segunda-feira, 1 de junho de 2026

Memórias, realidades


Na casa dos meus avós maternos, de grandes portadas que davam para o quinteiro – este com horta, galinheiro e casa de coelhos e mais os terrenos em volta, com os milheiros crescidos a impedir que nos enxergássemos em pequenas distâncias, quando nós, as primas, apanhávamos amoras nos regueiros, havia na cozinha uma mesa enorme que ocupava toda uma parede ancestral, de banco corrido até quase à janela, complementado com o outro do lado de cá, mais os bancos dos extremos, os porcos em baixo, no curral, grunhindo, para onde a minha avó, sentada na varanda, invariavelmente arrastava o pesado balde de madeira com as lavagens para eles, que lançava pelo largo cano, a um canto daquela. Imagens que se fixaram, que diferiram das mesas posteriores da minha vida, de que me lembro também. Hoje, idos os filhos para as suas próprias casas, comemos na cozinha, a mesa da sala reservada para as festas de família. O certo é que a mesa da sala de jantar permanece esquecida, em frente ao aparador e mais o armário de parede, na casa encolhida e bem aproveitada, os quartos que eram dos filhos, transformados em escritórios com estantes, sofá e televisão. E muitos retratos…

O fim da mesa de jantar

Deixem a IA em paz, o PS mais as cabalas da justiça e até o facto de a Roménia não ter conseguido destruir o drone russo. Temos de tratar de um assunto igualmente sério: o fim da mesa de jantar.

HELENA MATOS Colunista do Observador

OBSERVADOR, 31 mai. 2026, 00:25

“Durante anos, a mesa de jantar no centro da divisão, pronta a receber um casal ou famílias numerosas, foi uma das prioridades em qualquer casa. Mas tudo está a mudar: o design das casas, a estética minimalista...” Aparentemente, o artigo era irritantemente igual a tantos outros que por essa imprensa fora dão conta das novas tendências, invariavelmente apresentadas como muito melhores que as imediatamente anteriores. No caso concreto dava-se conta da substituição das “mesas grandes, de madeira, robustas” por algo que está “bem mais dentro da estética mais moderna, virada para a praticidade“, ou seja as ilhas de cozinha.

Obviamente que só pondera fazer refeições numa ilha de cozinha quem não se lembra que a altura em que se cozinha não é a mesma daquela em que se come — as mesas são mais baixas — e que ignora o problema de ter no mesmo espaço os comensais, sejam eles crianças, adultos ou velhos, encarrapitados nuns bancos altos, enquanto tentam gerir pratos, copos e talheres, para mais ao lado de tudo aquilo que saiu do sítio quando se preparou a refeição na mesmíssima ilha. Tenho a certeza de que há quem tenha tido esgotamentos nervosos por menos, mas atire a primeira pedra quem, ao fazer obras, nunca optou por algo que nas fotografias parecia fabuloso, mas que na prática se revelou um fiasco.

Mas passemos à frente porque o presente declínio da mesa de refeições é muito mais que o resultado de uma moda. Pelo contrário, é o sinal de uma mudança enquanto sociedade. O que estamos a viver não se trata de uma passagem da mesa rectangular para a redonda, ou das mesas que dormiam sob naperons na chamada casa de jantar à espera dos dias de festa para aquelas outras que, numa mecânica ritual e ruidosa, se abriam e fechavam todos os dias em cozinhas e salas.

A assim chamada mesa de jantar, embora lá se fizessem as outras refeições e em muitas casas também fosse mesa de cozinha ou aquela em que muitas crianças faziam os trabalhos de casa, foi mudando de aspecto, dimensão, materiais mas estava lá enquanto centro da vida familiar. E se agora podemos prescindir dela, tal só acontece porque a vida familiar está a mudar para algo que é cada vez mais vida individual, mais atomizado: dados recentes indicam que apenas um terço das famílias inglesas faz uma refeição em comum, por dia. Sendo que também temos de questionar o que se entende por refeição em comum: por exemplo, comem ou não em família os franceses que, a fazer fé nos números, trocam crescentemente a mesa pelo sofá, cadeirão ou o que seja para poderem continuar a interagir com os seus écrans enquanto comem?

A própria comida tem acompanhado esta espécie de individualização conectada das refeições. Não é por acaso que proliferam como pratos de sucesso umas paparocas sem espinhas, ossos ou algo que exija uns segundos de atenção dos comensais: afinal os olhos dos ditos estão num video qualquer, quiçá dum chef ou influencer, cozinhando em minutos um prato invariavelmente espantoso.

A mudança que estamos a viver é aquela que vai de comer sentado a uma mesa, com garfo e faca — e comer alimentos iguais para todos que têm de se cortar e seleccionar, aprendendo a cada refeição que há momentos em que se espera pelos outros, em que se fala ou se tem de ficar calado e, sim, também se aprende, entre o passar do pão e da salada, que gritar, rir, zangar-se faz parte da vida — para uma outra forma de vida. Qual? Aquela em que, mesmo numa casa com várias pessoas há quem opte por comer sozinho, preferencialmente com uma colher para ser mais fácil, a sua refeição também ela individual porque cada um tem as suas dietas, alergias e manias, enterrado num sofá ou esticado na cama. Agora eu devia terminar com enquanto faz scroll. Mas o problema seria o mesmo se fosse com um livro. O problema talvez tenha começado precisamente aí: os écrans só ganharam essa espécie de omnipresença porque ocuparam o espaço cada vez mais em desuso e simbolicamente vazio da mesa de refeições de todos os dias.

Por isso, deixemos de culpar a IA  por tudo e mais alguma coisa, deixemos também o PS entregue às suas cabalas da justiça, esqueçamos até o facto embaraçoso de a Roménia não ter conseguido destruir o drone russo e olhemos para um assunto igualmente sério: o que simboliza o fim da mesa de jantar.

2º TEXTO:

PS. Algum dos membros da flotilha que se dirigia a Gaza já apresentou provas das torturas a que disseram ter sido sujeitos pelos militares israelitas? Foram a algum hospital quando chegaram para serem examinados e darem desse modo seguimento às queixas que obviamente se espera que apresentem?

Família Lifestyle Comportamento Sociedade

Miguel Morgado, Colunista do Observador

Coisas Novas

Talvez a AI seja muito mais do que um simples instrumento que se sujeite à remoção de umas partes consideradas perigosas. É muito mais do que um míssil que não deixa de o ser se lhe removermos a ogiva

31 mai. 2026, 00:24

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Leão XIV não perdeu tempo a explicar por actos a razão de ter escolhido o seu nome apostólico em sucessão numérica a Leão XIII. Já o sabíamos, claro, mas com a publicação de Magnifica Humanitas a intenção ficou consumada: seguir o grande fundador da chamada Doutrina Social da Igreja e também ele conceder à comunidade cristã e ao mundo uma reflexão de extensão dos princípios tradicionalmente estabelecidos sobre matérias sociais e políticas.

A Igreja tem 2000 anos de reflexão social, económica e política, desde logo nas palavras e actos do seu fundador, Jesus de Nazaré, ou nas cartas às comunidades cristãs espalhadas pelo Mediterrâneo do seu grande Apóstolo, Paulo de Tarso. Mas foi com Leão XIII, e a propósito das transformações sociais geradas no mundo Ocidental por revoluções tecnológicas sucessivas ao longo do século XIX, que se iniciou a tradição de os Papas partilharem a sua visão dos temas da vida concreta colectiva dos povos à luz da revisão, muitas vezes crítica, das ideologias e idolatrias alternativas, como o fascismo, o comunismo, o liberalismo ou o nacionalismo.

Para Leão XIV, a “questão social” permanece no nosso tempo. Isto é, os riscos e tragédias da exploração e opressão de classes de pessoas às mãos de poderosos inclementes. Já não protagonizados pelo operariado industrial sujeito aos rigores do desenvolvimento económico oitocentista. Agora somos todos aqueles que estão expostos aos perigos e malefícios em vários planos trazidos por uma outra revolução tecnológica que naturalmente se está a converter em revolução industrial e social: a da inteligência artificial (IA) e da construção dos mundos digitais.

É, sem qualquer dúvida, o tema do nosso tempo e que carecia já de uma resposta consolidada da Igreja, assim como de todas as fontes de autoridade ética do nosso mundo. Se o mundo ainda escuta o Papa e a Igreja é outra questão, mas o Papa tem o dever de falar mesmo quando a Igreja ficar reduzida a grupos exíguos de fiéis. Também não restam dúvidas de que o tema da IA pode ser colocado nos termos tradicionais da Rerum Novarum e de outras encíclicas papais: o dever de protecção dos mais fracos, dos mais pobres, aparece revigorado; e a questão da inclusão aplicada a um desenvolvimento tecnológico e económico digno desse nome tem importância renovada.

Com efeito, e mobilizando os conceitos e princípios estabelecidos pela tradição da Doutrina Social da Igrejaa subsidiariedade, a solidariedade, o destino universal dos bens e, presidindo a estes todos, a dignidade infinita da pessoa humana –, Leão XIV investe uma parte muito considerável do texto apelando à inclusividade no acesso às novas tecnologias; à participação da sua disseminação e intrusividade; ao controlo do tráfico de dados ou ao escrutínio dos mecanismos invisíveis de funcionamento das tecnologias e até das pessoas que os controlam.

Há muitas e boas razões para o fazer. Por um lado, a dependência do mundo e de cada um de nós relativamente a estas tecnologias, e, por outro, a constituição de um punhado de impérios empresariais nos EUA e na China que produzem e fornecem estas tecnologias, fazem com que o mundo pareça caminhar para o pesadelo imaginado pela ficção científica dos anos 70, em que o mundo é radicalmente despolitizado porque passa a ser, para todos os efeitos, governado por empresas monopolistas da tecnologia vital. Essa é a mensagem do Papa em favor dos descamisados e em repreensão dos corações esfriados dos grandes magnatas tecnológicos.

Além do conflito social, há também uma oportuna meditação sobre questões mais subtis, como a ameaça do desemprego massivo, por via da substituição, ou das investidas agressivas sobre a liberdade humana e sobre a civilização do amor. Para a Igreja, não há substituto para o acesso ao trabalho compatível com a dignidade humana, o que vale por dizer que no Cristianismo do século XXI permanece a tese de que o trabalho é uma actividade insubstituivelmente humanizadora. Nem sempre foi assim para a Igreja, num tempo em que o trabalho aparecia mais frequentemente com a sua faceta desumanizadora, por ser duro, estéril e estupidificante, mas, sobretudo desde Leão XIII, o trabalho emergiu como esta actividade fundamental da experiência humana. Neste contexto, ao Papa não atrai a utopia pensada por tantos milenarismos actuais e remotos de um mundo em que o trabalho humano se torne obsoleto, passando integralmente a cargo de computadores e robots.

Também não atrai, e pelo contrário, repugna as promessas contemporâneas de alguns intérpretes e fautores da actual revolução tecnológicaas promessas do transhumanismo e, pior ainda, do pós-humanismo. Essas promessas são simples e poderosas como todas as promessas políticas mobilizadoras. No fundo, reduzem-se a transcendermos os limites da nossa mera humanidade a escassez, a dor, o sofrimento, a deterioração e, finalmente, a mortalidade.

O Papa assinala as graves ameaças desses novos profetas e prega uma ética fundada na dignidade dos “limites – isto é, de que as nossas limitações são o enquadramento da humanidade infinitamente digna porque não deixam de ser objecto do amor de Deus. Porém, o Papa não quer recusar os dons das novas tecnologias em todos esses domíniosna remoção da dor física, na cura das doenças, na produção da abundância dos bens cuja escassez provoca tanto sofrimento no mundo, em particular nos pobres e descamisados, em nome dos quais a Igreja fala. Além disso, a Igreja está ciente de que existe uma fronteira entre os benefícios inauditos e a transcendência dos limites. Mas quem mais quer escutar que o valor da nossa vida está na sua finitude? O Papa quer “desarmar” a IA para torná-la apenas generosa e inofensiva. O problema é que talvez a AI seja muito mais do que um simples instrumento que se sujeite à remoção de umas partes consideradas perigosas. Afinal de contas, a IA é muito mais do que um míssil que não deixa de o ser se lhe removermos a ogiva nuclear.

Todas estas formas religiosas secularizadas de promessa de abundância e imortalidade arriscam-se a conquistar multidões e a produzir novos infernos. Mas o que são elas senão a reencenação da grande promessa trazida pelo Cristianismo? Como religião, o Cristianismo também nasce de uma promessa de transcender a mortalidadenuma vida sobrenatural depois da morte natural. E cuja ressurreição incluía os próprios corpos. O que seria a vida eterna para os escolhidos? A vida de abundância – no Paraíso não se trabalha; e a vida de realização infinita na visão beatífica de Deus – uma forma sublime e incomensurável de prazer que negaria toda e qualquer forma de dor ou de escassez. As promessas do transhumanismo e do pós-humanismo reconstituem as promessas do Cristianismo, mas afirmando apenas a vida material como a única sede de transcendência dos limites, e substituindo Deus por um algoritmo. Passando essa fronteira, seria a morte da Magnifica humanitas celebrada por Leão XIV como a mais magnífica criação de um Pai infinitamente amoroso. Nas muitas corridas em curso nesta revolução tecnológica, também esta se desenrola diante dos nossos olhos: a criação de novos ídolos em detrimento dos antigos.

Finalmente, uma ausência que me espantou na encíclica. Uma das grandes ameaças da AI é tornar cada um de nós supérfluo. Não falo de desemprego tecnológico, cuja compensação por um rendimento universal é rejeitada por Leão XIV. Falo da nossa superfluidade em cada instante da nossa vida – mesmo dos momentos mais íntimos do lazer que viéssemos a obter nesse novo mundo de abundância. Essa superfluidade viria da consciência permanente e melancólica de que nada do que pudéssemos fazer não seria superiormente feita pela IA – e em décimos de segundo. Todas as conversas, todos os poemas, todas as descrições de memórias, para nada dizer de todos os problemas científicos, todos os problemas políticos – tudo seria supérfluo nas mãos e no cérebro de um humano. E a partir dessa consciência o abismo mais horrível da história da Humanidade se abriria.

Haveria algum antídoto para esse abismo? Sim. O amor. Seria necessário propor uma civilização do amor – isto é, uma civilização humana inteiramente dependente e construída com base no amor. Até porque nada mais restaria num mundo hiper-abundante. Tratar-se-ia de mais uma utopia. Uma que provavelmente é impensável sem Deus, mas que nem por isso o Papa deixa de propor.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL      TECNOLOGIA      PAPA LEÃO XIV      IGREJA CATÓLICA     RELIGIÃO      SOCIEDADE

 

Manuel Lisboa: Reflexão interessante de Miguel Morgado. Nos tempos que correm, reconheça-se ainda a sua coragem intelectual em utilizar o conceito "amor" no sentido universal. De facto, a Encíclica Humanidade Magnífica está fazendo o seu percurso e a motivar a devida consideração. Face aos lugares comuns e teses que predominam acerca da tecnologia e da chamada (inadequadamente) "inteligência artificial", importa ponderar sobre a visão humanista da mensagem do Papa Leão XIV. E é evidente a sua oportunidade. Os falsos deuses sempre se revelaram de muitas e variadas formas ao longo da História da Humanidade. Dessa forma, a tecnologia não deverá constituir refúgio de idólatras alienados, mas sim procurar servir sempre as pessoas, todas as pessoas.                          Rui Martinho: Muito bom, Miguel, explicativo, objectivo e necessário para compreender claramente do que estamos a falar quando abordamos estes temas.

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