segunda-feira, 29 de junho de 2026

A FLORESTA PORTUGUESA

 

E o agravamento climático, consequente do desmazelo por aquela.

Calor chegou mais cedo. Vamos ter um verão com mais fogos? Ou um inverno com mais tempestades?

FILOMENA MARTINS: Texto

MIGUEL FERASO CABRAL: Ilustração

Em entrevista, JORGE MIGUEL MIRANDA explica como a falta de manutenção de florestas e infraestruturas é uma das falhas estruturais em Portugal para a mudança de clima: com mais chuva e mais calor.

OBSERVADOR, 28 jun. 2026, 20:33

JORGE MIGUEL MIRANDA é um dos especialistas em riscos naturais mais influentes em Portugal, com uma carreira longa ligada ao estudo do clima, do oceano e da proteção civil. Geofísico de formação, foi presidente do Instituto Hidrográfico, dirigiu o Instituto de Meteorologia (hoje IPMA) e esteve em vários órgãos de coordenação científica (como a Organização Meteorológica Mundial e o Centro Europeu de Previsão do Tempo) e gestão operacional ligados à gestão do território e à prevenção de catástrofes. Na entrevista, fala como técnico e como cidadão: explica porque é que Portugal aqueceu nas últimas décadas, como isso está a agravar os incêndios, as cheias e as tempestades, e insiste que o maior problema já não é só meteorológico, é estrutural e cultural.

TOMAS SILVA/OBSERVADOR

Nestes últimos anos, Portugal tem vivido verões marcados por grandes incêndios: 2017 foi uma tragédia e desde então parece haver um padrão. Estamos perante uma tendência estrutural? É o novo “normal”?

“Normal” é uma palavra usada pelos meteorologistas para classificar uma média de 30 anos: se estivermos a falar perto do que foram esses 30 anos, estamos numa situação normal. Na verdade, nunca vamos estabilizar exactamente esse conceito, porque se calcula “normal” para 60–70, 70–80, 80–90, 90–100. Basta ir à página dos institutos meteorológicos do mundo para perceber que as normais foram evoluindo – e é natural que continuem a evoluir com essa taxa –, o que significa, seguramente, que vamos ter um tempo um bocadinho mais quente.

Parece haver um padrão de verões cada vez mais quentes, secos e propícios a grandes incêndios. Do ponto de vista meteorológico, a subida das temperaturas de 30 em 30 anos já é uma tendência consolidada?

Se considerarmos o que nos vai acontecer para o ano ou daqui a dois anos, o risco é muito determinado pela meteorologia. Por isso existe o índice mais famoso para determinar o risco de incêndio rural, em Portugal e em qualquer país, inicialmente definido pelos canadianos, o FWI, Fire Weather Index, um índice meteorológico. Contudo, o principal factor de risco não é a meteorologia: é a forma como está ocupado o território. Enquanto tivermos uma grande área de floresta não-gerida, entregue à sua própria “autoridade” ou à falta dela, o risco será sempre crescente. Se aumentar a área dessa floresta deixada ao deus-dará, o risco vai continuar a aumentar.

Além desse índice de que falou, fala-se muito dos chamados 3D: calor acima dos 30 graus, vegetação seca, desidratação dos solos. Este “cocktail” está hoje mais presente do que há 10 ou 20 anos?

Está mais presente porque a temperatura média aumentou. O aumento de temperatura tem a ver com o equilíbrio radiométrico da Terra e com a composição da atmosfera. O aumento de temperatura também aumenta a evapotranspiração das plantas e temos mais aridez. Estamos numa zona do mundo muito variável. Sempre foi assim. Vamos ter ciclos de estio e anos chuvosos que se vão alternando à medida que a temperatura vai subindo. Inexoravelmente. Os ciclos de estio têm tendência a ser mais intensos e os ciclos de chuva aparentemente têm tendência a ser mais concentrados.

Existe um drama nos anos bons: quanto mais anos bons temos, piores são os que se seguem, porque a biomassa vai sempre aumentando. Dizemos: “Passámos perto, tivemos quase uma desgraça, mas safámo-nos bem (...) mas para o ano vai ser pior. Cada vez o desafio é mais difícil, a menos que haja uma mudança grande de pensamento colectivo.

E mais intensos?

E mais intensos.

Já é possível antecipar se este verão será particularmente perigoso? Há indicadores? Há sinais que apontem para elevado risco de incêndios?

Do ponto de vista da capacidade de previsão meteorológica de uma estação para a outra, aquilo a que se chama previsão sazonal, os resultados existentes são muito modestos. Tem-se falado muito do El Niño. E qual El Niño vai existir este ano? Se nós tivermos um El Niño muito forte, teoricamente isso deve levar a que as tempestades sejam menos fortes. Já os incêndios são um problema diferente, vivem essencialmente da acumulação de tempo quente. Nós temos tido algum tempo quente. Tempo que anda um pouco mais quente que o normal, mas não tem nada a ver com o que se observou, por exemplo, em França. Em França, sim, houve um extremo. Mas a capacidade de previsão de incêndios a esta distância é muito pequena. Já a capacidade de previsão de como vai estar o estado do terreno daqui a seis meses é muito fácil de fazer, porque as plantas não vão desaparecer. Por enquanto ainda temos o nível freático alto. Se o dispositivo for muito rápido a matar as ignições, pode ser que tenhamos a sorte de passar um verão bom, mas na verdade nós fizemos tudo aquilo que não deveríamos ter feito. Temos as casas construídas no mesmo local, temos a floresta sem nenhum tipo de gestão, temos as propriedades indivisas e espalhadas por todo o lado.

Choveu muito, cresceram imenso as plantas e há muito material para arder.

Choveu muito, cresceu tudo muito, mas também há muita árvore destruída. Está a haver um esforço grande para recolher alguma dessa matéria. Existem planos para tentar utilizá-la em bioenergia, em particular, que podem até ter alguma viabilidade. Mas voltamos ao mesmo ponto: floresta não-gerida é risco crescente de incêndio rural.

Estas noites quentes não ajudam nada, a atmosfera nunca arrefece, certo?

Nós estamos a ter noites com 28 graus em França. Coisa que os franceses nunca tinham visto. E nós cá estamos a ter temperaturas máximas perto dos 44 graus e 23/24 graus à noite. Para nós é mais próximo do que vemos diariamente. Nós estamos a fazer a Amareleja. O coberto vegetal não é compatível com este tipo de temperatura. Temos condições para ter incêndios? Sim, temos. Temos sempre e em excesso. Temos muita produção vegetal e podemos ter períodos prolongados de seca e de temperaturas altas, que são condições para ter fenómenos extremos também. Então, agora que somos capazes de observar praticamente todos, até parece que aumentaram mais do que na realidade acontece. É como tudo na vida, há os riscos de existirem, de se materializarem ou não. Só depois do fim do jogo é que nós vamos ser capazes de dizer.

Os incêndios de 2025, ano com a maior área ardida em Portugal

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Se tivéssemos um verão com temperaturas dentro da média, mesmo sendo a média mais alta do que há alguns anos, isso reduziria significativamente o risco? Ou já temos um problema acumulado no território?

Existe um drama nos anos bons: quanto mais anos bons temos, piores são os que se seguem, porque a biomassa vai sempre aumentando. Dizemos: “Passámos perto, tivemos quase uma desgraça, mas safámo-nos bem…

É o “para o ano logo se vê…”

É, mas para o ano vai ser pior. Cada vez o desafio é mais difícil, a menos que haja uma mudança grande de pensamento colectivo.

Se voltássemos a ter exactamente o mesmo verão de há 30 anos, arderia mais ou menos floresta do que hoje? E porquê?

Essas comparações são difíceis. Temos um abandono crescente das áreas de floresta de muito baixo rendimento e esse abandono é sempre um aumento do risco, a que se soma o aumento do risco meteorológico. Estamos numa situação em que é “lose, lose”. É maior o abandono e é maior o risco meteorológico. Teoricamente, a capacidade de termos incêndios de grandes dimensões é muito grande. Essa capacidade existe porque temos produtividade vegetal. E em vez de utilizarmos essa produtividade para produzir riqueza, estamos a utilizá-la para produzir fogos florestais.

Estamos pior em cada ano do que no anterior. Podemos ter muitos meios locais, centenas de carros de bombeiros, milhares de sapadores, tudo o que quisermos, e ir adiando, como se diz “empurrar com a barriga”, o principal. O problema é que esse “empurrar com a barriga” tem um limite: há uma altura em que a barriga cai por cima de nós.

Isso quer dizer que Portugal pode deixar de ter condições climáticas para determinados tipos de florestas?

O essencial não é bem o tipo de floresta que mantemos. É o facto de não haver mosaicos de floresta-agricultura ou floresta-pastagem que possam interromper manchas contínuas de floresta não tratada. Mas o mais importante é encontrarmos um modelo económico para tratarmos a floresta.

Mas há também, ou não, uma tendência para os fenómenos extremos serem cada vez mais frequentes e intensos?

Aparentemente, sim, há. É das conclusões que existem que há uma razoável certeza: aumentando a temperatura, teremos tendência para mais fenómenos extremos. Essa questão será muito importante nas zonas urbanas, em particular litorais, porque os nossos riscos vêm do oceano, directa ou indirectamente. É menos importante nas áreas do interior. Apesar das tentativas, que diria incipientes, de encontrar utilizações credíveis e sustentáveis para o interior, a verdade é que não têm sido encontradas e que estamos pior em cada ano do que no anterior. Podemos ter muitos meios locais, centenas de carros de bombeiros, milhares de sapadores, tudo o que quisermos, e ir adiando, como se diz “empurrar com a barriga”, o principal. O problema é que esse “empurrar com a barriga” tem um limite: há uma altura em que a barriga cai por cima de nós.

A questão, como diz, vai por isso além do clima: envolve território abandonado, floresta mal gerida. Até que ponto o problema dos incêndios é climático e até que ponto é estrutural?

Tem uma componente social e uma componente climática. A componente estrutural é determinante. Há algo que posso garantir: podemos tentar resolver a componente estrutural; a climática não, pelo menos com a mesma velocidade. Podemos resolver a climática daqui a 30 ou 40 anos, mas mesmo que tomemos medidas agora, não teremos resultados rapidamente. Do ponto de vista estrutural, sim, podemos tomar medidas. Quem quiser, basta voltar aos documentos antigos da AGIF [Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, I.P.] e ver o que se propôs em termos de sucessões e posse da terra, para perceber que são propostas moderadíssimas, superconservadoras, mas que, aplicadas, têm resultado. O que não podemos é estar sempre a tratar os problemas pelo lado do subsídio, da ajuda, mantendo uma situação que sabemos que só se pode manter com grandes fluxos financeiros.

Passando agora do verão para o inverno. Tivemos aquele “comboio de tempestades”, “rios atmosféricos” vindos da zona tropical, chuva sem parar. Este é um fenómeno novo ou é apenas mais noticiado?

Um problema semelhante foi levantado há pouco tempo, relacionado com o estado meteorológico da Madeira, por causa dos transportes aéreos e da importância do turismo…

Sim, por causa das aterragens, com a chuva e o vento fortes…

A conclusão a que se chegou é que o agravamento tinha a ver com a posição do anticiclone dos Açores, era climático. O que significa que se vai manter e talvez acentuar. É preocupante para a Madeira, é preocupante para o Continente, e tem a ver com a passagem destes sistemas, destas depressões que vêm do Atlântico, os tais “comboios de tempestades”, com grande impacto no território. Eles também existiam antes, só que estavam mais a norte e em territórios mais desenhados pelo clima. É o clima que desenha o território; se o clima mudar, o território vai ser redesenhado. Pode ser é redesenhado de forma inteligente, com acção humana inteligente, que é rara de encontrar, ou pode ser redesenhado porque os elementos naturais tomam conta do assunto. E, portanto, tanto incêndio e tanta inundação haverá que a gestão do território terá de ser trocada.

Portanto, este é um padrão que se vai tornar mais frequente? Até porque me dizia que tudo é definido pelo mar.

Tudo indica que o padrão se vai acentuar e que temos de nos preparar. Vai pôr à prova a nossa capacidade de desenhar sistemas de gestão de cidades e de áreas não-urbanas de forma rigorosa e credível. E nós temos mais tendência para criar novas frentes, novas estradas, novos viadutos, novas pontes, em vez de manter correctamente o património que já temos. Se se acompanhou as inundações no Tejo e no Mondego, ainda mais dramáticas, vê-se que o padrão é o mesmo: não mantemos o património que temos. Estradas sem escoamento de água credível, viadutos mal dimensionados, etc. Quem vive em cidades com viadutos, como Lisboa ou Porto, que repare na dimensão dos sistemas de escoamento: normalmente é altamente insuficiente. Para que serve essa “poupança” se depois gastamos dinheiro em mais 50 obras faraónicas, muitas das quais nunca terão utilidade?

Somos um país com vícios de pobre: queremos a ponte mais alta, o viaduto mais longo, recordes bacocos para nos encher o ego, quando devíamos querer que a pequena estrada que liga a aldeia “A” à vila “B” tenha o mesmo standard de uma estrada perto de uma grande cidade ou de uma aldeia da Noruega. Devíamos usar bem as infraestruturas durante o tempo para que foram feitas, e não pensar só em Santa Bárbara quando troveja.

A tempestade Kristin, a mais forte desse “comboio” de janeiro-fevereiro, foi descrita como uma das mais destrutivas de sempre em Portugal e teve ventos extremos, o “stingjet”. Também devemos esperar mais episódios destes e mais frequentes?

Houve algo que me espantou verdadeiramente. Quando a previsão já apontava para dias seguidos de precipitação muito elevada, a ideia de todos os responsáveis era de que íamos ter “alguns prejuízos”. “Alguns prejuízos”? Era óbvio que íamos ter muitos prejuízos. Como é possível termos estado à beira da capacidade máxima de armazenamento de açudes e barragens, com uma gestão muito eficaz da APA, reconheça-se, mas no limite?

Sim, sempre ali no limite.

(CONTINUA)

Nenhum comentário: