segunda-feira, 8 de junho de 2026

Ironia

 

Bem sofisticada e feroz, afinal. Sempre. Mesmo a pessoal, sobre a tragédia de “ser”.

Plano Nocional de Leitura (XLVII)

A tese principal da arte poética de ÁLVARO DE CAMPOS é a de que nenhuma pessoa sensata deve considerar investir em acções ou obrigações poéticas.

MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

OBSERVADOR, 06 jun. 2026, 00:20

FERNANDO PESSOA (1888-1935) deixou para o nome de Álvaro de Campos alguns dos seus poemas mais estridentes (“ODE TRIUNFAL”), mais auto-indulgentes (“ANIVERSÁRIO”) e mais compridos (“TABACARIA”).  São também os poemas que o tornaram mais famoso, e que deram a Campos a reputação de ser o acesso mais fácil ao “universo pessoano.” Os admiradores de Pessoa começam sempre a escrever como Campos, pelo menos enquanto imaginam que qualquer criança de cinco anos consegue desenhar como Picasso; mas na realidade estão só a escrever sobre si próprios.

Campos não é apenas uma causa frequente de erros alheios.   É também o autor nominal de muitos poemas difíceis de Fernando Pessoa; e de alguns dos melhores. Vários foram publicados em vida (o grande “Soneto Já Antigo”, talvez de 1913, publicado em 1922), mas nem todos; e certos são divertimentos ou brincadeiras (“V. Ex. ª está proibida de: (1) pesar menos gramas”).  Entre estes conta-se um poema de 1927, “Comunicado pelo Engenheiro Naval / Sr. Álvaro de Campos em estado / de inconsciência / alcoólica.”

Embora o seu título não o augure (“Ai, Margarida!”), esse poema é a arte poética mais erudita de Fernando Pessoa.  O título é o nome português da heroína do Fausto de Goethe, que o tinha absorvido em dezenas de poemas.   Como para Fausto, a poesia foi sempre para Pessoa um negócio com o futuro, e o talento tinha de ser muitas vezes sacrificado à fama.     A Margarida de Pessoa, ao contrário da de Goethe, não é contudo salva, condenada, ou fica maluca.   Dialoga com o poeta, que insistentemente lhe oferece “a minha vida,” e lhe pergunta o que faria com ela.

Teme-se a aflição de quem recebe de presente um peru vivo. Margarida é porém uma investidora sensata (“Tirava os brincos do prego, / Casava c’um homem cego / E ia morar para a Estrela.”) e propõe-se arrumar as nossas ideias sobre poesia.   É da opinião de que os poetas não têm de morrer de amor (“— Eu iria ao teu enterro, / Mas achava que era um erro / Querer amar sem viver”), e sabe que “há muito parvo no mundo”, decerto o jovem Fausto. Sobretudo percebe logo que a pergunta implícita em “Se eu te desse a minha vida,” vinda de um poeta, não é uma proposição séria.

As quatro sextilhas do poema parecem um dueto de opereta; mas são realmente uma elaborada disputa neo-medieval sobre o amor e a arte. A apoteose ocorre na última estrofe: “Mas, Margarida, / Se este dar-te a minha vida / Não fosse senão poesia?”   Margarida, insensível aos mercados de futuros, não hesita: “— Então, filho, nada feito. / Fica tudo sem efeito. / Nesta casa não se fia.”   A tese principal da arte poética de Álvaro de Campos é a de que nenhuma pessoa sensata deve considerar investir em acções ou obrigações poéticas.

Erro Extremo        Observador

Arquivo Pessoa

Obra Aberta OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO

Álvaro de Campos

Ai, Margarida,

Ai, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que farias tu com ela?

— Tirava os brincos do prego,

Casava c'um homem cego

E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que diria tua mãe?

— (Ela conhece-me a fundo.)

Que há muito parvo no mundo,

E que eras parvo também.

E, Margarida,

Se eu te desse a minha vida

No sentido de morrer?

— Eu iria ao teu enterro,

Mas achava que era um erro

Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,

Se este dar-te a minha vida

Não fosse senão poesia?

— Então, filho, nada feito.

Fica tudo sem efeito.

Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval

       Sr. Álvaro de Campos em estado

                de inconsciência

                         alcoólica.

COMENTÁRIOS:

Rosário Santos: Excepto os dias do nascimento e da morte, todos os outros foram dele, Pessoa poeta.

Américo Silva: Muito bem.

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