Não por si, para efeitos de posicionamento pessoal – de que não necessita
– mas por um PAÍS que dele necessita – nos seus valores de rectidão, coragem,
força moral, rigor nas contas… Infelizmente os heroísmos hoje já não têm a
Pátria como ideal a cumprir, fascinados que somos por outras matérias de maior envergadura
posicional. Mas devíamos rever a História. Talvez nela encontrássemos ainda algum
Nun’Álvares inspirador de sacrifício pessoal
em prol de uma pretensa pátria amada, ditosa ou menos.
(Respondo à última frase do do comentário final a este texto:
Um país que espera tudo de um homem está, à partida,
condenado.
Sim, gostaria que PEDRO PASSOS COELHO se assumisse como o herói que
nele prevejo).
Os lobos têm medo de Pedro
Pedro Passos Coelho é, que se veja, a única
esperança em “federar” uma direita (?) cuja imensa representação parlamentar é
inconsequente.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 28 fev. 2026, 00:2584
Quem tem medo de Pedro Passos Coelho?
Pelos
vistos, uma quantidade enorme de gente.
Desde logo, a enorme quantidade de
gente que por aí anda a garantir que Pedro Passos Coelho se prepara para
cometer inomináveis malfeitorias, entre elas a suprema blasfêmia de regressar à
política dita “activa”. O medo não só é proporcional à iminência desse
regresso: é proporcional ao previsível impacto do regresso.
Para
início de conversa, informo que não faço a mínima ideia se haverá regresso.
Sei, toda a gente sabe, que Pedro Passos Coelho se tem feito notar
particularmente nos últimos tempos. E, pela consulta à sua agenda pública,
imagino que continuará a fazer-se notar nos próximos. “Eventos”
sucessivos dão-lhe a oportunidade de aparecer a insistir em dois ou três
assuntos fixos, acima de todos a necessidade de reformas e o perigo de
ignorá-las. A cada aparição, há ligeiros tremores de terra,
compatíveis com a legitimidade do homem em dizer o que diz. A opinião
publicada, habitualmente hostil a Pedro Passos Coelho à esquerda e a certa
“direita”, critica-o enquanto finge aconselhá-lo.
As críticas são engraçadas. E são, para parafrasear o
intelectual orgânico Hugo Soares, rajadas
de tiros ao lado. Umas
vezes, acusam Pedro Passos Coelho de acusar de imobilismo um governo com a
mobilidade de uma cómoda. Outras vezes, sugerem que ele se arrisca a alienar
uma porção do eleitorado do PSD. Nos intervalos, enxovalham-no por “normalizar”
(ai, o conforto dos vocábulos idiotas) o Chega. Vamos por
partes.
Em primeiro lugar, Pedro
Passos Coelho tem duas
tradições a seu favor: a pessoal, quando
liderou em condições quase impossíveis a regeneração possível após a proverbial
bancarrota socialista, e a partidária, dado que sob as três chefias relevantes da sua história o PSD sempre
possuiu uma vocação reformista. Isto dá-lhe a legitimidade
suficiente para notar que o dr. Montenegro não é um chefe relevante e não
deseja perturbar a quietude da pátria. Muitos
dos aflitos que avisam, trémulos, para a “mudança” de Pedro Passos Coelho sabem
perfeitamente que quem mudou foi o PSD. Ou, para efeitos de precisão, são os
sucessores dele que teimam em transformar o partido numa cópia discutivelmente
moderada do PS actual. Salvo por
alterações fiscais difíceis de medir com um paquímetro e alguma contenção no
ódio à propriedade privada, em que é que o presente governo difere dos socialistas
assumidos que o precederam? Não se incomodem a responder.
Em segundo lugar, admito que haja eleitores do PSD
desgostosos com a “traição” de Pedro Passos Coelho. Infelizmente, esses
eleitores, numerosos ou escassos, não se apercebem que os traidores são eles.
São eles que, com o fervor de adeptos,
votam numa sigla à revelia do conteúdo, que tanto pode incluir a privatização
do oxigénio quanto o confisco dos electrodomésticos. Ou, como
acontece, numa sigla sem conteúdo
que não seja a gestão diária do poder – ou a sobrevivência rasteira, sem razão e, se assim continuar, sem
futuro. Sucede também que Pedro Passos Coelho já deu provas
bastantes que a popularidade, ou o receio de a perder, não constam da sua lista
de preocupações.
Por fim, há a questão do Chega.
Ao contrário do dr. Montenegro, e de uma avassaladora percentagem da “direita”
que vai aos estúdios televisivos afirmar-se “civilizada”, Pedro Passos Coelho nunca achou razoáveis as “linhas
vermelhas” que condenavam à irrelevância centenas de milhares de descontentes.
A tese das “linhas” venceu e o resultado vê-se: os descontentes subiram ao
milhão e, hoje, ao milhão e meio ou mais. De resto, nada, ou pouco, existe em comum entre as “recomendações”
de Pedro Passos Coelho e aquilo que o Chega defende na maioria das ocasiões. De
novo: não foi ele que se aproximou do Chega, embora se desconfie que o Chega
estaria disposto a aproximar-se dele, conforme o próprio André Ventura
indiscretamente admitiu.
Eis a moral desta história:
Pedro
Passos Coelho é, que se veja, a única esperança em “federar” uma direita (?)
cuja imensa representação parlamentar é inconsequente. De que
valem os inéditos dois terços da AR se o país se encontra ingovernável ou, o
que é igual ou pior, apenas se governa em função de uma “estabilidade” que é um
eufemismo estafado para a estagnação em que caímos há 30 anos? Sobretudo Pedro Passos Coelho é o único político capaz
de um sentido e de uma visão que contrastem com a paralisia vigente.
É
o adversário do socialismo que o PSD actual não parece interessado em ser.
E é a alternativa racional ao famoso
“sistema” que se espuma à menção do seu nome. Ventura é hábil e útil a escoar o
protesto, mas convém que o protesto adquira coerência e propósito.
Os lobos juram repetidamente
que Pedro virá. Talvez um dia ele venha. E, não antecipo por que vias, era bom
que viesse.
COMENTÁRIOS (DE 84):
Ana Lucas > MariaPaula Silva: Concordo perfeitamente. Votei no PSD à falta
de melhor, mas Montenegro nunca me convenceu. Não faz política para melhorar a
vida dos cidadãos, mas para melhorar a sua e manter o poder. Pedro Passos Coelho fez política para os
cidadãos e numa altura muito difícil e não se aproveitou dela! Carlos Almeida: Era mesmo óptimo que viesse rapidamente para
tirar este país deste marasmo velho e decadente em que se encontra!!! Um país
miserável, sempre de mão estendida, infelizmente. Está tudo dito pelo AG. MariaPaula Silva: Excelente. O problema do retorno de Pedro
Passos Coelho reside em vários pontos, de onde saliento apenas um:
SE PPC resolvesse voltar ao exercício da política em quem poderia confiar? Precisamente pelo facto de o
actual PSD ser um amante fiel do PS, Pedro Passos Coelho teria a vida muito
dificultada.
De 2011 a 2015 assistimos à
guerra dos aventais contra PPC. Hoje, com a amantização oficializada,
seria muito pior. As recentes declarações (vergonhosas) de Hugo
Soares são a prova disso. Parece que, para além do medo, os lobos,
i.é., o actual PSD está pronto para linchar o Pedro, o que não deixa de ser
demoníaco e vergonhoso. Tenho vergonha deste país, a política sempre foi
uma pulha, mas a actual política é
inominável. Rui Lima: Pedro Passos Coelho governou Portugal no momento mais crítico das últimas
décadas. Executou um programa de ajustamento que não foi desenhado por si, mas
cuja responsabilidade política assumiu plenamente o que permitiu a saída do
país do resgate financeiro e a recuperação do acesso aos mercados. Ninguém pode
negar que liderou num contexto de enorme adversidade e tomou decisões que
poucos estariam dispostos a assumir, um verdadeiro estadista onde só há
políticos . Gustavo
Lopes: Aguardo
ansiosamente pelo regresso do senhor. A par de Cavaco, foi um dos dois
políticos com verdadeiro espírito de missão e visão (depois pode-se gostar dela
ou não, é outra coisa…) que o país teve!!! O primeiro desiludiu-me recentemente
ao ter de se juntar à carneirada que veio apoiar publicamente o Tozé… bastava o
silêncio! Mas não apaga o que fez anteriormente! Obrigado por mais uma crónica
fabulosa, caro AG! Subscrevo todo o conteúdo. SDC Cruz: Caro Alberto Gonçalves, uma excelente crónica
que é um prenúncio (espero que seja), do regresso de Pedro Passos Coelho
(qualquer que seja o meio de transporte utilizado), para que, finalmente, o PS2
"passos" a ser PSD. Obrigado e até para a semana. Maria Tejo > Rui Lima: O PS esquece, sistematicamente, o
facto de ter lutado achincalhando a chamada “saída limpa” da assistência da
Troika em 2014. Achavam eles que era cedo demais. O modelo para o PS /BE era a
Grécia da altura com resgates sucessivos. Pequeno detalhe apagado das narrativas
vigentes. O slogan que preferem (deve estar para ressurgir): o Passos foi além
da Troika. A nenhum dos “bem pensantes” interessou analisar as razões
subjacentes de tal Estratégia, que mais não pretendia que o País deixar de
estar de mão estendida e readquirir credibilidade nos mercados externos o mais
cedo possível. A partir de 2016 souberam bem, sem pudor ou vergonha, tirar
partido da herança deixada no erário público. Maria Emília Santos: O inimigo de Portugal tem muito medo de Passos
Coelho e, logo que ele entre nesta de novo, vai ser tão blasfemado como André
ventura, porque não partilha a cartilha da esquerda, tresloucada, globalista,
amoral, serva de Bruxelas, de fronteiras abertas para que entre tudo,
absolutamente tudo, amiga dos terroristas e inimiga dos polícias e autoridades,
amiga dos LGBTs e inimiga da Fé católica, e por aí vai! Passos Coelho é um Senhor que como Ventura ama
o seu país que é Portugal! Passos
anseia por dar o seu a seu dono e acabar com a corrupção e os portugueses que
não permitiram que lhes formatassem as mentes, também! Carlos F. Marques: Muito bom. Se PPC regressar à política activa
(espero que sim) estarão reunidas condições "únicas" para a Direita
fazer as reformas, que em 50 anos, nunca foram feitas. Tão depressa não voltará
a acontecer. Os Portugueses que acordem! José B Dias: E mais uma vez as verdades embaladas em
mordaz ironia ... subscrevo sem hesitação! Alberico Lopes: Alberto: o que dizer deste artigo? Excelente, como sempre! Antonio Rodrigues: Acabei de ouvir o Daniel Oliveira a falar
sobre Passos Coelho, a voz do homem até fica mais aguda. É muito divertido
ouvir as pessoas de esquerda falarem sobre 'falsos moralistas'. Só o efeito
pavloviano que Passos Coelho causa à esquerda já justifica as suas
intervenções. Perdem completamente a racionalidade, se é que têm alguma. Manuel Ferreira21: Excelente. Tenho receio que ele volte com
uma nova pré-bancarrota, desta vez, provocada pela AD. Os sinais estão todos
aí, não se deixem enganar, com ajudas PRR e Fundo temos
"crescimentos" de 1,9%, crescimento sem fundos e PRR deve ser
negativo. Agora com a tragédia de 6000 milhões (quase 2,5% do PIB) continuam a
fazer de conta que não se passa nada. Qualquer dia estão a lançar impostos e a
cortar nos vencimentos e reformas e o povo engolirá tudo. Lembram-se que
a culpa era da Merkel e da troika? A culpa agora vai ser de quem? António Lamas: É isso mesmo Alberto. O Luís assim não
vai lá. Será preciso alguém que deixe umas caixas de vinho com 75.800
euros nas estantes do seu chefe de gabinete Tristão: Passos Coelho foi, sem dúvida, uma figura
determinante no período da troika. Mas convém dizer as coisas como elas são:
ele governou com um guião previamente definido, imposto pelos credores
internacionais. Fosse Passos, fosse outro primeiro-ministro, mais cedo ou mais
tarde aquele programa teria de ser cumprido. A margem de manobra era reduzida.
Onde Passos Coelho verdadeiramente se distinguiu foi na convicção que aplicou o
programa. Acreditava que aquele caminho duro, impopular e exigente era
uma das poucas vias possíveis para endireitar o país. E quando uma política é
aplicada com convicção, os resultados tendem a ser diferentes. Aliás, Passos
Coelho chegou a dizer que gostaria de ir mais além da troika, não por
gosto pelo sacrifício, que foi a conotação que a oposição lhe quis atribuir
(resumindo, para eles Passos era um sádico), mas por ambição reformista. Queria
aproveitar aquele momento excepcional para corrigir problemas estruturais que
vinham de décadas. Isso distingue-o claramente. Por isso mesmo, foi uma pena
não ter vencido as eleições de 2015. Estou convencido de que, sem a troika já
em cena, Passos teria continuado a reformar o país por iniciativa própria.
Talvez, com o tempo, algumas mentalidades tivessem mudado. Em vez disso,
venceu a geringonça e tudo regressou ao normal: reversões, gestão de
curto-prazo, gestão política em vez de estratégia. Convém lembrar um
ponto essencial: Passos Coelho governou com maioria parlamentar. Isso fez
toda a diferença. E mesmo assim, não foi fácil. Tinha uma coligação com o CDS
que, em vários momentos, roeu a corda. As tensões eram tantas que nem dentro da
própria aliança a coesão era garantida. Foi preciso muito trabalho político
para manter o rumo. Agora, a
verdadeira pergunta é outra: como seria Passos Coelho hoje, sem maioria, num
contexto de normalidade institucional, sem uma troika a impor disciplina
externa? O que faria de diferente? Simples, as reformas que apresentasse seriam
chumbadas ou descaracterizadas. Enfrentaria greves, bloqueios parlamentares,
desgaste político. E provavelmente cairia pouco depois, em eleições
antecipadas. Porque aqui está o ponto central e talvez o mais incómodo: o
país não quer reformas. Ou, pelo menos, não quer reformas que o atinjam directamente. Quer reformas no quintal dos
outros, nunca no seu sector. Por isso, duvido muito que Passos Coelho volte à
política activa, a não ser num cenário de clamor profundo, transversal, quase
excepcional. E sinceramente, não vejo esse clamor a formar-se. Não acredito em
sebastianismos. Admiro Passos Coelho, mas não o vejo como um D. Sebastião nem
acho desejável que um país dependa de um homem providencial. Os problemas de
Portugal resolvem-se colectivamente. As lideranças são importantes, claro que
são. Mas sem apoio social, sem maturidade colectiva e sem continuidade
política, nenhuma liderança, por mais competente que seja, consegue
transformar um país. Um país que espera
tudo de um homem está, à partida, condenado.
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