Que somos todos nós os maus da fita, gemendo e
chorando neste vale de lágrimas… Ámen.
O fracasso de Marcelo e a nossa responsabilidade
Marcelo foi um mau Presidente e um fracasso
político mas o verdadeiro problema não é Marcelo: somos nós
ANDRÉ AZEVEDO ALVES Professor
do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa
OBSERVADOR, 18 mar. 2026, 00:2557
Como o título indicia, este não será um artigo simpático para o legado
político de Marcelo
Rebelo de Sousa. Parece pois justo e equilibrado começar
por destacar o que pode ser realçado como positivo em Marcelo. Em primeiro
lugar – e como lhe é amplamente reconhecido – Marcelo destaca-se pela sua
inteligência. É
fácil para um observador informado desvalorizar a endogamia extrema (mas também
infelizmente típica em Portugal, em especial na área do Direito) da sua trajectória
académica, mas seria um erro ainda assim desvalorizar a sua inteligência.
Em
segundo lugar, acredito que
a empatia demonstrada por Marcelo no contacto pessoal é, pelo menos em parte,
genuína. Sendo certo que a propalada “sensibilidade social” do
Presidente foi quase sempre politicamente inconsequente e que a abordagem
privilegiada foi muitas vezes casuística (e por
isso dada a arbitrariedades e potenciais injustiças),
creio que Marcelo foi tendencialmente genuíno nas suas
expressões públicas de empatia. Por fim, estou também
convencido de que Marcelo acreditou nas suas decisões estar a fazer o melhor segundo a sua ideia do que o país deveria
ser, ainda que tenha estado com frequência profundamente errado.
Reconhecidos os aspectos
positivos, importa deixar claro que os dez anos de Marcelo na Presidência
foram um fracasso claro, com claras implicações para a degradação do regime.
Pela forma como exerceu os poderes presidenciais nos seus dois mandatos,
Marcelo fica para a história como o verdadeiro campeão da instabilidade
política em Portugal. Ironicamente – considerando que o próprio
Marcelo elencou a estabilidade como uma prioridade – Marcelo foi quase
sempre um factor de instabilidade. Mais: Marcelo foi mesmo em momentos cruciais um verdadeiro agente do caos,
incapaz de conter a sua vontade de interferir, manipular e influenciar tudo e
todos à sua volta. Como bem salientou José Paulo Soares, Marcelo
escolheu no fundo ser o que sempre foi:
“Marcelo
foi vítima de si próprio, da sua própria ambição, dos seus próprios vícios e
das suas próprias palavras. A sua hubris impediu-o de ser apenas árbitro, quis
sempre mais: poder agir, poder sentir que tinha o poder nas suas mãos.
Habilmente, Costa soube jogar com este fraquinho presidencial, deixando o
desgaste acontecer, enquanto Marcelo achava que influenciava. Para além
disto, Marcelo, viciado na intriga, na
criação de factos noticiosos, no comentário, na efabulação política, criou
sempre mais cenários do que aqueles que, alguma vez, o país seria capaz de
concretizar. Foram o vício e a ambição os geradores ou, pelo menos,
catalisadores da instabilidade que vivemos. (…) No
currículo de Marcelo fica a aliança nefasta para o país com Costa e ainda 3 dissoluções
da Assembleia da República, às quais temos de somar as das Assembleias
Regionais. Entre
atropelos constitucionais, a interpretação que Marcelo fez das suas funções foi
peregrina, achando sempre que era o número ‘10’ do regime. (…) Num
sistema parlamentar, os partidos têm responsabilidade de se entenderem, porque
a consequência da demora será cara nas eleições seguintes. No regime de Marcelo, quando os partidos não se entenderam ou
ficaram órfãos de líder, nunca houve responsabilidade. A responsabilidade
demora tempo a apurar e o penso rápido das eleições acabou por cristalizar a
divisão do país.”
Enquanto notório grande arquitecto de
um caos de onde nunca resultou qualquer ordem, Marcelo degradou o cargo de
Presidente da República e muito contribuiu para o actual estado de agonia do
regime. Uma degradação que foi acentuada pela
forma como exerceu as suas funções: o
abuso da palavra, a banalização das intervenções do Presidente-comentador sobre
tudo e sobre nada e a voragem de estar constantemente nos media deixaram um
longo rasto de declarações e compromissos inconsequentes e por vezes até
contraditórios. Um exemplo notório, bem recordado por Rui Rocha, foi o vergonhoso desempenho
de Marcelo por altura da tragédia de Pedrogão Grande.
Com a sua actuação errática, Marcelo foi também um dos principais
padrinhos (ainda que provavelmente involuntário) do crescimento meteórico da
direita radical em Portugal. O extraordinário sucesso eleitoral do Chega
tem certamente várias outras causas – desde as tendências internacionais até à
crise do PSD, sem esquecer o talento político de André Ventura – mas o papel de Marcelo não pode ser esquecido. A
instabilidade que propiciou, a banalização do discurso presidencial que
provocou e o tacticismo que Ventura foi capaz de aproveitar exemplarmente –
todos contribuíram para potenciar o crescimento do Chega.
A eleição de António
José Seguro com a maior votação popular de sempre (algo
que Marcelo ambicionou mas nunca conseguiu) será para muitos dos eleitores a
eleição de um anti-Marcelo. É aliás sintomático que os quatros
principais candidatos nas recentes eleições presidenciais (Seguro,
Ventura, Cotrim e Gouveia e Melo) se
tenham todos distanciado explicitamente da forma como Marcelo exerceu o cargo e
do seu legado político.
Seguro que avisou na tomada
de posse contra o “frenesim eleitoral” visando – e bem – corrigir o perigoso e
erróneo caminho de interpretação constitucional adoptado por Marcelo Rebelo de
Sousa no sentido de que uma queda de Governo implica necessariamente eleições. O estilo contrastante de Seguro, com maior
contenção pública e dando maior peso à palavra do Presidente, poderá ajudar a
restaurar a credibilidade do cargo, mas o caminho não será fácil depois dos
danos institucionais causados por Marcelo.
Uma das melhores descrições de Marcelo foi a feita já há muitos anos por
Paulo Portas (entretanto ele próprio plenamente reconciliado com o regime e com
o marcelismo), quando afirmou: “Marcelo é filho de deus e do diabo. Deus
deu-lhe a inteligência e o diabo deu-lhe a maldade”. Importa
no entanto não ser demasiado duro com Marcelo, até para evitar uma indevida
desculpabilização colectiva do eleitorado que o elegeu. Ainda que tenha obtido menos um milhão de
votos do que Seguro, Marcelo foi eleito por duas vezes com amplas maiorias.
Mais: Marcelo teve os resultados que teve apesar de a sua personalidade e modo
de actuação serem amplamente conhecidos do país (desde os tempos do Expresso
até ao longo período de comentariado televisivo, sem esquecer o período em que
liderou o PSD).
Marcelo foi um mau Presidente e um
fracasso político mas o verdadeiro problema não é Marcelo: somos nós. O
facilitismo, a inclinação para demagogos com discurso vazio mas enérgico e
empático, a desculpabilização das redes de interesses e compadrios instaladas
no Estado e nas instituições que dele dependem, a falta de exigência e a
colagem ao poder na expectativa de colher benefícios e colocações pessoais – todo
esse caldo cultural em que Marcelo foi um político de sucesso transcende em
muito a sua figura. E aí reside uma parte importante da explicação do nosso
atraso e dos nossos problemas estruturais.
COMENTÁRIOS (de 57)
Antonio Castanheira: Nunca achei Marcelo inteligente, apenas um "fala barato" Jorge Barbosa: Excelente artigo a acabar com chave de ouro José B
Dias: O
parágrafo final deixa bem claro o que somos e fazemos ... a culpa é mesmo nossa
e só nossa! Maria
Gomes: Durante
os anos da geringonça de acordo com a CS fomos bafejados com um presidente
inteligentíssimo e empático, um primeiro ministro que era um génio da política,
capaz de tais piruetas que deixavam o país surpreendido. Os portugueses
adoraram a geringonça e deram a maioria ao PS com medo do Chega. Assim temos
vivido nestas fantasias. Agora esperamos ansiosamente a reforma da administração
pública, enquanto aceitamos pacificamente que a mesma esteja em auto gestão. Os
centros de saúde e as repartições nem sequer atendem telefones, estão vazios e
exigem que voltemos só depois de ter uma marcação. Nem sequer se exige que o
governo tome medidas para pôr os serviços a funcionar. Estamos à espera da tal
reforma apesar de, segundo a CS, ela ser impossível porque o governo coitado é
minoritário e não tem meios para tal. Maria
Cordes: Profundamente
verdadeiro, mas o pior pecado, foi transformar a maior instituição do país, num
teatro de vaudeville de chinelos. Imperdoável. Lourenço
de Almeida: "O
mal somos nós" é um bom princípio de conversa! Aí concordamos. O que me
espanta é que o crescimento do CHEGA seja sempre atribuído a outros e não
"a nós", como eleitores responsáveis de uma democracia adulta. Até
quando é que se tentará esconder que os votos no CHEGA valem tanto como os
outros e derivam da vontade explícita e esclarecida de um milhão e tal de
eleitores?! João
Floriano > Maria Cordes: E já agora troca de calções na praia. João
Floriano: «
.........redes de interesses e compadrios instaladas no Estado e nas
instituições que dele dependem,...........» Agora nem as luzes pisca pisca do Natal
escapam. Miguel Macedo: Marcelo é realmente patético e inqualificável!
É sinistro e uma vergonha nacional! E essa ideia de que é uma inteligência
suprema é realmente idiota!
João Floriano > Ruço Cascais: Já eu não sofro com estas dúvidas intelectuais.
Nunca votei em Marcelo (o que prova que o meu problema são as articulações e
não a capacidade crítica. Nunca o achei excepcionalmente inteligente. Acho que
percebi perfeitamente o que andou a fazer com os portugueses durante 10
anos, sendo que o balanço é negativo. Mas compreende-se que num país que não
lê, pensa muito pouco, viaja até Benidorm , quem sai fora deste círculo e ainda
por cima tem capacidade de expressão é considerado muito inteligente. Antonio
Rodrigues: Nunca
vou perceber as análises que começam por afirmar que Marcelo é muito
inteligente e que depois, durante 10 anos só fez coisas ..... muito pouco
inteligentes. Enfim. Paulo Silva > António Silva: Dois génios tivemos na política portuguesa...
Um goza a bandeiras despregadas com a justiça portuguesa, e outro goza as suas
merecidas férias em Bruxelas. Levados no andor por uma procissão de acéfalos... Manuel
Magalhaes: Marcelo
não passa de um flop e uma pessoa muito inteligente devia de ter percebido as
asneiras que andou a fazer repetidamente, portanto está tudo dito! João
Floriano > Ruço Cascais: Bom dia, Ruço De modo algum. Quem tem jardins e quintais sabe
muito bem a luta que pode ser a recolha de resíduos ou de trastes velhos.
Aqui na minha rua percebe-se perfeitamente quem alinha ou não no «bolo rei» de
final de ano. Os trastes velhos, os resíduos o jardim, os ramos podados das
árvores podem ficar semanas no passeio até que o morador desiste, pega neles e
vai despejá-los algures por aí. José B
Dias > Clara Viana: Já foi verificar o percurso académico do aqui
cronista que em outro desabafo de alma militante questiona quem será? Paulo
Silva: À
falta de melhor na 1ª eleição foi Prof. Martelo contra o candidato da
geringonça, o da Nódoa. Mas só nos deixamos enganar uma vez... Francisco
Almeida: A
minha leitura é a oposta de Jorge Barbosa, que já obteve enorme apoio em
"likes". A
conclusão final do artigo é apenas parva. Nós, público, eleitores somos o que
somos, somos a realidade. Culpar a realidade é tão parvo como culpar a
meteorologia. Entre muitas outras, Marcelo teve a culpa de fomentar a
instabilidade e agora Seguro garante a estabilidade. Só que fomentar
instabilidade quando a estabilidade era possível será um erro se calhar menor
do que defender a estabilidade quando ela se anuncia nociva e danosa. Mais três
anos de Montenegro, enfraquecido pelas actividades profissionais passadas e
pela péssima escolha na eleição presidencial, sem qualquer vislumbre de
possíveis reformas, será nocivo e danoso. Tim do A: Concordo com o artigo. Marcelo, o
narcisista, foi um péssimo presidente. Mas o problema somos nós, que nos deixamos
enganar por qualquer actor. E já agora, em quem votou? Eu nunca votei em
Marcelo. Vi logo o que era. Aliás, Passos Coelho, antes da primeira
eleição de Marcelo, disse logo que este era um caravento. Só se enganou quem
quis. Portugal merece ser o pais pobre e corrupto que tem. fonseca
07 > Maria Gomes: Esperar reformas com este governo não acredito.
Dois anos de governação e nada de nada. E ainda querem mais três anos para
continuar no mesmo tom? Diz muito bem, infelizmente, dos serviços
públicos nem um telefone atendem. Quanto mais executar o que quer que seja. João
Floriano > Ruço Cascais: Deus meu! Voltou com a auto estima em baixo,
para se incluir no grupo do asneirentos. Parabéns pelo Sporting ontem à noite.
Talvez o Marcelo tenha razão e quando nos esforçamos somos capazes de grandes
coisas. Se os lagartos tivessem ganho por 1/0 na Noruega, provavelmnete teriam
perdido cá ou acabariam por se apurar por uma unha negra. Assim foram
obrigados a trabalhar a sério e foi uma beleza. Talvez seja esse o
nosso karma: ser levados ao limite para fazer alguma coisa de valor. E
subitamente o treinador passou de besta a bestial o que também é muito
típico da nossa alma lusitana. E agora venha o Arsenal klaus
muller > Antonio Castanheira: Eu também. Ludovicus
Jorge Barbosa: Em absoluto. E, em democracia a culpa não é dos
eleitos. É dos eleitores. E estes sempre a criticar tudo e todos mas, votaram
nestes últimos 50 anos sempre nos mesmos. Apesar de por 3 vezes termos ido à
falência (em 1978, 1983/84 e em 2011) e nada de vergonha. Sempre quisemos 2
deuses: um no céu a cuidar da alma e outro na Terra (Estado) a impedir o
darwinismo. E vamos continuar assim. Está no ADN. Ruço
Cascais > João Floriano: Caro Floriano, eu tenho que oferecer uma
cervejitta ou 5 euros de gratificação ao técnico de limpeza aqui do bairro
(antigo varredor) para ele passar aqui pela rua e dar uma varredela de vez em
quando em frente à minha porta. Creio que não sou apenas eu a fazer este procedimento. Num domingo
destes encontrei-o no café. Não trazia o carrinho da limpeza, vinha num bom
Mercedes. 😅
Kindu: Ora
bem, é isso mesmo. Somos nós, os portugueses são assim. Manuel
Ferreira21: Excelente
artigo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário