Um povo e um chefe causadores de admiração mundial.
Crimeia, a "joia da coroa" de Putin que a Ucrânia
está a cercar com drones: "O inferno está a começar para os russos"
+JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto
Crimeia está em
"estado de emergência" e milhares de pessoas estão a sair da
península controlada pela Rússia. Ucrânia está a quebrar rotas de abastecimento
na região e quer obrigar Putin a negociar.
29 jun. 2026, 22:36
ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação
difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A
estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)
Foi onde tudo começou e
o primeiro passo que levou à invasão total em 2022. Em fevereiro
de 2014, as tropas russas entraram na Crimeia e ocuparam-na. Nunca mais de lá saíram. A Rússia
anexou de facto a região e controla-a desde essa altura. É tida como a “joia da
coroa” dos objectivos expansionistas de Vladimir Putin, que nunca escondeu que
sempre viu a região como russa. A Ucrânia nunca desistiu de recuperar
o território que vê como seu e que ganhou um especial simbolismo — e os
esforços parecem agora estar a dar resultado.
Os últimos dias têm sido caóticos na Crimeia. Através
de ataques sucessivos com drones, a Ucrânia tem criado vários constrangimentos
no quotidiano de vários habitantes da península. Há relatos de falta de
combustível, água e electricidade. Como resultado, as autoridades pró-russas
accionaram o estado de emergência e milhares de pessoas estão a abandonar o
território. O objectivo é claro: como é uma península, as tropas
ucranianas querem isolá-la da Rússia. Aproveitando o bom momento na linha da
frente e no moral, Kiev tem conseguido fazer isso. E os alarmes começaram a
soar no Kremlin.
Este domingo, numa entrevista,
o Presidente russo admitiu que a Crimeia atravessa uma situação de
escassez de combustível, existindo “reservas limitadas” para “poucos dias”.
Vladimir Putin garantiu que as “necessidades” da península serão tidas em
consideração: “Aumentaremos o abastecimento tanto por terra como por mar”.
No entanto, o chefe de
Estado nunca disse como o ia fazer. É que não é só a
Crimeia que está nesta situação: grandes partes da Rússia enfrentam o mesmo
problema, fruto dos ataques ucranianos às refinarias petrolíferas russas.
(▲
Vladimir Putin prometeu que vai reforçar o
abastecimento de combustível na Crimeia)
ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil
na Crimeia e é acionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de
pressão sobre Putin vai funcionar?)
A Ucrânia não vai desistir
e está mesmo a intensificar os ataques à Crimeia. Ainda esta segunda-feira,
segundo a agência de notícias RIA, os alertas de drones estiveram activos
durante mais de onze horas. No domingo, as tropas ucranianas atacaram uma ponte
na região. O ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, tem um objectivo
em mente: “Isolar com drones” a Crimeia e até transformá-la “numa
ilha”. Um objectivo
ambicioso, mas que seria um golpe para Vladimir Putin.
Tornar
a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia?
Os ataques na Crimeia
intensificaram-se há algumas semanas. Aliás, desde a invasão em larga escala, as
tropas ucranianas têm tentado atacar a região — às vezes com sucesso, outras
vezes falhando. Em outubro de 2022, num momento em que atravessava uma boa
fase no campo de batalha, a Ucrânia foi bem-sucedida em atacar a ponte de
Kerch — a mais longa da Europa. Noutras fases da guerra, a península foi
deixada em segundo plano, mas nunca deixou de ser um objectivo central.
Numa iniciativa da presidência de Volodymyr Zelensky,
a Ucrânia organiza anualmente uma cimeira, a 23 de agosto, para recordar a
importância da península para o país, convidando frequentemente líderes
estrangeiros. Para os ucranianos, mesmo que já tenham passado
mais de dez anos desde a anexação, a Crimeia ainda é tida como parte
inalienável do seu território, recusando totalmente a soberania russa.
Ukraine Crisis Continues As The Crimea Prepares To
Vote In The Referendum
▲ Ucranianos sentiram que anexação da Crimeia foi um duro golpe para o país
ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que
pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado
estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai
funcionar?)
Na memória colectiva dos
ucranianos, existe também algum ressentimento pela forma como a comunidade
internacional lidou com o assunto em 2014. Apesar de terem condenado a Rússia,
a maioria dos dirigentes europeus e norte-americanos continuou a interagir e a
fazer negócios com o Kremlin. O facto de o Ocidente ter fechado os olhos deu
força à convicção de Vladimir Putin de que poderia continuar a guerra no
Donbass e desencadear a invasão em larga escala em 2022. A anexação da Crimeia
foi tida como uma humilhação para os ucranianos, que continuam a ter esperança
de que vão recuperar a península.
Este apaziguamento
falhado do Ocidente deixou uma ferida aberta no orgulho nacional dos ucranianos
e explica a convicção de que não se pode confiar na Rússia e que há que a
combater. Durante as negociações mediadas pela segunda administração Trump,
surgiu a possibilidade de os Estados Unidos reconhecerem de jure a anexação da
Crimeia — algo que chocou a opinião pública na Ucrânia e que seria visto como
uma recompensa ao expansionismo de Vladimir Putin.
Em 2026, a Ucrânia está a virar a corrente da guerra a
seu favor. Após anos complicados na linha da frente, em que a
Rússia fazia avanços sem grande resposta do outro lado, os ucranianos têm
conseguido atacar alvos estratégicos dentro de território russo. Vladimir Putin
está a ser criticado publicamente e há já falta de combustível em várias
regiões da Rússia. Neste contexto, o Ministério da Defesa da Ucrânia viu na
Crimeia o ponto estratégico ideal para continuar a enfraquecer a posição do
Kremlin.
Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que
pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado
estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai
funcionar?
Afinal de contas, Kiev
pode facilmente gerar o caos na Crimeia. Como é uma península, a região está
fortemente dependente da Rússia. Ao cortar as cadeias de abastecimento entre os
dois lados, as forças ucranianas sabem que podem criar sérios problemas logísticos,
militares e de abastecimento à população. Ao mesmo tempo, a região está
geograficamente mais próxima do restante território ucraniano, o que torna os
ataques mais precisos e fáceis de executar.
Numa entrevista em meados de
junho, o ministro da
Defesa ucraniano desvendou um pouco da estratégia — e deu a entender
que já está a ser planeada há alguns meses. Mykhailo Fedorov lembrou que,
durante os primeiros meses de 2026, a Ucrânia comprou uma grande quantidade de
drones (mais do que em todo o ano de 2025) que atacam alvos a média distância —
os utilizados para atacar agora a Crimeia.
“O que fizemos está
agora a produzir resultados. Anunciámos que ia ser posto em marcha um bloqueio
logístico. Isto significa que estão a ser canalizados fundos directos
adicionais para unidades que usam drones de médio alcance. Ao mesmo tempo que
compramos centenas de milhares destes drones, estamos a providenciar fundos a
unidades que sabem usá-los e também sabem como adquiri-los rapidamente”,
explicou Mykhailo Fedorov.
"Temos esta janela de
oportunidade. As rotas logísticas estão a ser cortadas e a Crimeia está a ser
isolada. E isso está a ter um impacto no leste. Existe uma correlação directa
entre a intensidade dos nossos ataques logísticos e o número de operações que
ocorrem na linha da frente." Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa da Ucrânia
(CONTINUA)
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