Na casa dos meus avós maternos, de grandes portadas que davam
para o quinteiro – este com horta, galinheiro e casa de coelhos e mais os
terrenos em volta, com os milheiros crescidos a impedir que nos enxergássemos
em pequenas distâncias, quando nós, as primas, apanhávamos amoras nos regueiros,
havia na cozinha uma mesa enorme que ocupava toda uma parede ancestral, de
banco corrido até quase à janela, complementado com o outro do lado de cá, mais
os bancos dos extremos, os porcos em baixo, no curral, grunhindo, para onde a
minha avó, sentada na varanda, invariavelmente arrastava o pesado balde de
madeira com as lavagens para eles, que lançava pelo largo cano, a um canto daquela.
Imagens que se fixaram, que diferiram das mesas posteriores da minha vida, de
que me lembro também. Hoje, idos os filhos para as suas próprias casas, comemos
na cozinha, a mesa da sala reservada para as festas de família. O certo é que a
mesa da sala de jantar permanece esquecida, em frente ao aparador e mais o
armário de parede, na casa encolhida e bem aproveitada, os quartos que eram dos
filhos, transformados em escritórios com estantes, sofá e televisão. E muitos retratos…
O fim da
mesa de jantar
Deixem a IA em paz, o PS
mais as cabalas da justiça e até o facto de a Roménia não ter conseguido
destruir o drone russo. Temos de tratar de um assunto igualmente sério:
o fim da mesa de jantar.
HELENA MATOS Colunista do Observador
OBSERVADOR, 31 mai. 2026, 00:25
“Durante anos, a mesa de jantar no centro da divisão,
pronta a receber um casal ou famílias numerosas, foi uma das prioridades em
qualquer casa. Mas tudo está a mudar: o design das casas, a estética
minimalista...” Aparentemente, o artigo era irritantemente igual a tantos
outros que por essa imprensa fora dão conta das novas tendências,
invariavelmente apresentadas como muito melhores que as imediatamente
anteriores. No caso concreto dava-se conta da substituição das “mesas grandes,
de madeira, robustas” por algo que está “bem mais dentro da estética mais
moderna, virada para a praticidade“, ou seja as ilhas de cozinha.
Obviamente que só pondera fazer refeições numa ilha de
cozinha quem não se lembra que a altura em que se cozinha não é a mesma daquela
em que se come — as mesas são mais baixas — e que ignora o problema de ter no mesmo
espaço os comensais, sejam eles crianças, adultos ou velhos, encarrapitados
nuns bancos altos, enquanto tentam gerir pratos, copos e talheres, para mais ao
lado de tudo aquilo que saiu do sítio quando se preparou a refeição na
mesmíssima ilha. Tenho a certeza de que há quem tenha tido esgotamentos
nervosos por menos, mas atire a primeira pedra quem, ao fazer obras, nunca
optou por algo que nas fotografias parecia fabuloso, mas que na prática se
revelou um fiasco.
Mas passemos à frente porque o presente declínio da mesa de
refeições é muito mais que o resultado de uma moda. Pelo contrário, é o sinal
de uma mudança enquanto sociedade. O que estamos a viver não se trata de uma
passagem da mesa rectangular para a redonda, ou das mesas que dormiam sob
naperons na chamada casa de jantar à espera dos dias de festa para aquelas
outras que, numa mecânica
ritual e ruidosa, se abriam e fechavam todos os dias em cozinhas e salas.
A assim chamada mesa de jantar, embora lá se fizessem as
outras refeições e em muitas casas também fosse mesa de cozinha ou aquela em
que muitas crianças faziam os trabalhos de casa, foi mudando de aspecto,
dimensão, materiais mas estava lá enquanto centro da vida familiar. E se agora
podemos prescindir dela, tal só acontece porque a vida familiar está a mudar
para algo que é cada vez mais vida individual, mais atomizado: dados recentes
indicam que apenas um terço das famílias inglesas faz uma refeição em comum,
por dia. Sendo que também temos de questionar o que se entende por refeição
em comum: por exemplo, comem ou não em família os franceses que, a fazer
fé nos números, trocam crescentemente a mesa pelo sofá, cadeirão ou o que seja
para poderem continuar a interagir com os seus écrans enquanto comem?
A própria comida tem acompanhado esta espécie de
individualização conectada das refeições. Não é por acaso que proliferam
como pratos de sucesso umas paparocas sem espinhas, ossos ou algo que exija uns
segundos de atenção dos comensais: afinal os olhos dos ditos estão
num video qualquer, quiçá dum chef ou influencer, cozinhando em minutos um
prato invariavelmente espantoso.
A mudança que estamos a viver é aquela que vai de
comer sentado a uma mesa, com garfo e faca — e comer alimentos iguais para
todos que têm de se cortar e seleccionar, aprendendo a cada refeição que há
momentos em
que se espera pelos outros, em que se fala ou se tem de ficar calado e, sim,
também se aprende, entre o passar do pão e da salada, que gritar, rir,
zangar-se faz parte da vida — para uma outra forma de vida. Qual?
Aquela em que, mesmo numa casa com várias pessoas há quem opte por comer sozinho,
preferencialmente com uma colher para ser mais fácil, a sua refeição também
ela individual porque cada um tem as suas dietas, alergias e manias,
enterrado num sofá ou esticado na cama. Agora eu devia terminar com enquanto
faz scroll. Mas o problema seria o mesmo se fosse com um livro. O
problema talvez tenha começado precisamente aí: os écrans só ganharam
essa espécie de omnipresença porque ocuparam o espaço cada vez mais em desuso e
simbolicamente vazio da mesa de refeições de todos os dias.
Por isso, deixemos de culpar a IA por tudo e mais alguma coisa, deixemos também
o PS entregue às suas cabalas da justiça, esqueçamos até o facto embaraçoso de
a Roménia não ter conseguido destruir o drone russo e olhemos para um assunto
igualmente sério: o que simboliza o fim da mesa de jantar.
2º TEXTO:
PS. Algum dos membros da flotilha que se dirigia a Gaza já
apresentou provas das torturas a que disseram ter sido sujeitos pelos militares
israelitas? Foram a algum hospital quando chegaram para serem examinados e
darem desse modo seguimento às queixas que obviamente se espera que apresentem?
Família Lifestyle Comportamento Sociedade
Miguel
Morgado, Colunista do Observador
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se sujeite à remoção de umas partes consideradas perigosas. É muito mais do que
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de ter escolhido o seu nome apostólico em sucessão numérica a Leão XIII. Já o sabíamos, claro, mas com a
publicação de Magnifica Humanitas a intenção ficou consumada: seguir o grande fundador
da chamada Doutrina Social da Igreja e também ele conceder à comunidade cristã
e ao mundo uma reflexão de extensão dos princípios tradicionalmente
estabelecidos sobre matérias sociais e políticas.
A Igreja tem 2000 anos de reflexão social, económica e
política, desde
logo nas palavras e actos do seu fundador, Jesus de Nazaré, ou nas cartas às comunidades
cristãs espalhadas pelo Mediterrâneo do seu grande Apóstolo, Paulo
de Tarso. Mas foi
com Leão XIII, e
a propósito das transformações sociais geradas no mundo Ocidental por
revoluções tecnológicas sucessivas ao longo do século XIX, que se iniciou a
tradição de os Papas partilharem a sua visão dos temas da vida concreta
colectiva dos povos à luz da revisão, muitas vezes crítica, das ideologias e
idolatrias alternativas, como o fascismo, o comunismo, o
liberalismo ou o nacionalismo.
Para Leão XIV, a “questão social” permanece no nosso tempo. Isto é, os
riscos e tragédias da exploração e opressão de classes de pessoas às mãos de
poderosos inclementes. Já não protagonizados pelo operariado industrial sujeito aos rigores
do desenvolvimento económico oitocentista. Agora somos todos
aqueles que estão expostos aos perigos e malefícios em vários planos trazidos
por uma outra revolução tecnológica que naturalmente se está a converter em
revolução industrial e social: a da inteligência artificial (IA) e da construção
dos mundos digitais.
É, sem qualquer dúvida, o tema do nosso tempo e que
carecia já de uma resposta consolidada da Igreja, assim como de todas as fontes
de autoridade ética do nosso mundo. Se o mundo ainda escuta o Papa e a Igreja
é outra questão, mas o Papa tem o dever de falar mesmo quando a Igreja ficar
reduzida a grupos exíguos de fiéis. Também não restam dúvidas de que o tema da IA pode ser colocado nos termos
tradicionais da Rerum Novarum e de outras encíclicas papais: o dever de protecção dos
mais fracos, dos mais pobres, aparece revigorado; e a questão da inclusão
aplicada a um desenvolvimento tecnológico e económico digno desse nome tem
importância renovada.
Com efeito, e mobilizando os conceitos e princípios
estabelecidos pela tradição da Doutrina Social da Igreja – a
subsidiariedade, a solidariedade, o destino universal dos bens e, presidindo a
estes todos, a dignidade infinita da pessoa humana –, Leão XIV investe uma parte
muito considerável do texto apelando à inclusividade no acesso
às novas tecnologias; à participação da sua disseminação e intrusividade; ao controlo do tráfico de
dados ou ao escrutínio dos mecanismos invisíveis de funcionamento das
tecnologias e até das pessoas que os controlam.
Há muitas e boas razões para o fazer. Por um lado, a
dependência do mundo e de cada um de nós relativamente a estas tecnologias, e, por outro, a
constituição de um punhado de impérios empresariais nos EUA e na China que
produzem e fornecem estas tecnologias, fazem com que o mundo pareça caminhar para o
pesadelo imaginado pela ficção científica dos anos 70, em que o mundo é
radicalmente despolitizado porque passa a ser, para todos os efeitos, governado
por empresas monopolistas da tecnologia vital. Essa é a mensagem do Papa
em favor dos descamisados e em repreensão dos corações esfriados dos grandes
magnatas tecnológicos.
Além do conflito social, há também uma oportuna meditação
sobre questões mais subtis, como a ameaça do desemprego massivo,
por via da substituição, ou das investidas agressivas sobre a liberdade humana
e sobre a civilização do amor. Para a Igreja, não há substituto para o acesso ao
trabalho compatível com a dignidade humana, o que vale por dizer que no
Cristianismo do século XXI permanece a tese de que o trabalho é uma actividade
insubstituivelmente humanizadora. Nem sempre foi assim para a Igreja, num tempo em que o
trabalho aparecia mais frequentemente com a sua faceta desumanizadora, por ser
duro, estéril e estupidificante, mas, sobretudo desde Leão XIII, o trabalho emergiu como esta
actividade fundamental da experiência humana. Neste contexto, ao Papa não
atrai a utopia pensada por tantos milenarismos actuais e remotos de um mundo em
que o trabalho humano se torne obsoleto, passando integralmente a cargo de
computadores e robots.
Também não atrai, e pelo
contrário, repugna as promessas contemporâneas de alguns intérpretes e fautores
da actual revolução tecnológica – as promessas do transhumanismo e, pior ainda, do pós-humanismo. Essas promessas são simples e
poderosas como todas as promessas políticas mobilizadoras. No fundo, reduzem-se
a transcendermos os limites da nossa mera humanidade – a
escassez, a dor, o sofrimento, a deterioração e, finalmente, a mortalidade.
O Papa assinala as graves ameaças desses novos
profetas e prega uma ética fundada na dignidade dos “limites” – isto é, de que as
nossas limitações são o enquadramento da humanidade infinitamente digna porque
não deixam de ser objecto do amor de Deus. Porém, o Papa não quer
recusar os dons das novas tecnologias em todos esses domínios – na remoção da dor
física, na cura das doenças, na produção da abundância dos bens cuja escassez
provoca tanto sofrimento no mundo, em particular nos pobres e descamisados, em
nome dos quais a Igreja fala. Além disso, a Igreja está ciente de que existe uma
fronteira entre os benefícios inauditos e a transcendência dos
limites. Mas quem mais quer escutar que o
valor da nossa vida está na sua finitude? O Papa quer “desarmar” a IA para
torná-la apenas generosa e inofensiva. O problema é que talvez a AI seja muito mais do que um simples
instrumento que se sujeite à remoção de umas partes consideradas perigosas. Afinal
de contas, a IA é muito mais do que um míssil que não deixa de o ser se lhe
removermos a ogiva nuclear.
Todas estas formas
religiosas secularizadas de promessa de abundância e imortalidade arriscam-se a
conquistar multidões e a produzir novos infernos. Mas o que são elas senão
a reencenação da grande promessa trazida pelo Cristianismo? Como religião, o
Cristianismo também nasce de uma promessa de transcender a mortalidade – numa vida
sobrenatural depois da morte natural. E cuja ressurreição incluía os próprios corpos.
O que seria a vida eterna para os escolhidos? A vida de
abundância –
no Paraíso não se trabalha; e a vida de realização infinita
na visão beatífica de Deus – uma forma sublime e incomensurável de prazer que negaria
toda e qualquer forma de dor ou de escassez. As promessas do
transhumanismo e do pós-humanismo reconstituem as promessas do Cristianismo, mas afirmando apenas a vida
material como a única sede de transcendência dos limites, e substituindo Deus
por um algoritmo. Passando essa fronteira, seria a morte
da Magnifica humanitas celebrada por Leão XIV como a mais magnífica criação de
um Pai infinitamente amoroso. Nas muitas corridas em curso nesta
revolução tecnológica, também esta se desenrola diante dos nossos olhos: a criação de novos ídolos
em detrimento dos antigos.
Finalmente, uma ausência que me espantou na
encíclica. Uma
das grandes ameaças da AI é tornar cada um de nós supérfluo. Não falo de desemprego
tecnológico, cuja
compensação por um rendimento universal é rejeitada por Leão XIV. Falo da nossa
superfluidade em cada instante da nossa vida – mesmo dos momentos mais íntimos
do lazer que
viéssemos a obter nesse novo mundo de abundância. Essa
superfluidade viria da consciência permanente e melancólica de que nada do que
pudéssemos fazer não seria superiormente feita pela IA – e em décimos de
segundo. Todas
as conversas, todos os poemas, todas as descrições de memórias, para nada dizer
de todos os problemas científicos, todos os problemas políticos – tudo seria
supérfluo nas mãos e no cérebro de um humano. E a partir dessa consciência o abismo
mais horrível da história da Humanidade se abriria.
Haveria algum antídoto para
esse abismo? Sim. O amor. Seria necessário propor uma
civilização do amor – isto é, uma civilização humana inteiramente dependente e
construída com base no amor. Até porque nada mais restaria num
mundo hiper-abundante. Tratar-se-ia de mais uma utopia. Uma que provavelmente é
impensável sem Deus, mas que nem por isso o Papa deixa de
propor.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL TECNOLOGIA PAPA LEÃO XIV IGREJA CATÓLICA RELIGIÃO SOCIEDADE
Manuel Lisboa: Reflexão interessante de Miguel
Morgado. Nos
tempos que correm, reconheça-se ainda a sua coragem intelectual em utilizar o
conceito "amor" no sentido universal. De facto, a Encíclica
Humanidade Magnífica está fazendo o seu percurso e a motivar a devida consideração. Face aos
lugares comuns e teses que predominam acerca da tecnologia e da chamada
(inadequadamente) "inteligência artificial", importa ponderar sobre a
visão humanista da mensagem do Papa Leão XIV. E é evidente a sua oportunidade. Os
falsos deuses sempre se revelaram de muitas e variadas formas ao longo da
História da Humanidade. Dessa forma, a tecnologia não deverá constituir refúgio
de idólatras alienados, mas sim procurar servir sempre as pessoas, todas as
pessoas. Rui Martinho: Muito bom, Miguel, explicativo,
objectivo e necessário para compreender claramente do que estamos a falar
quando abordamos estes temas.
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