quinta-feira, 19 de março de 2026

Está visto


Que somos todos nós os maus da fita, gemendo e chorando neste vale de lágrimas… Ámen.

O fracasso de Marcelo e a nossa responsabilidade

Marcelo foi um mau Presidente e um fracasso político mas o verdadeiro problema não é Marcelo: somos nós

ANDRÉ AZEVEDO ALVES Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

OBSERVADOR, 18 mar. 2026, 00:2557

Como o título indicia, este não será um artigo simpático para o legado político de Marcelo Rebelo de Sousa. Parece pois justo e equilibrado começar por destacar o que pode ser realçado como positivo em Marcelo. Em primeiro lugar – e como lhe é amplamente reconhecido – Marcelo destaca-se pela sua inteligência. É fácil para um observador informado desvalorizar a endogamia extrema (mas também infelizmente típica em Portugal, em especial na área do Direito) da sua trajectória académica, mas seria um erro ainda assim desvalorizar a sua inteligência. Em segundo lugar, acredito que a empatia demonstrada por Marcelo no contacto pessoal é, pelo menos em parte, genuína. Sendo certo que a propalada “sensibilidade social” do Presidente foi quase sempre politicamente inconsequente e que a abordagem privilegiada foi muitas vezes casuística (e por isso dada a arbitrariedades e potenciais injustiças), creio que Marcelo foi tendencialmente genuíno nas suas expressões públicas de empatia. Por fim, estou também convencido de que Marcelo acreditou nas suas decisões estar a fazer o melhor segundo a sua ideia do que o país deveria ser, ainda que tenha estado com frequência profundamente errado.

Reconhecidos os aspectos positivos, importa deixar claro que os dez anos de Marcelo na Presidência foram um fracasso claro, com claras implicações para a degradação do regime. Pela forma como exerceu os poderes presidenciais nos seus dois mandatos, Marcelo fica para a história como o verdadeiro campeão da instabilidade política em Portugal. Ironicamente – considerando que o próprio Marcelo elencou a estabilidade como uma prioridade – Marcelo foi quase sempre um factor de instabilidade. Mais: Marcelo foi mesmo em momentos cruciais um verdadeiro agente do caos, incapaz de conter a sua vontade de interferir, manipular e influenciar tudo e todos à sua volta. Como bem salientou José Paulo Soares, Marcelo escolheu no fundo ser o que sempre foi:

 Marcelo foi vítima de si próprio, da sua própria ambição, dos seus próprios vícios e das suas próprias palavras. A sua hubris impediu-o de ser apenas árbitro, quis sempre mais: poder agir, poder sentir que tinha o poder nas suas mãos. Habilmente, Costa soube jogar com este fraquinho presidencial, deixando o desgaste acontecer, enquanto Marcelo achava que influenciava. Para além disto, Marcelo, viciado na intriga, na criação de factos noticiosos, no comentário, na efabulação política, criou sempre mais cenários do que aqueles que, alguma vez, o país seria capaz de concretizar. Foram o vício e a ambição os geradores ou, pelo menos, catalisadores da instabilidade que vivemos. (…) No currículo de Marcelo fica a aliança nefasta para o país com Costa e ainda 3 dissoluções da Assembleia da República, às quais temos de somar as das Assembleias Regionais. Entre atropelos constitucionais, a interpretação que Marcelo fez das suas funções foi peregrina, achando sempre que era o número ‘10’ do regime. (…) Num sistema parlamentar, os partidos têm responsabilidade de se entenderem, porque a consequência da demora será cara nas eleições seguintes. No regime de Marcelo, quando os partidos não se entenderam ou ficaram órfãos de líder, nunca houve responsabilidade. A responsabilidade demora tempo a apurar e o penso rápido das eleições acabou por cristalizar a divisão do país.”

Enquanto notório grande arquitecto de um caos de onde nunca resultou qualquer ordem, Marcelo degradou o cargo de Presidente da República e muito contribuiu para o actual estado de agonia do regime. Uma degradação que foi acentuada pela forma como exerceu as suas funções: o abuso da palavra, a banalização das intervenções do Presidente-comentador sobre tudo e sobre nada e a voragem de estar constantemente nos media deixaram um longo rasto de declarações e compromissos inconsequentes e por vezes até contraditórios. Um exemplo notório, bem recordado por Rui Rocha, foi o vergonhoso desempenho de Marcelo por altura da tragédia de Pedrogão Grande.

Com a sua actuação errática, Marcelo foi também um dos principais padrinhos (ainda que provavelmente involuntário) do crescimento meteórico da direita radical em Portugal. O extraordinário sucesso eleitoral do Chega tem certamente várias outras causas – desde as tendências internacionais até à crise do PSD, sem esquecer o talento político de André Ventura – mas o papel de Marcelo não pode ser esquecido. A instabilidade que propiciou, a banalização do discurso presidencial que provocou e o tacticismo que Ventura foi capaz de aproveitar exemplarmente – todos contribuíram para potenciar o crescimento do Chega.

A eleição de António José Seguro com a maior votação popular de sempre (algo que Marcelo ambicionou mas nunca conseguiu) será para muitos dos eleitores a eleição de um anti-Marcelo. É aliás sintomático que os quatros principais candidatos nas recentes eleições presidenciais (Seguro, Ventura, Cotrim e Gouveia e Melo) se tenham todos distanciado explicitamente da forma como Marcelo exerceu o cargo e do seu legado político.

Seguro que avisou na tomada de posse contra o “frenesim eleitoral” visando – e bem – corrigir o perigoso e erróneo caminho de interpretação constitucional adoptado por Marcelo Rebelo de Sousa no sentido de que uma queda de Governo implica necessariamente eleições. O estilo contrastante de Seguro, com maior contenção pública e dando maior peso à palavra do Presidente, poderá ajudar a restaurar a credibilidade do cargo, mas o caminho não será fácil depois dos danos institucionais causados por Marcelo.

Uma das melhores descrições de Marcelo foi a feita já há muitos anos por Paulo Portas (entretanto ele próprio plenamente reconciliado com o regime e com o marcelismo), quando afirmou: “Marcelo é filho de deus e do diabo. Deus deu-lhe a inteligência e o diabo deu-lhe a maldade”. Importa no entanto não ser demasiado duro com Marcelo, até para evitar uma indevida desculpabilização colectiva do eleitorado que o elegeu. Ainda que tenha obtido menos um milhão de votos do que Seguro, Marcelo foi eleito por duas vezes com amplas maiorias. Mais: Marcelo teve os resultados que teve apesar de a sua personalidade e modo de actuação serem amplamente conhecidos do país (desde os tempos do Expresso até ao longo período de comentariado televisivo, sem esquecer o período em que liderou o PSD).

Marcelo foi um mau Presidente e um fracasso político mas o verdadeiro problema não é Marcelo: somos nós. O facilitismo, a inclinação para demagogos com discurso vazio mas enérgico e empático, a desculpabilização das redes de interesses e compadrios instaladas no Estado e nas instituições que dele dependem, a falta de exigência e a colagem ao poder na expectativa de colher benefícios e colocações pessoais – todo esse caldo cultural em que Marcelo foi um político de sucesso transcende em muito a sua figura. E aí reside uma parte importante da explicação do nosso atraso e dos nossos problemas estruturais.

PRESIDENTE MARCELO        POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 57)

Antonio Castanheira: Nunca achei Marcelo inteligente, apenas um "fala barato"                      Jorge Barbosa: Excelente artigo a acabar com chave de ouro                     José B Dias: O parágrafo final deixa bem claro o que somos e fazemos ... a culpa é mesmo nossa e só nossa!                       Maria Gomes: Durante os anos da geringonça de acordo com a CS fomos bafejados com um presidente inteligentíssimo e empático, um primeiro ministro que era um génio da política, capaz de tais piruetas que deixavam o país surpreendido. Os portugueses adoraram a geringonça e deram a maioria ao PS com medo do Chega. Assim temos vivido nestas fantasias. Agora esperamos ansiosamente a reforma da administração pública, enquanto aceitamos pacificamente que a mesma esteja em auto gestão. Os centros de saúde e as repartições nem sequer atendem telefones, estão vazios e exigem que voltemos só depois de ter uma marcação. Nem sequer se exige que o governo tome medidas para pôr os serviços a funcionar. Estamos à espera da tal reforma apesar de, segundo a CS, ela ser impossível porque o governo coitado é minoritário e não tem meios para tal.                      Maria Cordes: Profundamente verdadeiro, mas o pior pecado, foi transformar a maior instituição do país, num teatro de vaudeville de chinelos. Imperdoável.                  Lourenço de Almeida: "O mal somos nós" é um bom princípio de conversa! Aí concordamos. O que me espanta é que o crescimento do CHEGA seja sempre atribuído a outros e não "a nós", como eleitores responsáveis de uma democracia adulta. Até quando é que se tentará esconder que os votos no CHEGA valem tanto como os outros e derivam da vontade explícita e esclarecida de um milhão e tal de eleitores?!                         João Floriano > Maria Cordes: E já agora troca de calções na praia.                       João Floriano: « .........redes de interesses e compadrios instaladas no Estado e nas instituições que dele dependem,...........» Agora nem as luzes pisca pisca do Natal escapam.                      Miguel Macedo: Marcelo é realmente patético e inqualificável! É sinistro e uma vergonha nacional! E essa ideia de que é uma inteligência suprema é realmente idiota!                     João Floriano > Ruço Cascais: Já eu não sofro com estas dúvidas intelectuais. Nunca votei em Marcelo (o que prova que o meu problema são as articulações e não a capacidade crítica. Nunca o achei excepcionalmente inteligente. Acho que percebi perfeitamente o que andou a fazer  com os portugueses durante 10 anos, sendo que o balanço é negativo. Mas compreende-se que num país que não lê, pensa muito pouco, viaja até Benidorm , quem sai fora deste círculo e ainda por cima tem capacidade de expressão é considerado muito inteligente.                    Antonio Rodrigues: Nunca vou perceber as análises que começam por afirmar que Marcelo é muito inteligente e que depois, durante 10 anos só fez coisas ..... muito pouco inteligentes. Enfim.           Paulo Silva > António Silva: Dois génios tivemos na política portuguesa... Um goza a bandeiras despregadas com a justiça portuguesa, e outro goza as suas merecidas férias em Bruxelas. Levados no andor por uma procissão de acéfalos...                       Manuel Magalhaes: Marcelo não passa de um flop e uma pessoa muito inteligente devia de ter percebido as asneiras que andou a fazer repetidamente, portanto está tudo dito!                João Floriano > Ruço Cascais: Bom dia, Ruço De modo algum. Quem tem jardins e quintais sabe muito bem  a luta que pode ser a recolha de resíduos ou de trastes velhos. Aqui na minha rua percebe-se perfeitamente quem alinha ou não no «bolo rei» de final de ano. Os trastes velhos, os resíduos o jardim, os ramos podados das árvores podem ficar semanas no passeio até que o morador desiste, pega neles e vai despejá-los algures por aí.                         José B Dias > Clara Viana: Já foi verificar o percurso académico do aqui cronista que em outro desabafo de alma militante questiona quem será?                         Paulo Silva: À falta de melhor na 1ª eleição foi Prof. Martelo contra o candidato da geringonça, o da Nódoa. Mas só nos deixamos enganar uma vez...                     Francisco Almeida: A minha leitura é a oposta de Jorge Barbosa, que já obteve enorme apoio em "likes". A conclusão final do artigo é apenas parva. Nós, público, eleitores somos o que somos, somos a realidade. Culpar a realidade é tão parvo como culpar a meteorologia. Entre muitas outras, Marcelo teve a culpa de fomentar a instabilidade e agora Seguro garante a estabilidade. Só que fomentar instabilidade quando a estabilidade era possível será um erro se calhar menor do que defender a estabilidade quando ela se anuncia nociva e danosa. Mais três anos de Montenegro, enfraquecido pelas actividades profissionais passadas e pela péssima escolha na eleição presidencial, sem qualquer vislumbre de possíveis reformas, será nocivo e danoso.                        Tim do A: Concordo com o artigo.  Marcelo, o narcisista, foi um péssimo presidente. Mas o problema somos nós, que nos deixamos enganar por qualquer actor. E já agora, em quem votou? Eu nunca votei em Marcelo. Vi logo o que era. Aliás,  Passos Coelho, antes da primeira eleição de Marcelo, disse logo que este era um caravento. Só se enganou quem quis. Portugal merece ser  o pais pobre e corrupto que tem.                  fonseca 07 > Maria Gomes: Esperar reformas com este governo não acredito. Dois anos de governação e nada de nada. E ainda querem mais três anos para continuar no mesmo tom? Diz muito bem, infelizmente,  dos serviços públicos nem um telefone atendem. Quanto mais executar o que quer que seja.                     João Floriano > Ruço Cascais: Deus meu! Voltou com a auto estima em baixo, para se incluir no grupo do asneirentos. Parabéns pelo Sporting ontem à noite. Talvez o Marcelo tenha razão e quando nos esforçamos somos capazes de grandes coisas. Se os lagartos tivessem ganho por 1/0 na Noruega, provavelmnete teriam perdido cá ou acabariam por se apurar por uma unha negra. Assim foram obrigados  a trabalhar  a sério e foi uma beleza. Talvez seja esse o nosso karma: ser levados ao limite para fazer alguma coisa de valor. E subitamente o treinador passou de besta  a bestial o que também é muito típico da nossa alma lusitana.  E agora venha o Arsenal                        klaus muller > Antonio Castanheira: Eu também.                     Ludovicus Jorge Barbosa: Em absoluto. E, em democracia a culpa não é dos eleitos. É dos eleitores. E estes sempre a criticar tudo e todos mas, votaram nestes últimos 50 anos sempre nos mesmos. Apesar de por 3 vezes termos ido à falência (em 1978, 1983/84 e em 2011) e nada de vergonha. Sempre quisemos 2 deuses: um no céu a cuidar da alma e outro na Terra (Estado) a impedir o darwinismo. E vamos continuar assim. Está no ADN.                            Ruço Cascais > João Floriano: Caro Floriano, eu tenho que oferecer uma cervejitta ou 5 euros de gratificação ao técnico de limpeza aqui do bairro (antigo varredor) para ele passar aqui pela rua e dar uma varredela de vez em quando em frente à minha porta.  Creio que não sou apenas eu a fazer este procedimento. Num domingo destes encontrei-o no café. Não trazia o carrinho da limpeza, vinha num bom Mercedes. 😅                 Kindu: Ora bem, é isso mesmo. Somos nós, os portugueses são assim.                Manuel Ferreira21: Excelente artigo.

 

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