A maneira mais elegante de reagir em público face ao espectáculo das
más notícias. Mas é sempre frustrante tal comportamento sóbrio, quando se
esperaria uma mais aparatosa demonstração na dor, segundo a descrição risonha
de Miguel Tamen.
A placidez na tragédia
Nem todos reagem às maiores
contrariedades reflectindo em público sobre a magnitude das suas desgraças.
MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e
director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa
OBSERVADOR, 01 mar. 2026, 00:202
Há qualquer coisa que decepciona
quando, na sequência de um fenómeno natural extremo, aqueles que foram
afectados por ele não se comportam como esperávamos.
Aproximamo-nos normalmente dos
afectados como quem entra numa sala de espectáculos. Em muitos casos as nossas expectativas
foram espevitadas por conversas combustíveis sobre cenários dantescos e rastos
de destruição. À entrada somos recompensados pelos baldes virados e pelas
fendas na terra. Animados por estes sinais, concluímos
antecipadamente que os afectados, como o público, irão uivar, acusar, ou desenvolver
pensamentos filosóficos.
Quando em vez disso as reacções aos factos extremos são plácidas ficamos
um pouco desconcertados. Muitos dos afectados decerto
partilharão o nosso amor pela arte, e comovem-se com as nossas comoções.
Mas a outros parece faltar o pathos; e parece sobrar-lhes também a
paciência. Como
é possível que alguém se comporte de um modo tão inadequado para com a
magnitude daquilo que lhe aconteceu? Terão deixado por concluir a
escolaridade obrigatória? Ou pelo contrário saberão esses pacientes
qualquer coisa que escapa aos nossos horizontes mais artísticos?
Não é provável que os plácidos se
comportem com placidez nas tragédias porque saibam coisas mais profundas sobre
a vida, que o público ignora: um paciente não aprende necessariamente coisas
especiais por ser paciente. É aliás frequente que quem
assistiu a um facto extremo, e mesmo a um facto extremo que se passou consigo,
não perceba logo, ou não venha a perceber nunca completamente, aquilo que se
passou; e talvez a placidez não-filosófica dos plácidos se possa dever à sua
ignorância. Intriga
não obstante que os plácidos sofram dessa ignorância de modo tão
concentrado. Será ela um castigo especial que recebem por não se
conseguirem emocionar tanto como nós?
Não podemos excluir no entanto que a
ignorância acerca de si próprio e daquilo que se está a passar no mundo esteja
mais bem distribuída entre as partes, e que portanto afecte pelo menos em
proporções iguais os afectados que não mostram interesse em estar à altura dos
acontecimentos que lhes aconteceram e o público que censura a falta de emoções
em certas vítimas. Por
essa ordem de razões é concebível que possa estar a escapar alguma coisa a quem
no público lamenta que haja pacientes que reagem com placidez ao que lhes
aconteceu, e não façam a justiça que se deve ao género trágico.
É por isso muito mais
provável que sejam as nossas inclinações, e nomeadamente a nossa tendência para
ver as ocorrências extremas como factos artísticos, que nos impedem de perceber
certas coisas sobre as outras pessoas: que nem todos reagem às maiores contrariedades reflectindo em
público sobre a magnitude das suas desgraças; que um balde virado ou uma
fenda não é para todos um cenário ou uma ocasião para
emoções; e
sobretudo que os pacientes estão vivos, e que alguns sentem uma certa
inclinação para continuar a viver.
COMENTÁRIOS:
Vítor Araújo: Um texto admirável. Uma
bofetada na cara da nossa comunicação social ávida em hiperactividade por
oferecer ao público motivos sórdidos de reacção emocional. O corolário ficou no
entanto subentendido, onde a sabedoria foi propositadamente travestida de ignorância,
num exercício de redução ao absurdo. Américo Silva: O porquinho vivia na cerca e
bolota não lhe faltou até ao dia da matança, se vivesse em liberdade morreria
igualmente, talvez mais faminto; a grande diferença é que o dono não teria
toucinho nem presunto.
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