… Uma pessoa,
simplesmente - de lei.
Proximidade
Ter trazido hoje, com
desenvoltura e gosto, as vicissitudes de um mercado de fruta numa cidade
secundária, trar-me-á desvantagem face à soberania da actualidade: - então e
Ceuta? e Sánchez? e o Irão?
MARIA JOÃO AVILLEZ - Jornalista,
colunista do Observador
OBSERVADOR, 05 ago. 2026,
00:25
As mais
lidas
Óculos gratuitos para observar eclipse disponíveis
Bilhete de lotaria de um milhão recuperado do lixo
Crítico de Israel, El-Sayed vence primárias no
Michigan
Russas casam com militares para receberem
indemnizações
Detido da operação em Sines morre enforcado na prisão
da PJ
As cores de Leonor e Sofía em Marivent
1Quando me vi face a uma plateia de caldenses, sentada
entre as forças vivas da cidade para moderar um debate sobre a icónica Praça
das Caldas, louvei intimamente a iniciativa: com o mundo em guerras e a
incerteza como destino ter a oportunidade de “in loco” voltar a confirmar o
valor e a importância da “proximidade”, foi-me muito grato.
Cada uma daquelas pessoas trazia uma opinião de casa,
propunha soluções, queria ouvir a dos outros. A Praça dizia-lhes respeito, era
“deles”: sugestões, alternativas, ambições, perspectivas, quotidianos e até
sustentos, passaram por ali no desenrolar da conversa no palco e a seguir, na
plateia.
2A
Praça da Fruta é um dos ex-libris das Caldas da Rainha, porventura o mais
conhecido de tão presente, popular, participado, perene.
Como escreveu Carlos Querido – um dos debatentes naquela
tarde solarenga de Julho – no seu livro justamente chamado “A Praça das Caldas”, “se
recuarmos 100 anos, hoje de manhã, lá estaria a Praça a fervilhar com o mesmo
ritmo e as mesmas regras, só que com outros actores. Na verdade a Praça é como
um palco, um cenário onde só os protagonistas mudam.”
Sim: o resto permanece. Com
idade e vitalidade. E como a “proximidade” promove, interpela, convence (e
desperta o civismo), a Praça foi de novo tema nas Caldas da Rainha: ciclicamente alguém se “lembra” que
os vendedores e produtores não podem estar a céu aberto, sob a inclemência de
chuvas e frio. Fazer o quê então? A “Gazeta das Caldas” – outro ícone! – que este
ano celebra os seus também eles extraordinários cento e um anos, decidiu
dar voz à cidade, pondo em mãos e em marcha um grande e muito profissional
inquérito sobre a Praça. Coordenado por José Luís Almeida,
ouviu-se tudo e todos, e as conclusões quase espantam pelo triunfo do bom
senso: um) a
Praça é um marco e nunca poderá sair “dali”; dois) há que proteger os vendedores das
intempéries; três) a proteção não pode interferir com a identidade e a
especificidade do lugar.
Mais convidativamente razoável é difícil.
Agora será com os poderes
locais. A começar pelo autarca Vítor Marques – independente, em segundo mandato e
presente no debate a que aludi e a acabar em interessados e, se possível,
responsáveis. Mas hoje todos eles, já com o utilíssimo “instrumento” do
inquérito da Gazeta na sua posse.
3Se
me posso meter onde sou chamada, acendo um sinal vermelho: atenção:
possibilidade de equívoco fatal.
Ou seja, em circunstância
alguma – por razões históricas, culturais, de identidade e respeito à memória –
se deverá confundir ou amalgamar a Praça da Fruta com a Praça da República.
Talvez que a principal joia da
coroa desta questão resida nisto mesmo: de manhã, na Praça da República
vende-se fruta, legumes, flores, frutos secos, queijos. Mas à
tarde tudo se aquieta e o que emerge do burburinho alegre da manhã é a geometria harmónica da Praça da
República, o seu empedrado lindíssimo, as suas proporções, o seu desenho.
Que a eventualidade de uma protecção mais “humana” aos vendedores não deite a
perder – desfigurando-a por completo, cruel assassinato – a história e a
dignidade da Praça da República. (O que inevitavelmente aconteceria, por
exemplo, se se optasse por uma cobertura fixa… Por favor, não!)
4Ainda a “proximidade”, ainda a “Gazeta”, símbolo vivo
da (insubstituível) oportunidade que representa uma imprensa regional. Mensageira
(única?) e (único?) traço de união entre um lugar e quem o habita. Levando
notícia, acontecimento, histórias, levando o palpitar da vida em cada uma das
12 freguesias do concelho das Caldas. Ouço falar de algumas dificuldades
sofridas pela Gazeta (tão bem pensada e dirigida pela minha colega Fátima
Ferreira). Só tenho uma palavra a dizer: não deixem morrer a Gazeta. Por favor não deixem!
Não perceber que há elos que não podem ser cortados nem
iniciativas deixadas para trás é não perceber – insisto – o formidável valor da
política de “proximidade” (quem me dera).
5Claro que ter trazido para aqui, com desenvoltura e
gosto ainda para mais, as vicissitudes de um mercado de fruta numa cidade
secundária, ou de um órgão de comunicação regional, me colocará em evidente
desvantagem face à soberania da actualidade: então e Ceuta e Sánchez e o Irão,
e as imoralidades de Trump, e Luís Neves? E, e, e.
Não: hoje viva a proximidade! E o
encanto que é – por exemplo – tratar algumas pessoas pelo nome próprio por
estas bandas; ser amiga como sou do adorável casal que me guarda um toldo na
Lagoa; pedir tudo e mais alguma coisa a António “Venda” da nossa freguesia;
poder elogiar de viva voz o Tiago, director do (óptimo) coro do Santuário do
Senhor da Pedra em Óbidos. E, e, e.
Um
privilégio, digo-lhes eu, isto de ser devota da proximidade.
PS. Boas férias!
Receba um alerta sempre que Maria João Avillez publique
um novo artigo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário