Portugal é, entre muitas
outras coisas, uma ideia de Homem, que resulta de Atenas, de Roma, de
Jerusalém, de Paris, Londres, Washington, Guimarães, Lisboa. Não deve pedir
desculpas pela sua tradição.
NUNO GONÇALO POÇAS Advogado
e Colunista do Observador
OBSERVADOR, 09 jun. 2026, 00:23
O actor espanhol Antonio Banderas esteve há
dias diante do Papa Leão XIV, em Madrid, e, quando talvez tantos julgassem
que dele sairia um discurso expectável vindo de uma figura pública, ainda para
mais vinda do cinema internacional, cheio de lugares-comuns sobre diálogo
e tolerância, resolveu falar de uma pergunta. Banderas, recordando a Semana
Santa da sua Málaga natal, os olhos pregados na imagem da Virgem da Esperança,
as procissões que transformavam as ruas em cenários de beleza e mistério, revelou
não uma resposta definitiva, mas a pergunta que nele nasceu pelos quatro ou
cinco anos de idade: «Deus?» E diria ainda algo que merece hoje uma atenção particular: a ideia de que precisamos de
continuar a procurar beleza e verdade. Parece uma revolução. Nunca como hoje se falou
tanto de diversidade, e ao mesmo tempo nunca como hoje se exigiu tanta uniformidade de pensamento.
Nunca se falou tanto em ciência e em especialistas e nunca se colocou tanto em causa, ao ponto de silenciar quem, duvidando e
fazendo perguntas, devia fazer a ciência avançar. Nunca se
proclamou tanto o respeito pelas culturas e nunca se demonstrou tanta dificuldade em reconhecer a
cultura que forjou o Ocidente que conhecemos e em que nos formámos.
Nunca se exaltou tanto a importância das identidades e nunca se
olhou com tanta suspeita para a identidade europeia e ocidental. O cosmopolitismo tornou-se numa
espécie de religião
do nosso tempo, entre tantas outras, como um dogma em que assenta o
desejável espaço de encontro de povos, tradições e crenças,
mas os
seus sacerdotes são, não raras vezes, aqueles que encontram virtudes em todas
as civilizações excepto naquela que tornou possível o próprio cosmopolitismo,
incluindo
aquelas que proclamam e praticam violentamente contra princípios e valores
basilares da “civilização detestável” que é a nossa. Todas as heranças culturais são
respeitáveis, excepto a nossa, de que nos devemos envergonhar. O resultado é evidente, e
para uns será contrário ao desejado, embora para outros seja a ambição de uma
vida e de um combate intelectual: não construímos uma sociedade mais aberta, mas antes uma
civilização amputada ou envergonhada da sua própria memória, como se as
civilizações se definissem mais pela perfeição do seu passado do que pelo que
trouxeram ao mundo.
O Ocidente herdou a procura da verdade, do belo, a
construção jurídica em torno da ideia de cidadania, a noção de que cada ser
humano possui uma dignidade própria, independente da sua riqueza, origem ou
condição. Foi da sua história que nasceram as ideias de liberdade, de limitação
do poder político, da secularização do poder, dos direitos individuais, além de
toda a ciência moderna, a universidade, o constitucionalismo, a própria ideia
de Homem. Nada disto surgiu por geração espontânea, mas
porque o Ocidente,
a Europa em particular, tem raízes profundas que vêm sendo arrancadas
por motivação ideológica e pelo pós-tudo, pós-liberalismo, pós-modernismo, pós-marxismo,
pós-religião, pós-democracia, na verdade.
O nosso tempo é pródigo na produção de respostas e
deficitário na colocação de perguntas. Desistimos da busca pela verdade,
porque cada um tem a sua. Afinal, a tecnologia responde antes
sequer de perguntarmos, os algoritmos escolhem por nós antes de pensarmos e
decidirmos, a política
anuncia soluções antes de compreender os problemas, a cultura entretém antes de
inquietar, e não poucas vezes é a própria cultura que, julgando inquietar,
acaba por pronunciar as suas respostas, no que comummente se designa por “activismo”. Banderas tem razão: é
mais do que desejável que se recupere o espaço necessário para que as grandes
interrogações que acompanharam a aventura do Homem voltem a ser colocadas: quem somos?, porque sofremos?, o que
existe para além de nós próprios?, o que devemos aos outros?, quem queremos
ser?
Amanhã é Dia de Portugal e
talvez acabemos envoltos numa discussão estéril sobre o nosso lugar
geoestratégico ao lado dos Estados Unidos da América, havendo quem o conteste e
quem o defenda, como se houvesse sequer uma possível discussão racional sobre essa
matéria, como se houvesse sequer uma dúvida sobre uma posição que tem uma
natureza prática, mas também civilizacional. Podemos também acabar, como em
tantos outros anos, a ouvir palavras vãs sobre a identidade portuguesa como uma
espécie de folclore administrativo, a língua, Camões, os emigrantes, como quem
fala de cozido de grão ou da nossa suposta e sempre alegada hospitalidade. Portugal é, entre muitas
outras coisas, umas mais e outras menos importantes, uma ideia de Homem,
que resulta de Atenas, de Roma, de Jerusalém, de Paris, Londres, Washington,
Guimarães, Lisboa. É, absolutamente, uma herança que não deve pedir desculpas pela sua
tradição intelectual, moral e espiritual.
Se o liberalismo pós-moderno acabou a reduzir todas as
concepções de bem, de beleza, de verdade ou de natureza humana a uma condição de neutralidade
absoluta, nós acabámos, necessariamente, por deixar de saber
responder à pergunta «o
que é o Homem?». A partir dessa ausência, desse vazio existencial,
desembarca todo um rol de ausências de respostas a quaisquer perguntas.
O Homem é apenas
consumidor ou cidadão? Indivíduo ou pessoa? Desejo ou responsabilidade? Matéria
ou espírito? Produto das circunstâncias ou portador de uma vocação universal?
Portugal, que tem um passado assente numa forma particular de olhar o
mundo, não pode viver dominado pelas dúvidas acerca de si mesmo, mas inquieto
pelas perguntas que se coloca a si mesmo. E a maior pergunta de
todas não se dissocia da razão pela qual deve e merece sobreviver e prosperar
enquanto pátria e civilização: quem é o Homem português e ocidental que queremos defender?
OCIDENTE MUNDO
10 DE JUNHO PAÍS SOCIEDADE OPINIÃO
OBSERVADOR
COMENTÁRIOS
josé cortes: Afinal há esperança. Mesmo que por vezes ela
pareça ser só mais um dos inquilinos da caixa de Pandora, conseguem extrair-se dela virtudes. O alinhamento para que este
assunto da Identidade Ocidental, Europeia e Nacional se torne O assunto encima
da mesa, secundarizando todos os outros, começa a ganhar forma e dinâmica.
Será razão para dizer Tudo vale a pena, quando a Alma ainda
não é pequena. No UK já pedem para tirar a
cruz de Cristo da bandeira pois ofende os crentes de outras religiões. Teremos
as nossas quinas a prazo, lá para a frente? Depois, que alguns digam que há assuntos mais
prementes, ou do dia-a-dia, para resolver, que isto é tudo revanchismo. Tristão: O que importa defender
não é uma entidade biológica que nem sequer existe, mas uma herança cultural e
política que tem 700 anos de história. É isso que importa defender e transmitir
às gerações vindouras: desde logo a língua, costumes, valores e de certa forma
uma maneira particular de estar no mundo. João Floriano: Excelente reflexão e excelente texto.
Muitas vezes as duas coisas, reflexão e texto, não coincidem. Mas desta vez
sim. Em relação à pergunta final sobre o Homem Português que queremos defender,
eu diria que não queremos e bem pelo
contrário os ataques vêm de todo o lado. Consigo imaginar o futuro Homem
Português e o que imagino não é brilhante: baralhado, confuso, medroso, ignorante, cancelado, carregando sentimentos
de culpa pelo passado. pela História, sem auto estima, sem sonhos, sem
projectos, que até é melhor não ter porque serão quase impossiveis de
concretizar, sobrevivendo nas areias movediças da multiculturalidade. O Homem
português ainda não desistiu mas é tudo uma questão de tempo. Américo Silva: Quem
deixa de respeitar os seus pais e avós, os seus sofrimentos conquistas e
crenças, para venerar estranhos, não espere nada de bom. Fernando ce: Muito bom
texto e pertinente reflexão.
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