Precisando o país de Pedro Passos Coelho para um seu maior equilíbrio moral, talvez, e limitando-se este a apontar o erro, sem uma tentativa de participação “correctora” deste, será mais uma acção enviesada de jogo pessoal arrogante e infrutífero, a que apetece dizer “chiu”! Deixe trabalhar quem o quer fazer, então!
O veredito do fantasma
Passos Coelho não é um candidato em
espera. É um espelho. E a imagem que a classe política e o país lá vêem é
insuportável de encarar.
RUI SAMPAIO Estudante de Direito e gestor de
operações na Orbi Lda.
OBSERVADOR, 29 mai. 2026, 00:10
O silêncio de Pedro Passos Coelho nunca
foi uma ausência, foi sempre uma incubação. Na
política portuguesa, onde a sobrevivência mediática exige uma tagarelice diária
e uma opinião sobre tudo, a recusa em participar no ruído transformou o antigo
primeiro-ministro num fenómeno psicológico invulgar. Sempre
que ele decide falar, o sistema não se limita a ouvi-lo. O sistema sofre um
espasmo. As suas
intervenções recentes confirmam esta regra, operando menos como declarações
políticas e mais como testes de esforço à maturidade institucional do país.
Para
compreendermos a coreografia de pânico que se instala, na esquerda que o
diaboliza e na direita que se encolhe, é preciso ignorar a espuma dos
comentadores e atentar na mecânica do poder. O actual ecossistema político, ancorado num centro que
gere equilíbrios de curto prazo, especializou-se na administração de
paliativos. Discute-se a décima da taxa, o bónus mensal, o
cheque setorial. É uma política
de anestesia. Quando Passos Coelho surge, traz consigo algo que o atual
debate excluiu por conveniência: a
gravidade.
O que ele afirmou recentemente não é uma
provocação reaccionária, como a oposição logo tentou enquadrar, mas uma
constatação factual que a governação contemporânea tenta desesperadamente
ocultar. Portugal atingiu um paradoxo histórico: consolidou
uma estabilidade contabilística superficial enquanto presencia o colapso
estrutural das funções soberanas. Temos
impostos de padrão nórdico a financiar serviços públicos de matriz balcânica.
Neste contexto, o discurso de Passos
Coelho rasga a ilusão de óptica do “contas certas”. Ele expõe que um Estado não é forte apenas
porque não entra em bancarrota técnica, é falhado se, cobrando o máximo
histórico em receita fiscal, se revela incapaz de garantir saúde, justiça ou
segurança sem empurrar o cidadão para o sector privado. A ferida
que o antigo líder do PSD toca não é a da austeridade passada, mas a da mediocridade presente.
A reacção partidária às suas palavras
é, por isso, um compêndio de psicanálise. Para
o Partido Socialista, Passos Coelho é o espantalho
utilitário. A esquerda
portuguesa há muito que deixou de ter um projecto transformador para o futuro,
substituindo-o pela evocação
perpétua do “tempo da Troika”. Ao agitar o fantasma de Passos, a
esquerda tenta mobilizar o eleitorado pelo medo, camuflando a sua própria
incapacidade de reformar o país ao longo da última década.
Mas é na
direita que o sintoma se revela mais severo. O actual
PSD sofre de um trauma freudiano em relação ao seu antigo líder. A liderança actual procura uma quadratura
do círculo impossível: quer os votos da moderação, mas teme a fuga
do eleitorado para as margens radicais, quer ser vista como reformista, mas
foge de qualquer ruptura que incomode corporações ou lóbis instalados. Quando
Passos fala, com a clareza cortante de quem já não tem eleições para ganhar,
expõe a timidez táctica dos seus sucessores. Ele
lembra a uma direita complexada que a moderação não significa a aceitação
pacífica dos dogmas do adversário.
Não há, no discurso de Passos Coelho,
o apelo de um populista que promete soluções fáceis para problemas complexos, o
oxigénio que alimenta o radicalismo actual. Pelo contrário, há a secura de quem
avisa que a fuga à realidade tem sempre um preço diferido. É exactamente por isso que as suas
palavras geram tanta rejeição no espaço público. O eleitorado português, habituado a ser tratado como
um menor de idade pelo Estado-providência, detesta ser confrontado com a
exigência da responsabilidade.
A tragédia do debate público
português não é Pedro Passos Coelho continuar a ensombrar a política nacional,
é o facto de, dez anos após a sua saída do poder, o país não ter produzido um
único líder político, à esquerda ou à direita, com a mesma densidade conceptual
e a mesma imunidade ao ciclo noticioso de 24 horas.
Aqueles
que analisam as suas declarações à procura de sinais tácticos para uma
candidatura presidencial ou uma conspiração interna no PSD não estão apenas
errados, estão a medir um problema tectónico com uma régua de plástico. Passos
Coelho não é um candidato em espera. É um espelho. E a imagem que a classe política e o país
lá vêem refletida, a de um país viciado no declínio suave, assustado com o seu
próprio futuro, é insuportável de encarar.
COMENTÁRIOS (de 10)
Antonio Torres: Brilhante
análise
Paulo Silva: Ele
lembra a uma direita complexada que a moderação não significa a aceitação
pacífica dos dogmas do adversário.
Bullseye!
A direita tradicional está feita zombie sob o efeito de algum opioide que a
esquerda sintetizou, ou então caiu na casca de banana que o politicamente
correcto lhe lançou aos pés, e nunca mais se levantou...
Caríssimo
Rui Sampaio
Um
olhar atento, perspicaz realista e bem fundamentado sobre " a
imagem que a classe política e o país lá veem no dito espelho, é
efetivamente insuportável de encarar. Tal como afirma neste artigo : " O atual ecossistema político, ancorado num
centro que gere equilíbrios de curto prazo, especializou-se na administração de
paliativos " , num país: "Temos
impostos de padrão nórdico a
financiar serviços públicos de
matriz balcânica." As observações de PPC levam as esquerdas , os
socialistas e o próprio PSD percecionar o perigo de perderem a bússola que sempre os orientou num style de
governação, que sempre lhes permitiu se servirem do país, mas não, servirem o país
e os portugueses . A liderança atual receia perder a cadeira do Poder e o seu " pão com manteiga ", que partilha com suas elites !...Já escrevi
aqui no Observador alguns comentários onde alego: PS e PS.2 governam em regime de « comunhão de bens », pelo que desde há
praticamente 50 anos vivemos em ciclos sucessivos de pobreza e
subdesenvolvimento.
*
BRILHANTE A FRASE FINAL SOBRE O ESPELHO *
Caríssimo
Rui Sampaio, obrigada pela excelente análise onde tanto o governo como a
oposição, definitivamente não gostam do " espelho " - Pedro Passos
Coelho, o Estadista dotado de um pensamento e de um desígnio para o
país.
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