Um
discurso de graça irresistível.
Odiar o
ódio: um Manual interdisciplinar
Dado ser bastante
improvável que os simplórios consultem voluntariamente o “Manual” e que se
deixem contaminar pelo seu conteúdo, a finalidade prática do produto é
influenciar leis
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 20 jun. 2026, 00:24
Por todo o mundo civilizado,
há milhares de pessoas especializadas na investigação e desenvolvimento da
imuno-oncologia, da cirurgia robótica e da medicina regenerativa. Por sorte,
também há quem se preocupe com coisas sérias e ocupe o expediente a estudar o
“discurso de ódio”. Algumas destas boas almas lançaram na passada quinta-feira
a obra seminal “Discurso de Ódio: Manual de Apoio e Glossário”, coordenado pela
Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e produzido por três insignes
académicos da Universidade de Aveiro e, claro, do ISCTE, além da colaboração de
prestigiados nomes da ILGA e do SOS Racismo. Promete.
E cumpre. Se alguém duvida da
importância de semelhante empreitada, os autores elucidam: “O objectivo é
ajudar os cidadãos a compreenderem como se manifesta o discurso de ódio, o seu
impacto nas vítimas e testemunhas, a partir de uma perspectiva interdisciplinar
e contextualizada.” Só neste sumário temos “perspectiva interdisciplinar”,
temos “contexto” e temos “vítimas”, o que já é meio caminho andado para se
concluir que o assunto é da maior pertinência. Mas o que consagra de uma vez a
importância do “Manual” é a respectiva capacidade de “ajudar os cidadãos a
compreenderem”, leia-se a enfiar um pouco de sensatez nas duras cabeças das
pessoas comuns. Dado ser bastante improvável que os simplórios consultem
voluntariamente o “Manual” e ainda mais improvável que se deixem contaminar
pelo seu conteúdo, a finalidade prática do produto é influenciar leis,
justificar restrições e punições, ou, no mínimo, contribuir para um clima de
pensamento único que coincida, sem tirar nem pôr, com o pensamento dos
cientistas sociais do ISCTE.
Desde logo, é preciso
compreender que o “discurso de ódio” de que o “Manual” trata não é um
sentimento genérico e difuso e essencialmente humano. Pelo contrário, o “ódio”
aqui é assaz específico e limita-se a “comunidades racializadas e LGBTQIA+,
migrantes e mulheres”. Se, por exemplo, o Zé Carlos odeia o cunhado por conta
de um corta-relva que lhe emprestou em 1998 e não voltou a ver, o “Manual” não
cobre essa circunstância. E se – novo exemplo – um aborígene deseja do fundo do
coração e na página dele no Instagram a extinção dos caucasianos, o “Manual”
também não elucida a propósito. Por rigoroso princípio epistemológico, o
“Manual” apenas aborda o “ódio”, declarado ou presumido nas entrelinhas, que os
homens ocidentais “brancos” dedicam às referidas “minorias”. E mesmo aqui há
nuances que convém assinalar: o sexo, a naturalidade e a melanina até são
secundários se o portador de “ódio” for associado, ou “associável”, à
“extrema-direita”, igualmente conhecida por “direita radical” ou “ultra
direita”.
No fundo, a pertença à
“megadireita” é o critério decisivo. Se uma lésbica negra depreciar o Islão, a
senhora é evidentemente da “superdireita” e uma comprovada portadora de “ódio”.
Porém, se um heterossexual gritar em público louvores a Gaza, o que poderia ser
erradamente interpretado como a aprovação do ódio aos homossexuais que por lá
são perseguidos e assassinados, o “Manual” não condena. Se um europeu de
quarenta gerações declarar apoio e devoção à República Islâmica do Irão,
discutivelmente uma exibição de ódio às mulheres que lá gozam de estatuto
sub-humano, o “Manual” não critica. Se um socialista pálido insultar o
“sionismo” e os “sionistas”, que uma análise excessivamente zelosa talvez
confundisse com o velho e tradicional ódio aos judeus, o “Manual” não censura.
De resto, além de estabelecer
que à esquerda não se odeia ninguém, o “Manual” não pretende censurar
absolutamente nada, garantem os autores, os primeiros a lembrar que “as
sociedades democráticas dependem da liberdade de expressão, do debate aberto e
do pluralismo”. Nestes pilares da democracia não se toca, portanto. Ou toca-se
somente nos casos em que os senhores e as senhoras do ISCTE decidem que se deve
tocar: “a protecção destes princípios deve andar de mãos dadas com a
salvaguarda da dignidade humana, da igualdade e da não discriminação”.
Traduzindo para português, isto significa que, no universo idílico do “Manual”,
somos livres de dizer o que quisermos contanto que digamos o que as
regulamentações ideológicas esparramadas no “Manual” permitem que se diga. A
nossa liberdade, que é plena e absoluta e inviolável e inquestionável e
sagrada, termina onde começam as proibições levantadas por “eles”, os donos dos
conceitos de “dignidade humana”, “igualdade” e “não discriminação”. Parece
razoável. Da Coreia do Norte à China, passando por Cuba, Rússia e o actual
Reino Unido, não há lugar decente na Terra que não garanta aos cidadãos esse
exacto tipo de liberdade com excepções, as excepções que as elites
superiormente esclarecidas definem a pretexto do Bem.
Desgraçadamente, em Portugal
continua a haver um fosso que separa a realidade das comiserações humanitárias
do “Manual”. Há dias, a “hiperdireita” parlamentar, que vai do Chega à
Iniciativa Liberal, passando por PSD e CDS, rejeitou uma proposta do Livre para
aumentar as penas aplicadas a qualquer discurso que destoe dos impolutos
discursos do dr. Rui Tavares. Ou seja, no que depender da “gigadireita”, um
sujeito emite opinião divergente das autorizadas pelo “Manual” e não arrisca
mais do que 5 anos no xilindró, com tempo de sobra para depois refazer a sua
vida racista, misógina e transfóbica. É impossível não odiar gente assim.
LGBTQ DIREITOS HUMANOS SOCIEDADE
COMENTÁRIOS:
Gabriel Madeira: Pelo que descreve do
Manual, este serve para quando falta o papel higiénico.
PAULO SILVA: “Racismo
estrutural”, “racismo sistémico”, “racialização”, “privilégio branco”,
“apropriação cultural”, “micro-agressão”, “discurso de ódio”, etc… são anátemas
extraídos do novo decálogo que a esquerda radical conseguiu impor nas
sociedades ocidentais contemporâneas ao fim de décadas de maturação do marxismo
cultural nas suas universidades. A 'interdisciplinaridade' foi a forma pela
qual as ciências sociais e humanas se foram contaminando, e passando o vírus a
outras. Isto não é uma obra do acaso, mas fruto de uma estratégia pensada que
teve em Gramsci um dos seus pioneiros mentores, e quiçá os próprios Marx e
Engels, (vide "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do
Estado", obra seminal para o feminismo radical), e que outros implementaram,
mas que também contou com a colaboração preciosa dos governos ocidentais pela
indiferença e negligência, entretidos que estavam em guerras quentes e
guerras-frias. O mal está feito, mas se não existirem movimentos de resistência
à tirania disfarçada de 'direito-humanismo' com as directivas DEI do
multiculturalismo, o distópico e despótico admirável mundo novo chegará mais
depressa que um falcão… O Brasil do luladrão parece ir na dianteira... Portugal
segue na peugada nota: o Ruizinho “comunista” Tavares parece juntar o melhor de
dois mundos; marxismo clássico (com o rendimento básico incondicional) e
marxismo cultural, tudo embrulhado no verniz da liberdade, que estala de cada
vez que o Ruizinho se distrai.
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