E sem piedade. Digo, naturalmente, o sentido do humor de AG,
de uma acuidade crítica ímpar, na análise dos esgares assumidamente sérios de
Seguro, dadas as suas novas – e nobres – responsabilidades de encaminhamento de
uma nação, por pequena que seja.
Caídos no chão comum: o Facebook do
presidente Seguro
O dr. Seguro pertence à vasta
escola de políticos que, na escassez de substância, trocam as ideias que não
possuem por vocábulos soltos e clichés desavergonhados.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR,14 mar. 2026, 00:24140
“Ao contrário de Marcelo, Seguro usa redes
sociais para comunicar enquanto presidente”, informa o Público com provável entusiasmo.
E depois desenvolve: “Nos últimos dias, o
Presidente [a maiúscula é deles] tem recorrido às suas contas no Instagram,
TikTok e Facebook (…) para divulgar a agenda presidencial, publicar vídeos e
fotografias das visitas oficiais e partilhar momentos de contacto com a
população.”
Em princípio, tudo o que seja
o “contrário” do prof. Marcelo é bom. O problema surge quando
percebemos o significado de “comunicar” para o Público e,
pior, para o dr. Seguro. Não investiguei a conta de Sua Excelência no
Instagram, cuja mecânica ignoro, nem no TikTok, que nem sei bem o que é. Mas
fui à página dele no Facebook. E estou aqui para testemunhar. Ou, como se diz
na Internet, se eu vi vocês também têm de ver.
Segunda-feira, 9 de Março (após a tomada de posse)
“Assumo hoje, perante vós e perante o povo português, a honra e a
responsabilidade de servir Portugal como Presidente da República. Saúdo todos
os portugueses. Fico eternamente agradecido pela confiança que depositaram em
mim para vos servir como Presidente: Presidente de Portugal inteiro e
Presidente de todos os portugueses, vivam em Portugal ou no estrangeiro.”
A estreia do novo PR é
ambígua. Por um lado, num texto pequenino farta-se de repetir palavras
(Portugal, portugueses, Presidente – sim, ele é igualmente dado às maiúsculas)
e a sugestão de que é nosso serviçal. Em
compensação, não recorre ao medonho truque do “portuguesas e portugueses”, o que é um sinal de esperança.
Segunda-feira, 9 de Março (convívio
com “populares” [?])
“Que alegria ver estes jardins cheios de vida, de sorrisos e de boa
disposição. Uma Presidência próxima e com as portas abertas às pessoas. Vamos
repetir estes momentos muitas vezes.”
Mau! As maiúsculas
alastram à própria “Presidência”. Por azar, o esforço de solenidade
contrasta com o resto, que parece genuína e comoventemente escrito por uma
criança. Começa a impor-se a impressão de que o presidente, perdão, Presidente
Seguro não é dado a reflexões excessivamente profundas.
Segunda-feira, 9 de Março (imagem com
a família)
“Trago-vos uma palavra de esperança. Acreditem em Portugal. Na minha
visão de Portugal, todos contam e cada um tem um papel a desempenhar. É urgente
recuperarmos o sentido de comunidade e restaurar o nosso chão comum que nos
permite viver em harmonia uns com os outros. Onde cada geração acrescente
qualidade de vida à geração dos seus pais.”
Avisei há pouco para a profundidade das reflexões. Agora faço notar a
frontalidade: o dr. Seguro está falar especificamente de quê? Da pobreza? Da
insegurança? Da desigualdade? Do medo? Da imigração? Dos independentistas
açorianos? Cada frase vem recheada de uma indulgência tão genérica que se torna
aplicável a tudo, o que é o mesmo que não se aplicar a nada.
Segunda-feira, 9 de Março
(confraternização com “jovens”)
“A minha geração via o futuro como uma avenida larga. Muitos jovens
hoje sentem que têm pela frente uma rua estreita. Isso não pode ser o destino
do nosso país. Quero construir uma verdadeira coligação com os jovens. Uma
parceria aberta, onde possamos ouvir mais, recolher ideias e pensar juntos o
país que queremos para os próximos anos. Portugal tem recursos e tem talento.
Mas, acima de tudo, tem a capacidade de definir o seu futuro.”
Ai, ai. A
referência ao “chão comum” do “post” anterior já indiciava uma tendência preocupante para o lirismo dos
pacotinhos de açúcar. As ruas e as avenidas deste “post” confirmam os
maiores receios. A parte divertida é a mistura dos arremedos “poéticos” com
a língua de pau da baixa política: a
“rua estreita” desagua sem pausa nem escrúpulos em “coligações” e “parcerias”
(“abertas”, para distinguir das fechadas). Quanto ao conteúdo, parece que o
dr. Seguro tenciona “pensar o país” com a miudagem. Não fica esclarecido
como é que isso funcionará, mas os resultados prometem. Acrescento que, já na
geração do dr. Seguro, a avenida era bastante mais larga para quem se enfiava
cedo nas juventudes partidárias.
Terça-feira, 10 de Março (na aldeia
de Mourísia)
“A Mourísia precisa – e o interior exige – de respostas da política.
Sobretudo quando se fazem promessas de apoio, é importante que as promessas
sejam concretizadas.”
O dr. Seguro promete fazer
com que se “concretizem” as promessas. Veremos como estará Mourísia – e o
interior – daqui a 5 anos. Ou não veremos, porque não nos lembraremos de tal
coisa. Louva-se a brevidade do “post” e a ausência de metáforas.
Terça-feira, 10 de Março (em
Guimarães)
“A geração que aqui fundou Portugal lutou pela independência, pela
liberdade e pela afirmação de um povo. A nossa geração enfrenta outro
desafio, proteger o planeta, responder às alterações climáticas e garantir às
novas gerações um futuro sustentável. Guimarães mostra que esse caminho é
possível.”
O facto de o dr. Seguro achar que uma guerra pela autonomia dinástica
visou a “libertação de um povo” é revelador de dois ou três pormenores, e
nenhum abona em favor de Sua Excelência. Saltar daí para as “alterações
climáticas” é uma proeza ainda mais espantosa. Se compreendi bem, e de certeza
que não, o caso de um fidalgo que bateu na mãe há 900 anos serve de exemplo aos
que hoje combatem o degelo dos pólos. Anoto ainda a cautelosa falta de
referências às acções de D. Afonso na expulsão dos árabes, que pelos vistos não
serve de exemplo à nossa geração.
Terça-feira, 10 de Março (na
Casa da Música, no Porto)
“Iluminada no exterior com as cores nacionais; aquecida no interior com
os corações dos portuenses; alegrada pela dança e pela música de artistas de
excelência; marcada, pelo longo aplauso, em pé. de todas as pessoas que
encheram a sala principal; cantada pelo hino nacional à capela. Que noite.
Muito obrigado à cidade Invicta.”
Não comento a pontuação, excepto
para dizer que é moderna. Quanto ao texto em geral, julgo que já o lera
algures: em quatrocentos sites autárquicos, a descrever “certames patentes” nas
respectivas “localidades”. Muito bonito, escusado acrescentar.
Quarta-feira, 11 de Março (regresso,
julgo que apenas virtual, a Guimarães)
“Ao ser reconhecida como Capital
Verde Europeia 2026, Guimarães afirma algo profundamente português. A
capacidade de honrar o passado sem deixar de construir o amanhã.”
Estou sem palavras.
Infelizmente, o dr. Seguro não está.
Quarta-feira, 11 de Março
(talvez em Guimarães, a cronologia desta página de FB é caótica)
“As alterações climáticas, que
infelizmente têm devastado Portugal, precisam de ser combatidas. E uma das
necessidades que temos é que cada um perceba que tem uma responsabilidade
individual, para além de assumir essa responsabilidade colectiva.”
O que devastou algumas regiões de
Portugal foram os ventos e a chuva, ou seja o clima. Não foram as “alterações
climáticas”. A influência do eng. Guterres, mentor do
dr. Seguro, prepara-se para marcar (ia escrever “manchar”) a presidência,
caramba, a Presidência do homem. Na obsessão com a meteorologia e na propensão
para o vácuo, donde afinal é viável nascer. Não
tarda, dedica-se a discorrer acerca de Gaza.
Quarta-feira, 11 de Março
(outra vez na câmara do Porto: uma página tão novinha e já tão desorientada)
“O Porto é uma afirmação de carácter, uma forma de estar na história e
no mundo. Neste nosso Porto, permitam-me assim, nosso Porto, cidade de pedra
firme e coração aberto, cruzam-se tempos, povos e vontades.”
Há mais banalidades sem
sentido neste “post” do que letras. Não é fácil produzir um
parágrafo assim. Mas comprova-se que não é impossível. O dr. Seguro pertence à
vasta escola de políticos que, na escassez de substância, trocam as ideias que
não possuem por vocábulos soltos e clichés desavergonhados. A
habilidade funciona para quem dispuser de idêntico, digamos, quadro mental. O
que Sua Excelência diz sobre o Porto poderia ser dito sem prejuízo ou abalo
sobre qualquer cidade de Portugal, quiçá do mundo. E este é o melhor teste à
nulidade de um discurso.
A julgar pela amostra, há pelo
menos uma promessa que o dr. Seguro vai “concretizar”: um mandato repleto de
palavreado oco. Ou dois mandatos, pois tudo indica que, apesar de não
prometer despir-se em público, será um presidente popular. Desculpem: um
Presidente Popular.
Receba um alerta sempre que Alberto Gonçalves publique um novo artigo.
ANTÓNIO JOSÉ
SEGURO PS POLÍTICA
COMENTÁRIOS (de 140)
Ricardo Gonçalves: Este cronista é só o melhor cronista
português. Vale a assinatura. Por vezes, parece que me rouba os pensamentos.
Quem me dera ter um por cento do talento deste escriba. Por outro lado, fiquei
a saber que o Seguro tem Tique-toque. Que infantil. Ridículo. Miguel Sanches: Já faltava uma crónica para começar o sábado a
soltar gargalhadas. Muito
bom. O
senhor de Belém é mesmo a vacuidade que se previa. ana rita: É sempre bom não esquecer que 66% dos
portugueses votaram e se identificam com esta parolice. Afinal os
"portugueses" (a grande maioria) são isto. Albino Mendes: Elogio a coragem do Alberto Gonçalves, ao ir
consultar a previsível "conversa para boi dormir" do dr. Seguro, no
fb. Confesso que eu não tenho tamanha coragem. Mais um grande trabalho do
Alberto Gonçalves 👍
José Paulo Castro: A única questão é se o Dr. Seguro combina bem
com as cortinas do Palácio de Belém. Combina ? Então, os discursos também. Ninguém esperava mais: é um adereço
do regime. Tim do A: A via larga que a geração de Seguro via era o
governo de Cavaco. A via estreita que a actual geração vê, foi o produto dos
governos socialistas de Costa.
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