Em leituras, como forma
evocatória de um passado diferente do presente menos sugestivo… Até ver, em breve passado igualmente, quem
sabe se de memória sugestiva também… Que, afinal, essa está em cada um de nós…
Mas há quem saiba exprimi-la mais finamente, é certo.
Na
contramão dos dias
Devia escrever sobre Direito Internacional, Trump, o Irão, o puzzle do
Médio Oriente, as Lajes, um Marcelo agora entregue a ele próprio. Mas Ingmar Bergman,
Tcheckov e o mundo de ontem não deixaram.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do OBSERVADOR
OBSERVADOR,
04 mar. 2026, 00:2612
1Guerra e despedidas, estranha
aliança. estranhos dias. Ver para descrer. Mas também estranhamente, o ar do
tempo está tingido de uma fina melancolia: a certeza que já tínhamos mas que
agora galopa, de que o mundo – o “nosso”
– se pulverizou; a traição de regras e comportamentos; o fim deste ciclo
político português e o complexíssimo começo de outro. E até a despedida de
algumas pessoas que quase silenciosamente nos deixaram.
Alguns chamarão a isto nostalgia
e eu que não sou nostálgica – teria submergido se o fosse – hoje também chamo. Não que o passado
tenha a última palavra — não se lhe pode consentir isso — mas há momentos em
que ele volta sem pré aviso e de mansinho, ou irrompe com estrondo e decisão. E eis-nos desprevenidamente com um pé no
desconcertado solo de hoje, e outro, na ilusão da imutabilidade do chão de
ontem. Tentando esse “delicate
balance” de que falava Albee.
2Devia naturalmente escrever
sobre o Direito Internacional, o futuro do Irão, o desnorteio alucinado de
Trump, o puzzle do Médio Oriente, as Lajes. Isso. Sucede que não me foi compatível com o ter passado os
últimos dias num chão de “ontens”; o do mundo que era o meu; o do sublime
Ingmar Bergman que revejo no Nimas, sempre com a coração a doer-me; o de
Tchekhov e da sua desamparada “Gaivota” que agora pousou no Trindade; o
da descida em plano inclinado para papéis, textos, cartas, imagens, que de
algum modo tinham a ver comigo; o da notícia da morte de Vítor Dias, quadro do
Partido Comunista que durante muitos anos vi muitas vezes na rua lisboeta onde
mora o PC. E eis o que subitamente me interpelou mais que o
perigo dos dias.
Mesmo sabendo que estamos
definitivamente noutra história e que daqui a cinco dias Marcelo ficará sozinho
consigo próprio.
3Muito pouco tempo antes da morte de Vítor
Dias pedi a alguém da “casa” o favor
de se informar sobre se eu podia vê-lo (ignorando totalmente que estava doente,
há mais de trinta anos que pouco sabia dele).
“Não podia”: não estava “em condições”.
Tive pena. Dias depois, uma
mensagem: “tinha falecido”. Não são coincidências, são encenações que
nos transcendem.
Durante um bom par de anos que
para mim começaram em 1976, ainda na Rua António Serpa, era o Vítor que me
encaminhava até uma divisão onde momentos depois surgia o dr. Álvaro Cunhal. E ou se seguia uma entrevista
pura e dura – a primeira foi nesse ano de 1976 mas houve outras – ou
“se” conversava. O Vítor era o mensageiro
que me conduzia pelo edifício e também conversávamos. Parecia-me que ali
até as paredes me detestavam – não era uma estranha indevida? –, mas por alguma
razão eu ia lá e havia sempre troca de palavras com Vítor Dias. E a presença permanente da discordância bem
comportada, o sal da ironia, alguns pedidos meus sobre novas encontros, prazos
de entrega disto ou daquilo. Havia, enfim, palavras e vida, naquele
trânsito conhecido. Um dia levei-lhe uma cassete VHS de Herman José pedindo que a entregasse ao dr. Cunhal (que talvez
tenha ficado curioso com a energia com que lhe falei do genial Herman e aceitou
a minha oferta).
Nem um músculo se moveu no rosto
do Vítor – nunca se movia, não era suposto; nunca
lhe ouvi nada que saísse do previsto, mas não tinha importância, eu sabia que
era assim. O que em nada impediu (da minha parte, obviamente) atenção – era
um bom quadro – e alguma cumplicidade na certeza de que aquela rotina seria sempre aquela rotina. E foi e nunca esqueci. Não
sei o que me terá feito, há dias, pedir para o ver nas vésperas da sua morte
sem saber sequer quão doente estava. Sei o que importa: era certamente – não
podia deixar de ser – para falarmos disto tudo, tantos anos depois. Dizer pena
é pouco.
4Comecei a ler praticamente
pelo teatro onde Tchekhov tinha um lugar só dele. Grande, imenso, maestro da indizível
dificuldade de ser dos seus personagens, cerzindo como que um “espírito”
Tcheckov, mas cerzindo-o, com os fios da irremediabilidade.
A actriz, linda e A
primeira “Gaivota” que vira fora a de
Romy Schneider no
S. Luís, numas temporadas de teatro francês que durante algumas épocas de feliz
memória, no final dos anos sessenta, visitaram aquele palco português. Novíssima,
era ainda uma desamparada Gaivota quando no fim do espectáculo pude conhecê-la
no seu camarim. No
espelho havia um telegrama de amor de Alain Delon com quem ela vivia, mas o que
guardei até hoje foi a palidez de uma gaivota destroçada, na solidão de um
pequeno camarim onde tudo lhe era desconhecido. Desta vez, com os pés
assentes em 2026, corri para o Trindade onde o encenador Diogo Infante – outro personagem – “reviu” o texto e
escolheu dá-lo a ver, envolvido e definido pelos dias de hoje. De início confundi-me: talvez
por não ter de imediato acompanhado o voo do encenador, talvez pela surpresa. E no entanto… à medida que os
personagens se dilaceravam diante de nós, –pungentemente magníficos o terceiro
e quarto actos! – lá estava Tcheckov, em
toda a sua dorida escrita. Se
eu pudesse tinha-lhes dito do meu camarote para o palco que voltassem atrás –
como nos vídeos – e os “vivessem” ali outra vez.
5 Se seu pudesse pedia aos deuses um intervalo. Breve que fosse. Entre o
mundo de ontem e o que aí está a que ainda não sei dar nome.
CRÓNICA OBSERVADOR TEATRO CULTURA PCP POLÍTICA
COMENTÁRIOS
ANA RITA: “o
desnorteio alucinado de Trump”!! Porquê? Já percebi. É porque sim, porque fica bem dizer mal de Trump. Clara
Viana: Belíssimo
texto. Henrique
Neves: Farto
da conversa sobre o Direito Internacional, impossível de apelo, com o direito
de veto na ONU e com a prática desde o início do consulado dos ayatolla do
Irão, com a invasão da embaixada USA em Teerão e o sequestro dos funcionários. Alexandre
Barreira: Pois.
Cara MJA, Divinal.....tiro o chapéu......! Ruço
Cascais: Curioso,
a caríssima escreve que não é nostálgica, mas, grande parte do que escreve e
comenta é sobre as virtudes políticas do passado recente. Confesso que me
irrita profundamente quando defendemos que a política que se fazia nos tempos
de Mário Soares e Cavaco Silva era uma política com nobreza ao contrário da que
se faz aos dias de hoje. Na minha
opinião é tudo a mesma coisa. Os líderes de hoje são tão bons, ou tão maus,
conforme preferirmos, como os líderes do passado. Cada um no seu tempo. Messi
também não pode ser comparado com Pelé, os tempos de cada um também não são
comparáveis.
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