Da actualidade, talvez provenientes de exibicionismos indiscretos…
VÁRIOS TIPOS DE FUNDAMENTALISMO
Penso em Bonnie Blue, a estrela da Only Fans que agora está
grávida e decidiu organizar uma baby shower sexual. assustadores são os
fundamentalismos que romantizam o presente.
PATRÍCIA FERNANDES PROFESSORA NA ESCOLA DE ECONOMIA E GESTÃO DA UNIVERSIDADE DO
MINHO
OBSERVADOR, 29 JUN. 2026, 00:22
De acordo com Caro Claire Burke, Yesteryear tem como objectivo
fazer uma crítica ao papel desempenhado pela religião no movimento das
tradwives, e que é habitualmente considerado como fundamentalista. Optou até
por não identificar a variante específica de Cristianismo de Natalie, a
protagonista do livro:
“Fiquei obcecada com a ideia de que o fundamentalismo é
bastante consistente para as mulheres, não só em todas as vertentes do
Cristianismo, mas em todas as religiões. Há muito mais pontos em comum entre os
fundamentalistas do que aquilo que os separa.”
O propósito de Burke não é, porém, conseguido. Natalie não
tem uma relação pensada e profunda com a religião e relaciona-se com ela,
sobretudo, em termos transaccionais. Quase tudo o que faz ao longo do livro não
decorre do facto de ter uma convicção religiosa profunda (ou fundamentalista),
mas do facto de ser uma pessoa incrivelmente competitiva e desagradável.
Ainda assim, percebemos, no final do livro, a que tipo de
fundamentalismo Caro Burke se queria referir. É que a autora não se inspirou
apenas em Hannah Neeleman. Burke tinha igualmente em vista Ruby Franke, uma mãe
influencer que foi condenada por maus-tratos dos filhos mais novos em 2024 e
que já motivou múltiplos documentários. Tanto Ruby como Hannah são membros da
Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e parece ser este o
fundamentalismo que Burke quer visar: é que, apesar de representarem apenas 2%
da população dos Estados Unidos, os mórmons têm um peso desproporcional no
algoritmo das redes sociais. E A RAZÃO É O PROSELITISMO.
2 PROSELITISMO VIA INTERNET
OS MÓRMONS SÃO RECONHECIDOS PELO CUMPRIMENTO FIEL DA OBRIGAÇÃO
DE PROSELITISMO, COM OS SEUS JOVENS MEMBROS A REALIZAR MISSÕES POR TODO O MUNDO.
Mas a revolução digital permitiu reenquadrar esta obrigação religiosa e
foi rapidamente apropriada como estratégia de missionação: SERIA
POSSÍVEL USAR AS REDES SOCIAIS PARA DIVULGAR, DE FORMA EFICAZ, A PALAVRA DE
CRISTO E A MISSÃO DA IGREJA.
Foi com este objectivo que várias mulheres mórmons se
tornaram influencers na última década, criando canais para divulgar a vida
doméstica e a dedicação à família e inspirar outras mulheres para uma vida
perfeita e mais próxima de Cristo. Foi isto que Ruby Franke fez quando criou uma conta no
Youtube em 2015, onde partilhou, ao longo dos anos seguintes, a sua vida
familiar.
Com milhões de visualizações, o canal tornou-se uma enorme fonte de
rendimento, mas o marido diz que nunca foi o dinheiro a motivar Ruby: foi
sempre a vontade de mostrar que era capaz de ser uma mãe perfeita e,
simultaneamente, inspirar religiosamente a sua audiência. A
popularidade de Ruby Franke continuou a crescer e talvez tenha
sido a pressão provocada pela vida digital que conduziu ao descarrilamento da
sua saúde mental.
De facto, saber se é a internet que deixa as pessoas
malucas ou se é o fundamentalismo que abre essa porta não é fácil de responder. A verdade é que Franke
acabou por se aproximar de Jodi Hildebrandt, que acreditava ter sido escolhida
por Deus para desempenhar uma missão especial no fim dos tempos que estavam
próximos (estávamos na pandemia) e as coisas descarrilaram muito rapidamente
para algo próximo do que habitualmente se designa como fundamentalismo religioso.
3 OUTROS FUNDAMENTALISMOS
A questão do fundamentalismo religioso é sempre
levantada a propósito das tradwives e das influencers que são tradwives, em
particular pela dedicação ao marido, o que colocaria, supostamente, as mulheres
numa posição de submissão. A polémica em torno de Hannah Neeleman começou precisamente depois de uma
entrevista ao The Sunday Times, com a jornalista a sugerir essa subjugação
feminina e a falta de liberdade de Hannah. (Curiosamente, o exemplo de Rudy
Franke revela o contrário, pois aqui o fundamentalismo era usado por Jodi
Hildebrandt para que as mulheres exercessem o seu poder sobre os homens.)
Para muitos, o fundamentalismo torna-se, assim, alvo
de crítica por ser entendido como a razão que leva as mulheres a subjugarem-se
a regras que realmente não desejam. No entanto, se aceitarmos esse entendimento,
vemo-nos obrigados a abandonar a obsessão com as TRADWIVES e a estar atentos a
outros tipos de fundamentalismo que têm animado o espaço público nos últimos
anos.
Pensemos no exemplo da cantora inglesa Lilly Allen, que esteve casada com o ator David
Harbour durante 5 anos e, a pedido dele, aceitou uma relação não-monogâmica. No magnífico álbum que lançou após o
fim da relação, Lilly reconhece não desejava estar com outras pessoas, mas não
queria que ele a abandonasse e, como diz em “Nonmonogamummy”, convenceu-se a
“estar aberta”. AS MÚSICAS DE WEST END GIRL CONTAM A HISTÓRIA DO FIM DO SEU
CASAMENTO: LILLY ALLEN DESCOBRIU QUE, APESAR DE O ACORDO SER BASTANTE
FAVORÁVEL A DAVID, AINDA ASSIM ELE NÃO O CUMPRIU E LILLY PEDIU O DIVÓRCIO.
Também a escritora feminista Lindy West foi convencida pelo marido a
aceitar uma relação não-monogâmica. Conhecida por defender o movimento
“Body positivity” (que promove uma visão
positiva de todos os corpos, independentemente do tamanho, da forma, da cor da
pele, do género e das capacidades físicas), West escreve, de
forma divertida, sobre ser uma pessoa gorda e orgulhava-se de como, ainda
assim, conseguiu casar com um homem bem-parecido. MAS NO SEU LIVRO MAIS
RECENTE, PUBLICADO EM MARÇO DESTE ANO (MAS AINDA SEM TRADUÇÃO ENTRE NÓS), CONTA
COMO O MARIDO, APESAR DE A TER FORÇADO A UM ACORDO QUE LHE ERA BASTANTE FAVORÁVEL,
AINDA ASSIM NÃO O CUMPRIU. Apaixonou-se por outra pessoa e Lindy West, ao
contrário de Lilly Allen, foi de novo convencida, desta vez, a tornar o seu
casamento numa relação poli-amorosa.
É, assim, curioso que haja tanta preocupação com o
fundamentalismo das tradwives que romantizam o passado. Pela minha parte, penso
em Bonnie Blue, a estrela da OnlyFans que agora está grávida e decidiu
organizar uma baby shower sexual. Assustadores são os fundamentalismos que romantizam o
presente.
EXTREMISMO SOCIEDADE