Num
estranho mundo, é certo.
O fumo dos incêndios do
Canadá já atravessou o Atlântico. Como consegue viajar milhares de quilómetros
e esconder o Sol?
Filomena Martins: Texto
Impulsionadas pelos ventos em altitude, as nuvens de fumo
já começaram a atravessar o Atlântico e podem percorrer milhares de quilómetros
até chegarem à Europa. Nos EUA deixaram cidades sem Sol.
OBSERVADOR,
20 jul. 2026, 21:19
ÍNDICE
O que está a arder no
Canadá?
Como é que o fumo
deixa cidades sem Sol?
Porque é perigoso o
fumo?
Como entra no
Atlântico?
Porque ainda não
chegou a Portugal?
Durante vários dias, os arranha-céus de Nova Iorque
desapareceram parcialmente atrás de uma cortina cinzenta. Em Washington,
monumentos habitualmente visíveis a quilómetros de distância ficaram reduzidos
a silhuetas. Chicago, Detroit, Minneapolis, Filadélfia e Toronto acordaram sob
um céu esbranquiçado ou alaranjado, com o Sol reduzido a um círculo vermelho e
baço. A
origem estava a centenas ou mesmo a milhares de quilómetros: nas florestas em
chamas do Canadá.
O fumo chegou à região de Nova Iorque poucos dias antes
da final do Mundial de futebol, disputada no domingo no estádio de East
Rutherford, em Nova Jérsia. Na quinta-feira, 16 de julho, as imagens da
cidade mostravam a linha de edifícios de Manhattan quase apagada por uma
espessa névoa alaranjada. A concentração de partículas atingiu níveis classificados
como muito prejudiciais à saúde, e as autoridades distribuíram máscaras KN95.
Este domingo, porém, o pior já tinha passado. A chuva
e a alteração da circulação atmosférica ajudaram a limpar parte do fumo sobre
Nova Iorque e Nova Jérsia, permitindo que a final se realizasse sem problemas
significativos de visibilidade. O ar não estava completamente limpo, mas dizer
que Nova Iorque ficou sem ver o Sol durante o jogo seria excessivo. As imagens
mais dramáticas são dos dias anteriores.
O que está a arder no
Canadá?
O principal foco desta vaga de fumo encontra-se no norte
e noroeste do Ontário, uma enorme região de floresta boreal, com pinheiros,
abetos, lagos e extensas áreas de solo orgânico. Esta segunda-feira, 20 de
julho, Ontário tinha cerca de 190 incêndios activos e a área ardida na
província aproximava-se de 735 mil hectares, mais do que sete vezes a área do
distrito de Lisboa: cerca de 1.800 pessoas tinham sido retiradas das suas
comunidades.
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▲
Ardem
árvores, arbustos, folhas, madeira morta e, em algumas zonas, camadas de
matéria orgânica acumulada no solo
Anadolu via Getty Images
Índice (O
que está a arder no Canadá? Como é que o fumo deixa cidades sem Sol? Porque é
perigoso o fumo? Como entra no Atlântico? Porque ainda não chegou a Portugal?)
Um
dos maiores incêndios queimava nas proximidades do Parque Provincial de
Wabakimi, no noroeste do Ontário, e já se estendia por mais de 300 mil
hectares. Muitos destes fogos encontram-se em regiões remotas, sem estradas e
com acesso difícil, onde o combate depende sobretudo de aviões, helicópteros e
equipas transportadas por via aérea.
Não ardem apenas árvores; o fogo consome arbustos,
folhas, madeira morta e, em algumas zonas, camadas de matéria orgânica
acumulada no solo.
Esses materiais podem arder lentamente durante muito tempo, produzindo
grandes quantidades de fumo mesmo quando as chamas não são particularmente
altas.
A situação não se limita a
Ontário. Há
incêndios activos noutras partes do Canadá e também no norte do estado
norte-americano do Minnesota. Por isso, algumas das nuvens de fumo sobre os
Estados Unidos resultam da mistura de fumo canadiano com emissões de incêndios
norte-americanos.
Como é que o fumo
deixa cidades sem Sol?
Uma grande coluna de fumo contém milhões de milhões de
partículas microscópicas: algumas absorvem a luz; outras desviam-na em
diferentes direcções. Quando a concentração é muito elevada, o resultado é uma
espécie de filtro colocado entre o Sol e a cidade.
A luz azul é dispersada com maior facilidade, mas as
tonalidades vermelhas e alaranjadas conseguem atravessar melhor a atmosfera
carregada de partículas, razão pela qual o Sol pode surgir como um disco cor de
laranja, mesmo a meio do dia.
O efeito não é igual em todo o lado e em algumas cidades,
o fumo permaneceu sobretudo a vários quilómetros de altitude e apenas tornou o
céu leitoso.
Noutras, desceu até à superfície, reduziu fortemente a visibilidade e
transformou-se num problema grave de qualidade do ar. Foi o que
aconteceu em Chicago, Detroit, Washington, Nova
Iorque e noutras cidades do Midwest e da costa leste. Mais de 100 milhões de pessoas
estiveram abrangidas por alertas ou condições perigosas de poluição atmosférica
durante a passagem das sucessivas ‘plumas’.
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▲ O céu em Nova Iorque, Washington e
Chigago
Anadolu via Getty
(Índice: O
que está a arder no Canadá? Como é que o fumo deixa cidades sem Sol? Porque é
perigoso o fumo? Como entra no Atlântico? Porque ainda não chegou a Portugal?)
Porque é perigoso o fumo?
O
principal risco vem das chamadas PM2.5, partículas com menos de 2,5 micrómetros
de diâmetro — dezenas de vezes mais pequenas do que a espessura de um cabelo
humano. Por serem tão pequenas, conseguem penetrar profundamente nos pulmões e
algumas podem entrar na circulação sanguínea.
A exposição pode provocar irritação dos olhos e da
garganta, tosse, dores de cabeça e falta de ar. Também pode agravar asma e
doenças respiratórias ou cardiovasculares. Nos episódios mais severos, está
associada a ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais e mortes
prematuras. Crianças, idosos, grávidas, pessoas com doenças crónicas e
trabalhadores ao ar livre estão entre os grupos mais vulneráveis.
E há um detalhe enganador: o ar pode continuar poluído
mesmo quando já não se vê nem se cheira claramente o fumo.
Como entra no
Atlântico?
O fumo não atravessa o oceano como uma única nuvem
compacta: vai
sendo dividido, esticado e transportado por diferentes correntes de ar. O calor dos incêndios faz subir o
ar. Nos fogos mais intensos, as colunas podem transportar partículas até
vários quilómetros de altitude; algumas colunas atingem 8, 10 ou mais
quilómetros. A essa altura, o fumo é apanhado pelos ventos dominantes de oeste,
que atravessam a América do Norte e seguem em direcção ao Atlântico: a
famosa corrente de jacto, ou jet stream.
É uma viagem comparável à de uma extensa faixa de tinta colocada numa
corrente de água: começa concentrada, mas vai sendo esticada, diluída e
deformada à medida que avança. Os modelos atmosféricos indicaram que parte do
fumo continuaria para leste sobre o Atlântico Norte e poderia aproximar-se da
Europa.
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▲ A
nuvem de fumo espalha-se e é empurrada pelas correntes, depressões e
anticiclones pelo Atlântico
AFP
via Getty Images
Índice: O que está a arder no Canadá? Como é
que o fumo deixa cidades sem Sol? Porque é perigoso o fumo? Como entra no
Atlântico? Porque ainda não chegou a Portugal?
Porque ainda não
chegou a Portugal?
Porque
estar sobre o Atlântico não é o mesmo que estar a caminho directo de Portugal e
a trajectória depende da posição das depressões, dos anticiclones e da corrente
de jacto. Nesta fase, a maior parte da nuvem foi conduzida para latitudes mais
a norte ou permaneceu sobre a América do Norte e o Atlântico ocidental. O fumo
pode dirigir-se para a Gronelândia, Islândia, Ilhas Britânicas ou norte da
Europa, sem passar sobre Portugal continental. Em 2023 e 2025 chegou à
Escandinávia.
Além disso, durante a travessia, as partículas mais
pesadas caem; parte do fumo é removida pela chuva; a nuvem espalha-se por uma
área enorme; e diferentes camadas de ar podem conduzi-la em direcções
distintas. É possível que partículas muito diluídas acabem por chegar à Europa
em altitude mas, nesse caso, o efeito mais provável em Portugal seria um céu
ligeiramente esbranquiçado ou pores do Sol mais avermelhados — não necessariamente
uma degradação importante da qualidade do ar à superfície.8.
Para provocar em Lisboa ou
no Porto um cenário semelhante ao de Nova Iorque, seria necessário que uma
nuvem ainda muito concentrada chegasse à Península e, sobretudo, que o fumo
descesse das camadas altas da atmosfera até ao ar que respiramos. Neste momento, não há indicação
segura de que isso vá acontecer.
O fumo já percorreu uma distância enorme. Mas a atmosfera
não é uma estrada em linha recta: é um emaranhado de correntes de ventos,
tempestades e zonas de alta pressão que podem levá-lo para norte, empurrá-lo
para sul, fazê-lo subir ou simplesmente dispersá-lo antes de chegar à Europa.
CIÊNCIA
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QUENTE
E FRIO. JACTO POLAR FAZ DO TEMPO UMA MONTANHA RUSSA
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