Sobre um desporto que tanto significa no mundo, talvez
pelo prazer de pontapear... Não acredito que o futebol tenha morrido,
RONALDO E A MORTE DO FUTEBOL
[Este texto foi escrito na quarta-feira passada, antes
do Portugal-Uzbequistão e do Portugal-Colômbia, mas os valores que defende não
dependem desses resultados.]
28 jun. 2026, 00:21
TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO, Pastor
Baptista, colunista do Observador
Dos que gostam de futebol,
desprezo principalmente os que o defendem na sua essência. Quando os ouço a
queixarem-se do aburguesamento do desporto, de como o VAR matou a respiração
natural da competição, da podridão da FIFA, entre outras denúncias supostamente
proféticas, lembro-me por que me mantenho cauteloso com idealistas: para
eles Génesis 3 (a parte da Bíblia que conta do fruto proibido a ser
trincado) acabou de acontecer. E compreendam que eu, com quase 49 anos,
tenha pouco paciência para quem acaba de descobrir que vive num mundo caído.
Não me tenham por cínico: não
quero celebrar as degenerescências que são reais em qualquer aspecto da nossa
existência. Não sou indiferente ao que piora e estou convicto de que há
coisas que pioram mesmo no futebol (o aburguesamento do desporto, o VAR a matar
a respiração natural da competição, a podridão da FIFA, etc.). Mas
entre o mal daquilo que na vida piora, e o mal da pessoa que tenta a todo o
custo evitar que algo piore, tendo a escolher o primeiro. E reconheço que não
sou da religião do futebol: tive-o no coração durante a infância mas descobri
amores muito maiores na adolescência. O rock’n’roll é a minha bola.
Ainda assim, pratico a bola do
mesmo modo que Portugal é católico: se o Papa vem cá, somos todos dele. E o
Papa vir cá é para mim na bola o mundial ou o europeu. Da mesma maneira
que o Papa vir cá deixa os católicos praticantes desconfiados da festa de
tantos que raramente vão à igreja, o mundial ou o europeu suscita reservas e
até indiferença para quem é de facto ferrenho da bola. Os meus amigos
ferrenhos da bola desprezam portanto a selecção, sem a necessidade de disfarçar
muito. Compreendo. Sei que isso faz de mim o tal católico sazonal por
época da vinda do Papa. Aceito.
Este fenómeno é
especialmente visível na questão Cristiano Ronaldo. Os reais crentes da
bola abominam hoje o Cristiano Ronaldo. Já os não-praticantes como eu,
indiferentes às exigências do futebol essencial, têm-no como santo da sua
devoção ocasional. Gostar de Ronaldo é a vela que se acende em Fátima
por quem durante o ano todo evita a missa: o custo é relativo. Mais
ainda: os reais crentes da bola em Portugal tranquilamente preferem Messi a
Ronaldo. Uma vez mais compreendo e faço por remeter-me à
insignificância de quem é mesmo da religião do futebol. Mas, por outro lado,
não consigo esconder uma perturbação.
Quem prefere Messi está doido?
Já parou para olhar realmente para ele? Eu vi o resumo do Argentina-Áustria e
nem ao fim desses 4 minutos e 37 segundos consegui chegar. Messi é o grande
futebolista mais desinspirado de sempre. Esta constatação nasce dos
golos que marca e de como os festeja, do produto e do processo, do Génesis e do
Apocalipse. Cheguei lá, reconheço, diante do desabafo cansado do meu
filho Joaquim, de 18 anos: “Olha-me para este NPC!” (sigla em
inglês para “non-playable character”, as figuras que nos jogos de
computador não podem ser jogadas). Resumindo: se há algo que Messi
realmente põe a rebolar é o Maradona no túmulo.
Se quisermos usar
linguagem mais aristotélica, reconheceríamos que em Messi se fez uma excisão
entre potência e entidade. Messi joga futebol como se a habilidade se tivesse
separado da pessoa. Em Messi só existe futebol, não existe futebolista.
Preferir isto é da ordem da aniquilação da humanidade inteira. Se a
defesa de um futebol na essência servir de pretexto para alguém como ele ser
preferido sobre Cristiano Ronaldo, então eu desejo que a essência do futebol
morra para que sobre algum futebolista. Messi tem sido o maior jogando
perto da perfeição: parabéns para ele; Ronaldo tem sido o maior de outro modo:
há esperança para todas as imperfeições do mundo.
Para a sepultura da essência
do futebol já está preparado um busto. Esse mesmo, o original, aquele que pouco
tempo esteve no aeroporto de Ponta Delgada: semi-desfigurado na sua febril
vaidade pós-adolescente, Cristiano Ronaldo ri. O futebol morreu mas ele
não.
Para o meu amigo Miguel.
COMENTÁRIOS;
Ricardo Vitorino; Esta crónica chega a
ombrear, em termos de ridículo, com o citado livro de Génesis. Em ambos os
casos, não consigo conceber o que leva uma pessoa a escrever tantos disparates
sem nexo. Conclusão: religião e futebol fazem muito mal à saúde mental.
FERNANDO CE: Deus nos
ajude. Fique-se pelos Evangelhos. Disclaimler: sou católico. E não, não sou
católico porque vem cá o Papa. Sou católico porque essa é a minha religião. E o
povo português é culturalmente católico. O único que fiz questão de o ver
passar foi em Lisboa , o papa João Paulo II. E não lhe fica bem criticar quem
adoptou a religião católica como sua, se se vai mais ou menos vezes à missa. Eu
considero-me católico e raramente vou à missa. E quando cá veio o Papa
Francisco, saí de Lisboa porque detesto grandes ajuntamentos de pessoas , em
Fátima ou em Lisboa. Embora tenha adorado a adesão às jornadas da juventude
católica. E amei o Papa Francisco . muito mais do que o actual . Isso não me
faz menos católico. É minoritário em Portugal. Temos pena, mas nada podemos
fazer por si.
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