Com muita saída, ainda que por
vezes perturbador da paz, pelas limitações, talvez, do nosso ego, ambicioso de
projecção: “POLARIZAÇÃO”.
DEFINIÇÕES PRÉVIAS: (VIA INTERNET): A polarização é uma séria
ameaça às bases da democracia que assentam no diálogo, no respeito pelas
instituições, na tolerância, na abertura à diferença e no reconhecimento da
legitimidade dos outros. “A polarização é um fenómeno comum da vida social,
que se refere ao afastamento das opiniões no sentido dos extremos, aumentando os níveis de
confronto entre posições opostas. 26/09/2023”
Nós e os outros. A sociedade polarizada
Católica-Lisbon SBE
Terça, Setembro 26, 2023 - 16:15
TEXTO: «Podemos parar a polarização?»
De facto, só há uma verdade. A verdade não é
igual à opinião. Mas a verdade não está separada da mundividência de
quem a expressa.
P. JOÃO BASTO, Sacerdote, membro da equipa formadora
do Seminário Diocesano de Viana do Castelo
OBSERVADOR,
05 jun. 2026, 00:23
Numa semana: confrontos em Paris, após a vitória do
PSG na final da Liga dos Campeões; tensão em Espanha, com deputados a anunciar a ausência
na sessão do congresso onde tomará a palavra o Papa; choque no Reino Unido, com o bárbaro
assassinato de HENRY NOWAK; violência junto à Assembleia da República, no
contexto da recente greve geral. Tudo isto parece confirmar o
diagnóstico de um mundo em crescente tensão, a que costumamos chamar
polarização. Na recente Encíclica, Leão XIV fala, inclusivamente, de narrativas
simplistas e da lógica belicista que pretende dividir a realidade entre amigos
e inimigos, numa espécie de combate existencial pela sobrevivência. Chamem-me
ingénuo, inocente, naïf, mas procuro não ceder a isso. Pouco me importa que o
que digo não seja apelativo. Temos de procurar uma saída. Temos dificuldade em encontrar
modelos.
A meu ver, uma proposta
deverá passar por Hilário
de Poitiers. Filósofo e teólogo da Idade Antiga, sofreu na
pele a crise intelectual do mundo em que viveu. Mesmo exilado em
356, marcou a diferença face aos seus contemporâneos, não insistindo nos
erros dos seus adversários, mas procurando o entendimento entre tradições
distintas. Mas como?
Antes de tudo, Hilário explicou que devemos atender ao
contexto das formulações: aos seus propósitos e pontos
de partida. De
facto, só há uma verdade. A verdade não é igual à opinião. Mas a verdade não está separada da
mundividência de quem a expressa. Aquilo que hoje
denominamos como “lotaria
genética e social” não pode ser terraplanado, porque a verdade
pode revelar-se através de silhuetas e não por via de um corpo inteiro e
imediato.
Isto leva-o a outra dimensão: é necessário distinguir entre a formulação do discurso e o conteúdo do discurso.
Entre uma coisa e outra existe uma desproporção, de tal maneira que não é
suficiente “dizer
a fórmula certa”. Não raro, os ressentimentos não radicam no conteúdo, mas na
sua formulação. É preciso rejeitar quem se julga ortodoxo
apenas por comunicar, letra a letra, o politicamente correcto. Como é preciso agir contra formulações que, por si só, favorecem
o desentendimento e a tensão. No entanto, discutir palavras, e
não o conteúdo, continua a ser cair numa armadilha. Como escreveu TOMÁS
DE AQUINO, a
nossa compreensão não se deve deter no enunciado, mas na realidade enunciada
(ST, II-II, q.1, a.2, ad 2).
Não por acaso, Hilário, a certo momento, confessou
que “não
tinha medo” dos seus interlocutores em si mesmos, “mas de alguns que se têm por
demasiado sensatos e prudentes”. E, hoje, este excesso de
sensatez e prudência tornou-se numa nova forma de censura. “Não se diz cor-de-pele”. “Não se diz
maria-rapaz”. “Não se diz chinesices”. “Não se diz trabalhador”. No entanto, as palavras exigem uma
leitura integral. Quem usa estas formulações não é uma besta. Quem as
recusa não é um anjo. E se algo é equívoco – boa sorte a encontrar uma
forma de linguagem que não o seja –, a solução não deveria ser a supressão, mas a
compreensão adequada.
É verdade, os ambientes polémicos tendem à
polarização e à intransigência. Porém, é necessário evitar
unilateralidades. Aquilo que de mais verdadeiro há na vida existe em tensão, em luta, em ferida.
Por isso, a integridade não é directamente proporcional ao fechamento. Só
existe integridade quando há ampliação do mundo. Ora, a polarização é precisamente o
inverso: o triunfo da frase isolada, da meia-verdade empunhada como
bandeira, da obsessão.
Sempre nos rimos das
crianças que acham que o leite nasce nos supermercados. A polarização está a tornar-nos tão
infantis como elas. Só vemos o nosso condomínio. Eu sei que seria mais popular
passar seis parágrafos a espicaçar o touro no meio da praça para, em seguida,
perseguir, num glorioso linchamento popular, os hereges. Há, no entanto, um pormenor que
poucos referem: podemos colocar em frente do touro a cara do nosso inimigo, mas
quando o saltarmos ele não terá problema em atirar-se a nós, mesmo que
sinalizemos a nossa virtude. Deixemos de denunciar impotências. Paremos de estar
confortavelmente a enunciar fracassos. Procuremos corajosamente uma solução.
VIOLÊNCIA
CRIME SOCIEDADE
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