Uma MARIA JOÃO AVILLEZ atenta ao
mundo, com o sentido de ponderação harmoniosa e sem esgares nem pedantismos.
Hoje é só
disto que se trata
Surpreendentíssimo é ter
sido Leão XIV o primeiro “grande” a entrar em cena com o argumento da IA:
sozinho, diante da plateia do mundo. Entre a esperança e o perigo, a vantagem e
a desvantagem.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do
Observador
OBSERVADOR, 10 jun. 2026, 00:25
1Um dos factos que sem sombra de dúvida mais impacto
tiveram para além dos círculos e circuitos religiosos; que maior interesse
global suscitaram e maior capacidade interpelativa obtiveram em qualquer ponto
cardeal deste vasto mundo, foi a primeira encíclica de Leão XIV, “Magnifica Humanitas”.
Título inspiradíssimo (tudo o que precisamos de voltar a ouvir dizer, para
voltar a acreditar).
As reacções ao texto papal,
brotando instantaneamente, lembraram algumas coisas que se achavam
arrumadas na memória – a antiguidade, a presença, a sabedoria da Igreja –
e confirmaram outras: a permanente atenção, a vitalidade, a aguda observação do
mundo que leva já dois mil anos de prática, a oferta do caminho, a escolha do
bom combate.
2Há muito que não me lembro de um feito – e efeito –
planetário tão marcante: o Chefe da Igreja remando sozinho contra as marés
dos tempos e ventos, mas oh! com que serenidade. E oh! com que firmeza
nessa serenidade, face a um mundo atónito com o feito. E reagindo
entre o amparo de que necessita e o medo que o verbo do Santo Padre interrompa
ou rompa os lucrativos interesses da corrida da Inteligência Artificial.
3Um dos pontos porém mais inesperados e até
surpreendentíssimo é ter sido Leão XIV o primeiro “grande” a entrar
decididamente em cena com o argumento da IA: sozinho, no centro do palco, diante
da plateia do mundo. Com vigorosa lucidez e um imenso equilíbrio
entre a esperança e o perigo, a vantagem e a desvantagem. Sim estava sozinho
porque antes não o estivera: muitos tinham sido chamados por ele a dizer,
transmitir, reflectir em voz alta.
E se seria grande a orquestra
e muitos os músicos, houve um só maestro, Leão XIV. Saúde-se o maestro.
4Claro que houve também desde há um bom ar de anos
muita gente boa e séria debruçada sobre isto. Investigando e descobrindo, ao
mais alto nível da ciência; avisando sobre a bondade e a maldade deste
instrumento tão capaz de luz como da negritude. Onde porém quero chegar é que não
foram resoluções públicas de cientistas de excelência; nem documentos de chefes
políticos ou “pappers” de grandes meios económicos, quem primeiro ergueu a voz
a nível global.
Foi o Papa.
5Por isso sim, pode falar-se da coragem de Leão
XIV. Deve-se. A coragem de um “Chefe” que escolheu intervir e desceu
ao terreno. Depois olhou-nos de frente e propôs uma profundíssima
reflexão contra a corrente de critérios hoje quase absolutos – o lucro, o
interesse, a eficiência (e a sua mistificação) – deixando em troca uma
simples pergunta: em que humanidade nos queremos tornar? Ou vamos consentir
que nos tornem?
Repare-se ainda que enquanto a
também notável encíclica Rerum
Novarum do Papa Leão XIII pode ter surgido ao mundo com
algum “atraso” face ao adiantado estado de gravidade das coisas – políticas,
económicas, sociais – de então, a “Magnifica Humanitas” talvez venha a tempo do
discernimento para o qual fomos convidados (crentes e não crentes, obviamente).
6Ou seja, o Chefe da Igreja foi à raiz e à
natureza do que pela primeríssima vez está em causa na história da humanidade: a sua substituição pura e simples e
com pressa por máquinas com mais pressa.
Foi do Vaticano que veio a
indispensabilidade de saber o que queremos fazer de nós. Foi dessa Igreja
de que muitos haviam desistido por achá-la irreversivelmente manchada pela
indizível tragédia dos abusos; ou que outros apelidavam de fragilizada,
envelhecida, irrelevante: sem visão, viço, jovens, plateias, futuro. Mas foi
de “lá” que brotou a “Magnifica Humanitas” que pôs o mundo em sentido.
7Eis o que causa espanto mas o espanto também pode
produzir a graça.
COMENTÁRIOS:
Fernando ce: Com o devido respeito, os
temas começam a ser enjoativos. Precisa-se de disrupção, “pedrada no charco” ,
num país dominado pelos amiguismos, e pelas corporações e instituições “
discretas”...Há que falar por quem não tem assistência na saúde, habitação
condigna, uma escola dominada pelos interesses dos professores, uma Universidade cada vez mais
fechada sobre si própria, pela falta de defesa dos mais fracos, e até dos
“simples” consumidores. E também, nas redes de imigração ilegal que beneficiam
tanta gente mas prejudicam a maioria, bem como dogmas socialistas que nos
impedem de crescer. Olhe, tome como exemplo a Helena Matos. PS: já agora não vi
o Papa a condenar de forma veemente em Angola a corrupção do poder do Estado e
a miséria do povo. E que me lembre nem se pronunciou sobre a morte do bispo de
Quelimane. É mais fácil atacar o Trump… graça Dias > Tim do A: Este
Papa então, é um activista político.
Quanto eu gostaria de ouvir com palavras de conforto e esperança para o povo
iraniano, perseguido, massacrado, torturado e assassinado por um regime
teocrático de tiranos, que este Papa nunca condenou. Quanto eu gostaria que
este Papa fizesse uma qualquer referência sobre o genocídio em curso na Nigéria, perpetrado pelos
islâmicos contra as comunidades católicas!... nem uma palavra. Como foi
possível a eleição de um ativista para a cadeira de S. Pedro, que silencia
crimes hediondos contra os católicos, sem se ignorar o que se está a passar em
França com os ataques bárbaros a igrejas, basílicas e mosteiros de culto
católico, em que rebentam os vitrais, decapitam as imagens da Virgem Maria,
partem em pedaços a Cruz de Cristo, etc... Tim do Agraça Dias: Já o papa anterior era um activista político de
esquerda. A Igreja católica rendeu-se à extrema esquerda. Tim do A > Fernando ce: Os
papas ultimamente não têm sido muito diferentes de um jornalista da CNN... Ruço Cascais > graça Dias: Este
Papa é como a Maria João Avilez; conservadora de direita, mas, com uma grande
admiração por Mário Soares e os socialistas de um modo geral dos anos 80/90 Mas
não é apenas a autora da crónica que sofre de esquizofrenia política, o nosso
social-democrata Pacheco Pereira eleva esse estatuto a níveis psiquiátricos. Os
Papas, obrigatoriamente, não podem fazer como os Sikhs e andarem de espada à
cinta a cortarem cabeças nas ruas de Belfast (misturei tudo, porque é tudo a
mesmíssima coisa). O posicionamento de qualquer Papa tem que promover a paz
acima de tudo e seguir a máxima cristã; levas um estalo no lado direito da cara
e respondes dando a outra face. Mesmo assim, este papa-americano parece-me
ligeiramente mais corajoso do que o falecido Papa Francisco, e, desconfio, que
se alguém lhe bater ele é capaz de mandar a habitual resposta cristã para as
urtigas e responder na mesma moeda. graça Dias > Fernando ce:
Excelente comentário, que subscrevo na integra. graça Dias > Ruço Cascais: Caríssimo
Ruço Cascais:Só posso concordar com as suas observações. Estou crente que este
Papa em vez de ocupar a cadeira de S.
Pedro, deveria ter aguardado pela saída do < líder espiritual> da
ONU -- AG, e candidatar-se ao palco
principal do activismo político.
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