Trump vai por este Mundo, dominador e destemido como ele só, admirado
pelos seus, que o aceitam e premeiam, nos seus silêncios por vezes agrestes, ou
nas suas exuberâncias de satisfação pessoal, mas tem o direito por conta
própria, poderoso que é - o que não nos cabe contestar. Mas não deixa de ser
estranho que tenha surgido um Trump, neste século XXI, - depois de um Hitler no
século anterior - tão seu avesso, todavia, no tamanho como no fácies, embora
ambos dominadores e justiceiros num mundo com precisão de chefões auto-designados,
ou da escolha alheia, pelos séculos fora, como se viu sempre, com os Alexandres da
Antiguidade e os Bonapartes da Modernidade, excluindo os nossos – portugueses, digo - do cômputo geral,
modestos que fomos e continuamos, com o céu por objectivo, como bem o provara a
nossa Alma vicentina, pesem embora, em tods os tempos, os nossos próprios
desígnios de penetração
Enfim, bem diverso do reservado Hitler do século XX, este Trump, com a
sua aparência bonacheirona vai-se inserindo nesses espaços da sua autoridade
sorridente e de aparência por vezes generosa, como personagem dum século mais
evoluído na questão das igualdades fraternas e mais livres – de escrúpulos, sem
dúvida – no caso dos Putins, pelo menos; dos Trumps assim-assim. Mas também há
os que se perfilam ou agacham para o mesmo efeito amplificador, quantas vezes, dos
seus próprios espaços.
O pior dos dois mundos
Trump enfrenta, portanto, muito poucos constrangimentos
institucionais para continuar a usar força militar pelo mundo fora.
MAFALDA PRATAS, Investigadora
universitária. Doutorada em Ciência Política pela Universidade de Harvard (EUA)
OBSERVADOR, 06
mar. 2026, 00:2323
1Durante décadas, a
política externa dos Estados Unidos foi criticada por um paradoxo conhecido: em
nome da ordem internacional liberal, Washington
mostrou-se repetidamente
disposto a intervir militarmente noutros países para derrubar regimes ou moldar
equilíbrios regionais. Essas intervenções, principalmente no Afeganistão, no Iraque e na Líbia,
mostraram os limites e as contradições dessa ordem. Na última década, em resposta aos custos
dessas intervenções, grande parte da opinião pública norte-americana tornou-se
mais reticente em relação a novas intervenções externas.
Mas o que
começa agora a emergir pode ser algo bastante pior. É o pior dos dois mundos. Por um
lado, temos as intervenções que associamos à ordem liberal
hegemónica do passado, mas sem os compromissos e responsabilidades que essa
ordem impunha. Por outro lado, temos uma política internacional dominada pela
hierarquia de poder sem normas, mas sem a retracção isolacionista e a prudência
do realismo como doutrina e como política coerente.
Continuamos a ter intervenções externas, mas elas abdicaram quase por completo
dos princípios liberais e institucionais que antes as enquadravam.
Em menos de oito semanas, a
administração de Donald Trump levou a cabo a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro numa operação militar em
Caracas e o assassinato do aiatola iraniano Ali
Khamenei, durante o bombardeamento continuado do Irão. Em ambos
os casos, a natureza dos regimes foi invocada como justificação para a
intervenção e a possibilidade de mudança política apresentada como objetivo. A
novidade não está, evidentemente, no recurso à força. No entanto, olhando para
ambos os casos, é difícil identificar
qualquer planeamento sério para o dia seguinte, ou uma definição clara da
lógica e dos objectivos estratégicos destas intervenções. A
novidade está na combinação entre intervenções externas e o abandono dos
compromissos institucionais, das alianças e das responsabilidades que antes
enquadravam e legitimavam (ainda que parcialmente) essas mesmas intervenções.
Compromissos
de reconstrução, estabilização e até democratização no pós-conflito.
Apresentação de evidência e deliberação em instituições internacionais ou
domésticas. Procura de coligações internacionais e aliados antes de acções tão
disruptivas – não apenas para legitimar a intervenção, mas também para aumentar
a sua probabilidade de sucesso e limitar as suas facetas mais irresponsáveis. Nada disso
parece hoje minimamente relevante, especialmente num contexto em que a
administração norte-americana passou os últimos meses a intimidar e alienar os
seus aliados atlânticos, desde as tarifas até à Gronelândia. É hoje
quase inevitável concluir que Donald Trump quis desfazer os laços entre os EUA
e os seus aliados ocidentais tradicionais para poder levar a cabo a sua visão
do mundo: domínio
e hierarquia por coerção, força e intimidação em vez de autoridade legítima e
reconhecida pelos Estados mais fracos. Não é realismo nem isolacionismo; é
intervencionismo sem regras e sem arquitectura.
O problema do intervencionismo e do
poder sem regras, sem freios e sem arquitectura institucional não é apenas
moral: um
mundo mais arbitrário é um mundo menos seguro, com mais riscos, mais erros de
cálculo, mais escaladas militares perigosas, e onde todos tentarão maximizar a
sua autonomia – a sua capacidade de agir e reagir unilateralmente – mesmo que
para tal tenham de diversificar alianças. No final
das contas, todos estarão por conta própria e duvido que alguém saia a ganhar.
Pelo contrário, o ressentimento, o afastamento e o anti-americanismo sairão a
ganhar.
2Este tipo de intervencionismo sem regras e sem arquitectura
institucional tem uma expressão militar muito concreta: os
bombardeamentos como substituto da estratégia política. O poderio
dos bombardeamentos oferece uma fantasia aos líderes políticos: a ideia de que é possível colher os benefícios
geopolíticos de uma vitória militar – e a glória que essas vitórias ocupam no
imaginário colectivo – sem incorrer nos custos e incómodos que as guerras inevitavelmente
geram. A
vulnerabilidade das operações no terreno, o risco humano e político de ter
soldados expostos em combate, a possibilidade de o conflito se prolongar muito
para além do que foi inicialmente previsto. Os
bombardeamentos aéreos parecem permitir evitar tudo isso e ainda assim reclamar
sucesso estratégico e colher os louros.
Mas esta fantasia é apenas isso: uma
fantasia. Não
é possível substituir regimes autoritários institucionalizados por outros
regimes melhores a partir do ar. Substituir um regime sem que surja
um vácuo de poder implica garantir a sobrevivência de um aparelho de Estado
funcional e assegurar que as instituições ficam nas mãos de pessoas com
autoridade doméstica e com credibilidade para executar essa transição. Matar um
líder não chega para destruir um regime, e muito menos para substituir um
regime por outro. Um
líder pode simplesmente ser substituído por outro, muitas vezes proveniente dos
altos escalões do mesmo regime. A curto prazo (na melhor das hipóteses), até se
poderá submeter à vontade do mais forte, mas a médio prazo reajustará a
estratégia para alcançar objectivos semelhantes e evitar novas vulnerabilidades
na sua segurança. Não é possível atingir grandes objectivos estratégicos
duradouros apenas com bombardeamentos, especialmente se eles não são
acompanhados por coerência e talento diplomáticos.
3Como já aqui escrevi, os custos
financeiros, reputacionais, humanos e militares das guerras que os Estados
Unidos levaram a cabo no Médio Oriente nas primeiras duas décadas deste século
tornaram grande parte do eleitorado norte-americano avesso a novas aventuras. Donald Trump foi, em parte, eleito
precisamente porque representava uma nova atitude mais isolacionista, mais
avesso a guerras eternas, menos “polícia do mundo” do que as elites do
establishment tradicional norte-americano. A base do movimento MAGA
distinguia-se, portanto, de outras correntes do partido republicano tradicional
no que toca a política externa. Algumas
figuras deste movimento, como Tucker Carlson, continuam a acreditar nestas
ideias e declararam oposição à intervenção mais recente no Irão. Sobre Trump, não é claro se acreditou verdadeiramente
nesse isolacionismo; acreditou sobretudo que se deveriam desfazer os laços
existentes e duradouros com aliados tradicionais, mas o seu desejo de
demonstrar força e ficar na história leva-nos a questionar se é assim tão
avesso às operações e intervenções pelo mundo fora. O que é certo é que esta
clivagem dentro da coligação republicana que elegeu Donald Trump não
desaparecerá nos próximos tempos.
E o eleitorado? Numa sondagem recente,
apenas 27% dos eleitores norte-americanos apoiavam uma acção militar contra o
Irão. Mas a opinião pública, principalmente a opinião do eleitorado mais
partidário, pode ser revertida após a intervenção começar. Antes da operação na
Venezuela, apenas 44% dos eleitores republicanos apoiava uma acção militar
contra Maduro; depois da operação, o número subiu para os 78%. Em termos
gerais, os presidentes acabam por ter bastante latitude nas suas decisões sobre
política externa e acções militares no estrangeiro porque a opinião pública
segue os sinais e declarações das suas elites políticas preferidas, enquanto os
conflitos ainda não mostram ter custos materiais concretos e parecem ser de
curta duração. A opinião pública raramente impede guerras antes de
elas começarem.
O que pode, então, restringir e
influenciar as decisões dos presidentes? Como argumenta Elizabeth Saunders,
no que toca a decisões sobre guerra e paz, os presidentes norte-americanos
respondem essencialmente a outras elites, políticas, diplomáticas, burocráticas
e militares. Apesar do seu papel legal, o Congresso deixou de ser
um travão à acção presidencial nestas matérias. Restam, portanto, outras elites políticas dentro das
próprias administrações, que têm reputação própria e credibilidade, bem como
capacidade de resistir em público ou em privado. Na primeira administração Trump,
estes mecanismos de contenção interna funcionaram parcialmente (por exemplo,
através do general Jim Mattis). Na segunda administração, porém, Trump
rodeou-se de pessoas sem grande experiência ou independência próprias e que não
parecem dispostas ou capazes de o contestar. Trump
enfrenta, portanto, muito poucos constrangimentos institucionais para continuar
a usar força militar pelo mundo fora. Durante décadas criticou-se o
paradoxo e as hipocrisias da ordem liberal. O que começa agora a emergir pode
ser o pior dos dois mundos.
COMENTÁRIOS:
Maria Gomes: A Mafalda tem um raciocínio lógico teoricamente
correcto. Tal como as preocupações climáticas que a Europa abraçou. O pior foi
a realidade que atropelou as boas intenções. É isso que a Mafalda parece
ignorar. Ao longo destes anos o
Irão utilizou todos estes conceitos de direito internacional para espalhar o
terrorismo por todo o mundo, gozando de uma normalização aceite, por falta de
instrumentos para o travar.
Sobre isto não é feita qualquer reflexão. José B
Dias: Subscrevo quase que na íntegra! PS: particularmente
digno de análise política e quiçá mais ainda psicológica o facto de apenas
27% dos norte-americanos apoiarem esta guerra enquanto nesta caixa de
comentários os que a louvam devem chegar a números de fazer inveja ao coreano
Kim!
Maria Emília Santos: Trump agiu como um democrata que quer a liberdade
de todos os povos! Alguém se tem preocupado com a absoluta repressão
exercida pelos regimes dos ayatollahs? A ONU organização
criada para defender os povos de ditaduras severas e do incumprimento dos
Direitos Humanos, alguma vez tentou impedir os ayatollahs de torturarem e
matarem o povo por apelarem à liberdade? Nunca ninguém quis
saber desse pobre e sofrido povo, para nada! Como podem agora, quando o povo eufórico mostra
gratidão a quem o libertou, condenar esse mesmo libertador? Parece que os cérebros
dos esquerdistas pararam no tempo e no espaço!
ana rita: Ai Mafaldinha,
tivesses tu vivido um dia de terror como a grande maioria dos iranianos ou dos
venezuelanos, e não escreverias uma única linha daquilo que acabaste de
escrever. Chama-se a isto desprezo por quem sofre. Tim do A: Trump, o unico
ocidental com coragem e que os tem no sítio. Para além de Zelenski, que não é
um queque bem instalado e também apoiou esta guerra de libertação. A autora
parece ser uma elitista de luxo woke que simpatiza com ditaduras horrendas. Não
se interessa pelos que mais sofrem. É confrangedor ver a insensibilidade, a
indiferença e o egoísmo das elites bem instaladas face aos que mais sofrem.
Infelizmente, sempre houve princesas que do povo desgraçado dizem: não têm pão?
Comam brioche! Que gente! Paulo Almeida > ana rita Claro, vive numa bolha
fofinha. Para ela começou a era pior. Seria melhor o regime iraniano continuar a
tratar como cão 40 ou 50 milhões de mulheres cidadãs. Que cobardia e hipocrisia desta senhora.
Refugiada atrás da sua teoria política elitista. Como diz e bem Ana, se tivesse
vivido um dia no Irão não falava assim. António
Rocha:Como chegou Harvard aqui? Bem, deixando entrar
financiamento duvidoso e sendo permeável a "professores" com agendas
victor guerra: Ainda bem que o mundo
ocidental tem um "boss" .Com erros e arrojos Sr Leão > ana rita: Mafaldinha, Mafaldinha,
que terá acontecido em Harvard que te cegou para o sofrimento dos iranianos? Rogerio
Ramos: esta menina não consegue ver, nem entender o mundo,
para além da ponta do seu narizinho. o pior é que não é a única Kindu: Não é nada disso. O Irão esteve à beira de
atingir o potencial necessário para destruir completamente Israel. E para
Israel, é uma questão de vencer ou morrer, é agora ou nunca. E Trump ajudou. David
Pinheiro: Não se preocupe Mafalda. Trump não interveio no Irão
nem por si nem por mim. Está-se
pouco nas tintas para os europeus. Podíamos levar com mísseis de longo alcance,
até poderíamos levar com uma nuclear iraniana nas trombas, que ele estava-se
nas tintas. O Irão não é uma ameaça directa aos EUA. Trump interveio para
proteger o seu aliado na região, Israel.nPor isso fique descansada, continue
com o seu TDS, que Trump está-se completamente nas tintas para os europeus. Não
foi eleito por nós e não tem de nos prestar contas. Miguel
Macedo: Esta cronista woke é péssima e representa o que de
pior há de pensamento enviesado e manipulador! Df: A guerra tem riscos.
Mas não foi Israel quem iniciou a guerra. A guerra foi iniciada pelo Irão ao
lançar mísseis contra Israel há poucos meses. Da parte de Israel a guerra é
totalmente justificada e legítima, o que nem se pode discutir. Da parte dos EUA, pode-se discutir a
oportunidade do ataque. Mas o Irão declara-se inimigo dos EUA há 47 anos, o que
não é muito prudente da parte do Irão. Ser-se atacado pelo inimigo é tão
natural como a sua sede.
Francisco Almeida: Apetecia-me dar uma
aula à Mafalda. Esqueça as populações da Venezuela, as populações do Irão -
especialmente mulheres e gays - esqueça a solidariedade com Israel, esqueça que
com a tradição de martírio dos radicais xiitas, o Irão com uma ou duas dúzias de
pequenas bombas nucleares sujas, ameaçava não só Israel, não só os países
sunitas do Médio Oriente, mas quase todo o mundo ocidental. Esqueça tudo isso e
lembre-se apenas da China e de petróleo. A China comprava
petróleo abaixo dos preços de mercado à Rússia, ao Irão (80% da produção) e à
Venezuela. Agora não compra a preços de saldo e já, com a Índia, aumentou as
compras à Rússia pagando mais do que pagava. E olhe para África. Trump enviou
100 conselheiros militares para ajudar o governo da Nigéria com as guerrilhas -
a primeira vez que botas americanas pisam o chão em zona de conflito desde o
Afeganistão - e lembre-se que a Nigéria é o maior país africano produtor de
petróleo. Pois, Mafalda, pense em petróleo e na China e depois
já pode escrever sobre Trump e estratégias sem dizer tanto disparate. Paulo Coelho: Bla bla
bla bla Soluções? Nenhuma....
Albino Mendes: Caríssima dra. Mafalda
Pratas, os cães ladram e a caravana passa. A procissão ainda não vai no adro. Irá
ter imensas oportunidades de continuar a debitar babuzeiras no observador, a
não ser que seja despedida. JOSE CARMO: Se a articulista vivesse na Europa em
1946, faria ouvir a sua feroz opinião contra o intervencionismo
americano, à revelia do direito internacional. É tão fácil criticar aqueles que
garantem a possibilidade de criticar.... VASCO R: Idiota socialista e
woke . Não percebo o que está a fazer no observador . Palerma que só vê o que
quer . Esta anormal nunca falou com um iraniano subjugado por este regime teocrata.
MAIS UM: Artigo
fraquinho, pior de dois mundos, talvez três....