E o agravamento climático, consequente do desmazelo por
aquela.
Calor chegou mais cedo. Vamos ter um verão com mais fogos? Ou
um inverno com mais tempestades?
FILOMENA MARTINS: Texto
MIGUEL FERASO CABRAL: Ilustração
Em entrevista, JORGE MIGUEL MIRANDA explica
como a falta de manutenção de florestas e infraestruturas é uma das falhas
estruturais em Portugal para a mudança de clima: com mais chuva e mais calor.
OBSERVADOR, 28 jun. 2026, 20:33
JORGE MIGUEL MIRANDA é um dos especialistas em riscos
naturais mais influentes em Portugal, com uma carreira longa ligada ao estudo
do clima, do oceano e da proteção civil. Geofísico de formação, foi presidente
do Instituto Hidrográfico, dirigiu o Instituto de Meteorologia (hoje IPMA) e
esteve em vários órgãos de coordenação científica (como a Organização
Meteorológica Mundial e o Centro Europeu de Previsão do Tempo) e gestão
operacional ligados à gestão do território e à prevenção de catástrofes. Na entrevista, fala como técnico e
como cidadão: explica porque é que Portugal aqueceu nas últimas décadas, como
isso está a agravar os incêndios, as cheias e as tempestades, e insiste que o
maior problema já não é só meteorológico, é estrutural e cultural.
TOMAS SILVA/OBSERVADOR
Nestes últimos anos,
Portugal tem vivido verões marcados por grandes incêndios: 2017 foi uma
tragédia e desde então parece haver um padrão. Estamos perante uma tendência
estrutural? É o novo “normal”?
“Normal” é uma palavra usada
pelos meteorologistas para classificar uma média de 30 anos: se estivermos a
falar perto do que foram esses 30 anos, estamos numa situação normal. Na
verdade, nunca vamos estabilizar exactamente esse conceito, porque se calcula
“normal” para 60–70, 70–80, 80–90, 90–100. Basta ir à página dos
institutos meteorológicos do mundo para perceber que as normais foram evoluindo
– e é natural que continuem a evoluir com essa taxa –, o que significa,
seguramente, que vamos ter um tempo um bocadinho mais quente.
Parece haver um padrão
de verões cada vez mais quentes, secos e propícios a grandes incêndios. Do
ponto de vista meteorológico, a subida das temperaturas de 30 em 30 anos já é
uma tendência consolidada?
Se considerarmos o que nos vai
acontecer para o ano ou daqui a dois anos, o risco é muito determinado pela
meteorologia. Por isso existe o índice mais famoso para determinar o risco
de incêndio rural, em Portugal e em qualquer país, inicialmente definido
pelos canadianos, o FWI,
Fire Weather Index, um índice meteorológico. Contudo, o principal factor
de risco não é a meteorologia: é a forma como está ocupado o território. Enquanto tivermos uma grande área de
floresta não-gerida, entregue à sua própria “autoridade” ou à falta dela, o
risco será sempre crescente. Se aumentar a área dessa floresta deixada ao deus-dará, o
risco vai continuar a aumentar.
Além desse índice de que falou, fala-se muito dos
chamados 3D: calor acima dos 30 graus, vegetação seca, desidratação dos solos.
Este “cocktail” está hoje mais presente do que há 10 ou 20 anos?
Está mais presente porque a
temperatura média aumentou. O aumento de temperatura tem a ver com o
equilíbrio radiométrico da Terra e com a composição da atmosfera. O
aumento de temperatura também aumenta a evapotranspiração das plantas e temos
mais aridez. Estamos numa zona do mundo muito variável. Sempre
foi assim. Vamos ter ciclos de estio e anos chuvosos que se vão alternando à
medida que a temperatura vai subindo. Inexoravelmente. Os ciclos de estio têm
tendência a ser mais intensos e os ciclos de chuva aparentemente têm
tendência a ser mais concentrados.
Existe um drama nos anos bons:
quanto mais anos bons temos, piores são os que se seguem, porque a biomassa vai
sempre aumentando. Dizemos: “Passámos perto, tivemos quase uma desgraça, mas
safámo-nos bem (...) mas para o ano vai ser pior. Cada vez o desafio é mais
difícil, a menos que haja uma mudança grande de pensamento colectivo.
E mais intensos?
E mais intensos.
Já é possível antecipar
se este verão será particularmente perigoso? Há indicadores? Há sinais que
apontem para elevado risco de incêndios?
Do ponto de vista da
capacidade de previsão meteorológica de uma estação para a outra, aquilo a que
se chama previsão
sazonal, os resultados existentes são muito modestos. Tem-se falado
muito do El Niño.
E qual El Niño vai existir este ano? Se nós tivermos um El Niño muito forte,
teoricamente isso deve levar a que as tempestades sejam menos fortes. Já os
incêndios são um problema diferente, vivem essencialmente da
acumulação de tempo quente. Nós temos tido algum tempo quente. Tempo que
anda um pouco mais quente que o normal, mas não tem nada a ver com o que se
observou, por exemplo, em França. Em França, sim, houve um extremo.
Mas a capacidade de previsão de incêndios a esta distância é muito
pequena. Já a capacidade de previsão de como vai estar o estado do terreno
daqui a seis meses é muito fácil de fazer, porque as plantas não vão
desaparecer. Por
enquanto ainda temos o nível freático alto. Se o dispositivo for
muito rápido a matar as ignições, pode ser que tenhamos a sorte de passar um
verão bom, mas na verdade nós fizemos tudo aquilo que não deveríamos ter feito.
Temos as casas
construídas no mesmo local, temos a floresta sem nenhum tipo de gestão, temos
as propriedades indivisas e espalhadas por todo o lado.
Choveu
muito, cresceram imenso as plantas e há muito material para arder.
Choveu muito, cresceu tudo muito, mas também há
muita árvore destruída. Está a haver um esforço grande para recolher
alguma dessa matéria. Existem planos para tentar utilizá-la em
bioenergia, em particular, que podem até ter alguma viabilidade. Mas
voltamos ao mesmo ponto: floresta
não-gerida é risco crescente de incêndio rural.
Estas noites quentes não ajudam nada, a atmosfera nunca
arrefece, certo?
Nós estamos a ter noites com
28 graus em França. Coisa que os franceses nunca tinham visto. E nós cá estamos
a ter temperaturas máximas perto dos 44 graus e 23/24 graus à noite. Para nós é
mais próximo do que vemos diariamente. Nós estamos a fazer a Amareleja. O
coberto vegetal não é compatível com este tipo de temperatura. Temos condições
para ter incêndios? Sim, temos. Temos sempre e em excesso. Temos muita produção
vegetal e podemos ter períodos prolongados de seca e de temperaturas altas, que
são condições para ter fenómenos extremos também. Então, agora que
somos capazes de observar praticamente todos, até parece que aumentaram mais do
que na realidade acontece. É como tudo na vida, há os riscos de existirem, de
se materializarem ou não. Só depois do fim do jogo é que nós vamos ser
capazes de dizer.
▲
Os incêndios de 2025, ano com a maior área ardida em Portugal
JOÃO
PORFÍRIO/OBSERVADOR
Se tivéssemos um verão com
temperaturas dentro da média, mesmo sendo a média mais alta do que há alguns
anos, isso reduziria significativamente o risco? Ou já temos um problema
acumulado no território?
Existe um drama nos anos
bons: quanto mais anos bons temos, piores são os que se seguem, porque a
biomassa vai sempre aumentando. Dizemos: “Passámos perto, tivemos quase uma
desgraça, mas safámo-nos bem…”
É o “para
o ano logo se vê…”
É, mas para o ano vai ser pior. Cada vez o desafio é
mais difícil, a menos que haja uma mudança grande de pensamento colectivo.
Se voltássemos a ter exactamente o mesmo verão de há 30
anos, arderia mais ou menos floresta do que hoje? E porquê?
Essas comparações são
difíceis. Temos um abandono crescente das áreas de floresta de muito baixo
rendimento e esse abandono é sempre um aumento do risco, a que se soma o
aumento do risco meteorológico. Estamos numa situação em que é “lose, lose”. É
maior o abandono e é maior o risco meteorológico. Teoricamente, a capacidade de
termos incêndios de grandes dimensões é muito grande. Essa capacidade existe
porque temos produtividade vegetal. E em vez de utilizarmos essa produtividade
para produzir riqueza, estamos a utilizá-la para produzir fogos florestais.
Estamos pior em cada ano do que no anterior. Podemos
ter muitos meios locais, centenas de carros de bombeiros, milhares de
sapadores, tudo o que quisermos, e ir adiando, como se diz “empurrar com a
barriga”, o principal. O problema é que esse “empurrar com a barriga” tem um
limite: há uma altura em que a barriga cai por cima de nós.
Isso quer dizer que Portugal pode deixar de ter
condições climáticas para determinados tipos de florestas?
O essencial não é bem o tipo de floresta que mantemos.
É o facto de não haver mosaicos de floresta-agricultura ou floresta-pastagem
que possam interromper manchas contínuas de floresta não tratada. Mas o mais
importante é encontrarmos um modelo económico para tratarmos a floresta.
Mas há também, ou não, uma tendência para os
fenómenos extremos serem cada vez mais frequentes e intensos?
Aparentemente, sim, há. É das
conclusões que existem que há uma razoável certeza: aumentando a temperatura, teremos
tendência para mais fenómenos extremos. Essa questão será muito importante nas
zonas urbanas, em particular litorais, porque os nossos riscos vêm do oceano,
directa ou indirectamente. É menos importante nas áreas do
interior. Apesar das tentativas, que diria incipientes, de encontrar
utilizações credíveis e sustentáveis para o interior, a verdade é que não têm
sido encontradas e que
estamos pior em cada ano do que no anterior. Podemos ter
muitos meios locais, centenas de carros de bombeiros, milhares de sapadores,
tudo o que quisermos, e ir adiando, como se diz “empurrar com a barriga”, o
principal. O problema é que esse “empurrar com a barriga” tem um limite: há uma
altura em que a barriga cai por cima de nós.
A
questão, como diz, vai por isso além do clima: envolve território abandonado,
floresta mal gerida. Até que ponto o problema dos incêndios é climático e até
que ponto é estrutural?
Tem uma componente social e
uma componente climática. A componente estrutural é determinante. Há algo
que posso garantir: podemos tentar resolver a componente estrutural; a climática não, pelo
menos com a mesma velocidade. Podemos resolver a climática
daqui a 30 ou 40 anos, mas mesmo que tomemos medidas agora, não teremos
resultados rapidamente. Do ponto de vista estrutural, sim, podemos tomar medidas.
Quem quiser, basta voltar aos documentos antigos da AGIF [Agência para a Gestão
Integrada de Fogos Rurais, I.P.] e ver o que se propôs em termos de
sucessões e posse da terra, para perceber que são propostas moderadíssimas,
superconservadoras, mas que, aplicadas, têm resultado. O que não podemos é estar sempre a
tratar os problemas pelo lado do subsídio, da ajuda, mantendo uma situação que
sabemos que só se pode manter com grandes fluxos financeiros.
Passando agora do verão
para o inverno. Tivemos aquele “comboio de tempestades”, “rios atmosféricos”
vindos da zona tropical, chuva sem parar. Este é um fenómeno novo ou é apenas
mais noticiado?
Um problema semelhante foi levantado há pouco tempo,
relacionado com o estado meteorológico da Madeira, por causa dos transportes
aéreos e da importância do turismo…
Sim, por causa das aterragens, com a chuva e o vento
fortes…
A conclusão a que se chegou é que o agravamento tinha
a ver com a posição do anticiclone dos Açores, era climático. O que
significa que se vai manter e talvez acentuar. É preocupante para a Madeira,
é preocupante para o Continente, e tem a ver com a passagem destes sistemas,
destas depressões que vêm do Atlântico, os tais “comboios de
tempestades”, com grande impacto no território. Eles também existiam
antes, só que estavam mais a norte e em territórios mais desenhados pelo
clima. É o clima que desenha o território; se o clima mudar, o
território vai ser redesenhado. Pode ser é redesenhado de forma
inteligente, com acção humana inteligente, que é rara de encontrar, ou pode ser
redesenhado porque os elementos naturais tomam conta do assunto. E, portanto,
tanto incêndio e tanta inundação haverá que a gestão do território terá de ser
trocada.
Portanto,
este é um padrão que se vai tornar mais frequente? Até porque me dizia que tudo
é definido pelo mar.
Tudo indica que o padrão se
vai acentuar e que temos de nos preparar. Vai pôr à prova a nossa capacidade de
desenhar sistemas de gestão de cidades e de áreas não-urbanas de forma rigorosa
e credível. E nós temos mais tendência para criar novas frentes, novas
estradas, novos viadutos, novas pontes, em vez de manter correctamente o
património que já temos. Se se acompanhou as inundações no Tejo e no
Mondego, ainda mais dramáticas, vê-se que o padrão é o mesmo: não mantemos o património que temos.
Estradas sem escoamento de água credível, viadutos mal dimensionados, etc.
Quem vive em cidades com viadutos, como Lisboa ou Porto, que repare na
dimensão dos sistemas de escoamento: normalmente é altamente insuficiente. Para
que serve essa “poupança” se depois gastamos dinheiro em mais 50 obras
faraónicas, muitas das quais nunca terão utilidade?
Somos um país com vícios de pobre: queremos
a ponte mais alta, o viaduto mais longo, recordes bacocos para nos encher o
ego, quando devíamos querer que a pequena estrada que liga a aldeia “A” à vila
“B” tenha o mesmo standard de uma estrada perto de uma grande cidade ou de uma
aldeia da Noruega. Devíamos usar bem as infraestruturas durante o tempo para que foram
feitas, e não pensar só em Santa Bárbara quando troveja.
A tempestade Kristin, a
mais forte desse “comboio” de janeiro-fevereiro, foi descrita como uma das mais
destrutivas de sempre em Portugal e teve ventos extremos, o “stingjet”. Também
devemos esperar mais episódios destes e mais frequentes?
Houve algo que me espantou
verdadeiramente. Quando a previsão já apontava para dias seguidos de
precipitação muito elevada, a ideia de todos os responsáveis era de que íamos
ter “alguns prejuízos”. “Alguns prejuízos”? Era óbvio que íamos ter muitos
prejuízos. Como é possível termos estado à beira da capacidade máxima de
armazenamento de açudes e barragens, com uma gestão muito eficaz da APA,
reconheça-se, mas no limite?
Sim, sempre ali no limite.
(CONTINUA)
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