Sobre um passado bem pensado, de glórias
nacionais causando admiração.
O domínio de Ormuz: a lição estratégica
que Portugal deu ao Mundo
A história
portuguesa em Ormuz não foi apenas um episódio de expansão marítima. Foi uma
demonstração precoce de pensamento estratégico global.
NUNO NABAIS FREIRE Jurista
OBSERVADOR, 12
mar. 2026, 00:032
Há
mais de quinhentos anos, os portugueses compreenderam algo que a
geopolítica contemporânea continua a confirmar, quem controla os estreitos controla o
comércio, e quem controla o comércio molda o poder global.
Muito antes de o petróleo transformar o Golfo Pérsico num dos centros
nervosos da economia mundial, o Estreito de Ormuz já era um ponto de passagem vital. Por ali
transitava um comércio vibrante de cavalos árabes, pérolas do Golfo e mercadorias
vindas da Índia e da Pérsia. Era uma porta marítima que ligava o oceano Índico
ao coração do Médio Oriente.
AFONSO
DE ALBUQUERQUE percebeu
isso com uma clareza estratégica extraordinária para o seu tempo. Na arquitectura
do império português na Ásia, Ormuz não era apenas mais uma cidade. Era
aquilo que o próprio chamou de a “terceira
chave” “do sistema imperial”, ao lado de Goa e Malaca.
Se Goa garantia
o domínio político e militar na Índia e Malaca
controlava a passagem para o sudeste asiático, Ormuz fechava o triângulo que permitia vigiar o
Golfo Pérsico e as rotas comerciais que ligavam a Índia à Pérsia e ao mundo
árabe.
A primeira tentativa portuguesa de
controlar Ormuz ocorreu em 1507. Albuquerque surgiu diante da cidade com uma frota surpreendentemente pequena, apenas
sete navios e cerca de quinhentos homens. Mesmo assim, conseguiu impor ao
soberano local um tratado que o obrigava a pagar tributo anual ao rei de
Portugal.
Pouco depois iniciou a construção de
uma fortaleza, Nossa Senhora da Vitória, destinada a consolidar a presença
portuguesa.
Mas a história raramente se faz sem
turbulência.
Nesse mesmo ano ocorreu o chamado “Motim
dos Capitães”, um
episódio de insubordinação em que três capitães abandonaram Albuquerque,
interrompendo o projecto e obrigando os portugueses a retirar temporariamente
da cidade.
A derrota foi apenas momentânea.
Em março de 1515, Albuquerque regressou com uma força muito maior, vinte
e sete navios, cerca de mil e quinhentos soldados portugueses e setecentos
auxiliares malabares. A 1 de abril retomou o controlo da cidade e reiniciou a construção da fortaleza, desta vez
dedicada a “Nossa Senhora da Conceição”.
Com esse gesto consolidou-se o domínio português sobre um dos pontos mais estratégicos do comércio global.
João Floriano: Um passado glorioso, um presente cinzento e
macambúzio. E ainda por cima, muitos esforçam-se para reescrever o passado
glorioso e não é certamente para o tornar ainda mais brilhante, mas para nos
lançar culpas imaginárias nos ombros. Lembro no entanto que apesar de a
estratégia ser brilhante por parte dos portugueses, já muito antes, 480 anos
antes de Cristo, os espartanos tinham aplicado o mesmo modus operandi na batalha das Termópilas contra os persas. E Esparta teria
vencido se não tivessem sido atraiçoados.
Manuel Matos: Este texto devia ser lido nas escolas a
propósito da actualidade....
Durante décadas, Ormuz funcionaria como uma verdadeira válvula de
controlo das rotas do Golfo Pérsico.
O que impressiona hoje não é apenas o feito militar, mas a visão
estratégica que o sustentava.
Sem satélites, sem mapas modernos, sem teorias geopolíticas formais, os
portugueses do século XVI compreenderam intuitivamente aquilo que estrategas
contemporâneos continuam a repetir, o poder marítimo depende do controlo de
“pontos de estrangulamento”.
Ormuz era um desses pontos.
Tal como hoje o são o estreito de Malaca, o canal de Suez ou o estreito
de Bab el-Mandeb.
Se olharmos para o mapa atual da energia mundial, percebemos que o
Estreito de Ormuz continua a ser uma das artérias mais sensíveis do planeta.
Cerca de um quinto do petróleo mundial passa por aquele corredor marítimo.
Ou seja, aquilo que para Albuquerque era uma chave do comércio asiático
continua a ser, cinco séculos depois, uma chave da economia global.
A história portuguesa em Ormuz não foi apenas um episódio de expansão
marítima. Foi uma demonstração precoce de pensamento estratégico global.
Portugal, um pequeno reino europeu na periferia do continente, percebeu
antes de muitos outros que o mundo moderno seria definido pelo domínio das
rotas marítimas.
Não se tratava apenas de explorar mares desconhecidos.
Tratava-se de compreender o mapa do poder.
E nesse mapa, Ormuz era uma peça central.
Cinco séculos depois, o mundo continua a girar em torno das mesmas
passagens estreitas que ligam oceanos, economias e civilizações.
Talvez a verdadeira lição de Ormuz seja esta, a geografia muda pouco,
mas quem a compreende primeiro costuma escrever a história.
HISTÓRIA CULTURA GEOPOLÍTICA
MUNDO
COMENTÁRIOS:
João Floriano: Um passado glorioso, um presente cinzento e
macambúzio. E ainda por cima , muitos esforçam-se para reescrever o passado
glorioso e não é certamente para o tornar ainda mais brilhante, mas para nos
lançar culpas imaginárias nos ombros. Lembro no entanto que apesar de a
estratégia ser brilhante por parte dos portugueses, já muito antes, 480 anos
antes de Cristo, os espartanos tinham aplicado o mesmo modus operandi na
batalha das Termópilas contra os persas. E Esparta teria vencido se não
tivessem sido atraiçoados.
Manuel Matos: Este texto devia ser lido nas escolas a propósito da actualidade....
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