Bem sofisticada
e feroz, afinal. Sempre. Mesmo a pessoal, sobre a tragédia de “ser”.
Plano
Nocional de Leitura (XLVII)
A tese principal da arte
poética de ÁLVARO
DE CAMPOS é a de que nenhuma pessoa sensata deve considerar investir
em acções ou obrigações poéticas.
MIGUEL
TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa
em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa
OBSERVADOR, 06 jun. 2026, 00:20
FERNANDO PESSOA (1888-1935) deixou para o nome de
Álvaro de Campos alguns dos seus poemas mais estridentes (“ODE TRIUNFAL”),
mais auto-indulgentes (“ANIVERSÁRIO”) e mais compridos (“TABACARIA”). São também os poemas que o tornaram mais
famoso, e que deram a Campos a reputação de ser o acesso mais fácil ao
“universo pessoano.” Os admiradores de Pessoa começam sempre a
escrever como Campos, pelo menos enquanto imaginam que qualquer criança de
cinco anos consegue desenhar como Picasso; mas na realidade estão só a
escrever sobre si próprios.
Campos não é apenas uma
causa frequente de erros alheios. É
também o autor nominal de muitos poemas difíceis de Fernando Pessoa; e de
alguns dos melhores. Vários foram publicados em vida (o grande “Soneto
Já Antigo”, talvez de 1913, publicado em 1922), mas nem todos; e certos
são divertimentos ou brincadeiras (“V. Ex. ª está proibida de: (1) pesar
menos gramas”). Entre estes conta-se
um poema de 1927, “Comunicado pelo Engenheiro Naval / Sr. Álvaro de Campos
em estado / de inconsciência / alcoólica.”
Embora o seu título não o
augure (“Ai,
Margarida!”), esse poema é a arte poética mais erudita de Fernando
Pessoa. O título é o nome
português da heroína do Fausto de Goethe, que o tinha absorvido em
dezenas de poemas. Como para Fausto, a poesia foi sempre
para Pessoa um negócio com o futuro, e o talento tinha de ser muitas vezes
sacrificado à fama. A
Margarida de Pessoa, ao contrário da de Goethe, não é contudo salva, condenada,
ou fica maluca. Dialoga com o poeta,
que insistentemente lhe oferece “a minha vida,” e lhe pergunta o que faria com
ela.
Teme-se a aflição de quem
recebe de presente um peru vivo. Margarida é porém uma investidora
sensata (“Tirava os brincos do prego, / Casava c’um homem cego / E ia morar
para a Estrela.”) e propõe-se arrumar as nossas ideias sobre poesia. É da opinião de que os poetas não têm
de morrer de amor (“— Eu iria ao teu enterro, / Mas achava que era
um erro / Querer amar sem viver”), e sabe que “há muito parvo no mundo”,
decerto o jovem Fausto. Sobretudo percebe logo que a pergunta
implícita em “Se eu te desse a minha vida,” vinda de um poeta, não é uma
proposição séria.
As quatro sextilhas do poema
parecem um dueto de opereta; mas são realmente uma elaborada disputa
neo-medieval sobre o amor e a arte. A apoteose ocorre na última estrofe: “Mas,
Margarida, / Se este dar-te a minha vida / Não fosse senão poesia?” Margarida, insensível aos mercados de
futuros, não hesita: “— Então, filho, nada feito. / Fica tudo sem efeito. /
Nesta casa não se fia.” A tese principal da arte poética de
Álvaro de Campos é a de que nenhuma pessoa sensata deve considerar investir em
acções ou obrigações poéticas.
Erro Extremo Observador
Arquivo Pessoa
Obra Aberta OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
Álvaro de Campos
Ai, Margarida,
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr.
Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
COMENTÁRIOS:
Rosário Santos: Excepto os dias do nascimento e da
morte, todos os outros foram dele, Pessoa poeta.
Américo Silva: Muito bem.
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