Está
sujeito – como os demais professores das outras disciplinas – a um programa que
impõe respeito pela matéria superiormente ordenada, não pode alterar
caprichosamente os temas propostos pelo Ministério da Educação. Mas é sempre de
bom tom arrasar quem se limita honradamente a essa via sem as tergiversações
dos que embarcam em fugas que a vastidão literária e dos literatos pode proporcionar,
num enriquecimento que poderá captar ou
não o interesse dos alunos. Todavia, é sempre de bom tom denegrir, e o
rasteirismo seguidista das aulas de português atrai naturalmente a condenação
dos mais exigentes. A verdade é que as demais disciplinas, objectivas e
rigorosas que são, sujeitam-se aos programas, as aulas de literaturas permitem facilmente
fruições superiores, desde que os professores enveredem por vias de manipulação
dos programas – o que parece ser o caso descrito pelo aluno de Lobo Antunes. O certo
é que serão esses que sobressaem … e sobretudo se forem referências ilustres,
como no caso citado pelo discípulo de Lobo Antunes. Fosse este um vulgar
professor, sem nome distinto, não seria, talvez referenciado, pois não traria
importância ao autor do texto que segue:
Lobo Antunes foi meu professor de português
No meio de leituras redondamente
moralistas de textos durante as aulas, depois da insipidez das “explicações”
das obras obrigatórias, Lobo Antunes mostrava-me que a literatura podia ser
outra coisa.
P. JOÃO BASTO: Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo
OBSERVADOR, 06 mar. 2026,
00:2410
O primeiro texto que li de António Lobo Antunes terá sido uma crónica
nas aulas inaugurais do secundário. Chamava-se “Chopin é
um frango”. Na verdade, li-o ainda nas férias, num
apartamento grande, ainda em luto pela morte do meu bisavô, quando abri os
livros novos, que tinham chegado mais cedo nesse ano. De lá para cá, aquela
sensação de ser enganado por um autor, de ele nos perseguir, de, por fim, nos
ludibriar, de isso ser imensamente mais prazeroso e bondoso que a evidência,
continua a raptar parte da minha imaginação. Durante os anos que se seguiram, nas imensas tardes livres daqueles
três anos, ou nas fugas propositadas às fichas de matemática e aos exercícios
de físico-química, que não escolhi voluntariamente, António Lobo Antunes foi a pessoa com quem podia falar de
literatura. Fosse, de novo, nas crónicas, nos romances, ou nas entrevistas.
No meio de leituras redondamente
moralistas de textos durante as aulas, depois da insipidez das “explicações”
das obras obrigatórias, depois de Camões ser esquartejado para servir de
alimento às pequenas bocas famintas de análise e classificação de orações,
depois de tudo isso, Lobo Antunes
mostrava-me que a literatura podia ser outra coisa. O seu efeito só era,
então, comparável ao de quando, numa aula do 9.º ano, uma professora veio à
aula de ciências apresentar o livro da sua vida e se comoveu tanto a falar
de As Velas Ardem até ao Fim, que teve de sair antes do planeado. Quer num,
quer noutro caso, nunca imaginei que um livro não servisse para manter a
compostura.
Odiei – secretamente ainda odeio
– todos os livros que os meus professores recomendavam nas aulas, nomeadamente
aqueles que se podem catalogar sob o epíteto “livros para quem não gosta de ler, mas que tem de ler alguma coisa ou
porque faz bem, ou porque é preciso fazer uma apresentação oral no final do
período”. Mas comovia-me sempre que
António Lobo Antunes falava de um novo autor e eu o lia: Faulkner, Borges,
Carver, Céline, Proust, Montaigne, Conrad. E, tal como nessa altura, ainda
hoje não me interessa se os entendo. A literatura não serve para isso.
Nele, tudo parecia tão diferente
das aulas de português. Quando lia a sua voz interludial, desequilibrada,
empalada, sangrada, abria, através dela, mais mundo, mais feridas e mais
insónias, do que lendo as habituais convenções de boas maneiras e bom gosto. Quando
o ouvia dizer que só vale a pena escrever se for
para mudar a história da literatura, sentia que recebia algo que
os pedidos de textos expositivo-argumentativos no final dos testes não podiam
satisfazer. Quando
ouvia repetidamente a sua conversa com George Steiner, frequentava, finalmente,
a escola que eu queria. No fim de contas, tudo parecia falar de um Deus que
não era o Deus do dono da casa. A mim, no entanto, que tinha passado os verões
com pessoas nascidas no início da Primeira Guerra Mundial, que tinham tido como
brinquedo de infância um primeiro volume do Dom Quixote, tudo era luminoso.
Ontem, depois da notícia da sua
morte, reli uma frase sua: “Eu não quero
nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como
quem apanha uma febre.” Devemos fazer-lhe a vontade. Mas sem tomar
paracetamol.
ANTÓNIO LOBO
ANTUNES LITERATURA CULTURA 10
COMENTÁRIOS
Daniel
Estudante Protásio: Gostei muito desta crónica, apesar de não ser um
apreciador de Lobo Antunes. Mas valorizo muito quem escreve sobre literatura
enquanto ferramenta indispensável do lazer e de cultura. Maria Paula Silva:
Ter tido
um bom professor é uma bênção. Ter tido António Lobo Antunes como professor é
uma bênção vezes mil.
FC: Belo texto. Obrigado. Carlos
Nunes: Este padre, é um sucedâneo do imanentismo, do
historicismo e da ética de situação, latentes nos artigos da imprensa
secularista, que tem "catequizado" os católicos portugueses desde há muitas
décadas. Nomes como o do dominicano neo-marxista Bento Domingues, o Cardeal
Tolentino, o missionário Anselmo Borges, o capuchinho Ventura, e mais uns
quantos avençados da elite liberal, que esporadicamente escrevem sobre o
hegeliano aggiornamento eclesial nos jornais politicamente correctos. Margarida
Almeida: Os professores que contam são os que nos abrem portas.
É uma bênção ter pessoas assim, próximo! Abrem-nos para o mundo e nunca mais
esquecemos que tal é possível! Bem haja,Antonio Lobo Antunes por ter sido um
desses raros seres! RIP. Idalina
Amador: Lembro me q os livros de leitura obrigatória no meu
tempo eram isso mesmo. A minha sorte meu pai ter uma pequena e variada
biblioteca, com Hemingway, C. Mansfield, Welles, Papini, Axel Munthe,
Fitzgerald, Dumas. Lembro me de no entanto ter lido com gosto Camilo, Eça e
Ferreira de Castro... victor guerra: Sorte sua, já que tem uma profissão castradora Américo Silva:
Sinodalmente,
o sinodal sínodo da sinodalidade iniciou a apresentação de conclusões, a
conferência episcopal alemã pediu autorização para que os leigos façam
homilias, a clerezia não se cansa de lutar contra os fiéis. Teresa
Henriques: Lobo Antunes é um dos meus favoritos. Maria
Beatriz > C. C. de Pinho: Gostei!
Nenhum comentário:
Postar um comentário