Uma constante num mundo
belicista, num Ocidente meio inerte contra o terrorismo iraniano.
Não perguntem quem perdeu se a guerra no Irão acabar mal
Deixemo-nos de ilusões. Se
a guerra acabar mal, não é porque tenha sido um delírio de Trump, ou porque os
generais americanos e israelitas a não tivessem planeado como deviam.
RUI RAMOS: Colunista do
Observador
12 jun. 2026, 00:25
A guerra contra a
ditadura iraniana pode não acabar bem. Não acabar bem significa a
tirania dos Khamenei sobreviver, e os EUA enredarem-se outra vez no xadrez das
negociações e sanções, onde os ayatollahs os têm toureado nas últimas décadas.
Mas se a guerra acabar mal, há duas conclusões erradas que, por mais
consoladoras que sejam, convém evitar.
A primeira é esta: a
guerra acabou mal por ser uma guerra desnecessária. Errado. As guerras são
sempre uma opção tremenda e arriscada. Se os EUA recorreram às armas, foi
porque os outros meios falharam. Em 1979, a teocracia iraniana declarou-se
inimiga do Ocidente e do que o Ocidente representava. Fundou e financiou organizações
terroristas, tentou desenvolver armas nucleares, adquiriu mísseis capazes de
atingir a Europa. Durante anos, americanos e europeus usaram negociações e
sanções para dissuadir os teocratas de Teerão. Sem resultado. Da
parte dos EUA, a operação militar foi um último recurso. Se a guerra acabar
mal, não quer dizer que não devesse ter sido tentada.
A segunda é esta: a guerra acabou mal
porque Trump não tinha um plano ou o seu plano era mau. Errado
outra vez. Os EUA têm os meios militares para vencer um conflito
armado, incluindo generais aptos para os usar da maneira mais eficiente. O
problema não está nas armas, ou nos planos. Está em sistemas políticos e em
economias que não parecem suportar uma campanha militar prolongada: governos
que temem perder eleições, e economias minadas pelo endividamento, por impostos
altos e pela inflação, e por isso impedidas de qualquer esforço mais espartano.
Bastou aos mullahs
fecharem Ormuz. Se a guerra acabar mal, não correrá
melhor da próxima vez.
Dizer que a guerra foi apenas
um capricho de Trump ou que um eventual insucesso se deveu somente à sua má
planificação é muito confortável. Permite que acreditemos novamente que as
valsas diplomáticas são a melhor solução para conter a ditadura iraniana,
embora nunca tenham funcionado antes, ou que, sem Trump, venceremos
da próxima vez, apesar de não se constatar, no Ocidente, qualquer movimento
para ultrapassar as debilidades que agora espartilharam a sua força militar.
Deixemo-nos de ilusões. Se a guerra
acabar mal, não é porque tenha sido um delírio de Trump, ou porque os generais
americanos e israelitas a não tivessem planeado como deviam. Será por duas razões muito menos
convenientes: porque a teocracia iraniana, fanática e sanguinária, é resiliente, e
porque o Ocidente, dividido e endividado, não tem força para a derrubar.
E isso justificará
alguma inquietação, na medida em que a ditadura iraniana não é um problema
local do Médio Oriente. O Irão, com 12% do petróleo mundial, quase 100 milhões de
habitantes, e aliados como a Rússia e a China, dispõe do que é necessário para
ser um problema global. Mais: o Irão dos Khamenei não é um Estado normal, susceptível de
compromisso e moderação. É um projecto apocalíptico, que se alimenta de
vertigem e ousadia. Funciona, desde 1979, como o principal foco do islamismo
político, uma ideologia que subverteu o Médio Oriente, e que agora apela às
comunidades muçulmanas que o caos migratório deixou instalarem-se na Europa. Derrotar a teocracia iraniana é a
maneira de desacreditar o radicalismo político associado ao Islão, e prevenir
que os muçulmanos na Europa se convertam em massa de manobra dos movimentos
inspirados pela revolução islâmica iraniana.
É preciso que esta
guerra não acabe mal. Mas se acabar, não perguntem quem perdeu. Não será Trump: seremos nós todos.
Porque se esta
guerra acabar mal, isso apenas significará que a guerra continua.
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