Ainda distante da “carne para canhão “de cá”, oxalá acabe
por lá…
Sirenes soaram em Telavive, mas é no
norte de Israel que a guerra parece não ter fim: "Gostava de ter bons
vizinhos"
JOSÉ CARLOS DUARTE (Telavive e norte de Israel): Texto
Telavive voltou a estar sob alerta após uma nova
troca de ataques entre Irão e Israel. Mas é no norte de Israel que o conflito
permanece mais tenso, com Hezbollah e IDF em confronto desde 2023.
JOSÉ CARLOS DUARTE (Telavive e norte de Israel): Texto
OBSERVADOR, 08 jun. 2026, 20:44
ÍNDICE
Como
Telavive viveu os ataques — e como EUA e Israel podem estar a afastar-se
Norte
do Israel. Onde o conflito parece não terminar
Artilharia.
Este é um dos primeiros sons que se ouvem quando se está perto de um miradouro
em Kisra Sume’a, a cerca de 20 quilómetros da fronteira entre o Líbano e
Israel. “É normal”, desarma Sarit Zehavi, que foi tenente-coronel nas Forças de
Defesa israelitas (IDF, sigla em inglês) e que hoje se dedica à investigação
militar no Centro de Pesquisa Alma. Afinal, os combates terrestres entre
as IDF e os militantes do Hezbollah prosseguem naquela região, apesar do frágil
cessar-fogo em vigor.
Muito
perto do miradouro está uma estrutura de betão pesada e visualmente pouco atractiva:
trata-se de um bunker. É para aquele espaço cinzento que se deve correr caso
se ouçam sirenes ou se veja um objeto nos céus. Mas com um pormenor muito
importante, como explica Sarit. Fruto da proximidade da fronteira — e dos
locais de onde a milícia xiita lança os rockets e drones — há poucos segundos
para se ir para o abrigo: cerca de 15 a 30 segundos. Mais do que isso? É
arriscado.
Entre Israel, Hezbollah e o Irão,
as últimas horas foram marcadas por uma escalada da tensão. Este
domingo, depois de dois meses sem registo de quaisquer ataques de parte a
parte, o regime
iraniano — juntamente com os Houthis do Iémen — lançaram vários mísseis para
várias partes de território israelita, justificando-o como uma
vingança contra as IDF por estas terem atacado o sul de Beirute. Em resposta, Israel também retaliou
e atacou solo iraniano nas horas seguintes.
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Bunker perto do miradouro
ÍNDICE
Como Telavive viveu os ataques — e
como EUA e Israel podem estar a afastar-se
Norte
do Israel. Onde o conflito parece não terminar
Em Telavive, onde o Observador
está hospedado para uma viagem com jornalistas convidado pela European Jewish Association,
as sirenes ouviram-se pelo menos três vezes entre as 06h00 e as 09h00
desta segunda-feira (menos duas horas em Lisboa). Os alertas sonoros
e os abrigos voltaram à rotina da cidade de 450 mil habitantes. No entanto, a normalidade reinou na
localidade. As pessoas continuaram a caminhar, os carros a
andar nas estradas e as lojas abertas — afinal, Israel vive este cenário há
cerca de três anos.
Nos próximos dias, a situação deverá
alterar-se. Esta segunda-feira, Israel e Irão concordaram em cessar os ataques aéreos.
O Presidente norte-americano fez vários apelos nas redes sociais e
declarou que
não queria que os dois países voltassem a atacar-se, principalmente
durante o processo negocial que decorre para terminar com a guerra entre Teerão
e Washignton. Numa chamada telefónica, Donald Trump terá influenciado o
primeiro-ministro israelita a não retaliar na noite de domingo — mas Benjamin
Netanyahu não acatou directamente as ordens do seu maior aliado.
Como Telavive viveu os ataques — e
como EUA e Israel podem estar a afastar-se
Pessoas a jogar voleibol. Outras a
nadar no mar. Umas a fazer desporto ou a beber um iced coffee — às 08h30 da
manhã já estavam cerca de 25 graus Celsius em Telavive. Apesar de as sirenes terem tocado na
cidade três vezes esta segunda-feira, há uma sensação de calma e
normalidade perto da praia de Gordon, uma das mais centrais. Na marginal, existem várias
sinalizações de bunkers de poucos em poucos metros. GettyImages-2279913385
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Pessoas na praia de Telavive esta segunda-feira
AFP via Getty Images
ÍNDICE
Nos próximos dias, é expectável que
os céus de Telavive e de outras partes do país regressem à normalidade, se bem
que a situação possa mudar a qualquer momento. Este
domingo, o país aumentou o nível de perigo dentro das fronteiras e as escolas estiveram encerradas,
medida que já foi levantada esta segunda-feira. O Irão foi o primeiro a assegurar que
ia cessar os ataques aéreos, seguindo-se depois Israel. Apesar desta trégua frágil, os dois
países deixaram as mesmas ameaças: se o inimigo o atacar, a resposta
será com “toda a força” e muito violenta.
Desde que os Estados Unidos da
América (EUA) e Israel atacaram o Irão a 28 de fevereiro, o conflito directo entre Teerão e
Telavive parecia relegado para um segundo plano face à posição
norte-americana. A lógica aparentava ser que os EUA funcionavam como o parceiro
maior da aliança com Israel contra o regime iraniano. Quando
Donald
Trump ameaçava acabar com o regime, Israel acompanhava estas
posições. Quando Donald Trump sinalizava ceder a algumas vontades ao Irão, a
diplomacia israelita sentia algum desconforto. Porém, o desagrado era sempre em
surdina — em círculos diplomáticos — e raramente em público.
Ora,
esta dinâmica alterou-se recentemente. Surgiu, por exemplo, a informação
de que Donald
Trump insultou Benjamin Netanyahu durante uma chamada telefónica.
O Pentágono levantou a
possibilidade de Israel estar a espiar os Estados Unidos. Começa a existir uma tensão nas
relações entre os dois países, que esta segunda-feira se tornou mais visível.
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Pessoas no bunker em Telavive Anadolu via Getty Images
ÍNDICE (Como
Telavive viveu os ataques — e como EUA e Israel podem estar a afastar-se. Norte
do Israel. Onde o conflito parece não terminar)
Nascido
no Irão, Beni Sabti é um dos principais especialistas sobre política iraniana em
Israel. Participa em vários programas informativos, em que partilha
as suas opiniões sobre o regime iraniano. Este domingo, o analista estava em
directo no Canal 12 israelita, uma das principais estações televisivas em
Israel. Quando chegou a informação de que Donald Trump ia falar ao telefone com
Benjamin Netanyahu, admitiu que ficou “pessimista” e com a impressão de que tinha
sido “uma conversa difícil”.
Em
declarações a media estrangeiros, incluindo o OBSERVADOR, BENI SABTI confessou que “deixou de entender Trump”.
“A cada cinco
minutos, existe outro tweet e outra frase e outra coisa”,
referiu. Esta perspectiva
de que o Presidente norte-americano está sempre a mudar de ideias em relação
à situação do conflito está cada vez mais presente na mente dos israelitas.
Ainda
assim, o especialista que nasceu em território iraniano, mas que vive em Israel
há décadas, acredita que Benjamin Netanyahu “convenceu ligeiramente” Donald Trump de que teria de atacar o
Irão. “Talvez
tenha prometido um ataque limitado, mas Israel tinha de atacar e de reagir”,
destacou.
"Netanyahu talvez tenha
prometido um ataque limitado, mas Israel tinha de atacar e de reagir."
Beni Sabti, especialista em política iraniana em Israel
“ÍNDICE” Como
Telavive viveu os ataques — e como EUA e Israel podem estar a afastar-se. Norte do Israel. Onde o
conflito parece não terminar
Caso
estes ataques mútuos continuarem, Beni Sabti opina que será Israel a assumir a
liderança de uma nova ofensiva. “Será mais Israel. Acho que os
[norte-americanos] vão ajudar com a logística, a defesa aérea e os sistemas que
vimos [no domingo] na Jordânia — os THAAD”, refere o especialista. No mesmo sentido,
o analista também acha que houve “algum choque” entre os iranianos por esta aparente falta de coordenação entre
Telavive e Washignton.
Norte
do Israel. Onde o conflito parece não terminar
Se nos céus de Telavive e Teerão não
se deverão avistar drones nem ouvir sirenes, no norte de Israel e no sul do
Líbano a situação é muito diferente. Neste momento, as IDF ocupam
parte da fronteira libanesa, de cerca de 12 quilómetros, para atacar o Hezbollah, um dos
membros do eixo de resistência iraniano no Médio Oriente.
Sarit Zehavi vive
numa comunidade muito perto da fronteira. A sua vida mudou radicalmente desde
outubro de 2023. Grande parte das aldeias israelitas na proximidade
com o Líbano tiveram de ser evacuadas desde o início da guerra na Faixa de
Gaza, muitas continuaram a sê-lo até ao início de 2025. A mulher que foi tenente-coronel
nas IDF dedica-se agora a estudar os impactos do Hezbollah no norte de
Israel e como a milícia armada tem criado disrupções na vida da população.
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Sarit Zehavi perto do miradouro
ÍNDICE: (Como Telavive viveu os
ataques — e como EUA e Israel podem estar a afastar-se. Norte do Israel. Onde o
conflito parece não terminar)
No
centro de pesquisa Alma, que está integrado num grande edifício com quatro
pisos, Sarit
Zehavi mostrou aos jornalistas várias imagens. A sala
tem prateleiras com destroços de mísseis e drones, que as IDF recolheram no sul
do Líbano. A
apresentação incide sobre o que descobriram as Forças de Defesa de Israel em território
libanês, desde a primeira grande operação militar no Líbano em setembro de 2024.
Sarit Zehavi revela
imagens de túneis que diz terem sido construídos pelos militantes do Hezbollah.
As infraestruturas
subterrâneas, que apenas tinham entrada e não saída, terão permitido
inclusivamente a infiltração em solo israelita. Para além dos
dados que vai mostrando aos jornalistas, a especialista não deixa de fazer
apartes sobre a sua vida pessoal: fala sobre como teme pela vida dos filhos
diariamente e sobre como os tem instruído para servirem nas IDF.
“Isto é uma guerra psicológica”,
lamenta. A especialista israelita dá conta de todas as disrupções na vida
quotidiana no norte de Israel. “Não posso fazer um casamento
com mais de 100 pessoas. Antes ainda era pior, eram apenas 50”,
exemplifica. Ao contrário do resto de Israel, aquela parte do país
continua sob ameaça — e nenhum cessar-fogo parece ser suficiente para resolver
totalmente o problema.
"Nós vimos que escondem armas em
casa. O Hezbollah é um Estado dentro do Estado. Dá [aos libaneses] comida,
bebida, acesso a educação. E, em troca, quer que eles escondam armas em casa."
Sarit
Zehavi
ÍNDICE (Como
Telavive viveu os ataques — e como EUA e Israel podem estar a afastar-se Norte do Israel. Onde o conflito
parece não terminar)
A
especialista, cuja mãe nasceu no Líbano, desabafa que “gostava de ter bons
vizinhos”. Mas
até lá, sublinha, Israel vai ter de continuar a defender-se, mantendo a ofensiva contra o
Hezbollah e ocupando partes da fronteira com o Líbano. “Nós vimos que eles escondem armas em
casa. O Hezbollah é um Estado dentro do Estado. Dá [aos libaneses]
comida, bebida, acesso a educação. E, em troca, quer que eles escondam armas
em casa”, diz.
Naquela
sala, Sarit Zehavi
mostra inúmeras imagens e vídeos da “propaganda do Hezbollah”. Em particular, imagens de
novos drones que a atormentam. O motivo? Não são detectáveis pelo sistemas de defesa aérea — nem mesmo pelo sofisticado Iron
Dome. São feitos a partir de cabos de fibra óptica e escapam à rede montada. Os drones são, por agora, apenas “um problema táctico”.
“Mas pode
transformar-se num problema estratégico. Porque Israel tem de atacar o sul de
Beirute para parar a construção destes drones. E, em resposta, o Irão ataca
Israel e Israel ataca o Irão.”
Actualmente, os governos libanês e
israelita estão a negociar directamente sob mediação norte-americana, mas o
Hezbollah tem tentado boicotar as negociações directas entre as duas partes.
O Irão continua a querer contar como grupo armado para criar problemas a
Israel, sendo que a especialista até assinala que a milícia planeava fazer o
seu próprio 7 de Outubro no norte de território israelita. “Se o fizessem,
apenas paravam em Haifa.”
Em muitas cidades israelitas, a
normalidade retornou na tarde desta segunda-feira. Pessoas foram jantar fora,
havia crianças a brincar em parques e a praia Gordon continuou cheia, com
muitos a aproveitar as temperaturas agradáveis de Telavive. No norte de Israel,
porém, foi mais um dia ansioso e tenso.
ISRAEL MÉDIO ORIENTE MUNDO IRÃO ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA
COMENTÁRIOS
(de 3)
granel cardoso: Nunca deixam os Israelitas acabar o
"trabalho", i é, eliminar o hezbollah...e dar liberdade ao Libano.
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