segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Conflitos, sempre

 

No mundo das inteligências. Das ambições, também. Com retaliações, por vezes. Com petróleo, para aquecer mais.


O mundo de olhos postos em Bisqueque. O que está em causa na cimeira que vai reunir Putin, Xi, Modi, Pezeshkian e até Guterres?

No ano em que completa 25 anos, a SCO reúne no Quirguistão com conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, sanções ao Irão e gasodutos russos em cima da mesa.

António Moura dos Santos  - Texto

OBERVADOR, 31 ago. 2026, 00:32

Esta terça-feira tem início a 26.ª cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), no mesmo ano em que o grupo informal atinge os 25 anos de existência. Os encontros realizam-se em Bisqueque, a capital do  Quirgistão, um dos 10 membros deste bloco que tem assumido o objectivo de constituir uma força contrária à influência dos países ocidentais.

Nos dias que antecederam o início da cimeira, foi confirmada a presença de alguns dos líderes mais poderosos da Eurásia, como o presidente chinês Xi Jinping — que chegou este domingo — o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e o presidente russo Vladimir Putin.

Além disso, o encontro será também marcado pela comparência do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, num contexto de pressão económica crescente por parte dos EUA e no rescaldo dos primeiros ataques norte-americanos ao território em mais de um mês.

Segundo confirmou a agência de notícias turca Anadolu junto do secretariado da SCO, a agenda desta cimeira será marcada pelos principais desafios de segurança regionais e internacionais em curso, como os conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia.

Foi já anunciado que Putin vai ter encontros bilaterais com Pezeshkian e Xi, tendo este triângulo especial significância no contexto das tentativas de Donald Trump de bloquear apoios financeiros e militares a Teerão, particularmente por parte da China e da Rússia.

A 25 de agosto, a administração Trump iniciou a “Operação Exclusão Económica”, uma campanha de pressão económica consistindo na imposição de sanções secundárias aos parceiros comerciais do Irão nos sectores do ouro, da tecnologia, dos ativos digitais, da aviação e do transporte marítimo. Além disso, Washington ameaçou também os aliados do Irão com sanções directas. A China — que é um dos principais importadores de petróleo iraniano a nível mundial — já reagiu a estas acções, afirmando que irá “defender firmemente” os seus interesses.

Estas reuniões bilaterais em Bisqueque decorrem também dias depois de o director da CIA, John Ratcliffe, ter visitado Moscovo, com esta viagem a ser alvo de elevada especulação quanto ao que terá sido discutido no que toca aos conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia.

Além dos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, outros pontos de interesse desta cimeira residem na tentativa de descongelamento das relações diplomáticas entre a China e a Índia depois de anos de tensões fronteiriças, e na forma como a Índia e o Paquistão vão lidar com as consequências das escaramuças de maio do ano passado na região de Caxemira.

A interdependência e a conectividade económica também vão tomar um destaque importante, a começar pelo sector dos transportes. Um dos projectos na agenda é o corredor logístico [ferroviário e marítimo] promovido pela Rússia: projecctado para ter 7.200 quilómetros, deverá ligar São Petersburgo a Mumbai, passando pelo Irão e por portos do Golfo Pérsico.

Outro dos temas económicos na agenda é o projecto do gasoduto Siberian Force-2, infraestrutura planeada para transportar gás natural dos campos da Sibéria ocidental para o mercado chinês, atravessando o território da Mongólia. O acordo sobre este gasoduto não pôde ser concluído, como era desejo de Moscovo, durante a visita do chefe do Kremlin ao gigante asiático em maio passado.

Está ainda planeado retomar as discussões quanto à potencial criação de um Banco de Desenvolvimento da SCO, que tem sido alvo de sucessivas negociações quanto à sua estrutura e modalidades de funcionamento.

A Organização de Cooperação de Xangai centra grande parte da sua actividade na cooperação política, económica e de segurança, incluindo o combate ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo. Ao contrário da NATO, não dispõe de uma cláusula de defesa mútua e toma as suas decisões por consenso, mas tem assumido um importante papel geopolítico, principalmente pela forma como a China e a Rússia têm usado esta organização como força de pressão contra os adversários do Ocidente.

A reunião do ano passado em Tianjin, por exemplo, foi marcada por declarações de defesa pela criação de um “mundo multipolar” e por críticas mais ou menos veladas: se Putin acusou os países ocidentais de provocarem a guerra na Ucrânia, Xi denunciou “actos de intimidação” por parte dos EUA.

As origens deste grupo remetem para os “Cinco de Xangai”, formação precursora criada em 1996 pela China, a Rússia, o Cazaquistão, o Quirguistão e o Tajiquistão para mitigar tensões militares e resolver disputas fronteiriças na sequência do colapso da União Soviética. Quando o Uzbequistão aderiu, em 2001, este bloco tornou-se na Organização de Cooperação de Xangai.

Hoje, a SCO é composta por 10 países, com as entradas da Índia e do Paquistão como membros de pleno direito em 2017, seguindo-se o Irão em 2023 e a Bielorrússia em 2024. Além dos membros oficiais, juntam-se ainda o Afeganistão e a Mongólia como observadores e cerca de 15 parceiros de diálogo onde constam a Turquia, o Azerbaijão e a Arábia Saudita.

É no contexto deste grupo mais alargado que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também vai marcar presença na cimeira em Bisqueque, tendo previsto discursar na reunião da Organização de Cooperação de Xangai Plus, um formato alargado que reúne os membros da SCO e convidados, observadores e outros parceiros.

“Neste discurso, espera-se que o secretário-geral enfatize o valor da cooperação entre a ONU e a Organização de Cooperação de Xangai. Abordará também outros temas, incluindo os recentes acontecimentos no Médio Oriente”, confirmou o seu porta-voz, Stéphane Dujarric.

*com Lusa

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Natureza

 

O nosso mundo começa cá dentro da nossa porta, diz o cantor.

Mas temos de contar sempre com os imprevistos causados pelas ambições alheias, nós próprios também já tendo dado provas disso.

 

Mais de um mês depois, EUA voltam a atacar Irão que já retaliou

Os Estados Unidos atacaram o Irão, na ilha Larak, para impedir o lançamento de rockets que pretendiam voltar a colocar minas no Estreito de Ormuz. O Irão já retaliou com ataques a bases na Jordânia.

Agência Lusa

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Observador

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31 ago. 2026, 00:39

epa13125319 Cargo vessels are seen at one end of the Strait of Hormuz near the coast of Dibba Al Fujairah, United Arab Emirates, 21 July 2026.  EPA/STRINGER

STRINGER/EPA

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A última vez que os Estados Unidos tinham atacado o Irão foi a 29 de julho. Um mês depois voltam a atacar. Atingiram lançadores de ‘rockets’ que se preparavam para lançar minas no Estreito de Ormuz, segundo foi noticiado.

Meios de comunicação semioficiais iranianos noticiaram sons de explosões nas proximidades da ilha iraniana de Larak, que se situa nas imediações do estratégico estreito, no golfo Pérsico. As forças militares norte-americanas tinham indicado ter concluído a desminação das rotas de navegação internacional no estreito.

O Irão já retaliou. A Guarda Revolucionária do Irão fez saber que tinha lançado vários ataques a bases militares dos Estados Unidos na Jordânia. E se fontes norte-americanas dizem que o ataque terá sido interceptado, o corpo militar assegura que infligiu danos.

A televisão Al Jazeera noticiou, citando um responsável norte-americano sob condição de anonimato, que os Estados Unidos (EUA) atacaram dois lançadores de foguetes da Guarda Revolucionária localizados em Larak. Forças do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica foram observadas a preparar-se para lançar foguetes com minas navais para o estreito, segundo o responsável norte-americano, que falou sob anonimato para poder divulgar informações sobre estas movimentações militares de contornos sensíveis.

“Posso confirmar que, hoje de manhã, as forças norte-americanas atacaram dois lançadores iranianos na ilha de Larak. Foram observadas forças do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica a prepararem-se para lançar rockets com minas marítimas para o Estreito de Ormuz”, afirmou o porta-voz do Comando Central dos EUA, o capitão Tim Hawkins, ao Axios. O porta-voz adianta que as forças norte-americanas estão a “acompanhar de perto a zona”, continuando “preparadas para proteger o livre trânsito do comércio” através do estreito.

Segundo a agência noticiosa espanhola EuropaPress, pelo menos duas pessoas morreram e outras duas ficaram feridas neste ataque em Larak. A Guarda Revolucionária, numa declaração divulgada pela televisão estatal iraniana, referiu, por sua vez, “o martírio e ferimentos de vários combatentes e compatriotas”.

O Irão garantiu ainda que o ataque irá “resultar na punição do agressor”. E foi mesmo assim que a Guarda Revolucionária chamou ao ataque.

A guerra entre os Estados Unidos e o Irão completou na sexta-feira seis meses. Este ataque acontece poucos dias depois de Donald Trump ter anunciado que concentraria os esforços na pressão económica.

Médio Oriente      Mundo      Irão

domingo, 23 de agosto de 2026

O factor épico

 

De longa data transposto numa historicidade nem sempre de exactidão, na sua reprodução humana, mais chamariz da atenção alheia sobre aquele que relata do que na autenticidade dos factos - forma, talvez, de acentuar a qualidade expositiva do seu relator, como já as epopeias clássicas tão bem o manifestaram. Pese, embora, a fugacidade do relato oral actual, apesar das técnicas modernas de “armazenamento”  oficial.  Só, de resto, um analista de muito saber, como Miguel Tamen, se lembraria de fazer ironia sobre a transmissão das notícias mundanais – que, melhor ou pior, vão ilustrando os saberes dos ouvintes menos ilustrados pelas leituras dos jornais. É o meu caso. Por isso estou grata aos telejornais permissivos de uma aprendizagem visual e auditiva, no recosto do sofá, a mesa e a cadeira mais utilizadas aquando das palavras cruzadas e outras regalias de escrita propiciada pelos jornais.

O POEMA DA FORÇA

É a combinação de leviandade, violência, pompa e comentário que mantém o telejornal na tradição da épica grega.

MIGUEL TAMEN, Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

OBSERVADOR, 22 ago. 2026, 00:20

Hi, dad,’ observou Telémaco.  Para quem se sente culpado por não saber grego e não quer estar na bicha para os filmes de peplo, o telejornal é uma fonte  uma historicidade alternativa e barata de poesia épica. Como os grandes poemas de antigamente, é longo, heterogéneo e repetitivo; e como eles terá evoluído a partir da linguagem oral, ou pelo menos é recitado por rapsodos (como lhes chamavam na Grécia) que têm o cuidado de nos assegurar que o mundo se move pela força, a qual escraviza e arrasta as cabeças no ar em estado de fúria.

Algumas pessoas preferem outros tipos de ficção ao telejornal; mas esses tipos de ficção não conseguem dar uma ideia clara da Grécia arcaica:  do pitoresco das linguagens, do disparatado das opiniões, da noção de que tudo está relacionado, e sobretudo de que há uma força nas coisas.   Os espectáculos da ira dos heróis são encorajados; e não lhes são estranhas as principais emoções helénicas, em especial a imitação do sentimento da dignidade ofendida.  Os rapsodos que recitam o telejornal chamam quase sempre tragédia à épica; mas essa imprecisão terminológica não afecta a sua intenção mais profunda.

Ao telejornal não basta com efeito pôr em verso uma história fatal.  É necessário que o metro encantatório se possa prolongar durante muito tempo em muitas histórias desirmanadas; e depois que elas se repitam aos bocados e se repitam os seus melhores bocados em palavras soltas, de acordo com a vontade presumida do freguês.   Os telejornais são literatura oral sem questão homérica: a ninguém ocorreria vir a escrever mais tarde aquelas coisas.  São improvisados por pessoas dotadas de uma memória tão opulenta que as impede de pensar no que estão a dizer.

Há em cada noite o eco das proezas atléticas dos tempos antigos, quando os profissionais bem pagos eram capazes de recitar dezasseis mil versos em apneia, sem raciocinar uma única vez.   Os espectadores desses recitais estavam muito habituados às expressões que não queriam dizer nada, e não se importavam: sabiam que elas estavam lá para ajudar à memória e dar um ar da sua Grécia.  É por isso que entre as personagens épicas antigas tantos heróis tinham o pé leve, e que a aurora e as rosas tinham dedos.

Ao público do telejornal também não importam os rastos de destruição, a vizinha Espanha, ou a velhinha lei da gravidade: são auxiliares da memória que se esquecem depressa.   O que quer assegurar é que em qualquer noite lavrem os maiores incêndios desde a Antiguidade; que haja banquete; e que a seguir se represente a comédia do Ciclope Transatlântico, a quem a Europa das mil manhas engana sempre com sucesso (pensar que foi na península de Setúbal que nasceu o cavalo de Tróia!)  É essa combinação de leviandade, violência, pompa e comentário que mantém o telejornal na tradição da épica grega.

COMENTÁRIOS:

José B Dias: Muito bom!

Manuel Matos: Excelente!

Américo Silva: Esta crónica é de se lhe tirar o chapéu, aplaudo de pé.

Rosa Ribeiro: Crítica subtil ou humor apontado aos locutores e comentadores dos Telejornais? Os comentadores multiplicam-se como cogumelos.

Carlos Almeida: simplesmente delicioso .

sábado, 22 de agosto de 2026

CONTINUAÇÃO

 


Do Texto de JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO: "Esquerda e islamismo"

 em "MUNDO DA RAZÃO"


COMENTÁRIOS (Continuação)

PEDRO BELO: Não vejo qualquer problema com o caso que menciona nos últimos parágrafos. Chama-se a isso assumir as escolhas e aceitar as consequências. Houvesse mais hipócritas e fanáticos de esquerda a aceitar refugiados nas suas casas e a sua posição talvez se alterasse rapidamente. Como não o fazem, podem continuar a defender a sua ideologia de forma cega e os outros que sofram as consequências.

António Soares: Excelente crónica. Inestimável serviço público! Bem haja!

João Floriano: «O verdadeiro problema do Ocidente não é apenas a agitação, a violência e a intolerância dos que o querem destruir mas, sobretudo, a bovinidade colaborante com que alguns dos seus filhos, idiotas úteis dotados de ignorância e telemóvel, lhes abrem a porta, carregam as malas e ainda pedem desculpa por existirem.» Este parágrafo diz tudo.

Giovanni Licciardello: Caro José António. Magnífico texto. Uma síntese certeira sobre esquerda folclórica, como diz e Islão radical. Como sempre, temos de ter os dois olhos abertos e não somente o esquerdo (ou o direito).

António Alberto Barbosa Pinho: Triste realidade. E o desesperante é sentir que a luta é tenue contra este movimento contra civizacional em relação ao modo de vida democrático Ocidental. Mas não deixemos de lutar e o Sr. Coronel é um bom exemplo.

Ana Rita: Por que razão António José Seguro (na cerimónia do Prémio Norte-Sul) falou na crueldade de Israel em Gaza (ignorando o 7/10/23) e apontou o dedo a Israel pelos jornalistas mortos? “A resposta é menos misteriosa do que parece.”

miguel cardoso: Dando-lhe os parabéns por esta tão lúcida crónica, a pergunta que se me põe é como organizar e uma frente capaz de combater de forma eficaz todos os próceres islamo-esquerdistas perante uma massa ocidental que usufrui do extraordinário conforto e liberdade, mas se mostra incapaz de os defender. O combate ideológico que o Senhor Coronel tem levado é notável, mas sinto que não chega.

Maria Emília Ranhada Santos: Excelente! Tudo dito, preto no branco, mas, existe ainda mais uma coisinha que acho eu, faz toda a diferença:

é a malfadada comunicação social, que abriga todos estes delírios de loucura, aprovando-os e culpando o inocente!

E, para completar o quadro da destruição do Ocidente e da sua odiada, (ou invejada?) civilização, temos juízes iníquos nos nossos tribunais a julgarem as causas não com justiça, mas segundo a ideologia é de direita ou de esquerda!

Se for de direita, é considerada ocidental, está arrumada!

Se for de esquerda, mesmo que tenha cometido o maior crime, arranja-se sempre uma desculpa para que não existam obstáculos ao mal!

manuel menezes: Senhor Coronel, quero que saiba que tenho por si uma imensa admiração.

Os portugueses dividem-se em dois grandes grupos, os que pertencem à  NAÇÃO portuguesa, que partilham da sua História, dos seus valores e amam a sua Pátria e, um segundo grupo, que são de um sítio a que chamam PAÍS, que é somente uma localização geográfica.

Vasco R: Os esquerdolas são traidores de Portugal e dos portugueses e deverão ser perseguidos e presos . As leis terão de mudar e deverá ser instituída a prisão perpétua ou pena de morte para estes traidores. O Costa deveria ser o primeiro a ser preso e julgado .

Manuel Magalhaes: Grandes e realistas verdades Sr. Coronel, só não vê quem não quer e ao que parece o Ocidente não quer mesmo ver mas o problema é demasiado sério para continuarmos a ser idiotas (in)úteis!!!

Jose Santos: Quem desconhece a história vai acabar por repetir os seus erros. O exemplo do Irão é aquele que melhor exemplifica a aliança actual entre a esquerda woke e o fundamentalismo islâmico. Contra o regime monárquico do Xá, estavam os comunistas e os islâmicos. Após a queda do regime, rapidamente o Ayatollah eliminou os idiotas úteis que tiveram de se exilar ou se converter. Hoje estamos a ver o mesmo a acontecer perante uma passividade alarmante da sociedade ocidental.

Adelino Oliveira: Parabéns. A verdade dói, continue.

Francisco Almeida: Na listagem dos motivos do ódio ao capitalismo faltou uma que é a inveja. Inveja da prosperidade e da riqueza que, em vez de despertar o desejo de as alcançar, desperta o desejo de as destruir. Infelizmene, de forma moderada e não violenta, é também caraterística dos portugueses, uma das más.

Maria Correia: Gramsci e Deleuze. Há que destruir identidades e pátrias e este novo proletariado serve à medida. Espalha-se mesmo como tubérculos da lógica batata da sua bondade

Ricardo Pereira > Ana Rita: Porque ele é um 1mb3cil, eleito por idem

Antonio Sennfelt: "Islamistas e esquerdistas são mesmo companheiros de estrada?" Ora essa, claro que sim!! E companheiros de braço dado e de ocasional conúbio sempre que as circunstâncias lhes pareçam propícias! O seu insanável ódio ao Ocidente e a tudo o que de melhor que ele representa - liberdade de expressão, de ideologia e primado do Direito, incluindo os direitos humanitários  - constitui a argamassa que os une. Mas - atenção! - mal um parceiro dessa ignóbil união de facto consiga atingir o seu objectivo – i. é, o Poder total e absoluto! - logo o pretérito parceiro passa à categoria de inimigo a abater! Ou seja, estão bem um para o outro! 

David Pinheiro: O exemplo supremo foi a reacção ao atropelamento numa parada gay na Alemanha.

Maria Ramos: Excelente e elucidativo texto.

Victor Goncalves > Paradigmas Há Muitos!: Uma amiga minha Luso-Francesa  casou com um muçulmano marroquino. Enquanto estiveram em França, tudo bem, mas num determinado momento foram viver para Marrocos. Mal chegaram, a família dele logo começou a conspirar acerca dos modos de vestir, de se comportar, enfim, de respirar da ocidental. Começou logo a levar uns correctivos porque teimava em não perceber o óbvio: tinha caído na armadilha. E agora era difícil sair. Felizmente ela tinha uma boa situação financeira e contratou um advogado que a aconselhou a sair dessa situação, já que por várias vezes tinha tido a vida em perigo. Tudo isto se passa num ambiente de classe média alta. Conclusão: Islâmicos têm dificuldade em conviver com ocidentais, a sua cultura, as suas leis. Tirem-se as devidas conclusões

Fernando ce: Muito boa crónica.

Mundo da razão

 

Religiões, dogmatismos, racismos - específicos de um ser nem sempre  racional.

Esquerda e islamismo

Islamistas e esquerdistas são mesmo companheiros de estrada? Por que razão o deputado comunista Miguel Urbano Rodrigues escreveu que o Hamas e o Hezbollah eram movimentos revolucionários?

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 21 ago. 2026, 00:25

O 11 de Setembro de 2001 apanhou-me de férias numa praia, perto de Tavira. Havia sol, mar, tranquilidade e optimismo num mundo que eu julgava decente. Era um tempo ingénuo, levava-se para a praia a toalha e o protector solar, não um manual da jihad para perceber as notícias.

Recordo-me bem desse dia e das discussões que se seguiram. Até então, o Islão não estava sequer no meu horizonte de interesse ou preocupação. Mas nesse dia entrou pelos olhos dentro, com aviões civis transformados em mísseis, arranha-céus reduzidos a poeira e milhares de pessoas imoladas por causa de um argumento teológico apresentado de forma aterradora.

Surpreendeu-me que dezanove homens  “normais”  tivessem decidido suicidar-se para matar desconhecidos. Não por impulso, loucura, desespero, ganância ou ciúme, mas por convicção numa ideia. Ora quando uma ideia convence homens a derrubar os instintos de sobrevivência e os tabus éticos da civilização, para morrer e assassinar pessoas que nunca viram, convém investigá-la, em vez de chamar «contexto» ao fanatismo.

Comecei então a ler o Corão, hadiths, comentários, exegeses, estudos históricos, apologias, críticas e acusações inflamadas. Li autores de vários quadrantes, com diferentes simpatias, intenções opostas e graus variados de honestidade intelectual.

O resultado foi a pouco tranquilizadora impressão de que, nos seus fundamentos, enquanto projecto político, o Islão é muito mais do que uma religião no sentido ocidental. É doutrina de poder e visão totalitária  da sociedade. Pretende regular a lei, a moral, a família, a educação, a liberdade, a guerra e a submissão. Não se contenta em salvar almas, quer governar corpos, e colide com a civilização liberal por fundamental incompatibilidade, não por falhas de tradução.

Mas a descoberta mais perturbadora estava aqui mesmo, no Ocidente.

Sempre que se sinalizavam as características intolerantes do fundamentalismo islâmico e dos seus textos, acorriam logo em sua defesa sectores significativos da esquerda ocidental. Não toda, mas uma parte, ruidosa, cínica  e moralmente arrogante, surgia invariavelmente a explicar que tudo era complicado, que era preciso compreender, que o Ocidente, Israel, a América, o colonialismo, e o capitalismo tinham  culpas e, no limite, que era “bem feito”, que as coisas não surgiam no vácuo, e que as vítimas tinham tido o mau gosto de morrer no lugar errado à hora errada, sem consultarem as teoria pós-coloniais.

O espectáculo continua  a ser inacreditável. “Progressistas”, feministas, laicos, libertários e defensores de todos os direitos humanos, incluindo os inventados anteontem, revelam infinita compreensão por regimes, pessoas e doutrinas que subordinam a mulher, perseguem o apóstata e o “infiel”, enforcam o homossexual, odeiam o judeu, calam o dissidente e encaram a liberdade como decadência. É um enviesamento que exige tudo às democracias e nada aos carrascos, desde que estes insultem com boa dicção os americanos e judeus, e os matem com galhardia.

O mesmo estudante do CES/Universidade de Coimbra, da NOVA/FSCH, ou do ISCTE, que detecta fascismo num pronome, numa piada mal calibrada ou numa bacorada do Sr Ben Gvir,  descobre «resistência» no terrorismo puro e duro, e pitoresco cultural na intolerância teocrática.

A pergunta impõe-se: islamistas e esquerdistas são mesmo companheiros de estrada?

Por que razão o comunista francês Roger Garaudy, se converteu ao Islão?

Por que razão o deputado comunista Miguel Urbano Rodrigues, chefe de redacção do Avante, escreveu que o Hamas e o Hezbollah eram movimentos revolucionários  e “representantes de princípios universais”?

Por que razão o “socialismo bolivariano”  encontrou aliados naturais nos teocratas iranianos?

Por que razão Miguel Portas vindo do Partido Comunista para o Bloco de Esquerda, prestava homenagem a Hassan Nasrallah, chefe terrorista às ordens dos aiatolas?

Por que razão o poeta anarquista  Barahona da Fonseca, se converteu ao Islão e adoptou o nome de Muhammad Abdur Rashid?

Por que razão Nova Iorque elegeu Zohran Mamdani, um muçulmano antissemita, que se diz socialista?

A resposta é menos misteriosa do que parece. A esquerda folclórica e o Islão político encaram o Ocidente liberal como o inimigo comum.

Uns odeiam-no por ser capitalista, imperialista, burguês, americano e opressor. Outros por ser decadente, infiel, permissivo, de influência judaico-cristã, secular e livre. Ambos olham para a civilização liberal, com as suas imperfeições, parlamentos, jornais, mulheres livres, minorias protegidas, liberdade de expressão, tribunais independentes e o irritante hábito de permitir que os seus inimigos a insultem, como uma monstruosidade a destruir. Não têm o mesmo destino final, mas viajam alegremente na mesma flotilha.

Esta aliança é a peça central da crise do nosso tempo. Não porque todos os muçulmanos sejam islamistas ou toda a esquerda seja cúmplice da barbárie, mas porque uma parte da esquerda decidiu que o ódio ao Ocidente e à sua própria pertença, é mais importante do que a liberdade. Quando a ocasião se propicia, a máscara cai e fica exposta a preferência real, não pelos fracos, oprimidos, mulheres ou minorias, mas por qualquer força, incluindo terroristas e genocidas, que lhe pareça capaz de atacar a civilização ocidental.

O verdadeiro problema do Ocidente não é apenas a agitação, a violência e a intolerância dos que o querem destruir mas, sobretudo, a bovinidade colaborante com que alguns dos seus filhos, idiotas úteis dotados de ignorância e telemóvel, lhes abrem a porta, carregam as malas e ainda pedem desculpa por existirem.

O caso de Jamey Carney, ocorrido no mês passado, oferece uma imagem  tristemente ilustrativa.

A americana conheceu Ahmad Al-Saqar, jordano e “refugiado”, numa manifestação “pró-palestiniana”  na Irlanda, o país mais antissemita da Europa (a par da Espanha), e levou-o para casa. Carney foi assassinada em casa e  Ahmad fugiu para a Jordânia.

Este caso não demonstra uma teoria sobre milhões de pessoas, obviamente. Mas é o que é:

-Uma activista “antissionista” ( vocábulo que hoje se usa para dizer o indizível),  de esquerda, abriu a sua porta a um islamista que conheceu na “causa” emblemática da amálgama do nosso tempo. A realidade respondeu da forma mais brutal, sem consultar o manifesto ideológico, como vem acontecendo sistematicamente na Europa, cujos cidadãos são atacados à bomba, a tiro e à facada por fundamentalistas islâmicos, acolhidos por razões humanitárias. Os companheiros de estrada sobreviventes, encolherão os ombros, procurarão o contexto, culparão a civilização que lhes dá o chão, e  talvez acabem, como de costume, a fustigarem-se a si mesmos, em penitência por serem ocidentais.

ISLÃO       RELIGIÃO       SOCIEDADE

COMENTÁRIOS:

graça Dias: O subtítulo questiona:" Islamistas e esquerdistas são mesmo companheiros de estrada? "

 Eu direi que, esta Nova Esquerda Woke em cumplicidades múltiplas com o islamismo simboliza uma nova ordem mundial brutal ,calculada e programada em padrões industriais, em que esta gente é dotada de uma "escolástica fanática" --  " Ódio e maldade ", que nos remete a outras épocas sombrias da historia. Eis a verdade sobre os inimigos que o Ocidente enfrenta hoje, tanto internos quanto externos. Eles são movidos por uma sede demoníaca ( uso esta palavra intencionalmente e literalmente ) pelo caos , um ódio pela ordem civilizacional, pela beleza e pela verdade.

O objectivo:

a)  destruição desenfreada e jubilosa da única civilização verdadeira que o mundo já conheceu;

b) miséria e morte em massa; e uma paisagem de pesadelo, de terror e tormenta, que poderá rivalizar com qualquer visão infernal de Hieronymus Bosch.

Ao Senhor Coronel JAC o meu obrigada pelo excelente artigo.

Eduardo Lourenço: Excelente crónica.  Parabéns.

João Mauricio Abreu Dos Santos: Mais um excelente  artigo da sua parte  Senhor Coronel,assertivo muito actual e expõe um dos grandes perigos da nossa civilização ocidental. Obrigado e um grande bem-haja.

Maximino Moreno: Excelente artigo.

Uiros Ueramos: Artigo de elevadíssimo nível, sobretudo porque expõe, uma das mais grotescas contradições da esquerda ocidental, a sua disponibilidade para romantizar o islão que representa a negação frontal de todos os valores de esquerda que proclama defender. Acrescentaria apenas um capítulo a esta anatomia da incoerência, o de uma parte significativa do ambientalismo político contemporâneo. Numerosas organizações que nasceram para defender ecossistemas, biodiversidade ou qualidade ambiental foram progressivamente convertendo a causa ecológica numa plataforma ideológica muito mais vasta, onde o combate à poluição foi sendo substituído pelo combate ao capitalismo, à indústria, à propriedade privada, ao crescimento económico e, não raras vezes, ao próprio modelo civilizacional ocidental. É precisamente nesse ponto que certas franjas do ambientalismo radical, da esquerda revolucionária e do islamismo político acabam por se encontrar numa curiosa convergência de hostilidades. Porque identificam no modo de vida ocidental e no capitalismo, um inimigo comum.É uma aliança de conveniência intelectualmente paradoxal: movimentos que proclamam defender mulheres, minorias sexuais, liberdade individual e secularismo marcham, literalmente, ao lado de islamitas que rejeitam esses mesmos princípios. Talvez seja essa a grande ironia do nosso tempo, uma parte do Ocidente tornou-se tão sofisticado na crítica à sua própria civilização que acabou incapaz de distinguir entre corrigir os seus defeitos e colaborar intelectualmente com aqueles que desejam suprimi-la.

(CONTINUA)

 

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Invejazinhas


De trazer por casa. O heroísmo, como sinónimo de lealdade. Hoje. Ontem era mais uma demonstração corpo a corpo, ou espada contra espada. Mas a lealdade perante o poder torna-se mais visível e apreciada, e certamente carinhosamente retribuída e vivida, como demonstra Trump, hoje. Cá na casa portuguesa o Amor domina, puro e fresco, segundo o exemplo de Gonzaga,  à sua Marília bela, que não resisto a reviver, graças a uma Internet providencial, impeditiva do nosso erguer da cadeira em busca do livro próprio para a escrita morosa.

Quem é Natalie Harp? Reacção acesa da Casa Branca a comentário de senador democrata coloca assessora de Trump sob escrutínio

Comentário de senador atirou assessora discreta para os holofotes e motivou insultos da Casa Branca ao democrata e aos jornalistas. Natalie Harp é considerada uma das pessoas "mais leais" a Trump.

MADALENA MOREIRA: Texto

OBSERVADOR, ,19 ago. 2026, 18:36

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Harp credita Trump por ter salvado a sua vida depois de ter sido diagnosticada com um cancro nos ossos

Ele não quer trabalhar. Ele quer construir o seu salão de baile e viajar com a Natalie no seu palácio voador presenteado pelo emir do Qatar”. A frase do senador democrata Jon Ossof, durante um comício da sua campanha de reeleição no passado domingo, poderia ter passado despercebida na longa lista de críticas e acusações deixadas pelos candidatos democratas a Donald Trump. Mas a menção a “Natalie” — um nome pouco conhecido na entourage do Presidente — valeu uma resposta acesa da Casa Branca.

Natalie é Natalie Harp, de 35 anos, uma das assistentes executivas do Presidente norte-americano. Apesar do cargo discreto que ocupa, Harp ter-se-á tornado um dos membros mais indispensáveis da equipa de Trump. A sua entrada no “mundo MAGA” fez-se em 2018, quando, depois de ter sido diagnosticada com um cancro nos ossos, criticou os cuidados de saúde do seu “estado controlado pelos democratas” — a Califórnia — e promoveu a recandidatura de Trump à Casa Branca por este representar o “Partido dos Cuidados de Saúde”. Em 2020, Harp tornou-se apresentadora no canal de direita conservadora One America News Network (OANN) e, em 2022, chegou à equipa de Trump.

Os primeiros relatos noticiosos sobre Harp descrevem-na como “uma impressora humana“, cujo trabalho é apresentar a Trump diariamente recortes de notícias elogiosas e, mais recentemente, colabora na redação das publicações de Donald Trump na Truth Social. Harp insiste em responder apenas perante Trump e também faz a ligação entre congressistas e dirigentes republicanos e a Casa Branca. O comentário de Ossof visa directamente o facto de Harp ter sido um dos poucos membros da administração que seguiu com o Presidente num avião militar depois da descoberta do alegado plano iraniano para matar Trump durante a sua deslocação à Turquia no mês passado.

A admiração por Trump — que credita por ter salvado a sua vida durante o diagnóstico de cancro — traduz-se em cartas que terá enviado ao Presidente, citadas pelo New York Times. “Eu quero que as coisas estejam bem entre nós. Eu sei que tenho estado distraída esta semana (esqueço-me de comer, até de dormir e só durmo umas horas de cada vez)”, lê-se na carta enviada ainda antes de Trump ter regressado à Casa Branca e que termina com: “Com todo o meu amor, Natalie“.

Mas todas estas informações sobre Natalie Harp não inundaram as redes sociais e a comunicação social imediatamente depois do comentário de Ossof. A primeira reacção surgiu na página do director de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung.John Jackoff [trocadilho insultuoso com o nome do senador] deve ser o maior falhado e corno da política. Em vez de denegrir as pessoas trabalhadoras que servem o seu país, o Jon devia olhar bem para dentro da sua alma e perguntar-se por que razão é uma pessoa miserável que odeia este país”, criticou numa publicação.

O escrutínio intensificou-se depois da reacção da Casa Branca a questões da imprensa sobre o tema. Na segunda-feira, questionado na Sala Oval pela jornalista da CNN Kristen Holmes sobre as declarações de Ossocf, Donald Trump recusou responder, repetindo apenas: “Está calada“. Não é a primeira vez que Trump ataca uma das jornalistas destacadas na Casa Branca, mas fontes oficiais da presidência partiram imediatamente ao ataque. “Kristen Holmes é uma vergonha humilhante para a sua suposta profissão (…) Estes canalhas são o pior do pior”, “Um dia, os teus filhos vão ver esta pergunta nojenta e desumana. Eles vão ficar enojados e envergonhados por terem uma mãe tão insensível e vingativa”, pode ler-se em duas publicações de uma das contas oficiais da Casa Branca na rede social X.

À imprensa, os porta-vozes da Casa Branca caracterizaram Harp como “uma das mais leais e trabalhadoras assessoras na equipa do Presidente Trump”. “Ninguém quer saber do que esse falhado insignificante tem para dizer”, afirmou o porta-voz Davis Ingle, utilizando a expressão em inglês “nobody gives a shit“.

A reacção agressiva de Trump e da sua equipa é justificada por uma fonte próxima da administração ao The Telegraph com o facto de tanto o Presidente como a primeira-dama não gostarem de rumores sobre a sua vida privada. Outras fontes ouvidas pela CNN acusam Ossof de ter utilizado um nome desconhecido dos eleitores para fazer insinuações sobre o Presidente na entrada para a corrida das intercalares. E sublinham: Trump e Harp têm uma relação de “pai e filha”, marcada pela lealdade extrema da assessora ao Presidente.

 

Eis a história singela dos amores de Gonzaga, nada a ver com a de Trump, naturalmente, mas que agrada reviver, graças à nossa estrela igualmente singela:

Tomás António Gonzaga

                       LIRA I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

Que viva de guardar alheio gado;

De tosco trato, d’expressões grosseiro,

Dos frios gelos, e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal, e nele assisto;

Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

Das brancas ovelhinhas tiro o leite,

E mais as finas lãs, de que me visto.

    Graças, Marília bela,

          Graças à minha Estrela!

 

Eu vi o meu semblante numa fonte,

Dos anos inda não está cortado:

Os pastores, que habitam este monte,

Com tal destreza toco a sanfoninha,

Que inveja até me tem o próprio Alceste:

Ao som dela concerto a voz celeste;

Nem canto letra, que não seja minha,

    Graças, Marília bela,

          Graças à minha Estrela!

 

Mas tendo tantos dotes da ventura,

Só apreço lhes dou, gentil Pastora,

Depois que teu afecto me segura,

Que queres do que tenho ser senhora.

É bom, minha Marília, é bom ser dono

De um rebanho, que cubra monte, e prado;

Porém, gentil Pastora, o teu agrado

Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.

    Graças, Marília bela,

          Graças à minha Estrela!

 

Os teus olhos espalham luz divina,

A quem a luz do Sol em vão se atreve:

Papoula, ou rosa delicada, e fina,

Te cobre as faces, que são cor de neve.

Os teus cabelos são uns fios d’ouro;

Teu lindo corpo bálsamos vapora.

Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,

Para glória de Amor igual tesouro.

    Graças, Marília bela,

          Graças à minha Estrela!

 

Leve-me a sementeira muito embora

O rio sobre os campos levantado:

Acabe, acabe a peste matadora,

Sem deixar uma rês, o nédio gado.

Já destes bens, Marília, não preciso:

Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;

Para viver feliz, Marília, basta

Que os olhos movas, e me dês um riso.

    Graças, Marília bela,

          Graças à minha Estrela!

 

Irás a divertir-te na floresta,

Sustentada, Marília, no meu braço;

Ali descansarei a quente sesta,

Dormindo um leve sono em teu regaço:

Enquanto a luta jogam os Pastores,

E emparelhados correm nas campinas,

Toucarei teus cabelos de boninas,

Nos troncos gravarei os teus louvores.

    Graças, Marília bela,

          Graças à minha Estrela!

 

Depois de nos ferir a mão da morte,

Ou seja neste monte, ou noutra serra,

Nossos corpos terão, terão a sorte

De consumir os dois a mesma terra.

Na campa, rodeada de ciprestes,

Lerão estas palavras os Pastores:

“Quem quiser ser feliz nos seus amores,

Siga os exemplos, que nos deram estes.”

    Graças, Marília bela,

          Graças à minha Estrela!

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Acontece

 

Os requintes universitários produzem, por vezes, requintes de autopromoção enviesada. Mas não são só os universitários, julgo.

Jason Arday e a crise da Universidade

A Universidade transformou-se num sistema no qual muitos processos de avaliação, e financiamento são capturados por grupos associados a agendas ideológicas radicais.

ANDRÉ AZEVEDO ALVES,  Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

OBSERVADOR, 19 ago. 2026, 00:25

O trágico final de Jason Arday – com o jovem professor catedrático a ser encontrado morto em sua casa em Londres poucos dias depois de se ter demitido da sua posição em Cambridge – não deve impedir a reflexão séria sobre o caso. Aliás, parte do respeito que é devido a Jason Arday como pessoa inclui não lhe negar retrospectivamente a possibilidade de agência pela sua conduta passada, reduzindo-a a uma vítima totalmente manipulada por um ou outro lado do sistema. Com base no que foi revelado desde que o caso começou, parece impossível negar que Arday foi, até ser denunciado e alvo de escrutínio, um charlatão extraordinariamente persuasivo e bem sucedido. Além dos múltiplos fortes indícios de fraude no plano académico, Arday acumulou várias histórias que deveriam ter suscitado suspeitas muito antes: desde correr 30 maratonas em 35 dias até sucessivas alegações de perseguição pessoal não confirmadas (o insuspeito Guardian disponibiliza aqui um bom resumo dessas histórias).

Não é, claro, incompatível que Arday pudesse ter muitas qualidades pessoais – em especial no plano comunicacional e de relacionamento interpessoal – e, simultaneamente, ser um mentiroso patológico e um fantasista. São aliás características que muitas vezes convivem no mesmo perfil psicológico e a natureza humana, como convém nunca esquecer, é complexa e muitas vezes retorcida (ou não fosse o pecado original uma condição universal comum a todos nós). O que é mais notável no caso não é Jason Arday em si mesmo, mas como foi possível chegar onde chegou sem que a charlatanice fosse detectada antes. É essa a questão mais importante e sobre a qual importa reflectir.

Esta é uma questão que pode, naturalmente, ter vários ângulos possíveis de análise. Um primeiro, entre nós bem apontado e resumido por Mário Amorim Lopes, foca-se em especificidades nacionais que associa ao declínio moral do Reino Unido:

“Na verdade, o caso Arday é apenas o sintoma do longo e lento declínio moral do Reino Unido. A polícia foi uma dessas instituições severamente afectadas por esta crise moral. Quando um jornalista do Times Higher Education começou a investigar a fraude e enviou perguntas a Arday, a Metropolitan Police passou quatro meses a investigar o caso – não o de fraude académica, mas a investigação jornalística de Jack Grove. Encerrado o caso, a polícia ainda ligou ao jornalista a recomendar-lhe que não voltasse a incomodar o professor. A polícia britânica transformada em secretariado emocional.”

Tanto a perseguição institucional e até policial a quem tentou escrutinar Jason Arday como a inaceitável forma como a Universidade de Cambridge inicialmente defendeu cegamente Arday e só depois, sob crescente pressão externa, anunciou abrir uma investigação que acabou por desencadear a demissão de Arday podem certamente ser vistos como sintoma dos problemas do Reino Unido. Mas prefiro aqui focar-me numa outra dimensão de análise, centrada em problemas que estão longe de ser exclusivos do Reino Unido mas afectam (pelo menos) todo o contexto universitário ocidental.

Por muito que os processos de recrutamento, promoção, avaliação científica e escrutínio académico em geral tenham falhas e limitações (e têm certamente), é difícil acreditar que Jason Arday pudesse ter sido o mais jovem negro a atingir a posição de professor catedrático em Cambridge se o seu posicionamento e a sua própria narrativa pessoal não encaixassem perfeitamente nos enviesamentos dominantes nas ciências sociais e nas humanidades – nomeadamente o progressismo e o wokismo.

As ideias têm consequências e os enviesamentos sistemáticos – nomeadamente nos meios académicos e (supostamente) científicos – têm causas que remontam precisamente à predominância esmagadora de ideologias de esquerda (e frequentemente de extrema-esquerda) e da agenda woke no sistema universitário, com particular intensidade e gravidade nas ciências sociais e nas humanidades. A este respeito, e recorrendo uma vez mais a uma fonte insuspeita, vale a pena ler o (longo) ensaio “Why I Quit the Tenure Track: The insufferable hypocrisy of elite academia”, de Tyler Austin Harper. No texto, o autor – um jovem académico negro com impecáveis credenciais progressistas – descreve a sua gradual desilusão com a degradação de padrões académicos e científicos que as motivações de engenharia social provocaram na instituição de elite para a qual foi contratado, assim como a hipocrisia reinante (neste caso no Bates College, no Maine). O ensaio merece ser lido na íntegra mas a passagem na qual Harper descreve a sua experiência num júri de recrutamento é particularmente elucidativa:

“Even more upsetting, my experience on that committee changed how I viewed other newly hired minorities on campus. I sometimes found myself reflexively wondering whether Bates’s professors of color were up to the job, or whether they were underqualified fodder for the school’s social-engineering regime. I could not unlearn what I had discovered: that more than a few people at this elite little college seemed happy not just to move the goalposts for people like me, but to take them down entirely. (…) How many other Charlottes had already been hired at Bates? And how common was this kind of thing at other colleges around the country? It seemed highly unlikely that I had landed at the only school in America so hell-bent on getting minorities through the door that it would make a mockery of academic standards if need be.”

Não creio que os problemas em causa estejam fundamentalmente (ou sequer principalmente) relacionados com práticas de discriminação racial (dita) “positiva”. Antes, eles inserem-se numa estrutura de enviesamento ideológico sistemático, através do qual a Universidade e o sistema científico se tornam ilhas de radicalismo financiadas por uma sociedade que não reflectem mas que ambicionam desesperadamente revolucionar. É esse enviesamento sistemático que possibilita casos como o de Jason Arday, que pode ser extremo pelo exagero mas infelizmente não constitui um desvio face às práticas vigentes e dominantes, em especial nas ciências sociais e humanidades.

Longe de serem um exclusivo do Reino Unido ou dos EUA, estes enviesamentos prevalecem em boa parte das Universidades e dos sistemas científicos ocidentais, inquinando e distorcendo de forma sistemática grande parte dos processos de avaliação, selecção e promoção. O resultado final, como acontece de forma flagrante também em Portugal e na UE, é um sistema no qual muitos processos de avaliação, acreditação e financiamento são capturados por grupos associados a agendas ideológicas radicais, por vezes associados sectorialmente a interesses rentistas instalados.

Concursos de recrutamento e promoção, avaliações institucionais, concursos para projecto e bolsas, entre outros, todos são inquinados por esses enviesamentos sistemáticos gerando um sistema estruturalmente disfuncional e capturado e uma situação de difícil resolução, em especial nas ciências sociais e nas humanidades.

Como lidar com esta gravíssima crise da Universidade é uma questão complexa e difícil. Se nada se fizer, a é a própria Universidade que arrisca a descredibilização total e, a prazo, a irrelevância. Por outro lado, programas de activismo de sinal contrário para tentar contrariar a hegemonia progressista dominante – como na Hungria de Orbán – levantam eles próprios preocupações e reservas. Numa perspectiva de reforma séria e consciente mas tentando evitar a ruptura, há iniciativas interessantes na Florida, como a Hamilton School for Classical and Civic Education da University of Florida (que contratou recentemente o português Nuno Palma) ou o Adam Smith Center for Economic Freedom da Florida International University (disclaimer: com o qual colaboro como investigador num projecto internacional em curso), mas é discutível que constituam uma abordagem suficientemente robusta face à gravidade e enraizamento dos enviesamentos que contaminam o sistema. O futuro da Universidade no contexto ocidental depende da capacidade que tenhamos para lidar com esta crise, em especial nas ciências sociais e nas humanidades. Possíveis caminhos a seguir serão tema para futuras reflexões.

UNIVERSIDADES       EDUCAÇÃO

COMENTÁRIOS (de 9)

Isabel Gomes: Nāo consigo perceber como é que as instituições britânicas que primavam pelo rigor, venderam a alma ao diabo, perdão wokismo.

Santos: Universidades, centros de investigação, associações de tudo (sem-abrigos, LGBTI+, da pobreza, disto e daquilo), que só promovem a sua agenda e querem financiamento público! Nas artes é tudo cultura de esquerda, etc. Mas nem mesmo o PS2 tem coragem de acabar com isto!

Eduardo Lourenço: Nós também cá temos os nossos Jason Arday. Na  classe política parecem cogumelos depois de um dia chuvoso.

 

CONCLUSÃO DO TEXTO ANTERIOR

 

«Estamos a censurar o sucesso de Montenegro?»

COMENTÁRIOS

Liberal do Costume É impressão minha, ou esta dama garrida nunca virava realmente o dente ao Poucochinho como o faz aqui a Montenegro?

A FJ: Primeiro, os jornalistas merecem ser questionados. Alguma vez havia este escrutínio se o governo fosse de esquerda? Sabemos todos que não. Segundo, queriam que o homem resolvesse em 2 anos problemas acumulados da governação socialista? Sabemos todos as consequências do acordo com o BE, estamos ainda a pagá-las. E até podemos ir mais para trás. Terceiro, acho muito bem que o governo, este ou qq outro, não determine a sua agenda pela pressão da comunicação social, mas sim pela sua leitura das prioridades. Por fim, alguém questiona que estejam efectivamente a ser feitas mudanças? Querem a prova? É só ver a indignação e a pressão que vai na comunicação social, precisamente. "Quando começas a ser atacado é porque estás no caminho certo". Eu nem sou fã do homem, mas aqui ele tem razão. Julgaremos no final, e não na espuma dos dias. Aliás, assim o mostram as tão faladas sondagens, todas dizem que os portugueses não querem eleições, seja quem for que ponham à frente. Até porque, o que seria a nossa alternativa? A não ser que alguém ainda acredite no pai natal, diria que estaríamos no regresso ao passado ou no domínio da banha da cobra. Não obrigado. Adiante.

Jorge Barbosa: Excelente artigo

Fernando ce: Concordo, e votei AD. E tem de fazer leis mais duras anti-imigração, pois não tarda temos 3 milhões de imigrantes indostânicos e sub-saharianos. E não vêm trabalhar na construção civil, dedicam-se a actividades de comércio , sendo certo que as mulheres não trabalham. Por este andar vai ser bonito, vai. A pressão sobre os serviços públicos é notória, com grávidas dos Palops a virem ter os filhos a Portugal. E ainda por cima dão “palpites” sobre trabalho do Governo no SNS. Nos transportes públicos metade são imigrantes. Idem em muitas escolas do ensino básico. E há dias no Continente do Colombo, uma mulher com a cara tapada com uma máscara, proibida em Portugal.

Miguel Siqueira: Tem toda a razão, Luís Montenegro. A comunicação social, Observador incluído, só sabe ir buscar o negativo, o que corre menos bem ou mal. São raras as notícias positivas. Acresce que o país está como está não por culpa de Montenegro, mas por culpa de 30 anos de socialismo, começado com Guterres (para não falar dos anos de Mário Soares). Montenegro está no poder há pouco tempo. Deixem-no trabalhar, está a fazer muito com a maioria relativa que tem.

Jorge Tavares: Eu também tenho uns casos de ovelhas de que falar. Estou longe de ser o único a apontar as ovelhas fiscais que se seguem ao presente parágrafo. Basta percorrer os artigos de opinião no Observador das últimas semanas e encontram vários. Os impostos continuam em máximos históricos. Os governos do atual PM não estão a fazer nada para os reduzir, ou à despesa estatal que pressiona para que sejam cada vez mais altos (uma possível excepção são algumas medidas do ministro Fernando Alexandre). O IRS continua a ter um número inconcebível de escalões - nove! Um IRS assim não é só contra o desenvolvimento económico. É contra o mérito. Constitui uma autêntica política de baixos salários. Empurra a juventude mais habilitada para a emigração. O IRC continua a ser progressivo, contra toda a racionalidade económica (começou com António Costa). A generalidade dos economistas concorda que a progressividade aplicada a empresas não faz sentido. Quanto mais bem-sucedida é uma empresa, mais castigada ela é pelo seu sucesso. A criação de mais e melhores empregos - um dos principais factores no aumento da prosperidade - é assim penalizada. Mais uma medida contra o desenvolvimento económico e contra o mérito. O "adicional ao IMI" da Mariana Mortágua continua em vigor, com tudo o que de simbólico tem da hostilidade à propriedade privada. Tinha sido instaurado para as "grandes fortunas". Hoje já abrange mais de 100 mil famílias. Mais uma medida de progressividade em mais um imposto que devia ser proporcional, mas flat. Esta fiscalidade e hostilidade são um dos factores que explicam a actual crise da habitação. Há vários outros factores, mas este governo só está a lidar com uma minoria  - que tanto quanto eu saiba,  não inclui os licenciamentos urbanos e a falta de trabalhadores.

O imposto sobre capitais (e.g., sobre os juros de contas a prazo) continua a ser de 28% - outra brutalidade fiscal que não muda desde 1 de janeiro de 2013. É sabido que as poupanças contribuem de maneira decisiva sobre a capitalização de uma economia. Este nível de tributação penaliza-a.

Em Portugal, muito impostos são progressivos, quando apenas o IRS o devia ser e com moderação (3 ou 4 escalões).  Quase só faltava tornarem o imposto sobre capitais progressivo também.

Fernando ce > A FJ: E mais de metade dos comentadores,  na TV, são de esquerda. E até os jornalistas que moderam os debates que  deviam ser isentos, tomam o partido da esquerda.  Um debate a dois temos dois contra um, sendo este último da área da AD.

Maria Emília Ranhada Santos: Tudo verdade! Excelente artigo!  É isso mesmo, Montenegro é um servo de quem quer destruir Portugal, a NOM. Montenegro cumpre à risca os objectivos demoníacos da agenda 2030 e depois faz estas declarações bizarras, também elas inscritas na mesma agenda! Aconselho vivamente a leitura deste perverso documento que nos estão a impingir como uma coisa muito boa, quando na realidade ela só serve a satanás

AdOB > Liberal do Costume: Para quem acusa/critica PPC da queda do BES está muito exigente com as críticas dos outros! Porque não critica LM como critica PPC?

José B Dias: Basta ver as reacções dos incondicionais da cor política para ter a confirmação de que a cronista conseguiu pôr o dedo na ferida ...

Oscar gomes: A Dra Helena Garrido tem que mudar os óculos. Além de ter uma grande miopia da visão politica e social,  vê tudo em tons cor-de-ROSA além de "misturar alhos com bugalhos". Os casos que enumera e que são reais  e  acontecem porque o dinheiro que deveria ser investido na viatura em falta vai ser para cobrir os 160 milhões que a aliança CH-PS fez desaparecer dos cofres do Estado ao abolir as portagens e abolir o princípio do utilizador-pagador,  i. é, pagamos todos os que só alguns usam além. Esta aliança é patente em muitas outras coligações CG-PS que apostam nos gastos orçamentais que fazem com que as contas do Governo sejam alteradas e desviadas para gastos populistas para capitalizarem votos. Relativamente aos roubos e outras situações sem justiça ou justiça tardia e sem consequências e situações análogas a culpa é de TODA   a AR. Não vê ou não quer ver que o que se passou na Educação foi um incidente funcional do ME boicotado por toda a esquerda na Educação incluindo muitos professores. Bastava ver na TV o deleite do Sr Filinto Lima, director de agrupamentos escolares ao falar dos problemas da correcção dos exames. Não vê ou não quer ver que o Estado chinês já ganhou e continua a ganhar milhões que vão enriquecer os chineses e os cidadãos chineses, mas rejeita que o Estado português faça o mesmo (??!!) e que o investimento na REN EDP e outras são um óptimo investimento e uma segurança para o país tal como por ex a CGD ?  Relativamente à produtividade gostaria que a cronista nos explicasse como é que o Estado pode interferir na produtividade de empresas privadas...

David Pinheiro: Bons números na economia? O nosso maior parceiro económico cresce muito mais que nós. E nem conseguimos acompanhá-lo, apesar de sermos mais pobres. Nem sequer conseguimos aproximar-nos da média da UE, apesar de sermos pobres e como tal nos ser mais fácil crescer. Já nem falo nos fundos europeus, que sistematicamente falham em cumprir o seu objectivo da convergência.  E a pouca convergência que conseguimos é mais por culpa da Alemanha que está em pré-falência do que pelo nosso próprio mérito.  Nem conseguimos a convergência com um bloco que está em pré- morte.

Observador . “Um país em colapso” Esta gente saberá o que é um país em colapso? Isto parece terminologia chegana. Perdeu-se a noção do ridículo e do verdadeiro significado das palavras. É tudo hipérboles.  Os dois exemplos que deu então são do mais ridículo e populista que tenho ouvido recentemente. Será que a Helena está a sucumbir ao cheganismo? Julgo que não, mas que parece, parece.

AdOB > Rosa Ribeiro:  Espera-se de um PM que não tenha estados de alma, não ande a fazer choradinhos na TV e a pedir aos jornalistas para fazer propaganda grátis. Tem mulher, filhos e amigos. O colinho é aí.

DP: Eu não sei se LM tem ou não razão nas críticas que faz à CS, possivelmente até nem terá; mas há uma coisa que sei, que todos sabem e temos a certeza: sempre que algum político faz uma crítica à CS é mais que garantida uma reacção corporativa ao estilo "ai, ai, estão a atacar aqueles que têm por missão escrutinar o poder político, não pode ser!", esquecendo que em democracia NINGUÉM, absolutamente ninguém, está acima da crítica; e que ninguém, absolutamente ninguém é intocável! Mas a malta da CS parece, "por algum dom divino", sentir-se intocável e acima de qualquer juízo feito por terceiros!! Julgam-se assim uma espécie de "vacas sagradas" das democracias!! Ora em democracia não é assim: em democracia TODOS  sem excepção estão sujeitos a crítica, incluindo a CS. E se existe sector que merece duras críticas é precisamente a CS que há vários anos a esta parte parece dedicar-se mais ao espectáculo e ao drama para estimular audiências e o clikbait* (que é o que os patrões lhes mandam fazer) do que à missão de informar e esclarecer de forma ISENTA, que é para isso que estão licenciados e lhes foram atribuídas as respectivas carteiras profissionais! *tudo isto e fazer o chamado jornalismo de trincheira como forma de propaganda das convicções políticas e ideológicas pessoais de jornalistas e cronistas, muitas vezes recorrendo aos métodos mais baixos de desinformação, como se vai vendo por ai com alguma gente em variadíssimos meios de CS da nossa praça!

Paulo Botica: de facto, os dois primeiros casos, só agora surgem, antes não era assim. É esta imparcialidade que se critica.

 

Coragem

 

Coragem

É do que se precisa, quando se adopta um cargo público, como esse de governar, tantos somos os que saberíamos fazê-lo melhor!

Estamos a censurar o sucesso de Montenegro?

O primeiro-ministro mostrou-se desapontado com o retrato que se dá do país e escolheu os grandes números da economia para mostrar que tudo vai bem. Esqueceu-se do resto.

HELENA GARRIDO Colunista

OBSERVADOR, 18 ago. 2026, 00:25

António, nome fictício, tinha umas 20 ovelhas que cuidava nos intervalos do seu emprego.  Um dia, chega lá, e restavam três. Tinham sido roubadas. Viu as marcas dos pneus pelo terreno. Ali perto, um armazém tinha videovigilância e as imagens foram-lhe entregues. Foi à polícia fazer queixa, entregou as imagens em que se via claramente um grupo de homens, numa carrinha, a roubarem as ovelhas. A polícia disse que conhecia os ladrões, sabia onde moravam e até identificou o condutor dizendo que nem carta tinha. Imaginaríamos nós, pouco versados nos meandros da justiça, que a polícia iria ao local e rapidamente se deslocaria ao sítio onde sabia que moravam os ladrões. Pois não é assim. Foi dito a quem foi roubado que nada podia fazer, tinha de esperar pelo juiz. E que nem valia a pena ir ao local. Naturalmente revoltado, António correu o risco de ser ele o preso, por dizer que a polícia só se preocupava com multas.

Maria e Luísa, nomes fictícios, são enfermeiras de um centro de saúde. Acompanham uma população envelhecida em domicílios, que conseguem fazer duas vezes por semana à tarde. Porque não fazem mais? Porque há apenas um carro para vários centros de saúde e a equipa tem de estar sistematicamente a batalhar para ter acesso à viatura. Como todos nós, também sabem que proliferam “carros de trabalho” por essa administração pública fora, para directores, administradores ou apenas vogais.

Não são histórias inventadas. São experiências vividas por essas pessoas que, sim, têm emprego, poderão até ter tido um bom aumento do seu poder de compra, nestes anos em que Luís Montenegro é primeiro-ministro. Mas aquilo que vêem do seu ponto de observação é um país em colapso, onde parece que se pode roubar sem castigo e onde a hierarquia de valores e prioridades dá sinais de estar virada do avesso.

Corremos com isto o risco de validar a mensagem do primeiro-ministro nos 50 anos da festa do Pontal. Estamos focados em coisas que “correm menos bem” em vez de nos concentrarmos no que, nas suas palavras, “corre muito bem”. O primeiro-ministro esquece-se de alguns ensinamentos das experiências ligadas à economia da felicidade: o ser humano é avesso à perda, valoriza mais o que perde do que o que ganha.

O que corre muito bem, segundo o primeiro-ministro e que genericamente os números que apresentou confirmam? O emprego está em máximos históricos, a inflação está controlada, as contas públicas estão basicamente equilibradas e a dívida pública a descer, o IRS desceu por quatro vezes e foi criado o IRS Jovem, o salário mínimo e médio estão a subir assim como tem aumentado o poder de compra, o Complemento Solidário para Idosos aumentou, há medicamentos gratuitos para os beneficiários do CSI e a economia pertence ao grupo das que mais cresce no conjunto do Euro.

Tudo o que o primeiro-ministro disse no Algarve é factualmente verdade. Mas foram números escolhidos a dedo. Luís Montenegro até podia ter ido mais longe, dizendo que a economia portuguesa resistiu bem às tempestades e à guerra com o Irão. Mas o Governo sabe que esses números, que têm pessoas atrás, não contam toda a realidade económica e financeira do país

Sim, a economia está a crescer, mas estará a produtividade? Nem isso sabemos com rigor, uma vez que estamos à espera de números do PIB e do emprego consistentes com o aumento da população. Aparentemente estamos a crescer por aumento da quantidade de trabalho injectada na economia – tal como acontece em Espanha – e não por aquilo que é mais saudável, por via da subida da produtividade.

Temos depois as contas públicas. Sim, mantêm-se controladas. Mas já olhamos para o detalhe para perceber que esse equilíbrio se deve ao excedente da Segurança Social que, por sua vez, se deve ao nível histórico do emprego?  Temos de estar preocupados com o perfil do crescimento e do equilíbrio orçamental. O mais pequeno abalo no emprego pode transformar este sucesso em pó.

Depois há as escolhas políticas, que podem ser muito importantes do ponto de vista eleitoral, mas são discutíveis quanto à sua eficácia, numa lógica de custo benefício. Há dois casos especialmente importantes. Um é o IRS Jovem que custa mais de mil milhões de euros, foi criticado por instituições como o FMI e que tem uma eficácia altamente duvidosa – que, diga-se, não parece suscitar qualquer curiosidade quanto ao seu efeito. Quantos jovens optaram por ficar em Portugal por causa do IRS Jovem?  Depois temos o caso das medidas na habitação para jovens. Sabendo bem que correlação não é causalidade, parece evidente que uma das consequências dessa medida foi aquecer ainda mais o mercado imobiliário, ou seja, fazer subir mais os preços.

A compra de 13,7% da REN ao dono da Zara é outra opção discutível e muito difícil de perceber. A REN é altamente regulada, a sua estratégia de investimento assim como os seus preços dependem já de decisões do Estado, entre eles o regulador. Ou seja, em termos gerais, a REN ganha aquilo que o Estado a deixa ganhar. Quanto mais é que o Estado vai mandar com uma posição minoritária na REN? E vai mandar para fazer o quê que não pudesse já neste momento concretizar? E assim se terão gastado, de acordo com as cotações de sexta-feira passada, dia 14 de agosto, 325 milhões de euros. Um dos argumentos do primeiro-ministro, no Pontal, é que o Estado pede emprestado a uma taxa mais baixa do que aquela que vai garantir com o rendimento da participação na REN. Ou seja, o Governo apresenta como uma vantagem o facto de fazer arbitragem financeira com crédito – financiando com dívida, que tem encargos fixos, um activo com resultados variáveis. Foi assim que faliram alguns accionista do BCP e outros, pequenos, enfrentaram dificuldades, e foi com tácticas destas que a PT acabou como acabou.

Finalmente temos tudo aquilo que o primeiro-ministro não disse e que aí pode estar a causa das sondagens lhe estarem a ser menos favoráveis. E o que não disse? Não nos falou da Saúde. Não nos falou do que foi o problema dos exames este ano. E não nos falou do estado em que está a administração da justiça, embora o pudesse fazer mostrando que está a tomar medidas, nomeadamente no domínio da justiça administrativa. Não nos falou de segurança, depois de um grave e inédito caso como o que aconteceu na baixa de Lisboa, com uma turista atingida por uma bala perdida.

Um dos erros dos governos é atirarem-se aos mensageiros, neste caso aos jornalistas. Jornalismo pode não ser o que muitas vezes vemos acontecer hoje, mas não é relatar o que corre bem, porque isso é o que é suposto acontecer. Quem tem a ilusão que é através dos jornais, das rádios e das televisões que conhece a realidade está enganado. Jornalismo é expor o que em estatística se chamam os “outliers” ou, como é comum dizer, a notícia é o homem morder o cão e não o contrário.

Percebe-se que o primeiro-ministro esteja irritado com os casos que o perseguiram nesta entrada para o Verão, um deles relacionado com as reformas que está a fazer – na Educação – mas o outro, o do ministro da Administração Interna, reúne condições para lhe continuar a dar dores de cabeça. Luís Neves mostrou que considera que os fins justificam os meios, o que, com as investigações em curso, pode revelar muito mais da actuação da PJ do que o Governo gostaria.

Em dois anos o Governo ainda não devia estar na fase de se queixar de ser incompreendido e de os seus sucessos estarem a ser supostamente censurados. Luís Montenegro quis convencer-nos que vamos ter, com ele, uma década de sucesso como foi a de Cavaco Silva (interessante que José Luís Carneiro também foi ao passado para ir buscar, não Costa, mas Guterres). Mas todo o discurso no Pontal foi marcado por queixumes de incompreensão que, já vimos muitas vezes, acontecem em final de ciclo.

Em vez de se queixar e opinar sobre aquilo que acha que deviam ser as notícias e os comentários, Luís Montenegro e a sua equipa faziam melhor em tentar compreender porque é que todo este descontentamento acontece e se reflecte na comunicação social, apesar dos bons números da economia. E aquilo que aconteceu às ovelhas de António, aquilo com que batalham as enfermeiras do centro de saúde, assim como tudo o que temos visto nos últimos tempos de colapso no funcionamento do Estado podem ser boas pistas para reflectir. Em vez de se queixar.