domingo, 7 de junho de 2026

Uma análise fascinante

  

Tesouros literários ainda fracamente conhecidos, que os nossos investigadores das letras pátrias não deixarão de pesquisar.

Das mais antigas cantigas de amor ao relato de Alcácer Quibir: e se pudéssemos ver os tesouros da biblioteca do Palácio da Ajuda?

Três especialistas querem dar a conhecer os manuscritos mais valiosos e curiosos das bibliotecas portuguesas e chamar a atenção para um património “escondido” que, muitas vezes, passa despercebido.

RITA CIPRIANO: Texto

INÊS LACERDA: Fotografia

OBSERVADOR; 06 jun. 2026, 10:11

As bibliotecas e arquivos portugueses estão repletos de tesouros, mas são poucas as pessoas que têm acesso a eles. Um grupo de investigadores quer mudar isso. O primeiro passo nesse sentido foi dado no passado dia 11 de maio, quando se realizou, na Biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, o primeiro encontro do ciclo “Manuscritos fora da estante”, que pretende dar a conhecer, a um público mais vasto, o rico espólio manuscrito nacional. Uma iniciativa dos investigadores ELENA LOMBARDO (Centro de Linguística da Universidade de Lisboa), JOANA GOMES (Instituto de Filosofia da Universidade do Porto) e FILIPE ALVES MOREIRA (Instituto de Estudos de Literatura e Tradição na Universidade Aberta), o ciclo quer mostrar “outro tipo de património”, que costumava ser menos visível, mas que não é, por isso, menos interessante ou relevante.

Durante a primeira sessão, que reuniu cerca de 30 pessoas, um número que superou as expectativas iniciais dos organizadores, foram apresentados alguns dos mais importantes e curiosos manuscritos da colecção da Biblioteca do Palácio da Ajuda: um códice que junta o Cancioneiro da Ajuda e um exemplar do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, dois dos mais relevantes manuscritos medievais em território nacional; o códice 51-IX-22, com uma narrativa inédita sobre a Batalha de Alcácer Quibir; e a única cópia manuscrita conhecida da crónica de D. João II de Garcia Resende. Os participantes tiveram oportunidade de observar de perto os manuscritos — ver ao detalhe as ricas iluminuras do Cancioneiro, a caligrafia desenhada do 51-IX-22 e tentar decifrar as histórias jocosas sobre D. João II, reunidas no final da cópia da crónica de Garcia Resende. Colocaram perguntas e sugeriram hipóteses. Os investigadores esclareceram as dúvidas e prometeram voltar.

Antes que a sala se enchesse, o OBSERVADOR visitou a Biblioteca do Palácio da Ajuda, outro tesouro escondido, e conversou com os investigadores Elena Lombardo e Filipe Alves Moreira sobre os três códices, numa sala com vista para a casa outrora habitada por Alexandre Herculano, o primeiro bibliotecário da Ajuda.

Um mundo “escondido”

Existem bibliotecas portuguesas cuja fama atravessa fronteiras. A do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, não será uma delas. A fraca popularidade não se justifica. Uma das mais antigas e elegantes bibliotecas portuguesas, encontra-se localizada numa ala própria do palácio desde 1880, mas a sua origem é muito anterior. As estantes e vitrinas são acessíveis através de duas galerias, inferior e superior, e impressionam pela altura e decoração elegante, com apontamentos em dourado. Os tectos, pintados a fresco, são da autoria do pintor e decorador José Pereira Júnior, conhecido como Pereira Cão, que foi responsável pelas obras de restauro realizadas no palácio por altura do casamento de D. Luís e D. Maria Pia. A biblioteca está repleta de referências a Alexandre Herculano. O escritor foi nomeado bibliotecário-mor em 1839 e foi responsável por tratar e classificar os milhares de volumes que permaneciam ainda dentro dos caixotes em que tinham sido transferidos do Brasil, para onde a biblioteca foi enviada, juntamente com a família real, por altura das invasões francesas. A casa onde Herculano viveu e trabalhou, junto ao edifício principal do palácio, é visível através das janelas da biblioteca.

Filipe Alves Moreira e Elena Lombardo folheiam cuidadosamente o Cancioneiro da Ajuda

Embora as suas origens remontem ao século XV, a Biblioteca do Palácio da Ajuda, tal como hoje existe, começou a ser construída no século XVIII, após o terramoto de 1755, que destruiu grande parte do espólio da antiga Biblioteca Real, instalada no Paço da Ribeira. Ao longo das décadas, a colecção foi crescendo em número e em prestígio, graças à integração de colecções privadas e às doações de obras raras. Actualmente, é composta por 150 mil exemplares, manuscritos e impressos, produzidos entre os séculos XII e XXI. A colecção de manuscritos inclui 2.512 códices (volumes manuscritos, que podem conter mais do que uma obra) e cerca de 33 mil documentos avulsos, e contém o mais importante acervo de manuscritos musicais do país.

A importância do espólio da Biblioteca da Ajuda foi um dos motivos que levaram Elena Lombardo, Joana Gomes e Filipe Alves Moreira a escolhê-la como o local do primeiro encontro do ciclo “Manuscritos fora da estante”. “Já tínhamos uma ideia do que queríamos mostrar”, afirmou Filipe Alves Moreira ao OBSERVADOr. Mas o plano é que não fique por ali.A ideia é que venha a ser um ciclo de encontros, em que se repita até localizações, mas mostrando obras diferentes e em vários pontos do país”, explicou o investigador do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto. A próxima data deverá ser novamente em Lisboa, mas os investigadores gostavam de visitar, em breve, a Biblioteca Joanina, da Universidade de Coimbra, uma das mais ricas do período barroco. A biblioteca está actualmente a ser alvo de um processo de digitalização, que prevê a disponibilização em formato digital de cerca de 30 mil volumes do Piso Nobre até 2030.

O objectivo do ciclo “é mostrar ao público em geral, ou ao público potencialmente interessado, um outro tipo de património, que são os manuscritos. Quando falamos em património, pensamos muitas vezes em castelos, palácios, esse tipo de coisas, mas há muito outro património que fica esquecido, entre o qual está o património bibliográfico e, no nosso caso, muito particularmente, os manuscritos. É outra forma de património que está um bocado esquecida”, disse Filipe Alves Moreira. Uma das razões é porque se trata de um tipo de material que “parece inacessível”. “Acho que existe, a priori, o preconceito de que uma biblioteca é um lugar muito distante, que tem muitas regras, onde não se pode consultar os materiais, ainda mais no caso dos textos e códices antigos. Que se trata de um muito fechado, muito inacessível.” Mas nem sempre é assim. “Depende da instituição e do códice, mas, em princípio, justificando-se o interesse”, é possível fazê-lo, esclareceu o investigador. Por outro lado, o estudo das obras manuscritas é “uma área que está em perigo”. “Há poucas pessoas interessadas em Portugal. É também uma forma de tentar chamar pessoas para esta área, que, infelizmente, tem poucos jovens interessados.”

As mais antigas cantigas de amor estão na Ajuda

Na última sala da biblioteca, foi colocado, sobre uma mesa baixa de madeira, um códice enorme, com uma encadernação em couro trabalhado e fechaduras. “Este é a joia da coroa”, disse Filipe Alves Moreira, aproximando-se. “Este é o Cancioneiro da Ajuda, encadernado juntamente com o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro”, explicou, enquanto calçava as luvas descartáveis para poder folheá-lo. “Isto é uma emoção, até. É a primeira vez que vou tocar nestas páginas.”

Produzido em pergaminho — um suporte de escrita feito a partir da pele raspada de animais —, provavelmente no final do século XIV, o chamado Cancioneiro da Ajuda é a mais antiga colecção manuscrita de cantigas galego-portuguesas, um tipo de lírica trovadoresta que floresceu no território peninsular entre o final do século XII e meados do século XIV. Inclui 310 composições, pertencentes a um único género — o da cantigas de amor —, enquanto que as outras colectâneas abrangem todos os principais géneros das cantigas galego-portuguesasamor, amigo e escárnio e maldizer. O mais ricamente decorado e iluminado dos três grandes cancioneiros, que incluem o da Biblioteca Nacional de Portugal e o da Biblioteca Vaticana, o Cancioneiro da Ajuda foi, no entanto, deixado inacabado, o que é perceptível pelas iluminuras e ilustrações por terminar e pelos espaços em branco nos quais deviam ter sido colocadas as pautas musicais. Porque, embora se tenha perdido a noção disso, as cantigas eram compostas para serem cantadas com acompanhamento musical, mas foram poucas as pautas que sobreviveram ao período medieval.

Embora as suas origens remontem ao século XV, a Biblioteca do Palácio da Ajuda, tal como hoje existe, começou a ser construída no século XVIII, após o terramoto de 1755

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Apesar da sua importância, pouco se sabe sobre as origens do Cancioneiro da Ajuda, também conhecido como Cancioneiro do Colégio dos Nobres, por ter pertencido à biblioteca desse estabelecimento de ensino fundado pelo Marquês de Pombal, onde foi descoberto no início do século XIX. Nem tão pouco se sabe se foi produzido em território actualmente português ou espanhol. Sabe-se, apenas, que o seu patrono terá sido alguém com posses, tendo em conta a riqueza da decoração, sem rival. Cada iluminura representa um autor e trovador diferente, que surge num lugar de destaque, como que “a supervisionar o trabalho” daqueles que estão a executar a sua composição, como explicou Filipe Alves Moreira. Na ilustração, “surge sempre, ou quase sempre, uma mulher dançarina e um músico, que executava a parte musical”.

No final do século XV, o manuscrito encontrava-se em Évora, na posse de um fidalgo chamado Pedro Homem. É possível ver a sua assinatura no final do manuscrito, juntamente com outras marcas — desenhos, palavras e outros rascunhos —, deixadas por muitos dos que tiveram o Cancioneiro nas mãos. Essas marcas não são exclusivas desse códice, nem se devem ao facto de o manuscrito ter ficado inacabado. “Não é nada incomum haver folhas com cálculos, números e qualquer tipo de desenho, anotações ou até mesmo gatafunhos”, esclareceu Elena Lombardo. Até porque, “antes de fazerem os documentos, experimentavam a escrita”, acrescentou Filipe Alves Moreira. Além dessas marcas, o manuscrito inclui também comentários escritos, que foram deixados pelos seus leitores cerca de 100 anos depois. Junto a uma das composições, alguém escreveu: “Mui, mui boa”, indício de que o Cancioneiro foi “lido com atenção, mesmo um século ou dois depois”, comentou o investigador do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto. A determinada altura, o Cancioneiro terá pertencido à biblioteca dos jesuítas de Lisboa, e após a expulsão e a confiscação dos bens da Companhia de Jesus pelo Marquês de Pombal, em 1759, terá passado para o Colégio dos Nobres, instituído por carta régia em 1761. No século XIX, encontrou uma nova casa na Biblioteca do Palácio da Ajuda, que, na sequência da extinção das ordens religiosas, em 1834, passou a agregar as antigas bibliotecas da Companhia de Jesus e da Congregação do Oratório.

Actualmente, o Cancioneiro da Ajuda encontra-se num grande códice encadernado, que inclui o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, uma importante obra geneológica do século XV, que foi também mostrado pelos investigadores durante a sessão de 11 de maio. A encadernação tem um padrão em grelha, com decorações vegetais, conhecido como S. Lourenço, numa referência à história do martírio do santo espanhol do século II, que foi assado vivo numa grelha de ferro. Diz a lenda que, quando estava sobre a grelha, Lourenço pediu para que o virassem, para que ficasse bem passado dos dois lados. Em conversa telefónica com o Observador, a investigadora Joana Gomes, que não pôde acompanhar-nos durante a visita à Biblioteca do Palácio da Ajuda, explicou que o padrão estará também relacionado com o encadernador, que se chamaria Afonso Lourenço. “Essa marca de encarnação, por associação onomástica, remeteria para o encadernador que, como símbolo do seu trabalho, recorreria ao santo com o mesmo nome”, afirmou a investigadora do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição na Universidade Aberta.

A encadernação é do século XVI, quando as duas obras foram reunidas num só volume. Não há nada a separá-las — apenas um olhar atento consegue discernir onde começa uma e acaba outra, embora sejam visualmente distintas. E, curiosamente, o Livro de Linhagens, que é mais antigo do que o Cancioneiro, foi colocado em primeiro lugar. Cronologicamente, o códice está ao contrário.

Iluminuras e decoração interior do Cancioneiro da Ajuda; e o Códice 51-IX-22

(CONTINUA)


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