domingo, 1 de março de 2026

Pedro deve vir


Não por si, para efeitos de posicionamento pessoal – de que não necessita – mas por um PAÍS que dele necessita – nos seus valores de rectidão, coragem, força moral, rigor nas contas… Infelizmente os heroísmos hoje já não têm a Pátria como ideal a cumprir, fascinados que somos por outras matérias de maior envergadura posicional. Mas devíamos rever a História. Talvez nela encontrássemos ainda algum Nun’Álvares inspirador de sacrifício pessoal em prol de uma pretensa pátria amada, ditosa ou menos.

(Respondo à última frase do do comentário final a este texto:

 Um país que espera tudo de um homem está, à partida, condenado.

Sim, gostaria que PEDRO PASSOS COELHO se assumisse como o herói que nele prevejo).

 

Os lobos têm medo de Pedro

Pedro Passos Coelho é, que se veja, a única esperança em “federar” uma direita (?) cuja imensa representação parlamentar é inconsequente.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 fev. 2026, 00:2584

Quem tem medo de Pedro Passos Coelho? Pelos vistos, uma quantidade enorme de gente. Desde logo, a enorme quantidade de gente que por aí anda a garantir que Pedro Passos Coelho se prepara para cometer inomináveis malfeitorias, entre elas a suprema blasfêmia de regressar à política dita “activa”. O medo não só é proporcional à iminência desse regresso: é proporcional ao previsível impacto do regresso.

Para início de conversa, informo que não faço a mínima ideia se haverá regresso. Sei, toda a gente sabe, que Pedro Passos Coelho se tem feito notar particularmente nos últimos tempos. E, pela consulta à sua agenda pública, imagino que continuará a fazer-se notar nos próximos. “Eventos” sucessivos dão-lhe a oportunidade de aparecer a insistir em dois ou três assuntos fixos, acima de todos a necessidade de reformas e o perigo de ignorá-las. A cada aparição, há ligeiros tremores de terra, compatíveis com a legitimidade do homem em dizer o que diz. A opinião publicada, habitualmente hostil a Pedro Passos Coelho à esquerda e a certa “direita”, critica-o enquanto finge aconselhá-lo.

As críticas são engraçadas. E são, para parafrasear o intelectual orgânico Hugo Soares, rajadas de tiros ao lado. Umas vezes, acusam Pedro Passos Coelho de acusar de imobilismo um governo com a mobilidade de uma cómoda. Outras vezes, sugerem que ele se arrisca a alienar uma porção do eleitorado do PSD. Nos intervalos, enxovalham-no por “normalizar” (ai, o conforto dos vocábulos idiotas) o Chega. Vamos por partes.

Em primeiro lugar, Pedro Passos Coelho tem duas tradições a seu favor: a pessoal, quando liderou em condições quase impossíveis a regeneração possível após a proverbial bancarrota socialista, e a partidária, dado que sob as três chefias relevantes da sua história o PSD sempre possuiu uma vocação reformista. Isto dá-lhe a legitimidade suficiente para notar que o dr. Montenegro não é um chefe relevante e não deseja perturbar a quietude da pátria. Muitos dos aflitos que avisam, trémulos, para a “mudança” de Pedro Passos Coelho sabem perfeitamente que quem mudou foi o PSD. Ou, para efeitos de precisão, são os sucessores dele que teimam em transformar o partido numa cópia discutivelmente moderada do PS actual. Salvo por alterações fiscais difíceis de medir com um paquímetro e alguma contenção no ódio à propriedade privada, em que é que o presente governo difere dos socialistas assumidos que o precederam? Não se incomodem a responder.

Em segundo lugar, admito que haja eleitores do PSD desgostosos com a “traição” de Pedro Passos Coelho. Infelizmente, esses eleitores, numerosos ou escassos, não se apercebem que os traidores são eles. São eles que, com o fervor de adeptos, votam numa sigla à revelia do conteúdo, que tanto pode incluir a privatização do oxigénio quanto o confisco dos electrodomésticos. Ou, como acontece, numa sigla sem conteúdo que não seja a gestão diária do poder – ou a sobrevivência rasteira, sem razão e, se assim continuar, sem futuro. Sucede também que Pedro Passos Coelho já deu provas bastantes que a popularidade, ou o receio de a perder, não constam da sua lista de preocupações.

Por fim, há a questão do Chega. Ao contrário do dr. Montenegro, e de uma avassaladora percentagem da “direita” que vai aos estúdios televisivos afirmar-se “civilizada”, Pedro Passos Coelho nunca achou razoáveis as “linhas vermelhas” que condenavam à irrelevância centenas de milhares de descontentes. A tese das “linhas” venceu e o resultado vê-se: os descontentes subiram ao milhão e, hoje, ao milhão e meio ou mais. De resto, nada, ou pouco, existe em comum entre as “recomendações” de Pedro Passos Coelho e aquilo que o Chega defende na maioria das ocasiões. De novo: não foi ele que se aproximou do Chega, embora se desconfie que o Chega estaria disposto a aproximar-se dele, conforme o próprio André Ventura indiscretamente admitiu.

Eis a moral desta história: Pedro Passos Coelho é, que se veja, a única esperança em “federar” uma direita (?) cuja imensa representação parlamentar é inconsequente. De que valem os inéditos dois terços da AR se o país se encontra ingovernável ou, o que é igual ou pior, apenas se governa em função de uma “estabilidade” que é um eufemismo estafado para a estagnação em que caímos há 30 anos? Sobretudo Pedro Passos Coelho é o único político capaz de um sentido e de uma visão que contrastem com a paralisia vigente. É o adversário do socialismo que o PSD actual não parece interessado em ser. E é a alternativa racional ao famoso “sistema” que se espuma à menção do seu nome. Ventura é hábil e útil a escoar o protesto, mas convém que o protesto adquira coerência e propósito.

Os lobos juram repetidamente que Pedro virá. Talvez um dia ele venha. E, não antecipo por que vias, era bom que viesse.

PEDRO PASSOS COELHO       POLÍTICA

COMENTÁRIOS (DE 84):

Ana Lucas > MariaPaula Silva: Concordo perfeitamente. Votei no PSD à falta de melhor, mas Montenegro nunca me convenceu. Não faz política para melhorar a vida dos cidadãos, mas para melhorar a sua e manter o poder. Pedro Passos Coelho fez política para os cidadãos e numa altura muito difícil e não se aproveitou dela!            Carlos Almeida: Era mesmo óptimo que viesse rapidamente para tirar este país deste marasmo velho e decadente em que se encontra!!! Um país miserável, sempre de mão estendida, infelizmente. Está tudo dito pelo AG.          MariaPaula Silva: Excelente. O problema do retorno de Pedro Passos Coelho reside em vários pontos, de onde saliento apenas um:   SE  PPC resolvesse voltar ao exercício da política em quem poderia confiar?  Precisamente pelo facto de o actual PSD ser um amante fiel do PS, Pedro Passos Coelho teria a vida muito dificultada.

De 2011 a 2015 assistimos à guerra dos aventais contra PPC.  Hoje, com a amantização oficializada, seria muito pior.   As recentes declarações (vergonhosas) de Hugo Soares são a prova disso.   Parece que, para além do medo, os lobos, i.é., o actual PSD está pronto para linchar o Pedro, o que não deixa de ser demoníaco e vergonhoso. Tenho vergonha deste país, a política sempre foi  uma  pulha, mas a actual política é inominável.                       Rui Lima: Pedro Passos Coelho governou Portugal no momento mais crítico das últimas décadas. Executou um programa de ajustamento que não foi desenhado por si, mas cuja responsabilidade política assumiu plenamente o que permitiu a saída do país do resgate financeiro e a recuperação do acesso aos mercados. Ninguém pode negar que liderou num contexto de enorme adversidade e tomou decisões que poucos estariam dispostos a assumir, um verdadeiro estadista onde só há políticos .                 Gustavo Lopes: Aguardo ansiosamente pelo regresso do senhor. A par de Cavaco, foi um dos dois políticos com verdadeiro espírito de missão e visão (depois pode-se gostar dela ou não, é outra coisa…) que o país teve!!! O primeiro desiludiu-me recentemente ao ter de se juntar à carneirada que veio apoiar publicamente o Tozé… bastava o silêncio! Mas não apaga o que fez anteriormente! Obrigado por mais uma crónica fabulosa, caro AG! Subscrevo todo o conteúdo.                   SDC Cruz: Caro Alberto Gonçalves, uma excelente crónica que é um prenúncio (espero que seja), do regresso de Pedro Passos Coelho (qualquer que seja o meio de transporte utilizado), para que, finalmente, o PS2 "passos" a ser PSD.  Obrigado e até para a semana.                    Maria Tejo > Rui Lima: O PS esquece, sistematicamente, o facto de ter lutado achincalhando a chamada “saída limpa” da assistência da Troika em 2014. Achavam eles que era cedo demais. O modelo para o PS /BE era a Grécia da altura com resgates sucessivos. Pequeno detalhe apagado das narrativas vigentes. O slogan que preferem (deve estar para ressurgir): o Passos foi além da Troika. A nenhum dos “bem pensantes” interessou analisar as razões subjacentes de tal Estratégia, que mais não pretendia que o País deixar de estar de mão estendida e readquirir credibilidade nos mercados externos o mais cedo possível. A partir de 2016 souberam bem, sem pudor ou vergonha, tirar partido da herança deixada no erário público.                 Maria Emília Santos: O inimigo de Portugal tem muito medo de Passos Coelho e, logo que ele entre nesta de novo, vai ser tão blasfemado como André ventura, porque não partilha a cartilha da esquerda, tresloucada, globalista, amoral, serva de Bruxelas, de fronteiras abertas para que entre tudo, absolutamente tudo, amiga dos terroristas e inimiga dos polícias e autoridades, amiga dos LGBTs e inimiga da Fé católica, e por aí vai! Passos Coelho é um Senhor que como Ventura ama o seu país que é Portugal! Passos anseia por dar o seu a seu dono e acabar com a corrupção e os portugueses que não permitiram que lhes formatassem as mentes, também!                 Carlos F. Marques: Muito bom. Se PPC regressar à política activa (espero que sim) estarão reunidas condições "únicas" para a Direita fazer as reformas, que em 50 anos, nunca foram feitas. Tão depressa não voltará a acontecer. Os Portugueses que acordem!                 José B Dias: E mais uma vez as verdades embaladas em mordaz ironia ... subscrevo sem hesitação!                    Alberico Lopes: Alberto: o que dizer deste artigo? Excelente, como sempre!              Antonio Rodrigues: Acabei de ouvir o Daniel Oliveira a falar sobre Passos Coelho, a voz do homem até fica mais aguda. É muito divertido ouvir as pessoas de esquerda falarem sobre 'falsos moralistas'. Só o efeito pavloviano que Passos Coelho causa à esquerda já justifica as suas intervenções. Perdem completamente a racionalidade, se é que têm alguma.                Manuel Ferreira21: Excelente. Tenho receio que ele volte com uma nova pré-bancarrota, desta vez, provocada pela AD. Os sinais estão todos aí, não se deixem enganar, com ajudas PRR e Fundo temos "crescimentos" de 1,9%, crescimento sem fundos e PRR deve ser negativo. Agora com a tragédia de 6000 milhões (quase 2,5% do PIB) continuam a fazer de conta que não se passa nada. Qualquer dia estão a lançar impostos e a cortar nos vencimentos  e reformas e o povo engolirá tudo. Lembram-se que a culpa era da Merkel e da troika? A culpa agora vai ser de quem?               António Lamas: É isso mesmo Alberto. O Luís assim não vai lá.  Será preciso alguém que deixe umas caixas de vinho com 75.800 euros nas estantes do seu chefe de gabinete                Tristão: Passos Coelho foi, sem dúvida, uma figura determinante no período da troika. Mas convém dizer as coisas como elas são: ele governou com um guião previamente definido, imposto pelos credores internacionais. Fosse Passos, fosse outro primeiro-ministro, mais cedo ou mais tarde aquele programa teria de ser cumprido. A margem de manobra era reduzida. Onde Passos Coelho verdadeiramente se distinguiu foi na convicção que aplicou o programa. Acreditava que aquele caminho duro, impopular e exigente  era uma das poucas vias possíveis para endireitar o país. E quando uma política é aplicada com convicção, os resultados tendem a ser diferentes. Aliás, Passos Coelho chegou a dizer  que gostaria de ir mais além da troika, não por gosto pelo sacrifício, que foi a conotação que a oposição lhe quis atribuir (resumindo, para eles Passos era um sádico), mas por ambição reformista. Queria aproveitar aquele momento excepcional para corrigir problemas estruturais que vinham de décadas. Isso distingue-o claramente. Por isso mesmo, foi uma pena não ter vencido as eleições de 2015. Estou convencido de que, sem a troika já em cena, Passos teria continuado a reformar o país por iniciativa própria. Talvez, com o tempo, algumas mentalidades tivessem mudado. Em vez disso, venceu a geringonça e tudo regressou ao normal:  reversões, gestão de curto-prazo, gestão política em vez de estratégia.  Convém lembrar um ponto essencial: Passos Coelho governou com maioria parlamentar. Isso fez toda a diferença. E mesmo assim, não foi fácil. Tinha uma coligação com o CDS que, em vários momentos, roeu a corda. As tensões eram tantas que nem dentro da própria aliança a coesão era garantida. Foi preciso muito trabalho político para manter o rumo. Agora, a verdadeira pergunta é outra: como seria Passos Coelho hoje, sem maioria, num contexto de normalidade institucional, sem uma troika a impor disciplina externa? O que faria de diferente? Simples, as reformas que apresentasse seriam chumbadas ou descaracterizadas. Enfrentaria greves, bloqueios parlamentares, desgaste político. E provavelmente cairia pouco depois, em eleições antecipadas. Porque aqui está o ponto central  e talvez o mais incómodo: o país não quer reformas. Ou, pelo menos, não quer reformas que o atinjam directamente. Quer reformas no quintal dos outros, nunca no seu sector. Por isso, duvido muito que Passos Coelho volte à política activa, a não ser num cenário de clamor profundo, transversal, quase excepcional. E sinceramente, não vejo esse clamor a formar-se. Não acredito em sebastianismos. Admiro Passos Coelho, mas não o vejo como um D. Sebastião nem acho desejável que um país dependa de um homem providencial. Os problemas de Portugal resolvem-se colectivamente. As lideranças são importantes, claro que são. Mas sem apoio social, sem maturidade colectiva e sem continuidade política, nenhuma liderança,  por mais competente que seja, consegue transformar um país. Um país que espera tudo de um homem está, à partida, condenado.

 

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