Que os burros é que são teimosos mas não é este o caso. A
teimosia do orgulho também é uma constante no mundo do destaque, favorecido pelos
que contribuem para ele, destaque. Todos contribuímos, fracos que somos.
Situação na Rússia piora a cada dia de guerra. Para
Putin, escalada da violência na Ucrânia é a solução
Problemas na frente
militar, uma economia em crise e elites agitadas. Putin está firme no poder,
mas a situação no país degrada-se. Ataque violento de terça-feira pode ser só o
mais recente de vários.
CÁTIA BRUNO: Texto
OBSERVADOR,
02 JUN. 2026, 22:15
ÍNDICE
Mais de 300 mil soldados russos já morreram, um número
sete vezes maior do que as baixas norte-americanas no Vietname
Dívida elevada e ataques ucranianos a refinarias levam
Ministério das Finanças a propor cortes na Defesa
Elites descontentes levam Putin a proteger-se, mas reacção
do Presidente deverá ser de escalada
“Fui para o corredor com
o telefone e, antes de conseguir perceber o que estava a acontecer, caiu tudo
sobre a minha cabeça, o vidro… A porta rebentou.” O sangue seco ainda
era visível no rosto de Olena Dniprovska quando a residente de Kiev fez o
relato ao The Guardian na madrugada de terça-feira, com a capital ucraniana a
ser atingida por violentos bombardeamentos russos. “Agora não tenho
onde viver, o apartamento está completamente destruído. Não tem portas, nem
janelas, nem varanda. Sai-se directamente do quarto para a rua.”
Olena sobreviveu, ao
contrário de outras 22 pessoas que morreram na sequência dos disparos de mais
de 70 mísseis e 650 drones. Mais de 100 pessoas ficaram feridas,
muitas outras, como Olena, desalojadas. Moscovo havia dito que “a paciência
se esgotou” e prometeu ataques fortes, que agora se cumpriram.
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▲ Os
ataques desta terça-feira a
território ucraniano mataram mais de 20
pessoas e deixaram mais de 100 feridas
AFP via Getty Images
Na Rússia, o regime está acossado pela estagnação
militar na frente de batalha, uma economia em apuros e repetidos ataques
ucranianos com drones. As elites do Kremlin inquietam-se e o próprio Vladimir Putin já não
exclui a possibilidade de ser alvo de um atentado externo ou de um golpe de
Estado interno.
Mas os especialistas alertam que um colapso do regime ainda é pouco
provável; em vez disso, à medida que o cerco aperta, o mais
certo é Putin redobrar ainda mais a pressão e a escalada de violência sobre a Ucrânia.
Mais de 300 mil soldados russos já morreram, um número
sete vezes maior do que as baixas norte-americanas no Vietname
Cinco quilómetros por dia. Tem sido este
o avanço das tropas russas na frente de batalha em território ucraniano. Pode
pensar-se que isso significa que a Rússia está a ganhar, mas uma leitura mais
fina não suporta a afirmação: afinal, o número é pouco quando comparado com os 11
quilómetros diários que Moscovo conquistava no primeiro trimestre de 2025.
Além disso, suportada por
uma revolução tecnológica no campo dos drones militares, a Ucrânia tem conseguido várias
conquistas. “A Ucrânia reconquistou cerca de 400 quilómetros quadrados perto de
Dnipropetrovsk — mais território do que em qualquer outra altura desde o final
de 2022 — durante o último trimestre”, revelava um relatório
apresentado ao Congresso norte-americano a 18 de maio, de acordo com a Al
Jazeera.
“Nenhuma grande potência sofreu este número de baixas
e mortes em qualquer guerra desde o fim da II Guerra Mundial.”
Relatório do "think
tank" Center for Strategic and International Studies (CSIS)
ÍNDICE
Os números agitam as fileiras mais radicais da
sociedade russa. Já em março, o blogger militar Yuri Podolyaka havia
confessado no seu canal de Telegram que as forças ucranianas estavam a “ultrapassar” os russos
e que temia que a Rússia não conseguisse inverter a tendência ao longo dos
meses seguintes.
A isso soma-se o custo elevado em número de vidas.
Em média, 35 mil militares russos morrem por mês no campo de batalha. Várias
organizações e media russos estimam que já tenham morrido 325 mil soldados
desde o início da invasão, em fevereiro de 2022. A escala é
impressionante: “Nenhuma grande potência sofreu este número de baixas e
mortes em qualquer guerra desde o fim da II Guerra Mundial”, decretava
já em janeiro um relatório do think tank Center for Strategic and International
Studies (CSIS). Em termos de comparação, os autores do documento notam que os Estados Unidos perderam cerca de 47
mil soldados ao longo dos 20 anos que durou a guerra do Vietname — sete vezes menos do que os russos
desde a invasão de larga escala na Ucrânia.
E as estimativas de alguns são ainda mais elevadas:
a 27 de maio, a directora de comunicação dos serviços de informações
britânicos, Anne Keast-Butler, colocou o número de mortes em meio milhão; no mês
anterior, os serviços de informações militares dos Países Baixos tinham
avançado com
o mesmo número. “A Rússia não tem capacidade para recrutar soldados
suficientes para compensar estes 35 mil [mortos por mês]. 95% das mortes são
por drones. O rácio de morte neste momento, e lamento ser tão mórbido, é de um
para cinco: um soldado ucraniano por cada cinco soldados russos”,
acrescentou o Presidente finlandês, Alexander Stubb, em abril.
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▲ Em média, 35 mil soldados russos morrem
por mês
na linha da frente
AFP via Getty Images
O esforço militar começa também a ter impacto na
economia russa. A dívida externa soberana do país está em cerca de 62 mil
milhões de dólares (quase 54 mil milhões de euros), o valor mais elevado dos
últimos 20 anos. A taxa de inflação está em mais de 5,5%. Alguns serviços
secretos, como o alemão e o sueco, estimam que os dados indicados pelo Banco da
Rússia possam estar aquém da realidade
Apesar de a Rússia estar
a ter efeitos benéficos com a crise energética provocada pela guerra no Irão,
os ganhos com a venda do petróleo não são suficientes para inverter a tendência
da economia russa. Igor Gretskiy, investigador do Centro Internacional para a Defesa
e Segurança, um think tank da Estónia, considera que “nem um ano de guerra
no Irão” seria suficiente para “dar à Rússia qualquer solução sustentável para
os seus problemas fiscais”.
A situação é agravada pelos
vários ataques com drones que a Ucrânia tem conduzido em território russo, que
têm como principais alvos refinarias petrolíferas — só em março, terão sido
pelo menos dez.
Os efeitos já se
fazem sentir, com o Kremlin a decretar a proibição de exportar jet fuel até ao
final de novembro, para evitar escassez a nível nacional. No sábado
passado, o governador da Crimeia anunciou que a gasolina passará a ser paga
com cupões racionados, uma medida que classificou de “temporária”. A campanha de drones ucraniana
tem sido, por isso, bem sucedida: “Se eles conseguirem manter esta onda de
ataques, pode ser algo que vira o jogo”, previa ao New York Times Sergey
Vakulenko, do Carnegie Center, em abril deste ano.
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▲ O ministro das Finanças russo, Anton Siluanov (à direita
de Putin), avisou que o país não tem "reservas infinitas"
Getty Images
Índice
Tendo em conta esta situação económica, a agitação nos
corredores do Kremlin tem sido muita. De acordo com uma notícia da
Bloomberg desta segunda-feira, funcionários do Ministério das Finanças e do
Banco Central terão avisado o Presidente de que os actuais gastos com a Defesa
podem levar a um aumento “perigoso” do défice. Alguns sectores do Governo terão
resistido à ideia de cortes no orçamento militar, levando Putin a pedir às
Finanças que corte noutras áreas.
O braço de ferro entre as duas
facções acentua-se: na semana passada, o próprio ministro das Finanças, Anton
Siluanov, deixou um aviso numa entrevista ao jornal Kommersant. “As
nossas reservas não são infinitas”, decretou.
Elites descontentes levam Putin a proteger-se, mas reacção
do Presidente deverá ser de escalada.
No meio da instabilidade financeira, a revista russa
Expert divulgou esta segunda-feira que alguns dos maiores empresários russos
terão doado cerca de três mil milhões de dólares (cerca de 2.500 mil milhões de
euros) aos cofres do Estado. Uma prenda que pode não ser apenas
motivada por razões altruístas — afinal, ainda no mês passado foram
congelados os bens do oligarca Vadim Moshkovich, detido em 2025. “A
elite dos negócios está a jogar à roleta russa”, disse ao The Guardian Oleg
Tinkov, um empresário que fugiu do país. “Esperam que o vizinho do lado seja
atingido enquanto eles são poupados.”
Publicamente, surgem cada vez
mais vozes críticas do Presidente, o que indicia que fações dentro do Kremlin
podem estar a dar o beneplácito à publicação dessas opiniões. A jornalista
Catherine Belton, autora de Os Homens de Putin (ed. Ideias de Ler), notou que
recentemente foi publicado um artigo no jornal científico Russia in Global
Affairs onde se afirmava que a Ucrânia está em pé de igualdade com a Rússia no
terreno. O site independente Meduza noticiou que o deputado Andrei Gurulev, que
em tempos apelou a que “fosse erradicada a podridão” dos que não apoiam Putin,
publicou no seu canal de Telegram que os avanços russos na linha da frente “se
medem em metros e linhas de árvores” — mais tarde, disse que o seu canal tinha
sido “roubado” e que foram publicadas mensagens escritas “por inimigos”. Para
os empresários e para muitos cidadãos, as restrições à internet têm sido uma
grande fonte de descontentamento.
Vladimir Putin resguarda-se cada vez mais. Por um
lado, da possibilidade de vir a ser alvo de um atentado ucraniano
— no final de 2025, terá mesmo tido uma reunião com vários responsáveis para
afinar a estratégia nesta matéria. De acordo com um relatório de um serviço de
informações europeu a que a CNN teve acesso, a segurança do Presidente
foi reforçada: os seus cozinheiros e guarda-costas estão
proibidos de andar de transportes públicos e não podem utilizar telemóveis com
acesso à internet, por exemplo. Mas as medidas não são apenas para evitar ataques
ucranianos: o relatório diz que Putin “tem particular receio de que sejam utilizados
drones numa possível tentativa de assassinato feita por membros da elite russa”.
“Ninguém acredita que de
repente tudo vai colapsar amanhã. Mas há uma noção crescente de que estão a ser
tomadas decisões completamente sem sentido e auto-destrutivas. As pessoas que
em tempos defenderam Putin já não o fazem. Qualquer ideia de futuro desapareceu.” Empresário russo próximo do Kremlin ao The Guardian
ÍNDICE
O cenário, porém, é
improvável. Como nota a economista russa Alexandra Prokopenko, “para isso teriam de
formar um bloco monolítico” e, neste momento, a oposição interna
está “em grupos fragmentados e desligados uns dos outros”. “”Portanto, o caminho mais sensato a
seguir hoje é o silêncio.” “Ninguém acredita que de repente tudo
vai colapsar amanhã”, resumiu um empresário ao The Guardian. “Mas há uma noção crescente de
que estão a ser tomadas decisões completamente sem sentido e auto-destrutivas.
As pessoas
que em tempos defenderam Putin já não o fazem. Qualquer ideia de futuro
desapareceu.”
Perante o declínio interno, o mais provável é que
Vladimir Putin reaja como sempre fez: apertando mais a malha e aumentando a
repressão interna. E a mesma estratégia deverá estender-se à situação na
Ucrânia, onde o Presidente continua a acreditar que é possível conquistar todo
o Donbass até ao fim do ano. “Em grande medida, a escalada
é a única forma de responder a uma situação que não se consegue controlar“,
resumiu a analista Tatiana Stanovaya.
Isso significa que cenas
como a que teve lugar na madrugada desta terça-feira em território ucraniano,
com prédios a colapsar, carros em chamas e duas dezenas de mortes, pode bem vir
a repetir-se num futuro próximo. Um possível sinal de desespero por parte de Putin, que não tem visto a administração
Trump tão envolvida nas negociações como desejava. Mas um sinal
que não significa que a guerra já esteja ganha para a Ucrânia. O analista
Dan Storyev invocou numa coluna de opinião o provérbio russo que diz “não
dividas a pele de um urso que ainda não foi morto” para alertar as “cassandras” que decretam
o fim do regime. A Rússia de Putin está ferida, sim; mas isso pode torná-la ainda mais
perigosa.
RÚSSIA MUNDO
GUERRA NA UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA
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