A dizer “piadas”,
ou a escutá-las, pois que também se diz que «Le rire est le propre de l'homme». Les
larmes, aussi, hélas! - o ser humano possuindo capacidades em grau bem
superior às dos demais espécimes animais, entre as quais também a fala, nas
línguas várias deste mundo racional. Miguel Tamen assim se diverte, perscrutando tais horizontes da
espiritualidade humana. Tudo isso admirável, de facto.
O riso e
a graça
Para os engraçados a graça é um
investimento sério, como no mercado de acções. O riso de terceiros é o lucro
desse investimento.
MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa
Alguém diz uma graça e outra pessoa ri-se; concluímos que se riu dessa
graça, embora se possa ter rido de outra coisa que coincidiu no tempo com a
graça, ou de quem disse a graça, em especial porque raramente imagina que alguém se possa rir dele.
É, não obstante, razoável concluir que na maior parte dos casos se riu
por causa dessa graça, e também imaginar que existe uma relação entre uma coisa
que foi dita (a graça) e uma coisa que aconteceu (alguém por perto rir-se):
concluir que havia uma coisa especial, uma propriedade, naquilo que foi dito,
que fez rir alguém.
Falar sobre propriedades é parecido com falar sobre substâncias activas. Talvez uma boa graça tenha uma
substância activa que causa o riso. O óxido nitroso é um gás usado às vezes pelos dentistas como
analgésico, mas que também causa o riso. Não é contudo nesse sentido que achamos que a graça tem propriedades
que causam o riso. Com efeito, no
dentista sorrimos irresistivelmente ao óxido nitroso; pelo contrário, gostamos
de pensar que, apesar de nos rirmos imediatamente das boas graças, temos a
escolha de não nos rir delas irresistivelmente, isto é, de não achar graça a
uma graça. Quem se ri de uma graça gosta
de pensar que poderia não lhe ter achado graça.
Quem diz a graça espera, regra geral, que quem a oiça se ria. Não
espera porém como quem espera que as pessoas se riam irresistivelmente com o
óxido nitroso. A diferença é como
a diferença entre esperar que um gás cause riso e esperar por um autocarro.
Mas há várias maneiras de esperar por um autocarro: esperar que as pessoas se
riam das nossas graças não é como esperar que o autocarro chegue; ou sequer
como esperar que o autocarro chegue nos próximos quatro minutos; é mais
parecido com apostar com alguém que o autocarro vai chegar nos próximos quatro
minutos. As esperanças do engraçado são
como as esperanças de um apostador. E para um apostador as
propriedades daquilo que o fará ganhar a aposta não são o mais importante.
Para a maior parte das
pessoas a vida não depende de esperarem que as suas graças tenham sucesso; e
por isso não depende de fazerem apostas sobre se alguém se irá rir do que dizem. Mas o
modo de vida dos engraçados depende de ganharem apostas dessas.
Para eles, a graça é um investimento
sério, como no mercado de acções. O
riso de terceiros é o lucro desse investimento: uma coisa que se passa no
mundo, como numa assembleia de accionistas de uma companhia, e que prolonga a
sua vida engraçada. Sabemos
que a vida de um engraçado corre bem quando o público começa a rir-se ainda
antes da sua primeira graça; quando o público passa a apostar que o engraçado
vai ganhar a sua aposta.
COMENTÁRIOS (de 29)
Novo Assinante: Muito bom. Lembro-me muito bem da Cathy Bernheim. Andei com ela na tropa
era muito boa pessoa e muito bem comportada. Pelo contrário, o João Goulão era
um trafulha quando estávamos a jogar copas, mas também me lembro que a
companheira Fernanda fazia uns pastéis de bacalhau com arroz do mesmo muito
saborosos. O fenómeno do Oregon State Law Case aprendi no terceiro ano de
escolaridade quando tinha nove anos, não foi durante a tropa.
João Floriano: Se despejar dinheiro sobre a praga das drogas
fosse a solução,
então as famílias com recursos estariam livres do flagelo e da destruição que
provoca porque bastaria resolver o problema com dinheiro. Mas o problema coloca-se sobretudo ao nível dos
valores, do facilitismo e da destruição da família e do que está à sua volta. Os jovens e aqueles que não o sendo se eternizam
numa adolescência irritante, sem fim , onde o amadurecimento não chega, adoram
o facilitismo, o prazer imediato e resistir a drogas e outros vícios requer
sacrifícios, muita disciplina, força de vontade, tudo coisas que eles não
praticam ou não praticaram dado o facilitismo que sempre os acompanhou, o
desprezo pela disciplina, pelos pais caretas que lhes pregam sermões sobre os
charros que até são inocentes. Geralmente começa-se pelo cigarro, pelo charro e daí
se faz o percurso para as outras drogas até chegar ao inferno das sintéticas.
Pensemos em Amsterdão, uma cidade tradicionalmente amiga e permissiva de drogas
leves em particular a cannabis. Um
amanhecer na Praça Dam mostrava um cenário desolador de lixo, imundicie,
dejectos, urina. Estive em Amsterdão em 2024 e estava em curso uma campanha
para recuperar a cidade da cannabis. Anos atrás Zurique, vá-se lá saber os motivos, mas
talvez devido a algum político iluminado, resolveu ser condescendente com as
drogas.
A experiência foi sol de pouca dura porque as principais ruas de Zurique ficaram praticamente
destruidas, lojas fechadas e com gente de toda a espécie, jovens e não
só, deitados nos passeios. De
um modo geral a Europa, Portugal incluido, é muito tolerante com o consumidor e
com o pequeno traficante. E a droga é muito lucrativa para quem vende e
destrutiva para quem consome. E não é
apenas a estrutura familiar que fica abalada e muitas vezes desfeita pelo vício
de um dos seus membros. Todos conhecemos vários casos. Em última
instância é a própria Europa que fica abalada, fragilizada, desmoralizada.
Paulo Cardoso: Tenho para comigo, admitindo poder
encontrar-me errado, que o combate à situação instalada e ao seu antecipável
agravamento, terá obrigatoriamente de
retomar a penalização e criminalização do consumo. A pena, numa primeira
detenção, passaria por uma desintoxicação ou, caso não fosse necessária, uma acção
de formação preventiva, com a mesma duração e no mesmo regime dos programas de
desintoxicação. À primeira reincidência, pena de prisão efectiva, sem
mordomias, e prestação de serviço obrigatório à comunidade, sem qualquer
remuneração. Quanto
mais não fora, acabava com o artifício do traficante, na posse da quantidade
que tão bem sabe qual é, poder alegar que é para consumo próprio. O combate ao narco tráfico, de tão
enraizado que está, já só lá vai com o regresso à penalização do consumo. Agir a montante apenas,
já não dá conta do recado. Há que actuar também a jusante.
Francisco Almeida: O filme "Os Incorruptíveis Contra a
Droga" ilustra bem o problema da "guerra" contra a droga. Encarada
apenas pelo lado da oferta, os meios necessários para a sua erradicação seriam
incompatíveis com um Estado de direito e democrático. Trump está a repetir esse erro a nível
internacional, combater a oferta sem limitar a procura. Há muito que estou
convencido que, sendo a droga impossível de eliminar totalmente, o combate para
a conter em níveis reduzidos, tem de ser dirigido também à procura,
ilegalizando sempre e criminalizando por vezes. Como titula a profª Patrícia Fernandes, já
se poderá falar sobre o problema das drogas mas, em Portugal, estamos ainda longe de o poder combater
com eficácia, sequer, de mudar o paradigma. Salas de chuto para que a sociedade
não tenha de se sentir incomodada com a visão da degradação e substituição de
seringas, pelo mesmo motivo.
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