E QUANDO já víramos isto, que se descreve
aqui, em TEMPOS que por nós passaram com o
horror da surpresa e do inútil repúdio, os revolucionários sendo da mesma cepa
pedante destes aqui focados, que “destituíram” o Xá?… Mundo bem igual a si próprio,
prova de que somos, de facto, descendentes de um comum barro quebradiço…
Então um aiatola é um líder religioso ou um líder
político?
Mas o que é, afinal, o Xiismo?
Como é que Khomeini transformou a liderança religiosa em
poder político?
E o sucessor Khamenei foi um líder religioso ou um
político profissional?
Khalid Jamal
recorda que é necessário compreender as “causas da revolução” no Irão,
sublinhando que a “impopularidade do regime dos xás” pode ser lida a partir de
vários prismas. Por um lado, “promoveu a revolução branca, impulsionado pelos
Estados Unidos e pelo Reino Unido” e, com isso, “a cultura ocidental estava a
penetrar no Irão”. Tudo isto, acrescenta Jamal, acompanhado de uma “repressão
organizada pela polícia secreta iraniana, que recorria a prisões e a torturas”.
Mas, continua
Jamal, “as pessoas não mudam de regime se não enfrentarem fenómenos como a
pobreza e a inflação; a impopularidade do regime era consequência da pobreza e
da inflação”.
Para Khalid
Jamal, também conselheiro da Comunidade Islâmica de Lisboa, no
contexto deste descontentamento, “cria-se uma rivalidade islâmica” ao programa
do Xá e “começa a crescer esse fenómeno de oposição à ocidentalização do Irão”.
Para os iranianos, estas duas realidades (ocidentalização e aumento da pobreza)
passam a estar associadas — e o apego à identidade tradicional do Irão, marcada
pelo Islão xiita, ganha valor como bandeira de resistência ao xá. “É nessa altura
que o aiatola Khomeini surge como promotor da revolução”, explica Jamal.
Mas a vontade de
revolução transcendeu as fronteiras da classe clerical iraniana: este contexto
alimentou o nascimento de uma grande frente de oposição ao regime do Xá, que
uniu a classe clerical conservadora do Islão xiita, partidos de esquerda,
intelectuais seculares, grupos nacionalistas e até movimentos pró-soviéticos.
Esta frente unida encontrou o seu principal rosto no aiatola Ruhollah Khomeini,
um estudioso muçulmano que vivia no exílio desde a década de 60 por ser um
forte crítico do regime do Xá. Khomeini, antigo professor de filosofia que
havia escrito em abundância sobre as suas ideias políticas para a formação de
um estado de natureza islâmica, regido pela lei muçulmana, apresentou-se como
um líder populista, prometendo liderar uma revolução em defesa de um Estado
moderno e democrático.
“Houve uma
subvalorização do aiatola Khomeini por parte do Xá, pensando que não ia dar em
nada”, diz Jamal. “Obviamente isto tem por base a religião, porque se entende
que é mais sedutor convencer as pessoas por via da religião do que por via de
uma ideologia. Houve uma instrumentalização da religião para a obtenção de um
fim.”
No início de 1978,
jovens estudantes iranianos foram para as ruas de Teerão protestar contra o Xá,
espoletando uma revolta que se prolongou por meses. A revolução foi
violentamente reprimida, o que levou a uma escalada da violência, a greves na
indústria do petróleo, a manifestações de centenas de milhares de pessoas nas
ruas da capital e, por fim, à fuga do Xá em janeiro de 1979. Em fevereiro, as
forças armadas declararam neutralidade e a população iraniana acorreu às ruas
em massa para aclamar Khomeini como líder. O aiatola regressou do exílio e
assumiu o poder — e rapidamente as promessas de um país moderno e secular
caíram por terra.
Ser um forte crítico do regime do Xá.
Este contexto
alimentou o nascimento de uma grande frente de oposição ao regime do Xá, que
uniu a classe clerical conservadora do Islão xiita, partidos de esquerda,
intelectuais seculares, grupos nacionalistas e até movimentos pró-soviéticos.
Esta frente unida encontrou o seu principal rosto no aiatola Ruhollah Khomeini,
um estudioso muçulmano que vivia no exílio desde a década de 60
Índice
Então um
aiatola é um líder religioso ou um líder político?
Mas o que é,
afinal, o Xiismo?
Como é que
Khomeini transformou a liderança religiosa em poder político?
E o sucessor
Khamenei foi um líder religioso ou um político profissional?
A nova
constituição do Irão foi desenhada a partir das ideias de Khomeini para uma
nação islâmica, a sharia foi implementada, os parceiros
revolucionários de esquerda e seculares foram abandonados e o aiatola proclamou
a fundação da República Islâmica do Irão, liderada pelos clérigos
xiitas, impondo uma perseguição aos opositores ainda mais violenta do que havia
ocorrido no tempo do Xá, revertendo a legislação que garantia mais direitos às
mulheres e mobilizando para as ruas iranianas milícias fundamentalistas para
garantir o cumprimento estrito da lei islâmica.
Khomeini, que
escondeu as suas ambições políticas assumindo-se sempre como um líder religioso
e um estudioso do Islão, deixou os seus parceiros revolucionários — incluindo
os intelectuais seculares, os partidos de esquerda, as mulheres e as minorias
étnicas e religiosas — com um forte sentimento de traição, depois de terem
visto no Islão xiita uma bandeira da identidade iraniana capaz de unir o país
na revolta contra o regime anterior
Mas o que é, afinal, o Xiismo?
O Islão, a
religião fundada no século VII pelo profeta Maomé, considerado pelos muçulmanos
o último de uma série de profetas da tradição abraâmica (incluindo, entre
outros, Abraão, Moisés e Jesus) e o consumador da revelação divina iniciada por
esses profetas anteriores, divide-se em duas grandes correntes: o
Islão sunita, que é a corrente maioritária, seguida por cerca de 85% dos
muçulmanos do mundo, e o Islão xiita, a corrente minoritária,
seguida por cerca de 15% dos muçulmanos.
A grande divisão
do mundo muçulmano aconteceu logo no início, após a morte do profeta Maomé, e
prendeu-se justamente com os diferendos em relação à sua sucessão.
Como o Observador explica neste pormenorizado artigo,
Maomé foi capaz de unir o mundo árabe, anteriormente composto por tribos
beduínas dispersas que prestavam culto a diferentes deuses. Contudo,
Maomé morreu em 632 sem ter um filho e sem deixar indicações claras sobre a
sucessão, o que reacendeu antigas divergências nas comunidades. Rapidamente,
surgiram duas fortes hipóteses para suceder a Maomé como líder dos muçulmanos:
Abu Bakr, um dos mais próximos companheiros de Maomé, e Ali Ibn Abi Talib,
primo e genro de Maomé (casado com a sua filha Fatima). Abu Bakr acabaria por
assumir o poder como califa.
Aqueles primeiros
tempos foram particularmente turbulentos, com califados curtos, assassinatos,
intrigas familiares e cisões — mas a cisão inicial entre os partidários de Abu
Bakr e os de Ali nunca mais foi curada. Os sunitas, partidários
de Abu Bakr, entendem que Maomé não designou um sucessor, para que fosse a
comunidade muçulmana a escolher o líder apropriado a cada momento; os
xiitas, partidários de Ali, consideram que o genro e primo de Maomé foi
explicitamente nomeado como líder da comunidade muçulmana e que só os
descendentes directos do profeta podem assumir a liderança. Dentro destas
correntes, há também subgrupos teológicos importantes, sendo que, no caso do
Islão xiita, a esmagadora maioria dos fiéis integra a já mencionada corrente
dos Doze Imãs.
Khalid Jamal, que é um muçulmano sunita (como
a maioria dos muçulmanos portugueses e residentes em Portugal), destaca que esta
divisão entre xiitas e sunitas traduz também uma visão muito diferente em
relação à hierarquia. “Os sunitas são uma espécie de protestantes do
mundo islâmico”, compara Jamal, referindo-se à corrente protestante do
Cristianismo, na qual, ao contrário de correntes como a Igreja Católica ou a
Igreja Ortodoxa, não existe uma hierarquia eclesiástica particularmente vincada.
“Repare: quando o profeta faleceu, disse que a pessoa mais próxima dele seria o
próximo líder. Nós, sunitas, acreditamos que Abu Bakr foi nomeado pelos seus
pares por mérito, pela consciência de que os pares tinham de que ele era um
homem merecedor. Os xiitas acreditam que o primeiro foi Ali, que era primo do
profeta e depois se tornou seu genro. Portanto, acreditam que seria uma questão
de hereditariedade, quase de dinastia.”
▲ No Irão dos aiatolas,
não há fronteira entre liderança política e liderança religiosa
IRANIAN SUPREME
LEADER OFFICE / HANDOUT/EPA
CONTINUA
Nenhum comentário:
Postar um comentário