Que gostamos de encobrir e que JNP desmascara com a sua integridade
sapiente e intemerata.
"O
Fascismo nunca existiu"
Apesar do
anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização
da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram
fascistas.
JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador
OBSERVADOR, 04 jun. 2026, 00:24
“On est toujours le
fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le
fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter
algum rigor.
O regime trazido pelo
movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos,
não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear”
(como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia
até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer
algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e
fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.
Depois de 1945, o adjectivo “fascista” passou a
ser um insulto na linguagem política corrente. Tanto assim foi
que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960, os comunistas soviéticos
passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e também nunca faltaram nem
faltam direitistas a chamar “fascistas” aos esquerdistas mais radicais,
incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso, a prestar um grande serviço
à pátria.
A prova de que a esquerda continua vitoriosa na
batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de
insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século
XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e
referências do comunismo internacional. Para se medir
com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto,
encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.
A guerra civil europeia
Ao criar, em Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta
de classes” e o conceito de “inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na
Rússia um “terror vermelho” e consequentemente um “terror branco”, o comunismo
acabou por desencadear em muitos países europeus a supressão das instituições
liberais em crise.
Foi também para
responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus
“camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do
fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do comunismo,
é o Partido. Nos Estados ideológicos, o PARTIDO comanda a
Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do Partido Nacional Fascista, que
adoptava uma ideologia económica e socialmente revolucionária, indissociável do
paganismo e da crença num mítico “homem novo”. A infeliz entrada da Itália na guerra
em 1940, pressionada pelo Partido, estava também integrada numa cultura
futurista que via a violência como força transformadora e a guerra como
“higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano “viver perigosamente”.
O 28 de Maio, a Ditadura Militar e o Estado Novo, além
do que pudessem ter em comum com o fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o
iliberalismo, o anticomunismo –, eram diferentes. Eram conservadores,
religiosos e o seu antiparlamentarismo não era dogmático, mas fundado na
experiência histórica da Primeira República. Salazar era um conservador, que
não gostava do “viver perigosamente” de Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri
Massis, o “viver
habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo.
Dava-se também que o partido político-institucional de Salazar não era a União
Nacional, uma organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de
seleccionar, sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à
presidência da República.
O Exército e Salazar
O partido único e árbitro constituinte do Estado
Novo não era a União Nacional, era o Exército. Por isso o regime caiu pela mão do
Exército.
A verdade é que o regime
português teve como líder um homem sem partido e que não gostava de partidos, um
académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e caudais, mas
onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista, nem o desejo,
também fascista, de mobilizar as massas populares na construção de um Estado
paratotalitário e social.
O que há em Salazar é um pessimismo antropológico
augustiniano, uma visão conservadora e crítica da História e da Vida, com uma
hierarquia de valores políticos onde a nação – e o Estado como “nação
politicamente organizada” – surgem à cabeça. A sua formação intelectual
tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras, Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget
– e é inseparável do catolicismo social. Mas baseia-se,
acima de tudo, na experiência negativa da Primeira República, das suas fraudes,
da sua instabilidade, da sua incoerência entre os princípios proclamados e a
política praticada.
Foi esta democracia que os militares do 28 de Maio
derrubaram há um século, data que coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia
Judiciária na sede do Partido Socialista e na detenção de alguns dos seus
distintos militantes (totalmente alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo
facto de estarem nele inscritos e de, nessa qualidade, exercerem cargos de
confiança).
A cabala
Alguns dirigentes e militantes socialistas viram na incursão
policial uma provocação fascisto-salazarista: por que outra
razão teria a Judiciária escolhido o 28 de Maio, e logo no ano do centenário do início
de “uma
das épocas mais negras do nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista,
ferindo-o na sua sede, santuário anti-fascista por excelência?
Só porque militantes contratavam empresas dos seus camaradas para prestar
serviços às autarquias onde estavam? E que tinha o Partido que ver com isso?
Não, a Judiciária viera propositadamente ao
Largo do Rato com todo o aparato para evocar Gomes da Costa a marchar sobre
Lisboa para correr com os Democráticos. E como não ver naqueles polícias
PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato judicial, um idóneo e idoso lar de
antifascistas?
E quanta pequenez! Tanto
aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos em circuito
fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões do grande
Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na Venezuela?
Aqui,
onde os verdadeiros fascistas acabaram na oposição
Há cem anos, a maior parte
dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com recurso ao
“estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo liberal e
a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características
autoritárias e nacional-conservadoras.
Mas não foram “fascistas”, como tantas vezes são qualificados.
Esta desclassificação
não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos em matéria, por
exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo húngaro do
almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o fascismo
mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a votação no
Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a monarquia dos
Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.
Além de um certo folclore
de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização da política” –
nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes, azuis ou
vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho fechado) – o regime
português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no anti-comunismo, não
foi fascista.
Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura,
repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo,
anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma
tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E
também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente
pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na
oposição.
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