terça-feira, 12 de maio de 2026

Não se sabe mesmo


Se serão vencidos - daninhos e espertos que são. Salazar sabia-o.

A parada dos vencidos

A parada da vitória devia mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma Rússia encolhida. Devia celebrar poder. Celebrou medo

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 11 mai. 2026, 00:22

Durante anos, o desfile do Dia da Vitória foi a maquilhagem de gala do putinismo. Na Praça Vermelha, entre carros de combate, mísseis, generais emproados e convidados estrangeiros em pose impressionada, Moscovo encenou a velha ilusão imperial: a Rússia eterna, invencível, temida, indispensável. Uma sessão anual de ilusionismo político, com banda militar, bandeiras vermelhas e saudades de Estaline travestidas de comemoração histórica.

Este ano, porém, a maquilhagem falhou.

Houve desfile, houve soldados, houve discurso, houve a habitual prosódia soviética aquecida no microondas. Mas faltou a convicção. E quando a convicção desaparece, o espectáculo passa a ser apenas confissão. Putin apareceu para proclamar, como sempre, que a Rússia vencerá. O problema é que já ninguém consegue perceber exactamente onde, como, quando ou em quê. Chamou heróis aos homens enviados para morrer na Ucrânia, acusou a NATO de agressão e repetiu o catálogo inteiro da vitimização imperial. O costume. Invade-se um país, arrasam-se cidades, deportam-se crianças, anexam-se territórios e, no fim, protesta-se contra a hostilidade do mundo. É a velha escola russa de partir a janela do vizinho e queixar-se das correntes de ar.

Desta vez a encenação decorreu sob a sombra da Ucrânia. A internet foi restringida, a segurança multiplicada, o aparato reduzido ao mínimo que permitisse fugir depressa da Praca. A Rússia que prometeu tomar Kyev em três dias mobilizou-se para impedir que drones ucranianos estragassem a liturgia sagrada da Praça Vermelha. O país que, segundo a propaganda do Kremlin, nem sequer existe, tornou-se suficientemente real para condicionar a festa maior do regime. Há ironias que dispensam comentário, embora o Kremlin continue a fornecê-lo em excesso.

Putin não podia cancelar o desfile. Seria admitir fraqueza. Mas realizá-lo assim, com o favor de Trump, foi admitir que a fraqueza já não se consegue disfarçar. Um império que esconde os blindados no dia em que os queria exibir já explicou mais do que pretendia. Um poder que teme ataques na capital durante a sua celebração fundadora já não projecta força, apenas gere sobressaltos. A Rússia longe de aparecer como superpotência ofendida, apareceu como regime nervoso. E regimes nervosos são perigosos, mas raramente são grandes.

A tragédia estratégica de Putin é quase perfeita na sua simetria. Quis impedir a Ucrânia de se tornar uma nação ocidental e transformou-a numa das sociedades militares mais inovadoras do mundo. Quis dividir a Europa e conseguiu acordá-la do seu pacifismo sonolento. Quis afastar a NATO das fronteiras russas e ofereceu-lhe novos membros, nova razão de ser e nova urgência. Quis restaurar o império e acabou por entregar a Rússia, com desconto e recibo, à China. É uma lista de sucessos que faria corar de vergonha um sabotador mediano.

Naturalmente, a Rússia continua perigosa. Tem armas nucleares, profundidade territorial, serviços secretos, recursos naturais, capacidade de destruição e uma espantosa tolerância histórica ao sofrimento dos seus próprios cidadãos. Mas isso não é grandeza, é apenas patologia com mísseis. O país que Putin vende como alternativa civilizacional é, apenas uma potência extractiva, repressiva e envelhecida. Tem petróleo, polícia, oligarcas, propaganda, medo e cemitérios em expansão.

A economia russa não colapsa como nos filmes, com música dramática e uma explosão final. Colapsa à maneira russa: lentamente, entre comunicados optimistas, estatísticas marteladas, regiões abandonadas, inflação maquilhada, empresas estranguladas, reservas gastas e mães a receber filhos em caixões. O regime pode prender manifestantes, calar jornalistas, manipular tribunais e falsificar eleições. Não pode, porém, prender a aritmética, a única forma de oposição que não se rala com autocratas.

No campo de batalha, Moscovo paga quilómetros com homens. Avança por saturação, perde por desgaste, conquista ruínas e reivindica vitórias. O Kremlin mede sucesso em metros; a Ucrânia mede sobrevivência em adaptação. A guerra tornou-se um laboratório brutal de drones, sensores, guerra electrónica, robótica e comando distribuído. Enquanto Moscovo recicla mitos imperiais, Kyiv transforma tecnologia civil em capacidade militar. De um lado, monumentos. Do outro, inovação. De um lado, generais que ainda sonham com Kursk. Do outro, operadores de drones que mudam a guerra com peças compradas online ou feitas em impressoras.

E depois há a dependência chinesa, talvez a mais humilhante das derrotas de Putin. O homem que prometeu devolver à Rússia a grandeza histórica está a colocá-la numa posição de kowtow perante Pequim. Vende energia mais barata, compra produtos mais caros, aceita condições piores e chama a isso parceria estratégica. A China não precisa de conquistar a Rússia. Basta esperar. Moscovo encarrega-se de entregar, contrato a contrato, factura a factura, aquilo que já não consegue sustentar sozinha.

Os russos sabem menos do que deveriam, mas sentem mais do que o Kremlin gostaria. Sentem a guerra nos mortos, nos feridos, nos salários corroídos, nos filhos mobilizados, nas transferências bloqueadas, nas empresas fechadas, nos boatos que substituem as notícias. A propaganda funciona enquanto a realidade bate à porta dos outros. Quando começa a bater à nossa, perde forças. E há sempre um momento em que a televisão estatal deixa de conseguir explicar o frigorífico vazio.

A História russa tem, além disso, uma premonição desagradável para os seus czares: as derrotas militares raramente ficam no estrangeiro. Regressam a casa. Regressaram depois da guerra russo-japonesa. Regressaram em 1917. Regressaram do Afeganistão e foram necessários novos czares. Uma guerra lançada para provar grandeza transforma-se, de em prova de incompetência. E, nessa altura, os mesmos que batiam palmas na tribuna descobrem que sempre tiveram reservas. A cobardia política também tem excelente memória retrospectiva.

Putin ainda pode prolongar a guerra. Pode matar mais ucranianos e mais russos. Pode destruir mais cidades, ameaçar com armas nucleares, prender opositores, inventar inimigos, convocar mais desfiles e mandar Dmitri Medvedev abrir outra garrafa de vodka antes de anunciar o Apocalipse no Telegram pela enésima vez. Pode fazer tudo isso. O que já não consegue é convencer de que está a vencer.

A parada da vitória devia mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma Rússia encolhida. Devia celebrar poder. Celebrou medo. Devia projectar império. Projectou isolamento. No fim, Putin ficou na Praça Vermelha rodeado de bandeiras, soldados norte-coreanos, câmaras e mentiras, cada vez mais só perante a única força que nunca conseguiu bombardear: a realidade.

E a realidade, ao contrário dos generais russos, não desfila. Avança. Não pede licença, não presta continência, não aparece em uniforme de gala. Chega sem música, sem coreografia e sem autorização do Kremlin. Este ano, chegou ao ponto de obrigar o czar, que tantas vezes caminhou a pé para depositar flores no monumento ao soldado desconhecido, a recolher-se atrás da blindagem de um carro. Há imagens que valem por epitáfios políticos. Esta é uma delas.

RÚSSIA         MUNDO

COMENTÁRIOS

Jorge Barbosa: Excelente artigo (aliás como sempre). Num ambiente tão conspurcado pelo sectarismo político partidário como é o do comentário da guerra na Europa, é extremamente agradável "ouvir" uma análise inteligente e racional da situação da guerra na Ucrânia , e no caso em apreço da real situação do país invasor sob o tirânico e assassino regime putinesco agora na tentativa de recuperação da velha hegemonia perdida. Muito obrigado ao Senhor Coronel por manter esta sua voz quase solitária neste nosso infeliz país ainda sob o domínio do politicamente correcto.

José Paulo: O que impressiona em termos comentariado  sempre pronto é desde sempre o tapar Sol com peneira. E não percebo por que nas TVs temos de ser alvejados com tiros ao nosso bom discernimento. Um tal Agostinho militar é o exemplo entre outros... dá vómitos ouvir aquela criatura...

Fátima Januário: Uma apresentação da realidade muito bem identificada e fundamentada. O seu colega militar, Agostinho Costa, deveria ser obrigado a ler o seu artigo. Muito grata pela sua contribuição e que a mesma seja estudada pelos loucos e pelos cegos que em loop apostaram em destruir a paz, por recurso ao medo atómico, que estava enraizada na nossa memória colectiva.

João Floriano: Excelente, como é hábito. Rússia e Irão, duas verdadeiras ameaças para o mundo.

Vitor Batista: Excelente crónica como sempre, mas esta é demasiado certeira a retratar a realidade que se viveu na praça vermelha. Há quatro anos, quando a escória russa disse que iria tomar Kiev em três dias, nunca teriam pensado que a Ucrãnia mais tarde, teria capacidade para os atacar nessa mesma praça. E além disso, as refinarias russas, a arder, são a mostra do colapso evidente e da fanfarronice de Putin, e é isso que o torna perigoso, porque o uso de meios altamente destrutivos pode acontecer a qualquer momento, fazem parte da perversidade deste regime comandado por este personagem do diabo, traidor do seu próprio povo. 

A FJ: "E há sempre um momento em que a televisão estatal deixa de conseguir explicar o frigorífico vazio." 👌

Zita Silva: O coronel que poderia ser escritor bem-sucedido. Divirto-me a imaginar a azia do General Agostinho Silva, o fervoroso admirador da grande Rússia, ao ler esse artigo tão inspirado. Os últimos acontecimentos e notícias dão-nos esperança de chegarmos a ver pelo menos esse híper narcisista, megalómano, cruel e patético Putin, derrotado e desprezado por seu povo. Com o outro Narciso, Trump, que se baba pelo strong man russo, a assistir. Aterrador como há sempre multidões infantilizadas e alienadas a eleger, apoiar e reverenciar tais figuras. E toda a humanidade paga.

António Duarte  > Zita Silva: Eu deixei de ouvir há anos!

Maria Tubucci: Muito bem Sr. Coronel. Não há ninguém com coragem para dizer ao Putin que ele já perdeu a guerra, perdão, a operação especial na Ucrânia. Observando nas imagens as caras das pessoas que assistiram a esta comemoração, rostos fechados  e sem expressão, que revelavam uma alegria gélida e glacial. Foi uma comemoração que mais parecia o funeral da Rússia …

 S N: Análise excepcional e certeira sobre Putin e a Rússia: uma lástima, mas perigosa.

Fátima Januário > Josel Paulo : Não entendo é como a CNN mantém semelhante viés a entrar pelo ecrã dentro a tentar “vender” o que todos já vimos, estar podre. AS é, sem dúvida, um activo pró-Putin. Este senhor  é um cego conduzido por um louco (Putin).

Antonio Almeida: O problema é que demora em cair, ainda vai matar muitos ucranianos inocentes. Os russos também vão morrer mas não são inocentes, sempre apoiaram o tirano e ainda o defendem🫣

Ruço Cascais > Vitor Batista: Num mundo digital, a tecnologia tende a superar a força bruta. Os ucranianos, com ajuda, obviamente, dispensaram os tão desejados F-16 e começaram eles próprios a fabricar drones  que, provavelmente, são mais úteis para combater os russos e incomparavelmente mais baratos que os caças. 

Ruço Cascais: 5 estrelas. Aqui vai mais uma estrela para fazer 6 estrelas; os atentados. Poderá um dia Putin ver a sanita ir pelos ares quando estiver a arrear o calhau? Sim, e a sanita tanto pode ser armadilhada pelos ucranianos como pelos próprios russos já cansados de Putin.  É esta a razão por que Putin está a obrar agora num penico, num penico de ouro. Os esgotos podem estar armadilhados com a última tecnologia ucraniana. A ideia de um micro-drone ser introduzido numa caixa de esgoto exterior e ser conduzido pelas tubagens até ao trono onde se senta Putin com as calças baixadas começa a ser real.  A nanotecnologia na robótica de guerra é cada vez menos ficção. Uma abelha pode ser um robot à espera de apanhar Putin distraído de boca aberta. É também por isso que Putin dorme agora protegido por uma rede mosquiteira.  Brincadeiras à parte, a nanotecnologia é uma realidade e não tardará muito para estar ao serviço da indústria militar. A energia para uma libelinha robótica voar é mínima e as nano baterias solares já são uma realidade. Uma libelinha robótica pode espiar mas também pode matar se vier carregada com uma dose de cianeto. Dentro de alguns anos, todo o exército de uma nação caberá dentro de um armazém não contando com os operadores. Um ataque a uma cidade já não será feito com o bombardeamento dos F-35, mas sim por um enxame de milhões de micro drones carregados de vírus. A parada militar de Putin no Dia da Vitória é a maior demonstração do atraso tecnológico russo em equipamento de guerra. Os grandes mísseis que mostra ao mundo não são nada mais do que o equivalente às grande mocas que os homens pré-históricos carregavam habitualmente às costas para intimidaram inimigos e mulheres para o coito. A grande aposta para o rearmamento da Europa não está em produzir porta-aviões mas sim em tecnologia de ponta, designadamente em robótica e nanotecnologia. Putin será vencido pelo atraso na economia e no desenvolvimento científico da Rússia provocado pelo próprio. 

helder carvalho: Mais uma vez excelente análise da situação em que a Rússia se encontra. Antes, no 9 de Maio, a Rússia tentava iludir-nos, convencer-nos que era um elefante de porcelana, de grande qualidade. Este ano caiu-lhes a máscara, não passa de um elefante de barro de fraca qualidade.  

Zita Silva > Josél Paulo: Nem consigo ouvi-lo até o final o ridículos comentários daquele homem. Mudo de canal para não vomitar. Ha mais de 4 anos a anunciar a iminente vitoria total da Russia. Um dos que deve ter em seu quarto aquela fotografia do Putin a cavalo, em tronco nu. Trump deve tê-la num álbum de recortes dos nice strong men que admira.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Um texto


Que me traz à memória o tempo em que viemos para cá, de regresso do Ultramar e o Vitorino e eu fazíamos o nosso percurso com o nosso Nick até ao café, falando dessas figuras que contribuíram para a machadada das descolonizações. Hoje também o Vitorino está doente, e o texto é uma lembrança de lágrimas. Por ele.

 

PCP dedica 28 palavras a antigo braço-direito de Cunhal. E a "pedido da comunicação social"

Carlos Brito morreu esta semana aos 93 anos. Era uma figura maior do partido até romper com Cunhal. PCP escreveu uma curta nota no site do partido "a pedido de vários orgãos de comunicação social".

09 mai. 2026, 12:28

Foi militante do PCP durante 48 anos. Passou dez na clandestinidade e oito na prisão. Serviu o partido como funcionário, membro do Comité Central, deputado, director do jornal “Avante!”, líder parlamentar (durante 15 anos) e candidato à Presidência da República. Durante muito tempo, foi o braço direito de Álvaro Cunhal. Acabaria por romper com ele e por se assumir como um dos protagonistas da chamada ala renovadora. Morreu esta semana aos 93 anos. Em comunicado, o PCP dedicou-lhe apenas 28 palavras e 199 caracteres.

“A pedido de vários Órgãos de Comunicação Social, sobre o falecimento de Carlos Brito.” Assim começa a nota divulgada no site do PCP. A seguir, pode ler-se: “Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar”. Sem mais.

Lisboa

Tóquio

Carlos Brito morreu na quarta-feira, em casa, no concelho de Alcoutim, depois de ter estado internado no Hospital de Faro devido a uma infecção respiratória. Foi líder parlamentar durante 15 anos, candidato apoiado pelos comunistas à Presidência da República, diretor do jornal “Avante!” e membro do Comité Central durante 45 anos. No final dos anos 90 e na viragem do século, foi-se afirmando com uma voz crítica do rumo que o partido estava a seguir, o que lhe valeu o fim da amizade com Álvaro Cunhal.

Anos mais tarde, em entrevista à RTP, acabaria por revelar que a “zanga” com Álvaro Cunhal lhe causou mais sofrimento do que os oito anos encarcerado. “Gostaria que não tivesse acontecido, que tivéssemos chegado a um acordo. Não que eu teria abdicado da minha opinião, não podia.” O momento da ruptura com o líder histórico do PCP deu-se durante a preparação do XIV Congresso, em 2000. Numa conversa privada com Cunhal, Brito defendeu que o partido devia “deixar o marxismo-leninismo”, lembrando “as várias experiências de insucesso no Mundo” de regimes com esta ideologia.

Apesar de já não ser secretário-geral do PCP, Cunhal mantinha influência no partido e, em reunião do Comité Central, expôs a existência de membros que defendiam renovação do partido. Depois do encontro, Carlos Brito regressou a Alcoutim, onde tinha crescido, e enviou ao secretariado comunista aquela que ficou conhecida comocarta-bomba”. Nela apelava ao abandono do leninismo e defendia um “regresso a Marx”, exigindo uma “profunda democratização” do partido. A partir desse momento, passou a ser tratado como um inimigo da direção. Meses mais tarde, demitiu-se do Comité Central.

Em 2002, em conjunto com Carlos Luís Figueira e Edgar Correia, foi alvo de uma sanção disciplinar pelo PCP. Mas enquanto estes dois foram expulsos, Carlos Brito foi suspenso por 10 meses. Terminado esse período autosuspendeu-se como militante e assim ficou até ao fim da sua vida. Criou oficialmente um movimento dos renovadores comunistas, em que assumiu o cargo de presidente do Conselho Nacional. Também regressou ao Algarve, onde foi autarca e se dedicou à escrita, tendo publicado livros de ficção, poesia e memórias. Foi agraciado pelo amigo Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 1997, e com a Ordem da Liberdade, grau de Grande-Oficial, em 2004.

António José Seguro, José Luís Carneiro e José Manuel Pureza lamentaram o desaparecimento de Carlos Brito. Os bloquistas vão, de resto, propor um voto de pesar no Parlamento. No Observador, Arménio Carlos, ex-dirigente do PCP e antigo líder da CGTP, recordou Brito como um “homem que lutou pela liberdade, pela democracia”, elogiando-o como alguém que “nunca deixou de afirmar publicamente as suas posições pela liberdade e democracia”.

Também no Observador, e mesmo assumindo que houve um afastamento entre os dois, José Jorge Letria referiu-se a Brito como “um guerreiro resistente à ditadura e à mediocridade que depois se foi apoderando de muitos aspectos e áreas fundamentais da nossa democracia”.

PCP       Política       Álvaro Cunhal

COMENTÁRIOS (de 36)

Pedro Abreu: Um PCP que se revê no gorducho da Coreia do Norte. Um partido anacrónico, déspota, que se arvora dono de Abril (deixa-me rir...) e cujo único objectivo se chegasse ao poder, era instaurar uma ditadura, tal como tentou durante o PREC.

"Olhe que não, olhe que não" Famosa frase de Cunhal, com sorriso cínico quando confrontado por Mário Soares em que lhe diz na cara; " Os senhores querem instaurar uma ditadura!". Nazismo e comunismo, duas faces da mesma moeda.

António Duarte: Carlos Brito arrependeu-se tarde, mas deixou o barco antes de afundar e saiu com dignidade, há que reconhecer.

Paula Barbosa: Inacreditável esta despedida dos comunistas a um homem, que eu aprendi a ouvir com atenção. pois tinha ideias claras, apesar de serem totalmente da minha identificação social democrata. Agora têm um dirigente que não passava nos testes de admissão para condutor na Administração Pública !

Carlos Costa: Partido horrível, amigo de criminosos, assassinos, ditadores e fascistas.  Como é possível o "Observador" dar voz activa a esse monte de es***me. 

Paul C. Rosado: E já vai com sorte se não o apagarem nas fotografias. PCP a ser PCP. Paz à sua alma! 

António Afonso: Estes comunas  nada aprendem com o passar dos tempos. Evolução zero!

Na sua maioria, são desprovidos de sentimentos e anti-família, como deseja o partido. Felizmente estão em vias de extinção!

Manuel Magalhaes: Carlos Brito foi uma pessoa que tentou ser decente no meio da barbárie que é o PCP… RIP!

Paulo Silva: Uma vez pêcêpista, sempre pêcêpista... não há concessões na velha escola leninista. É como na Mafia... Por puro tacticismo político o PCP abandonou a retórica belicosa da "luta armada" ou da "ditadura do proletariado", mas continua firme na doutrina marxista-leninista criminosa. Ouvir o secretário-geral dizer que para condenar a Coreia do Norte como uma ditadura abjecta, (que é), era necessário saber antes o que era a Democracia... é deveras espantoso. Não sei o que mais é necessário para que abram os olhos para a verdadeira natureza deste partido...   

David Pinheiro: Aquilo não é um partido. Aquilo é uma religião. Centralista. Dominada pelo Comité Central. 28 palavras, a pedido da comunicação xuxial, é muito texto para aquela seita. 

Simão Guedes > Carlos Costa: Este artigo do Observador, e o modo como está escrito, até me parece implicitamente bastante crítico do modo como o PCP lidou com a morte de Carlos Brito. Destacar que foram usadas apenas 28 palavras, e que o comunicado surge «a pedido da comunicação social», com um lacónico «Sem mais» após a citação do curto comunicado, parecem-me formas inteligentes de denunciar a displicência com que o PCP tratou um homem que, apesar de ter lutado e militado por muito tempo no partido, se afastou por divergências de opinião. Acho que o artigo evidencia este sinal de pouco respeito democrático do PCP para com as diferenças de opinião, deixando o partido mal na fotografia. Como tal, não compreendo a sua crítica.

Vasco Matias: Comunismo = doença mental

Pertinaz: A escumalha será sempre escumalha…!!!

B D > Carlos Costa: É bom não esquecer. Ignorar é que não. E o observador é um jornal, não o avante

paulo mariano: Avante camaradas, rumo ao cemitério!

Jose Marques: Filhos da putin

Paulo Barreto: Qual é o espanto? O Pcp é assim, quem discorda deles, é simplesmente apagado da história, nao me espanta

Joao Goncalves: Só por isso, já passei a gostar mais dele...

Joao Cadete: Como será o chega daqui a uns tempos.... comunas de direita.

Daniel José: o Carlos Brito como outros acordaram a tempo do que seria um regime comunista, só mesmo os parvos do cravo acham normal ainda haver festa avante

Paulo Silva > Pedro Abreu: O PCP nasceu em 1921 para instaurar uma ditadura vermelha em Portugal, à semelhança de muitos congéneres inspirados no Outubro vermelho e na Rússia dos bolcheviques. O PCP revia-se em todas as ditaduras comunistas, mesmo quando existiam querelas entre capitais vermelhas pela disputa na direcção da locomotiva da História.

Joao Goncalves > Pedro Abreu: Instaurar uma ditadura um milhão de vezes pior do que aquela que havia...

Luís Fernandes: Saiu da seita...

Cisca Impllit: O pcp já  não  sabe o que fazer para a sopa... Têm uma coerência mt própria...

Hugo Fraga: um partido asqueroso... uma ditadura dentro de uma democracia... e muitos preocupados com partidos populistas.... horror

Anastácio Jorge: O PCP , pouco a pouco , vai descendo devagar devagarinho .. hoje já ninguém usa cassettes

David Pinheiro > helder carvalho: Muito... pouco.


sábado, 9 de maio de 2026

Homenagem merecida


A um Centenário - DAVID ATTENBOROUGH - a quem a INTERNET e os espectadores desta devem tantos espectáculos sobre a VIDA ANIMAL.

Notícia da INTERNET, para melhor entendimento do texto a seguir, sobre o célebre naturalista:

«David Frederick Attenborough OM, CH, CVO, CBE, FRS, FZS, SAL é um naturalista britânico. A sua carreira representa a voz e a face dos programas sobre história natural nos últimos sessenta anos. Os seus inúmeros trabalhos foram feitos para a rede britânica de televisão BBC, da qual foi director de 1965 a 1972.»  Wikipédia

David Attenborough: 100 anos da espécie mais rara da televisão

O rei dos documentários sobre a Natureza ganhou todos os prémios, tem 50 plantas e animais com o seu nome e criou um modelo insuperável. O que seria de nós sem este explorador?

SUSANA ROMANA: Texto

OBSERVADOR, 08 mai. 2026, 07:22

Todos temos um avô-cadeirão. Não tem de ser literalmente nosso avô: pode ser um tio, um compadre de não sei quem, um senhor que casou com alguém da nossa família de sangue e com quem não temos por hábito falar mais do que 30 segundos, parcamente divididos entre cumprimentos e despedidas. As características da espécie mamífera avô-cadeirão são claras: é geralmente um tipo mais velho, de poucas palavras, que se funde com um dos sofás da sala como se fossem um ser uno e indivisível, para ver televisão. Mas há um momento em que conseguimos sentir uma comunhão com ele, construir um ponto de convergência que permite conversas e afinidades: quando, a fazer tempo para a uma da tarde de um domingo de almoço de família, nos sentamos juntos na sala a ver um documentário sobre animais. O avô-cadeirão pode não saber onde trabalhamos ou que idade temos, mas saberá que o dragãodeKomodo é capaz de comer 80% do próprio peso e que a época de acasalamento acontece entre maio e agosto.

 

O responsável pela popularidade geracional deste tipo de documentários tem um nome: David Attenborough. Sir David Attenborough, como tão bem os britânicos gostam de reforçar. O pedestal no qual o colocam é de tal modo superior que, quando na Eurovisão que se realizou em Lisboa em 2018, um dos sketches tinha Herman José a fazer as vezes do prestigiado naturalista — e os bifes passaram-se. O tabloide britânico Daily Express escreveu mesmo que os “fãs” consideraram “ofensivo” que Attenborough tenha sido “ridicularizado” durante a emissão. É que o agora centenário (número redondo completado esta sexta-feira, dia 8 de maio) é uma raridade de consenso num Reino Unido que de unido só vai tendo o nome. Uma sondagem do início do ano para o podcast The Rest Is Entertainment concluiu que 44 por cento dos inquiridos o considera o maior tesouro nacional do país, destacado da concorrência de actores, músicos e futebolistas (“national treasure” é o rótulo britânico dado a uma figura pública amplamente amada, vista como parte inegável do património emocional do país).

A única maneira de não discutir no tal almoço de domingo para o qual estávamos a fazer tempo é mesmo elogiando o rei dos documentários sobre vida selvagem

PA Images via Getty Images

 

Esta vitória de Attenborough é em toda a linha, já que a sondagem mostra que é a primeira escolha seja qual for a idade, região ou inclinação partidária dos entrevistados. Lá está, a única maneira de não discutir no tal almoço de domingo para o qual estávamos a fazer tempo é mesmo elogiando o rei dos documentários sobre vida selvagem.

Ver este tipo de programas pode encaixar no chamado virtue signaling, o acto de exibir publicamente uma opinião ou gesto moral, sobretudo para parecer virtuoso. É que, por um lado, estamos a ver algo de didáctico, a mostrar que podemos evidenciar-nos como alguém que não embarca na estupidificação latente de outro tipo de conteúdos (mesmo que, secretamente, saibamos perfeitamente quem é a Ariana da Casa dos Segredos). E por outro, mostramos como nos ralamos com o planeta. Caramba, estamos a ver um documentário sobre a importância dos oceanos, a aprender tudo sobre as baleiasjubarte e como as proteger. De certeza que isso nos garante mais uns tempos a usar palhinhas de plástico sem sentimento de culpa.

Lisboa

Tóquio12 ANOS

Esse talvez seja até o grande falhanço da carreira de David Attenborough — um falhanço que é nosso, claro. Cem anos (não os cem na totalidade, mas boa parte deles, vá) a explicar-nos a importância de defender o meio ambiente para os resultados não serem particularmente animadores. Várias das espécies que o naturalista acompanhou (tem tantas décadas de carreira que é a única pessoa a ganhar BAFTAs, o galardão mais importante do Reino Unido, por programas a preto e branco, a cores, em HD e em 3D) já se extinguiram e não foi o constantemente hiperbolizado poder da televisão a salvá-los. O britânico fez-nos achar que íamos proteger a natureza (“Se cuidarmos da natureza, a natureza cuidará de nós.”) — mas nem a nós próprios nos sabemos proteger, que fará uma savana recôndita. Attenborough tem mais de 50 plantas e animais com o seu nome, incluindo a Nepenthes attenboroughii, uma planta carnívora gigante capaz de devorar animais do tamanho de um rato — e esse legado terá de chegar.

 

David Attenborough with orang utan and her baby at London Zoo

Para um português, a voz pausada e de sotaque distinto do londrino tem uma competição feroz no nosso imaginário. Ao contrário de um inglês, nós associamos o BBC Vida Selvagem à voz do locutor Eduardo Rêgo, ainda no activo e simultaneamente fundador da Loving The Planet, uma plataforma de comunicação que reúne e mobiliza agentes empenhados na construção de um mundo mais sustentável. Mas em qualquer um dos casos, a narração de um documentário sobre vida animal faz parte de um tipo de televisão feita para nos envolver e relaxar, quase uma espécie de ASMR antes do tempo (para quem não está cronicamente online como eu: ASMR é a sigla para Autonomous Sensory Meridian Response — em português, Resposta Sensorial Meridiana Autónoma — e é uma sensação de relaxamento desencadeada por sons suaves ou repetitivos, com criadores próprios nas redes sociais). A narração de programas da Natureza, tal como Attenborough a cunhou e o mundo imita, é pausada, explicativa, deixando espaço para ser o animal a brilhar. No fundo, é o oposto de um relato de futebol, rápido e emotivo.

Ora isto faz de Sir David um bastião cada vez mais raro da chamada slow TV. Numa altura sôfrega em que vivemos com o fantasma insistente de não ter tempo para nada, ver um documentário da vida animal ainda constitui uma pausa — e, muitas vezes, o tal momento de comunhão. É televisão que se pode ver sozinho, mas é muito mais televisão geracional, que ganha em ser vista por várias pessoas ao mesmo tempo, comentando factoides que provavelmente esquecerão pouco depois. A qualidade das filmagens é de excelência, mas o resto é a supremacia da simplicidade, do texto factual, da música suave entre a orquestra e o elevador, da paisagem que se pode demorar sem irmos a correr procurar o comando.

Uma das vertentes pós-televisivas dos programas da BBC Vida Selvagem (afinal, há cada vez menos pessoas a verem televisão clássica) foi a passagem para evento ao vivo, com o tal caráter familiar, facilmente instagramável e com o placebo de “até é didáctico para os miúdos”. Fui a uma delas, numa visita a Londres em 2024. Num barracão em Earls Court ocorria o BBC Earth Experience, descrito como “imagens de cortar a respiração da premiada série da BBC Seven Worlds, One Planet, projectadas com tecnologia de ecrã digital e acompanhadas por uma narração exclusiva do mundialmente famoso Sir David Attenborough”. Na prática? Pagar quase 35 euros por cabeça para ir ver projecções em paredes brancas com demasiadas pessoas à frente e ter de andar à bulha por um puffe daqueles tipo saca-de-esferovite para ficar esticada a ver vídeos de pinguins bebés.

Quando conseguiu o primeiro trabalho em televisão nem sequer tinha o aparelho em casa. Chegou ao século de vida tornando-se sinónimo de um tipo de televisão que, porventura, um dia morre com ele.

Os 100 anos de vida de Sir David Attenborough foram pouco ou nada povoados por polémicas, sejam elas pessoais ou profissionais. Com uma notável excepção: a veracidade das imagens. Como guionista, conheço bem a chatice de quando a realidade atrapalha uma boa história. Para um documentário de vida animal resultar, tem de ter, na verdade, características semelhantes a uma telenovela: vilões e heróis claros, cenas de clímax que fechem um arco narrativo, momentos de castigo ou redenção. E isto raramente é possível apontando simplesmente uma câmara e esperando dias a fio, agigantando os custos. Por isso, é uma regra não dita deste tipo de programa que se pode falsear.

Ao longo dos anos, vários casos de documentários de Attenborough acabaram por ser denunciados. Em 1997, uma sequência com uma ursa e as respectivas crias foi filmada num jardim zoológico na Bélgica, sem que isso fosse de todo claro para o espectador. Em 2021, a BBC foi obrigada a admitir que cenas com uma ursapolar e as suas crias em Frozen Planet tinham sido filmadas num jardim zoológico nos Países Baixos e não no Árctico. No mesmo ano, a série Human Planet mostrou um jovem camelo a ser morto por um lobo, mas mais tarde veio a saberse que, como os cineastas não conseguiram encontrar um lobo selvagem, usaram um animal semidomesticado levado para o local com uma trela. E Doug Allan, conceituado cameraman de vida selvagem que trabalhou muito com Attenborough, revelou que a maioria das sequências envolvendo pequenos mamíferos era filmada em ambientes controlados e afirmou que o público não se importava.

David Attenborough, o homem que quando conseguiu o primeiro trabalho em televisão nem sequer tinha o aparelho em casa (como a maioria dos britânicos da época), chegou ao século de vida tornando-se sinónimo de um tipo de televisão que, porventura, um dia morre com ele. A caixinha mágica talvez tenha mais em comum com as espécies animais: nasce, cresce, reproduz-se e morre.

NATUREZA AMBIENTE CIÊNCIA DOCUMENTÁRIOS CINEMA CULTURA

COMENTÁRIOS:

Boris Pasternak: Uma verdadeira lenda viva. Faltou explicar que Sir David foi também director-geral da BBC2 durante anos decisivos, quando este canal passou a transmitir a cores. Por causa dele, as bolas de ténis são amarelas (para se verem melhor na televisão, durante Wimbledon). Facto não menos importante: foi ele que encomendou e colocou na grelha outro programa lendário: Monty Python Flying Circus. Uma loucura à época.

Hugo Fraga: televisão de qualidade... os seus programas quando jovem eram bem mais educativos mas continua a ter uma voz e presença sem igual.

GateKeeper: Congrats, David.