terça-feira, 30 de junho de 2026

UCRANIANOS

 


Um povo e um chefe causadores de admiração mundial.

 

Crimeia, a "joia da coroa" de Putin que a Ucrânia está a cercar com drones: "O inferno está a começar para os russos"

+JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

Crimeia está em "estado de emergência" e milhares de pessoas estão a sair da península controlada pela Rússia. Ucrânia está a quebrar rotas de abastecimento na região e quer obrigar Putin a negociar.

29 jun. 2026, 22:36

ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Foi onde tudo começou e o primeiro passo que levou à invasão total em 2022. Em fevereiro de 2014, as tropas russas entraram na Crimeia e ocuparam-na. Nunca mais de lá saíram. A Rússia anexou de facto a região e controla-a desde essa altura. É tida como a “joia da coroa” dos objectivos expansionistas de Vladimir Putin, que nunca escondeu que sempre viu a região como russa. A Ucrânia nunca desistiu de recuperar o território que vê como seu e que ganhou um especial simbolismo — e os esforços parecem agora estar a dar resultado.

Os últimos dias têm sido caóticos na Crimeia. Através de ataques sucessivos com drones, a Ucrânia tem criado vários constrangimentos no quotidiano de vários habitantes da península. Há relatos de falta de combustível, água e electricidade. Como resultado, as autoridades pró-russas accionaram o estado de emergência e milhares de pessoas estão a abandonar o território. O objectivo é claro: como é uma península, as tropas ucranianas querem isolá-la da Rússia. Aproveitando o bom momento na linha da frente e no moral, Kiev tem conseguido fazer isso. E os alarmes começaram a soar no Kremlin.

Este domingo, numa entrevista, o Presidente russo admitiu que a Crimeia atravessa uma situação de escassez de combustível, existindo “reservas limitadas” para “poucos dias”. Vladimir Putin garantiu que as “necessidades” da península serão tidas em consideração: “Aumentaremos o abastecimento tanto por terra como por mar”. No entanto, o chefe de Estado nunca disse como o ia fazer. É que não é só a Crimeia que está nesta situação: grandes partes da Rússia enfrentam o mesmo problema, fruto dos ataques ucranianos às refinarias petrolíferas russas.

(▲ Vladimir Putin prometeu que vai reforçar o abastecimento de combustível na Crimeia)

ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

A Ucrânia não vai desistir e está mesmo a intensificar os ataques à Crimeia. Ainda esta segunda-feira, segundo a agência de notícias RIA, os alertas de drones estiveram activos durante mais de onze horas. No domingo, as tropas ucranianas atacaram uma ponte na região. O ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, tem um objectivo em mente: “Isolar com drones” a Crimeia e até transformá-la “numa ilha”. Um objectivo ambicioso, mas que seria um golpe para Vladimir Putin.

Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia?

Os ataques na Crimeia intensificaram-se há algumas semanas. Aliás, desde a invasão em larga escala, as tropas ucranianas têm tentado atacar a região — às vezes com sucesso, outras vezes falhando. Em outubro de 2022, num momento em que atravessava uma boa fase no campo de batalha, a Ucrânia foi bem-sucedida em atacar a ponte de Kerch — a mais longa da Europa. Noutras fases da guerra, a península foi deixada em segundo plano, mas nunca deixou de ser um objectivo central.

Numa iniciativa da presidência de Volodymyr Zelensky, a Ucrânia organiza anualmente uma cimeira, a 23 de agosto, para recordar a importância da península para o país, convidando frequentemente líderes estrangeiros. Para os ucranianos, mesmo que já tenham passado mais de dez anos desde a anexação, a Crimeia ainda é tida como parte inalienável do seu território, recusando totalmente a soberania russa.

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Ucranianos sentiram que anexação da Crimeia foi um duro golpe para o país

ÍNDICE: (Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é accionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?)

Na memória colectiva dos ucranianos, existe também algum ressentimento pela forma como a comunidade internacional lidou com o assunto em 2014. Apesar de terem condenado a Rússia, a maioria dos dirigentes europeus e norte-americanos continuou a interagir e a fazer negócios com o Kremlin. O facto de o Ocidente ter fechado os olhos deu força à convicção de Vladimir Putin de que poderia continuar a guerra no Donbass e desencadear a invasão em larga escala em 2022. A anexação da Crimeia foi tida como uma humilhação para os ucranianos, que continuam a ter esperança de que vão recuperar a península.

Este apaziguamento falhado do Ocidente deixou uma ferida aberta no orgulho nacional dos ucranianos e explica a convicção de que não se pode confiar na Rússia e que há que a combater. Durante as negociações mediadas pela segunda administração Trump, surgiu a possibilidade de os Estados Unidos reconhecerem de jure a anexação da Crimeia — algo que chocou a opinião pública na Ucrânia e que seria visto como uma recompensa ao expansionismo de Vladimir Putin.

Em 2026, a Ucrânia está a virar a corrente da guerra a seu favor. Após anos complicados na linha da frente, em que a Rússia fazia avanços sem grande resposta do outro lado, os ucranianos têm conseguido atacar alvos estratégicos dentro de território russo. Vladimir Putin está a ser criticado publicamente e há já falta de combustível em várias regiões da Rússia. Neste contexto, o Ministério da Defesa da Ucrânia viu na Crimeia o ponto estratégico ideal para continuar a enfraquecer a posição do Kremlin.

Índice: Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia? Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergência A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?

Afinal de contas, Kiev pode facilmente gerar o caos na Crimeia. Como é uma península, a região está fortemente dependente da Rússia. Ao cortar as cadeias de abastecimento entre os dois lados, as forças ucranianas sabem que podem criar sérios problemas logísticos, militares e de abastecimento à população. Ao mesmo tempo, a região está geograficamente mais próxima do restante território ucraniano, o que torna os ataques mais precisos e fáceis de executar.

Numa entrevista em meados de junho, o ministro da Defesa ucraniano desvendou um pouco da estratégia — e deu a entender que já está a ser planeada há alguns meses. Mykhailo Fedorov lembrou que, durante os primeiros meses de 2026, a Ucrânia comprou uma grande quantidade de drones (mais do que em todo o ano de 2025) que atacam alvos a média distância — os utilizados para atacar agora a Crimeia.

“O que fizemos está agora a produzir resultados. Anunciámos que ia ser posto em marcha um bloqueio logístico. Isto significa que estão a ser canalizados fundos directos adicionais para unidades que usam drones de médio alcance. Ao mesmo tempo que compramos centenas de milhares destes drones, estamos a providenciar fundos a unidades que sabem usá-los e também sabem como adquiri-los rapidamente”, explicou Mykhailo Fedorov.

"Temos esta janela de oportunidade. As rotas logísticas estão a ser cortadas e a Crimeia está a ser isolada. E isso está a ter um impacto no leste. Existe uma correlação directa entre a intensidade dos nossos ataques logísticos e o número de operações que ocorrem na linha da frente." Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa da Ucrânia

(CONTINUA)

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