E as
tricas começam já, a provar o nosso gosto pelos “portraits” da coscuvilhice
matreira, ameaçadora das reputações, ou
apenas exemplificadoras das nossas capacidades intelectivas……
Marcelo fecha vida política com promessa de silêncio (que não convence
Montenegro). Cenas de uma despedida institucional
Numa despedida a dois, primeiro-ministro elogiou a coabitação que acaba, já
com muita expectativa na futura. Marcelo prometeu experimentar assistir a tudo
em silêncio, mas pôs peso sobre Seguro.
OBSERVADOR, 05 mar. 2026, 20:453
Um sentado muito direito, pés
alinhados, e de botão do fato disciplinadamente desapertado. O outro menos
direito, ora de queixo encostado na mão, ora de braços abertos, botão apertado,
com as pernas das calças desalinhadas. Luís Montenegro e Marcelo Rebelo de
Sousa não podiam ser mais diferentes e isso notou-se na coabitação Belém/São
Bento nestes 23 meses (e também na hora da despedida). O primeiro-ministro jura que não estava desejoso de ver Marcelo pelas
costas, mas vai já partindo para o próximo com a “certeza absoluta” de
que vão “entender-se bem.” Não
tem igual convicção de que Marcelo não andará por aí, ainda que este garanta
que vai experimentar ser um ex-Presidente exemplar.
Era “um briefing diferente”,
como anunciava o próprio primeiro-ministro depois de uma reunião do Conselho de
Ministros presidida pelo Presidente da República que está de saída e que estava
sentado na poltrona ao seu lado, num salão do palacete de São Bento, para
uma conversa “informal” com os jornalistas. Desta
vez, as decisões da reunião não eram o ponto forte, mas sim Marcelo, a sua
despedida e algumas justificações relativas ao passado que ambos quiseram
aproveitar para dar. As declarações de parte a parte começaram pela
esperada cortesia — antecedida de uma sessão de
cumprimentos de todos os membros do Governo (ministros e secretários de Estado)
e ainda de uma foto de família e uma selfie presidencial.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Conhecendo o alinhamento subterrâneo que existia entre o seu
antecessor e Marcelo (sintetizado na frase “éramos felizes e não sabíamos”),
Montenegro tentou ombrear: “Fomos
felizes e eficazes”. O Presidente não quis destoar da simpatia e
garantiu ali mesmo que “aqui fomos
felizes e sabíamos”. Não foi tão longe como Montenegro, que considerou
mesmo que a relação entre os dois, sobretudo na parte de antecipar problema, “deve fazer escola”.
Afinal, Marcelo parece não
esquecer as vezes em que se queixou de falta de comunicação com este
primeiro-ministro, cujo perfil chegou mesmo a desenhar como
desafiante logo nos primeiros dias em que o apanhou em São Bento. Mas Montenegro queria levar ali o
desmentido de qualquer complexidade institucional, garantindo que “não
raras vezes” recorreu a Marcelo, sobretudo ao seu “conhecimento
técnico-jurídico, da realidade concreta dos temas que era importante tratar e,
ao contrário daquilo que muitas vezes se foi dizendo, com antecipação“.
Jurou que a sua felicidade não
tem a ver com o Presidente “ir embora”, mas sim “uma análise de dois anos de
convivência”, onde destaca “o papel preventivo” de Marcelo “em muitas ocasiões”
para “influenciar positivamente o contexto e enquadramento de algumas decisões
e para corrigir um ou outro aspecto”: “Foi um período positivo. E quando digo ‘fazer escola’ é a pensar em
todos os governos e nos próximos Presidentes da República”.
Mas Montenegro olha já para o próximo com confiança, devido ao
“respeito mútuo muito, muito assinalável” e à “postura” de António José
Seguro que “expressa uma expectativa muito positiva relativamente ao
relacionamento e cooperação institucional a partir da próxima segunda-feira.
Tenho a certeza absoluta que nos vamos entender bem, do ponto de vista pessoal
e do ponto de vista institucional.”
Marcelo prometeu contribuir para
isso, ainda que ao seu lado tivesse — como fez questão de sublinhar — um
primeiro-ministro pouco convencido da sua capacidade de resistir à tentação de
permanecer no espaço público. Mas o ainda Presidente garantiu que sim, quer
ser uma “cidadão” e exemplar. Depois de uma vida inteira dedicada à
política — fosse como jornalista, deputado constituinte, líder
social-democrata, comentador político ou Presidente da República –, não quer
passar à prática política consagrada por Pedro Santana Lopes do “andar por aí”.
Vai experimentar mudar de vida.
Prometeu “não empecilhar em relação ao Presidente
da República, em relação ao primeiro-ministro, em relação ao Governo, em
relação à Assembleia da República, com intervenções.” Um
ex-Presidente, disse, “deve abster-se de intervenção política”. Montenegro ouvia pouco crente, com
Marcelo a acabar por revelar que o primeiro-ministro apostou em como não vai
conseguir resistir. “Diz que a tentação vai ser muito grande. Mas há que,
realmente, resistir à tentação porque é salutar para as instituições. E,
portanto, vou experimentar contribuir para a saúde das instituições,
dessa maneira.”
Pelos vistos, a promessa para o
futuro é diferente daquela que fez a si mesmo quando, há dez anos, se deslocou
daquela que era a casa dos seus pais, na Lapa, a pé até à Assembleia da
República, onde tomaria posse como Presidente. Neste mesmo briefing a
dois, Marcelo contou que foi nesse percurso que decidiu que não ia mudar a sua
maneira de ser.
“Não, eu não vou mudar. Não vou mudar porque
depois não fica nem carne nem peixe. Nem fica aquilo que a pessoa é, nem aquilo
que quer ser para vestir um facto institucional e uma maneira de agir e de
proceder, mesmo ritualmente, que não é a sua maneira de ser. Não vou
mudar.” Agora diz que vai, até porque tem a “obrigação de ter aprendido a
lição”.
“Eu aprendi a admirar os meus antecessores ainda mais do que já
admirava. Aprendi a dificuldade que é ser-se Presidente da República. Aprendi
quantas vezes eu não agradeceria não ter ex-presidentes da República a intervir
na vida política”, detalhou mesmo em
direcção ao único ex-Presidente que o criticou, Cavaco Silva. Por
tudo isto, passa a uma experiência totalmente nova para o bicho político que
sempre foi: “Falar de outras coisas. Posso no
domínio da cultura. Posso no domínio social, da prestação de serviços sociais”.
Ao contrário do que chegou a prever — nas antecipações de calendário
que sempre vai fazendo — que fosse António Costa, e não ele, a encerrar este
ciclo político. Fechou-se um “ciclo de
50 anos na democracia portuguesa” e agora entra outro. “O senhor primeiro-ministro foi um dos novos
protagonistas desse novo ciclo da vida política portuguesa, há dois anos.
Teremos, a partir de segunda-feira, um novo e importante protagonista também, o
senhor Presidente da República Portuguesa. E, portanto, é também na vida
portuguesa — não é só no mundo — um virar de página.”
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Encerra o seu ciclo sem
grande análise sobre eventuais erros — “ninguém
pode dizer que nunca cometeu nenhum erro” — e
a justificar cada uma das dissoluções. Afinal são o peso maior que leva desta passagem por Belém, numa
história em que é tantas vezes apontado de ter, através das sucessivas
antecipações de eleições, ajudado ao agigantar da extrema-direita em Portugal.
Começou por dizer que alguém um dia fará “um juízo definitivo” sobre isso, mas
acabou a justificar cada uma com a defesa da “estabilidade”.
“A estabilidade em si mesma é um valor
fundamental. Portanto, num caso, a estabilidade orçamental, que era muito
importante para a estabilidade do Governo. Em outro caso, a estabilidade ao
nível da liderança do Governo e do principal partido, o partido maioritário no
Parlamento. E, em outro caso, as condições para um governo que está a governar,
poder proceder à governação”, afirmou sobre a dissolução de 2021, a de 2022 e a
de 2025. Mas afinal o juízo que lhe interessa está feito: “Os
portugueses julgaram três vezes,
e das três vezes deram razão ao Presidente”.
Quem vem a seguir, só tem de fazer melhor. O desafio está também lançado por Marcelo que embora não
queira empecilhar o seu sucessor, empecilhou. Colocou-lhe em cima dos ombros a pesada responsabilidade de ter de
“ser o melhor de todos os presidentes da República”. “Porque tem um apoio tal, e tem uma esperança tal
das pessoas atrás dele, que isso implica que seja obrigação de todos os
cidadãos — agora já falo quase como cidadão — desejarmos isso mesmo. E que numa
das peças fundamentais esteja o relacionamento com o Governo, e do Governo com
Presidente.” Marcelo vai experimentar ficar só a ver.
PRESIDÊNCIA
DA REPÚBLICA POLÍTICA GOVERNO MARCELO
REBELO DE SOUSA PRESIDENTE DA
REPÚBLICA PRIMEIRO-MINISTRO
COMENTÁRIOS:
Fernando
Silva Correia: Que presidente tão foleiro!… mais parece um
influencer de meia tigela com sede de protagonismo bacoco. Alberico
Lopes: Espectáculo
vergonhoso de duas personagens. inacreditável. Alberto
Bruno: O desbocado… Quem não se
recorda …. “ o……. (Primeiro ministro na altura) está lé- lé da cuca” E agora
diz que vai ser um “monge cartuxo” Alguém acredita no desbocado? António
Duarte: Horrível
cata-vento continua com selfies dez anos depois de isso sair de moda…
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