Naturais, talvez. Mas há mais.
Os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não
é a falta de sonhos: é nunca acordar.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 13 jun. 2026, 00:24
Primeira
parte: política
Vejo muita gente preocupada com a circunstância de o Mundial
se realizar sobretudo nos EUA. Trata-se de um receio pertinente. É
sabido que na América actual as autoridades fascistas começam por deter e
deportar metade dos visitantes logo no aeroporto. Depois perseguem a outra
metade pelas ruas, na maioria das vezes a tiro. E se por acaso no processo
sobrar um turista incauto, os agentes do ICE são meninos para segui-lo até o
restaurante, sentarem-se na mesa ao lado e passarem a refeição a comer com a
boca aberta só para suscitar irritação. Não são as condições ideais para a realização da prova-rainha
do desporto-rei. Principalmente numa altura em que a FIFA nos habituara
a designar anfitriões com provas dadas de hospitalidade e decência democrática.
Houve a África do Sul do sr. Zuma em 2010. Houve o Brasil da dona Dilma
em 2014. Houve a Rússia do sr. Putin em 2018. E houve o Qatar dos senhores que
mandam no Qatar em 2022. Descer destes regimes exemplares para a
autocracia do sr. Trump é um risco escusado e um sinal de que, contra todas as
expectativas, as altas instâncias do futebol afinal não são absolutamente
impolutas. O que é uma surpresa e um desgosto.
Intervalo capilar
Apesar da natural apreensão
sobre as condições políticas, o fundamental é concentrarmo-nos durante 39
dias no que conta: os penteados dos jogadores. Parece impossível, mas
na pré-história do futebol os futebolistas possuíam um aspecto similar ao dos
restantes mortais. Depois vieram as guedelhas dos anos 1970, as permanentes dos
anos 1980 e o estilo mopa/esfregão celebrizado por Figo nos anos 1990. E
hoje os jogadores voltaram a ter um aspecto similar ao dos restantes mortais:
os mortais que habitam as favelas de Recife, os “barrios” de Ciudad
Juarez e as escolas secundárias de Portugal em peso. Embora as tatuagens, a bijuteria e o
vestuário sejam importantes, o penteado é determinante. O dito consiste
em rapar o cabelo oito centímetros acima da orelha, de maneira a que não
se insinue sequer o vestígio de uma patilha. À frente, procede-se
a uma risca desenhada a betume ou, preferencialmente, uns caracóis pendurados
na testa. Atrás, é aconselhável aparar os pelos da nuca em forma
de triângulo, a fim de completar o visual de quem teve alta hospitalar após
severa lobotomia. Lavrar traços alegóricos no meio dos folículos
é facultativo, enquanto o bigodinho e um arremedo de barbicha na ponta do
queixo são acrescento de categoria. Para os autênticos estetas, a
cereja no topo do bolo é a tinta amarela no topo da cabeça, adereço que torna o
Brasil a selecção com mais loiros em actividade e consagra a expressão “escrete canarinho”.
Segunda parte: inclusão
Óbvia é a ironia de um país
com profundas lacunas democráticas acolher o Mundial mais democrático de
sempre. Antigamente, a tradição mandava que após apuramento prévio apenas
uma ou duas dúzias das melhores selecções se apurassem para a fase final. Felizmente
a tradição faleceu. Agora há um apuramento prévio em que, como no
ensino inclusivo, quase nenhuma equipa reprova. Por mim, estou
ansioso por ver os 104 (cento e quatro) desafios, mas mentiria se não
confessasse particular expectativa face aos jogos Alemanha vs. Curaçau, Áustria vs. Jordânia, Uzbequistão vs.
Colômbia, Iraque vs. Noruega e Papua-Nova Guiné vs. Turquemenistão. E
quero ver com atenção redobrada o desempenho das selecções de Tuvalu, do Panamá
e da Eritreia, nações cujos torneios internos não tenho acompanhado regular e
devidamente. Em contrapartida, lamento a desqualificação precoce e injusta da
Ilha da Páscoa.
Prolongamento: táctica
Nos maus tempos, o futebol
permitia a distinção de futebolistas com talento para aquilo. Acima de
tudo, Pelé, Cruyff,
Zico, Beckenbauer ou Maradona jogavam muito bem, ou o que os
leigos achavam que era jogar muito bem. Porém, como nos esclarecem 682
comentadores e especialistas na modalidade, o objectivo da modalidade não
é entreter o pagode com jogadas “bonitas”. O objectivo é vencer as
partidas através da aplicação de tácticas complexas e que o leigo tende a
confundir com uma correria desenfreada e sem tino. Fintar o adversário é
rigorosamente proibido. Jogar “bem”, idem. No futebol “moderno” e
cientificamente entediante, graças a Deus, a única finalidade é fazer com que
11 sujeitos dotados de excelente preparação física e criatividade reduzida
enfiem colectivamente a bola na baliza e, após esperarem 15 minutos de modo a
que as “novas tecnologias” (o registo de imagens, divulgado pelos Lumière em
1895) confirmem o golo, com que o golo se festeje com pantomimas ensaiadas e o
ar misteriosamente furioso do seu autor. Sem falha, sob pena de
despedimento, o relatador de serviço vai proclamar com os gritos de um
possesso: “É isto a
magia do futebol!” Mas a essa hora o espectador, leigo e bruto, já
adormeceu no sofá.
Penáltis: patriotismo
E a selecção portuguesa? Está bem lançada. O presidente
Seguro visitou-a e esgotou os clichés disponíveis: “O país acredita em vós.
Façam-nos sonhar e tragam para Portugal a taça que nos falta. Vamos
todos torcer por vocês. Acredito que, com o vosso entusiasmo, força, fibra,
talento e trabalho, isso é possível. (…) Num torneio desta dimensão,
também se passa por muitas dificuldades e muitas exigências, mas é aí que se
mostra a fibra e a alma de ser português. Nessa altura, estarão milhões de
pessoas em todos os cantos do mundo a torcer por vós e a dar-vos o máximo apoio.”
O primeiro-ministro manteve os clichés e reforçou o delírio: “Assumimos, sem
rodeios, que somos candidatos a poder ganhar o Campeonato do Mundo. Temos
muitos desportistas que são os melhores do mundo. Este é um alento à nossa
capacidade enquanto país, de podermos pensar que, em todas as áreas de actividade, com
espírito de equipa, superação e vitória, conseguimos fazer coisas que os outros
ainda não fizeram.” Somos, portanto, espectaculares. Temos força, fibra,
talento, trabalho, mais fibra, alma, espírito de equipa, superação e vitória. Com
tudo isto é um enigma que entremos no Mundial com um pib per capita inferior
ao de 54 países sem dúvida com menos fibra e alma e etc. E é garantido que
sairemos do Mundial na mesma. Entre ambos os momentos, o bom povo debaterá as
competências de “Rónaldo” e louvará os méritos da “transição ofensiva” e
protestará as arbitragens e pendurará bandeirinhas e insultará os presunçosos
que teimam em recordar que o futebol era só um divertimento e hoje aborrece um
santo. Em suma, os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não é a
falta de sonhos: é nunca acordar.
FUTEBOL DESPORTO PAÍS SOCIEDADE SONHOS
SONO BELEZA E BEM ESTAR LIFESTYLE POBREZA
COMENTÁRIOS De 21)
SDC Cruz: Caro Alberto Gonçalves, excelente o seu comediar! Só faltou acrescentar na frase
"Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico, Beckenbauer ou Maradona...", o
Eusébio. Obrigado e até para a semana.
MIGUEL SANCHES: Eu comparo algumas crónicas do Alberto Gonçalves aos irmãos
Marx, no que toca a fazer-nos rir à farta. Delicioso.
Jorge Espinha; Concordo com isso das 48 equipas e
desconfio que não fique por aqui…E não sei se vou ver muitos jogos , a FIFA
portou-se como de costume de maneira miserável. Não tão miserável como no Qatar
com a dança encima da campas de 6000 cadáveres mas miserável mesmo assim. Não
há limite no esmiframento de todo o cêntimo do bolso do adepto. Mas há bom
remédio para si e para mim , não ver ! E Portugal não é assim tão excepcional ,
a Alemanha é louca por futebol e não é por isso que não é desenvolvida. Os
nossos problemas são outros
Tim do A: É por isto que os portugueses são
pobres. É que só pensam em futebol e são mais exigentes com as equipas de
futebol do que com os governos e governantes. E os governantes sabem disso e
estimulam isso. A comunicação social também. Faz um papel péssimo e tem
responsabilidade. É um Portugal adormecido que só pensa no futebol enquanto os
políticos roubam os portugueses à tripa forra. Veja-se agora o caso das obras megalómanas
que todos vamos pagar: aeroporto, ferrovia, pontes. Tudo isso podia ser
financiado pela UE com a bitola europeia, mas Montenegro e o ministro Pinto
Luz, vão fazer com que sejam os portugueses a pagar com impostos tremendos o
erro da bitola ibérica que a UE não paga. Tudo isso só para enriquecer a
maçonaria, os bancos, as construtoras do
regime e eliminar a concorrência prejudicando os utilizadores desses serviços.
Tudo a continuação do PS de Costa e do ex ministro Pedro Nuno Santos. Todos
vendidos a quem lhes paga mais e a quem lhes dará os tachos no futuro. Acordai Portugal de uma vez por
todas! Sair de casa dos pais tornou-se um luxo. No tempo de Salazar todos
conseguiam fazer vida. O centrão corrupto tira o dinheiro aos portugueses e
serve os políticos em vez de servir o pais. Foi para isso que eles fizeram o 25
de Abril que comemoram todos os anos com muita propaganda e desgraçados cravos
vermelhos ao peito às custas do povo. Os
abrileiros comem tudo e não deixam nada. Ficam todos ricos com o poder.
Servem-se em vez de servir. Volta Salazar!
Novo Assinante: Exmo. senhor colunista Alberto
Gonçalves, Dirijo-lhe este comentário sem prejuízo do respeito que me merece.
Diz-me o Windows Office que V.Exa escreveu oitocentas e nove palavras, que
resultaram num conjunto de vacuidades sem qualquer sentido. Como é possível, em
pleno século 21, que um mero opinador de um jornal, o senhor Alberto Gonçalves
neste caso, que nem jornalista é, consiga escrever meia dúzia de vacuidades e
assim pagar as despesas ao fim do mês? Como é possível que os leitores do nosso
jornal Observador e principalmente os contribuintes portugueses, que passam por
enormes dificuldades económicas como todos sabemos na sequência destas guerras
insanas e ilegais desencadeadas pelo novo Hitler e pe dó fi lo Donald Trump e
que já nem dinheiro têm para pagar os bens alimentares de que precisam e se
estejam a endividar e a recorrer ao Banco Alimentar Contra a Fome para não
morrerem à fome, estejam a financiar o pagamento da avença mensal do senhor
Alberto Gonçalves? Qual é o retorno desse investimento para todos nós? Ler
estes conjuntos de vacuidades que o senhor Alberto Gonçalves por aqui deixa? Tenha muita paciência, senhor Alberto
Gonçalves. Este seu "trabalho" tem um nome: parasitagem do dinheiro
dos contribuintes. Ponto!
CARLOS F. MARQUES : Novo AssinanteCom tantas dores, só
podes ser jornaleiro do OBS.
JOSÉ PAULO CASTROCARLOS F. MARQUES: Dos despedidos ?
CARLOS F. MARQUES: Muito Bom.
TRISTÃO: Lá vem a crítica ao futebol e ao Mundial por
parte do intelectual de serviço. É um clássico que nunca falha. Será que as pessoas não podem, de vez em
quando, entreter-se com algo mais leve? Terão de viver permanentemente
preocupadas com todos os dramas do mundo, sem espaço para o lazer, para o
convívio ou para a simples diversão? O texto do Alberto tem, como
habitualmente, algumas tiradas engraçadas. Mas, no essencial, cumpre o seu
propósito: mais um texto anti-futebol, anti-Mundial e, já agora, anti-euforia
colectiva. Parece que os portugueses só terão autorização para se divertir
quando forem o país mais rico do mundo… Até lá, resta-lhes trabalhar,
preocupar-se e sentir culpa por gostarem de futebol. Felizmente, a maioria das
pessoas percebe que uma coisa não impede a outra. É perfeitamente possível
interessarmo-nos pelos problemas do país e do mundo e ao mesmo tempo, desfrutar
de um Mundial de futebol. É isso que vou tentar fazer…sem sentimento de culpa. 😅
ANA RITA: Caro Alberto, os portugueses não querem mesmo acordar,
o terem eleito Seguro é mais uma prova disso. É deixá-los sonhar.
FERNANDO CE: Infelizmente , uma grande conclusão.
RUÇO CASCAIS
Muito bom.
Quais serão as frases feitas que vão sair do armário
se voltarmos para casa precocemente?
Eu digo:
Jornalistas: o selecionador não soube aproveitar o
enorme talento dos jogadores portugueses.
Povo: com Ronaldo a titular jogámos com menos um.
Enquanto Ronaldo e Jorge Mendes mandarem na federação não ganhamos nada!
Presidente da República: não nos deram a oportunidade
de mostrarmos ao mundo o enorme talento português. Vamos continuar a acreditar
e a lutar pela excelência da alma portuguesa para que numa próxima oportunidade
possamos finalmente nos revelarmos como os melhores do mundo. Não obstante,
pelo grande feito de representarem com enorme orgulho o povo português, todos
sem exceção, serão homenageados com a grande medalha da Ordem do Infante.
PEDRA NUSSAPATO: Este artigo de AG inaugura
oficialmente a silly season 😒...
ANTONIO MARQUES MENDES: Cáustico e certeiro. Se vivesse na
era dos Romanos, criticava os leões, os gladiadores, o povo, ou Caligula?
SDC CRUZ: Caro Alberto Gonçalves, excelente o
seu comediar! Só faltou acrescentar na frase "Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico,
Beckenbauer ou Maradona...", o Eusébio. Obrigado e até para a semana.
JOSÉ B DIAS: Subscrevo sem hesitar!
ALEXANDRE BARREIRA: Pois. Caro AG. Bela jogada. Mas só pelo facto de podermos ver.
o CR7
a......"comer-o-relvado". Vai valer a pena......!
ANTÓNIO LAMAS: Que maravilha logo para abrir o fim de
semana. Obrigado Alberto. Só
uma correção : Não são 682 comentadores são 683. Esqueceu-se do
professor Marcelo
MIGUEL SANCHES:Eu comparo algumas crónicas do
Alberto Gonçalves aos irmãos Marx, no que toca a fazer-nos rir à farta.
Delicioso.
AMÉRICO SILVA: Chegou o tempo, as ovelhinhas estão
festivamente preparadas para a tosquia, de onde regressarão com a satisfação
própria de videntes e miraculados, disponíveis para contar aos incautos a sua
maravilhosa experiência.
ALCIDES LONGRAS: 3 Será que o Alberto tem alguma coisa contra a
"futebolite"? Como bom português, não pode!
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