Os sapatinhos são de lã…
A
Ordem do mundo
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 26/6/26
Procura-se, uma vez mais, disciplinar os fervores
ideológicos, tentar perceber o outro e ver aquilo a que é necessário renunciar
para ganhar o que se quer. E, sobretudo, para ganhar a paz
A ordem do Mundo é
determinada pelas ideias sobre essa ordem dominantes nas grandes potências. O primeiro mundo político
de que há notícia histórica, além da narrativa bíblica, foi o das cidades
gregas do Peloponeso e respectivas guerras, sobretudo entre Atenas e Esparta.
Roma é uma República
aristocrática, que
a expansão imperial obriga a evoluir para uma mono-arquia autocrática e
centralizada. O Império é um espaço de paz, e por isso os povos acabam por o
tolerar.
Na Europa pós-Império
Romano, dominam os reinos bárbaros, mas persiste uma nostalgia do poder imperial que foi
assumindo formas renovadas – como o Império Carolíngio e o Sacro-Império Romano Germânico.
Mas nesta mesma Europa há um poder espiritual muito
forte, que quer ser também poder político – o papa de Roma, chefe
dos cristãos, senhor dos dois gládios, espiritual e temporal. Daí as lutas entre o Papado e
o Império, que acabam por se enfraquecer mutuamente e por dar lugar à ascensão
e consolidação, como forma dominante de comunidade, ao Estado
soberano, corporizado pelos reinos que vão surgindo na Europa.
A
mudança tecnológica
São os tempos
pós-medievais, o nascimento da Idade Moderna: e há também uma inovação essencial para a
mudança, uma nova tecnologia militar, a artilharia, decisiva para os acontecimentos que
marcaram essse novo tempo, como a queda de Constantinopla em 1453 e o fim
da Guerra dos Cem Anos, nesse mesmo ano. As inexpugnáveis muralhas de Constantinopla caíram,
graças ao canhão montado por um cristão renegado e a Guerra dos Cem Anos acabou
quando os canhões dos irmãos Bureau, em Castillon, chacinaram os cavaleiros
ingleses.
A Reforma luterana trouxe um elemento ideológico e dividiu a Europa, em Estados
católicos
– como a Espanha dos Áustrias e o Portugal da dinastia de Aviz, onde a Inquisição ao serviço do poder real impediu a
dissidência. E há Estados protestantes, os nórdicos, como a Dinamarca
e Noruega, unidas sob o governo de Cristiano III. Quer ele, quer Gustavo I da
Suécia, aproveitam a mudança de religião para confiscar os bens da
Igreja. Finalmente há Estados divididos que vão ter
guerras civis religiosas – como a França, onde metade da nobreza se converte ao
calvinismo.
Este clima leva à Guerra dos Trinta Anos, que é ao mesmo tempo uma guerra
entre potências, por interesses de Estado, e uma guerra ideológica, religiosa.
E desta guerra resultam os tratados de Vestfália, em 1648, que trazem a
secularização da política e da guerra e criam o Jus
Publicum Europaeum.
E o panorama dos poderes europeus no século XVIII é a Pentarquia, formada pela França, Grã-Bretanha, Áustria,
Prússia e Rússia. Os Estados passam a agir por razões de Estado, estritamente de Estado, interesses
territoriais e económicos desse Estado. E assim decorre o século XVIII, em que também estas grandes
potências do tempo intensificam a sua expansão imperial e colonial, para a Ásia
e as Américas.
Duas
revoluções
E é nas Américas, mais precisamente na América do
Norte que, em 1776, há 250 anos, uma população colonial branca rompe, em nome
dos seus direitos políticos e fiscais, com a tutela do rei Jorge III de
Inglaterra e abre caminho, pela guerra, para a independência.
Os líderes deste movimento, os pais fundadores, leram
os Antigos gregos e romanos, mas também outros Antigos da Escola de Salamanca
que, como Juan de Mariana, proclamavam a soberania da comunidade e a legitimidade da
revolta contra o tirano.
Esta revolução americana
foi decisivamente apoiada pela França absolutista de Luís XVI, cuja Marinha foi
essencial para a vitória final dos patriotas americanos, nas operações militares, quer
em batalhas navais, como a batalha de Chesapeake, quer no bloqueio ao exército do general
Cornwallis.
Ironia suprema da sorte, neste esforço de guerra a
favor dos republicanos americanos, a monarquia francesa endividou-se e
arruinou-se ao ponto de Luís XVI, para evitar a bancarrota, ter de convocar os
Estados Gerais. Estes acabariam por levar à revolução e à queda da Monarquia, ao Terror e ao Império napoleónico
como solução, repetindo, em poucos anos, o longo ciclo político romano.
O século XIX vai ver na Europa um compromisso entre as
novas
ideias sobre a soberania popular e comunitária e a ascensão da
burguesia,
face à tradição monárquica e aristocrática: a síntese deste equilíbrio
negociado vai ser a monarquia constitucional que, mantendo o estatuto e os privilégios
das oligarquias tradicionais, lhes vai retirar o poder de decisão
política.
Esta dessacralização do poder e a radicalização
trazida por novas ideias, como as do Manifesto Comunista de 1848, que ressuscitou os conceitos de “guerra social” sob a
forma de “luta de classes”, vão explodir no século XX, graças à Grande Guerra na Europa de
1914-1918 e à revolução bolchevique de Outubro de 1917 na Rússia.
As
novas ordens do século XX
E a Europa e o mundo vão voltar, entre 1918 e 1991, às
guerras ideológicas – comunismo, fascismo, liberalismo, com liberais e
comunistas unidos, entre
1939 e 1945, contra o nacional-socialismo alemão, o
fascismo italiano e o nacional-imperialismo japonês. De 1948 a 1991, deu-se a Guerra Fria, sob o signo da mudança
tecnológica nuclear que tornou a guerra improvável e foi uma aliança
anticomunista – formada
por Estados de diferentes regimes políticos contra a União Soviética – que
a venceu.
E depois das cruzadas dos NeoCons americanos para
impor a democracia liberal no mundo, que falharam como tinha falhado a
tentativa soviética de impor o comunismo, estamos outra vez num
tempo de transição geopolítica, em que se esboça, num realismo algo brutal pela
ausência de camuflagem, uma “ordem das grandes potências”. Será mesmo assim?
De qualquer modo, os dois pólos da grande política e das
relações políticas entre os Estados continuam a ser a ideologia e
a razão de Estado, as determinantes da guerra e da paz.
Regras
para o presente
Neste momento procura-se, uma vez mais, disciplinar os
fervores ideológicos à mais objectiva razão das razões de Estado, numa
negociação na Suíça em que, de parte a parte, tem de haver
concessões, análise racional dos interesses em causa, a tentativa de perceber o
outro e de, também a partir dele, julgar aquilo a que é necessário renunciar
para ganhar o que se quer; e ganhar, sobretudo, a paz.
Isto significa, para uns, renunciar ao roll-back e ao regime change, e criar
formas de contenção permanentes e eficazes; para outros, trocar a segurança que vem do
medo e da manipulação de instrumentos de agitação e subversão pela aceitação da
normalidade na interdependência da região.
Os interlocutores
americanos e iranianos e os moderadores paquistaneses têm pela frente uma
tarefa difícil, para acomodar medos, percepções, interesses, realidades e
propósitos. E
têm de descobrir, contando com os possíveis perturbadores, o equilíbrio final.
Não vai ser fácil, mas a alternativa é a guerra – que acabaria por se estender e por desordenar o mundo outra vez e, quem
sabe, de vez.
MUNDO HISTÓRIA
CULTURA
COMENTÁRIOS
(De 20):
Manuel Ferreira; Boa lição de história. Penso que JNP
não abordou o principal problema que temos em mãos: o império Americano saído
da 2ª guerra está em perda, enquanto o
império Chinês está em ascensão e a luta
é em todos os continentes.(Irão faz parte do mesmo conflito).Dou o exemplo de África onde o
neocolonialismo Chinês se impôs de Argélia à África da Sul, mas o diabo era o
colonialismo branco europeu.
Rui Lima: Da ordem dos países e dos impérios, mas a
desordem das pessoas dentro dos países afecta mais o nosso dia a dia, já que
num país na Europa 76% receiam ir de férias porque podem ter a casa assaltada
no regresso. Louis, 17 anos, linchado em Narbonne por cinco
que filmam a sua morte , os nomes deles não sabemos não podemos saber A esquerda, ao
recusar-se a punir de forma rápida e eficaz os actos de delinquência e
violência, porque são todos bons rapazes e a culpa é da sociedade tem o voto
dessa gente .
Miguel
Macedo: Muito bem! Como sempre!
António
Pais: Uma
síntese magistral!
Im Reader: Escrever bem é difícil, mas escrever
sucintamente e de forma apelativa é ainda mais. Os meus parabéns para Jaime
Nogueira Pinto. É um colosso nas lições de história e análise geopolítica em
bom português. De resto, penso o quão difícil é às democracias ocidentais,
investirem na Defesa e desenvolvimento tecnológico para fins militares, com uma
população habituada ao Estado-social e estilo de vida materialista a que se
habituaram, numa lógica insaciável. E sempre com a ambição de conquistar um
nível de vida mais prazeroso que a geração transacta.
João
Basílio: Muito interessante este resumo histórico. Obrigado
Francisco Almeida: Três quartas partes do
artigo são mais uma notável lição sintética da História. Já o final, uma
suposição, é mais discutível. Os EUA não terão - como diz a
"estupidenzia" de esquerda - cedido às decisões de Netanyahu. Desde a
diminuição da influência chinesa, à … (leitura intransponível)
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