domingo, 11 de outubro de 2026

A Política


E os seus Apóstolos .

Obama em Lisboa: as farpas a Trump, os avisos sobre IA e os riscos para a democracia

Em Lisboa, dez mil pessoas aplaudiram Barack Obama. O ex-presidente dos EUA alertou para o crescimento do autoritarismo e criticou a política de Trump e os riscos da IA.

MARTIM MADEIRA: Texto

OBSERVADOR, 11 out. 2026, 00:57

“A democracia, na história da humanidade, é um piscar de olhos — uma ideia frágil que precisa de ser constantemente renovada.” O perigo dos discursos polarizadores e a emergência de movimentos autoritários na democracia deram o tom do discurso de Barack Obama, 44.º Presidente dos Estados Unidos da América e vencedor do prémio Nobel da Paz, em 2009, que, neste sábado, esteve no evento Game Changers, no Meo Arena, em Lisboa, 16 anos depois da última vez que tinha visitado a capital portuguesa. Com mais de 10 mil pessoas a assistir, recebeu uma ovação em pé da plateia.

Começando por notar que, “historicamente, quando há grandes perturbações, as pessoas sentem incerteza ou medo e tendem a recair no tribalismo, no nacionalismo extremo ou a culpar os imigrantes”, Obama explicou os perigos de uma política baseada em tribos, recorrendo ao exemplo da “história feia da Europa durante mil anos, que culminou na morte de 60 milhões e no Holocausto”.

As referências à Europa não se ficaram por aqui. Apesar de elogiar a ideia de uma União Europeia que diz ter “proporcionado à Europa os tempos mais prósperos que algum grupo de pessoas alguma vez viveu”, criticou a burocracia de Bruxelas e sugeriu que a demora em “fazer o mais simples” leva os cidadãos, que se queixam de a habitação estar mais cara e de que é difícil encontrar emprego, a “perderem a confiança”.

O antigo presidente norte-americano alertou que o não funcionamento dos governos democráticos, de uma forma eficiente, torna mais atractiva a ideia propagada pelos líderes autoritários de que “vão resolver os problemas quebrando as regras do sistema.”

Para solucionar este problema dos discursos polarizadores e do crescimento dos movimentos autoritários, salientou a necessidade de haver líderes políticos capazes de representar o seu próprio povo e de valorizar as suas tradições, cultura e história, mas que também saibam dizer: “Eu vejo-vos, a vocês que estão fora do meu país; sei que têm valor e acredito que partilhamos uma humanidade comum.”

Indirectas bem directas a Trump

O antigo presidente norte-americano, que cumpriu dois mandatos entre 2009 e 2017 e acabou a passar o testemunho a Donald Trump (no seu primeiro mandato), aproveitou para analisar a política interna e deixar algumas críticas veladas ao actual chefe de Estado.

Numa altura em que os Estados Unidos vivem um momento político polarizado, entre os dois grandes partidos, democratas e republicanos, e com as eleições intercalares à porta, Barack Obama não se conteve em criticar o movimento e o slogan republicano de Trump “Make America Great Again” (Tornar a América Grande Novamente).

Agora como um autointitulado “treinador” do partido democrata e dos seus líderes políticos afirma que no movimento “MAGA” há quem tente reconfirmar as “velhas hierarquias”. O grande esforço em dizer que existe uma “América Real”, na realidade, é “uma nostalgia pelos dias em que as minorias raciais estavam caladas e as mulheres sabiam o seu lugar e deviam estar na cozinha”, afirmou Obama.

Ainda no plano interno, Barack Obama mostrou-se preocupado com o aumento de “políticos demagogos” que se aproveitam da frustração das pessoas para alimentarem a ideia de que há inimigos como os “imigrantes que querem tirar empregos”. Por isso, pediu líderes que permitam ter a confiança: “eu quero viver num mundo onde as minhas filhas têm as mesmas oportunidades que os meus filhos, onde não preciso de me sentir superior a ninguém.”

Mesmo sem pronunciar o nome do seu sucessor, Obama deixou uma farpa com enfoque na guerra no Médio Oriente, dando como exemplo a situação “difícil” com que se deparou, enquanto Presidente, em relação à Síria, numa altura em que Bashar al Hassad, antigo presidente sírio, “matava” o próprio povo. Teve de decidir avançar (ou não) com uma ofensiva na Síria para libertar o povo de Hassad. No entanto, à luz do direito internacional, essa incursão militar seria ilegal. Obama não avançou e Hassad só abandonou o cargo 13 anos depois, em 2024, quando fugiu para a Rússia.

Ao contar esta história, Obama acabou a deixar a farpa a Trump, afirmando que uma incursão militar sem ser por retaliação seria ilegal e que, segundo a Constituição norte-americana, tem de ter a aprovação do Congresso. Donald Trump iniciou a ofensiva no Irão sem a aprovação do Congresso norte-americano, utilizando a Lei de Poderes de Guerra de 1973 que permite ao presidente dos EUA um prazo estrito de 60 dias para conduzir acções militares no exterior sem o aval do parlamento.

Cuidado com a Inteligência Artificial

Na conversa de cerca de uma hora, no Meo Arena, Barack Obama virou-se também para os perigos da Inteligência Artificial na sociedade. Falou de uma tecnologia que evolui de uma forma muito rápida e que vai afectar trabalhos que julgávamos serem “protegidos” — advogados, contabilistas ou médicos — funções que, alertou, vão ser feitas por máquinas nos próximos 10 anos.

No entanto, acredita que há profissões que nunca vão ser substituídas como “professores ou cuidadores”. Profissões que Obama disse serem subvalorizadas, nomeadamente por serem historicamente desempenhadas por mulheres.

Para Obama, os governos não estão a conseguir acompanhar o desenvolvimento desta nova tecnologia, que se desenvolve “de três em três meses”, e que, por isso, é necessária regulação, a começar “idealmente” nos Estados Unidos. Mas, tendo em conta o avanço chinês na área, é “preciso coordenação entre China e Estados Unidos para a criação de um quadro regulatório”.

Alertou ainda para os perigos que a IA ao nível da segurança nacional e deu outros exemplos, como modelos de código aberto que qualquer pessoa pode descarregar para o seu computador e usar essa IA para invadir o sistema financeiro, o controlo de tráfego aéreo, ou até desenvolver uma nova pandemia. “Ainda não temos as barreiras de proteção necessárias.”

Há ainda críticas direccionadas aos líderes das grandes tecnológicas como a OpenAI, Anthropic, Grok, Meta, Google. Dizendo conhecer bem estes líderes, recordou que foi durante o início da sua presidência que estas empresas começaram a crescer. Lembra-se de Mark Zuckerberg (da Meta) como “uma criança que alguém tinha trazido” e de Elon Musk c “São brilhantes numa perspectiva muito estreita, mas não lêem romances, não ouvem música, nem pensam na literatura como algo tão importante para a civilização quanto o PIB” e que, portanto, são necessárias pessoas que tenham visões “mais abrangentes e empáticas”.

Jovens são necessários na política

No final do discurso, o foco para o antigo presidente de 65 anos passou a ser os jovens. Obama procurou puxá-los e influenciá-los a entrar na política. A retórica foi direccionada especialmente a uma crítica ao “idadismo”.

Começou por dar o exemplo de quando ainda estudava na faculdade e realizava comícios contra o apartheid na África do Sul. A primeira vez que discursou, fê-lo depois de ver dois rapazes sul-africanos que viajaram até aos Estados Unidos, com poucos meios, e pensou: “Se eles conseguem ter impacto, eu também consigo”.

Depois passou para um exemplo de quando chegou à Casa Branca. Nas salas de reuniões, os mais jovens costumavam sentar-se em cadeiras pequenas, na parte de trás da sala, a passar bilhetes para os chefes. Na primeira semana de trabalho decidiu virar-se para um desses jovens e perguntar — “e tu, o que achas?” — e acabou por descobrir que os jovens muitas vezes sabiam mais que os próprios chefes, pois faziam o trabalho todo dos superiores que apenas iam para as reuniões ler as notas que lhes eram dadas.

Obama quis também desmistificar o mundo dos adultos. Servindo-se de mais uma experiência pessoal, da altura em que chegou a representante local do estado de Illinois, pensava que a assembleia era muito parecida com a escola secundária mas que, quando “subisse de nível”, seria diferente. O problema, continuou, é que quando chegou ao Senado foi “exactamente igual”. Mesmo quando se tornou Presidente dos Estados Unidos e foi a uma reunião do G20, percebeu que até entre os líderes mundiais havia imaturidade e “parecia o secundário”.

Mesmo sobre a campanha eleitoral em 2008, Obama acredita que foram os jovens que colocou a fazer voluntariado em comunidades norte-americanas a vencer as eleições. Era no jovem de Nova Iorque que ia ao Estado de Iowa ajudar que se depositava a intenção de voto, ainda que fosse em Obama que se acabasse a depositar o voto.

Todas estas histórias serviram para Barack Obama passar a mensagem final do discurso de que a política precisa de mais jovens e que, com um mundo cada vez mais digital, “é necessário os mais novos assumirem-se na política, porque os velhos não sabem usar as redes sociais”.

▲ António José Seguro recebeu, no Palácio de Belém, Barack Obama, "para uma conversa informal e uma troca de impressões sobre temas da actualidade internacional” .

Estados Unidos da América      América      Mundo      Barack Obama      Donald Trump      Inteligência Artificial      Tecnologia      Ditadura      Sociedade           Democracia      União Europeia      Europa      Médio Oriente      Guerra      Conflitos

COMENTÁRIOS:

Goncalo Narciso

Obama "lança farpas" à actual administração de ter violado o direito internacional ao ter atacado o Irão... Ele, o pacifista Nobel da paz, obviamente cumpriu o direito internacional!  O que permitiu cerca de 13 anos de governação do Assad na Síria desde o início da guerra civil que começou na governação Obama. 500 mil pessoas morreram, destes 180mil civis às mãos de Assad, 60 mil prisioneiros morreram sob tortura deste... Mas Obama prefere estes números, a violar o direito internacional. Prefere não ser acusado pelo TPI, a salvar estas pessoas.

Agora mando eu farpas aos anti-semitas e marxistas de internet: Nunca vi ninguém com posters e caricaturas do Assad, como vejo para Netanyahu e Trump. Nunca vi ninguém a fazer manifestações pela síria e pelas centenas de civis mortos por este ditador, como fazem pela Palestina. Isto porque eles não se importam com morte de pessoas inocentes se os estados não forem do Ocidente, defensores do mundo livre.

Maria Paula Silva

o que é que este palerma vem aqui fazer? haja paciência...

pertinaz

Sempre a mesma conversa vazia e politicamente correcta… Síria, Líbia e Ucrânia … quantas centenas de milhar de mortos tem Obama na consciência… repete o modelo de negócio do Al Gore… sirvam-lhe o caviar…!!!

Rui Pedro Matos

Obama....um parvalhão e as pessoas foram ouvir, pagando, um péssimo homem de estado!

sábado, 10 de outubro de 2026

O pior ainda


São as dívidas… que as tristezas não pagam. Mas isso é mais próprio dos adultos, com as suas responsabilidades de vária ordem, entre as quais a tributária, que é terrífica.  Os adolescentes… é mais desaires ou frustrações, de ordem vária também, que se avolumam, por falta de hábito ainda, ou por temperamento específico, que a vida se encarregará de banir ou não, como aconteceu com os seus antecessores, tristezas e alegrias fazendo parte do quinhão sentimental humano, naturalmente analisável, o que acontece, às vezes, maçudamente, nos textos literários, de autores que se apregoam de realistas…

A capacidade de estar triste

Sem capacidade para estar triste qualquer pessoa entende um insucesso como uma derrocada que se insinua. O reconhecimento de um erro como uma culpa sem reparação. Ou a tristeza como uma vergonha.

EDUARDO SÁ   Psicólogo

OBSERVAD0R, 4 out. 2026, 20:27

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A prova de que os adolescentes, à medida que cresceram, terão sido protegidos demais, é que de cada vez que sentem um episódio de ansiedade o sinalizam como um estado de pânico. Como se stress, ansiedade e pânico fossem a mesma coisa. Acabam por ser tão pouco expostos a experiências ansiosas que têm na sua base o medo, que passam a ter medo de ter medo. Como se qualquer medo, ou as suas manifestações somáticas, pudesse ser sinónimo de colapso ou duma sensação de quase-morte. Fazendo por reprimirem o que sentem e censurando e racionalizando as contradições que isso lhes traz, a ponto de, idealmente, isso traduzir uma aspiração a deixarem de sentir. E o pensamento se vencesse de cada vez que deixamos de pensar.

Esta “tendência do momento”, transversal a imensas pessoas, faz com que se procurem “estratégias” para vencer os “pensamentos intrusivos” sem se pensar neles, como se aquilo que lhes parece mau dentro de si devesse ser domesticado ou dominado. Ou, se possível, anulado e destruído. Como se os tais pensamentos que parecem intrusos não fossem seus, e não representassem partes de si que é indispensável entender para que deixem de ser assustadores.

Acontece que com a tristeza a reacção é semelhante. Como se tristeza e depressão fossem a mesma coisa. E como se estar triste fosse um assomo de fraqueza que belisca uma imagem que se cria e contraria a autoestima que se quer transparecer.

Do mesmo modo que acontece com a ansiedade, experimentar a tristeza significa aprender a reconhecê-la. Aprender a desconstruí-la e a entender como se gera e o que quer dizer. Aprender a não fugir dela e a descobrir como se pode “adubar” o crescimento que traz, de seguida. Da mesma forma que fugir dum medo é a melhor forma de se ficar preso a ele, também a tristeza é o melhor “antidepressivo” do mundo.

E, chegados aqui, talvez se torne importante conversarmos sobre um condimento indispensável para a saúde mental: a capacidade de estar triste. Como manifestação de humildade perante o que sentimos. De equilíbrio, de transparência, de autenticidade e de coragem de se ser quem é. E de lealdade e de esperança para com “o outro”, junto de quem a nossa tristeza, colocada ao seu cuidado, nos torna menos sós. E mais fortes!

Sem capacidade para estar triste qualquer pessoa entende um insucesso como uma derrocada que se insinua. Uma dor como um vulto de desmoronamento. Um reparo como uma ameaça. O reconhecimento de um erro como uma culpa sem reparação. Ou a tristeza como uma vergonha. O que faz com que sem capacidade para estar triste alimente a ilusão de que o crescimento se possa dar sem ser preciso crescer.

Sentimentos      Comportamento      Sociedade

COMENTÁRIOS:

Maria Paula Silva

Obrigada.

O pior é quando há assuntos provocadores de tristeza e que não desaparecem....

António Dias:

Generosa partilha de quem anda no terreno


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

“Bicho da Terra”

 

É o que parecemos, todos, para sempre, também segundo Os Lusíadas, I, estr. 106:  “No mar, tanta tormenta… Na terra, tanta guerra, tanto engano…”

Mas cá vamos andando, atamancando, acusando…

Viva o povo brasileiro?

O que se passa com o povo brasileiro? Deixou-se manipular pela desinformação, pelo populismo, pela demagogia, pelo extremismo, ou foi mesmo interferência externa?

JAIME NOGUEIRA PINTO,Colunista do Observador

OBSERVADOR, 08 out. 2026, 00:25

Foi Trump. Foi Netanyahu. Foi a grande internacional da extrema-direita. Só pode ter sido interferência externa.  De outra maneira não se explicam os resultados no Brasil.  O que se passa com essa outra metade, inesperadamente maioritária, do povo brasileiro, que parece já não ter como referência a imprensa de referência que tanto se esforçou para lhe indicar o caminho do bem? Deixou-se manipular, evidentemente. Cedeu à desinformação, ao populismo, à demagogia, ao extremismo alheio e “votou mal.”

Escrevi aqui, há duas semanas, sobre os casos de corrupção e abuso de poder no Supremo Tribunal Federal, mais próprios de uma pequena república cleptocrática das antigas do que de uma nação como o Brasil. E sublinhei o quase silêncio dos media portugueses sobre o grosso dessa corrupção, inequivocamente ligado aos partidários e amigos do Presidente incumbente. Aparentemente, para bem do povo e da democracia, achou-se melhor falar só do dinheiro que Flávio Bolsonaro, alinhado com o mal, pedira ao corruptor Vorcaro para o filme Dark Horse sobre o seu pai, Jair, e silenciar as avenças milionárias, as viagens em jactos, os hotéis de luxo, as garotas de programa, as mensagens e os favores trocados entre o grande corruptor e os seus amigos e clientes do Supremo Tribunal, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, alinhados com o bem. É que o povo, na sua simplicidade e ignorância, na sua bondade intrínseca, tinha de ser guiado, conduzido, endoutrinado por quem sabia o que era melhor para ele.

Porém no Domingo, 4 de Outubro, para profunda tristeza e incredulidade de muito pivot, comentador e entrevistado de rua escolhido ao acaso entre os apoiantes de Lula, houve uma fatia inesperadamente maioritária do povo brasileiro que se mostrou pouco dócil aos apelos dos seus melhores, surda aos papões e aos polígrafos agitados, indiferente até à possível reencarnação do próprio Hitler nos trópicos que se adivinha – ou mais atenta à realidade do que se esperava. Porque além de, ao contrário do proclamado pelas sondagens, Bolsonaro ter ficado à frente de Lula por 47/45, a direita e o centro-direita tiveram uma vitória esmagadora nas eleições para o Congresso e vitórias significativas nos governadores eleitos – culminando na eleição para governador do Paraná, à primeira volta, de Sérgio Moro, do Partido Liberal, protagonista do Lava Jacto que condenou Lula à cadeia e ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Jair Bolsonaro.

Os números

Nas presidenciais, Flávio Bolsonaro teve mais 2 200 000 votos que Lula da Silva. No Senado, que renovava 2/3 dos seus 81 lugares, o Partido Liberal de Bolsonaro passou de 15 para 28 senadores, quase duplicando a sua representação. O Partido dos Trabalhadores tem 9. Os números, além de consolidarem a importância do “bolsonarismo” no legislativo, tornam possível o saneamento dos juízes (ou “ministros”) do Supremo Tribunal Federal que incorreram em “irregularidades”, já que muitos dos senadores eleitos na vaga direitista fizeram da promessa de impeachement dos juízes corruptos o seu cavalo de batalha. E se para a interdição dos juízes prevaricadores são precisos 54 senadores, são já pelo menos 49 os que a defendem.

A corrupção dos seus aliados na Corte Suprema saiu cara ao “incumbente” do Planalto que, à última hora, ainda tentou dissociar-se do “bando dos Quatro”, disparando para o ar banalidades moralistas, tais como “ninguém se pode tornar ministro do Supremo Tribunal Federal para enriquecer”, enquanto exaltava a luta de Moraes (o que mais enriquecera…) “em defesa da Democracia”.

Quando o povo “ameaça a Democracia”

Agora que se estipulou que a Direita desapareceu e só existe a Ultra-Direita, a Esquerda e os centristas que vêem o chão a fugir-lhes debaixo dos pés não conseguem resolver a equação que os acompanha desde os tempos em que os autoritarismos vigoravam nos países do Sul da Europa e na América Latina. Se para combater os autoritarismos e as ditaduras militares conservadoras todos – até os comunistas, estalinistas, maoistas, polpotistas ou trotskistas, partidários de Repúblicas Democráticas ou Socialistas mais opressivas e assassinas do que os regimes que combatiam – reivindicavam eleições livres, porque a democracia era boa, o povo era bom e a maioria era sagrada, o que fazer agora contra a “ultra-direita”, quando o povo, a maioria, escolhia “mal”, ou escolhia precisamente a “ultra-direita”?

A hipótese de, em épocas de descontentamento, decadência, crise e tensão, os cidadãos, os eleitores, que constituem o povo soberano, poderem usar o voto, a sua fracção de soberania, mais contra do que a favor, parece não se pôr. Sobretudo se é contra quem está no poder e o representa; contra quem proclama que o país “não é quintal de ninguém” enquanto faz do país o seu quintal privativo.

Desde o fim da Guerra Fria que o poder no Ocidente, no mundo euroamericano, tem sido exercido por aquilo a que podemos chamar “o centrão”, através de uma burocracia considerada “apolítica” e “tecnocrática”, mas que, por convicção ou cedência útil, se foi regendo pelos valores culturais e sociais de uma esquerda “esclarecida”, “progressista”, “hedonista”, “elitista” e “radical”. Esse conjunto de elites, todas globalistas, apostou na desindustrialização e na progressiva abolição das fronteiras, rumo a uma grande comunidade, a um grande mercado, abrangendo generosamente toda a humanidade, mas onde essas mesmas elites e as suas “razões práticas” se moviam com maior destreza e proveito. Com isto gerou-se no Ocidente um mundo de extremas desigualdades económicas, em que as classes trabalhadoras foram marginalizadas e as classes médias empobreceram.

Entretanto, nesse mesmo mundo euroamericano, o revisionismo da Escola de Frankfurt e os “marxismos imaginários” de que falava Raymond Aron, multiplicados até à alucinação, tornaram-se o catecismo dos pequenos e médios intelectuais das universidades e da comunicação social dos dois lados do Atlântico, largamente subsidiados por uma burguesia discreta, centrista, civilizada. E quando os eleitores, privados de outros instrumentos – a Academia, a Comunicação Social – reagem pelo voto, e reagem contra, então o povo deixa de ser sábio e soberano para passar a ser manipulado, a maioria deixa de ser sagrada para passar a ser fraudulenta ou pasto de “interferência externa” e a Democracia passa a estar “sob ameaça”.

O Brasil, o país mais importante da América do Sul, já esboçara uma reacção deste tipo com Jair Bolsonaro, vencido em 2022 por uma coligação da esquerda pêtista e parte substancial do Centrão. A gestão governamental de Lula, o apetite do seu filho, Lulinha, por “dinheiro vivo”, juntamente com os escândalos no Supremo Tribunal, levaram aos resultados de 4 de Outubro.

Mas o país está dividido e ainda há uma segunda volta.  Pode ser que, apesar de o “arrastão bolsonarista” da primeira volta já ter causado sérios “danos à Democracia” por via eleitoral, o povo ainda queira “salvar a Democracia”, votando Lula.  Só assim, devidamente alinhado com o bem, o bom povo, o dócil povo, poderá voltar a ser “sábio e soberano”.

Infelizmente para os que assim o desejam, tudo indica que não, que, no dia 25, o povo brasileiro ainda vá dar sinais de vida.

COMENTÁRIOS:

(Mais votados 22 Todos 58)

Ricardo Ribeiro

Das mais esclarecidas descrições dos tempos actuais com as respectivas explicações das causas e efeitos subjacentes. Há parágrafos neste texto verdadeiramente sublimes. E o resultado das políticas adoptadas, desde as Américas até ao velho Continente, estão à vista! Agora, queixem-se!...

Miguel Seabra

Muito bom! As TVs vão estar de luto novamente no dia 25 e no dia 25 de Abril de 2027 os sabujos locais não vão poder (mais uma vez) lamber os pés ao Lula na Assembleia da República.

João Floriano

A nossa CS é muito discreta no que diz respeito a Lula da Silva. Não me lembro de ter ouvido falar nas «aventuras» do Lulinha. Por aquilo de que me apercebo entre os brasileiros meus conhecidos há uma grande expectativa sobre o que o PT irá fazer porque é opinião comum entre quem vota Lula ou Bolsonaro, que o PT não vai largar o osso . Uma das minhas curiosidades se Bolsonaro ganhar (para já, os sinais apontam para tal acontecer), é observar como se vai comportar o Brasil nos BRICS e como os países associados antiamericanos irão  reagir a uma guinada  política no Brasil. Independentemente da política, Lula já enjoa os brasileiros. é o que acontece quando se serve constantemente Lula recheada de juízes corruptos, banqueiros trafulhas e toda a espécie de vigaristas. E ainda por cima Lula ressequida, que o panamá não consegue esconder.

Antonio C.

Excelente artigo. Curioso saber que a maioria dos “fugidos” para Portugal da democrática e próspera República Lulesca tenham votado no mesmo. Coincidências…,

Maria Nunes

Excelente artigo JNP.  Regra geral, a nossa comunicação social parece que tem medo de dizer as verdades sobre Lula.

Manuel Martins

Faz lembrar o discurso do candidato do PCP em Almada, depois de ter surpreendentemente ter perdido as eleições autárquicas, que não perdia desde o 25 Abril:" o povo tinha-se enganado e então iria sofrer por isso" ...

Ruço Cascais

Sociedades cada vez mais crispadas, ódios cada vez mais à flor da pele, violência gratuita cada vez mais frequente.

As esquerdas não estão preparadas para lidar com a democracia cada vez que perdem eleições. As direitas começaram a reagir às provocações das esquerdas.

As esquerdas já não representam o povo, representam esquemas corporativos para garantirem a manutenção do poder. As direitas conquistaram os povos porque resolvem os problemas das populações.

As esquerdas no poder não conseguiram resolver os problemas da habitação, do ensino, do sistema nacional de saúde, da redução da subsídio-dependência, do aumento de rendimento per capita.

Os povos começaram a perceber o engodo das esquerdas e a votar na direita que lhes oferece mais perspectivas para um futuro melhor para eles e para os filhos. As esquerdas não aceitam essa derrota, não se conformam com os resultados das suas políticas. Desesperadas com a derrota estão disponíveis para tudo, incluindo a tomado do poder pela força.

A possibilidade de um banho de sangue no Brasil é real, mas, também não é de desconsiderar esse banho de sangue em Espanha, nos Estados Unidos, França, quiçá em Portugal com uma vitória redundante do CH.

Na minha opinião, o mundo não está num dos seus melhores momentos. A nova sociedade digital com as suas redes sociais, informação em catapulta, fake news, influência e manipulação transforma cada cidadão num potencial activista e muitos deles em activistas radicais de cabeça perdida. Tudo pode acabar num grande banho de sangue.

Um mundo radicalmente dividido, em que metade tem um ódio de morte à outra metade.

Américo Silva

O Tribunal Constitucional da Roménia anulou o resultado da eleição presidencial por uma suposta interferência russa, Georgescu encontra-se actualmente detido.

João Diogo

Mais uma excelente crónica , por cá no burgo a C.Social , nem umas notas em rodapé, sobre a corrupção instalada no Supremo Tribunal da camarilha de Lula, como esse execrável Alexandre Moraes.

João Floriano > Ruço Cascais

«Um mundo radicalmente dividido, em que metade tem um ódio de morte à outra metade. »

Um frase redonda que descreve talvez o aspecto mais evidente das nossas sociedades ocidentais democráticas: o ódio de morte que se tem vindo  a tornar indisfarçável. Gente da minha geração nascida no pós guerra ( eu sou um boomer de 1952) tem vivido confortavelmente na ilusão de que as guerras civis ficaram lá bem no passado. Mas o banho de sangue de que o Ruço fala é cada vez mais uma possibilidade. Olho para França, e agora para a Bélgica para onde os protestos se estão a estender e não sei como os políticos vão acalmar as ruas. Tanto esquerda como direita mesmo os ditos tolerantes e moderados têm culpas no cartório. A esquerda porque trepou e caiu também na armadilha de pensar que seria sempre seguida pelos desfavorecidos que são em maior número. A direita porque deixou que a esquerda lhe pusesse  freio e culpas nas costas e não protestou. Mas mesmo agora que está  a pôr as mãos na massa, ainda há dentro da própria direita quem prefira aliar-se à esquerda. Já se sabe o que a esquerda pode fazer pelo bem-estar das populações e solução dos seus problemas: NADA! Um saco cheio de vento. Mas a direita ainda não pode apresentar provas conclusivas que consegue fazer melhor.

L Faria

Quando é que estes comentadorzinhos de neeerda das tvs portuguesas vão reconhecer que bolsonaro é um preso político ao melhor estilo soviético?

Garcia Moreno

Para a esquerda verdadeira democracia significa ditadura do proletariado.

Manuel Magalhaes

Esperemos é que os “impolutos” media (de lá e de cá) não continuem vigaristicamente como é seu hábito, a deturpar e a impingir mentira sobre mentira a fim de prejudicarem um muito necessário resultado para o dia 25 para que o Brasil volte ao seio dos países respeitáveis…

graça Dias

Senhor Professor Jaime Nogueira Pinto

Mais um valioso contributo de JNP para o debate político do momento. Numa prosa de muito brilho, submete com rigor e ironia a atmosfera política vigente no Brasil, no qual há dois  “maestros " -- as narrativas do incumbente e a doutrinação de uma CS, que tanto do lado de lá do Atlântico, como do lado de cá, entrou em desaire e descontrole !

Assisti num dos canais das nossas TVs, mas em determinada altura, já com resultados praticamente definitivos desta 1ª volta, um dos bonecos falantes ficou « out of control », e percebi que a boneca era de "barro vidrado" , com a etiqueta de « Mafaldinha dos anjinhos», e que se estilhaçou!...  de imediato tive que fechar a TV, para não ter que recorrer à pá e à vassoura a limpar o verniz que saltava fora do ecrã.

O meu obrigada a JNP  por esta "viagem" ao Brasil através de um texto de grande eloquência.

L Faria > Antonio C.

Acontece o mesmo que vemos com os mustafas. Procuram transformar os países que lhes dão de comer, na mesma meeerda de países de onde saíram. O socialismo estupidifica.

L Faria

A descrição perfeita de como os socialistas/comunistas se servem do povo. Voltem no tempo, não é preciso muito. Em todos os países dominados pelo comunismo, a elite que pastoreia o povo é estupidamente rica e poderosa e o povo na miséria. O mesmo estava a acontecer no Brasil do Ptt e do crápula lula da Silva. Enriquecimento extraordinário, fruto da corrupção ao mais alto nível, mas ao mesmo tempo a empobrecer o povo, dizendo que os defendem enquanto lhes sacam oboouco dinheiro que têm. Custa a acreditar como depois disto tudo, este filho de uma grande fruta ainda tem 45% dos votos. Veremos se a metade do país que ainda tem um cérebro funcional consegue reagir.

Glorioso SLB > Manuel Martins

Esse ñ é grande exemplo. É q sofreu e continua a sofrer.

Alberico Lopes

Excelente texto, ao nível dos que o autor nos vai oferecendo. Obrigado, professor!

Maria Cordes

O Brasil tornou-se mais compreensível com este texto, o que é muito gratificante. Adoro a ironia. Em Portugal há uma grande ignorância sobre a realidade, devido á manipulação da comunicação social, que não disfarça. O lado redutor é que, mesmo quem se interessa, somos poucos ( a lua cheia ou o pôr do sol, despertam muito mais atenções, que o vídeo da estudante francesa a desmontar a luta dos "estudantes") , tem dificuldade em construir uma consciência da realidade, mesmo que aproximada. É frustrante.

Thomas Zurc > Antonio C.

Ainda há dias questionei uns brasileiros porque, continuando a optar pelo Luladrão, não tinham ficado no Brasil, paraíso do PT....

Se a miséria e expectativa de uma vida melhor os fizeram vir para aqui, porque não votavam na mudança ???

Glorioso SLB > Henrique Mota

Caro amigo eu voto no CDS. Em Almada no PSD. O PC era mau, mas a Inês ainda é pior.

Cristina Torres

Sem dúvida, que  "no Domingo, 4 de Outubro, para profunda tristeza e incredulidade de muito pivot, comentador". Pois assisti incrédula no canal NOW o comentador Germano Almeida a tentar endoutrinar a escritora Margarida Rebelo Pinto, que num esforço justificava a inevitável vitória Bolsonaro.