segunda-feira, 9 de março de 2026

ONDE


E QUANDO já víramos isto, que se descreve aqui, em TEMPOS que por nós passaram com o horror da surpresa e do inútil repúdio, os revolucionários sendo da mesma cepa pedante destes aqui focados, que “destituíram” o Xá?… Mundo bem igual a si próprio, prova de que somos, de facto, descendentes de um comum barro quebradiço…

 

O QUE É UM AIATOLA?

Então um aiatola é um líder religioso ou um líder político?

Mas o que é, afinal, o Xiismo?

Como é que Khomeini transformou a liderança religiosa em poder político?

E o sucessor Khamenei foi um líder religioso ou um político profissional?

Khalid Jamal recorda que é necessário compreender as “causas da revolução” no Irão, sublinhando que a “impopularidade do regime dos xás” pode ser lida a partir de vários prismas. Por um lado, “promoveu a revolução branca, impulsionado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido” e, com isso, “a cultura ocidental estava a penetrar no Irão”. Tudo isto, acrescenta Jamal, acompanhado de uma “repressão organizada pela polícia secreta iraniana, que recorria a prisões e a torturas”.

Mas, continua Jamal, “as pessoas não mudam de regime se não enfrentarem fenómenos como a pobreza e a inflação; a impopularidade do regime era consequência da pobreza e da inflação”.

Para Khalid Jamal, também conselheiro da Comunidade Islâmica de Lisboa, no contexto deste descontentamento, “cria-se uma rivalidade islâmica” ao programa do Xá e “começa a crescer esse fenómeno de oposição à ocidentalização do Irão”. Para os iranianos, estas duas realidades (ocidentalização e aumento da pobreza) passam a estar associadas — e o apego à identidade tradicional do Irão, marcada pelo Islão xiita, ganha valor como bandeira de resistência ao xá. “É nessa altura que o aiatola Khomeini surge como promotor da revolução”, explica Jamal.

Mas a vontade de revolução transcendeu as fronteiras da classe clerical iraniana: este contexto alimentou o nascimento de uma grande frente de oposição ao regime do Xá, que uniu a classe clerical conservadora do Islão xiita, partidos de esquerda, intelectuais seculares, grupos nacionalistas e até movimentos pró-soviéticos. Esta frente unida encontrou o seu principal rosto no aiatola Ruhollah Khomeini, um estudioso muçulmano que vivia no exílio desde a década de 60 por ser um forte crítico do regime do Xá. Khomeini, antigo professor de filosofia que havia escrito em abundância sobre as suas ideias políticas para a formação de um estado de natureza islâmica, regido pela lei muçulmana, apresentou-se como um líder populista, prometendo liderar uma revolução em defesa de um Estado moderno e democrático.

“Houve uma subvalorização do aiatola Khomeini por parte do Xá, pensando que não ia dar em nada”, diz Jamal. “Obviamente isto tem por base a religião, porque se entende que é mais sedutor convencer as pessoas por via da religião do que por via de uma ideologia. Houve uma instrumentalização da religião para a obtenção de um fim.”

No início de 1978, jovens estudantes iranianos foram para as ruas de Teerão protestar contra o Xá, espoletando uma revolta que se prolongou por meses. A revolução foi violentamente reprimida, o que levou a uma escalada da violência, a greves na indústria do petróleo, a manifestações de centenas de milhares de pessoas nas ruas da capital e, por fim, à fuga do Xá em janeiro de 1979. Em fevereiro, as forças armadas declararam neutralidade e a população iraniana acorreu às ruas em massa para aclamar Khomeini como líder. O aiatola regressou do exílio e assumiu o poder — e rapidamente as promessas de um país moderno e secular caíram por terra.

Ser um forte crítico do regime do Xá.

Este contexto alimentou o nascimento de uma grande frente de oposição ao regime do Xá, que uniu a classe clerical conservadora do Islão xiita, partidos de esquerda, intelectuais seculares, grupos nacionalistas e até movimentos pró-soviéticos. Esta frente unida encontrou o seu principal rosto no aiatola Ruhollah Khomeini, um estudioso muçulmano que vivia no exílio desde a década de 60

Índice

O que é um aiatola?

Então um aiatola é um líder religioso ou um líder político?

Mas o que é, afinal, o Xiismo?

Como é que Khomeini transformou a liderança religiosa em poder político?

E o sucessor Khamenei foi um líder religioso ou um político profissional?

 

A nova constituição do Irão foi desenhada a partir das ideias de Khomeini para uma nação islâmica, a sharia foi implementada, os parceiros revolucionários de esquerda e seculares foram abandonados e o aiatola proclamou a fundação da República Islâmica do Irão, liderada pelos clérigos xiitas, impondo uma perseguição aos opositores ainda mais violenta do que havia ocorrido no tempo do Xá, revertendo a legislação que garantia mais direitos às mulheres e mobilizando para as ruas iranianas milícias fundamentalistas para garantir o cumprimento estrito da lei islâmica.

Khomeini, que escondeu as suas ambições políticas assumindo-se sempre como um líder religioso e um estudioso do Islão, deixou os seus parceiros revolucionários — incluindo os intelectuais seculares, os partidos de esquerda, as mulheres e as minorias étnicas e religiosas — com um forte sentimento de traição, depois de terem visto no Islão xiita uma bandeira da identidade iraniana capaz de unir o país na revolta contra o regime anterior

 

Mas o que é, afinal, o Xiismo?

O Islão, a religião fundada no século VII pelo profeta Maomé, considerado pelos muçulmanos o último de uma série de profetas da tradição abraâmica (incluindo, entre outros, Abraão, Moisés e Jesus) e o consumador da revelação divina iniciada por esses profetas anteriores, divide-se em duas grandes correntes: o Islão sunita, que é a corrente maioritária, seguida por cerca de 85% dos muçulmanos do mundo, e o Islão xiita, a corrente minoritária, seguida por cerca de 15% dos muçulmanos.

A grande divisão do mundo muçulmano aconteceu logo no início, após a morte do profeta Maomé, e prendeu-se justamente com os diferendos em relação à sua sucessão.

Como o Observador explica neste pormenorizado artigo, Maomé foi capaz de unir o mundo árabe, anteriormente composto por tribos beduínas dispersas que prestavam culto a diferentes deuses. Contudo, Maomé morreu em 632 sem ter um filho e sem deixar indicações claras sobre a sucessão, o que reacendeu antigas divergências nas comunidades. Rapidamente, surgiram duas fortes hipóteses para suceder a Maomé como líder dos muçulmanos: Abu Bakr, um dos mais próximos companheiros de Maomé, e Ali Ibn Abi Talib, primo e genro de Maomé (casado com a sua filha Fatima). Abu Bakr acabaria por assumir o poder como califa.

Aqueles primeiros tempos foram particularmente turbulentos, com califados curtos, assassinatos, intrigas familiares e cisões — mas a cisão inicial entre os partidários de Abu Bakr e os de Ali nunca mais foi curada. Os sunitas, partidários de Abu Bakr, entendem que Maomé não designou um sucessor, para que fosse a comunidade muçulmana a escolher o líder apropriado a cada momento; os xiitas, partidários de Ali, consideram que o genro e primo de Maomé foi explicitamente nomeado como líder da comunidade muçulmana e que só os descendentes directos do profeta podem assumir a liderança. Dentro destas correntes, há também subgrupos teológicos importantes, sendo que, no caso do Islão xiita, a esmagadora maioria dos fiéis integra a já mencionada corrente dos Doze Imãs.

Khalid Jamal, que é um muçulmano sunita (como a maioria dos muçulmanos portugueses e residentes em Portugal), destaca que esta divisão entre xiitas e sunitas traduz também uma visão muito diferente em relação à hierarquia. “Os sunitas são uma espécie de protestantes do mundo islâmico”, compara Jamal, referindo-se à corrente protestante do Cristianismo, na qual, ao contrário de correntes como a Igreja Católica ou a Igreja Ortodoxa, não existe uma hierarquia eclesiástica particularmente vincada. “Repare: quando o profeta faleceu, disse que a pessoa mais próxima dele seria o próximo líder. Nós, sunitas, acreditamos que Abu Bakr foi nomeado pelos seus pares por mérito, pela consciência de que os pares tinham de que ele era um homem merecedor. Os xiitas acreditam que o primeiro foi Ali, que era primo do profeta e depois se tornou seu genro. Portanto, acreditam que seria uma questão de hereditariedade, quase de dinastia.”

 No Irão dos aiatolas, não há fronteira entre liderança política e liderança religiosa

IRANIAN SUPREME LEADER OFFICE / HANDOUT/EPA

CONTINUA

 

 

 

 

 

 

 

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