sábado, 7 de março de 2026

O professor de Português

 

Está sujeito – como os demais professores das outras disciplinas – a um programa que impõe respeito pela matéria superiormente ordenada, não pode alterar caprichosamente os temas propostos pelo Ministério da Educação. Mas é sempre de bom tom arrasar quem se limita honradamente a essa via sem as tergiversações dos que embarcam em fugas que a vastidão literária e dos literatos pode proporcionar, num enriquecimento  que poderá captar ou não o interesse dos alunos. Todavia, é sempre de bom tom denegrir, e o rasteirismo seguidista das aulas de português atrai naturalmente a condenação dos mais exigentes. A verdade é que as demais disciplinas, objectivas e rigorosas que são, sujeitam-se aos programas, as aulas de literaturas permitem facilmente fruições superiores, desde que os professores enveredem por vias de manipulação dos programas – o que parece ser o caso descrito pelo aluno de Lobo Antunes. O certo é que serão esses que sobressaem … e sobretudo se forem referências ilustres, como no caso citado pelo discípulo de Lobo Antunes. Fosse este um vulgar professor, sem nome distinto, não seria, talvez referenciado, pois não traria importância ao autor do texto que segue:

Lobo Antunes foi meu professor de português 

No meio de leituras redondamente moralistas de textos durante as aulas, depois da insipidez das “explicações” das obras obrigatórias, Lobo Antunes mostrava-me que a literatura podia ser outra coisa.

P. JOÃO BASTO: Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR, 06 mar. 2026, 00:2410

O primeiro texto que li de António Lobo Antunes terá sido uma crónica nas aulas inaugurais do secundário. Chamava-se “Chopin é um frango”. Na verdade, li-o ainda nas férias, num apartamento grande, ainda em luto pela morte do meu bisavô, quando abri os livros novos, que tinham chegado mais cedo nesse ano. De lá para cá, aquela sensação de ser enganado por um autor, de ele nos perseguir, de, por fim, nos ludibriar, de isso ser imensamente mais prazeroso e bondoso que a evidência, continua a raptar parte da minha imaginação.     Durante os anos que se seguiram, nas imensas tardes livres daqueles três anos, ou nas fugas propositadas às fichas de matemática e aos exercícios de físico-química, que não escolhi voluntariamente, António Lobo Antunes foi a pessoa com quem podia falar de literatura. Fosse, de novo, nas crónicas, nos romances, ou nas entrevistas.

No meio de leituras redondamente moralistas de textos durante as aulas, depois da insipidez das “explicações” das obras obrigatórias, depois de Camões ser esquartejado para servir de alimento às pequenas bocas famintas de análise e classificação de orações, depois de tudo isso, Lobo Antunes mostrava-me que a literatura podia ser outra coisa. O seu efeito só era, então, comparável ao de quando, numa aula do 9.º ano, uma professora veio à aula de ciências apresentar o livro da sua vida e se comoveu tanto a falar de As Velas Ardem até ao Fim, que teve de sair antes do planeado. Quer num, quer noutro caso, nunca imaginei que um livro não servisse para manter a compostura.

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Odiei – secretamente ainda odeio – todos os livros que os meus professores recomendavam nas aulas, nomeadamente aqueles que se podem catalogar sob o epíteto “livros para quem não gosta de ler, mas que tem de ler alguma coisa ou porque faz bem, ou porque é preciso fazer uma apresentação oral no final do período”. Mas comovia-me sempre que António Lobo Antunes falava de um novo autor e eu o lia: Faulkner, Borges, Carver, Céline, Proust, Montaigne, Conrad. E, tal como nessa altura, ainda hoje não me interessa se os entendo. A literatura não serve para isso.

Nele, tudo parecia tão diferente das aulas de português. Quando lia a sua voz interludial, desequilibrada, empalada, sangrada, abria, através dela, mais mundo, mais feridas e mais insónias, do que lendo as habituais convenções de boas maneiras e bom gosto. Quando o ouvia dizer que só vale a pena escrever se for para mudar a história da literatura, sentia que recebia algo que os pedidos de textos expositivo-argumentativos no final dos testes não podiam satisfazer. Quando ouvia repetidamente a sua conversa com George Steiner, frequentava, finalmente, a escola que eu queria. No fim de contas, tudo parecia falar de um Deus que não era o Deus do dono da casa. A mim, no entanto, que tinha passado os verões com pessoas nascidas no início da Primeira Guerra Mundial, que tinham tido como brinquedo de infância um primeiro volume do Dom Quixote, tudo era luminoso.

Ontem, depois da notícia da sua morte, reli uma frase sua: “Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre.” Devemos fazer-lhe a vontade. Mas sem tomar paracetamol.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES       LITERATURA       CULTURA 10

COMENTÁRIOS

Daniel Estudante Protásio: Gostei muito desta crónica, apesar de não ser um apreciador de Lobo Antunes. Mas valorizo muito quem escreve sobre literatura enquanto ferramenta indispensável do lazer e de cultura.                  Maria Paula Silva: Ter tido um bom professor é uma bênção. Ter tido António Lobo Antunes como professor é uma bênção vezes mil.                    FC: Belo texto. Obrigado.             Carlos Nunes: Este padre, é um sucedâneo do imanentismo, do historicismo e da ética de situação, latentes nos artigos da imprensa secularista, que tem "catequizado" os católicos portugueses desde há muitas décadas. Nomes como o do dominicano neo-marxista Bento Domingues, o Cardeal Tolentino, o missionário Anselmo Borges, o capuchinho Ventura, e mais uns quantos avençados da elite liberal, que esporadicamente escrevem sobre o hegeliano aggiornamento eclesial nos jornais politicamente correctos.                 Margarida Almeida: Os professores que contam são os que nos abrem portas. É uma bênção ter pessoas assim, próximo! Abrem-nos para o mundo e nunca mais esquecemos que tal é possível! Bem haja,Antonio Lobo Antunes por ter sido um desses raros seres! RIP.                Idalina Amador: Lembro me q os livros de leitura obrigatória no meu tempo eram isso mesmo. A minha sorte meu pai ter uma pequena e variada biblioteca, com Hemingway, C. Mansfield, Welles, Papini, Axel Munthe, Fitzgerald, Dumas. Lembro me de no entanto ter lido com gosto Camilo, Eça e Ferreira de Castro...                 victor guerra: Sorte sua, já que tem uma profissão castradora                Américo Silva: Sinodalmente, o sinodal sínodo da sinodalidade iniciou a apresentação de conclusões, a conferência episcopal alemã pediu autorização para que os leigos façam homilias, a clerezia não se cansa de lutar contra os fiéis.                  Teresa Henriques: Lobo Antunes é um dos meus favoritos.             Maria Beatriz  > C. C. de Pinho: Gostei!

 

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