sábado, 13 de junho de 2026

Preocupações

 

Naturais, talvez. Mas há mais.

Os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não é a falta de sonhos: é nunca acordar.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 13 jun. 2026, 00:24

Primeira parte: política

Vejo muita gente preocupada com a circunstância de o Mundial se realizar sobretudo nos EUA. Trata-se de um receio pertinente. É sabido que na América actual as autoridades fascistas começam por deter e deportar metade dos visitantes logo no aeroporto. Depois perseguem a outra metade pelas ruas, na maioria das vezes a tiro. E se por acaso no processo sobrar um turista incauto, os agentes do ICE são meninos para segui-lo até o restaurante, sentarem-se na mesa ao lado e passarem a refeição a comer com a boca aberta só para suscitar irritação. Não são as condições ideais para a realização da prova-rainha do desporto-rei. Principalmente numa altura em que a FIFA nos habituara a designar anfitriões com provas dadas de hospitalidade e decência democrática. Houve a África do Sul do sr. Zuma em 2010. Houve o Brasil da dona Dilma em 2014. Houve a Rússia do sr. Putin em 2018. E houve o Qatar dos senhores que mandam no Qatar em 2022. Descer destes regimes exemplares para a autocracia do sr. Trump é um risco escusado e um sinal de que, contra todas as expectativas, as altas instâncias do futebol afinal não são absolutamente impolutas. O que é uma surpresa e um desgosto.

Intervalo capilar

Apesar da natural apreensão sobre as condições políticas, o fundamental é concentrarmo-nos durante 39 dias no que conta: os penteados dos jogadores. Parece impossível, mas na pré-história do futebol os futebolistas possuíam um aspecto similar ao dos restantes mortais. Depois vieram as guedelhas dos anos 1970, as permanentes dos anos 1980 e o estilo mopa/esfregão celebrizado por Figo nos anos 1990. E hoje os jogadores voltaram a ter um aspecto similar ao dos restantes mortais: os mortais que habitam as favelas de Recife, os “barrios” de Ciudad Juarez e as escolas secundárias de Portugal em peso. Embora as tatuagens, a bijuteria e o vestuário sejam importantes, o penteado é determinante. O dito consiste em rapar o cabelo oito centímetros acima da orelha, de maneira a que não se insinue sequer o vestígio de uma patilha. À frente, procede-se a uma risca desenhada a betume ou, preferencialmente, uns caracóis pendurados na testa. Atrás, é aconselhável aparar os pelos da nuca em forma de triângulo, a fim de completar o visual de quem teve alta hospitalar após severa lobotomia. Lavrar traços alegóricos no meio dos folículos é facultativo, enquanto o bigodinho e um arremedo de barbicha na ponta do queixo são acrescento de categoria. Para os autênticos estetas, a cereja no topo do bolo é a tinta amarela no topo da cabeça, adereço que torna o Brasil a selecção com mais loiros em actividade e consagra a expressão “escrete canarinho”.

Segunda parte: inclusão

Óbvia é a ironia de um país com profundas lacunas democráticas acolher o Mundial mais democrático de sempre. Antigamente, a tradição mandava que após apuramento prévio apenas uma ou duas dúzias das melhores selecções se apurassem para a fase final. Felizmente a tradição faleceu. Agora há um apuramento prévio em que, como no ensino inclusivo, quase nenhuma equipa reprova. Por mim, estou ansioso por ver os 104 (cento e quatro) desafios, mas mentiria se não confessasse particular expectativa face aos jogos Alemanha vs. Curaçau, Áustria vs. Jordânia, Uzbequistão vs. Colômbia, Iraque vs. Noruega e Papua-Nova Guiné vs. Turquemenistão. E quero ver com atenção redobrada o desempenho das selecções de Tuvalu, do Panamá e da Eritreia, nações cujos torneios internos não tenho acompanhado regular e devidamente. Em contrapartida, lamento a desqualificação precoce e injusta da Ilha da Páscoa.

Prolongamento: táctica

Nos maus tempos, o futebol permitia a distinção de futebolistas com talento para aquilo. Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico, Beckenbauer ou Maradona jogavam muito bem, ou o que os leigos achavam que era jogar muito bem. Porém, como nos esclarecem 682 comentadores e especialistas na modalidade, o objectivo da modalidade não é entreter o pagode com jogadas “bonitas”. O objectivo é vencer as partidas através da aplicação de tácticas complexas e que o leigo tende a confundir com uma correria desenfreada e sem tino. Fintar o adversário é rigorosamente proibido. Jogar “bem”, idem. No futebol “moderno” e cientificamente entediante, graças a Deus, a única finalidade é fazer com que 11 sujeitos dotados de excelente preparação física e criatividade reduzida enfiem colectivamente a bola na baliza e, após esperarem 15 minutos de modo a que as “novas tecnologias” (o registo de imagens, divulgado pelos Lumière em 1895) confirmem o golo, com que o golo se festeje com pantomimas ensaiadas e o ar misteriosamente furioso do seu autor. Sem falha, sob pena de despedimento, o relatador de serviço vai proclamar com os gritos de um possesso: “É isto a magia do futebol!” Mas a essa hora o espectador, leigo e bruto, já adormeceu no sofá.

Penáltis: patriotismo

E a selecção portuguesa? Está bem lançada. O presidente Seguro visitou-a e esgotou os clichés disponíveis: “O país acredita em vós. Façam-nos sonhar e tragam para Portugal a taça que nos falta. Vamos todos torcer por vocês. Acredito que, com o vosso entusiasmo, força, fibra, talento e trabalho, isso é possível. (…) Num torneio desta dimensão, também se passa por muitas dificuldades e muitas exigências, mas é aí que se mostra a fibra e a alma de ser português. Nessa altura, estarão milhões de pessoas em todos os cantos do mundo a torcer por vós e a dar-vos o máximo apoio.” O primeiro-ministro manteve os clichés e reforçou o delírio: “Assumimos, sem rodeios, que somos candidatos a poder ganhar o Campeonato do Mundo. Temos muitos desportistas que são os melhores do mundo. Este é um alento à nossa capacidade enquanto país, de podermos pensar que, em todas as áreas de actividade, com espírito de equipa, superação e vitória, conseguimos fazer coisas que os outros ainda não fizeram.” Somos, portanto, espectaculares. Temos força, fibra, talento, trabalho, mais fibra, alma, espírito de equipa, superação e vitória. Com tudo isto é um enigma que entremos no Mundial com um pib per capita inferior ao de 54 países sem dúvida com menos fibra e alma e etc. E é garantido que sairemos do Mundial na mesma. Entre ambos os momentos, o bom povo debaterá as competências de “Rónaldo” e louvará os méritos da “transição ofensiva” e protestará as arbitragens e pendurará bandeirinhas e insultará os presunçosos que teimam em recordar que o futebol era só um divertimento e hoje aborrece um santo. Em suma, os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não é a falta de sonhos: é nunca acordar.

FUTEBOL      DESPORTO      PAÍS      SOCIEDADE      SONHOS      SONO      BELEZA E BEM ESTAR      LIFESTYLE      POBREZA

COMENTÁRIOS De 21)

SDC Cruz: Caro Alberto Gonçalves, excelente o seu comediar! Só faltou acrescentar na frase "Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico, Beckenbauer ou Maradona...", o Eusébio. Obrigado e até para a semana.

MIGUEL SANCHES: Eu comparo algumas crónicas do Alberto Gonçalves aos irmãos Marx, no que toca a fazer-nos rir à farta. Delicioso.

Jorge Espinha; Concordo com isso das 48 equipas e desconfio que não fique por aqui…E não sei se vou ver muitos jogos , a FIFA portou-se como de costume de maneira miserável. Não tão miserável como no Qatar com a dança encima da campas de 6000 cadáveres mas miserável mesmo assim. Não há limite no esmiframento de todo o cêntimo do bolso do adepto. Mas há bom remédio para si e para mim , não ver ! E Portugal não é assim tão excepcional , a Alemanha é louca por futebol e não é por isso que não é desenvolvida. Os nossos problemas são outros

Tim do A: É por isto que os portugueses são pobres. É que só pensam em futebol e são mais exigentes com as equipas de futebol do que com os governos e governantes. E os governantes sabem disso e estimulam isso. A comunicação social também. Faz um papel péssimo e tem responsabilidade. É um Portugal adormecido que só pensa no futebol enquanto os políticos roubam os portugueses à tripa forra. Veja-se agora o caso das obras megalómanas que todos vamos pagar: aeroporto, ferrovia, pontes. Tudo isso podia ser financiado pela UE com a bitola europeia, mas Montenegro e o ministro Pinto Luz, vão fazer com que sejam os portugueses a pagar com impostos tremendos o erro da bitola ibérica que a UE não paga. Tudo isso só para enriquecer a maçonaria,  os bancos, as construtoras do regime e eliminar a concorrência prejudicando os utilizadores desses serviços. Tudo a continuação do PS de Costa e do ex ministro Pedro Nuno Santos. Todos vendidos a quem lhes paga mais e a quem lhes dará os tachos no futuro. Acordai Portugal de uma vez por todas! Sair de casa dos pais tornou-se um luxo. No tempo de Salazar todos conseguiam fazer vida. O centrão corrupto tira o dinheiro aos portugueses e serve os políticos em vez de servir o pais. Foi para isso que eles fizeram o 25 de Abril que comemoram todos os anos com muita propaganda e desgraçados cravos vermelhos ao peito às  custas do povo. Os abrileiros comem tudo e não deixam nada. Ficam todos ricos com o poder. Servem-se em vez de servir.  Volta Salazar!

Novo Assinante: Exmo. senhor colunista Alberto Gonçalves, Dirijo-lhe este comentário sem prejuízo do respeito que me merece. Diz-me o Windows Office que V.Exa escreveu oitocentas e nove palavras, que resultaram num conjunto de vacuidades sem qualquer sentido. Como é possível, em pleno século 21, que um mero opinador de um jornal, o senhor Alberto Gonçalves neste caso, que nem jornalista é, consiga escrever meia dúzia de vacuidades e assim pagar as despesas ao fim do mês? Como é possível que os leitores do nosso jornal Observador e principalmente os contribuintes portugueses, que passam por enormes dificuldades económicas como todos sabemos na sequência destas guerras insanas e ilegais desencadeadas pelo novo Hitler e pe dó fi lo Donald Trump e que já nem dinheiro têm para pagar os bens alimentares de que precisam e se estejam a endividar e a recorrer ao Banco Alimentar Contra a Fome para não morrerem à fome, estejam a financiar o pagamento da avença mensal do senhor Alberto Gonçalves? Qual é o retorno desse investimento para todos nós? Ler estes conjuntos de vacuidades que o senhor Alberto Gonçalves por aqui deixa? Tenha muita paciência, senhor Alberto Gonçalves. Este seu "trabalho" tem um nome: parasitagem do dinheiro dos contribuintes. Ponto!

CARLOS F. MARQUES : Novo AssinanteCom tantas dores, só podes ser jornaleiro do OBS.

JOSÉ PAULO CASTROCARLOS F. MARQUES: Dos despedidos ?

CARLOS F. MARQUES: Muito Bom.

TRISTÃO: Lá vem a crítica ao futebol e ao Mundial por parte do intelectual de serviço. É um clássico que nunca falha.  Será que as pessoas não podem, de vez em quando, entreter-se com algo mais leve? Terão de viver permanentemente preocupadas com todos os dramas do mundo, sem espaço para o lazer, para o convívio ou para a simples diversão? O texto do Alberto tem, como habitualmente, algumas tiradas engraçadas. Mas, no essencial, cumpre o seu propósito: mais um texto anti-futebol, anti-Mundial e, já agora, anti-euforia colectiva. Parece que os portugueses só terão autorização para se divertir quando forem o país mais rico do mundo… Até lá, resta-lhes trabalhar, preocupar-se e sentir culpa por gostarem de futebol. Felizmente, a maioria das pessoas percebe que uma coisa não impede a outra. É perfeitamente possível interessarmo-nos pelos problemas do país e do mundo e ao mesmo tempo, desfrutar de um Mundial de futebol. É isso que vou tentar fazer…sem sentimento de culpa. 😅

ANA RITA: Caro Alberto, os portugueses não querem mesmo acordar, o terem eleito Seguro é mais uma prova disso. É deixá-los sonhar.

FERNANDO CE: Infelizmente , uma grande conclusão.

RUÇO CASCAIS

Muito bom.

Quais serão as frases feitas que vão sair do armário se voltarmos para casa precocemente?

Eu digo:

Jornalistas: o selecionador não soube aproveitar o enorme talento dos jogadores portugueses.

Povo: com Ronaldo a titular jogámos com menos um. Enquanto Ronaldo e Jorge Mendes mandarem na federação não ganhamos nada!

Presidente da República: não nos deram a oportunidade de mostrarmos ao mundo o enorme talento português. Vamos continuar a acreditar e a lutar pela excelência da alma portuguesa para que numa próxima oportunidade possamos finalmente nos revelarmos como os melhores do mundo. Não obstante, pelo grande feito de representarem com enorme orgulho o povo português, todos sem exceção, serão homenageados com a grande medalha da Ordem do Infante.

PEDRA NUSSAPATO: Este artigo de AG inaugura oficialmente a silly season 😒...

ANTONIO MARQUES MENDES: Cáustico e certeiro. Se vivesse na era dos Romanos, criticava os leões, os gladiadores, o povo, ou Caligula?

SDC CRUZ: Caro Alberto Gonçalves, excelente o seu comediar! Só faltou acrescentar na frase "Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico, Beckenbauer ou Maradona...", o Eusébio. Obrigado e até para a semana.

JOSÉ B DIAS: Subscrevo sem hesitar!

ALEXANDRE BARREIRA: Pois. Caro AG. Bela jogada. Mas só pelo facto de podermos ver. o CR7 a......"comer-o-relvado". Vai valer a pena......!

ANTÓNIO LAMAS: Que maravilha logo para abrir o fim de semana.  Obrigado Alberto. Só uma correção : Não são 682 comentadores são 683. Esqueceu-se do professor Marcelo

MIGUEL SANCHES:Eu comparo algumas crónicas do Alberto Gonçalves aos irmãos Marx, no que toca a fazer-nos rir à farta. Delicioso.

AMÉRICO SILVA: Chegou o tempo, as ovelhinhas estão festivamente preparadas para a tosquia, de onde regressarão com a satisfação própria de videntes e miraculados, disponíveis para contar aos incautos a sua maravilhosa experiência.

ALCIDES LONGRAS: 3  Será que o Alberto tem alguma coisa contra a "futebolite"? Como bom português, não pode!

Nenhum comentário: