quarta-feira, 1 de julho de 2026

ESTAR NA BERLINDA

 

Um propósito sempre apetecido.

TUDO SOBRE TRUMP, NADA SOBRE O IRÃO

Como é possível dizer que um país enfraquecido militarmente, a enfrentar uma crise económica grave, com um regime detestado pela maioria da população, ganhou uma guerra? Por causa de Trump

JOÃO MARQUES DE ALMEIDA Colunista do Observador

OBSERVADOR, 01 jul. 2026, 00:25

As discussões e os debates sobre a guerra do Irão foram de uma pobreza assustadora. Não foi só em Portugal, também foi no Reino Unido e em França (dois países europeus cujos debates sigo com atenção). A grande maioria dos analistas e comentadores nunca esteve interessada em discutir a guerra no Irão, e sobretudo as consequências para o país. O principal objectivo era, simplesmente, atacar Trump. A grande competição foi quase sempre para ver quem atacava Trump com mais dureza ou usando mais piadas (que quase nunca tinham graça).

Trump cometeu enormes erros. A guerra foi mal planeada e mal executada. As forças armadas norte-americanas sabiam que o Irão iria tentar ocupar o Estreito de Ormuz (fazia parte dos planos de guerra americanos na região há décadas), mas nada foi feito para o controlar antes do Irão. Ninguém sabe se as forças armadas americanas teriam conseguido ou falhado porque não foi tentado. As negociações com os iranianos também foram de uma pobreza enorme. Há um mito que nos diz que Trump é um negociador hábil. Talvez seja de negócios de construção civil e hotelaria. De negociações diplomáticas, não é seguramente. Trump não tem paciência para ganhar guerras e vencer na diplomacia. É impulsivo, farta-se, distrai-se, e está sempre a mudar.

Esta colecção de erros ajudou a tendência de discutir a guerra no Irão olhando apenas para Trump e ignorando quase tudo o resto. Aqueles que tentaram ir além de Trump foram raras e honrosas excepções. Os erros de Trump, e a antipatia e mesmo o ódio que causa em muitos comentadores, contribuíram para a pobreza das análises. Há uma dialética evidente sobre a mediocridade da política de Trump e a mediocridade das análises sobre a guerra do Irão.

A afirmação de que o Irão ganhou a guerra constitui o erro mais colossal de todos. Só mesmo o desejo de assistir a uma derrota de Trump pode levar à conclusão de que um país que perdeu o seu líder máximo, e grande parte das lideranças políticas e militares, e igualmente uma parte substancial da sua capacidade militar, venceu a guerra. Ninguém sabe quais são as consequências da guerra para o futuro do Irão e do seu regime. Sabe-se que há divisões no regime e no país, que a autoridade do Estado funciona mal e que a economia está destruída, com inflação descontrolada, o aumento do desemprego e da pobreza. O futuro do Irão pode ir desde o fortalecimento do regime, a mudanças no interior do regime, ao fim do regime ou a uma guerra civil. Ninguém sabe. Nem os iranianos. Qualquer destes cenários terá consequências enormes para a região. Daqui a dois anos, deixaremos de falar sobre a política do Presidente Trump, mas as mudanças internas no Irão, as suas relações com os seus vizinhos e o conflito com Israel continuarão a dominar os debates sobre o Médio Oriente.

Uma análise mais alargada do que aconteceu na região desde os ataques do Hamas a Israel, em Outubro de 2023, mostra mesmo que o Irão está muito mais fraco. A estratégia revolucionária do Irão tem sido durante décadas construir um cerco a Israel através de movimentos radicais apoiados e financiados por Teerão. O que se passa cerca de três anos depois? O Hamas está muito enfraquecido. O Hezbollah perdeu força, grande parte da sua liderança, e está isolado no Líbano. Na Síria, houve uma mudança de regime e de principal aliado passou a adversário do Irão. Depois de um acordo com a Arábia Saudita, assinado em 2021 (com mediação da China), e de uma aproximação com os vizinhos árabes do Golfo, estes olham agora para o Irão como a maior ameaça à sua segurança. Mais, os países do Golfo estão a pedir, uns em público (como os Emirados e o Bahrein), outros em privado, como a Arábia Saudita, a Israel para os ajudar a defenderem-se contra o Irão.

Mesmo no caso do Estreito de Ormuz, o futuro é complicado para o Irão. Se os iranianos insistirem em controlar o Estreito, serão os países da região, os europeus e as potências asiáticas a oporem-se. Os Estados Unidos não compram petróleo, nem gás, nem fertilizantes no Golfo. São sobretudo os países asiáticos que necessitam dos recursos naturais dos países do Golfo. No futuro, a culpa dos problemas na circulação no Estreito de Ormuz será dos iranianos e não de Trump.

Como é possível dizer que um país enfraquecido militarmente, a enfrentar uma crise económica grave, com um regime detestado pela maioria da população, isolado na região e depois de perder os seus principais aliados ganhou uma guerra? A resposta é muito simples. Por causa de Trump.

IRÃO      MÉDIO ORIENTE      MUNDO      DONALDO TRUMP      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA

COMENTÁRIOS (de 20)

Isabel Gomes: É possível porque é obviamente mentira. Os canais de informação são na realidade canais de propaganda anti Trump.

Fernando ce: Pela primeira vez alguém diz que o o”rei vai nu”. A alegria com que jornalistas e comentadores diziam e dizem todos os dia que Trump e os EUA perderam a guerra é inacreditável. Como é possível defenderem o regime do Irão - uma ditadura teocrática, medieval, que ameaça a existência de Israel e é um perigo regional. Os EUA ainda representam a democracia de tipo ocidental que felizmente o governo português apoiou. Veja-se como o Supremo Tribunal de Justiça ainda ontem deu a conhecer decisões contra o Presidente, apesar de ter uma maioria republicana. Haja decência senhores comentadores e jornalistas.

José Paulo Castro » José Paulo Castro: Claro que a maior ironia é que esses estão objectivamente a ajudar o outro pólo da globalização, o autocrático, como a China e a sua aliança com o Irão.

Ana Rita Tudo isto porque a Europa virou à esquerda, o seu antiamericanismo primário está ao rubro. Sinto vergonha de viver nesta Europa parolinha e invejosa.

Alcides Longras > Manuel Gonçalves Qual é a parte do artigo em que se sublinha os factos como tudo o que o Irão perdeu e como tem o seu futuro comprometido que você chama de trumpismo? É que Trump é passageiro mas a crise no Irão já existia antes dele e vai continuar a existir bem depois.  Ou isso também é trumpismo?

ANA CRISTINA: A hipocrisia é tão grande que nem conseguem imaginar qual a hipótese se Trump não tivesse sido o eleito. Kamala, tão ao jeito destes comentadores europeus wok, teria dado a machadada final na Civilização Ocidental. A Europa estaria num buraco de onde dificilmente já sairia. Trump tem a vantagem de ser inconveniente de não ter filtros. Talvez ainda tenhamos acordado a tempo!

JOSÉ PAULO CASTRO: Se Trump, de alguma forma, ganhar as lutas em que se empenha, isso representa um rude golpe na globalização. Todos os que apostaram nesse modelo de sociedade global estão obrigados a fazer de Trump o seu foco.

MANUEL GONÇALVES: Os trumpistas do Observador insistem na sua defesa, contra todas as evidências do seu carácter errático, incompetente e de verdadeiro estrabismo corrupto. Como já perceberam que é insustentável defendê-lo directamente, agora fazem essa defesa de forma criativa e enviesada. Enfim, há muitas vias para enterrar a cabeça na areia, inclusive mandar para moderação um comentário que não gostam…

Tim do A: Acho que foi mais por causa sa Europa que se colocou do lado do Irão ou, pelo menos, não apoiou os EUA e Israel. Puseram-se do lado contrário ou do lado errado, isolando os EUA e Israel, em vez de aproveitarem a oportunidade única para resolver o problema. Assim é difícil!

A busca da verdade

 

E, tantas vezes, a verdade da busca…

Isto vem tudo no Huxley

Onde é que nós queremos chegar, afinal, com este entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos, sem esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda?

NUNO GONÇALO POÇAS Advogado e Colunista do Observador

OBSERVADOR, 30 jun. 2026, 00:24

No tempo em que as crianças jogavam à bola na rua, por entre lancis, passeios, pedras da calçada levantadas, alcatrão, automóveis, camiões, portões de garagem amolgados pela força dos petardos lançados com bolas esfarrapadas pelo asfalto ou balizas feitas com calhaus, medidas com passos, havia uma série de regras altamente falíveis que eram seguidas à risca. Uma delas era a da validade dos golos quando as bolas iam altas. Levantava-se uma grande discussão sobre se o guarda-redes lá chegaria em teoria, simulando-se uma trave horizontal erguida à medida não de uma medida regulamentar, mas da altura de quem jogava à baliza – daí que, quanto mais pequeno o guarda-redes, melhor, porque se reduzia automaticamente a altura da baliza (sendo que pequeno e gordo seria a medida perfeita do guarda-redes, que acaba por transformar a baliza de pedras numa barreira intransponível). As discussões levantavam-se, não raras vezes acabavam à pancada, num processo de libertação hormonal e manifestação de força saudável, que fazia, a curto prazo, mais forte quem batia e, a longo prazo, quem levava.

Lembrei-me disto numa destas madrugadas, enquanto a seleção portuguesa de futebol era massacrada pelos colombianos neste evento de publicidade a que chamam Mundial de Futebol, quando um golo aos olhos de todos válido foi anulado à Colômbia. Aquela aberração a que chamam VAR, vídeo-árbitro, uma máquina que oferece imagens virtuais que apuram ao milímetro a verdade desportiva, descobriu a ponta de um dedo colombiano para lá da linha Maginot virtual que separava o último defesa português do seu guarda-redes. Como sou uma daquelas almas que já gostou mais de futebol do que de uma equipa, e não sou totalmente imune à nostalgia, achei que o golo ia ser validado. Não havia nada, entre o directo e a repetição, que indiciasse um fora-de-jogo. Mas lá surgiu a linha virtual e a Colômbia acabou por empatar um jogo que merecia ganhar.

Há, de facto, qualquer coisa de profundamente revelador num golo anulado porque a biqueira de uma bota ficou dois centímetros para lá da linha. Os jogadores fizeram tudo bem, o estágio explodiu, as gentes entram em êxtase, outras em profunda tristeza, tudo parece encaminhado para a revelação da Humanidade, e eis que uma máquina nos diz que não, que não foi bem assim. Não discuto sequer a regra, a tecnologia, a justiça real que tudo isto traz a um jogo que é, ainda por cima, cada vez menos um jogo e mais um mercado de capitais e transacções. Mas há aqui, em tudo isto, alguma coisa que nos fala sobre o tempo que vivemos e naquilo em que nos estamos a tornar ou em que nos tornámos já.

O que é que se espera do Homem que não aceita a imperfeição, o erro, a margem de erro, a ideia de que a vida é um conjunto infinito de zonas cinzentas oscilantes pela decisão humana que prevalece sobre a ideia de uma medição absoluta? O que é que se pode esperar de uma sociedade que exige a limpeza total, a exactidão total, o controlo total, a perfeição absoluta? Esta é a época das canetas de emagrecimento, afinal, uma revolução real que, procurando ser justo, melhorou, por enquanto, a vida de milhares de pessoas e representa um avanço extraordinário da ciência. Mas onde é que nós queremos chegar, afinal, com este entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos, sem esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda? Por mais sedutora que seja a ideia da perda de peso sem fome, será inevitável que cheguemos a outros sítios: à ambição de aprender sem estudar, de enriquecer sem poupar, de criar relações duradouras sem compromisso, de ter sucesso sem fracassar, de obter reconhecimento sem mérito, de ser feliz sem sofrer. Talvez nenhuma outra civilização tenha investido tanto na eliminação de qualquer forma de atrito pessoal, ao mesmo tempo em que se desmorona em atritos permanentes, sociais e pessoais.

Não digo que isto seja incompreensível. Não é. Durante séculos procurámos combater a doença, a fome, a pobreza, a dor, e felizmente vencemos muitas desses obstáculos, que nos permitiam salvaguardar o valor da vida. Não há romantismo nenhum no sofrimento, como é evidente. Mas há muito romantismo e demasiada utopia num mundo que luta pela abolição total da dor, até ao ponto em que o Homem passa a ser avaliado exclusivamente sob o ponto de vista da sua perfeição ou da sua utilidade. Talvez seja esse o grande esquecimento do nosso tempo: a confusão entre sofrimento e mal absoluto, o varrimento para debaixo de um tapete da ideia de que há um sofrimento que destrói e há outro que forma vontades e carácter. É por isso que o verdadeiro perigo em que vivemos não seja o vídeo-árbitro ou as canetas de emagrecimento, por exemplo, mas a filosofia que os permitiu: a ideia de que qualquer obstáculo é um defeito da realidade e de que a boa sociedade será aquela onde nada custa, nada dói e nada exige. E onde se é, afinal, menos livre porquanto deixamos de estar aptos a fazer escolhas. O Admirável Mundo Novo é este: a troca da liberdade pelo conforto, não pela força, mas pelo prazer. Permitam-me que não aprecie.

COMENTÁRIOS (de 21):

António Lamas: Se fosse vivo, Huxley teria que que escrever um novo livro.

"Terrível Mundo Novo".