E, tantas
vezes, a verdade da busca…
Isto vem
tudo no Huxley
Onde é que nós queremos chegar, afinal, com este
entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos, sem
esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda?
NUNO GONÇALO POÇAS Advogado e Colunista do Observador
OBSERVADOR, 30 jun. 2026, 00:24
No tempo em que as crianças
jogavam à bola na rua, por entre lancis, passeios, pedras da calçada
levantadas, alcatrão, automóveis, camiões, portões de garagem amolgados pela
força dos petardos lançados com bolas esfarrapadas pelo asfalto ou balizas
feitas com calhaus, medidas com passos, havia uma série de regras
altamente falíveis que eram seguidas à risca. Uma delas era a da validade dos golos
quando as bolas iam altas. Levantava-se uma grande discussão sobre se o
guarda-redes lá chegaria em teoria, simulando-se uma trave horizontal
erguida à medida não de uma medida regulamentar, mas da altura de quem jogava à
baliza – daí que, quanto mais pequeno o guarda-redes, melhor, porque se
reduzia automaticamente a altura da baliza (sendo que pequeno e gordo seria a
medida perfeita do guarda-redes, que acaba por transformar a baliza de pedras
numa barreira intransponível). As discussões levantavam-se, não
raras vezes acabavam à pancada, num processo de libertação hormonal e
manifestação de força saudável, que fazia, a curto prazo, mais forte quem
batia e, a longo prazo, quem levava.
Lembrei-me disto numa destas
madrugadas, enquanto a seleção portuguesa de futebol era massacrada pelos
colombianos neste evento de publicidade a que chamam Mundial de Futebol,
quando um golo aos olhos de todos válido foi anulado à Colômbia. Aquela
aberração a que chamam VAR, vídeo-árbitro, uma máquina que oferece imagens
virtuais que apuram ao milímetro a verdade desportiva, descobriu a ponta de um
dedo colombiano para lá da linha Maginot virtual que separava o último defesa
português do seu guarda-redes. Como sou uma daquelas almas que já
gostou mais de futebol do que de uma equipa, e não sou totalmente imune à
nostalgia, achei que o golo ia ser validado. Não havia nada,
entre o directo e a repetição, que indiciasse um fora-de-jogo. Mas lá
surgiu a linha virtual e a Colômbia acabou por empatar um jogo que merecia
ganhar.
Há, de facto, qualquer
coisa de profundamente revelador num golo anulado porque a biqueira de uma bota
ficou dois centímetros para lá da linha. Os jogadores fizeram tudo bem,
o estágio explodiu, as gentes entram em êxtase, outras em profunda tristeza, tudo
parece encaminhado para a revelação da Humanidade, e eis que uma máquina nos
diz que não, que não foi bem assim. Não discuto sequer a regra, a
tecnologia, a justiça real que tudo isto traz a um jogo que é, ainda por cima, cada vez
menos um jogo e mais um mercado de capitais e transacções. Mas
há aqui, em tudo isto, alguma coisa que nos fala sobre o tempo que vivemos e
naquilo em que nos estamos a tornar ou em que nos tornámos já.
O que é que se espera do
Homem que não aceita a imperfeição, o erro, a margem de erro, a ideia de que a
vida é um conjunto infinito de zonas cinzentas oscilantes pela decisão humana
que prevalece sobre a ideia de uma medição absoluta? O que é que se pode
esperar de uma sociedade que exige a limpeza total, a exactidão total, o
controlo total, a perfeição absoluta? Esta é a época das canetas de
emagrecimento, afinal, uma revolução real que, procurando ser justo, melhorou,
por enquanto, a vida de milhares de pessoas e representa um avanço
extraordinário da ciência. Mas onde é que nós queremos chegar, afinal,
com este entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos,
sem esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda? Por mais sedutora que seja
a ideia da perda de peso sem fome, será inevitável que cheguemos a outros
sítios: à
ambição de aprender sem estudar, de enriquecer sem poupar, de criar relações
duradouras sem compromisso, de ter sucesso sem fracassar, de obter
reconhecimento sem mérito, de ser feliz sem sofrer. Talvez nenhuma outra civilização
tenha investido tanto na eliminação de qualquer forma de atrito pessoal, ao
mesmo tempo em que se desmorona em atritos permanentes, sociais e pessoais.
Não digo que isto seja
incompreensível. Não é. Durante séculos procurámos combater a doença, a fome, a
pobreza, a dor, e felizmente vencemos muitas desses obstáculos, que nos
permitiam salvaguardar o valor da vida. Não há romantismo nenhum no sofrimento, como é
evidente. Mas há muito romantismo e demasiada utopia num mundo que luta
pela abolição total da dor, até ao ponto em que o Homem passa a ser avaliado
exclusivamente sob o ponto de vista da sua perfeição ou da sua utilidade.
Talvez seja esse o grande esquecimento do nosso tempo: a confusão entre
sofrimento e mal absoluto, o varrimento para debaixo de um tapete da ideia de
que há um sofrimento que destrói e há outro que forma vontades e carácter.
É por isso que o
verdadeiro perigo em que vivemos não seja o vídeo-árbitro ou as canetas de
emagrecimento, por exemplo, mas a filosofia que os permitiu: a
ideia de que qualquer obstáculo é um defeito da realidade e de que a boa
sociedade será aquela onde nada custa, nada dói e nada exige. E onde se é,
afinal, menos livre porquanto deixamos de estar aptos a fazer escolhas.
O Admirável Mundo Novo é este: a troca da liberdade pelo conforto, não pela
força, mas pelo prazer. Permitam-me que não aprecie.
COMENTÁRIOS (de 21):
António Lamas: Se fosse vivo, Huxley
teria que que escrever um novo livro.
"Terrível Mundo
Novo".
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