sábado, 1 de agosto de 2026

VARIA

 

De M.J.A.

I

O país ainda não se esqueceu dos governos do PS

Apesar dos erros do executivo crescerem em quantidade e des-sabedoria política, há, sobrepondo-se a tudo, o peso da memória: os governos do PS foram há tempo de menos para ter sido como se nada fosse

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 29 jul. 2026, 00:25

1Os socialistas partirão para férias assim? Certos de que… lá vai?

Foi há tempo de menos para ter sido como se nada fosse: não se esquecem do pé para a mão os estragos da passagem socialista por S. Bento com tão terríveis marcas deixadas no caminho. Abrevio: das cativações feitas na senda de brilho próprio e glória pessoal externa – desdotando gravemente sectores como a Saúde – até ao “esquecimento” da habitação; da admirável leveza no lidar com a emigração ao encerramento do SEF (desculpem, para isto não encontrei adjectivo) e suas gravosas “declarações de interesses”; do monstro da Efacec até outras Efacec, muito terá um dia a história para contar, limitei-me a brevíssimo registo espicaçada pela perplexidade:

Eles acreditam mesmo que voltaram à tona da simpatia eleitoral?

Sim: não é disto que se fala nem é isto que está a abastecer o “hoje” mediático, mas o “lembrete” impõe-se: mais vale lembrar que remediar. E há muitíssimo para lembrar.

2Será que eles sabem que nós sabemos que eles não sabem ver-se ao seu espelho político? Que o país pouco reteve da governação PS por nunca haver legados sem resultados?

Será que sabem que nós sabemos que eles não sabem que nesta altura do campeonato partidário e em véspera de férias, as sondagens – exibidas como troféus – podem sinalizar mas nada consolidam e ainda menos certificam?

3Mais perplexidades: que “acha” José Luís Carneiroembaraçoso líder para a travessia do deserto socialista – que o país pensa ao vê-lo disfarçar durante dias o caso Luís Neves enquanto o ouviu massacrar monocordicamente e desde o início o caso Fernando Alexandre? Nada?

Destruir todos os dias e também monocordicamente o edifício governamental da AD tem pouca correspondência com a realidade dos factos. Apesar da colecção de erros do actual executivo crescer em quantidade e des-sabedoria política e a media disso se encarregar com a devoção do costumehá o inapagável peso da memória: os três governos do PS foram há tempo de menos para ter sido como se nada fosse.

Na história da política há estragos irreparáveis. La Palisse não diria melhor, mas saberá o PS porque é que La Palisse não diria melhor?

4Em resumo: não é pela media, as bolhas, as redes e tutti quanti estarem hoje exclusivamente ocupadas com as agruras da AD que o PS deixou de ter feito o que fez na governação. Ou que consegue apagar-nos da mente a devastação de anteontem. Os erros políticos de uns, grandes ou pequenos, e sejam de que natureza for, não ilibam automaticamente erros precedentes.

A memória não deixa.

(Mesmo suscitando-me a maior curiosidade política e algum espanto a razão de ser do leque de erros, desatenções, más escolhas e timings desaconselháveis de um político experimentado como Luís Montenegro. Um assunto a seguir absolutamente.)

5Escrevendo na minha segunda morada, algures entre Óbidos e Caldas, deixo um acrescento em “casa” e “causa” próprias, lembrando a SIPO-Semana Internacional de Piano de Óbidos (este ano, é verdade, foi uma vez até Lisboa e fez bem).

A SIPO é antes do mais uma aliança feliz a música e os músicos, o campo e o ar, os pianistas e os alunos das master classes oficiadas pelas estrelas nacionais e internacionais convidadas para se sentarem ao piano. Há sempre porém um pouco de surpresa: o eco mediático embora obviamente existindo, fica abaixo do prazer da música num lugar destes. E fica certamente aquém do mérito de dotar uma parcela mesmo que pequena do país, mesmo que por alguns dias, de tudo o que a SIPO e a pianista Manuela Gouveia, sua directora, ali representam e promovem.

II

Morreu João Marques Pinto, primeiro presidente da Fundação de Serralves