De sempre. Livro sagrado se chama. E todavia, nem
sempre justo, conquanto se pretenda impecável.
Kierkegaard
para bateristas
Continua a ser difícil compreender Kierkegaard? É
sinal provável de que tinha razão. Sem medo do ridículo, um baterista chega lá
tranquilamente.
TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO Pastor Baptista, colunista do
Observador
OBSERVADOR,14 jun. 2026, 12:05
Escrevia na semana passada
que “Temor e
Tremor” do Soren
Kierkegaard é a seguir à Bíblia o meu livro preferido. Uma
afirmação destas não se livra de alguma medida de ridículo, até
porque só li este livro duas vezes do início ao fim. Mas até o
reconhecimento do ridículo é algo que considero fundamental na vida de uma
pessoa, também graças à influência do “Temor e Tremor”. Como regra geral, não
respeito gente que sabe esconder o ridículo. Ensinou-me a Bíblia e o
Kierkegaard.
Tento evangelizar todas as pessoas neste evangelho duplo da
Bíblia e do Kierkegaard. Tanto assim é que durante o mês de
Junho a aula de Escola Bíblica Dominical que ensino na Lapa é acerca do “Temor e Tremor”. Tenho a
noção da dificuldade. Relembro uma história que creio que já aqui contei: há
uns anos convenci o baterista das minhas bandas, o Joel Silva, a ler o
Kierkegaard. Começou pelo “Desespero Humano” e, frustrado, devolveu-me o
livro uns meses depois sem ter percebido nada.
Nasceu-me naquele dia uma vocação futura:
um dia o meu magnum opus será o livro que escreverei para o meu fiel
amigo Joel, explicando em linguagem mais acessível do que a do escritor
dinamarquês a razão por que ele deve ser lido por todos. O
livro vai chamar-se “Kierkegaard Para Bateristas” e finalmente conquistará
a crítica sofisticada que tem ignorado todos os meus anteriores. Uma pessoa
precisa de objectivos na vida
Sim, o Kierkegaard não é um escritor acessível. Mas desde quando é que as pessoas que
nos marcam são escolhidas em termos de acesso? As nossas
existências não dependem de “regimes da acessibilidade a edifícios e
estabelecimentos”. Não somos casas que foram arquitectadas; somos, na melhor
das hipóteses, vivendas saloias que se foram construindo entre
momentos de alguma prosperidade e alguma penúria. Autores
acessíveis são óptimos para condomínios fechados.
“Temor e Tremor” é uma meditação
imaginativa sobre o sacrifício de Isaque pelo seu pai Abraão. Deus
ordena que Isaque, o filho prometido que só chegou na velhice, deve ser
sacrificado como prova da fé de Abraão. “Abraão, montado no
seu burro, seguia com a tristeza em frente e Isaque ao seu lado. (…) Caminharam
em silêncio durante três dias. (…) A partir deste dia Abraão envelheceu; não
pôde esquecer aquilo que Deus lhe exigira”. Kierkegaard não escreveu um livro,
realizou um filme.
O que sai daqui? “Paradoxo é a fé, paradoxo capaz de
fazer de um crime um acto santo e agradável a Deus, paradoxo que devolve
a Abraão o seu filho, paradoxo que não pode reduzir-se a nenhum raciocínio, porque
a fé começa precisamente onde acaba a razão.” E as linhas
do livro vão complicar-se mais ainda, com o pensador dinamarquês a demorar-se
em ironias da mitologia grega, em bocas directas a Hegel, e finalmente em distinguir entre uma vida estética,
outra ética e a superior: a religiosa.
Quando relia o livro ao início
sentia-me no céu, ainda mais arrebatado do que na primeira leitura de há 26
anos. Nas partes complicadas avancei teimosamente sabendo que o fim chegaria.
Quando acabei a leitura, sempre o meu momento preferido dela, o
arrebatamento tinha passado mas a certeza confirmou-se: não há autor que tenha feito tanta
mossa na minha vida como o bom Kierkegaard.
Para Kierkegaard o cristianismo não é uma religião com
a capacidade moral de conquistar a admiração do mundo. Pelo
contrário, Abraão é
um exemplo “porque a sua vida é como um livro sob sequestro divino. (…) Está só
em todos os momentos”. Os três dias que distanciaram a morte de Jesus da sua
ressurreição são os três dias da angústia de Abraão a caminho de sacrificar o
seu filho, exemplo para qualquer crente, chamado a prescindir dos seus
sentimentos e raciocínios para que a sua fé seja a sua personalidade, contra
tudo e contra todos, se necessário.
A pessoa que aceita as circunstâncias absurdas que o
cristianismo nos exige terá um inesperado final feliz: “então, levantou Abraão os seus olhos
e olhou, e eis um carneiro detrás dele, travado pelas suas pontas num mato; e
foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu
filho”
(Génesis 22:13). Continua a ser difícil compreender Kierkegaard? É sinal
provável de que tinha razão. Sem medo do ridículo, um baterista chega lá
tranquilamente.
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