quarta-feira, 25 de março de 2026

Há quem se divirta

 

A dizer “piadas”, ou a escutá-las, pois que também se diz que «Le rire est le propre de l'homme». Les larmes, aussi, hélas! - o ser humano possuindo capacidades em grau bem superior às dos demais espécimes animais, entre as quais também a fala, nas línguas várias deste mundo racional. Miguel Tamen assim se diverte, perscrutando tais horizontes da espiritualidade humana. Tudo isso admirável, de facto.

 

O riso e a graça

Para os engraçados a graça é um investimento sério, como no mercado de acções. O riso de terceiros é o lucro desse investimento.

MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

Alguém diz uma graça e outra pessoa ri-se; concluímos que se riu dessa graça, embora se possa ter rido de outra coisa que coincidiu no tempo com a graça, ou de quem disse a graça, em especial porque raramente imagina que alguém se possa rir dele.   É, não obstante, razoável concluir que na maior parte dos casos se riu por causa dessa graça, e também imaginar que existe uma relação entre uma coisa que foi dita (a graça) e uma coisa que aconteceu (alguém por perto rir-se): concluir que havia uma coisa especial, uma propriedade, naquilo que foi dito, que fez rir alguém.

Falar sobre propriedades é parecido com falar sobre substâncias activas. Talvez uma boa graça tenha uma substância activa que causa o riso. O óxido nitroso é um gás usado às vezes pelos dentistas como analgésico, mas que também causa o riso. Não é contudo nesse sentido que achamos que a graça tem propriedades que causam o riso. Com efeito, no dentista sorrimos irresistivelmente ao óxido nitroso; pelo contrário, gostamos de pensar que, apesar de nos rirmos imediatamente das boas graças, temos a escolha de não nos rir delas irresistivelmente, isto é, de não achar graça a uma graça. Quem se ri de uma graça gosta de pensar que poderia não lhe ter achado graça.

Quem diz a graça espera, regra geral, que quem a oiça se ria. Não espera porém como quem espera que as pessoas se riam irresistivelmente com o óxido nitroso. A diferença é como a diferença entre esperar que um gás cause riso e esperar por um autocarro. Mas há várias maneiras de esperar por um autocarro: esperar que as pessoas se riam das nossas graças não é como esperar que o autocarro chegue; ou sequer como esperar que o autocarro chegue nos próximos quatro minutos; é mais parecido com apostar com alguém que o autocarro vai chegar nos próximos quatro minutos. As esperanças do engraçado são como as esperanças de um apostador.  E para um apostador as propriedades daquilo que o fará ganhar a aposta não são o mais importante.

Para a maior parte das pessoas a vida não depende de esperarem que as suas graças tenham sucesso; e por isso não depende de fazerem apostas sobre se alguém se irá rir do que dizem. Mas o modo de vida dos engraçados depende de ganharem apostas dessasPara eles, a graça é um investimento sério, como no mercado de acções. O riso de terceiros é o lucro desse investimento: uma coisa que se passa no mundo, como numa assembleia de accionistas de uma companhia, e que prolonga a sua vida engraçadaSabemos que a vida de um engraçado corre bem quando o público começa a rir-se ainda antes da sua primeira graça; quando o público passa a apostar que o engraçado vai ganhar a sua aposta.

ERRO EXTREMO       OBSERVADOR

COMENTÁRIOS (de 29)
Novo Assinante: Muito bom. Lembro-me muito bem da Cathy Bernheim. Andei com ela na tropa era muito boa pessoa e muito bem comportada. Pelo contrário, o João Goulão era um trafulha quando estávamos a jogar copas, mas também me lembro que a companheira Fernanda fazia uns pastéis de bacalhau com arroz do mesmo muito saborosos. O fenómeno do Oregon State Law Case aprendi no terceiro ano de escolaridade quando tinha nove anos, não foi durante a tropa.

João Floriano: Se despejar dinheiro sobre a praga das drogas fosse a solução, então as famílias com recursos estariam livres do flagelo e da destruição que provoca porque bastaria resolver o problema com dinheiro. Mas o problema coloca-se sobretudo ao nível dos valores, do facilitismo e da destruição da família e do que está à sua volta. Os jovens e aqueles que não o sendo se eternizam numa adolescência irritante, sem fim , onde o amadurecimento não chega, adoram o facilitismo, o prazer imediato e resistir a drogas e outros vícios requer sacrifícios, muita disciplina, força de vontade, tudo coisas que eles não praticam ou não praticaram dado o facilitismo que sempre os acompanhou, o desprezo pela disciplina, pelos pais caretas que lhes pregam sermões sobre os charros que até são inocentes. Geralmente começa-se pelo cigarro, pelo charro e daí se faz o percurso para as outras drogas até chegar ao inferno das sintéticas. Pensemos em Amsterdão, uma cidade tradicionalmente amiga e permissiva de drogas leves em particular a cannabis. Um amanhecer na Praça Dam mostrava um cenário desolador de lixo, imundicie, dejectos, urina. Estive em Amsterdão em 2024 e estava em curso uma campanha para recuperar a cidade da cannabis. Anos atrás Zurique, vá-se lá saber os motivos, mas talvez devido a algum político iluminado, resolveu ser condescendente com as drogas. A experiência foi sol de pouca dura porque as principais ruas de Zurique ficaram praticamente destruidas, lojas fechadas e  com gente de toda a espécie, jovens e não só, deitados nos passeios. De um modo geral a Europa, Portugal incluido, é muito tolerante com o consumidor e com o pequeno traficante. E a droga é muito lucrativa para quem vende e destrutiva para quem consome. E não é apenas a estrutura familiar que fica abalada e muitas vezes desfeita pelo vício de um dos seus membros. Todos conhecemos vários casos. Em última instância é a própria Europa que fica abalada, fragilizada, desmoralizada

Paulo Cardoso: Tenho para comigo, admitindo poder encontrar-me errado, que o combate à situação instalada e ao seu antecipável agravamento, terá obrigatoriamente de retomar a penalização e criminalização do consumo. A pena, numa primeira detenção, passaria por uma desintoxicação ou, caso não fosse necessária, uma acção de formação preventiva, com a mesma duração e no mesmo regime dos programas de desintoxicação. À primeira reincidência, pena de prisão efectiva, sem mordomias, e prestação de serviço obrigatório à comunidade, sem qualquer remuneração. Quanto mais não fora, acabava com o artifício do traficante, na posse da quantidade que tão bem sabe qual é, poder alegar que é para consumo próprio. O combate ao narco tráfico, de tão enraizado que está, já só lá vai com o regresso à penalização do consumo. Agir a montante apenas, já não dá conta do recado. Há que actuar também a jusante.

Francisco Almeida: O filme "Os Incorruptíveis Contra a Droga" ilustra bem o problema da "guerra" contra a droga. Encarada apenas pelo lado da oferta, os meios necessários para a sua erradicação seriam incompatíveis com um Estado de direito e democrático. Trump está a repetir esse erro a nível internacional, combater a oferta sem limitar a procura. Há muito que estou convencido que, sendo a droga impossível de eliminar totalmente, o combate para a conter em níveis reduzidos, tem de ser dirigido também à procura, ilegalizando sempre e criminalizando por vezes. Como titula a profª Patrícia Fernandes, já se poderá falar sobre o problema das drogas mas, em Portugal, estamos ainda longe de o poder combater com eficácia, sequer, de mudar o paradigma. Salas de chuto para que a sociedade não tenha de se sentir incomodada com a visão da degradação e substituição de seringas, pelo mesmo motivo.

 

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