De longa data transposto numa
historicidade nem sempre de exactidão, na sua reprodução humana, mais chamariz
da atenção alheia sobre aquele que relata do que na autenticidade dos factos - forma,
talvez, de acentuar a qualidade expositiva do seu relator, como já as epopeias
clássicas tão bem o manifestaram. Pese, embora, a fugacidade do relato oral
actual, apesar das técnicas modernas de “armazenamento” oficial. Só, de resto, um analista de muito saber, como
Miguel Tamen, se lembraria de fazer ironia sobre a transmissão das notícias
mundanais – que, melhor ou pior, vão ilustrando os saberes dos ouvintes menos
ilustrados pelas leituras dos jornais. É o meu caso. Por isso estou grata aos
telejornais permissivos de uma aprendizagem visual e auditiva, no recosto do
sofá, a mesa e a cadeira mais utilizadas aquando das palavras cruzadas e outras
regalias de escrita propiciada pelos jornais.
O POEMA
DA FORÇA
É a combinação de leviandade, violência, pompa e
comentário que mantém o telejornal na tradição da épica grega.
MIGUEL TAMEN, Colunista do Observador, Professor (e
director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa
OBSERVADOR, 22 ago. 2026, 00:20
Hi, dad,’ observou
Telémaco. Para quem se sente culpado por
não saber grego e não quer estar na bicha para os filmes de peplo, o telejornal é uma fonte uma historicidade alternativa e barata de
poesia épica. Como os grandes poemas de antigamente, é longo,
heterogéneo e repetitivo; e como eles terá evoluído a partir da linguagem oral,
ou pelo menos é recitado por rapsodos (como lhes chamavam na Grécia) que têm o
cuidado de nos assegurar que o mundo se move pela força, a qual escraviza e
arrasta as cabeças no ar em estado de fúria.
Algumas pessoas preferem
outros tipos de ficção ao telejornal; mas esses tipos de ficção não conseguem
dar uma ideia clara da Grécia arcaica:
do pitoresco
das linguagens, do disparatado das opiniões, da noção de que tudo está
relacionado, e sobretudo de que há uma força nas coisas. Os espectáculos da ira dos heróis são
encorajados; e não lhes são estranhas as principais emoções helénicas, em
especial a imitação do sentimento da dignidade ofendida. Os rapsodos que recitam o telejornal
chamam quase sempre tragédia à épica; mas essa imprecisão terminológica não
afecta a sua intenção mais profunda.
Ao telejornal não basta com efeito pôr em verso uma história
fatal. É necessário que o
metro encantatório se possa prolongar durante muito tempo em muitas histórias
desirmanadas; e depois que elas se repitam aos bocados e se repitam os seus
melhores bocados em palavras soltas, de acordo com a vontade presumida do
freguês. Os telejornais são
literatura oral sem questão homérica: a ninguém ocorreria vir a escrever mais
tarde aquelas coisas. São improvisados
por pessoas dotadas de uma memória tão opulenta que as impede de pensar no que estão
a dizer.
Há em cada noite o eco das
proezas atléticas dos tempos antigos, quando os profissionais bem pagos eram
capazes de recitar dezasseis mil versos em apneia, sem raciocinar uma única vez. Os espectadores desses recitais estavam muito habituados às
expressões que não queriam dizer nada, e não se importavam: sabiam que elas
estavam lá para ajudar à memória e dar um ar da sua Grécia. É por isso que entre as personagens
épicas antigas tantos heróis tinham o pé leve, e que a aurora e as rosas tinham
dedos.
Ao público do telejornal
também não importam os rastos de destruição, a vizinha Espanha, ou a velhinha
lei da gravidade: são auxiliares da memória que se esquecem depressa. O que quer assegurar é que em qualquer
noite lavrem os maiores incêndios desde a Antiguidade; que haja banquete; e que
a seguir se represente a comédia do Ciclope Transatlântico, a quem a Europa das
mil manhas engana sempre com sucesso (pensar que foi na península de Setúbal
que nasceu o cavalo de Tróia!) É essa combinação de leviandade,
violência, pompa e comentário que mantém o telejornal na tradição da épica
grega.
COMENTÁRIOS:
José B Dias: Muito bom!
Manuel Matos: Excelente!
Américo Silva: Esta crónica é de se lhe
tirar o chapéu, aplaudo de pé.
Rosa Ribeiro: Crítica subtil ou humor
apontado aos locutores e comentadores dos Telejornais? Os comentadores
multiplicam-se como cogumelos.
Carlos Almeida: simplesmente delicioso
.
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