quinta-feira, 11 de junho de 2026

Como sempre

 

Uma MARIA JOÃO AVILLEZ atenta ao mundo, com o sentido de ponderação harmoniosa e sem esgares nem pedantismos.

Hoje é só disto que se trata

Surpreendentíssimo é ter sido Leão XIV o primeiro “grande” a entrar em cena com o argumento da IA: sozinho, diante da plateia do mundo. Entre a esperança e o perigo, a vantagem e a desvantagem.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 10 jun. 2026, 00:25

1Um dos factos que sem sombra de dúvida mais impacto tiveram para além dos círculos e circuitos religiosos; que maior interesse global suscitaram e maior capacidade interpelativa obtiveram em qualquer ponto cardeal deste vasto mundo, foi a primeira encíclica de Leão XIV, “Magnifica Humanitas”. Título inspiradíssimo (tudo o que precisamos de voltar a ouvir dizer, para voltar a acreditar).

As reacções ao texto papal, brotando instantaneamente, lembraram algumas coisas que se achavam arrumadas na memóriaa antiguidade, a presença, a sabedoria da Igreja e confirmaram outras: a permanente atenção, a vitalidade, a aguda observação do mundo que leva já dois mil anos de prática, a oferta do caminho, a escolha do bom combate.

2Há muito que não me lembro de um feito – e efeito – planetário tão marcante: o Chefe da Igreja remando sozinho contra as marés dos tempos e ventos, mas oh! com que serenidade. E oh! com que firmeza nessa serenidade, face a um mundo atónito com o feito. E reagindo entre o amparo de que necessita e o medo que o verbo do Santo Padre interrompa ou rompa os lucrativos interesses da corrida da Inteligência Artificial.

3Um dos pontos porém mais inesperados e até surpreendentíssimo é ter sido Leão XIV o primeiro “grande” a entrar decididamente em cena com o argumento da IA: sozinho, no centro do palco, diante da plateia do mundo. Com vigorosa lucidez e um imenso equilíbrio entre a esperança e o perigo, a vantagem e a desvantagem. Sim estava sozinho porque antes não o estivera: muitos tinham sido chamados por ele a dizer, transmitir, reflectir em voz alta.

E se seria grande a orquestra e muitos os músicos, houve um só maestro, Leão XIV. Saúde-se o maestro.

4Claro que houve também desde há um bom ar de anos muita gente boa e séria debruçada sobre isto. Investigando e descobrindo, ao mais alto nível da ciência; avisando sobre a bondade e a maldade deste instrumento tão capaz de luz como da negritude. Onde porém quero chegar é que não foram resoluções públicas de cientistas de excelência; nem documentos de chefes políticos ou “pappers” de grandes meios económicos, quem primeiro ergueu a voz a nível global.

Foi o Papa.

5Por isso sim, pode falar-se da coragem de Leão XIV. Deve-se. A coragem de um “Chefe” que escolheu intervir e desceu ao terreno. Depois olhou-nos de frente e propôs uma profundíssima reflexão contra a corrente de critérios hoje quase absolutos – o lucro, o interesse, a eficiência (e a sua mistificação) – deixando em troca uma simples pergunta: em que humanidade nos queremos tornar? Ou vamos consentir que nos tornem?

Repare-se ainda que enquanto a também notável encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII pode ter surgido ao mundo com algum “atraso” face ao adiantado estado de gravidade das coisas – políticas, económicas, sociais – de então, a “Magnifica Humanitastalvez venha a tempo do discernimento para o qual fomos convidados (crentes e não crentes, obviamente).

6Ou seja, o Chefe da Igreja foi à raiz e à natureza do que pela primeríssima vez está em causa na história da humanidade: a sua substituição pura e simples e com pressa por máquinas com mais pressa.

Foi do Vaticano que veio a indispensabilidade de saber o que queremos fazer de nós. Foi dessa Igreja de que muitos haviam desistido por achá-la irreversivelmente manchada pela indizível tragédia dos abusos; ou que outros apelidavam de fragilizada, envelhecida, irrelevante: sem visão, viço, jovens, plateias, futuro. Mas foi de “lá” que brotou a “Magnifica Humanitas” que pôs o mundo em sentido.

7Eis o que causa espanto mas o espanto também pode produzir a graça.

COMENTÁRIOS:

Fernando ce: Com o devido respeito, os temas começam a ser enjoativos. Precisa-se de disrupção, “pedrada no charco” , num país dominado pelos amiguismos, e pelas corporações e instituições “ discretas”...Há que falar por quem não tem assistência na saúde, habitação condigna, uma escola dominada pelos interesses dos  professores, uma Universidade cada vez mais fechada sobre si própria, pela falta de defesa dos mais fracos, e até dos “simples” consumidores. E também, nas redes de imigração ilegal que beneficiam tanta gente mas prejudicam a maioria, bem como dogmas socialistas que nos impedem de crescer. Olhe, tome como exemplo a Helena Matos. PS: já agora não vi o Papa a condenar de forma veemente em Angola a corrupção do poder do Estado e a miséria do povo. E que me lembre nem se pronunciou sobre a morte do bispo de Quelimane. É mais fácil atacar o Trump…                    graça Dias > Tim do A: Este Papa então, é  um activista político. Quanto eu gostaria de ouvir com palavras de conforto e esperança para o povo iraniano, perseguido, massacrado, torturado e assassinado por um regime teocrático de tiranos, que este Papa nunca condenou. Quanto eu gostaria que este Papa fizesse uma qualquer referência sobre o genocídio  em curso na Nigéria, perpetrado pelos islâmicos contra as comunidades católicas!... nem uma palavra. Como foi possível a eleição de um ativista para a cadeira de S. Pedro, que silencia crimes hediondos contra os católicos, sem se ignorar o que se está a passar em França com os ataques bárbaros a igrejas, basílicas e mosteiros de culto católico, em que rebentam os vitrais, decapitam as imagens da Virgem Maria, partem em pedaços a Cruz de Cristo, etc...                          Tim do Agraça Dias: Já  o papa anterior era um activista político de esquerda. A Igreja católica rendeu-se à extrema esquerda.                          Tim do A > Fernando ce: Os papas ultimamente não têm sido muito diferentes de um jornalista da CNN...                            Ruço Cascais > graça Dias: Este Papa é como a Maria João Avilez; conservadora de direita, mas, com uma grande admiração por Mário Soares e os socialistas de um modo geral dos anos 80/90 Mas não é apenas a autora da crónica que sofre de esquizofrenia política, o nosso social-democrata Pacheco Pereira eleva esse estatuto a níveis psiquiátricos. Os Papas, obrigatoriamente, não podem fazer como os Sikhs e andarem de espada à cinta a cortarem cabeças nas ruas de Belfast (misturei tudo, porque é tudo a mesmíssima coisa). O posicionamento de qualquer Papa tem que promover a paz acima de tudo e seguir a máxima cristã; levas um estalo no lado direito da cara e respondes dando a outra face. Mesmo assim, este papa-americano parece-me ligeiramente mais corajoso do que o falecido Papa Francisco, e, desconfio, que se alguém lhe bater ele é capaz de mandar a habitual resposta cristã para as urtigas e responder na mesma moeda.                 graça Dias > Fernando ce: Excelente comentário, que subscrevo na integra.                    graça Dias > Ruço Cascais: Caríssimo Ruço Cascais:Só posso concordar com as suas observações. Estou crente que este Papa em vez  de ocupar a cadeira de S. Pedro, deveria ter aguardado pela saída do < líder espiritual> da ONU  -- AG, e candidatar-se ao palco principal do activismo político.

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