Da mesma moeda – a do interesse por si e a do desprezo pelo
outro. Ou antes, “Quem cá está, que se amanhe”… uma divisa de um ser que pensa
e que pena, sendo que já alguém descreveu a VIDA como um “ai que mal soa” e que
“o vento levou”. Mas não julgo ser esse o pensamento lá pela Casa Branca, nem
que existam Quixotes em Teerão, todos nós, humanos, mais aparentados com os Sanchos
fura-vidas…
SANCHO PANÇA NA CASA BRANCA, DOM QUIXOTE EM TEERÃO
Cada acordo com Teerão é uma aposta de alto risco.
Aposta-se que o estômago vencerá a ideologia, que a inflação vencerá a
escatologia, que os generais preferirão contas bancárias a funerais.
JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO, Coronel "Comando"
OBSERVADOR, 03 jul. 2026, 00:24
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A convicção “realista” de que todos os países transaccionam,
num mercado comum de interesses, é uma ilusão persistente nas diplomacias
ocidentais.
O típico realista imagina que todos querem aquilo que
ele quereria no seu lugar, coisas como petróleo, prosperidade, segurança,
dinheiro, comércio, reconhecimento, futuro. Infelizmente, a História não
funciona só assim.
Nas negociações entre os EUA e o Irão, Washington
comporta-se mais ou menos como Sancho Pança. Não o Sancho caricatural, mas
o
Sancho vital, prudente, telúrico, o homem que intui que moinhos são moinhos, a
vida tem peso, o estômago reclama, o burro se cansa, a cevada custa dinheiro e
que uma boa refeição vale mais do que dez discursos sobre a glória.
Sancho
é o homem do pão, do pragmatismo, da aritmética elementar e da sobrevivência. É
a razão prática. Mede, calcula, transige.
O Sancho Pança americano, intui que os iranianos
precisam de vender petróleo, precisam de electricidade, têm inflação, jovens
inquietos, elites cansadas, generais com contas bancárias e filhos no
estrangeiro. Portanto acredita que acabarão por negociar, porque é do seu
interesse.
É verdade que há Sanchos Pança em Teerão. É gente que não vê o regime como uma
aurora metafísica, mas como uma propriedade a conservar, antes que o telhado
caia. Querem poder, sim, mas com ar condicionado, dinheiro, hospitais
funcionais e universidades ocidentais para a descendência.
É aí que a actual Casa Branca julga ter encontrado a chave. Se
há Sanchos Pança em Teerão, pensa, então a solução é dar-lhes cenouras
suficientes para conterem os Quixotes tresloucados da Guarda Revolucionária.
Daí a ideia de
levantar sanções aqui, desbloquear fundos ali, aceitar uma fórmula vaga sobre
Ormuz, admitir ambiguidades nucleares, inventar comissões e assinar memorandos. Washington acredita que pode comprar
moderação, embora se arrisque a estar apenas a financiar o intervalo, porque
a realidade é que no núcleo duro da República Islâmica não manda Sancho Pança.
Manda D. Quixote. Não o cavaleiro literário que
confunde moinhos de vento com gigantes e comove pela pureza da loucura, mas o D. Quixote político-religioso,
fanático que prefere incendiar a estalagem a reconhecer que a Dulcineia não
existe. Para a Guarda Revolucionária, se
navios atravessam Ormuz sem pedir licença, são gigantes a ser atacados. Se Israel existe, é encantamento
maligno, a desfazer à bomba. Se os americanos querem negociar, é porque temem a
coragem do cavaleiro de triste figura. Se a economia se desfaz, que se desfaça,
Alá cuidará dos seus e a fé sempre gostou de sacrifícios.
É por isso que as negociações entre o Sancho Pança
americano e o D. Quixote iraniano são, em síntese, um diálogo entre o estômago
e o delírio. JD Vance
fala de incentivos; os pasdaran falam de destino. Washington fala de garantias;
a Guarda Revolucionária fala de martírio. Os americanos discutem estabilidade
regional; Teerão responde com milícias, drones, mísseis, e comunicados sobre
soberania revolucionária. Sancho Pança fala do preço da cevada. Dom Quixote
investe contra o moinho.
O problema é que não cavalga sozinho. É ajudado pelo cinismo do Czar e do Mandarim, e criou
uma cavalaria andante de discípulos com o Hamas, Hezbollah, Houthis e outras
milícias.
Cada qual tem a sua Dulcineia, os seus gigantes, a sua lança e a mesma
indiferença às contas elementares da vida.
Em Gaza, Sancho Pança, perante casas
destruídas, crianças mortas, hospitais arruinados e o futuro amputado,
perguntaria como reconstruir. O Hamas só pensa em preservar a “resistência”.
No Líbano, país de comerciantes, poetas, cristãos, sunitas,
xiitas, drusos, cafés, bancos, universidades e ruínas romanas foi convertido em
plataforma de lançamento de mísseis e drones. Sancho Pança fala de moeda, turismo,
electricidade e paz. O Hezbollah só se interessa por túneis, foguetes e jihad.
Os Houthis, por seu turno, encontraram no Mar Vermelho
os seus moinhos de vento. Um cargueiro, Israel, uma carga de trigo, um contentor de
peças automóveis, etc. Sancho Pança
pergunta o que ganha o Iémen com isso e D. Quixote responde que
ganha honra.
O erro americano consiste em confundir interesses com
racionalidade. Sancho Pança não compreende certas coisas porque vive apenas no
mundo das consequências. Se faltar vinho, Sancho nota. Se o burro cair, Sancho
pára. Se a estalagem for má, Sancho queixa-se. Se a guerra destruir a seara,
Sancho passa fome. D. Quixote vive no mundo das interpretações. Se cai, foi encantamento. Se
perde, foi traição. Se destrói, foi purificação. Se a população sofre, foi
preço da dignidade. Se o inimigo responde, foi agressão. Se o acordo falha, foi
porque nunca houve intenção verdadeira do outro lado. O fanatismo tem sempre um breviário
ao alcance da loucura.
Isto não significa que não se deva negociar. Mas é
indispensável saber quem é o interlocutor.
Negociar com Sancho Pança é uma arte comercial que tem
a ver com preço, prazos, garantias. Negociar com D. Quixote, se o
apanharmos sentado à mesa, exige armadura, pistola na gaveta, correntes nos
moinhos, guardas à porta, verificação no terreno, e a firme disposição de usar
o varapau quando a cenoura não resulta.
Exige também a humildade de perceber que nem todos os
homens querem a sua casinha confortável, farta e airosa. Alguns querem mesmo o moinho
em chamas, a lança partida, a canção dos mártires e a glória absurda de terem
perdido o mundo real para vencerem numa fantasia.
Trump, como tantos antes dele, talvez acredite que os Sanchos Pança iranianos
acabarão por dominar os D. Quixotes. Pode ser, mas parece pouco provável.
Nos regimes revolucionários, os moderados administram o edifício mas são os
fanáticos que guardam as chaves do armeiro.
Por isso, cada acordo com Teerão é uma aposta de alto
risco. Aposta-se
que o estômago vencerá a ideologia, que a inflação vencerá a escatologia, que
os generais preferirão contas bancárias a funerais. Pode acontecer,
mas muitos desastres nasceram da convicção de que o outro lado seria sensato
pelas razões que nós consideramos sensatas. Há aqui uma lição antiga
que, continua de difícil apreensão para certos estadistas simplórios. Os
bárbaros não se acalmam quando farejam fraqueza. Excitam-se. O apaziguamento
não lhes inspira gratidão, mas apetite. A concessão não é interpretada como
generosidade, mas como confirmação de que a pressão funciona. Daladier e Chamberlain aprenderam isso em 1938, com um
bigode austríaco particularmente desagradável
Sancho Pança é indispensável à política, sem
dúvida. Sem ele não há pão, prudência, limite, ou paz. Mas quando entra sozinho numa
sala cheia de cavaleiros de triste figura, convencidos de que a História os
contempla, não lhe basta a sabedoria popular e a intuição pragmática. Tem de
levar força, aliados, verificação e lucidez. Porque quando D. Quixote confunde
navios, cidades e povos com gigantes, não basta explicar-lhe que são meros
moinhos de vento. É preciso garantir que, ao carregar contra eles, parte a
lança e quebra o nariz, antes de se escaqueirar a ele e ao mundo.
Irão Médio Oriente Mundo
COMENTÁRIOS:
Ruço Cascais > João Floriano
21 h
A beleza de Cervantes é fazer do louco o amado e do
racional o odiado.
Com Zorro e Pancho Villa acontece a mesmíssima coisa.
Pancho representa a autoridade do Estado e Zorro o bandido romântico. Por quem
torcemos? Pela selecção e por Zorro.
Deixemos os mexicanos e vamos até aos bretões para
recordar Robin Hood e o Xerife de Nottingham. Um, o bandido romântico que vive
exilado na floresta a assaltar quem por lá passar. No lado oposto a autoridade
do Xerife que procura prender Robin para garantir a segurança dos viajantes. De
quem gostamos? Do Xerife, da ordem e da autoridade? Não, nem pensar. O nosso
ídolo é o bandido assaltante, aventurareiro, hetero e namoradeiro.
Vamos agora ter Cervantes contra Camões, Sancho contra
Viriato, Ramos contra Ronaldo, João Félix contra Rafael Leão, Dom Duarte contra
Dom Filipe.
COMENTÁRIOS:
Ruço Cascais: Muito bem explicado o posicionamento da Administração Trump e
dos Aiatolás à mesa das negociações. Concordo em absoluto. Só não me parece
muito bem colar o romântico e aventureiro D. Quixote aos Aiatolás. D. Quixote é
uma personagem muito europeia. Lutar contra o vento é uma coisa nossa.
Há outras figuras e coisas na história do Cervantes que
podiam ser melhor comparáveis à posição dos Aiatolás e da Administração Trump,
designadamente o bburrro do Sancho, curiosamente conhecido como Ruço. Já do
lado americano, o moinho assenta às mil maravilhas a Trump; conforme o vento,
conforme o andamento. Além disso, as velas podem sempre ser substituídas
mantendo sempre a estrutura. Já o bburrro Ruço 😀 é insubstituível.
O bburrro Ruço pode ser insubstituível, mas, isso não implica
que não existam outros, designadamente o bburrro Moamed Luís Silva Allah, que
não tardará muito para aqui andar para moer o juízo ao Coronel 😅
São sem dúvida os diversos bburrros comentadores,
incluindo-me a mim, como é óbvio, que fazem destas crônicas de caríssimo Carmo
a leitura viral dia.
João Floriano: Um texto simplesmente soberbo. Tenho de reconhecer que me
rendo a uma crónica bem escrita, venha ela de onde vier e esta é
particularmente uma beleza de crónica. Em relação à ideia principal, estou
totalmente de acordo. Os representantes de Trump sentam-se à mesa com os da
Guarda Revolucionária, que aparentemente mandam no Irão, mas com propósitos
diferentes, que o coronel José do Carmo tão bem soube apontar. O grande
desígnio do Irão actual é ver Israel evaporar-se do mapa. A esse desígnio
cósmico tudo sacrificará. Pelo andar da carruagem, daqui a um ano José do Carmo
estará a escrever uma crónica semelhante e o Sancho Pança de cabelo de palha
alaranjado estará a insistir nos mesmos
argumentos, a fazer concessões, ameaças, enquanto o D. Quixote de turbante e
seus outros aliados terroristas vão ganhando tempo à mesa das negociações.
Sancho Pança vai sair da Casa Branca e deixará um grande problema por resolver.
Sr Leão: Em matéria de qualidade literária, o Coronel não tem rival no
Observador. Muitas das suas crónicas, mesmo que os temas nunca se afastem da
esfera política, são peças de arte literária.
JOSE PIRES: "Os bárbaros não se acalmam quando farejam
fraqueza. Excitam-se. O apaziguamento não lhes inspira gratidão, mas apetite. A
concessão não é interpretada como generosidade, mas como confirmação de que a
pressão funciona. Daladier e Chamberlain aprenderam isso em 1938, com um bigode
austríaco particularmente desagradável" Que maneira soberba de descrever a
realidade. Parabéns uma vez mais Sr. Coronel. Pelas verdades que expõe de forma
tão evidente e clara e, pela beleza da sua escrita.
S N: excelente e tão oportuna crónica
ANTÓNIO LAMAS: Ainda por cima temos em Bruxelas uma Dulcineia
e um Rucio que aspira a ser Rocinante
JOSE PIRES > AMÉRICO SILVA: Nas crónicas de Cervantes você
seria o burro! Aqui, é mesmo!
GRAÇA DIASKLAUS MULLER: ...eu proponho que se levante a
imunidade do " traidor " do Directório em Bruxelas. Tem que ser
responsabilizado pelas políticas desastrosas contra o país e os portugueses.
Esta gente não pode continuar a escudar-se por detrás de uma falácia -- imunidade política.
GRAÇA DIAS: Senhor Coronel José António do Carmo
Mas que artigo magnífico... fascinante e deliciosas
analogias, ao introduzir em tão complexo cenário de múltiplos actores, e sentar
na mesa das conversações dois personagens
como o Sancho Pança
e o Dom Quixote !... eles
simbolizam a dualidade em todo este contexto, em que como afirma: " a História não funciona assim ".
Nesta « Novela
Washington-Teerão » o Sancho
Pança americano, intui mal, dado os D. Quixotes com ou sem
turbante, só querem ganhar tempo, reconstruir capacidades e se preparar para
futuros conflitos e ataques terroriiistaaass na região e em terras do Mark
Taiwan, sem se ignorar o descongelamento dos milhões de US$$$, necessários à
cavalaria andante dos seus discípulos: Hamas, Hezbollah, Houthis e outras
milícias. O Sancho Pança quantas
mais cenouras der
aos D. Quixotes, elas nunca os
irão saciar. Os D. Quixotes, com ou sem
turbante, nunca se irão desarmar, nem tão pouco irão cumprir um qualquer
Memorando ou Acordos do Sancho Pança
através da diplomacia.
Somente através da rendição total.
Senhor Coronel JAC Parabéns por tão eloquente prosa.
Obrigada.
JOSÉ PAULO CASTRO: Perfeito. Só falta dizer que não é
Washington, é o Ocidente. Demasiados Sancho Panças.
E que não é o Irão apenas, é a jihad islâmica e a irmandade
muçulmana. O quixotismo surge como semente e não como raíz.
ANTÓNIO CÉZANNE: BRUTAL!!! Nada mais a acrescentar.
ANTÓNIO REIS: Excelente. muito bom!!
JOÃO BILÉ SERRA: Somente o MELHOR cronista e analista
político-militar no Observador e um dos poucos bons em Portugal. MAMA SUME
TOMAZZ MAN: Soberbo
RUI SOARES: Brilhante
PARADIGMAS HÁ MUITOS! > FRANCISCO ALMEIDA: E se estiver
você a ser "redutor"? Porque é que a Arábia Saudita se iria
antagonizar públicamente com os americanos mesmo que o seu grande objectivo
seja agora aliar-se com o Paquistão e a Turquia? Estamos no Médio Oriente!
E mais ainda, não são estes dois países / dirigentes agora
BFF do Trump? E acha que eles esperam comprar armas à Rússia e à China? Sendo a
Árábia Saudita a pagar a conta é óbvio que vâo querer o melhor que há no
mercado e até por isso não querem ser excluidos dos clientes potenciais dos
EUA! Mas é claro que precisam de ter cuidado com o que dizem e fazer o seu
"lobbying" nos sítios certos.
António Rocha: Superlativo
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