terça-feira, 30 de junho de 2026

CONCLUSÃO

 

Do texto precedente (“UCRANIANOS”)

Mas a Rússia é vasta e tem Putn, mesmo sentado… Sem medos…Sorrindo…

(Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

O ministro da Defesa aclarou também que, com estes drones, a Crimeia está a ser “isolada” de qualquer cadeia de abastecimento da Rússia. “Parece que a Crimeia vai tornar-se uma ilha”, atirou Mykhailo Fedorov, antevendo que o “inferno está a começar para os russos”. “Temos esta janela de oportunidade. As rotas logísticas estão a ser cortadas e a Crimeia está a ser isolada. E isso está a ter um impacto no leste. Existe uma correlação directa entre a intensidade dos nossos ataques logísticos e o número de operações que ocorrem na linha da frente.”

A lógica do ministro é clara. Ao atacar a Crimeia, a Ucrânia está a criar uma enorme pressão na linha da frente, obrigando, em última instância, o Kremlin a desviar atenções e recursos para esta região — em vez de dar tanta atenção aos combates ainda em curso na região do Donbass. Em simultâneo, as tropas russas que permanecem no sul da Ucrânia (em redor da província de Kherson) arriscam-se a ficar sem o apoio logístico vital assegurado pela península.

Aliás, a Crimeia desempenhou um papel central no início da invasão total russa, tendo servido como uma das principais plataformas para a ofensiva das forças de Moscovo a sul do território ucraniano. Actualmente, a península funciona quase como um forte militar, albergando numerosas bases russas e constituindo um importante centro estratégico no Mar Negro.

Tropas russas na Crimeia

SERGEI ILNITSKY/EPA

Índice: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

De uma perspectiva mais militar, Alina Frolova, membro do think tank Center for Defense Strategies, descreve o que está a ocorrer no terreno ao Wall Street Journal como “uma operação clássica de isolamento”. “Costuma ser o tipo de operação que precede algum tipo de acção ofensiva. E, considerando que as defesas aéreas da Crimeia foram dizimadas e que as capacidades navais russas que ali existiam desapareceram, as coisas estão a avançar rapidamente”, diz a especialista, declarando: “Já estamos num ponto de isolamento sério, quase completo”.

Pela importância simbólica que a península tem para os ucranianos, o assunto galvaniza o moral das tropas. No Governo da Ucrânia, existe essa percepção, que coexiste com outra: a de que este cenário será um duro golpe para o Kremlin. “Será muito difícil de lidar” e pode “levar a certas consequências inesperadas” para os russos, avisa Mykhailo Fedorov. Com a Crimeia totalmente isolada e no cenário em que caia nas mãos dos ucranianos, a superioridade russa no campo de batalha — que já é posta em causa — pode mesmo cair por terra, levando muitos russos a reflectirem se a guerra na Ucrânia vale verdadeiramente a pena.

Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência

Tal como para os ucranianos, a Rússia vê a Crimeia como parte fundamental da sua estratégia. Foi o início do expansionismo russo na Ucrânia — e uma iniciativa que correu relativamente bem para Moscovo. Houve críticas do Ocidente, mas o Kremlin continuou a fazer negócios com as capitais europeias. O argumento de que a população desejava juntar-se à Federação Russa, mesmo que violando o Direito Internacional, colou entre muitos ocidentais.

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Mapa da Crimeia pintada com uma bandeira russa

Bloomberg via Getty Images

(ÍNDICE: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Historicamente, muitos governantes na Rússia também sempre viram a permanência da Crimeia na Ucrânia, após a queda da União Soviética, como um erro histórico que convinha reparar. O antigo líder soviético, Nikita Khrushchev, transferiu a península para o controlo da República Socialista Soviética Ucraniana em 1954, algo cuja lógica muitos nunca entenderam. Para provar a grandeza da Rússia, Vladimir Putin voltou a controlar o território, daí ser a sua “joia da coroa”.

Ao longo dos últimos anos, o território transformou-se numa estância balnear a que muitos russos vão passar férias no verão, como acontecia nos tempos da União Soviética. Para a população da Rússia, a Crimeia integra a Federação Russa: é parte indissociável do seu território desde 2014, mesmo que, à luz do Direito Internacional, a situação esteja longe de estar reconhecida. Até a oposição russa no exílio — incluindo o principal dissidente do regime russo, Alexei Navalny — foi criticada por ver a península como sendo russa.

Por tudo isto, um eventual isolamento da Crimeia não é algo que os russos vão aceitar de bom grado. Desde 2014, o Kremlin tem alimentado uma gigante máquina de propaganda em redor da anexação da região, convertendo-a num símbolo de orgulho e do nacionalismo da Rússia. A Ucrânia sabe perfeitamente a forma como a região é vista pelo Kremlin — e quer agora explorar um eventual cerco para gerar ondas de choque na sociedade russa.

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Bandeira da Ucrânia com a inscrição Crimeia

(Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergênciaA estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Além disso, a situação interna russa já não é fácil. A Ucrânia está a levar a guerra para dentro do território vizinho, atacando principalmente refinarias de petróleo em cidades como Moscovo ou São Petersburgo. Isto causa não apenas a escassez do combustível disponível, como também representa um rombo nas finanças do Kremlin. Muitos cidadãos começam a queixar-se dos impactos da guerra e estas reclamações geraram uma onda de críticas inéditas a Vladimir Putin, mesmo com a censura e o cerco à dissidência impostos no país.

Apesar de manter a convicção de que a Rússia vai controlar o Donbass pela força e não ceder na posição maximalista em eventuais negociações, Vladimir Putin já começou a reconhecer que a situação na Crimeia é preocupante. Questionado sobre os ataques com drones contra a península na semana passada, o Presidente russo afirmou que “a tarefa de eliminar essas ameaças recai sobre o Ministério da Defesa e outras agências de segurança”. “O Governo da Federação Russa também deve tomar medidas adicionais para minimizar, ou reduzir para zero, as consequências de tais acções.”

A situação no terreno é complicada. Partes da península ficaram sem água, luz e gás. Na imprensa internacional, fala-se numa situação anormal. Ao Wall Street Journal, Maksim Tikhomirov contou que não há electricidade há dias. “Em Sebastopol, especificamente, a situação é muito difícil. Muitas lojas não estão abertas. É impossível levantar dinheiro. Os transportes públicos estão a funcionar mal e em número limitado.”

"O Governo da Federação Russa também deve tomar medidas adicionais para minimizar, ou reduzir para zero, as consequências de tais acções."

Vladimir Putin, Presidente russo

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O principal foco é também o turismo a grande fonte de receitas na Crimeia, principalmente nesta altura, que marca o início da época balnear. À CNN Internacional, o dono de uma pousada na cidade costeira de Noviy Svet descreveu o ambiente como “cauteloso, mas longe de haver pânico”. “Falando sobre nós pessoalmente, não vejo qualquer impacto crítico no trabalho da pousada neste momento. Os hóspedes continuam a vir; as praias, os cafés e as infraestruturas turísticas estão a funcionar. Mas existe incerteza e as pessoas estão mais atentas às notícias”, conta.

Em todo o caso, as autoridades pró-russas da Crimeia declararam o estado de emergência na região. Numa mensagem no Telegram publicada na passada sexta-feira, o governador Sergei Aksyonov justificou a decisão com a escassez energética. “O quadro legal do estado de emergência permite a rápida resolução de questões relacionadas com a manutenção do funcionamento de todos os sectores essenciais”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Sergei Aksyonov admitia que não sabia “quanto tempo ia vigorar” este estado de emergência. “Não posso divulgar um plano específico de acção, mas estamos a agir”, garantiu, concedendo que “infelizmente” os sistemas de defesa aéreos da Crimeia “não estão a ser perfeitos em termos de segurança e eficácia”. Para já, o governador assegurou que não havia “quaisquer restrições na liberdade de circulação” e não existe qualquer recolher obrigatório.

Por causa da situação, milhares de pessoas abandonaram a Crimeia nos últimos dias. Perante condições cada vez mais precárias, muitos turistas e habitantes da península decidiram regressar à Rússia. Têm sido registadas longas filas na ponte de Kerch, uma infraestrutura que se encontra, contudo, frequentemente encerrada devido aos ataques ucranianos.

A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?

O Presidente ucraniano revelou a estratégia publicamente. “A nossa operação, incluindo a que diz respeito à Crimeia, está a ser calculada cuidadosamente. A forma como a operação se está a desenrolar prova-o totalmente: se a Ucrânia receber exactamente o que precisa dos parceiros do G7, vamos criar as condições que vão forçar a Rússia a escolher a paz“, anunciou Volodymyr Zelensky, no discurso nocturno da passada quarta-feira. Esta iniciativa faz parte de um plano de 40 dias para obrigar a Rússia a sentar-se à mesa das negociações.

O isolamento da Crimeia visa precisamente isso: obrigar a Rússia a negociar e a recuar nas suas exigências maximalistas. Como analisa o especialista em política russa Mark Galeotti num artigo no The Times, o objectivo não é tomar a península pela força, pelo menos para já. “Algumas vozes mais ambiciosas em Kiev pedem uma tentativa de tomar a península pela força, mas o consenso geral é que seria muito difícil. Está muito bem defendida.”

Na realidade, escreve Mark Galeotti, a Ucrânia quer pressionar Vladimir Putin com a hipótese real de perder a Crimeia, a “joia da coroa” e aquela que vê como a sua “conquista mais valiosa”. Kiev pretende que o Presidente russo aceite “sentar-se à mesa das negociações e que aceite a exigência da Ucrânia para um cessar-fogo imediato”. Paralelamente, ao trazer a guerra para território que a população russa vê como sua, os ucranianos esperam que a sociedade civil reaja.

"Algumas vozes mais ambiciosas em Kiev pedem uma tentativa de tomar a península pela força, mas o consenso geral é que seria muito difícil. Está muito bem defendida." Mark Galeotti, especialista em política russa

ÍNDICE: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?

No entanto, Vladimir Putin não parece disposto a ceder. Mesmo tendo admitido que os ataques às infraestruturas “vão criar problemas” no país, o Presidente russo não dá sinais de recuo. Alegando que a Ucrânia lhe tentou propor uma trégua nos ataques de longo alcance, o chefe de Estado rejeitou-a categoricamente: “É claro o motivo pelo qual esta proposta foi feita: porque os nossos contra-ataques atingem o território ucraniano em profundidade. São muito fortes, têm um maior impacto e são, francamente, mais destrutivos”, atirou.

Para o Presidente russo, o seu país continua numa posição de vantagem no conflito, devido à “escassez catastrófica” de homens na Ucrânia para combater. Qualquer cessar-fogo, defendeu Vladimir Putin numa entrevista este fim de semana, daria apenas tempo aos ucranianos para ganharem forças. “Salvar o regime de Kiev não faz parte dos nossos planos”, garantiu.

Retórica para consumo interno ou plena confiança de que a Rússia continua num bom momento? Ninguém sabe o que vai verdadeiramente na cabeça de Vladimir Putin. No entanto, a população russa sente na pele os impactos reais do conflito. O cerco à Crimeia, assim como os ataques de longo alcance a várias regiões da Rússia, afectam a vida quotidiana da população. E a Ucrânia aguarda que a sociedade civil russa se revolte e quebre a malha de censura que o Kremlin lhe impõe.

É uma estratégia da Ucrânia que Mark Galeotti adjectiva como sendo de “alto risco”. Se Vladimir Putin temer perder a Crimeia, sentindo que “a incapacidade de a proteger mancha o seu legado ou pode mesmo derrubá-lo”, poderá “optar por negociar”, como quer Volodymyr Zelensky. “Mas também poderá ser tentado a aumentar a pressão” e provocar uma escalada ainda maior do conflito, alerta o especialista.

O isolamento com drones da Crimeia está em curso. No terreno, a estratégia ucraniana está a resultar, criando muitos constrangimentos à população russa e sérias preocupações no Kremlin. O símbolo de uma anexação bem-sucedida da Rússia está sob imensa pressão. Mas, para lá dos efeitos a curto prazo e simbólicos, será a península capaz de obrigar Vladimir Putin a sentar-se à mesa das negociações e aceitar um cessar-fogo? Para já, o líder russo não tem mostrado qualquer abertura para isso.

GUERRA NA UCRÂNIA      UCRÂNIA      EUROPA      MUNDO      RÚSSIA

UCRANIANOS

 


Um povo e um chefe causadores de admiração mundial.

 

Crimeia, a "joia da coroa" de Putin que a Ucrânia está a cercar com drones: "O inferno está a começar para os russos"

+JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

Crimeia está em "estado de emergência" e milhares de pessoas estão a sair da península controlada pela Rússia. Ucrânia está a quebrar rotas de abastecimento na região e quer obrigar Putin a negociar.

29 jun. 2026, 22:36

ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Foi onde tudo começou e o primeiro passo que levou à invasão total em 2022. Em fevereiro de 2014, as tropas russas entraram na Crimeia e ocuparam-na. Nunca mais de lá saíram. A Rússia anexou de facto a região e controla-a desde essa altura. É tida como a “joia da coroa” dos objectivos expansionistas de Vladimir Putin, que nunca escondeu que sempre viu a região como russa. A Ucrânia nunca desistiu de recuperar o território que vê como seu e que ganhou um especial simbolismo — e os esforços parecem agora estar a dar resultado.

Os últimos dias têm sido caóticos na Crimeia. Através de ataques sucessivos com drones, a Ucrânia tem criado vários constrangimentos no quotidiano de vários habitantes da península. Há relatos de falta de combustível, água e electricidade. Como resultado, as autoridades pró-russas accionaram o estado de emergência e milhares de pessoas estão a abandonar o território. O objectivo é claro: como é uma península, as tropas ucranianas querem isolá-la da Rússia. Aproveitando o bom momento na linha da frente e no moral, Kiev tem conseguido fazer isso. E os alarmes começaram a soar no Kremlin.

Este domingo, numa entrevista, o Presidente russo admitiu que a Crimeia atravessa uma situação de escassez de combustível, existindo “reservas limitadas” para “poucos dias”. Vladimir Putin garantiu que as “necessidades” da península serão tidas em consideração: “Aumentaremos o abastecimento tanto por terra como por mar”. No entanto, o chefe de Estado nunca disse como o ia fazer. É que não é só a Crimeia que está nesta situação: grandes partes da Rússia enfrentam o mesmo problema, fruto dos ataques ucranianos às refinarias petrolíferas russas.

(▲ Vladimir Putin prometeu que vai reforçar o abastecimento de combustível na Crimeia)

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A Ucrânia não vai desistir e está mesmo a intensificar os ataques à Crimeia. Ainda esta segunda-feira, segundo a agência de notícias RIA, os alertas de drones estiveram activos durante mais de onze horas. No domingo, as tropas ucranianas atacaram uma ponte na região. O ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, tem um objectivo em mente: “Isolar com drones” a Crimeia e até transformá-la “numa ilha”. Um objectivo ambicioso, mas que seria um golpe para Vladimir Putin.

Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia?

Os ataques na Crimeia intensificaram-se há algumas semanas. Aliás, desde a invasão em larga escala, as tropas ucranianas têm tentado atacar a região — às vezes com sucesso, outras vezes falhando. Em outubro de 2022, num momento em que atravessava uma boa fase no campo de batalha, a Ucrânia foi bem-sucedida em atacar a ponte de Kerch — a mais longa da Europa. Noutras fases da guerra, a península foi deixada em segundo plano, mas nunca deixou de ser um objectivo central.

Numa iniciativa da presidência de Volodymyr Zelensky, a Ucrânia organiza anualmente uma cimeira, a 23 de agosto, para recordar a importância da península para o país, convidando frequentemente líderes estrangeiros. Para os ucranianos, mesmo que já tenham passado mais de dez anos desde a anexação, a Crimeia ainda é tida como parte inalienável do seu território, recusando totalmente a soberania russa.

Ukraine Crisis Continues As The Crimea Prepares To Vote In The Referendum

Ucranianos sentiram que anexação da Crimeia foi um duro golpe para o país

ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Na memória colectiva dos ucranianos, existe também algum ressentimento pela forma como a comunidade internacional lidou com o assunto em 2014. Apesar de terem condenado a Rússia, a maioria dos dirigentes europeus e norte-americanos continuou a interagir e a fazer negócios com o Kremlin. O facto de o Ocidente ter fechado os olhos deu força à convicção de Vladimir Putin de que poderia continuar a guerra no Donbass e desencadear a invasão em larga escala em 2022. A anexação da Crimeia foi tida como uma humilhação para os ucranianos, que continuam a ter esperança de que vão recuperar a península.

Este apaziguamento falhado do Ocidente deixou uma ferida aberta no orgulho nacional dos ucranianos e explica a convicção de que não se pode confiar na Rússia e que há que a combater. Durante as negociações mediadas pela segunda administração Trump, surgiu a possibilidade de os Estados Unidos reconhecerem de jure a anexação da Crimeia — algo que chocou a opinião pública na Ucrânia e que seria visto como uma recompensa ao expansionismo de Vladimir Putin.

Em 2026, a Ucrânia está a virar a corrente da guerra a seu favor. Após anos complicados na linha da frente, em que a Rússia fazia avanços sem grande resposta do outro lado, os ucranianos têm conseguido atacar alvos estratégicos dentro de território russo. Vladimir Putin está a ser criticado publicamente e há já falta de combustível em várias regiões da Rússia. Neste contexto, o Ministério da Defesa da Ucrânia viu na Crimeia o ponto estratégico ideal para continuar a enfraquecer a posição do Kremlin.

Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?

Afinal de contas, Kiev pode facilmente gerar o caos na Crimeia. Como é uma península, a região está fortemente dependente da Rússia. Ao cortar as cadeias de abastecimento entre os dois lados, as forças ucranianas sabem que podem criar sérios problemas logísticos, militares e de abastecimento à população. Ao mesmo tempo, a região está geograficamente mais próxima do restante território ucraniano, o que torna os ataques mais precisos e fáceis de executar.

Numa entrevista em meados de junho, o ministro da Defesa ucraniano desvendou um pouco da estratégia — e deu a entender que já está a ser planeada há alguns meses. Mykhailo Fedorov lembrou que, durante os primeiros meses de 2026, a Ucrânia comprou uma grande quantidade de drones (mais do que em todo o ano de 2025) que atacam alvos a média distância — os utilizados para atacar agora a Crimeia.

“O que fizemos está agora a produzir resultados. Anunciámos que ia ser posto em marcha um bloqueio logístico. Isto significa que estão a ser canalizados fundos directos adicionais para unidades que usam drones de médio alcance. Ao mesmo tempo que compramos centenas de milhares destes drones, estamos a providenciar fundos a unidades que sabem usá-los e também sabem como adquiri-los rapidamente”, explicou Mykhailo Fedorov.

"Temos esta janela de oportunidade. As rotas logísticas estão a ser cortadas e a Crimeia está a ser isolada. E isso está a ter um impacto no leste. Existe uma correlação directa entre a intensidade dos nossos ataques logísticos e o número de operações que ocorrem na linha da frente." Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa da Ucrânia

(CONTINUA)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

CONCLUSÃO DO TEXTO PRECEDENTE

 

 A FLORESTA PORTUGUESA

Sempre na linha limite, e não se perceber que o que estava à frente era um enorme prejuízo: economias, agricultura, zonas urbanas destruídas, estradas – sobretudo aquelas com desenho desgraçadamente mau – incapazes de ser mantidas, derrocadas perto de linhas de comboio, porque os taludes não estão bem preservados. Sempre o mesmo padrão, que podemos chamar, de forma que até pode não ser muito justa, “padrão Ponte Hintze Ribeiro” [Entre-os-Rios]: deixamos as infraestruturas chegar a um ponto de falta total de manutenção, na perspetiva do “talvez hoje não caia”. O que me espanta não é chamarem o LNEC no fim para ver o que correu mal, mas o facto de o LNEC não fazer observações regulares todos os anos e todos os meses. E o contrato co estas organizações não ser a longo prazo.

A primeira medida seria essa. Seria rever tudo antes que volte a chover como no ano passado?

A medida que temos de tomar é manter mais e fazer menos. É vício de pobre estar sempre a comprar novo. Os ricos, que sabem que são ricos, compram bom e mantêm-no muito tempo. Somos um país com vícios de pobre: queremos a ponte mais alta, o viaduto mais longo, recordes bacocos para nos encher o ego, quando devíamos querer que a pequena estrada que liga a aldeia “A” à vila “B” tenha o mesmo standard de uma estrada perto de uma grande cidade ou de uma aldeia da Noruega. Devíamos usar bem as infraestruturas durante o tempo para que foram feitas, e não pensar só em Santa Bárbara quando troveja.

Estes fenómenos de vento extremo são os mais perigosos que nos podem chegar agora? Quase ao nível de furacões e tornados?

São, porque temos pouca protecção contra ventos. Não somos a Florida. A construção não está preparada. E as pessoas também não. Lembro-me da situação da Figueira da Foz, quando aquele furacão entrou pelo continente, as pessoas não sabiam o que fazer: se deviam fechar persianas, abrir janelas… Não sabiam.

E também não foram avisadas…

O aviso não chega. É preciso experiência, exercícios e conhecimento. Tínhamos já experiência de pequenos tornados com velocidades de vento muito elevadas, como em Silves por exemplo, mas atingiam uma pequena zona. Agora tivemos um fenómeno de escala maior, este “stingjet” que passou por Leiria, com dimensão de cerca de uma centena de quilómetros. Somos capazes de prever as condições para ele se formar: e foram previstas. Observá-las, porque temos radares de última geração: e foram observados. Mas não temos infraestruturas preparadas para episódios desta energia. São investimentos grandes de preparação e exigem grande disciplina na utilização do território, que exige uma compreensão que ainda não existe.

Quando fala em investimentos grandes, é ao nível de material e prevenção. Ou também preparação das pessoas?

Das duas coisas, mas essencialmente investimentos gigantes no escoamento de águas, protecção da rede primária e secundária de energia. Somos dos países com menos cabos enterrados. Isso tem a ver não só com desleixo, mas também com o grande espalhamento da área construída, o que torna o custo de enterrar uma parte significativa da rede faraónico e impossível. Voltamos à questão da disciplina, rotina, regras – e as regras têm de ser cumpridas para bem de todos.

Esta chuva intensa, concentrada em poucos dias, é mais perigosa do que a distribuída por semanas?

Muito mais, em comparação. A chuva distribuída é muito boa para a agricultura, tem impacto muito inferior nas infraestruturas de escoamento. A chuva concentrada escoa à superfície, cria grandes dificuldades de mobilidade no meio urbano. Temos uma falta de exigência enorme com os nossos políticos. Isto não tem a ver com partidos nem ideologias. Tem a ver com standard, com a qualidade de vida que achamos que devemos ter. E volto a dizer: só os pobres gostam de comprar novo e comprar o maior. Precisamos de comprar o que podemos, manter o que já temos e viver de forma sustentável.

Portugal pode estar a entrar num padrão de extremos: seca prolongada seguida de cheias violentas? Isto é compatível com o que os modelos climáticos preveem?

É compatível com os modelos, mas mais do que isso, corresponde a uma conclusão óbvia de física elementar. Temos uma temperatura mais alta. Hoje, ninguém duvida disso. A origem da temperatura mais alta pode ser discutida, mas que está mais alta, está. Temperatura mais alta leva a mais água na atmosfera. Mais água na atmosfera significa processos mais energéticos, chuva mais intensa. A distribuição espacial de cada fenómeno é que os modelos têm (ou tinham) obrigação de responder. Cada nova geração de modelos é melhor do que a anterior, mas atenção: modelos não são realidade, são projecções da realidade.

Se já tivemos um mês de chuva em 12 horas, isto pode tornar-se ainda pior?

Gostava de responder, mas não tenho a certeza. Existiram recentemente, noutras partes do mundo, situações piores do que a que tivemos aqui. Do ponto de vista físico, não parece haver um limite assim tão grande. Se podemos ter o triplo, quádruplo ou quíntuplo? Não faço ideia. Espero que não.

Estamos a assistir a uma tropicalização do clima português ou isso é exagero mediático?

Nas últimas décadas, parece haver tendência para diminuição de noites frias, o que é muito seguido por causa da fruticultura, que precisa de frio noturno – e, já agora, as pessoas também, para dormirem bem. O corpo precisa de descansar. Temos uma sequência de anos em que, do ponto de vista do que se mede, parecia caminhar-se nesse sentido. Os modelos também apontam para isso. Agora, o que pedimos é curto e os modelos têm limitações. Se isto será uma tendência, diria que tem toda a capacidade de ser. A temperatura média aumenta e a temperatura nocturna também. E aumenta com as “ilhas” de calor, ou seja, com a expansão urbana. Todos os sinais apontam para termos aquilo a que se chama “noites tropicais”. E noites tropicais não são um movimento fantástico alimentado por caipirinhas e com danças repetidas ao som de música cubana. São noites em que pessoas idosas têm dificuldade em dormir, em que há muita desidratação e em que é preciso que os sistemas de apoio social garantam fresco. Por isso é preciso que os centros de dia, por exemplo, tenham ar condicionado.

Culpar o anticiclone é como culpar a febre pela doença que temos, o que ele mostra é que estamos com febre num pé, temos um pé inchado ou um cotovelo dorido, ele é o nosso cotovelo dorido. O que se vê é mais um agravamento da situação climática no sentido da mudança e da necessidade de estratégias de longo prazo para inverter.

Há uma enorme influência do anticiclone dos Açores, não há? Como e porquê é que a posição do anticiclone está a mudar? E está mesmo a enfraquecer? O que se pode dizer deste regulador do clima português – e não só?

O anticiclone dos Açores é uma espécie de “culpado do costume”. Na verdade, o anticiclone não é causador de nada, é reflexo do que está a acontecer. A circulação atmosférica no Atlântico Norte gera uma zona de altas pressões no verão, a que chamamos “anticiclone dos Açores” porque os Açores correspondem ao centro dessa estrutura. Não é porque os açorianos tenham responsabilidade. O que se passa é que uma pequena mudança deste padrão de circulação é reflectida no mapa meteorológico, com o anticiclone mais a sul ou mais a norte. Quando vem mais a sul, como este ano, a zona de passagem das tempestades está mais a sul. Em vez de chover “lá para cima”, onde dizemos que não faz mal porque estão habituados, chove sobre nós, que não estamos tão habituados. Os sinais são de estas mudanças serem climáticas, portanto que se vão manter, e que estes padrões também se vão manter.

Podemos falar também do aquecimento da água do mar, do Atlântico e do Mediterrâneo. Fala-se muito da corrente do Atlântico e de um jet stream mais instável.

O jet stream [corrente contínua de ventos polares à volta da Terra] é o mesmo problema do anticiclone dos Açores. O aquecimento do oceano é um problema diferente, de desequilíbrio radiométrico. Primeiro factor: aumentando a precipitação global, aumenta a água doce no oceano. A água doce faz variar a salinidade. A corrente oceânica depende da salinidade e da temperatura. Se fazemos variar a salinidade na zona intertropical de forma significativa, podemos estar a mexer na corrente oceânica profunda. Sabemos que, pré-historicamente, isso já aconteceu. Fazem-se estudos regulares para saber qual é a intensidade do AMOC [Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico]. O último estudo publicado, que ainda não li, aponta no sentido de um decréscimo.

Isto começa a ser preocupante, até porque o jet stream cada vez mais ondulado parece ser uma tendência.

Mais um lado da mesma tendência. A variação da corrente do AMOC tem impactos significativos em Portugal, porque somos muito influenciados pela corrente do Golfo. Se o Golfo tiver geometria diferente, vai criar problemas, mas nesse caso no sentido contrário: de arrefecimento.

Fala-se ainda num “super El Niño” este ano. Não somos influenciados directamente, mas indirectamente acabamos por sentir, não é?

 O El Niño é como o anticiclone dos Açores. Culpar o anticiclone é como culpar a febre pela doença que temos, o que ele mostra é que estamos com febre num pé, temos um pé inchado ou um cotovelo dorido, ele é o nosso cotovelo dorido. O que se vê é mais um agravamento da situação climática no sentido da mudança e da necessidade de estratégias de longo prazo para inverter. O El Niño é um fenómeno atmosférico, de influência na Índia, por exemplo, infelizmente, há muita precipitação na zona do Chile e do Peru e depois pode haver uma monção muito fraquinha na zona da Índia, onde a monção é muito importante para a agricultura. O efeito no Atlântico está menos documentado. Não parece ser tão importante, se for alguma coisa importante aqui ibérica, só se for um pequeno aumento de precipitação. Mas seguramente haverá outras dinâmicas que se sobrepõem. Mas o El Niño, coitado, não é culpado de nada. Ele é apenas um padrão que de vez em quando se verifica num sistema de feedback que se estabelece e a partir do qual é muito difícil sair.

A tempestade Kristin

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quase em forma de resumo: com o que sabemos agora, já podemos dizer que devemos preparar-nos para um verão com elevado risco de incêndios?

É sempre melhor estarmos preparados para um risco elevado que depois se revele mais baixo do que o contrário. Infelizmente diria que os elementos parecem estar dispostos no sentido de o risco ser muito elevado. Estamos a ver medidas na área da proteção civil que não vou sequer descrever nem discutir; cada um pensará o que entender. Mais uma vez estão a oscilar o sistema. Mas são sempre reativas. As medidas do lado não-reativo ainda são muito curtinhas. Todas as medidas de alteração da paisagem que não assentem num modelo económico credível são, para mim, apenas “espatifar” dinheiro. Para termos um modelo económico credível, temos de ceder em algum lado: ou na perspetiva da propriedade, que é o problema em discussão, ou na perspetiva do aumento da industrialização da floresta, que muita gente não gosta. Há algo que garanto: temos de gerir a floresta. As coisas não podem não ter gestão. Estes acontecimentos recentes mostraram que mesmo árvores em zonas urbanas têm de ser geridas. Não podemos viver num mundo em que uma árvore pode cair-nos em cima amanhã. Situações de instabilidade têm de ser atacadas. Quando passamos numa zona, por exemplo o norte de Lisboa, com encostas desprotegidas, ali está o diabo sentado à nossa espera.

E neste inverno: é de esperar mais episódios de tempestades intensas e concentradas?

Não há conhecimento suficiente para saber isso. Gostava de saber isso. Era bom que soubéssemos. Mas e se soubéssemos, fazíamos o quê? As medidas necessárias são de longo prazo. Não interessa o que vai acontecer este ano: se não for este ano, será no próximo. Temos de olhar para o território de forma diferente, perceber que não podemos ter casas espalhadas aleatoriamente. Ninguém vai conseguir pagar isso: nem infraestruturas para enterrar eletricidade, nem água para fornecer. Temos de voltar a ter povoações coesas, onde as pessoas vivam corretamente e onde se garanta um mínimo de segurança. Se queremos mais segurança, temos de começar a tomar medidas.

Estamos perante um cenário de eventos extremos cada vez mais imprevisíveis?

Sim. Tudo aquilo que o Homem não fizer, a natureza encarregar-se-á de corrigir.

Portugal está a tornar-se um país de extremos climáticos?

É um país com uma relação com o oceano sempre muito energética, não é de agora. Não somos um país do interior, para quem estes excessos são desconhecidos. Somos um país que sempre enfrentou o mar e a meteorologia de forma proativa. A meteorologia foi fundada no mundo por seis países e um deles era Portugal.

Este ano até ficámos sem praias no meio das tempestades…

A areia vai voltar.

Em resumo, o que mudou no clima em Portugal nos últimos 20 anos?

Essencialmente, aqueceu. E o aquecimento teve efeitos secundários importantes: aumento da aridez; aumento aparente de episódios extremos; e, nas situações em que conseguimos organizar a agricultura baseada em tecnologia e não em São Pedro, melhorámos. Naquelas que contam apenas com São Pedro, ele infelizmente não parece estar à altura. [Sorrisos.]

 

Portugal é particularmente vulnerável e pouco preparado. Onde é que estamos mais frágeis neste momento?

Na cultura das pessoas. A nossa fragilidade não é numa área específica, é cultural: não queremos pagar o preço da segurança. O preço da segurança é, por exemplo, não poder construir uma casa no meio da floresta. Se estivermos dispostos a pagar o preço da segurança, teremos segurança. Mas isso também significa que não podemos construir todas as pontes e túneis que imaginamos; temos é de manter em funcionamento correto o grande património construído que já temos.

Subestimamos o risco. Genericamente. Temos casas e construção sem o mínimo de segurança, por falta de recursos financeiros, falta de cumprimento de instrumentos de planeamento e excesso de instrumentos de planeamento. Costumo dizer que a vida precisa de duas coisas: leis e vergonha. Temos leis a mais e vergonha a menos.

Já disse que não estamos a adaptar-nos à velocidade necessária e que estamos sempre a reagir depois dos acontecimentos. Como consequência do que disse: não tendo tempo de preparação, exagerando no que queremos manter, só temos uma forma, que é reagir. Só que os custos de reacção são elevados. Os custos de manutenção também, mas manutenção significa não mudar de roupa todos os meses, mudar menos e ir cosendo de vez em quando.

Uns remendos?

Uns remendos, mas cosê-los, mantermo-nos decentes, limpinhos e organizados.

O que é que estamos a subestimar mais?

O futuro. Subestimamos o risco. Genericamente. Temos casas e construção sem o mínimo de segurança, por falta de recursos financeiros, falta de cumprimento de instrumentos de planeamento e excesso de instrumentos de planeamento. Costumo dizer que a vida precisa de duas coisas: leis e vergonha. Temos leis a mais e vergonha a menos.

Se tivesse de deixar um aviso claro: o que é que ainda não estamos a levar suficientemente a sério?

Cada um de nós tem de ser autossuficiente nas decisões que toma.

(Entrevista publicada originalmente na revista de aniversário dos 12 anos do Observador e actualizada depois das últimas ondas de calor e da formação do El Niño

A FLORESTA PORTUGUESA

 

E o agravamento climático, consequente do desmazelo por aquela.

Calor chegou mais cedo. Vamos ter um verão com mais fogos? Ou um inverno com mais tempestades?

FILOMENA MARTINS: Texto

MIGUEL FERASO CABRAL: Ilustração

Em entrevista, JORGE MIGUEL MIRANDA explica como a falta de manutenção de florestas e infraestruturas é uma das falhas estruturais em Portugal para a mudança de clima: com mais chuva e mais calor.

OBSERVADOR, 28 jun. 2026, 20:33

JORGE MIGUEL MIRANDA é um dos especialistas em riscos naturais mais influentes em Portugal, com uma carreira longa ligada ao estudo do clima, do oceano e da proteção civil. Geofísico de formação, foi presidente do Instituto Hidrográfico, dirigiu o Instituto de Meteorologia (hoje IPMA) e esteve em vários órgãos de coordenação científica (como a Organização Meteorológica Mundial e o Centro Europeu de Previsão do Tempo) e gestão operacional ligados à gestão do território e à prevenção de catástrofes. Na entrevista, fala como técnico e como cidadão: explica porque é que Portugal aqueceu nas últimas décadas, como isso está a agravar os incêndios, as cheias e as tempestades, e insiste que o maior problema já não é só meteorológico, é estrutural e cultural.

TOMAS SILVA/OBSERVADOR

Nestes últimos anos, Portugal tem vivido verões marcados por grandes incêndios: 2017 foi uma tragédia e desde então parece haver um padrão. Estamos perante uma tendência estrutural? É o novo “normal”?

“Normal” é uma palavra usada pelos meteorologistas para classificar uma média de 30 anos: se estivermos a falar perto do que foram esses 30 anos, estamos numa situação normal. Na verdade, nunca vamos estabilizar exactamente esse conceito, porque se calcula “normal” para 60–70, 70–80, 80–90, 90–100. Basta ir à página dos institutos meteorológicos do mundo para perceber que as normais foram evoluindo – e é natural que continuem a evoluir com essa taxa –, o que significa, seguramente, que vamos ter um tempo um bocadinho mais quente.

Parece haver um padrão de verões cada vez mais quentes, secos e propícios a grandes incêndios. Do ponto de vista meteorológico, a subida das temperaturas de 30 em 30 anos já é uma tendência consolidada?

Se considerarmos o que nos vai acontecer para o ano ou daqui a dois anos, o risco é muito determinado pela meteorologia. Por isso existe o índice mais famoso para determinar o risco de incêndio rural, em Portugal e em qualquer país, inicialmente definido pelos canadianos, o FWI, Fire Weather Index, um índice meteorológico. Contudo, o principal factor de risco não é a meteorologia: é a forma como está ocupado o território. Enquanto tivermos uma grande área de floresta não-gerida, entregue à sua própria “autoridade” ou à falta dela, o risco será sempre crescente. Se aumentar a área dessa floresta deixada ao deus-dará, o risco vai continuar a aumentar.

Além desse índice de que falou, fala-se muito dos chamados 3D: calor acima dos 30 graus, vegetação seca, desidratação dos solos. Este “cocktail” está hoje mais presente do que há 10 ou 20 anos?

Está mais presente porque a temperatura média aumentou. O aumento de temperatura tem a ver com o equilíbrio radiométrico da Terra e com a composição da atmosfera. O aumento de temperatura também aumenta a evapotranspiração das plantas e temos mais aridez. Estamos numa zona do mundo muito variável. Sempre foi assim. Vamos ter ciclos de estio e anos chuvosos que se vão alternando à medida que a temperatura vai subindo. Inexoravelmente. Os ciclos de estio têm tendência a ser mais intensos e os ciclos de chuva aparentemente têm tendência a ser mais concentrados.

Existe um drama nos anos bons: quanto mais anos bons temos, piores são os que se seguem, porque a biomassa vai sempre aumentando. Dizemos: “Passámos perto, tivemos quase uma desgraça, mas safámo-nos bem (...) mas para o ano vai ser pior. Cada vez o desafio é mais difícil, a menos que haja uma mudança grande de pensamento colectivo.

E mais intensos?

E mais intensos.

Já é possível antecipar se este verão será particularmente perigoso? Há indicadores? Há sinais que apontem para elevado risco de incêndios?

Do ponto de vista da capacidade de previsão meteorológica de uma estação para a outra, aquilo a que se chama previsão sazonal, os resultados existentes são muito modestos. Tem-se falado muito do El Niño. E qual El Niño vai existir este ano? Se nós tivermos um El Niño muito forte, teoricamente isso deve levar a que as tempestades sejam menos fortes. Já os incêndios são um problema diferente, vivem essencialmente da acumulação de tempo quente. Nós temos tido algum tempo quente. Tempo que anda um pouco mais quente que o normal, mas não tem nada a ver com o que se observou, por exemplo, em França. Em França, sim, houve um extremo. Mas a capacidade de previsão de incêndios a esta distância é muito pequena. Já a capacidade de previsão de como vai estar o estado do terreno daqui a seis meses é muito fácil de fazer, porque as plantas não vão desaparecer. Por enquanto ainda temos o nível freático alto. Se o dispositivo for muito rápido a matar as ignições, pode ser que tenhamos a sorte de passar um verão bom, mas na verdade nós fizemos tudo aquilo que não deveríamos ter feito. Temos as casas construídas no mesmo local, temos a floresta sem nenhum tipo de gestão, temos as propriedades indivisas e espalhadas por todo o lado.

Choveu muito, cresceram imenso as plantas e há muito material para arder.

Choveu muito, cresceu tudo muito, mas também há muita árvore destruída. Está a haver um esforço grande para recolher alguma dessa matéria. Existem planos para tentar utilizá-la em bioenergia, em particular, que podem até ter alguma viabilidade. Mas voltamos ao mesmo ponto: floresta não-gerida é risco crescente de incêndio rural.

Estas noites quentes não ajudam nada, a atmosfera nunca arrefece, certo?

Nós estamos a ter noites com 28 graus em França. Coisa que os franceses nunca tinham visto. E nós cá estamos a ter temperaturas máximas perto dos 44 graus e 23/24 graus à noite. Para nós é mais próximo do que vemos diariamente. Nós estamos a fazer a Amareleja. O coberto vegetal não é compatível com este tipo de temperatura. Temos condições para ter incêndios? Sim, temos. Temos sempre e em excesso. Temos muita produção vegetal e podemos ter períodos prolongados de seca e de temperaturas altas, que são condições para ter fenómenos extremos também. Então, agora que somos capazes de observar praticamente todos, até parece que aumentaram mais do que na realidade acontece. É como tudo na vida, há os riscos de existirem, de se materializarem ou não. Só depois do fim do jogo é que nós vamos ser capazes de dizer.

Os incêndios de 2025, ano com a maior área ardida em Portugal

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Se tivéssemos um verão com temperaturas dentro da média, mesmo sendo a média mais alta do que há alguns anos, isso reduziria significativamente o risco? Ou já temos um problema acumulado no território?

Existe um drama nos anos bons: quanto mais anos bons temos, piores são os que se seguem, porque a biomassa vai sempre aumentando. Dizemos: “Passámos perto, tivemos quase uma desgraça, mas safámo-nos bem…

É o “para o ano logo se vê…”

É, mas para o ano vai ser pior. Cada vez o desafio é mais difícil, a menos que haja uma mudança grande de pensamento colectivo.

Se voltássemos a ter exactamente o mesmo verão de há 30 anos, arderia mais ou menos floresta do que hoje? E porquê?

Essas comparações são difíceis. Temos um abandono crescente das áreas de floresta de muito baixo rendimento e esse abandono é sempre um aumento do risco, a que se soma o aumento do risco meteorológico. Estamos numa situação em que é “lose, lose”. É maior o abandono e é maior o risco meteorológico. Teoricamente, a capacidade de termos incêndios de grandes dimensões é muito grande. Essa capacidade existe porque temos produtividade vegetal. E em vez de utilizarmos essa produtividade para produzir riqueza, estamos a utilizá-la para produzir fogos florestais.

Estamos pior em cada ano do que no anterior. Podemos ter muitos meios locais, centenas de carros de bombeiros, milhares de sapadores, tudo o que quisermos, e ir adiando, como se diz “empurrar com a barriga”, o principal. O problema é que esse “empurrar com a barriga” tem um limite: há uma altura em que a barriga cai por cima de nós.

Isso quer dizer que Portugal pode deixar de ter condições climáticas para determinados tipos de florestas?

O essencial não é bem o tipo de floresta que mantemos. É o facto de não haver mosaicos de floresta-agricultura ou floresta-pastagem que possam interromper manchas contínuas de floresta não tratada. Mas o mais importante é encontrarmos um modelo económico para tratarmos a floresta.

Mas há também, ou não, uma tendência para os fenómenos extremos serem cada vez mais frequentes e intensos?

Aparentemente, sim, há. É das conclusões que existem que há uma razoável certeza: aumentando a temperatura, teremos tendência para mais fenómenos extremos. Essa questão será muito importante nas zonas urbanas, em particular litorais, porque os nossos riscos vêm do oceano, directa ou indirectamente. É menos importante nas áreas do interior. Apesar das tentativas, que diria incipientes, de encontrar utilizações credíveis e sustentáveis para o interior, a verdade é que não têm sido encontradas e que estamos pior em cada ano do que no anterior. Podemos ter muitos meios locais, centenas de carros de bombeiros, milhares de sapadores, tudo o que quisermos, e ir adiando, como se diz “empurrar com a barriga”, o principal. O problema é que esse “empurrar com a barriga” tem um limite: há uma altura em que a barriga cai por cima de nós.

A questão, como diz, vai por isso além do clima: envolve território abandonado, floresta mal gerida. Até que ponto o problema dos incêndios é climático e até que ponto é estrutural?

Tem uma componente social e uma componente climática. A componente estrutural é determinante. Há algo que posso garantir: podemos tentar resolver a componente estrutural; a climática não, pelo menos com a mesma velocidade. Podemos resolver a climática daqui a 30 ou 40 anos, mas mesmo que tomemos medidas agora, não teremos resultados rapidamente. Do ponto de vista estrutural, sim, podemos tomar medidas. Quem quiser, basta voltar aos documentos antigos da AGIF [Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, I.P.] e ver o que se propôs em termos de sucessões e posse da terra, para perceber que são propostas moderadíssimas, superconservadoras, mas que, aplicadas, têm resultado. O que não podemos é estar sempre a tratar os problemas pelo lado do subsídio, da ajuda, mantendo uma situação que sabemos que só se pode manter com grandes fluxos financeiros.

Passando agora do verão para o inverno. Tivemos aquele “comboio de tempestades”, “rios atmosféricos” vindos da zona tropical, chuva sem parar. Este é um fenómeno novo ou é apenas mais noticiado?

Um problema semelhante foi levantado há pouco tempo, relacionado com o estado meteorológico da Madeira, por causa dos transportes aéreos e da importância do turismo…

Sim, por causa das aterragens, com a chuva e o vento fortes…

A conclusão a que se chegou é que o agravamento tinha a ver com a posição do anticiclone dos Açores, era climático. O que significa que se vai manter e talvez acentuar. É preocupante para a Madeira, é preocupante para o Continente, e tem a ver com a passagem destes sistemas, destas depressões que vêm do Atlântico, os tais “comboios de tempestades”, com grande impacto no território. Eles também existiam antes, só que estavam mais a norte e em territórios mais desenhados pelo clima. É o clima que desenha o território; se o clima mudar, o território vai ser redesenhado. Pode ser é redesenhado de forma inteligente, com acção humana inteligente, que é rara de encontrar, ou pode ser redesenhado porque os elementos naturais tomam conta do assunto. E, portanto, tanto incêndio e tanta inundação haverá que a gestão do território terá de ser trocada.

Portanto, este é um padrão que se vai tornar mais frequente? Até porque me dizia que tudo é definido pelo mar.

Tudo indica que o padrão se vai acentuar e que temos de nos preparar. Vai pôr à prova a nossa capacidade de desenhar sistemas de gestão de cidades e de áreas não-urbanas de forma rigorosa e credível. E nós temos mais tendência para criar novas frentes, novas estradas, novos viadutos, novas pontes, em vez de manter correctamente o património que já temos. Se se acompanhou as inundações no Tejo e no Mondego, ainda mais dramáticas, vê-se que o padrão é o mesmo: não mantemos o património que temos. Estradas sem escoamento de água credível, viadutos mal dimensionados, etc. Quem vive em cidades com viadutos, como Lisboa ou Porto, que repare na dimensão dos sistemas de escoamento: normalmente é altamente insuficiente. Para que serve essa “poupança” se depois gastamos dinheiro em mais 50 obras faraónicas, muitas das quais nunca terão utilidade?

Somos um país com vícios de pobre: queremos a ponte mais alta, o viaduto mais longo, recordes bacocos para nos encher o ego, quando devíamos querer que a pequena estrada que liga a aldeia “A” à vila “B” tenha o mesmo standard de uma estrada perto de uma grande cidade ou de uma aldeia da Noruega. Devíamos usar bem as infraestruturas durante o tempo para que foram feitas, e não pensar só em Santa Bárbara quando troveja.

A tempestade Kristin, a mais forte desse “comboio” de janeiro-fevereiro, foi descrita como uma das mais destrutivas de sempre em Portugal e teve ventos extremos, o “stingjet”. Também devemos esperar mais episódios destes e mais frequentes?

Houve algo que me espantou verdadeiramente. Quando a previsão já apontava para dias seguidos de precipitação muito elevada, a ideia de todos os responsáveis era de que íamos ter “alguns prejuízos”. “Alguns prejuízos”? Era óbvio que íamos ter muitos prejuízos. Como é possível termos estado à beira da capacidade máxima de armazenamento de açudes e barragens, com uma gestão muito eficaz da APA, reconheça-se, mas no limite?

Sim, sempre ali no limite.

(CONTINUA)

RADICALISMOS

 

Sobre um desporto que tanto significa no mundo, talvez pelo prazer de pontapear... Não acredito que o futebol tenha morrido,

RONALDO E A MORTE DO FUTEBOL

[Este texto foi escrito na quarta-feira passada, antes do Portugal-Uzbequistão e do Portugal-Colômbia, mas os valores que defende não dependem desses resultados.]

28 jun. 2026, 00:21

TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO, Pastor Baptista, colunista do Observador

Dos que gostam de futebol, desprezo principalmente os que o defendem na sua essência. Quando os ouço a queixarem-se do aburguesamento do desporto, de como o VAR matou a respiração natural da competição, da podridão da FIFA, entre outras denúncias supostamente proféticas, lembro-me por que me mantenho cauteloso com idealistas: para eles Génesis 3 (a parte da Bíblia que conta do fruto proibido a ser trincado) acabou de acontecer. E compreendam que eu, com quase 49 anos, tenha pouco paciência para quem acaba de descobrir que vive num mundo caído.

Não me tenham por cínico: não quero celebrar as degenerescências que são reais em qualquer aspecto da nossa existência. Não sou indiferente ao que piora e estou convicto de que há coisas que pioram mesmo no futebol (o aburguesamento do desporto, o VAR a matar a respiração natural da competição, a podridão da FIFA, etc.). Mas entre o mal daquilo que na vida piora, e o mal da pessoa que tenta a todo o custo evitar que algo piore, tendo a escolher o primeiro. E reconheço que não sou da religião do futebol: tive-o no coração durante a infância mas descobri amores muito maiores na adolescência. O rock’n’roll é a minha bola.

Ainda assim, pratico a bola do mesmo modo que Portugal é católico: se o Papa vem cá, somos todos dele. E o Papa vir cá é para mim na bola o mundial ou o europeu. Da mesma maneira que o Papa vir cá deixa os católicos praticantes desconfiados da festa de tantos que raramente vão à igreja, o mundial ou o europeu suscita reservas e até indiferença para quem é de facto ferrenho da bola. Os meus amigos ferrenhos da bola desprezam portanto a selecção, sem a necessidade de disfarçar muito. Compreendo. Sei que isso faz de mim o tal católico sazonal por época da vinda do Papa. Aceito.

Este fenómeno é especialmente visível na questão Cristiano Ronaldo. Os reais crentes da bola abominam hoje o Cristiano Ronaldo. Já os não-praticantes como eu, indiferentes às exigências do futebol essencial, têm-no como santo da sua devoção ocasional. Gostar de Ronaldo é a vela que se acende em Fátima por quem durante o ano todo evita a missa: o custo é relativo. Mais ainda: os reais crentes da bola em Portugal tranquilamente preferem Messi a Ronaldo. Uma vez mais compreendo e faço por remeter-me à insignificância de quem é mesmo da religião do futebol. Mas, por outro lado, não consigo esconder uma perturbação.

Quem prefere Messi está doido? Já parou para olhar realmente para ele? Eu vi o resumo do Argentina-Áustria e nem ao fim desses 4 minutos e 37 segundos consegui chegar. Messi é o grande futebolista mais desinspirado de sempre. Esta constatação nasce dos golos que marca e de como os festeja, do produto e do processo, do Génesis e do Apocalipse. Cheguei lá, reconheço, diante do desabafo cansado do meu filho Joaquim, de 18 anos: “Olha-me para este NPC!” (sigla em inglês para “non-playable character”, as figuras que nos jogos de computador não podem ser jogadas). Resumindo: se há algo que Messi realmente põe a rebolar é o Maradona no túmulo.

Se quisermos usar linguagem mais aristotélica, reconheceríamos que em Messi se fez uma excisão entre potência e entidade. Messi joga futebol como se a habilidade se tivesse separado da pessoa. Em Messi só existe futebol, não existe futebolista. Preferir isto é da ordem da aniquilação da humanidade inteira. Se a defesa de um futebol na essência servir de pretexto para alguém como ele ser preferido sobre Cristiano Ronaldo, então eu desejo que a essência do futebol morra para que sobre algum futebolista. Messi tem sido o maior jogando perto da perfeição: parabéns para ele; Ronaldo tem sido o maior de outro modo: há esperança para todas as imperfeições do mundo.

Para a sepultura da essência do futebol já está preparado um busto. Esse mesmo, o original, aquele que pouco tempo esteve no aeroporto de Ponta Delgada: semi-desfigurado na sua febril vaidade pós-adolescente, Cristiano Ronaldo ri. O futebol morreu mas ele não.

Para o meu amigo Miguel.

COMENTÁRIOS;

Ricardo Vitorino; Esta crónica chega a ombrear, em termos de ridículo, com o citado livro de Génesis. Em ambos os casos, não consigo conceber o que leva uma pessoa a escrever tantos disparates sem nexo. Conclusão: religião e futebol fazem muito mal à saúde mental.

FERNANDO CE: Deus nos ajude. Fique-se pelos Evangelhos. Disclaimler: sou católico. E não, não sou católico porque vem cá o Papa. Sou católico porque essa é a minha religião. E o povo português é culturalmente católico. O único que fiz questão de o ver passar foi em Lisboa , o papa João Paulo II. E não lhe fica bem criticar quem adoptou a religião católica como sua, se se vai mais ou menos vezes à missa. Eu considero-me católico e raramente vou à missa. E quando cá veio o Papa Francisco, saí de Lisboa porque detesto grandes ajuntamentos de pessoas , em Fátima ou em Lisboa. Embora tenha adorado a adesão às jornadas da juventude católica. E amei o Papa Francisco . muito mais do que o actual . Isso não me faz menos católico. É minoritário em Portugal. Temos pena, mas nada podemos fazer por si.

sábado, 27 de junho de 2026

CONTINUAÇÃO do texto precedente

 

Há 2h 23:44

Ricardo Reis

Divulgados possíveis 14 pontos do acordo-quadro entre o Líbano, Israel e Estados Unidos

Os possíveis 14 pontos do acordo-quadro entre o Líbano, Israel e Estados Unidos foram divulgados por Barak Ravid, correpondente da Axios para os Assuntos Globais, na rede social X.

Em relação ao comunicado do secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, como foi noticiado anteriormente, nota-se que a única diferença é a ausência de um valor para a ajuda humanitária, situada nos 100 milhões de dólares (87,7 milhões de euros), “em coordenação com a ONU”.

Os 14 pontos, segundo a Axios, são os seguintes:

1 – Os dois países afirmam “o direito de cada Estado existir em paz, e o seu desejo mútuo de viver em segurança como Estados vizinhos soberanos”, assim como abordar as causas do conflito, através de contactos bilaterais, “com a mediação e apoio dos Estados Unidos”.

2 – Restauração da “autoridade soberana” das Forças Armadas Libanesas sobre todo o território do Líbano, através do desarmamento de “grupos não-estatais” e das suas infraestruturas, assim como a retirada das tropas israelitas no sul do país. Este ponto será detalhado num Anexo de Segurança.

3 – Assunção gradual da segurança nas chamadas “zonas-piloto”, que vão servir como “mecanismo para a retirada gradual e verificada das IDF [sigla inglesa das Forças de Defesa de Israel] e o destacamento das Forças Armadas Libanesas”. Serão duas zonas iniciais, sendo que podem ser criadas outras “por mútuo acordo”. As Forças Armadas Libanesas irão assumir a segurança total destas zonas após o desmantelamento de grupos armados não-estatais e das suas infraestruturas, para permitir o regresso de civis. A reconstrução do país será feita com apoio internacional, com os Estados Unidos a trabalhar “em estreita colaboração” com o Líbano e Israel para “verificar e apoiar este processo”.

4 – O Líbano compromete-se em “restaurar e exercer total soberania sobre todo o seu território” e em “reconstruir o monopólio do Estado no uso da força”. O Governo do país também se compromete em verificar e efectivar o desarmamento de todos os grupos armados não-estatais e “assegurar que esses grupos não terão nenhum papel militar ou de segurança e nenhuma capacidade militar em nenhum lado do Líbano”. Estes objectivos podem ser alcançados através do pedido de apoio de parceiros internacionais, mais concretamente árabes, “sob a liderança dos Estados Unidos”.

5 – Israel “enfatiza que as suas acções militares no Líbano são exclusivamente uma consequência” da ameaça que grupos como o Hezbollah constitui para o país. O Governo de Israel também sublinha que o fim dessa ameaça “eliminará qualquer necessidade futura” de acções militares ou de presença militar no Líbano, e que “não tem ambições territoriais” no país.

6 – O Líbano, em conformidade com a Carta das Nações Unidas, “reafirma que as suas forças detêm a responsabilidade exclusiva pela segurança e defesa do Líbano”, assim como autoridade plena para fazer a guerra e a paz. O Governo do país “rejeita as reivindicações de qualquer actor estatal ou não-estatal de usar a força em seu nome sem a sua autorização explícita” e que a sua reivindicação será ilegal.

7 – Os governos dos dois países “afirmam que nada neste acordo-quadro os impede de exercer o seu direito inerente de legítima defesa, conforme reconhecido pela Carta das Nações Unidos e em consonância com o direito internacional aplicável” e que só estes podem exercer este direito. Os dois países também se comprometem com o estabelecimento de um grupo de coordenação militar para implementar o acordo-quadro, “com o apoio e participação dos Estados Unidos”.

8 – Os dois países defendem um “Líbano seguro e reconstruído, sob a plena soberania do Estado libanês”, sem grupos armados que possam constituir uma ameaça para ambos os Estados e os seus cidadãos. Ambos reconhecem que a “restauração da segurança no sul do Líbano, através do destacamento das Forças Armadas Libanesas, o regresso seguro da sua população civil e a segurança das comunidades do norte de Israel são essenciais para a estabilidade e a paz a longo prazo”.

9 – O Líbano compromete-se com um “programa rigoroso e baseado no desempenho das Forças Armadas Libanesas a assumirem o controlo militar e de segurança total no Líbano”, e o desarmamento de todos os grupos armados não-estatais. O Governo do país também “saúda a prontidão dos Estados Unidos para apoiar tais esforços” e que a ajuda de Washington irá restringir-se a “metas verificáveis, total transparência, resultados demonstrados e supervisão contínua”.

10 – Os Estados Unidos vão mobilizar parceiros, “separada e simultaneamente”, para apoiar a reconstrução do Líbano, que pode incluir a “mobilização de uma assistência humanitária e de reconstrução substancial para o Líbano, programas de recuperação económica e iniciativas de investimento”.

11 – O Líbano e os Estados Unidos comprometem-se a impedir o financiamento a indivíduos, entidades ou organizações afiliadas a grupos armados e a “tomar as medidas legais disponíveis para proibir a [sua] atividade”. O Líbano também se compromete “explicitamente” a impedir que os fundos de reconstrução sejam canalizados para grupos armados e entidades ligadas a estes grupos.

12 – Estabelecimento de grupos de trabalho entre o Líbano e Israel, após a assinatura do acordo-quadro, “com o objectivo de redigir o acordo de paz e segurança pleno e abrangente”, assim como de “canais complementares de diálogo directo contínuo, facilitados pelos Estados Unidos”. Ambos os países comprometem-se em agir de boa-fé enquanto não for alcançada paz, estabilidade e prosperidade duradouras para o Líbano e Israel.

13 – Líbano e Israel, “alinhados com os seus objectivos partilhados de estabelecer relações estáveis e pacíficas”, comprometem-se em agir de boa-fé, incluindo o fim de “todas as acções hostis ou adversas em fóruns políticos ou jurídicos internacionais”. Ambos os países também comprometem-se a trabalhar juntos na busca e repatriamento de restos mortais e na libertação de detidos.

14 – Líbano e Israel reconhecem o papel dos Estados Unidos “no apoio aos seus esforços para acabar com décadas de conflito” e estabelecer paz e estabilidade duradouras entre ambos os países. Os dois também “expressam o seu profundo apreço pela visão e liderança do Presidente Donald J. Trump”.

CONTINUA

MUNDO


HOJE.

Em directo/ Depois de ameaça de Trump, EUA atacaram armazéns de mísseis e drones iranianos em Ormuz para responder a "agressão injustificada"

Casa Branca acusou o Irão de ter atacado um navio com drones, no Estreito de Ormuz, na quinta-feira. Guarda Revolucionária do Irão ameaça retaliar de forma "rápida e decisiva".

Mariana Lima Cunha: Texto

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YOAN VALAT/EPA

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Há 1h 23:52 RICARDO REIS

"Violência será respondida com violência": JD Vance avisa que divergências sobre memorando devem ser revolvidas diplomaticamente

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou na rede social X que “violência será respondida com violência”, e que as divergências iranianas em relação ao acordo deviam ter sido resolvidas através de conversações.

“O Irão assinou um acordo de cessar-fogo. Nós honrámos. Se eles têm divergências sobre como o memorando de entendimento estava a ser aplicado, eles podem pegar no telefone”, afirmou.

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