quinta-feira, 2 de julho de 2026

JNP

 

E a consciência intemerata dos valores nacionais em crise.

O MAL português

O MAL preparava meticulosamente os atentados, operações cuidadosamente planeadas desde 2018. Entretanto, nem um único cocktail Molotov numa qualquer manifestação lançou. Nada.

JAIME NOGUEIRA PINTO, colunista do observador

OBSERVADOR, 02 jul. 2026, 00:25

Em Portugal, a violência política à esquerda não se discute. Até porque não existe nem nunca existiu. Embora a extrema paranoia e a extrema agressividade possam estar bem distribuídas, a única violência que ressalta, que arrepia, que preocupa, que urge denunciar, noticiar e estancar é “a violência de extrema-direita”. Na prática ou nas intenções. A violência de extrema-direita não conhece casos isolados, é sempre fruto de uma grande conspiração e tem sempre a cumplicidade de toda a Direita – que, ao contrário da Esquerda, é intrinsecamente má, canalha e violenta; e, ainda que grunha, estranhamente sofisticada quando toca à prática do mal.

Não quero com isto dizer que o Movimento Armilar Lusitano (MAL) não exista, que não tenha extensas e criativas listas de vítimas a eliminar, que não pratique paint-ball ao fim-de-semana, que não tenha sinistros propósitos, nem que não deva ser investigado, travado e combatido. A paranoia anda por aí à solta e todos sabemos que o mal existe.

As origens do Mal

De qualquer forma, vou seguir o conselho de Marc Bloch em Apologie de l’Histoire, e recuar um pouco no tempo.

Lenine começou logo por dar o devido crédito ao terror jacobino de 1793-1794, pioneiro do “genocídio de classe” em nome do povo, dos grandes princípios e das melhores intenções: a aristocracia teria de perder a cabeça bem como os aldeões da Vendeia, adeptos do “obscurantismo católico” e inimigos da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.  Era a tábua rasa e a razia.  Grande fonte de inspiração para os bolcheviques, dizia Vladimir Ilyich.

De resto, os pais do marxismo, Marx e Engels, tinham sido claros na legitimação da violência e na justificação da revolução como “parteira da História.Isto quando ainda não havia fascismo nem nazismo, só capitalismo selvagem, burguesia e “reacção”.

Embora se possa identificar um proto-fascismo na França do final do século XIX, com Barrès, Maurras, Drummont e o general Boulanger, ou melhor, um nacionalismo popular, desencadeado por escândalos da oligarquia financeira, como o “affaire de Panama”, o verdadeiro fascismo, o italiano, só nasceu nos anos 20 do século XX. E é indissociável do socialismo e do comunismo. Os desmandos dos comunistas, instalados na Rússia a partir de Outubro de 1917, durante e depois da guerra civil, foram também decisivos para criar o anti-comunismo militante, reactivo e defensivo que esteve na base do sucesso do fascismo, do nazismo e de regimes iliberais autoritários nacional-conservadores, como o Estado Novo.

Não quero com isto dizer que os comunistas comessem criancinhas – mas as fomes que causaram, na Ucrânia dos anos trinta e na China maoista do Grande Salto em Frente, levaram a que alguns dos esfaimados, em desespero, comessem as crianças já mortas pela fome, muitas vezes os próprios filhos. Também, no tempo das grandes purgas, o Estado Socialista não hesitou em pegar nos “filhos dos inimigos do povo” para os corrigir, lhes mudar o nome e os alojar em lugares remotos da Rússia, longe do rasto dos familiares “desaparecidos” ou internados nos campos do Gulag. Depois dos 15 anos, eram condenados a trabalhos forçados. Há muita literatura sobre isto, mas vale a pena ler um ensaio de Elaine Mac Kinnon, The Forgotten Victims, Childhood and the Soviet Gulag – 1929-1953 (disponível online)

Isto para dizer que muitos dos excessos violentos à direita, que os houve – incluindo os do nazismo, cujo eugenismo identitário levaria a um sistema concentracionário muito semelhante ao soviético –, não podendo ser desculpados, não podem também ser desligados da radicalidade e da violência da ameaça à esquerda a que reagiam.

O mal português

Em Portugal a esquerda radical ou extrema também soube matar quando foi preciso, e com pontaria política ao inimigo principal: João Franco Castelo Branco, que tentou criar uma direita nacional moderna com as classes médias das cidades, foi neutralizado pelos carbonários Buíça e Costa, que mataram o rei Dom Carlos e o príncipe herdeiro Dom Luís Filipe, causando a queda de Franco e preparando o advento da Primeira República.

Essa primeira República, dominada pelo Dr. Afonso Costa, reprimiu à direita e à esquerda os seus inimigos, monárquicos, católicos e sindicalistas.

Como bom jacobino, Costa tratou bastante mal os católicos (embora  não se saiba ao certo se pronunciou a famosa frase sobre “acabar com o catolicismo em duas gerações”): logo no 5 de Outubro, o “povo republicano” assassinou dois padres; veio depois a Lei da Separação do Estado das Igrejas (20 de Abril, 1911), foram expulsas as ordens religiosas, muitas das quais desempenhavam funções assistenciais importantes, e os padres e religiosos foram proibidos de usar as vestes da sua condição em público.

Perante esta acção persecutória, o papa Pio X emitiu uma encíclica, Jamdudum in Lusitania, a denunciar “o ódio implacável para com a religião católica” da nova República portuguesa.

Padres assassinados, ordens religiosas expulsas, bispos exilados, jornais católicos assaltados, foi assim que a esquerda  e “democrática” tratou, em democracia, os católicos. E fez o mesmo aos monárquicos e, à sua esquerda, aos sindicalistas.

Em Dezembro de 1917, no ano em que as aparições de Fátima vieram renovar a fé do povo, Sidónio Pais tomou o poder, reatou as relações com a Santa Sé e parou as perseguições religiosas. Em Dezembro do ano seguinte, a Esquerda assassinou Sidónio, através de um doente mental a quem convenceram que estava a salvar o país de um tirano.

E no 19 de Outubro de 1921 foi outra vez a Esquerda – aí “a rua”, os guardas republicanos e os marinheiros descomandados – que assassinou os políticos republicanos que tinham colaborado com Sidónio, entre eles o próprio fundador da República, Machado Santos. Alfredo da Silva, símbolo do capitalismo industrial português, chegou a ser dado como morto, mas acabou por escapar à purga.

O 28 de Maio teve o apoio da grande maioria do povo, farto de um regime em que os governos – que duravam, em média quatro meses – faziam ou permitiam que se fizessem semelhantes brutalidades. Depois, contra a repressão autoritária do Estado Novo, houve também várias tentativas de assassinar Salazar.

Com a revolução de Abril e as “redes bombistas” atribuídas ao ELP e ao MDLP, morreram meia dúzia de pessoas, entre bombistas e vítimas das bombas. Mas terrorismo a sério, que materializasse a frio os fuzilamentos simulados de “fascistas” nas prisões do PREC, só, anos depois e já longe do calor revolucionário, o das Forças Populares 25 de Abril, que mataram mais de dezena e meia de pessoas, entre inimigos políticos, agentes de autoridade e até crianças. Porém, acabaram amnistiados – afinal, eram antifascistas e a intenção era boa –, e agora até tiveram direito a fita celebrativa.

Hoje, por essa Europa fora e na América, o que se vê são assassinatos praticados ou tentados pela Esquerda e distúrbios violentos dos Antifa. Sempre acontecimentos isolados e “inconsequentes”.

A banalidade do mal

Acontecimentos esses que empalidecem, deixando mesmo de existir, perante a lista de vítimas e as intenções de um grupo conspiratório de extrema-direita – os neo-nazis do Movimento Armilar Lusitano (MAL).

Desmantelado em 2025 (segundo as autoridades), o Movimento dedicava-se a recolher informações sobre políticos de todas as facções, dos professores Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, às irmãs Mortágua, bem como personalidades das artes e do espectáculo, algumas já falecidas, como o cantor Marco Paulo, tendo já listado mais de centena e meia de alvos. Reunindo dados, traçando itinerários, vigiando, o MAL preparava morosa e meticulosamente os atentados.  Operações cuidadosamente planeadas desde 2018.  Entretanto, nem um único cocktail Molotov numa qualquer manifestação.  Nada. Um dos seus alvos colectivos seria o Parlamento, que o Movimento ocuparia, talvez para matar todos os deputados; um dos seus alvos individuais, o primeiro-ministro, para quem o MAL tinha já uma granada reservada.

Na posse de armas fabricadas por tecnologia 3D, os nazis armilares projectavam “golpes de Estado e tomadas de poder”.  Claramente não ambicionavam apenas perturbar a democracia em Portugal, mas também noutros países. De onde lhes viria o financiamento?

Os neo-nazis do Movimento Armilar Lusitano podem emitir e disseminar ódio e ser agentes do MAL, podem até planear matar e atentar, mas têm pelo menos uma vantagem: reunindo até à caricatura os requisitos necessários para constituírem a prova cabal de que toda a maldade, toda a violência, toda a canalhice e toda a ameaça nos chegam pela direita e só pela direita, prestam um inestimável serviço à pátria e à “democracia”.

EXTREMISMO       SOCIEDADE

COMENTÁRIOS

ANTÓNIO COSTA E SILVA: Por toda a Europa, o sistema parece estar a entrar em desespero. Perdido o monopólio da propaganda com a descentralização da informação na net, mobilizam-se as polícias e os tribunais como expediente de recurso para impedir a derrota, que sentem próxima e os assusta; não vá o povo lembrar-se de fazer justiça. Pelos casos do motorista de autocarro queimado vivo e do militante socialista que lançou um cocktail molotov sobre mulheres e crianças, que são os únicos atentados terroristas recentes em Portugal, sabemos que os racializados, os excluídos, os socialistas e outros activistas podem incendiar pessoas livremente, já que todos foram mandados em liberdade pelo tribunal e o socialista, também imediatamente libertado, apenas foi preso passado um mês porque a versão da comunicação social, de que "provocou um incidente", (sustentada por polícias, Ministério Público e pelo Tribunal), foi desmentida pela circulação da informação nas redes e canais alternativos e independentes. Estes perigosos terroristas fascistas, de muita conversa e nenhuma acção, vão acabar condenados exemplarmente para sustentar uma narrativa, como os outros fascistas do 1143, que continuam presos pela posse de duas pressões de ar, três canivetes e um saca-rolhas, ou o Mário Machado, que também está preso, condenado por muitas violações literárias.

SDC Cruz: Mais uma interessante aula de história explanada num excelente artigo.  Obrigado, JNP e até para a semana.

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