sábado, 20 de junho de 2026

As guerras

 

Dos grandes poderes e das grandes complexidades, hoje. Os textos dos grandes prazeres literários, ou das realidades sombrias.

O TEXTO clássico:

Do Padre António Vieira sobre a guerra (1668)

“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e, quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades em que não há mal nenhum que ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro: - o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.” P. António Vieira (1668)

 

UMA DEFINIÇÃO NA ACTUALIDADE:

Este compromisso acolhe uma série de pretensões iranianas, reduz os meios de pressão dos EUA, e deixa cair praticamente todos os principais objectivos declarados por Trump.

BRUNO CARDOSO REIS, Historiador e especialista em segurança internacional

OBSERVADOR, 20 jun. 2026, 00:23

Para que serve uma guerra? War! What is it good for? Cantavam os The Temptation e depois os Jam. E respondiam: Absolutely nothing! Absolutamente nada! Não é assim tão simples. Grandes inovações da triagem na medicina até à internet surgiram num contexto de conflito. Apesar disso, ninguém – pelo menos, ninguém no seu perfeito juízo, como escrevia Clausewitz – inicia uma guerra sem saber quais são os seus objectivos políticos, e sem se certificar de que não os consegue alcançar por meios mais pacíficos, menos custosos, menos incertos. Uma guerra pode ser um mal necessário: não creio, por exemplo, que Hitler fosse susceptível a argumentos diplomáticos. Um dos grandes problemas de uma guerra, no entanto, é ser muito difícil saber como irá acabar. O inimigo tem um voto que torna a sua evolução, custo e desfecho difíceis de prever. Trump cometeu em relação ao inimigo iraniano um erro frequente e sempre muito custososubestimar o inimigo e a sua vontade de continuar a combater. Este acordo de cessar-fogo reflecte esse erro. O mínimo que podemos fazer é tentar aprender alguma coisa com o sucedido.

O grande escritor e humorista Mark Twain gostava de dizer que a guerra era a forma de Deus obrigar os seus compatriotas norte-americanos a aprenderem geografia, a conhecerem melhor o resto do Mundo. Um dos autores mais conhecidos da escola geoestratégica francesa, Yves Lacoste, deu como título ao seu livro clássico de 1976: A Geografia serve sobretudo para fazer a guerra. Efectivamente, sem um bom conhecimento de geografia não é possível compreender ou conduzir operações militares com sucesso. Por muito que os meios tecnológicos e as suas aplicações militares possam ter mudado, o controlo do estreito de Ormuz, um dos pontos de estrangulamento da navegação global e ponto de passagem obrigatório de rotas comerciais vitais ligando oriente e ocidente, continua a ser tão importante hoje como era no tempo de Afonso de Albuquerque. E em Ormuz a geografia apertada do estreito que reduz o tempo de reacção das defesas, combinada com tecnologia como drones, mísseis e novos tipos de minas, favorecia o Irão. Trump optou por ignorar que estamos num mundo onde nivelar o poder é mais fácil, e garantir a liberdade de navegação é mais difícil.

A centralidade de novas tecnologias disruptivas é clara na Terceira Guerra do Golfo, e também na Guerra de agressão russa contra a Ucrânia. O governo de Kiev transformou o seu país, sob bombardeamento constante e indiscriminado, numa superpotência de drones. A Ucrânia está a produzir perto de 800.000 drones por mês dos mais variados tipos, aéreos, navais e terrestres! Isso não garante a vitória, tendo em conta a enorme assimetria de poder militar favorável à Rússia, mas devolveu alguma iniciativa à Ucrânia, e aumentou muito o custo económico e em baixas da guerra para a Rússia.

A inovação não fica por aí. Teremos de lidar com o peso crescente da robótica militar, no mínimo semiautónoma. Teremos de lidar com o uso crescente da inteligência artificial. Isso cria grandes oportunidades, mas também cria grandes problemas, inclusive éticos. Um dos mais importantes para a Europa é que os europeus se habituaram nos últimos séculos a uma forma de fazer a guerra com base numa enorme assimetria tecnológica que lhes é favorável. A sua perda seria uma enorme revolução estratégica. Zelensky tem razão quando insistiu esta semana, no encontro do G7 e no Conselho Europeu, que a Europa não pode ficar para trás.

A proibição imposta pelo governo de Trump ao uso, fora dos EUA, dos modelos mais avançados de inteligência artificial da Anthropic deixa isso bem claro. Estamos cada vez mais numa Guerra Fria tecnológica e em torno de outros recursos estratégicos entre os EUA e a China, em que a Europa está a ficar para trás, marginalizada. A Europa corre o risco, se ficar a regular sem inovar, de acabar por não ter o que regular. Precisamos de mudar de paradigma, não nas palavras, mas nas acções. Temos de investir numa escala massiva. Isso implica criar um mercado de capitais realmente integrado. Implica também uma cultura de risco e recompensa que parece cada vez mais ausente da Europacom exceções como a Ucrânia, forçada a isso pela guerra. Talvez precisemos de aprender alguma coisa com o sucesso da China e criar zonas económicas especiais, com menos regulação e menos impostos, para promover com a rapidez necessária quer a inovação tecnológica, quer a produção massiva de meios militares, por exemplo drones. Se isso não for feito ao nível da União Europeia – por inércia e bloqueios vários – corremos o risco de que não seja feito de todo, ou que acabe por ser feito por alguns países mais relevantes e dinâmicos, ou seja, sem Portugal.

Lições de paz

Trump sempre achou que podia acabar com uma guerra com a facilidade com que fecha acordos imobiliários à custa da força da sua marca personalizada. A política externa é mais complicada, e terminar uma guerra é especialmente complicado. Na passada semana estive numa conferência internacional de história militar. Um dos temas mais discutidos foi precisamente este, que na língua franca académica global é etiquetado como war termination. Quais são alguns dos seus problemas clássicos? Numa guerra a dimensão emocional muitas vezes sobrepõe-se ao simples cálculo racional de perdas e ganhos. Muitas vezes o inimigo não aceita a derrota, e opta por prolongar o conflito mesmo que por meios não-convencionais, como a guerrilha espanhola e portuguesa contra as tropas do invencível Napoleão. O acumular de baixas, de mortos, de custos, torna politicamente mais díficil de vender ao público o fim do conflito com um compromisso que formaliza cedências, do que prolongar ou congelar o conflito no limbo, num cessar-fogo que se vai prolongando. Como aqui escrevi várias vezes esse era o cenário mais provável para o desfecho deste conflito.

Vimos todas essas dinâmicas em jogo na Guerra russa contra a Ucrânia e na Terceira Guerra do Golfo. Este memorando de entendimento reflecte um padrão fundamental dos conflitos armados de tipo assimétrico desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945): favorece o lado aparentemente mais fraco, mas que joga no próprio terreno, face a uma potência mais bem armada, mas que está a assumir os custos de projectar forças a milhares de quilómetros da sua pátria. Este padrão é claro do Vietname às guerras coloniais tardias até ao Afeganistão. E com um presidente tão impaciente por resultados rápidos, tão preocupado com o mercado bolsista como Donald Trump, a limitada vontade política dos EUA para se envolver num conflito prolongado no Médio Oriente ainda se acentuou mais. O Irão parece ciente de que os EUA querem terminar rapidamente o conflito e precisam da reabertura do estreito de Ormuz para evitar os custos da estagflação e de uma crise económica global mais séria. Efectivamente, Trump deixou claro que uma das razões por que chegou agora a este acordo frágil com o regime dos aiatolas é que não quer ser um novo Hoover, o presidente dos EUA que foi responsabilizado pela Grande Depressão.

O resultado é que este compromisso acolhe uma série de pretensões iranianas, reduz os meios de pressão dos EUA, e deixa cair praticamente todos os principais objectivos declarados por Trump: mudança de regime, fim do programa de mísseis, fim do apoio a grupos armados pela região, fim do programa de enriquecimento nuclear. De todos estes pontos apenas o nuclear é mencionado, mas em termos de um compromisso de continuar a negociar. E o Irão sempre disse que não queria ter armas nucleares. O problema nunca foi que o dissessem, mas sim, ter garantias concretas que impedissem que fizessem uma bomba atómica. Os principais problemas e ameaças criados pelo regime iraniano ficam por resolver, e podem agravar-se com a promessa do fim das sanções e de um fundo de 300 mil milhões de dólares para ajudar o Irão a reconstruir-se. Não custa imaginar que o regime dos aiatolas dará prioridade à reconstrução da sua máquina de guerra. Este memorando será no máximo um mal menor, se garantir a reabertura segura e sem restrições ou taxas do estreito de Ormuz. Mas mesmo isso não está garantido, e não era um problema antes do início desta guerra. Os EUA viram a sua credibilidade como aliado e o seu papel de máximo garante da ordem global mais uma vez minados pela Administração Trump. A Trump isso não importa, só lhe interessa o seu protagonismo, os seus ganhos económicos e políticos pessoais, mas os verdadeiros amigos dos EUA sabem que isto é um grande problema, e não apenas para os norte-americanos.

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Previsão bélica

 


Uma constante num mundo belicista, num Ocidente meio inerte contra o terrorismo iraniano.

Não perguntem quem perdeu se a guerra no Irão acabar mal

Deixemo-nos de ilusões. Se a guerra acabar mal, não é porque tenha sido um delírio de Trump, ou porque os generais americanos e israelitas a não tivessem planeado como deviam.

RUI RAMOS: Colunista do Observador

12 jun. 2026, 00:25

A guerra contra a ditadura iraniana pode não acabar bem. Não acabar bem significa a tirania dos Khamenei sobreviver, e os EUA enredarem-se outra vez no xadrez das negociações e sanções, onde os ayatollahs os têm toureado nas últimas décadas. Mas se a guerra acabar mal, há duas conclusões erradas que, por mais consoladoras que sejam, convém evitar.

A primeira é esta: a guerra acabou mal por ser uma guerra desnecessária. Errado. As guerras são sempre uma opção tremenda e arriscada. Se os EUA recorreram às armas, foi porque os outros meios falharam. Em 1979, a teocracia iraniana declarou-se inimiga do Ocidente e do que o Ocidente representava. Fundou e financiou organizações terroristas, tentou desenvolver armas nucleares, adquiriu mísseis capazes de atingir a Europa. Durante anos, americanos e europeus usaram negociações e sanções para dissuadir os teocratas de Teerão. Sem resultado. Da parte dos EUA, a operação militar foi um último recurso. Se a guerra acabar mal, não quer dizer que não devesse ter sido tentada.

A segunda é esta: a guerra acabou mal porque Trump não tinha um plano ou o seu plano era mau. Errado outra vez. Os EUA têm os meios militares para vencer um conflito armado, incluindo generais aptos para os usar da maneira mais eficiente. O problema não está nas armas, ou nos planos. Está em sistemas políticos e em economias que não parecem suportar uma campanha militar prolongada: governos que temem perder eleições, e economias minadas pelo endividamento, por impostos altos e pela inflação, e por isso impedidas de qualquer esforço mais espartano. Bastou aos mullahs fecharem Ormuz. Se a guerra acabar mal, não correrá melhor da próxima vez.

Dizer que a guerra foi apenas um capricho de Trump ou que um eventual insucesso se deveu somente à sua má planificação é muito confortável. Permite que acreditemos novamente que as valsas diplomáticas são a melhor solução para conter a ditadura iraniana, embora nunca tenham funcionado antes, ou que, sem Trump, venceremos da próxima vez, apesar de não se constatar, no Ocidente, qualquer movimento para ultrapassar as debilidades que agora espartilharam a sua força militar.

Deixemo-nos de ilusões. Se a guerra acabar mal, não é porque tenha sido um delírio de Trump, ou porque os generais americanos e israelitas a não tivessem planeado como deviam. Será por duas razões muito menos convenientes: porque a teocracia iraniana, fanática e sanguinária, é resiliente, e porque o Ocidente, dividido e endividado, não tem força para a derrubar. E isso justificará alguma inquietação, na medida em que a ditadura iraniana não é um problema local do Médio Oriente. O Irão, com 12% do petróleo mundial, quase 100 milhões de habitantes, e aliados como a Rússia e a China, dispõe do que é necessário para ser um problema global. Mais: o Irão dos Khamenei não é um Estado normal, susceptível de compromisso e moderação. É um projecto apocalíptico, que se alimenta de vertigem e ousadia. Funciona, desde 1979, como o principal foco do islamismo político, uma ideologia que subverteu o Médio Oriente, e que agora apela às comunidades muçulmanas que o caos migratório deixou instalarem-se na Europa. Derrotar a teocracia iraniana é a maneira de desacreditar o radicalismo político associado ao Islão, e prevenir que os muçulmanos na Europa se convertam em massa de manobra dos movimentos inspirados pela revolução islâmica iraniana.

É preciso que esta guerra não acabe mal. Mas se acabar, não perguntem quem perdeu. Não será Trump: seremos nós todos. Porque se esta guerra acabar mal, isso apenas significará que a guerra continua.

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Reforço literário

 

Pela via política.

O cativo que nos tem cativos: as aventuras políticas de Camões

Perante o génio de Camões, a tentação de encontrar no poeta um herói politicamente útil nunca deixou de ser transversal à direita e à esquerda

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 18 jun. 2026, 00:25

Desde que o mundo é mundo que o poder tenta “orientar” os poetas vivos e cativar os poetas mortos, procurando nos grandes artistas, músicos, cineastas, pintores, escritores, legitimidade histórica e ideológica. CAMÕES, como o maior poeta português, sem rival até ao aparecimento, descoberta e reconhecimento de Pessoa, não escapou a estas tentativas de captura.

O uso e abuso da História

Perante o génio de Camões, a tentação de encontrar no poeta um herói útil nunca deixou de ser transversal à direita e à esquerda, mesmo que essa  utilidade pudesse vir a ser a de o elevar como suprema vítima ou supremo culpado de uma História vergonhosa, ou a de o calar como voz do privilégio branco e masculino.

O uso político da História e da cultura está, de resto, generalizado na modernidade europeia, sendo (quase) sempre possível torcer factos e comprimir génios, de modo a acomodá-los na lamparina pretendida para depois os libertar convenientemente.

Assim, escrevendo sobre as ideias políticas de Shakespeare, Noah Berlatsky, por exemplo, pôde sustentar que o Bardo era “conservador” por defender o statu quo da monarquia inglesa da primeira modernidade e a hierarquia estabelecida. Esta defesa da legitimidade monárquica e consequente condenação dos que tentavam combatê-la, como os puritanos, seria clara em Macbeth, mas também em Hamlet e em The Tempest. Por isso também Iago era o “mau” da peça, em Othello, e Lear, com o seu abandono prematuro do poder, o portador do caos. Nada disto impediria que críticos como Andrew Venning advogassem um Shakespeare de esquerda, ou “liberal”, na terminologia anglo-saxónica, pela sua crítica a figuras tirânicas ou iliberais, como Júlio César e Ricardo III. Qualquer das   hipóteses é defensável, até porque, como todos os grandes criadores, Shakespeare não foi um teórico político mas, acima de tudo, um espelho da natureza humana e das sociedades onde ela se revelava, ou talvez até mesmo um “inventor do humano”, como queria Harold Bloom. Mas se os grandes textos permitem múltiplos usos e interpretações nem todos os usos e abusos são legítimos.

Em Ideas Have Consequences (1948), Richard Weaver fixou o princípio da decadência do Ocidente no nominalismo de Guilherme de Ockham, um franciscano inglês, teólogo e filósofo que, pela primeira vez, pôs em causa a existência de verdades absolutas. Defendendo que a realidade era, sobretudo, uma percepção dos sentidos e não da inteligência, Occam teria aberto caminho à transformação do “homem moderno” num “moral idiot”.

Assim, por idiotice moral, por paixão ideológica ou por uma combinação das duas, não faltaram nem faltam tentativas políticas de monopolizar textos, poetas e artistas, ou até de os cancelar. Tal como os Evangelhos, o Dante da Commedia ou o Cervantes do Quijote, o Camões d’Os Lusíadas ou da lírica é passível de ser calado ou manipulado em prol de gregos e troianos, progressistas e conservadores.

Luís de Camões, que era um português, mas também um ocidental da modernidade renascentista, estava consciente de que a liberdade de se contradizer ou de integrar a contradição fazia parte dos valores europeus. Com o “Velho do Restelo” (queira Deus que o não venham a transformar em “Idoso do Restelo”), o poeta não poupou o lado negro do império: o abuso, a corrupção e a cobiça dos poderosos e a inveja inerte dos tacanhos. Também por isso Antero e Oliveira Martins usaram Os Lusíadas na sua crítica amarga ao Portugal oitocentista: o poema, além de cantar a glória e o génio dos portugueses, ficava “gravado na alma nacional como o epitáfio da nação”.

Este pessimismo nacional, muito Geração de Setenta, convertia-se, para os republicanos do tempo, num argumento contra a monarquia dos Bragança, culpados de se afastarem da glória do século de ouro, em que controlávamos o comércio do Índico, tínhamos fortalezas e feitorias nas costas oriental e ocidental africanas, estávamos em Marrocos e começávamos a colonização do Brasil. Assim, no centenário de 1880 e a seguir ao Ultimato, a República pegaria no Camões da exaltação colonial para o arremessar contra a Monarquia.

Camões e os republicanos

Em 1880, no terceiro centenário da morte do poeta, é uma comissão executiva maioritariamente republicana que exalta o tempo épico do Portugal de Os Lusíadas, para o contrastar com a decadência oitocentista, culpando os Braganças e a monarquia pelo declínio da Nação. Na documentação comemorativa e na História das Ideias Republicanas (1880), Teófilo Braga vai mesmo apelar para que o “10 de junho de 1880”, o terceiro centenário da morte do grande poeta, seja “o começo de uma nova era de grandeza da Pátria”.

Dez anos depois, a humilhação do Ultimato serviria aos republicanos para explorar a “traição da Coroa” que cedera a uma outra coroa – a inglesa – o património ultramarino. E, ironia do destino, atendendo ao futuro da esquerda democrática do século XX, seria em nome da “revivescência da nacionalidade” e com referência à épica camoniana como símbolo da “idade heróica da Nação” (idade a que os seus herdeiros se iriam referir como “de escravatura e colonialismo”) que os republicanos obteriam a sua primeira votação popular significativa. Nesses finais do século XIX, a estátua de Camões na Baixa de Lisboa, erguida em 1867, seria, depois do Ultimato, devidamente enlutada com crepes negros e transformada em lugar de romagem. Isto apesar das ideias de “federalismo ibérico” que alguns destes republicanos perfilhavam.

É à volta desses “lugares da memória” que Teófilo unifica “as três revoluções” – a de 1640, a de 1820 e a de 1910num mesmo nacionalismo popular, em que o culto da pátria e dos heróis se revelam essenciais para “acordar a consciência de solidariedade da civilização ocidental”.

Como parte da sua sobreprodução bibliográfica ao serviço de ideais políticos, Teófilo Braga publica Camões e o Sentimento Nacional (1891), glorificando o poeta e a Idade de Ouro dos Descobrimentos e das Conquistas. Ajudam-no nesta empresa dois grandes da Geração de Setenta, Oliveira Martins e Antero de Quental. Em divergência com Herculano, o historiador apaixonado pelo Portugal medieval e municipal pré-expansão, Oliveira Martins e Antero veem n’Os Lusíadas, além da exaltação do povo português, um manifesto da Europa moderna, a Europa de Quinhentos e dos Estados soberanos como forma superior de comunidade política, contra as antigas fórmulas trans-estatais da Respublica Christiana papal e do Sacro Império Romano-Germânico.

Mal sabiam os republicanos, patriotas e grandes defensores do império colonial – mas ao tempo, identificados com a esquerda progressista – que estariam condenados a retorcer-se nos túmulos, ante a obra dos seus pretensos descendentes ideológicos, motores, por acção ou inércia, da descolonização. Ou perante a esquerda actual e a revisão histórica a que se dedica.

Camões, o Estado Novo e o 25 de Abril

Depois do 28 de Maio e da Ditadura Militar de 1926-1933, o Estado Novo que, graças a António Ferro, se abriu à modernidade estética europeia, casando-a com o nacionalismo portuguêsviu n’Os Lusíadas uma mina de ouro para a consagração e defesa dos seus valores de orientaçãoDeus, Pátria e Família.

É curioso que alguns oposicionistas acusassem o Estado Novo de policiar a Literatura, do Canto IX dos Lusíadas a algumas obras de ficção e de História da Geração de Setenta, como se semelhante controle fosse sequer remotamente comparável ao então exercido nas suas admiradas “democracias populares”. O certo é que a censura que de facto existia nos permitia, ainda assim, estudar uma cadeira eminentemente ideológica, como era a Literatura Portuguesa do 6º e 7º ano do liceu, pelo compêndio, aliás excelente, de dois membros do Partido Comunista: a História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes.

Claro está que, frente à ofensiva anticolonial das Nações Unidas, o Estado Novo usou Camões e Os Lusíadas para exaltar o patriotismo ultramarino dos militares e das novas gerações, sem que os poetas e os cantores da oposição repudiassem o poeta ou deixassem de o usar, se não na épica, na lírica. Era então considerado grande demais e rico demais para ser ignorado.

Já depois de 1974, Jorge de Sena falava num “Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da revolução de Abril”.

Ao “espírito” das poéticas intenções revolucionárias ainda vamos, ajudados por algum engenho e arte interpretativos; aos feitos, às “obras valerosas” e ao “novo reino”, entretanto edificado, é que já não.

Mas enfim, antes a manipulação que o cativeiro da ignorância e do silenciamento.

COMENTÁRIOS:

HENRIQUE MOTA: Que magnífica lição - porque não dizê-lo - de história, perdoem HISTÓRIA ( em maiúsculas) . Como é agradável ler este senhor.

JOÃO FLORIANOANTÓNIO ROCHA: Teria  a sua graça: a Ilha dos Amores ser transformada num manifesto LGBTI em que os marinheiros fossem exemplos de masculinidade tóxica violando ninfas, ninfos e ninfes. O Vasco da Gama poderia muito bem falar de multiculturalidade ao Rei de Melinde.

JOÃO FLORIANO: qualquer grande figura da literatura em particular e da arte em geral pode ser aproveitada tanto à esquerda como à direita tal a riqueza das ideias exploradas. mas esquecem-se que figuras como camões e shakespeare também tinham contas para pagar, sobretudo o inglês viveu sempre na corda bamba porque para além da genialidade das suas obras, havia os ordenados dos actores, a conservação do teatro em madeira que podia arder como um fósforo e o humor dos patronos poderosos. ainda sou do tempo em que  a ilha dos amores (canto ix) tinha sido expurgada das edições pelo menos as escolares. quando mais tarde li o que aconteceu nessa ilha entre as ninfas e os marinheiros do gama, achei aquilo de uma sensaboria tamanha , sobretudo porque o grande filme de 1975 era o erótico «emanuelle» .

ANTÓNIO ROCHA: Ainda vamos ver Camões reescrito pelas novas tendências

JOSÉ MIRANDA: O  Jaime Nogueira Pinto desmistifica as ideologias e os seus fanáticos.