mas que convive perfeitamente com o seu lodo; e que sobrevive, no fim de contas, acenando com o perigo do fascismo que faz frente à sua pureza.

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha, se quisermos ser mais prosaicos. Ou o seu amor maior por heróis, que prefere às ideias, como as crianças. Sánchez será um dia, como a Santa da Ladeira, repudiado. Até lá, não nos resta outro remédio que não este de aturar o seu nome elevado aos céus do esquerdismo europeu, fenómeno naturalmente suportado por gente que, não se julgando de esquerda, sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e onde se erra sem consequências.

EXTREMA ESQUERDA       POLÍTICA       FRAUDE        CRIME        SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 31)

Ricardo Ribeiro : Bom dia,  No seu excelente texto, falta só escrever sobre o papel da grande maioria da CS que, salvo honrosas excepções, está completamente alinhada com esse modus operandi esquerdoido. Portanto quando o conhecido 4°poder se alinha com a propaganda esquerdista, implica o desdobramento de " forças" do " outro lado" e não uma candura e reverência que se vê em certa direitaInfelizmente, os tempos não estão alinhados para os "moderados"...

Paulo Silva: Caro colunista Nuno Gonçalo Poças, a esquerda(lha) é a filha primogénita da Revolução. Nasceu no fervor da luta revolucionária e como tal não foi feita para o jogo democrático: não debate ideias, proclama-as (dogmas). E quem não alinhar é visto como um inimigo a eliminar, levando com anátemas em cima para começar. O ‘capitalismo’ é basicamente uma teoria da exploração para anatemizar a classe burguesa ou as classes possidentes, e o ‘antifascismo’ uma criação dos bolcheviques quando viram a revolução socialista mundial abortar, e a concorrência tomar o poder em diversos países europeus. Os primeiros foram a Itália do ex-socialista Mussolini pouco tempo após o ‘Biennio Rosso’, e a Hungria do Almirante Horthy depois do falhanço da República Soviética Húngara de Béla Kun… Vários outros estados se seguiriam. Mas a partir daí quem não alinhasse com a política dos camaradas era capciosamente rotulado de fascista pelo Komintern, tal como o autor do artigo profusamente demonstrou com exemplos mais recentes. Ao mesmo tempo a esquerda empodera todos aqueles que possam constituir a sua soldadesca de assalto ao poder… Sánchez é uma desses personagens promovidas a herói do momento para segurar o estandarte do progressismo ingénuo à frente de um exército de ‘idiotas úteis’… Mas a admiração da esquerda por ele não vem de agora com a recente actuação no palco da política internacional. O PSOE, tal como o PS, radicalizou-se e aliou-se à extrema-esquerda do ‘Podemos’ e similares com Pedro Sánchez ao leme, (todavia mais próximo dos ‘jovens turcos’ da JS que de Costa). Os casos que minam o PSOE são apenas um sintoma da mistura de corrupção com radicalismo, tal qual no PS de Sócrates e Costa. Uma esquerda que lavou o sangue dos crimes vermelhos que tinha nas mãos, surge agora de cara lavada como 'direito-humanista'… com a maior cara de pau. Mas a velha ‘superioridade moral’ com que em tempos justificou os gulags e os assassinatos políticos não desapareceu. Usa-a agora para cancelar todos aqueles que não aceitam o seu novo decálogo de pecados capitais. Quando os cancelamentos não funcionam, regressam os cocktails molotov e as balas… Só faltam os campos de re-educação e as Lubiankas. nota: acerca de intelectualidade e esquerda vide “Porque se Enganam os Intelectuais : É sempre mais fácil detectar os erros do passado do que a cegueira colectiva do presente”, Samuel Fitoussi.

Filipe Afonso: Faz lembrar aquelas seitas onde o líder é o único que sabe bem o que está a fazer e faça o que fizer, lá terá os seus seguidores e adoradores. É um case study.

Mafra FM: Curioso como o autor descreve habilmente as muitas maleitas mentais da esquerda, depois de nas presidenciais ter votado num perfeito representante desta esquerda, 'progressista', como Seguro se descreve a si próprio. Assim, tenho de concordar que o mal do intelectual português 'nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais, foi a falta de vergonha.' Até porque, como agora aprendi, 'há gente que, não se julgando de esquerda, sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e se erra sem consequências.' Obrigado pelo esclarecimento.

João Bilé Serra: Top de análise psicológica da esquerdopatia. Parabéns

Victor Goncalves: E o que faz o actual governo PS2 para sanear a cultura, a CS e a Academia deste cancro que corrompe a nossa juventude, com os programas de escolares totalmente virados à esquerda? Nada, porque são farinha do mesmo saco ! Passar nas escolas os documentários sobre o Gulag, sobre o genocídio do PolPot, no Camboja, os efeitos da " marcha em frente" e da Revolução Cultural , na China iria colocar os nossos jovens a pensar. .....em vez disso temos doutrinação constante.

Paradigmas Há Muitos! Pois. Há os ditos "idiotas úteis" que às vezes não são tão idiotas como podem parecer porque se aproveitam do seu esquerdismo de fachada nem que seja para "c o m e r   umas  g a j a s" (ver as alegadas acusações recentes ao Thiago Ávila da flopilha, mas que sendo ele um perfeito Don Juan são obviamente manobras sionistas ...).

E há os que "utilizam a idiotice" dos outros para cumprir o lema do "the issue is never the issue, the issue is always revolution". Como disse Saul Alinsky no "Rules for radicals" o que interessa em qualquer "luta" é o objectivo do "poder", tudo o resto é folclore.

Sobre os "artistas ou intelectuais progressistas" numa procura rápida no X enconrei isto de Waswo X. Waswo que é elucidativo"Se já leu "Regras para Radicais", de Saul Alinsky, entenderá muito melhor o clima político ocidental actual. Num mês é "Me Too", no seguinte "Black Lives Matter", depois "Nenhum ser humano é ilegal", depois "Palestina Livre" e agora, "ICE Out". Nenhuma dessas questões realmente importa para os organizadores, apenas o Poder. Muitos artistas seguem essas tendências com uma obediência moralista. Isso garante-lhes participação em exposições organizadas por curadores ideológicos. Mas qual é a posição do artista após a revolução? Censurado, controlado, descartado".

Já agora, sobre o Sanchez temos o pequeno grande caso da última Vuelta em 2025, uma das três grandes competições ciclistas mundiais que será seguida diariamente por milhões de espectadores. Era tempo de guerra em Gaza e participava uma equipa Israel Tech que procurava publicitar a criação de empresas de alta tecnologia em Israel. Mas o proprietário era um empresário judeu canadiano e dos ciclistas penso que só um era israelita.

Ora a "esquerda" (com as brigadas de choque dos autonomistas bascos e depois galegos) aliada a islamistas mais ou menos organizados, a pretexto da participação dessa equipa foram usando as transmissões de TV para as encherem de imagens de bandeiras da Palestina pondo até pessoas a correr com eles  ao lado de ciclistas que iam destacados para garantir efeito em primeiro plano, quer dizer tentaram transformar à força uma prova ciclista num "hapenning" político. 

E o "boicote" foi crescendo de tom, numas etapas houve cortes de estrada obrigando a interrupção momentânea da prova, noutra uns "activistas" emboscados saltaram com bandeiras para a estrada fazendo cair 2 ciclistas (que nem eram dessa equipa), numa prova de contra relógio os "activistas" tentavam impedir a passagem dos ciclistas dessa equipa. Isso tudo põe óbviamente em risco a integridade física e até a vida de atletas profissionais, para além de interferir num espectáculo perfeitamente autorizado. Mas esses casos a polícia foi resolvendo até que para a tradicional etapa final que seria a  "apoteose" em Madrid  cerca de 40 000 "activistas" invadiram as ruas das cidade, destruiram as barreiras de protecção, importunaram a Polícia e assim impediram a corrida de se realizar tendo esta sido terminada ao chegar aos subúrbios.

E isto contra a vontade de milhares de adeptos de ciclismo que quereriam ver tranquilamente a prova ao vivo e perante milhões em casa furiosos porque não podiam ver o espectáculo que queriam ver numa tarde de domingo, a ficarem ainda mais fartos de propaganda islamo-esquerdista forçada e a constatarem que em Espanha reina a anarquia quando interessa ao poder. E obviamente causando grandes prejuízos económicos pois uma prova destas envolve grandes orçamentos publicitários que não gostam de ser associados a "bagunças" e grandes investimentos, particularmente neste caso da autarquia (a região e município são do PP e por isso eram absolutamente a favor da normalidade da prova mas não podiam fazer nada).

O que fez Sanchez e ministros perante isso? Foram também subindo de tom no apoio ao boicote, já não sei os termos exactos mas se no início mostravam compreensão mas aconselhavam respeito pelas regras para o fim, num comicio do PSOE, Sanchez disse o seguinte " E queremos expressar o nosso absoluto reconhecimento e respeito pelos atletas, mas também a nossa admiração pelo povo espanhol que se mobiliza por causas justas, como a causa palestina.... “Sinto orgulho de um país que, apesar da sua diversidade, se une por uma causa justa como os direitos humanos. Viva o povo espanhol!”. Quer dizer, Sanchez não pisou o risco mas sob a capa "humanitária" deu vivas ao efectivo triunfo da anarquia e violência no seu país.

Neste artigo "Did Pedro Sánchez incite pro-Palestine protesters to stop La Vuelta cycling race?" do euronews pode ver-se os argumentos de Sanchez e da esquerda e os da oposição e o jornalista aparece "obviamente" a tomar o lado de Sanchez, ele aí também foi um "santo"!

E a tal equipa a meio da prova até mudou de equipamento para deixar de fazer alusão à bandeira de Israel mas como é evidente isso não serviu de nada, "the issue is never the issue".

O que ganharam Sanchez e os "activistas" com este boicote? Israel mudou uma virgula nos planos que tinha para Gaza ou uma bala nas que ia lá disparar? Os Gazanos beneficiaram o quê com isso? Acho que só os prejudicou, o que se viu em Espanha não foi nada de construtivo.

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Estratégias


Dos que ajudam a Terra  a girar, segundo os seus apetites.

Trump pestanejou, ou apenas adiou o ataque?

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 27 abr. 2026, 00:23

Quando toda a gente esperava bombas, Trump resolveu oferecer tempo. Em vez do fogo, avançou com o prolongamento do cessar-fogo até Teerão apresentar uma proposta e até as conversas chegarem a alguma coisa palpável que tenha frases e parágrafos. Não levantou o bloqueio, não retirou a ameaça, não desmobilizou os instrumentos de coacção. Limitou-se, para já, a trocar a moca pelo garrote. É talvez uma maneira mais polida de apertar o pescoço, mas pouco mais do que isso.

A República Islâmica declarou vitória, enfim o que qualquer tirania com pergaminhos e pretensões faz nestas ocasiõesAraghchi repetiu que o Irão não negocia sob ameaça, e outro responsável explicou que Teerão não aceita conversações conduzidas como rendição. Tudo previsível. Regimes destes vivem da fabricação contínua de aparências. Precisam de converter cada paragem alheia num triunfo próprio, nem que para isso tenham de se contorcer com a elasticidade facial que as ditaduras desenvolvem quando a realidade lhes é hostil.

Mas a propaganda é apenas a maquilhagem que a realidade usa quando tem vergonha de si. E a leitura estratégica séria raramente coincide com o teatro para consumo interno.

É muito provável que os EUA estejam simplesmente a tentar extrair concessões sem pagar o custo político, económico e militar de uma nova escalada. Se mantêm o bloqueio, conservam os meios militares prontos e avisam que a campanha pode recomeçar em breve, não estão propriamente a recuar. Estão a jogar poker para testar e engodar, vício antigo das superpotências.

É precisamente por isso que o regime, enquanto posa para a fotografia da resistência indómita, se apressa a denunciar a pressão e a insinuar armadilhas. Um conselheiro de Ghalibaf falou mesmo num possível ardil para preparar um ataque de surpresa.

Quem se sente seguro não vê ciladas em toda a parte. Quem fareja ciladas é, em regra, quem sabe que a sua posição é desconfortável.  A desafiadora exuberância verbal de Teerão não traduz portanto confiança, mas sim ansiedade.

Todavia, uma decisão racional em Washington, pode ser lida em Teerão de forma muito diferente. A pausa pode ser prudente vista do Potomac, mas também pode, aos olhos iranianos, parecer excessiva sensibilidade à dor económica. E esse é talvez o calcanhar de Aquiles da Administração Trump, o nervo mais vulnerável que a guerra expôs. O estrangulamento de Ormuz, o caos marítimo, a turbulência energética, a pressão sobre o crude, os alarmes nos mercados, compuseram a velha música que os políticos americanos mais temem ouvir quando se aproximam eleições.

No próprio dia em que Trump prolongou o cessar-fogo, forças iranianas voltaram a disparar sobre navios no Estreito e apreenderam embarcações. Teerão fez pois o favor de esclarecer o que pretende. Não apenas sobreviver, mas mostrar que continua a possuir a chave da perturbação.

Aqui a questão é mais séria. O Irão, acredite ou não que a América perdeu a vontade de combater, pode pensar, e com alguma razão, que os EUA receiam o preço de combater demasiado tempo. A diferença é subtil, mas decisiva. Uma coisa é duvidar da força do adversário; outra é confiar na sua fadiga.

Regimes como o iraniano, habituados à longa arte da chantagem, têm um faro apuradíssimo para hesitações. Farejam-nas à distância. Identificam-nas, cultivam-nas, exploram-nas. Se a Guarda Revolucionária concluir que Trump quer, acima de tudo, evitar novo choque nos combustíveis, nova pressão inflacionista,  novo desgaste interno, a tentação será endurecer posições, arrastar negociações, comprar tempo, vender fumo, e trocar a demora pela sobrevivência, porque o tempo político não corre a favor da Casa Branca. Se isso acontecer, a pausa deixa de ser um instrumento de pressão para passar a ser oxigénio administrado gratuitamente ao paciente. Uma pausa com contrapartidas visíveis pode ser inteligência estratégica. Sem resultados é apenas hesitação onerosa. E esta é, na política americana, material altamente tóxico. Corrói presidências, desmoraliza aliados, excita inimigos e produz a fatal impressão de que a força existe mas a vontade vacila.

Trump move-se, assim, entre uma vantagem táctica imediata e um risco político monumental. A vantagem é que evita, para já, uma nova vaga de bombardeamentos, preserva margem diplomática e mantém formalmente a iniciativa. O risco é parecer refém das circunstâncias. A sua actuação recente ajudou pouco a dissipar a dúvida. Primeiro anunciou que não queria prolongar o cessar-fogo; depois prolongou-o até à apresentação de uma proposta iraniana e à conclusão das conversas. Os fãs chamarão genial a esta imprevisibilidade. Os menos impressionáveis chamar-lhe-ão improviso e errância táctica.

Daí também que, entre os falcões e vários militares, cresça o argumento de que a diplomacia já rendeu o que podia render, isto é, pouco ou nada. Não faltam vozes a defender que Washington deve abandonar a fantasia de mais uma ronda de conversa civilizada com um regime que aproveita cada trégua para respirar, recompor-se e retomar a chantagem em melhores condições. A tese, reduzida ao essencial, é que a liderança iraniana está muito danificada, a cadeia de comando apresenta fracturas, a economia está debilitada, a sociedade vive sob grande tensão, logo este não é o momento de afrouxar a pressão, mas de a agravar até o regime ceder.

Do ponto de vista militar, o raciocínio é límpido. Se o adversário vacila, a pior opção é oferecer-lhe tempo para se recompor. A guerra tem uma lógica própria, que raramente recomenda pausas piedosas quando o outro lado cambaleia. Convém não sobrestimar o regime iraniano em nome da prudência. O país está com fragilidades militares, económicas e sociais severas. A guerra agrava uma situação já deteriorada, empurrando mais gente para a pobreza, aprofundando o desemprego e aproximando uma crise de sustentação. Antes desta fase já havia protestos nacionais contra a degradação económica e social, e a resposta do regime foi a resposta típica das tiranias que se agarram à vida: repressão brutal, mortos, prisões, silêncio imposto a tiro. Neste momento o regime está armado, mas não está tranquilo. Está de pé, mas menos firme do que estava. E é por isso que cada trégua lhe sabe a remédio.

A experiência americana está repleta de campanhas em que a política quis administrar a guerra em prestações, como quem compra um electrodoméstico caro, e acabou apenas por prolongar o custo sem resolver o problema. Guerras de para, arranca e recomeça, preferidas pelas democracias fatigadas, que desejam colher os benefícios da força sem pagar o preço da decisão, tendem a deixar mais ruína do que clareza.

Penso que, militarmente, o Irão fará mal em confundir pausa com impotência americana. Politicamente, Trump fará pior, se prolongar indefinidamente uma suspensão que não produza nada de tangível. Se arrancar concessões concretas, venderá esta manobra como disciplina, contenção e força. Se não conseguir nada, ficará com o pior dos mundos: uma guerra sem decisão e uma diplomacia sem frutos. E se isso acontecer, a propaganda iraniana deixará de ser mera encenação para começar a assemelhar-se a uma descrição plausível dos factos.

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no. Os eleitores americanos também. Resta saber se Trump, no meio das suas coreografias de força e hesitação, ainda percebe a diferença entre suspender o golpe e perder a mão. Irão 

MÉDIO ORIENTE        MUNDO

 

COMENTÁRIOS (de 63)

José B Dias: O aqui cronista sente a falta do "smell of napalm in the morning" ... questiono-me se também ouve Wagner enquanto escreve 🤔

Nuno Pinho > Américo Silva: Eu ajudo:
Irão
Execuções extrajudiciais de manifestantes (especialmente após os protestos de 2019 e 2022)
– Tortura sistemática de detidos políticos
– Violência sexual contra manifestantes sob custódia estatal
– Detenções arbitrárias generalizadas
– Julgamentos sem garantias mínimas de defesa
– Repressão institucionalizada contra mulheres (polícia da moralidade)
– Perseguição sistemática de minorias religiosas (Bahá’ís, cristãos convertidos, sunitas)
Qualificados por missão independente do Conselho de Direitos Humanos da ONU como possíveis crimes contra a humanidade.
Rússia
– Ataques deliberados ou indiscriminados contra civis na Ucrânia
– Bombardeamento de infraestruturas civis (energia, hospitais, habitação)
– Execuções sumárias em territórios ocupados
– Deportação forçada de crianças ucranianas
– Tortura em centros de detenção em territórios ocupados
– Uso de violência sexual como instrumento de guerra
O Tribunal Penal Internacional emitiu mandado de detenção contra Vladimir Putin pela deportação ilegal de crianças
Além disso:
– Destruição massiva de áreas civis na Chechénia (Grozny)
– Ataques contra hospitais e infraestruturas civis na Síria em apoio ao regime de Assad
Documentados por missões da ONU e organizações internacionais independentes
Coreia do Norte
– Existência de campos de prisioneiros políticos com trabalho forçado
– Execuções públicas sistemáticas
– Tortura institucionalizada
– Desaparecimentos forçados
– Perseguição religiosa total
– Escravização laboral em campos penais
– Controlo absoluto da circulação interna e externa da população
A Comissão de Inquérito da ONU concluiu que estes actos constituem crimes contra a humanidade em curso

Nuno Pinho > Américo Silva

Acrescento:
- Degolação e decapitação de civis a 7 de outubro.

Sr Leão: Além do conhecimento extenso da situação que informa a comunicação, o Coronel exprime-se de uma forma literariamente brilhante.

A informação e o prazer da leitura são as duas grandes vertentes que fazem a qualidade e o sucesso de um jornal.

Maria Tubucci: Calma Sr. Coronel, tem de dar tempo ao tempo. Segundo  consta, no Irão está instaurada uma luta de poder entre 3 ou 4 facções, o D Trump está a dar-lhes tempo para se poderem aniquilar umas às outras e uma tomar o poder, para assim ter com quem negociar mais seriamente. À facção mais sanguinária o IRGC, está a deixá-los pousar para depois levarem chumbo. Uma pausa também faz bem, por exemplo, para deixar os líderes europeus com os nervos em franja, é uma pausa estratégica, pois o D Trump tem muito mais informação que qualquer um de nós ... 

miguel cardoso: Dou-lhe os parabéns, Senhor Coronel! Alguém que diga o óbvio!

Nuno Pinho > José B Dias: Anda distraído….sempre atarefado a analisar os USA/Israel e Europa….menos presente  no que toca aos podres dos estados “irmãos” unidos como “nunca”.

João Diogo: Excelente crónica, como sempre , assertivo , lúcido e bem escrita.

João Amorim: Análise perfeita.

Jose Carmo > José B Dias: O autor sente só a falta de pãezinhos quentes pela manhã e ouve o que calhar enquanto escreve, desde a betoneira das obras ali ao lado, até ao piar das gaivotas, passando por música de todos os géneros, excluindo a Internacional e o Avante Camarada Avante.

Ana DESVIGNES > José B Dias: Que comentário mais disparatado, Sr. Dias. Se quer evocar o "Apocalypse now" arranje outro pretexto. Mas para já releia o texto do cronista e deixe-se de tretas !

Jose Carmo > Américo Silva: Um crime de guerra é uma violação grave do Direito Internacional Humanitário, cometida no contexto de um conflito armado, internacional ou interno, por pessoas que participam directa ou indirectamente nesse conflito.

Jose Carmo > José B Dias: 60% de enriquecimento não é para fins civis. É para estar a algumas semanas de uma bomba nuclear 

Kindu: O Irão pode ganhar tempo, mas também lhe vai sair caro. Há aqui um factor pouco conhecido. Impossibilitado de exportar e não havendo mais capacidade de armazenamento, será preciso fechar poços de petróleo. Acontece que um poço fechado perde-se para produção, por muito tempo ou para sempre. Este factor está com certeza a ser tido em conta nas tácticas adoptadas pelos dois lados.

David Pinheiro > José B Dias: Mais um que acredita nas "fiscalizações" da AEA

adriano ribeiro: Brilhante análise. O melhor cronista sobre este tema. Espero que Trump tenha alguém que lhe diga isto.  Como em tudo na vida é o qb do sal que determina o sucesso ou o desastre.  10 a 0 a todos os analistas 

Maria Nunes: Muito bem Sr. Coronel JAR. 

Komorebi Hi: A vitória do Irão é uma falácia propagada pelos media ocidentais e pelos canais ligados ao Islão e RPC que a propósito está numa situação de graves problemas de reservas de petróleo e derivados como muitos outros países incluindo a UE. O poder no Irão poderá estar à beira de numa situação semelhante ao que sucedeu no Iraque depois da execução de Sadham, ou na Líbia com a execução de Kadhafi. O próximo passo e não outro, será a destruição das infraestruturas no Irão, provocará pulverização do poder semelhante ao que sucedeu no Iraque, há que pensar duas vezes. As duas forças militares no Irão são a Guarda Revolucionária e o Exército, só dando força ao Exército e enfraquecendo a Guarda Revolucionária será possível alterar o panorama político no Irão que não tem estrutura de governo sólida no momento. Como dizia o outro: "penso eu de que..."