terça-feira, 9 de junho de 2026

10 de Junho e o Homem português

 

Portugal é, entre muitas outras coisas, uma ideia de Homem, que resulta de Atenas, de Roma, de Jerusalém, de Paris, Londres, Washington, Guimarães, Lisboa. Não deve pedir desculpas pela sua tradição.

NUNO GONÇALO POÇAS Advogado e Colunista do Observador

OBSERVADOR, 09 jun. 2026, 00:23

O actor espanhol Antonio Banderas esteve há dias diante do Papa Leão XIV, em Madrid, e, quando talvez tantos julgassem que dele sairia um discurso expectável vindo de uma figura pública, ainda para mais vinda do cinema internacional, cheio de lugares-comuns sobre diálogo e tolerância, resolveu falar de uma pergunta. Banderas, recordando a Semana Santa da sua Málaga natal, os olhos pregados na imagem da Virgem da Esperança, as procissões que transformavam as ruas em cenários de beleza e mistério, revelou não uma resposta definitiva, mas a pergunta que nele nasceu pelos quatro ou cinco anos de idade: «Deus?» E diria ainda algo que merece hoje uma atenção particular: a ideia de que precisamos de continuar a procurar beleza e verdade. Parece uma revolução. Nunca como hoje se falou tanto de diversidade, e ao mesmo tempo nunca como hoje se exigiu tanta uniformidade de pensamento. Nunca se falou tanto em ciência e em especialistas e nunca se colocou tanto em causa, ao ponto de silenciar quem, duvidando e fazendo perguntas, devia fazer a ciência avançar. Nunca se proclamou tanto o respeito pelas culturas e nunca se demonstrou tanta dificuldade em reconhecer a cultura que forjou o Ocidente que conhecemos e em que nos formámos. Nunca se exaltou tanto a importância das identidades e nunca se olhou com tanta suspeita para a identidade europeia e ocidental. O cosmopolitismo tornou-se numa espécie de religião do nosso tempo, entre tantas outras, como um dogma em que assenta o desejável espaço de encontro de povos, tradições e crenças, mas os seus sacerdotes são, não raras vezes, aqueles que encontram virtudes em todas as civilizações excepto naquela que tornou possível o próprio cosmopolitismo, incluindo aquelas que proclamam e praticam violentamente contra princípios e valores basilares da “civilização detestável” que é a nossa. Todas as heranças culturais são respeitáveis, excepto a nossa, de que nos devemos envergonhar. O resultado é evidente, e para uns será contrário ao desejado, embora para outros seja a ambição de uma vida e de um combate intelectual: não construímos uma sociedade mais aberta, mas antes uma civilização amputada ou envergonhada da sua própria memória, como se as civilizações se definissem mais pela perfeição do seu passado do que pelo que trouxeram ao mundo.

O Ocidente herdou a procura da verdade, do belo, a construção jurídica em torno da ideia de cidadania, a noção de que cada ser humano possui uma dignidade própria, independente da sua riqueza, origem ou condição. Foi da sua história que nasceram as ideias de liberdade, de limitação do poder político, da secularização do poder, dos direitos individuais, além de toda a ciência moderna, a universidade, o constitucionalismo, a própria ideia de Homem. Nada disto surgiu por geração espontânea, mas porque o Ocidente, a Europa em particular, tem raízes profundas que vêm sendo arrancadas por motivação ideológica e pelo pós-tudo, pós-liberalismo, pós-modernismo, pós-marxismo, pós-religião, pós-democracia, na verdade.

O nosso tempo é pródigo na produção de respostas e deficitário na colocação de perguntas. Desistimos da busca pela verdade, porque cada um tem a sua. Afinal, a tecnologia responde antes sequer de perguntarmos, os algoritmos escolhem por nós antes de pensarmos e decidirmos, a política anuncia soluções antes de compreender os problemas, a cultura entretém antes de inquietar, e não poucas vezes é a própria cultura que, julgando inquietar, acaba por pronunciar as suas respostas, no que comummente se designa por “activismo”. Banderas tem razão: é mais do que desejável que se recupere o espaço necessário para que as grandes interrogações que acompanharam a aventura do Homem voltem a ser colocadas: quem somos?, porque sofremos?, o que existe para além de nós próprios?, o que devemos aos outros?, quem queremos ser?

Amanhã é Dia de Portugal e talvez acabemos envoltos numa discussão estéril sobre o nosso lugar geoestratégico ao lado dos Estados Unidos da América, havendo quem o conteste e quem o defenda, como se houvesse sequer uma possível discussão racional sobre essa matéria, como se houvesse sequer uma dúvida sobre uma posição que tem uma natureza prática, mas também civilizacional. Podemos também acabar, como em tantos outros anos, a ouvir palavras vãs sobre a identidade portuguesa como uma espécie de folclore administrativo, a língua, Camões, os emigrantes, como quem fala de cozido de grão ou da nossa suposta e sempre alegada hospitalidade. Portugal é, entre muitas outras coisas, umas mais e outras menos importantes, uma ideia de Homem, que resulta de Atenas, de Roma, de Jerusalém, de Paris, Londres, Washington, Guimarães, Lisboa. É, absolutamente, uma herança que não deve pedir desculpas pela sua tradição intelectual, moral e espiritual.

Se o liberalismo pós-moderno acabou a reduzir todas as concepções de bem, de beleza, de verdade ou de natureza humana a uma condição de neutralidade absoluta, nós acabámos, necessariamente, por deixar de saber responder à pergunta «o que é o Homem?». A partir dessa ausência, desse vazio existencial, desembarca todo um rol de ausências de respostas a quaisquer perguntas. O Homem é apenas consumidor ou cidadão? Indivíduo ou pessoa? Desejo ou responsabilidade? Matéria ou espírito? Produto das circunstâncias ou portador de uma vocação universal? Portugal, que tem um passado assente numa forma particular de olhar o mundo, não pode viver dominado pelas dúvidas acerca de si mesmo, mas inquieto pelas perguntas que se coloca a si mesmo. E a maior pergunta de todas não se dissocia da razão pela qual deve e merece sobreviver e prosperar enquanto pátria e civilização: quem é o Homem português e ocidental que queremos defender?

OCIDENTE      MUNDO      10 DE JUNHO      PAÍS      SOCIEDADE      OPINIÃO      OBSERVADOR

COMENTÁRIOS

josé cortes: Afinal há esperança. Mesmo que por vezes ela pareça ser só mais um dos inquilinos da caixa de Pandora, conseguem extrair-se  dela virtudes. O alinhamento para que este assunto da Identidade Ocidental, Europeia e Nacional se torne O assunto encima da mesa, secundarizando todos os outros, começa a ganhar forma e dinâmica.  Será razão para dizer Tudo vale a pena, quando a Alma ainda não é pequena.  No UK já pedem para tirar a cruz de Cristo da bandeira pois ofende os crentes de outras religiões. Teremos as nossas quinas a prazo, lá para a frente?  Depois, que alguns digam que há assuntos mais prementes, ou do dia-a-dia, para resolver, que isto é tudo revanchismo. Tristão: O que importa defender não é uma entidade biológica que nem sequer existe, mas uma herança cultural e política que tem 700 anos de história. É isso que importa defender e transmitir às gerações vindouras: desde logo a língua, costumes, valores e de certa forma uma maneira particular de estar no mundo.           João Floriano: Excelente reflexão e excelente texto. Muitas vezes as duas coisas, reflexão e texto, não coincidem. Mas desta vez sim. Em relação à pergunta final sobre o Homem Português que queremos defender, eu diria que não queremos e  bem pelo contrário os ataques vêm de todo o lado. Consigo imaginar o futuro Homem Português e o que imagino não é brilhante: baralhado, confuso, medroso,  ignorante, cancelado, carregando sentimentos de culpa pelo passado. pela História, sem auto estima, sem sonhos, sem projectos, que até é melhor não ter porque serão quase impossiveis de concretizar, sobrevivendo nas areias movediças da multiculturalidade. O Homem português ainda não desistiu mas é tudo uma questão de tempo.         Américo Silva: Quem deixa de respeitar os seus pais e avós, os seus sofrimentos conquistas e crenças, para venerar estranhos, não espere nada de bom.                             Fernando ce: Muito bom texto e pertinente reflexão.

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