terça-feira, 2 de junho de 2026

Todavia

  

Precisando o país de Pedro Passos Coelho para um seu maior equilíbrio moral, talvez, e limitando-se este a apontar o erro, sem uma tentativa de participação “correctora” deste, será mais uma acção enviesada de jogo pessoal arrogante e infrutífero, a que apetece dizer “chiu”! Deixe trabalhar quem o quer fazer, então!

O veredito do fantasma

Passos Coelho não é um candidato em espera. É um espelho. E a imagem que a classe política e o país lá vêem é insuportável de encarar.

RUI SAMPAIO Estudante de Direito e gestor de operações na Orbi Lda.

OBSERVADOR, 29 mai. 2026, 00:10

 

O silêncio de Pedro Passos Coelho nunca foi uma ausência, foi sempre uma incubação. Na política portuguesa, onde a sobrevivência mediática exige uma tagarelice diária e uma opinião sobre tudo, a recusa em participar no ruído transformou o antigo primeiro-ministro num fenómeno psicológico invulgar. Sempre que ele decide falar, o sistema não se limita a ouvi-lo. O sistema sofre um espasmo. As suas intervenções recentes confirmam esta regra, operando menos como declarações políticas e mais como testes de esforço à maturidade institucional do país.

Para compreendermos a coreografia de pânico que se instala, na esquerda que o diaboliza e na direita que se encolhe, é preciso ignorar a espuma dos comentadores e atentar na mecânica do poder. O actual ecossistema político, ancorado num centro que gere equilíbrios de curto prazo, especializou-se na administração de paliativos. Discute-se a décima da taxa, o bónus mensal, o cheque setorial. É uma política de anestesia. Quando Passos Coelho surge, traz consigo algo que o atual debate excluiu por conveniência: a gravidade.

O que ele afirmou recentemente não é uma provocação reaccionária, como a oposição logo tentou enquadrar, mas uma constatação factual que a governação contemporânea tenta desesperadamente ocultar. Portugal atingiu um paradoxo histórico: consolidou uma estabilidade contabilística superficial enquanto presencia o colapso estrutural das funções soberanas. Temos impostos de padrão nórdico a financiar serviços públicos de matriz balcânica.

Neste contexto, o discurso de Passos Coelho rasga a ilusão de óptica do “contas certas”. Ele expõe que um Estado não é forte apenas porque não entra em bancarrota técnica, é falhado se, cobrando o máximo histórico em receita fiscal, se revela incapaz de garantir saúde, justiça ou segurança sem empurrar o cidadão para o sector privado. A ferida que o antigo líder do PSD toca não é a da austeridade passada, mas a da mediocridade presente.

A reacção partidária às suas palavras é, por isso, um compêndio de psicanálise. Para o Partido Socialista, Passos Coelho é o espantalho utilitário. A esquerda portuguesa há muito que deixou de ter um projecto transformador para o futuro, substituindo-o pela evocação perpétua do “tempo da Troika”. Ao agitar o fantasma de Passos, a esquerda tenta mobilizar o eleitorado pelo medo, camuflando a sua própria incapacidade de reformar o país ao longo da última década.

Mas é na direita que o sintoma se revela mais severo. O actual PSD sofre de um trauma freudiano em relação ao seu antigo líder. A liderança actual procura uma quadratura do círculo impossível: quer os votos da moderação, mas teme a fuga do eleitorado para as margens radicais, quer ser vista como reformista, mas foge de qualquer ruptura que incomode corporações ou lóbis instalados. Quando Passos fala, com a clareza cortante de quem já não tem eleições para ganhar, expõe a timidez táctica dos seus sucessores. Ele lembra a uma direita complexada que a moderação não significa a aceitação pacífica dos dogmas do adversário.

Não há, no discurso de Passos Coelho, o apelo de um populista que promete soluções fáceis para problemas complexos, o oxigénio que alimenta o radicalismo actual. Pelo contrário, há a secura de quem avisa que a fuga à realidade tem sempre um preço diferido. É exactamente por isso que as suas palavras geram tanta rejeição no espaço público. O eleitorado português, habituado a ser tratado como um menor de idade pelo Estado-providência, detesta ser confrontado com a exigência da responsabilidade.

A tragédia do debate público português não é Pedro Passos Coelho continuar a ensombrar a política nacional, é o facto de, dez anos após a sua saída do poder, o país não ter produzido um único líder político, à esquerda ou à direita, com a mesma densidade conceptual e a mesma imunidade ao ciclo noticioso de 24 horas.

Aqueles que analisam as suas declarações à procura de sinais tácticos para uma candidatura presidencial ou uma conspiração interna no PSD não estão apenas errados, estão a medir um problema tectónico com uma régua de plástico. Passos Coelho não é um candidato em espera. É um espelho. E a imagem que a classe política e o país lá vêem refletida, a de um país viciado no declínio suave, assustado com o seu próprio futuro, é insuportável de encarar.

PEDRO PASSOS COELHO        POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 10)

Antonio Torres: Brilhante análise

Paulo Silva: Ele lembra a uma direita complexada que a moderação não significa a aceitação pacífica dos dogmas do adversário.

Bullseye! A direita tradicional está feita zombie sob o efeito de algum opioide que a esquerda sintetizou, ou então caiu na casca de banana que o politicamente correcto lhe lançou aos pés, e nunca mais se levantou...

Caríssimo Rui Sampaio

Um olhar atento, perspicaz realista e bem fundamentado sobre  " a imagem que a classe política e o país lá veem no dito espelho, é efetivamente insuportável de encarar. Tal como afirma neste artigo : " O atual ecossistema político, ancorado num centro que gere equilíbrios de curto prazo, especializou-se na administração de paliativos " ,  num país: "Temos impostos  de    padrão nórdico   a   financiar   serviços   públicos   de  matriz balcânica." As observações de PPC levam as esquerdas , os socialistas e o próprio PSD percecionar o perigo de perderem a bússola que sempre os orientou num style de governação, que sempre lhes permitiu se  servirem do país, mas não, servirem o país e  os portugueses .  A liderança atual receia perder a cadeira do Poder e o seu " pão com manteiga ", que partilha com suas elites !...Já escrevi aqui no Observador alguns comentários onde alego:  PS e PS.2  governam em regime de « comunhão de bens », pelo que desde há praticamente 50 anos vivemos em ciclos sucessivos de pobreza e subdesenvolvimento.

* BRILHANTE A FRASE FINAL SOBRE O ESPELHO *

Caríssimo Rui Sampaio, obrigada pela excelente análise onde tanto o  governo como a oposição, definitivamente não gostam do " espelho " - Pedro Passos Coelho, o Estadista dotado de um pensamento e de um desígnio para o país.

Gabriel Madeira: Excelente.

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