De M.J.A.
I
O país ainda não se esqueceu dos governos do PS
Apesar dos erros do
executivo crescerem em quantidade e des-sabedoria política, há, sobrepondo-se a
tudo, o peso da memória: os governos do PS foram há tempo de menos para ter
sido como se nada fosse
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 29 jul. 2026, 00:25
1Os socialistas partirão para férias
assim? Certos de que… lá vai?
Foi há tempo de menos para ter sido como se nada
fosse: não se esquecem do pé para a mão os estragos da
passagem socialista por S. Bento com tão terríveis marcas deixadas no caminho.
Abrevio: das cativações feitas na senda de brilho próprio e glória
pessoal externa – desdotando gravemente sectores como a Saúde – até ao “esquecimento”
da habitação;
da admirável leveza no lidar com a emigração ao encerramento do SEF (desculpem,
para isto não encontrei adjectivo) e suas gravosas “declarações de interesses”;
do monstro da Efacec até outras Efacec, muito terá um dia a história para
contar, limitei-me a brevíssimo registo espicaçada pela perplexidade:
Eles acreditam mesmo que voltaram à tona da simpatia
eleitoral?
Sim: não é disto que se fala
nem é isto que está a abastecer o “hoje” mediático, mas o “lembrete” impõe-se: mais
vale lembrar que remediar. E há muitíssimo para lembrar.
2Será que eles sabem que nós sabemos que eles não
sabem ver-se ao seu espelho político? Que o país pouco reteve da governação PS
por nunca haver legados sem resultados?
Será que sabem que nós sabemos
que eles não sabem que nesta altura do campeonato partidário e em véspera de
férias, as sondagens – exibidas como troféus – podem sinalizar mas nada
consolidam e ainda menos certificam?
3Mais perplexidades: que “acha” José Luís Carneiro – embaraçoso
líder para a travessia do deserto socialista – que o país pensa ao vê-lo
disfarçar durante dias o caso Luís Neves enquanto o ouviu massacrar monocordicamente e
desde o início o
caso Fernando Alexandre? Nada?
Destruir todos os dias e
também monocordicamente o edifício governamental da AD tem pouca
correspondência com a realidade dos factos. Apesar da colecção de
erros do actual executivo crescer em quantidade e des-sabedoria política –
e a media disso se encarregar com a devoção do costume – há o inapagável peso da memória: os
três governos do PS foram há tempo de menos para ter sido como se nada fosse.
Na história da política há
estragos irreparáveis. La Palisse não diria melhor, mas saberá o PS porque é que La
Palisse não diria melhor?
4Em resumo: não é pela media, as bolhas, as
redes e tutti quanti estarem hoje exclusivamente ocupadas com as agruras da AD
que o PS deixou de ter feito o que fez na governação. Ou que consegue
apagar-nos da mente a devastação de anteontem. Os erros políticos de uns,
grandes ou pequenos, e sejam de que natureza for, não ilibam automaticamente
erros precedentes.
A memória não deixa.
(Mesmo suscitando-me a
maior curiosidade política e algum espanto a razão de ser do leque de erros,
desatenções, más escolhas e timings desaconselháveis de um político
experimentado como Luís Montenegro. Um assunto a seguir absolutamente.)
5Escrevendo na minha segunda morada, algures entre
Óbidos e Caldas, deixo um acrescento em “casa” e “causa” próprias, lembrando a SIPO-Semana Internacional de Piano de
Óbidos (este ano, é verdade, foi uma vez até Lisboa e fez bem).
A SIPO é antes do mais
uma aliança feliz a música e os músicos, o campo e o ar, os pianistas e os
alunos das master
classes oficiadas pelas estrelas nacionais e internacionais
convidadas para se sentarem ao piano. Há sempre porém um pouco de surpresa: o
eco mediático embora obviamente existindo, fica abaixo do prazer da música num
lugar destes. E fica certamente aquém do mérito de dotar uma parcela mesmo que
pequena do país, mesmo que por alguns dias, de tudo o que a SIPO e a pianista Manuela Gouveia, sua directora,
ali representam e promovem.
II
Morreu João Marques Pinto, primeiro
presidente da Fundação de Serralves