quinta-feira, 5 de março de 2026

Refúgio

 

Em leituras, como forma evocatória de um passado diferente do presente menos sugestivo…  Até ver, em breve passado igualmente, quem sabe se de memória sugestiva também… Que, afinal, essa está em cada um de nós… Mas há quem saiba exprimi-la mais finamente, é certo.

Na contramão dos dias

Devia escrever sobre Direito Internacional, Trump, o Irão, o puzzle do Médio Oriente, as Lajes, um Marcelo agora entregue a ele próprio. Mas Ingmar Bergman, Tcheckov e o mundo de ontem não deixaram.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do OBSERVADOR

OBSERVADOR,

04 mar. 2026, 00:2612

1Guerra e despedidas, estranha aliança. estranhos dias. Ver para descrer. Mas também estranhamente, o ar do tempo está tingido de uma fina melancolia: a certeza que já tínhamos mas que agora galopa, de que o mundo – o “nosso” – se pulverizou; a traição de regras e comportamentos; o fim deste ciclo político português e o complexíssimo começo de outro. E até a despedida de algumas pessoas que quase silenciosamente nos deixaram.

Alguns chamarão a isto nostalgia e eu que não sou nostálgica – teria submergido se o fosse – hoje também chamo. Não que o passado tenha a última palavra — não se lhe pode consentir isso — mas há momentos em que ele volta sem pré aviso e de mansinho, ou irrompe com estrondo e decisão. E eis-nos desprevenidamente com um pé no desconcertado solo de hoje, e outro, na ilusão da imutabilidade do chão de ontem. Tentando esse “delicate balance” de que falava Albee.

2Devia naturalmente escrever sobre o Direito Internacional, o futuro do Irão, o desnorteio alucinado de Trump, o puzzle do Médio Oriente, as Lajes. Isso. Sucede que não me foi compatível com o ter passado os últimos dias num chão de “ontens”; o do mundo que era o meu; o do sublime Ingmar Bergman que revejo no Nimas, sempre com a coração a doer-me; o de Tchekhov e da sua desamparada “Gaivota” que agora pousou no Trindade; o da descida em plano inclinado para papéis, textos, cartas, imagens, que de algum modo tinham a ver comigo; o da notícia da morte de Vítor Dias, quadro do Partido Comunista que durante muitos anos vi muitas vezes na rua lisboeta onde mora o PC. E eis o que subitamente me interpelou mais que o perigo dos dias.

Mesmo sabendo que estamos definitivamente noutra história e que daqui a cinco dias Marcelo ficará sozinho consigo próprio.

3Muito pouco tempo antes da morte de Vítor Dias pedi a alguém da “casa” o favor de se informar sobre se eu podia vê-lo (ignorando totalmente que estava doente, há mais de trinta anos que pouco sabia dele).

“Não podia”: não estava “em condições”.

Tive pena. Dias depois, uma mensagem: “tinha falecido”. Não são coincidências, são encenações que nos transcendem.

Durante um bom par de anos que para mim começaram em 1976, ainda na Rua António Serpa, era o Vítor que me encaminhava até uma divisão onde momentos depois surgia o dr. Álvaro Cunhal. E ou se seguia uma entrevista pura e dura – a primeira foi nesse ano de 1976 mas houve outras – ou “se” conversava. O Vítor era o mensageiro que me conduzia pelo edifício e também conversávamos. Parecia-me que ali até as paredes me detestavam – não era uma estranha indevida? –, mas por alguma razão eu ia lá e havia sempre troca de palavras com Vítor Dias. E a presença permanente da discordância bem comportada, o sal da ironia, alguns pedidos meus sobre novas encontros, prazos de entrega disto ou daquilo. Havia, enfim, palavras e vida, naquele trânsito conhecido. Um dia levei-lhe uma cassete VHS de Herman José pedindo que a entregasse ao dr. Cunhal (que talvez tenha ficado curioso com a energia com que lhe falei do genial Herman e aceitou a minha oferta).

Nem um músculo se moveu no rosto do Vítor – nunca se movia, não era suposto; nunca lhe ouvi nada que saísse do previsto, mas não tinha importância, eu sabia que era assim. O que em nada impediu (da minha parte, obviamente) atenção – era um bom quadro – e alguma cumplicidade na certeza de que aquela rotina seria sempre aquela rotina. E foi e nunca esqueci. Não sei o que me terá feito, há dias, pedir para o ver nas vésperas da sua morte sem saber sequer quão doente estava. Sei o que importa: era certamente – não podia deixar de ser – para falarmos disto tudo, tantos anos depois. Dizer pena é pouco.

4Comecei a ler praticamente pelo teatro onde Tchekhov tinha um lugar só dele. Grande, imenso, maestro da indizível dificuldade de ser dos seus personagens, cerzindo como que um “espírito” Tcheckov, mas cerzindo-o, com os fios da irremediabilidade.

A actriz, linda e A primeira “Gaivota” que vira fora a de Romy Schneider no S. Luís, numas temporadas de teatro francês que durante algumas épocas de feliz memória, no final dos anos sessenta, visitaram aquele palco português. Novíssima, era ainda uma desamparada Gaivota quando no fim do espectáculo pude conhecê-la no seu camarim. No espelho havia um telegrama de amor de Alain Delon com quem ela vivia, mas o que guardei até hoje foi a palidez de uma gaivota destroçada, na solidão de um pequeno camarim onde tudo lhe era desconhecido. Desta vez, com os pés assentes em 2026, corri para o Trindade onde o encenador Diogo Infante – outro personagem – “reviu” o texto e escolheu dá-lo a ver, envolvido e definido pelos dias de hoje. De início confundi-me: talvez por não ter de imediato acompanhado o voo do encenador, talvez pela surpresa. E no entanto… à medida que os personagens se dilaceravam diante de nós, –pungentemente magníficos o terceiro e quarto actos! – lá estava Tcheckov, em toda a sua dorida escrita. Se eu pudesse tinha-lhes dito do meu camarote para o palco que voltassem atrás – como nos vídeos – e os “vivessem” ali outra vez.

5 Se seu pudesse pedia aos deuses um intervalo. Breve que fosse. Entre o mundo de ontem e o que aí está a que ainda não sei dar nome.

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COMENTÁRIOS

ANA RITA:  “o desnorteio alucinado de Trump”!! Porquê? Já percebi. É porque sim, porque fica bem dizer mal de Trump.                   Clara Viana: Belíssimo texto.                        Henrique Neves: Farto da conversa sobre o Direito Internacional, impossível de apelo, com o direito de veto na ONU e com a prática desde o início do consulado dos ayatolla do Irão, com a invasão da embaixada USA em Teerão e o sequestro dos funcionários.                        Alexandre Barreira: Pois. Cara MJA, Divinal.....tiro o chapéu......!                        Ruço Cascais: Curioso, a caríssima escreve que não é nostálgica, mas, grande parte do que escreve e comenta é sobre as virtudes políticas do passado recente.  Confesso que me irrita profundamente quando defendemos que a política que se fazia nos tempos de Mário Soares e Cavaco Silva era uma política com nobreza ao contrário da que se faz aos dias de hoje.  Na minha opinião é tudo a mesma coisa. Os líderes de hoje são tão bons, ou tão maus, conforme preferirmos, como os líderes do passado. Cada um no seu tempo. Messi também não pode ser comparado com Pelé, os tempos de cada um também não são comparáveis. 

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