Voltemos ao literário,
para entendermos com uma amplitude menos dolo(ro)sa:
Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se
a confiança;
Todo o mundo é composto
de mudança,
Tomando sempre novas
qualidades.
Continuamente vemos
novidades,
Diferentes em tudo da
esperança;
Do mal ficam as mágoas
na lembrança,
E do bem, se algum
houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de
verde manto,
Que já coberto foi de
neve fria,
E enfim converte em
choro o doce canto.
E, afora este mudar-se
cada dia,
Outra mudança faz de
mor espanto:
Que não se muda já como
soía.
A inteligência
fora do crânio e o regresso ao humano
O Fórum Económico
Mundial indica que os empregadores esperam que 39% das competências nucleares
dos trabalhadores mudem até 2030.
FERNANDO MOREIRA
OBSERVADOR, 10 jun. 2026,
00:12
Durante décadas, a sociedade confundiu
competência com perícia técnica. Saber programar, calcular,
operar máquinas, dominar procedimentos, escrever relatórios, interpretar
normas: tudo isto formava o conjunto das hard skills. Quem
sabia fazer, valia. Quem sabia medir, subia. Quem sabia executar, permanecia.
Mas a história do trabalho nunca foi imóvel e a tecnologia deslocou o centro do
valor humano.
A primeira grande mudança foi
clara, os computadores passaram a substituir tarefas rotineiras, tanto
cognitivas como manuais, e a complementar tarefas não rotineiras, como a
resolução de problemas complexos e a comunicação. Essa leitura, já presente no
trabalho, ajudou a explicar por que razão a simples capacidade de executar
instruções deixou de bastar. O trabalhador deixou de valer apenas pelo que
sabia repetir e começou a valer pelo que sabia interpretar, adaptar, relacionar
e decidir.
Depois veio a era das soft skills. Durante algum
tempo, o nome enganou-nos. Chamámos “suaves” a competências duríssimas: comunicar bem, cooperar, liderar,
escutar, negociar, resolver conflitos, manter serenidade sob pressão.
David Deming mostrou que, entre 1980 e 2012, os empregos que exigiam
elevados níveis de interação social cresceram quase 12 pontos
percentuais na força de trabalho norte-americana, enquanto empregos intensivos
em matemática, mas menos sociais diminuíram 3,3 pontos percentuais.
Agora entramos numa
terceira estação, a das heart skills. Não se trata de substituir as competências
técnicas nem de romantizar a bondade como ornamento moral. Trata-se de reconhecer que, num mundo
onde a inteligência artificial escreve, resume, calcula, traduz, programa e
recomenda, o que se torna escasso é precisamente aquilo que não se deixa
reduzir a cálculo, como a empatia, a generosidade, o cuidado, a simpatia, a
presença, a escuta ativa e a responsabilidade emocional. A OCDE descreve as
competências sociais e emocionais, como autocontrolo, resistência ao stress,
cooperação, sociabilidade e curiosidade, como capacidades associadas ao
bem-estar, ao desempenho académico e ao desempenho profissional.
Mais ainda, a OCDE sublinha que, à medida que a IA ultrapassa os humanos em
várias capacidades cognitivas, estas competências se tornam uma vantagem
decisiva em tarefas que as máquinas não realizam plenamente.
A palavra “coração” pode parecer excessiva num
relatório empresarial. Mas talvez seja apenas tardia.
O Fórum Económico
Mundial indica que os empregadores esperam que 39% das competências nucleares
dos trabalhadores mudem até 2030
A consequência social é
profunda. Na educação,
as heart skills
obrigam-nos a deixar de formar apenas quem resolve exercícios para formar
intérpretes de mundo. Nas empresas, deslocam o critério de liderança, porque o bom gestor
já não é apenas quem distribui tarefas, mas quem protege a confiança, lê o
medo, reconhece a fadiga, cria sentido. Na política, tornam-se antídoto contra sociedades
irritadas, aceleradas e incapazes de escutar. Na saúde, na justiça, na
administração pública e no ensino, convertem-se em infraestrutura invisível da dignidade.
Sem elas, teremos
sistemas eficientes e pessoas esmagadas, máquinas rápidas e comunidades lentas,
decisões automáticas e vidas mal compreendidas.
A inteligência artificial, porém, não tem vontade de
potência. Tem objectivos definidos, explícitos ou implícitos, mas não tem desejo.
Tem autonomia
operacional, mas não tem fome de sentido. Por isso, quando delegamos demasiado
na IA, o perigo não é apenas técnico. É existencial. A IA amplia este dilema.
Um estudo da Microsoft Research com 319 trabalhadores do conhecimento
recolheu 936 exemplos de uso de IA generativa e analisou o impacto percebido no
pensamento crítico. Outro estudo, com 666 participantes, encontrou uma
associação negativa entre uso frequente de ferramentas de IA e pensamento
crítico, mediada pela transferência de esforço cognitivo para a máquina.
A conclusão não é que
a IA empobreça inevitavelmente a mente, é mais subtil. A IA empobrece quando se
transforma em muleta permanente, mas enriquece quando funciona como espelho,
cocriador, contraditório, etc.
Dizia-se que vivíamos um
tempo de mudança. Agora talvez seja mais exacto dizer que atravessamos uma
mudança de tempo. A diferença é enorme. Um tempo de mudança altera
ferramentas, profissões e métodos. Uma mudança de tempo altera a forma como
percebemos a realidade, a autoridade, a aprendizagem, o mérito, a autoria, a
memória e até a identidade. A IA não é mais uma aplicação no telemóvel. É um novo clima.
E, como todo o clima, não muda apenas aquilo que fazemos, muda aquilo que
esperamos que seja normal e os sinais são visíveis. O relatório AI Index 2025, de
Stanford, mostra que o desempenho da IA melhorou fortemente em vários
referenciais exigentes, que a IA está cada vez mais presente na vida quotidiana
e que 78% das organizações reportaram usar IA em 2024, contra 55% no ano anterior.
Mas a IA não veio apenas
substituir, mas, sobretudo, pôr à prova a nossa capacidade de acrescentar. A melhor imagem talvez não seja a da
máquina que ocupa o lugar do humano, mas a da inteligência que ganha uma
extensão fora do crânio. Uma espécie de “externaligência”. A palavra “externaligência” torna-se
necessária porque a expressão inteligência artificial já não descreve
plenamente aquilo que está a acontecer. A IA não é apenas uma tecnologia
exterior ao humano, é uma presença cognitiva que começa a participar no modo
como pensamos, escrevemos, investigamos, decidimos, ensinamos e aprendemos.
Contudo, já em 1998, Andy
Clark e David Chalmers defenderam a tese da “mente estendida”, segundo a
qual certos processos cognitivos não se encontram exclusivamente dentro
da cabeça, podendo envolver objectos, dispositivos e elementos do ambiente.
A ideia central era
poderosa, o pensamento humano não termina necessariamente na fronteira da pele,
pode prolongar-se num caderno, num computador, numa agenda, numa ferramenta que
organiza a memória e orienta a acção. A inteligência artificial generativa
altera, porém, a escala desse problema. Já não estamos apenas perante
instrumentos passivos de registo ou consulta, mas estamos perante sistemas que
respondem, sugerem, resumem, comparam, simulam estilos, produzem hipóteses e
participam ativamente no processo de raciocínio. É neste
salto, da ferramenta externa para o interlocutor cognitivo, que o conceito de
“externaligência” ganha verdadeira necessidade.
Um estudo da NBER sobre 5.179
agentes de apoio ao cliente mostrou que o acesso a uma ferramenta de IA
generativa aumentou a produtividade média em 14%, com ganhos de 34% para
trabalhadores principiantes ou menos qualificados. O Anthropic Economic Index (https://www.anthropic.com/news/the-anthropic-economic-index),
por sua vez, indica que o
uso de IA se inclina mais para a ampliação em 57% das capacidades humanas do
que para automação direta (43%). A pergunta decisiva, portanto, não é “quantos
humanos a IA substituirá?”, mas “que humanos seremos quando trabalharmos com
ela?”.
Nos próximos dois ou três
anos, entre 2026 e 2029, é plausível que a sociedade se reorganize em torno de três fracturas. A primeira será entre
quem usa IA para pensar melhor e quem a usa para deixar de pensar. A segunda será entre instituições que
ensinam processos (perguntar, verificar, comparar, argumentar) e instituições
que apenas avaliam produtos finais. A terceira será entre organizações que tratam a
IA como corte de custos e organizações que a usam para libertar tempo humano
para trabalho de maior valor como a relação, o cuidado, a criatividade, a
decisão ética, o acompanhamento, a formação e a escuta activa.
Na vida pública, as heart skills poderão tornar-se
condição de sobrevivência democrática. Numa sociedade inundada
de conteúdos sintéticos, vozes artificiais e certezas fabricadas, a empatia
será mais do que uma virtude privada, será uma tecnologia moral de coesão. A
generosidade não significará ingenuidade, mas significará capacidade de admitir
complexidade. A simpatia não será superficialidade, será a arte de não
transformar discordância em desprezo. A escuta não será passividade, mas será
resistência contra a brutalidade da reacção instantânea.
O futuro próximo,
contudo, não está garantido. A IA pode ampliar desigualdades, concentrar poder,
acelerar precariedades e tornar invisível quem já era pouco ouvido. Mas também
pode democratizar acesso, apoiar aprendizagem personalizada, ajudar profissionais
menos experientes, reduzir tarefas mecânicas e abrir tempo para aquilo que nos
torna mais humanos. A diferença não estará apenas nos modelos, mas nos valores
que colocarmos à volta deles.
As hard skills continuam necessárias. Sem técnica, a intenção tropeça. As
soft skills continuam fundamentais. Sem colaboração, a inteligência
dispersa-se.
A IA não tem vontade de potência. Nós temos.
E talvez a grande tarefa dos próximos anos seja não usar a inteligência
artificial para diminuir a nossa vontade, mas para a educar. Não para fugir ao
esforço, mas para o tornar mais fecundo. Não para substituir o coração pela
máquina, mas para impedir que a máquina nos convença de que o coração era
dispensável.
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